sábado, 28 de abril de 2012

Tramas à beira dos caminhos - edição 2012

Entre 30 de maio e 13 de junho próximos, estaremos realizando a segunda edição da intervenção artística Tramas à beira dos caminhos. Preparem-se, organizem-se, reúnam materiais, para participar conosco!







sábado, 21 de abril de 2012

Insone



Para J. Bamberg

Havia uma espécie de descompasso entre sua percepção da passagem das horas, dos dias, e o tempo marcado nos relógios, nos calendários...Talvez por isso mesmo, ele se cercava de aparatos que marcavam a passagem do tempo: ponteiros analógicos com suas setas agudas apontando segundos e minutos, luzes digitais pulsando horas, tabelas numéricas cartesianas entrecruzando informações sobre dia da semana e do mês. E lembretes anotados manualmente, fixados na geladeira, sobre a mesa, em bloquetes, papéis soltos, desgarrados ao tempo-vento... Tudo em vão: o relógio sempre marcava uma hora que ou era muito mais cedo ou muito mais tarde do que ele imaginava. E na folhinha, ele nunca sabia ao certo o dia do mês ou da semana.

Acontece que ele se ressentia de uma acentuada sensibilidade para o emaranhado entrecruzamento de muitas linhas de tempo, suas tensões, suas dores, suas expectativas, suas memórias. Suas histórias humanas, demasiadamente humanas... As linhas, tantas, e nem um pouco retas, diluíam-se umas nas outras, confundiam-se e à sua própria percepção. Talvez cada relógio pudesse ser escalado para marcar um desses tempos. Mas relógios não sabem marcar outra coisa que não o tempo esquadrinhado para organizar dias em 24 horas, horas em 60 minutos, minutos em 60 segundos. Esse esquadrinhamento não acolhe emaranhados temporais de tantas existências, desejos, desenhos, sonhos, dores... dores noite a dentro, reivindicando da consciência que se mantenha desperta, que não repouse, que não se entregue.

Afinal, parece mesmo é que todos os relógios e calendários contam, gota a gota, dias marcados por dores. Dias que se prolongam em noites insones, em horas cuja extensão não é medida em minutos, mas em esperas. E ele se perde dessa contagem, sonhando com tempos outros, quando também não dormia, atravessando as noites em coreografias dançadas, em bailes gososos banhados a músicas cujo compasso acompanhava os batimentos do seu coração.



terça-feira, 17 de abril de 2012

Jamais saberemos como seria se não tivesse sido como foi... ou: a flecha do tempo é irreversível.

Para Pina Bausch, Win Wenders e Christina Garcia

Marília, a louca da corte. Teatro Garagem. Brasília.1987.
Direção: Delson Antunes
No elenco: Ivan Marques, Muna Amad, Moisés, Dina Brandão, José Alves Neto, Feitosa, Kalissa Nawá.


Roqueiros, prostitutas, suicidas, figuras góticas, noivas abandonadas, políticos decadentes circulavam entre andaimes de uma construção jamais terminada. Desfiavam versos que brotavam dos submundos da capital federal, nos estertores da ditadura militar. A corte habitada por Marília louca...


Durante o espetáculo, num certo momento, eu saía do palco, e me posicionava ao lado da plateia. Os demais atores desenvolviam a cena, preparando o ambiente para que eu começasse a interação com pessoas do público. Quando um rapaz vestido de policial subia na plataforma mais alta, eu sabia onde cada um estava posicionado, e esperava pelo som seco da chave sendo acionada pelo operador da mesa de luz. Palco e público eram inundados por luz. Aproveitando o susto, eu saía, atirando perguntas aleatoriamente, contra uma e outra pessoa. Esbravejava. Na próxima vez que eu for a Brasília, eu trago um rato do cerrado para você!


Fazia uma meia lua, e ia retornando aos poucos para o palco. Eu não precisava olhar: sabia para onde cada um tinha seguido, enquanto eu executava a cena. Dávamos curso ao espetáculo, formando uma espécie de escada humana, que era escalada por outra atriz, enquanto declamava versos desesperados. O momento já era outro, outra tensão, outra intenção.

