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quinta-feira, 27 de julho de 2023

Nunca mais como omelete


Num desses momentos de deriva poética, quando minha mãe transpõe boa parte das regras da linguagem, da memória, das relações temporais, me explicou que agora faz parte das pessoas que fazem “a melete”. Tentei compreender, sem estar certa de que fosse possível. Ela, então, me explicou que não acha certo dizerem “o melete”. Que o certo mesmo é “a melete”. Num átimo de segundo, compreendi. Mais que isso, concordei plenamente com ela.

Pronto. Está decidido. Nunca mais como omelete. A partir de hoje, o prato feito à base de ovos chama-se amelete, assim, no feminino. Delícia.

 

domingo, 30 de abril de 2023

Morada compartilhada

 




Foi bem no começo da pandemia. Depois de fazer a inspeção na varanda do segundo andar, o casal encontrou o melhor lugar para organizar seu pouso. Não se demoraram no trabalho. Em questão de dias já estavam instalados. 

Ouvi-los era um alento, em tempos quando a morte era o assunto do dia, de todos os dias. Cantavam, com voz leve e suave. Aquilo nos acalmava o coração. Estremecemos de alegrias quando constatamos os pequenos aprumando-se, pela primeira vez.

Três anos se passaram, desde então. O primeiro ano foi o mais fecundo. A cada ciclo com pouco mais de mês, nasciam duas pombinhas da seca, desenvolviam-se no ninho, até chegar o dia da partida. Alguns voos ensaiados e seguiam seu destino. A vibração do bater de asas era força de vida. 

No segundo ano, começaram os problemas técnicos de construção. Com o uso intenso e o acúmulo de fezes e novos galhos, o ninho foi ficando mais alto, embora continuasse raso. Resultou uma inclinação que, embora muito sutil, foi o suficiente para que ovinhos a ponto de descascar caíssem, levando à morte os filhotinhos. Tive de tomar a difícil decisão de retirar o ninho dali, para evitar novos acidentes fatais para a família. Não demorou e outro ninho foi construído, no mesmo local. Novas ninhadas começaram a nascer. Contudo, a nova fase não foi marcada pela sorte. Numa das vezes, um dos filhotinhos caiu do ninho, durante a noite. Sem conseguir retornar, amanheceu morto no chão da varanda. Na ninhada seguinte, outro filhotinho morreu, desta vez, no ninho. Mais uma vez, tomei a difícil decisão de retirar o corpinho do filhote junto ao ninho.

Meu marido providenciou um ninho desses que se compram em lojas especializadas. Mesmo achando que dificilmente ele seria aceito pela família de pombinhas da seca, o instalamos entre os galhos, na posição dos dois anteriores. E ficamos ali, na expectativa de como a novidade seria recebida.

Por algum tempo, não retornaram. Andavam pelos sítios em volta. Ouvíamos seu canto. E era tudo. Depois, percebemos algumas visitas furtivas na varanda, voejos entre os galhos. A certa altura, começaram a fazer inspeções no ninho construído com sisal e arame. Durante muitos meses, esse ninho passou a ser visitado regularmente pelo casal. Mas os ciclos das ninhadas tinham sido interrompidos.

No terceiro ano, observamos o aumento da frequência das visitas e uma certa familiaridade das aves com o ninho. Há três dias, a pombinha iniciou novo choco. Em breve, a varanda será território inaugural de novas pequenas vidas voejantes.

 




domingo, 23 de abril de 2023

A moça do caixa, no supermercado


No supermercado, a moça que me atendeu no caixa mostrou-se solícita. Mas logo que eu organizei os meus itens sobre a esteira, ela colocou a placa indicando que estava fechado. Contou-me que era seu horário de almoço. Explicou, ainda, que, como sua jornada era de 5 horas diárias, tirava apenas 15 minutos para fazer um breve lance, e preferia sair alguns minutos mais cedo, ao final do turno. Sua jornada era mais curta para que ela pudesse estudar. Continuamos conversando e organizando minhas compras na sacola. 

Agradeci sua ajuda. Sobre colocar coisas mais frágeis em cima das demais compras, observei que naquele dia eu não tinha comprado ovos, pois seria o único item que eu levaria à parte, pela fragilidade. Então ela me explicou que a embalagem resistia à pressão. Insistiu no fato de que eu poderia colocar na parte inferior da sacola, sob as demais compras, sem risco de quebrar os ovos. Riu e me desafiou: na próxima vez que você comprar ovos, experimente, depois venha me contar se deu certo! Eu também ri. Ela prosseguiu: Quem me explicou isso foi uma professora de física, depois eu experimentei e constatei que ela tinha razão. Entre sorrisos e com brilhos no olhar, concluiu: Eu adoro estudar física e química! Seu pagamento vai ser débito ou crédito?

