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domingo, 8 de abril de 2012

Um é dois, faço três por sete




Enquanto eu observava os pacotinhos com couve picada bem miudinha, o senhorzinho se aproximou, sorridente, antecipando-se à minha pergunta: “Cada um custa dois reais”. Peguei um pacotinho, meio distraída, olhando o verde escuro das folhas cortadas. Ele prosseguiu: “Um é dois, faço três por sete”. Sem lhe notar a intenção, respondi, ainda distanciada: “Eu vou levar só um, mesmo”. Ele insistiu: “Mas eu faço três por sete!”, e riu-se, um riso debochado. Só então me dei conta da brincadeira proposta. Ri-me também. “Eu tenho que levar alguma vantagem, ué!”, ele completou. Paguei pelo pacotinho, e levei de gorjeta o riso solto do senhorzinho vendedor de couve picada.

O bom dia começava ali.



sexta-feira, 2 de março de 2012

Lobo solitário



Para Seu Waltercílio,
e seus animais de estimação.


Estava atrasada. Seguia, esbaforida, no meu carro cor prata - dessas cores neutras com que a indústria pinta a maior parte dos carros, cor noturna, sem vivacidade... Avistei o lobo solitário a alguma distância, com seu veículo vermelho vivo, estacionado ao lado de uma plantação de sorgo. Os alto-falantes emitiam boleros antigos, cujos acordes dissipavam-se no azul intenso do céu, e no sol calorento do final da manhã. Passei por ele, me encantei com a cena. Quase ia me distanciando, deixando-o para trás, quando decidi voltar. Pensei em fotografar o veículo, conhecer seu proprietário. No retorno, pedi licença para fazer as fotos. Seu Waltercílio animou-se com meu interesse, e se aproximou, conversando. Era de estatura média, elegante. Contou da preocupação com sua cadela que, atropelada por um carro, quebrou uma perna. Foi encaminhada à Faculdade de Veterinária da UFG, onde queriam lhe fazer uma amputação. Mostrou-me as radiografias da perna quebrada, e a fotografia do animalzinho. Ele discordava da conduta dos veterinários, e decidira ir buscá-la, para cuidar dela em casa: colocaria uma tala, lhe daria arnica, e com certeza se recuperaria.

Na carroça, outra cadela, a Daiane, observava seu movimento; e a égua aguardava pacientemente. Ele contou que a cadelinha acidentada o ajudou a adquirir a carroça, companheira em seu trabalho de catador de papel. E enfatizou a gratidão pelo animal.

Despedi-me dele, que ficou me advertindo para ter muito cuidado na travessia da rua, pois os carros passam correndo muito - quase sempre mais apressados do que eu ia, antes de retornar para conversar com ele. Retomei meu caminho, e ele seguiu, calmamente, compondo o contraste do vermelho de sua carroça com o verde do sorgo muito alto e o azul do céu. A música seguia, em ritmo de bolero.

Um lobo, nem tão solitário: em boa companhia de seus animais de estimação, companheiros de trabalho.





terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Outra face do galã



Corriam os anos 80. Naqueles tempos, eu participava de grupos experimentais de dança, teatro, desenho, pintura, entre tantos. Para isso, não esperávamos por editais de financiamento – eles nem existiam. Éramos movidos pelo desejo de jogar com os elementos das linguagens, com as inquietações, na ventura de encontrar possibilidades de expressão. Nem sempre o resultado satisfazia, ou constituía alguma coisa mais relevante. Mas os processos eram extremamente interessantes, e aprendia-se muito. Aprendia-se quase tudo, desde as negociações coletivas, ética do trabalho em grupo, produção e viabilização prática de formulações estéticas, construção de metáforas que dessem conta das tensões político-sociais daqueles tempos, trânsitos, poéticas.

Num desses grupos, eu o conheci. Era jovem, acabara de concluir a graduação, e logo foi aprovado num concurso para ser professor na universidade. Miúdo, pele clara, cabelo esvoaçante, provocava suspiros entre as meninas por onde passava. Foi convidado a integrar um pequeno grupo experimental que havíamos montado com a intenção de montar cenas e performances breves para fazer inserções/intervenções em espaços diversos. 

Trabalhávamos nos sábados pela manhã. Mas o grupo não teve vida muito longa, sequer chegamos a fechar alguma cena. Tínhamos muitas ideias, mas não conseguimos dar-lhes forma cênica, corporificá-las. Do processo, ficou a amizade, e algumas imagens provocadas pelos projetos não realizados.

Algum tempo depois de terminado o grupo, o reencontrei na festa de um casal de amigos em comum. Ele, professor na universidade, gracioso. As meninas, na festa, fazendo uso das artimanhas de que dispunham para se aproximarem dele. O sábado quente foi a deixa para se beber muita cerveja, em alguns casos misturada a caipirinha. Eu me encharquei em suco de uva. No final da tarde, quando decidi vir embora, ele me pediu carona. Para as concorrentes, aquele foi um sinal de escolha por parte dele, ainda que eu não estivesse na disputa.

Embarcados no meu fusca amarelo limão, perguntei-lhe onde queria que eu o deixasse. Que fôssemos até minha casa, de lá ele seguiria, me disse. Subiu até meu apartamento, para beber água. Quando voltei da cozinha, estava mal acomodado nas almofadas, sobre o colchonete, a um canto da sala. Dormia profundamente. E roncava, como roncava!

Diverti-me imaginando a expectativa das meninas, ante a cena que tinha à minha frente.