Na minha sequência, enquanto aguardava o momento de interagir com a plateia, de fora, por um instante, eu podia observar o espetáculo, antevendo os movimentos de cada um. Eu já houvera internalizado toda a dinâmica das cenas, as passagens de uma para a outra, e as sequências todas. Podia fechar os olhos, e imaginar o espetáculo do início ao fim. No entanto, me inquietava constatar que, enquanto estava ali, observando os demais, eu vislumbrava um espetáculo que não era o mesmo vivido, experimentado, imaginado pelos outros atores do elenco. Mesmo com os olhos fechados, não podia imaginar de outro modo que não desde o lugar que eu ocupava - o que eu conhecia, o que minha memória reconhecia. Qualquer esforço para perceber o espetáculo do ponto de vista dos demais era em vão: o ponto de vista de outro, que não o meu, se me escapava, mesmo que eu já trouxesse, inscrita no corpo, a cartografia dos movimentos, dos percursos de cada um, entrecruzando-se com os meus. O bailado que executávamos, eu o reconhecia sempre a partir de mim. E isso me soava quase como sentença, condenação, prisão.

Como seria ver a cena em que eu interagia com o público desde a plataforma ocupada pelo ator vestido de policial? Ou do posto ocupado pela menina que subiria a escada humana, e já se preparava para isso, enquanto eu executava minha cena? A totalidade escapa entre os vãos da minha percepção...

Mais que isso: se, em lugar de seguir um percurso, eu seguisse outro, em que eu teria alterado o curso dos fatos? Não é possível saber, pois não há como verificar, comparar as diferentes possibilidades em igualdade de condições, inclusive as temporais.

A flecha do tempo é irreversível, e não há qualquer simetria possível nas experiências humanas. Nas não humanas? Jamais saberei...



sexta-feira, 13 de abril de 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A revelação (Eduardo Galeano)



Um cidadão recém-chegado ao mundo estava dormindo, nu, em seu berço.


A irmã, Ivonne Gaelano, olhou para ele e saiu correndo. Bateu nas portas de suas vizinhas, e com um dedo nos lábios convidou-as para o espetáculo. Elas abandonaram suas bonecas, a meio vestir, a meio pentear, e nas pontas dos pés, de mãos dadas, se assomaram ao berço do bebê. Não ficaram rubras de inveja, nem empalideceram por causa do complexo de castração. Segurando o riso, comentaram:


- Olha só o que esse maluco trouxe para fazer pipi!




Eduardo Galeano. Bocas do Tempo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

domingo, 8 de abril de 2012

Um é dois, faço três por sete




Enquanto eu observava os pacotinhos com couve picada bem miudinha, o senhorzinho se aproximou, sorridente, antecipando-se à minha pergunta: “Cada um custa dois reais”. Peguei um pacotinho, meio distraída, olhando o verde escuro das folhas cortadas. Ele prosseguiu: “Um é dois, faço três por sete”. Sem lhe notar a intenção, respondi, ainda distanciada: “Eu vou levar só um, mesmo”. Ele insistiu: “Mas eu faço três por sete!”, e riu-se, um riso debochado. Só então me dei conta da brincadeira proposta. Ri-me também. “Eu tenho que levar alguma vantagem, ué!”, ele completou. Paguei pelo pacotinho, e levei de gorjeta o riso solto do senhorzinho vendedor de couve picada.

O bom dia começava ali.



sábado, 7 de abril de 2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Declaração de fé e uma crítica à visão antropocêntrica de Deus


a propósito da Semana Santa, em curso


Eu tinha 11 anos. Nos domingos pela manhã, ia à missa das 8h, e na volta assistia à aula dominical da Igreja Batista, mantenedora da escola na qual eu estudava durante a semana. Numa dessas aulas, a professora, que também era minha professora de Ensino Religioso, e esposa do Pastor, pediu que levantasse a mão quem fosse cristão. Aquela pergunta provocou inquietações em mim: o que implicava, de fato, ser cristão? As demais crianças não hesitaram em responder. Mas eu não estava muito certa de minhas convicções quanto a ser ou não ser cristã. E me inquietava com a ideia de levantar a mão, declarando uma convicção que, na verdade, vacilava entre algumas poucas certezas. Ao mesmo tempo, não corri o risco de assumir publicamente aquelas dúvidas entre pessoas movidas por tanta fé e tantas certezas, que se sentiam escolhidas entre os mortais para serem salvas quando do fim do mundo. Na dúvida, e ante a possibilidade, qualquer que fosse, de salvação no julgamento final, eu tomaria as providências necessárias para me proteger. E começaria ali mesmo, em plena aula dominical, entre crianças convictas de sua fé: levantei a mão, assumindo de público minha cristianidade.

Nalgum domingo à noite, por esses mesmos dias, assistindo ao culto, senti-me comovida pela possibilidade do amor, da fé, anunciados em discurso exaltado e vibrante. Quem aceita o Cristo no coração? Ora, se o Cristo é sinônimo de amor, de fé, de sintonia e encontro com Deus, que tola seria eu para não aceitar? À saída da igreja, me esperava uma ficha para ser preenchida, para fins de recolha do dízimo. Mas o Cristo que pulsara em mim não tinha contas a pagar, nem se submetia a prestações. Estava ligado, sim, ao sentido de vida que move os seres, e o de amor que os liga. Declinei do preenchimento, e continuei me perguntando, em silêncio, o que significava ser cristão.