À saída, desejei bom lanche, bom final de domingo. Intimamente, fiz votos para que ela cumprisse sua jornada de estudos sem que nada a desviasse dos campos de conhecimento que lhe despertavam aqueles brilhos no olhar.

 


terça-feira, 11 de abril de 2023

As primas

 

São cinco as primas: Helga, Rosa, Almerinda, Magda, Felinta. Quando Rosa nasceu, Helga já era uma menina-moça faceira. Por isso, acompanhou parte da infância de Rosa de modo muito próximo. No entanto não era tão presente na vida de Almerinda, que nasceu no mesmo ano de Rosa, mas vivia na cidade, bem como Magda, sua irmã caçula. Já Felinta, a mais nova de todas as primas, quando nasceu encontrou a irmã Rosa já mocinha, totalmente dedicada ao trabalho e aos estudos. A esse tempo, Helga já se mudara para uma cidade grande, no sul, onde se casara e constituíra família. Assim sendo, Felinta não conviveu com ela na infância, conhecendo-a só por meio dos relatos e dos álbuns de fotografia que a mãe guardava cuidadosamente. Mas conviveu com Almerinda e Magda, tendo inclusive tomado parte de suas festas de casamento.

Quando o pai de Almerinda e Magda morreu, sua mãe ficou alentada com a decisão da filha mais nova de, mesmo casada, continuar morando na casa com ela. Era a garantia de cuidados em sua velhice. E assim foi: Magda acompanhou a mãe até o derradeiro dia. Depois, vendeu a velha casa onde nascera e mudou-se, com o marido e os filhos, para a mesma cidade onde a irmã Almerinda já vivia com a família há alguns anos.

Rosa e Felinta também se mudaram dali, instalando-se na capital, para onde mudou-se também sua mãe, quando o marido veio a falecer. Helga, vivendo há muito mais tempo distante de todos, acompanhava cada passo, cada fato ocorrido a cada prima, em cada núcleo familiar. E se emocionava em cada momento, sempre transbordando emoções.

Há alguns anos, Magda, já avó de alguns netos, sofreu um acidente vascular cerebral. Em consequência, perdeu a autonomia para realizar as atividades funcionais: falar, caminhar, se alimentar, fazer a própria higiene. Helga nunca se conformou com o fato e muitas vezes manifestou de modo apaixonado sua tristeza e sentimento de impotência diante do quadro da prima. Seu único consolo estava no fato de que o marido de Magda era dedicado nos cuidados com ela, apesar da fragilidade em seu coração, cujo funcionamento dependia de alguns stents implantados nas principais aortas.

A seu turno, já aposentada, Rosa assumiu os plenos cuidados da mãe que, com idade avançada, encontrou-se com a saúde mais fragilizada a cada dia. Também ela se compadecia com a situação de Magda e, muitas vezes, tentava acalmar o choro de Helga que lamentava situação da tia e da prima. Entre as primas, Almerinda se manifestava raramente, sempre de modo tranquilo, detalhando informações e tentando demonstrar que as situações, para as quais não há remédio, remediadas estão. Já Felinta, a única que ainda não se aposentara, pouco tomava parte da rede de conversas das primas, tratando de ficar imersa nos cuidados com a mãe, ao lado de Rosa, sempre que possível entre os compromissos de trabalho.

Foi numa dessas brechas, passando alguns dias na casa da irmã, que ela atendeu a uma chamada telefônica. Alô? Oi, Helga! É Felinta! Tudo bem? Do outro lado, Helga chorava copiosamente. Não, não está tudo bem! O marido da Magda morreu hoje, acabou de ser enterrado. Felinta fez uma breve pausa, situando, na memória, as figuras de Magda, o marido e os filhos, enquanto ouvia os soluços do outro lado da linha. O que poderia falar? Morreu como? Um ataque cardíaco fulminante! Helga prosseguiu, formulando perguntas que nem Felinta nem ninguém poderia responder: E agora, o que será da Magda? O que vai acontecer com ela? Felinta não sabia o que responder. Lembrou que um dos filhos de Magda era médico, que encontrariam modos de continuar os cuidados com a mãe. Nada consolava a prima mais velha, na outra ponta da ligação. Felinta resolveu mudar o rumo da conversa, numa tentativa de acalmá-la: E os netos, como estão? Helga respirou, mudou o tom da voz, contando que um dos netos estava começando um curso de graduação numa universidade pública, que todos estavam bem, com saúde, felizes. Mas o marido da Magda fora enterrado no final da tarde, e agora, o que iria acontecer? E recomeçou a chorar. Algum tempo depois despediram-se, Felinta desejou calma a ela, desejou força para Magda e os filhos, antes de encerrar a ligação. Depois relatou o ocorrido para Rosa que vigiava o sono da mãe enquanto ouvia partes da conversa telefônica.