No dia seguinte, acordou descomposto, com dores pelo corpo. Foi a última vez que o vi.

Recentemente, soube que ele integra a equipe de mentores e produtores de um filme documentário cuja temática é de meu interesse. Quando li a notícia, foi inevitável lembrar o episódio. Procurei mais informações sobre seu percurso, o que tem feito. Continua na universidade, responde por cargo de relativa visibilidade. Ao contrário de muitos dos professores que iniciaram suas carreiras àquela época e acabaram por não fazer mestrado, menos ainda doutorado, ele investiu em sua formação acadêmica. Mas parece não ter tomado gosto pela pesquisa científica mais sistemática: não integra nenhum grupo de pesquisa, sua produção tem natureza mais prática, de conhecimento aplicado.

É possível, mesmo, que hoje ande contando os anos e os dias que faltam para se aposentar...

Roncará, ainda, quando dorme?


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

aquela que tem nome de flor



Ela tem nome de flor. Depois dos filhos criados, os netos nascidos, chegou a pensar que poderia dedicar mais tempo a passear com o marido, mais velho e cada vez mais dependente dos cuidados dela. Mas um dia descobriu um caroço num dos seios. A biópsia não deixou dúvidas, e começou a longa peregrinação terapêutica para os casos de câncer.

Logo na primeira série de sessões de quimioterapia, o braço inchou, e tanto, que foi preciso enfaixá-lo para conter a expansão. O líquido retido exudava, então, pelos poros. Nas pausas entre as séries, o braço mostrava pequenos sinais de melhora. Mas logo se inchava novamente, retomada a quimioterapia. Como passaram a alternar os braços, os dois ganharam as faixas, uma espécie de nova pele contentora, da qual já não conseguia libertar-se.

Algum tempo depois, foram detectados novos nódulos no cérebro. As sessões de quimioterapia começaram a ser alternadas com sessões de radioterapia. Uma primeira bateria diária. Pausa. Nova bateria. A pele se ressentindo. O cabelo caído, substituído por um chapéu. O corpo franzino da que tem nome de flor ficou ainda mais franzino, foi perdendo o brilho, o viço foi lhe vazando pelos poros. Mas não perdeu o ânimo para prosseguir, cumprindo cada etapa do proposto para recuperar a integridade de sua saúde.

O marido, cada vez mais queixoso, não aceita os cuidados de outra pessoa. Por isso, além de tudo, àquela que tem nome de flor ainda cabe as tarefas de lhe preparar as refeições, acompanhar as atividades do dia, ajudá-lo na higiene. Os filhos já não sabem como preservá-la, protegê-la em percurso tão difícil. O filho mais velho divide-se entre acompanhá-la, atender às lamúrias do pai, cuidar de seus filhos e mulher, trabalhar.

Há coisa de um mês, foram descobertos alguns novos caroços no outro seio, e vários nos dois braços, próximos à axila. Ela estremeceu. O filho suspirou fundo. Colheram material que foi enviado para a biópsia. O médico sugere que sejam extirpados os dois seios, e feita uma espécie de raspagem nos dois braços. Em conversa com minha irmã, o filho mais velho disse que, caso se confirme o prognóstico, está pensando em interromper o tratamento. Quer poupá-la de tanto sofrimento. Acha, mesmo, que vai propor a ela viajarem juntos, de férias, como não fazem desde que ele era criança.

No último domingo, no fim da tarde, chegando em casa minha irmã encontrou um vazo florido deixado de presente para ela. Entre os botões em flor, um bilhete, cuja mensagem dizia mais ou menos o seguinte: “Querida amiga, passamos aqui para lhe dar um abraço, e dizer o quanto sua amizade é importante para nós. Na próxima semana, eu e minha mãe seguiremos para Natal. Vamos passar um tempo na praia. Papai fica aos cuidados do meu irmão mais novo. Um abraço. Filho Mais Velho daquela que Tem Nome de Flor”.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

As panelinhas da minha avó



A casa de minha avó materna ficava no mesmo quintal da casa de um dos filhos. Assim, ele podia ter-lhe atenção no que fosse preciso, ao mesmo tempo em que ela tinha seu espaço preservado, para conduzir as coisas ao jeito dela.

Ela sempre recebia mais visitas do que o filho. Na sala, netos, filhos, sobrinhos, afilhados, vizinhos entretiam-se em animadas conversas. Uns iam a cavalo, outros de bicicleta, bem poucos de carro. Havia os que passavam só para pedir a benção, outros iam para fazer um serviço, ou pedir alguma coisa, levar recado, trazer notícias. Alguns ficavam um pouco mais, tomavam chimarrão, esticavam a prosa até a hora do almoço.

Miúda, ligeira, os cabelos grisalhos presos numa trança eram enovelados num coque fixado por um grampo na parte alta da cabeça. Na cozinha, picava um punhadinho de charque, lavava um punhadinho de arroz, pegava uns pedaços de carne de porco guardados numa vasilha com banha, descascava uma raiz de mandioca pequena que logo lavava na bacia, deixando esbranquiçada a água. O punhado de arroz, refogado com o charque, era preparado numa panelinha de ferro, a mandioca ferventada noutra, o feijão já estava cozido desde cedo. A carne de porco era refogada numa frigideira. Só para esquentar, pois já era guardada pronta, imersa na banha.

Eu recontava, na sala, o número de pessoas que iriam ficar para o almoço. Olhava as panelas e tinha certeza de que a comida seria pouca.