Deparei-me com muitas situações, desde então. Frequentei centros espíritas, participei de rituais indígenas, fiz primeira comunhão, deixei-me conduzir no ritual de batismo mergulhada em água. Sem chegar a crer plenamente. No entanto, sem deixar de crer. Mas crer em que? De certo que minha fé sempre foi encaminhada a endereço diverso em relação aos demais participantes de cada um dos diferentes rituais. Qual endereço? Onde eu encontraria abrigo? Antes disso: encontraria, eu, abrigo nalgum lugar?

Mais recentemente compreendi o que me causa desconforto no arcabouço do pensamento cristão: a visão estritamente antropocêntrica da fé e seu sentido de transcendência. Não posso comungar um credo que tem seu princípio e seu fim na saga humana (está certo que não é pouca nem pequena...), quando o universo de estende ao infinito tanto na direção do micro, no mundo que supomos conhecer, ao menos onde vivemos e convivemos com mistérios insondáveis entre desconhecidas formas de vida, quanto em direção ao macro, na infinitude de planetas, galáxias, universos sem fim, mundos de que sequer temos noção de dimensões, fronteiras, marcos, tempos e espaços inconcebíveis para nossos limites tão humanos.

Que Deus seria esse que se ocuparia tão somente dos humanos, sendo sua criação tão infinitamente maior do que a própria humanidade?

Talvez eu prefira pensar numa força divinal que possa se apresentar de infinitas formas ante cada forma de vida das infinitas existentes. Sem nome, nem forma, nem rosto, não é homem nem mulher, não é bom nem mau, pulsa em cada manifestação da vida, desde as mais ínfimas até as tão enormes e imponderáveis. Vibra em e faz vibrar tanto bactérias quanto humanos, mesmo quando a sobrevivência das primeiras concorra com a sobrevivência destes últimos. Aliás, não tem contrato exclusivo de prestação de serviços para atender aos desejos e aplacar os temores humanos. Não atua nos mercados financeiros, não conhece normas sociais, nem estruturas hierárquicas de poder estritamente humanas.

Operando além, muito além das fronteiras estreitas disponíveis a alguma interpretação possível pela cognição humana, não se encontra nem dentro, nem fora: é o próprio universo, o que quer que isso signifique, quaisquer sejam as suas dimensões espaço-temporais. (N)ele. E por isso mesmo, (em mim) eu, que também (estou no) sou o universo. Eu, parte integrante do todo sem fim. Eu também portadora dos seus mistérios, de suas infinitudes. E isso faz com que me sinta irreversivelmente vinculada ao mundo, seus movimentos, tremores, pavores, encantamentos. E a toda a humanidade, e a toda forma de vida.

Isso faz com que minha participação nos rituais das diversas igrejas seja movida pela mais funda sinceridade, ainda que não pela mesma fé que move os demais. O elo que nos liga precede e sucede qualquer explicação humana a qualquer mistério: faz parte dos próprios mistérios aos quais me entrego, pelos quais me deixo conduzir – não por vontade própria, mas por inevitabilidade...

Pensar/sentir desse modo muda radicalmente minha percepção dos fenômenos em geral, das metamorfoses, dos rearranjos dos elementos. De alguma forma tudo ganha uma densidade maior, e ao mesmo tempo se torna mais leve. Morrer, nascer, viver são parte de um único processo que não tem fim, tudo interligado, em transformação contínua.

Assim seja!


Fora do Padrão: o Filme - notícias do lançamento.


No último dia primeiro de abril (e não foi história de mentiroso!), no Cine Ouro, ocorreu o lançamento do filme mais recente de Martins Muniz e Sistema CooperAÇÃO Amigos do Cinema. O público foi brindado com uma sessão dupla, com o filme realizado em 2011, Pé de Pano, e Fora do Padrão: o Filme, de 2012. Há mais produções a caminho, pois há muitas mais histórias para serem contadas!
E quem quiser, que entre na roda para contar as suas, também!


No hall do Cine Ouro, os cartazes dos filmes Pé de Pano (2011)
 e Fora do Padrão: o Filme, lançamento de 2012.



Martins Muniz aguarda o início da sessão
Eurípides, ator e assistente de direção, abre a sessão,
 falando um pouco sobre o Sistema CooperAÇÃO Amigos do Cinema, 
e o trabalho de Martins Muniz.


Martins Muniz vê seu filme, com olhar sempre crítico.