Fia, me ajuda a pôr a mesa? Enquanto isso, ia até a horta, pegava um pezinho de alface, separava as folhas, e ia lavando, enquanto conversava com as mulheres que a acompanhavam.

Eu estendia a toalha sobre a mesa, dispunha os pratos brancos esmaltados, um a um, com os respectivos talheres. Na hora do almoço, ela punha o feijão numa travessa também esmaltada (algumas tinham uma estampa discreta com flor já meio desbotada), o arroz com charque na outra, as mandiocas macias numa terceira, e num prato redondo vinham as folhas de alface. A carne de porco era acomodada numa tigela de vidro de cor fumê. Às vezes, preparava uma limonada fresca, feita com limão caipira, bem vermelho, colhido na hora.

Todos se sentavam. Sem interromper a conversa, iam se servindo. Gente que trabalha no campo capricha na hora de fazer seu prato. Eu observava, enquanto a comida se multiplicava, como num milagre, ali, diante dos meus olhos. Todos ficavam saciados, nunca faltava. Também, nunca sobrava. Numa dessas vezes, minha mãe, às escondidas, acrescentou um punhado de arroz ao que ela já havia separado para ser preparado. Foi exatamente a quantia que sobrou, ao final do almoço. Para espanto da minha avó. Por que será que eu errei a quantia hoje?

Na sobremesa, todos tomavam leite no prato fundo. Leite cru, com espuma, acompanhado por banana picada em rodelas, ou por pedaços da mandioca cozida. À vezes, tinha angu de milho, docinho, para mistura. Ao gosto de cada um.

Depois cada qual seguia, cuidar da vida. Sua benção, Dinha Véia! Até mais ver, D. Ernestina! Deus te abençoe! Um abraço prá comadre! Lembrança pros demais! Casa vazia, louça lavada, apagado o tição no fogão a lenha, cozinha varrida, minha avó ia sestear no quarto ventilado, cheio de janelas abertas na parede de madeira. As panelinhas de ferro também repousavam na prateleira, bem areadas, brilhando tanto que pareciam fazer inveja ao alumínio. Ficavam ali, à espera da próxima sessão de milagres.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Uma fornada de chipa, uma manhã chuvosa, e o primo que veio de longe.



Para Nezinho, que não vejo há tanto tempo...
 E para Mara e Chico, com carinho.


Certas impressões ganham registro tão intenso na memória, que vez ou outra se mostram entre nossos pensamentos quotidianos, disparadas sabe-se lá porque, tão vivas quanto ao momento que as tenhamos vivido, não importa há quanto tempo.

Eu estaria por fazer 10 anos. Tínhamos nos mudado para a cidade para que eu ingressasse na vida escolar regular. E a cidade fervilhava com novidades, portas abrindo frestas para um mundo imenso e desconhecido, a instigar minha imaginação.

De algum lugar desse mundo chegou, para visitar os parentes, um primo que nascera e vivia muito distante, no Rio de Janeiro. Eu o conhecia de algumas fotos num velho álbum de família, sobre as quais minha mãe contava histórias e fazia descrições. Mas nas fotos, ele era sempre menino. Quando chegou, era um rapaz, querido, gentil com as curiosidades dos parentes, curioso para saber mais de nós.

Ficou hospedado na casa de uma irmã de meu pai. Fiz, a pé, o percurso entre a nossa casa e a dela algumas vezes, para vê-lo. Saía pela Rua Tiradentes até a Avenida Brasil, o que dava duas quadras, e então seguia mais quatro quadras até chegar ao endereço. Numa dessas visitas, levei-lhe meu álbum de recordações, e pedi que escrevesse alguma coisa para mim. Era um pequeno álbum, com um botão de rosa estampado na capa, e folhas com margens desenhadas. Minha mãe e meu pai haviam escrito poesias para mim, nas primeiras páginas. Meus irmãos formularam votos de alegria, sorte, sucesso. Colegas de escola prometiam amizade, sempre. No dia seguinte, recebi o álbum de volta. Suas palavras, escritas com letras muito miúdas, vieram carregadas de carinho, que quase me tiraram o sono, tamanha a alegria.

Na véspera de sua partida, minha mãe fez uma fornada de chipas para que ele levasse consigo, de volta para casa. Mas o dia amanheceu chuvoso, e lá pelo meio da manhã ela concluiu que não seria possível entregar-lhe o presente. Uma conclusão que me pareceu sem o menor sentido: desde quando chuva poderia ser impedimento para que se entregasse um pacote com chipas para uma pessoa querida em partida? Chuva nunca fora impedimento para nada, também não seria naquele momento. Eu cresci testemunhando meu pai sair para fazer pequenas viagens, ou visitas, mesmo quando estava chovendo: encilhava o cavalo, cobria-se com a capa a lhe dar um ar mais sóbrio do que o comum, o chapéu lhe protegia a cabeça, e seguiam, cavalo e cavaleiro, em passos seguros, perdendo-se no cinza da paisagem molhada. Do mesmo modo, minha mãe cuidava dos animais, atendia todas as demandas domésticas, a despeito de estar chovendo ou não. Não haveria de ser sempre assim?


Calcei meu par de galochas, empunhei o guarda-chuvas, segurei o pacote com firmeza, e segui, entre poças, enxurradas, lamas e barrancos, pelas seis quadras do percurso. Num instante estava lá, para espanto de todos, que admiraram minha coragem para enfrentar toda aquela chuva!

O sentimento mais sincero a pulsar me dizia que o desafio da chuva era de pouca valia diante do desejo de me despedir do primo que conquistara meu coração. Aliás, a chuva nem chegava a ser um desafio, para quem, aos 10 anos, tem o mundo para desvendar. A chuva pode ser, mesmo, um estímulo a mais, uma motivação.

Ou essa seria apenas uma percepção de alguém com não mais que 10 anos? Quantos projetos terão sido adiados por mentes e corações adultos com a desculpa de estarem as manhãs chuvosas e as ruas alagadas?

Aquela manhã, aquela chuva, minha determinação em ir vê-lo, a despedida, são imagens fortes que não se desfazem no tempo. Saudades, Nezinho!



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Casos de amor, sobressaltos, e outras revelações...

ou 
Pequeno conto no qual a personagem principal não comparece à cena...

No início dos anos 80, nossas vidas andavam em ebulição. Meu Amigo (que aqui chamarei apenas assim: Meu Amigo, para preservar-lhe a identidade) chegara do exterior, onde, longe das garras repressoras da ditadura militar, vivera as mais diferentes experiências, em intensidade e multiplicidade. De volta, dedicava-se ao trabalho com muito envolvimento. Ali, conheceu nossa Amiga Arte-Educadora (que também será assim referida neste texto), com quem estabeleceu vínculos fraternos afetuosos.

Chegou um tempo quando Meu Amigo começou a mostrar-se ansioso, tenso, angustiado. Num final de tarde tomou-se de coragem e falou-me do seu medo: andava observando o aparecimento, em seu corpo, de alguns sintomas desconfortáveis, que poderiam ser indicadores de AIDS. A síndrome pairava sobre as cabeças como possibilidade de degredo. No entanto o dado a angustiá-lo de modo mais pungente ainda estava por me ser contado. Logo de seu retorno ao Brasil, conhecera um médico, professor universitário, com quem se envolveu, mantendo uma relação afetivo-íntima durante mais de ano. Mais recentemente, descobrira que o médico era casado com a nossa Amiga Arte-Educadora.

Com tantas novidades, ele andava com os nervos à flor da pele. A razão lhe apontava a primeira providência a ser tomada, para só então tomar decisões, verificar encaminhamentos, etc. Não foi sem pânico que fez o exame, e foi entre comemorações que viu o resultado negativo. Pronto, refeitas as forças, tocou a vida. Já não precisava mais fazer grandes revelações, expor-se, tornar-se vulnerável. Cuidaria de se preservar, e cultivar seus afetos.

A vida é assim: quantas pessoas queridas, com quem convivemos durante períodos importantes, acabam encaminhando-se por veredas diferentes das nossas, e as vemos cada vez menos. Eu me mudei, transferi meu trabalho para outra região, envolvi-me com outros projetos. Eles também. Não encontrei mais Meu Amigo. Muitos anos depois, ao acaso, reencontrei nossa Amiga Arte-Educadora. Estava bem. Contou-me que os filhos estavam crescidos, cheios de novidades a cada dia. E, mostrando-se forte, arrematou com a nova: separara-se do marido. - "Você não pode imaginar o que eu descobri!" Levei um quase susto. Aguardei pelo desfecho da narração iniciada: - "A gente vive tanto tempo com uma pessoa, e não conhece nada dela! Aquele safado! Você acredita que ele tinha outra família? Mulher, filhos da idade dos meus, e tudo o mais!"



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Hortelã graúda da folha gorda



Dia de feira. De sacola em punho, fui comprar café moído na hora, radiche, milho verde... Hoje acrescentei à minha pequena lista um maço de hortelã graúda, boa e cheirosa, para colocar na salada. As folhas são aveludadas, grossas. Ao toque, liberam perfume.
- Só tem desta aqui; a que a senhora quer, a hortelã da folha gorda, não tem não.
São conhecidos, para começo de conversa, três tipos: hortelã miúda, hortelã graúda, e esta, a hortelã graúda da folha gorda.
- Essa, onde eu posso encontrar?
- Ah, aqui vai ser difícil. Não vende em feira não. Só tem quem planta em casa...
Uma das feirantes comentou que a avó tem no quintal.
- Traga um maço para mim, então!
- Se eu lembrar... mas eu não vou lá por agora...
Adiante, uma mocinha falou que já viu uma touceira numa casa de sua rua.
- Então, você pode conseguir para mim!
- Mas eu não conheço a dona... A senhora tinha era que plantar para a senhora!
- Como posso plantar se não consigo quem arrume a muda?
Rimos. Voltei sem as folhas de hortelã graúda gorda. Chegando em casa, comentei com minha vizinha o insucesso do meu intento. Ela riu-se:
- Ah, hortelã da folha gorda, só tem quem planta em casa...
Quanto a isso, não há dúvida, é consenso: só tem quem planta em casa.
Agora procuro quem tenha do tempero plantado em casa, para conseguir umas folhas, um galhinho, quem sabe, e plantar num vaso, aqui na varanda.

                                           Encontrei esta foto  aqui






sábado, 7 de janeiro de 2012

O novo cardiologista da minha mãe



Com frequência, quando fica absorta nalgum afazer, escrevendo ou costurando, por exemplo, a certa altura é tomada por intenso mal estar: as batidas cardíacas se alteram, sente tontura, se banha de suor, uma angústia no peito. Então se dá conta de que há algum tempo parou de respirar. A apneia em estado desperto associada à arritmia cardíaca e um desequilíbrio na pressão arterial acabaram levando-a a vários cardiologistas que se tornaram grandes amigos seus. E as consultas ganharam feições de visitas afetuosas. O cardiologista mais antigo tem várias coisas em comum com ela: também escreve, e enfrenta quadro semelhante de apneia e arritmia cardíaca. Então os dois divertem-se trocando livros e elogios, e conversando sobre suas idiossincrasias. O segundo cardiologista tem com ela uma ligação filial, o que faz da consulta um encontro em que são tratados assuntos de família, quando se falam de filhos, educação, projetos pessoais. O terceiro cardiologista é seu vizinho, já leu todos os seus livros de poesias, e a conhece o bastante para saber que ela não tomará os remédios receitados, tampouco fará os exames solicitados. Talvez até os faça, mas entre muitos queixumes. Então conversam sobre o condomínio, suas plantas, projetos para novos livros. Ela argumenta em favor dos chás e suas propriedades medicinais superiores aos remédios em geral, no que ele acaba assentindo. Por isso minha irmã pensou que talvez fosse melhor buscar um cardiologista que não fizesse parte de suas relações de afeto, para estabelecer uma relação estritamente profissional. Assim fez. No dia marcado, ficou aguardando na antessala, enquanto ela entrou para a consulta. Poucos minutos transcorridos, e já ouviu suas risadas vindas de dentro do consultório. Os risos se estenderam, e outras senhorinhas que também aguardavam riram-se com ela. Findo o tempo da consulta, o médico a trouxe até à porta, para despedir-se, tranquilizar minha irmã, e chamar a próxima cliente. Os dois estavam alegres. Tinham trocado receitas de pão, falado sobre poesia, conversado sobre a vida no campo. Mais tarde, minha irmã lhe perguntou sobre a opinião do médico a respeito da apneia e da arritmia cardíaca. Ela respondeu que não tinha dado tempo de conversar sobre isso...


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Boas vindas, com uma pitada de saudade e cheiro de esperança.



p/ Felipe e Nana.

Embarquei no final da tarde, num ônibus que seguiu em direção a São João d’El Rei. Pouco depois das 3h da manhã, desembarquei em Divinópolis. Aguardei na rodoviária pelo ônibus que saiu, às 5h, rumo a Bom Despacho. Eram 7h da manhã quando desembarquei na praça do centro, em Araújos. O sol ainda estava baixo, e sua luz atravessava as folhagens das árvores e outros arbustos, com raios doces em tom amarelado. A temperatura amena, confortável, motivava os transeuntes já em atividade. Na calçada, ele me aguardava. Sapatos pretos, bem engraxados, bermuda e camisa de algodão, bem passados, os cabelos molhados penteados para trás, perfume de banho recém-tomado. Uma rosa vermelha nas mãos. Estava compenetrado no cumprimento do ritual de espera. Senti o coração bater forte, e uma onda de ternura me inundar. Meu amigo querido me recebia, elegante, amoroso. Felipe não tinha mais que 7 anos, à época. Sorriu-me, entregou-me a flor. Eu desejei fixar o instante em minha memória, para não me perder daquele sentido de afeto e amizade. Depois seguimos para a casa da sua tia, onde eu ficaria hospedada. Conversamos, brincamos, não percebemos o passar das horas. Hoje, moço feito, está por concluir o curso superior. Há alguns anos não o encontro. Mas aprendi, com ele, que podemos acolher quem chega com afeto, com cuidado, e isso é pouco, e isso vale tanto, e esse amor marca para sempre...

Que possamos desembarcar em 2012 assim, numa praça inundada pela luz da manhã, e encontrá-lo cheio de frescor, perfumado, pronto para nos acolher. E que possamos também acolhê-lo, brincar com ele, ouvir-lhe as histórias, aprender caminhos para construir o futuro, juntos.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Para cultivar seu amor pela vida toda...



P/ Miriam e Luiz, mestres também no amor

Aguardava à porta de saída da faculdade, quando ela passou por mim. Pequena estatura, elegantemente simples, cabelo bem cuidado, acenou-me finda a jornada do dia. Parou a meio caminho e voltou para perguntar se eu esperava pelo meu marido. Confirmei. Ela se entusiasmou: "Faça isso sempre, mesmo quando não precisar. Eu faço isso com o meu. Às vezes, eu preciso até arrumar uma desculpa, para que ele venha me pegar. Ele fica feliz com isso, e eu também. É uma forma de ficarmos juntos um pouco mais, de compartilharmos mais uma parte do dia, e também um modo de eu mostrar que ele é importante para mim, que eu preciso dele, que esse sentimento é mútuo...". A essas alturas, seu esposo já a aguardava no estacionamento. Enquanto ela se despedia de mim, ele conversava com o guarda de segurança, velho conhecido seu. Ela o encontrou com um beijo, embarcou no lado do passageiro, ele fechou a porta dela num gesto cavalheiro. Seguiram, contentes.

Nestes dias que antecedem o Natal, a cidade anda mais nervosa do que o normal. E embora o verão se inicie hoje, o dia amanheceu muito chuvoso. A temperatura não passou dos 20ºC. Seu velho companheiro partiu pela manhã, sozinho. Ela aguardou por esse momento em prantos quase silentes que se prolongaram por meses, em pausas entre os cuidados que lhe dedicou nesses dias sofridos.



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Em boa companhia



Comprei a passagem de volta. Poltrona 1. Pretendia dormir durante a viagem. Mas quando embarquei, encontrei-a já bem acomodada ali. Quase uma gatinha mansa aninhada no canto. Sorriu e perguntou se eu me importaria de trocar de lugar com ela. Queria muito ir na janela, para tentar dormir um pouco, solicitou-me, com certo dengo na voz. Disse-lhe que também precisava dormir, mas que não havia problema, ela ficasse ali, eu me sentaria no corredor. Prontificou-se a ajudar na minha instalação: sugeriu que eu colocasse minha valise sob seus pés, para liberar os meus, disse-lhe que não era necessário; e recomendou que eu não esquecesse de colocar o sinto de segurança. Fiz umas duas ligações ao telefone, em seguida ela emplacou uma conversa bem divertida. Contou de sua luta para criar os filhos, de seu trabalho, da vida que levava agora. Falou mal do marido, de quem era viúva há 33 anos. Disse que o casamento fora difícil, mas ela persistira, cumprindo sua missão: levara a cruz até o calvário. E depois ficara mais leve para viver a vida. Era feliz, aos seus 90 anos. Até há pouco tempo caminhava um kilômetro por dia em torno de um parque próximo de seu apartamento. Mais recentemente, por medo do trânsito, tem preferido caminhar em volta do próprio quarteirão. Gabou-se de sua saúde, e explicou que há mais viúvas do que viúvos no mundo: "Sabe por que? Deus fez o organismo feminino mais forte e mais consistente do que o do homem, para poder gerar outra vida. Homem é mais fraco, qualquer ataque do coração, cai morto". A certa altura, lembrou-se que eu manifestara o desejo de dormir durante a viagem, e decidiu que já passava da hora de eu tirar meu cochilo: "Durma, minha filha, agora durma um pouco". Ri-me. Consegui dormir, até sonhei. Quando despertei, ela olhava a paisagem molhada de chuva por um vão da cortina - que ela manteve fechada para não fazer claridade e perturbar meu sono. Os olhos miúdos, as mãos grandes, descarnadas, a pele marcada pela idade. Na entrada da cidade, repetiu-me o roteiro que orientaria o motorista de taxi para chegar em casa. "É para eles não quererem me enganar, minha filha". Ajudei-a no desembarque, levei-a até o táxi. Despediu-se alegremente. Pela janela, acenou: "Depois nos falamos pelo telefone!"

domingo, 30 de outubro de 2011

deixem quietos os demônios


p/ Nana, minha querida amiga.
 
"Então uma pessoa não tem o direito de dormir em paz, que o telefone fica tocando, tocando, até me acordar? Ah neeeeim!", reclamou com veemência, minha amiga, depois de eu tê-la, insistentemente, chamado ao telefone, no início da noite de sábado. Acordada, decidiu fazer faxina em casa. Para provocá-la, em relação à pouco usual destinação de seus horários e atividades, questionei -"E isto lá são horas de fazer faxina em casa, criatura?" Sua mãe também fica contrariada com essa mania que ela tem de limpar a casa à noite, lembrou-se. Quando resolve varrer as calçadas, já escuro, ou limpar móveis e o chão, a mãe a adverte quanto ao fato de que os demônios dormem durante o dia, e despertam à noite. Mas ficam quietos, observando tudo. Se, por descuido, você mexe com eles, eles se irritam. Não queira tê-los irritados em casa! Isso pode acontecer, por exemplo, quando você usa a vassoura durante a noite, ou tira os móveis do lugar.
Deixem quietos os demônios. Ou então, aguentem as consequências!


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Delícias do Mercado Municipal da Rua 3


Na primeira banca, perguntei: “O senhor tem cancorosa?”. Ele me olhou, e disse, com firmeza, que não. Apontou, ainda, que eu procurasse na banca ao lado, talvez ali pudesse encontrar. Fiz a mesma pergunta ao vizinho, que também respondeu negativamente, sem hesitação. Questionado sobre onde eu poderia encontrar, apontou a banca da frente, observando: “Ela é que costuma ter essas coisas estranhas”. Compreendi, então, que ele não sabia o que era cancorosa. Achei graça, e perguntei pelo outro nome: espinheira santa. Ah, isso ele tinha! Trouxe-me um pequeno saco de plástico, com as folhas bem esmagadas. Observei que, na verdade, eu queria as folhas inteiras. Ele me explicou que as folhas inteiras ocupam muito espaço, e precisam ser embaladas em sacos maiores. Os sacos estão caros. -“A gente espatifa ela bem espatifadinha, aí elas cabe do saco menor. Fica mais barato”. Tinha espatifado tanto, que parte dela virou farinha... Insisti na preferência às folhas inteiras, e ele recomendou, novamente, a banca da D. Eulália. A velhinha é graciosa, tem uma banca cheia de folhas medicinais, artesanato, cerâmicas, e outras quinquilharias. É famosa: já apareceu em vários programas de televisão, está acostumada a ser entrevistada. Artista, ela. - “A senhora tem espinheira santa?”; - “Tenho sim, minha filha!”; -“E a que a senhora tem, é inteira ou espatifada?” (eu aprendo rápido!). Era inteira. –“Cuidado, minha filha, para não machucar sua mão com os espinhos!”. De quebra, troquei uns dedos de boa e divertida prosa, e comprei mais alguns pacotinhos de marcela amarelinha, cheirosa...

Na saída, resolvi procurar por uma caneca de alumínio de boca estreita, alta, com tampa, para fazer café. Queria presentear um casal de amigos. Na parte superior do Mercado, na primeira loja, mostrei, com as mãos, as dimensões da caneca. A senhora que me atendeu repetiu meu gesto, observando o que dispunha nas prateleiras. Não encontrou: as canecas que tinham a altura solicitada eram bem mais largas; se tinham o mesmo diâmetro, eram bem mais baixas. Não me serviam. Então sua curiosidade foi despertada. –“O que você vai fazer com ela? Vai ferver leite?” Na verdade eu não queria entrar em detalhes sobre o uso que seria feito. Bastava a informação: tem ou não. Além disso, não tinha a menor intenção de comprar uma com outras dimensões. Ela decidiu investigar o destino que eu daria à tal caneca. Tentei ser breve: - “É para fazer café”. Sabia que não deveria ter dado início às explicações. Àquelas alturas, tinha me metido numa encrenca, pois ela teria vários contra-argumentos, na tentativa de me vender alguma das que ela tinha. –“Fazer café? Mas esta dá!...”, mostrando-me outra. Expliquei que não servia. –“Mas o que você vai fazer com o café?" Eu precisava para torrar o café. –“Mas você torra o grão, ou o pó?”. Ri-me: -“Torro ligeiramente o pó, com algumas misturas...”; -“Ah, então você mistura o pó de café com outras coisas...”. Expliquei que, na verdade, era o tempero do café... Neste ponto da conversa, eu já estava na loja seguinte, e já constatara que ali tampouco havia a tal da caneca. A senhora, que me seguira até ali, acenou, simpática, para mim, de volta à sua loja: -“Você precisa me ensinar essa receita, viu?”. Encontrei a caneca na última porta, quase na boca da rampa que dá acesso à saída. Era a única na prateleira.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Um ponto médio entre o frio e o calor



Conversava, ao telefone, com meu amigo residente em Curitiba - que, a propósito, recebeu recentemente o título de cidadão honorário. Notícias de lá, notícias de cá, ele comentou: -"Aqui agora está bom, começou a fazer calor..." Eu o interrompi, comentando que aqui também o clima estava mais confortável. Fresco, foi o adjetivo com que o qualifiquei. E ia acrescentando que hoje, pela manhã, a temperatura estaria por volta de... quando ele interceptou minha fala, antes que eu concluísse, fechando a ideia do que queria dizer com "fazer calor":  -"Hoje está 22ºC". Rimos. Essa era a temperatura à qual eu me referia, quando falei no frescor destes dias, pelas bandas de cá...

Dias quentes, frios, frescos: tudo depende do ponto de partida em relação ao qual se estabelecem os parâmetros de comparação...


sábado, 22 de outubro de 2011

Exercícios de alteridade – cegos e surdos


p/ Albertina Brasil

Durante um evento voltado para artistas portadores de necessidades especiais, visitávamos a exposição do fotógrafo esloveno Evgen Bavcar. Eu me demorei diante de cada imagem, provocada pelas questões às quais ele nos empurrava, sobre o ato de ver, de produzir imagens, sobre a experiência estética.

Ela entrou na sala de exposições, completou o circuito rapidamente, emitiu seu parecer numa sentença breve: “Muito bom!”. Já ia se retirando, quando eu a interceptei à porta: -“Você já conhecia? Sabe quem é?” Não sabia, nunca vira... Então eu pronunciei as palavras definitivas: -“É cego...” Cego? Um fotógrafo? Voltou para a sala, e olhou, inconformada, cada fotografia, perguntando-se como poderia ser, aquilo?

Dez anos se passaram desde então. Agora era ela quem propunha performance e exposição na galeria universitária. Surpreendi-me com a notícia de que um acidente vásculo-cerebral a deixou surda. E ela tornou-se amarga e ácida, no trato pessoal como em sua produção artística.

Saudades do porte galante, sedutor e vaidoso de Bavcar.




Bicycle with swallows. Evgen Bavcar 



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Sobre uma aula de como ser professor, em véspera do Dia dos Professores.


p/ Janaína, menina de belo sorriso e fala sincera,
e Marcelo, testemunha desse momento de aprendizagem.

Do outro lado da sala de aula, a menina me olhou, levantou-se e veio, decidida, em minha direção. Apoiou-se na carteira onde eu estava sentada e perguntou-me:  - "A senhora está aqui para orientar a professora?". Demorei alguns instantes para entender o que ela queria saber. Continuou no seu propósito: - "Fala para ela mudar, fala? Ensina ela? Não dá para ser como ela faz! Ela passa texto toda aula, pede prá gente copiar, e fica na sala, sem fazer nada. Nem conversa com a gente sobre o texto. Só pede pra gente copiar. A gente copia, e ela nem dá moral, nem vale para a nota, para nada...". A professora aproximou-se, mas ela continuou a falar, sem se intimidar. Mas não assumiu qualquer tom agressivo: sua voz era serena, embora firme, e o raciocínio era de uma clareza estonteante. Em poucas frases, a adolescente deu uma aula de didática com a pulsação de quem vive cada dia, cada tempo perdido na escola, cada sonho distanciado pela aprendizagem não construída. Explicou-me, por exemplo, que professor tem que ter autoridade com os alunos. E que autoridade não é grito, mas voz firme, saber o que fazer, propor coisas que façam sentido, e ocupar os alunos todo o tempo. Perguntei-lhe o que ela sugeria que fosse feito. Ela disse que o texto poderia ser explicado pela professora, que poderiam ler trechos juntos, que a professora poderia propor alguma coisa para ser feita ligada ao texto. Depois admitiu que, quando a professora pede que produzam objetos, e desenvolve atividades práticas, a aula é boa, e ela gosta muito. Mas isso não acontece com frequência. A professora ficou por perto, ouvindo a conversa. Depois observou: - "Está aí, fazendo seu relatório, não é?". Ela sorriu: - "Mas é assim mesmo! Pode olhar!".

A chuva caía pesada lá fora, inundando o pátio da escola, fazendo respingos dentro da sala, através dos vidros quebrados das janelas. Ela confessou que só veio à aula para não ter que arrumar a casa. Depois voltou para sua carteira, entre a agitação dos colegas.


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Diversidades II (ou: encontros do Brasil múltiplo)


p/ Ameline, Ju, Marcelo, Aurisberg e Wolney, meus amados.

Semana Farroupilha...
Por aqueles dias, em todas as cidades do Rio Grande do Sul havia atividades intensas dentro das comemorações pela Semana Farroupilha. Gaúchos orgulhosos desfilavam com suas bombachas, e prendas enfeitavam a paisagem com seus vestidos rodados. Outros gaúchos, longe de suas querências, suspiravam saudades, por mais desarraigados que fossem de suas tradições. Era o caso do grupo de estudantes que explicava, a amigos goianos, a força dessa data na conformação do ser gaúcho. Às tantas, perguntou-se: "E o Dia do Goiano, quando é?"

Não há um Dia do Goiano! Como pode ser? Como pode um lugar não ter um dia quando celebre os fatos e artefatos constituidores dos referenciais identitários de suas gentes?


Pamonhas...
Na sequência, uma das meninas gaúchas confessou uma preocupação: durante as férias, de volta à terra natal, como conseguiria passar os dias sem comer pamonha? E o amigo goiano perguntou: "Lá tem poucas pamonharias?"

Não, não há pamonharias... Como pode existir algum lugar sem pamonharias, ou quaisquer biroscas onde se comprem pamonhas, para que as gentes possam se deliciar com seu sabor, à hora que queiram?...



sexta-feira, 23 de setembro de 2011

8ª I - para desvelar o mundo...


É véspera de evento na escola. No sábado, durante todo o dia, haverá exposição, apresentação de músicas, e outros itens na programação. A professora de Artes ultima os trabalhos com os alunos. Na 8ª I, autoriza alguns a irem para o pátio para concluir a execução de seus projetos. Os demais - ou porque não fizeram os trabalhos, ou porque já os concluíram - ficam na sala. Ela lhes entrega um texto de uma página para copiarem no caderno. Durante a aula, divide-se entre acompanhar o grupo no pátio, organizar a exposição, e se fazer presente entre os alunos na sala de aula - estes em maior número. As atividades no pátio seguem razoavelmente tranquilas. Na sala, poucos se dispõem a atender o solicitado. Os meninos brincam entre si, jogam aviõezinhos, brigam, ouvem música, pegam objetos uns dos outros, gritam, correm pela sala. Apenas dois ou três dedicam-se a copiar todo o texto.

Entre as meninas - em minoria -, duas se esforçam para manter a concentração na atividade, mesmo quando provocadas pelos meninos. Uma delas me procura: -"o que é desvelar?" Pergunto-lhe onde está a palavra. Ela aponta o título do texto: "Poesia da imagem: modos de desvelar o mundo".


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Delicados ritos de iniciação na sociedade de consumo



O menino, com cerca de 4 anos e cabelos cacheados como os do Pequeno Príncipe, segue, dentro do carrinho de compras, levado pela mãe amorosa, entre as prateleiras e gôndolas do hipermercado. Seus olhos encantam-se com as diversidades de formas, cores, odores, e com as promessas de gostosuras e belezuras e prazeres de cada item estrategicamente acomodado. Aponta com o dedinho: quer isto, aquilo... A mãe atende a algumas solicitações, desconsidera outras, e vai abarrotando o carrinho, entre as pernas do menino, com embalagens.

Já na fila do caixa, o menino avista algumas embalagens coloridas. "Eu quero". A mãe assente. Ele segura a azul entre as mãos, feliz. Depois pergunta: -“O que é?”. A mãe explica: - “É para tomar banho, meu filho”. Uma esponja azul, na forma de borboleta, e um pequeno pote com sabonete líquido. A mãe pega mais uma, de cor laranja. Levará para outra criança. O menino compara as duas embalagens, encantado.

A fila é longa. Antes de chegar ao caixa, pelo telefone celular, a mãe liga para o esposo. O menino começa a conversar com o pai. Fala sobre o pacote colorido que tem nas mãos. Pergunta: -“Quer ver?”. E passa o aparelho de telefone pelos vários lados da embalagem, para que o pai possa ver por completo a nova aquisição. Volta a falar: -“Viu?”. E mostra mais uma vez, agora um pouco afastado do aparelho, para que o pai tenha uma vista geral. A mãe se diverte: -“Meu filho, ele não está vendo! Dê tchau ao papai, vá.” A mãe retoma a conversa com o esposo. O menino continua brincando de faz de conta: com a mãozinha ao ouvido, segurando um aparelho celular imaginário, por algum tempo dá prosseguimento à conversa com o pai. O aparelho molda o gesto, e o gesto é integrado ao corpo...

No caixa, ajuda a mãe a colocar os itens de compra sobre o balcão, sem perder de vista aqueles que foram de sua escolha. Pensa na lista interminável de itens que, deixados para trás desta vez, poderão ser levados para casa na próxima visita ao templo, o hipermercado. As mercadorias marcam o desejo, sendo incorporadas, assim, aos projetos de felicidade...