No dia seguinte, Almerinda ligou para Rosa e contou com calma e afeto sobre a morte do cunhado e os cuidados com a irmã Magda. Disse que confiava nos sobrinhos para tomarem as providências necessárias. E recuperou uma frase muito usada pelos velhos da família: Não me meto, nem dou opinião, se não me pedem. Não poderia ser mais sensata. Estaria tudo bem.

No terceiro dia, Helga chamou novamente, pelo telefone. Dessa vez foi Rosa quem atendeu. Helga ainda chorava muito, desconsolada. Rosa ouviu as perguntas, os lamentos. Concordou que o marido da Magda fora muito dedicado. Então resolveu consolar a prima. É verdade: eles eram tão ligados! Por isso, fique tranquila, que logo ele volta para leva-la. Helga levou um susto. Gastou alguns segundos para assimilar o que Rosa dissera, nas entrelinhas. Reagiu. Não! Isso não! Mas Rosa insistiu, com a voz doce, tranquilizadora. Eu já testemunhei tantas situações assim, com casais amigos, muito ligados entre si. Quando um vai embora, logo providencia de levar o que ficou para trás.

O marido de Helga morrera há muitos anos. Nunca voltou para leva-la. A essas alturas, Helga não sabia o que pensar: o vínculo do marido morto com ela não teria sido forte o suficiente? Ela deveria se lastimar por isso, ou deveria respirar aliviada por ainda estar viva? Preferiu não continuar pensando a esse respeito. Engoliu em seco. Perdeu o fio da conversa com a prima. Perdeu a vontade de chorar. Logo se despediu, mandou um beijo para a velha tia, mãe de Rosa e Felinta. Rosa achou graça da reação da prima. Deu de ombros e foi preparar o lanche para a mãe que não demoraria a despertar do sono da tarde. 

 

 

 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Estranha inspiração para buscar coragem


Sempre que preciso tomar uma decisão ou fazer algo que me provoque medo, insegurança, gerando ansiedade, me olho no espelho e pergunto “você é uma mulher ou uma barata?”. Respiro fundo e verifico a quantas andam os níveis disponíveis de coragem. Então respondo, olhando diretamente nos meus próprios olhos: “uma barata”. Encho o peito com força e sigo em frente.

Porque as baratas são assim: atrevidas, corajosas, cheias de estratégias e artimanhas. Fazem-se de mortas para fugirem no momento certo. Voam rapidamente, ou deslizam agilmente pelas superfícies construindo labirintos, para escapar aos predadores. 

Tenho muito respeito por elas. E as enfrento como boas adversárias. Por vezes, consigo até vencer os combates. No mais das vezes, elas me driblam nos ataques, deixando-me como a ver navios... No entanto, preciso admitir que o resultado é sempre injusto do ponto de vista delas: a vitória da barata significa apenas que ela escapou à minha investida; já minha vitória resulta sempre em sua morte...


 

A propósito, recentemente uma equipe do serviço de dedetização manifestou alguma admiração por não encontrar quaisquer vestígios de baratas nos diversos cômodos da casa, onde pulverizaram veneno. Em vários itens do relatório consta: nível de infestação – zero.

 

 

quinta-feira, 30 de março de 2023

Um inocente quilo de café

 

Dia de feira, fui até a barraca do seu Aloísio comprar o melhor pó de café que já conheci, moído na hora, com um aroma delicioso. Como faço sempre, cheguei por volta de quinze para as onze, um pouco antes de a feira fechar. Desta vez ele já não tinha nem meio quilo de café disponível. Professora, antes das dez eu já tinha vendido tudo, me falou, entre contente e sem graça por não ter o café para mim. Eu fico é muito alegre, pelo senhor, concluí. Coisa boa ter vendido tudo, não é? Eu é que fiquei só na vontade... rimos.

 

Então ele resolveu propor uma solução: Eu posso levar para a senhora em sua casa; onde a senhora mora? Aqui mesmo nesta rua, seu Aloísio, ali naquele prédio, mostrei a ele. Ele olhou, identificando o lugar como familiar: Ah, é o mesmo prédio do seu Bretas... Eu tenho um vizinho chamado Bretas, só não sei se é o mesmo que o senhor conhece, comentei. Ele é casado com a dona Nair? Acho que sim, me respondeu. Eu continuei tentando identificar o vizinho: Ele teve covid, ficou bem fraquinho depois... Aí seu Aloísio me corrigiu: Na verdade ele ficou bem ruinzinho depois que foi sequestrado, no ano passado; ele teve covid, depois sofreu o sequestro; isso é que acabou com ele. Eu levei um susto. Sequestrado? Como eu não soube disso? Fiquei impressionada com a informação e com o fato de eu não saber, sendo vizinha dele.

 

Combinamos, então, o dia e a hora que seu Aloísio entregaria o café lá em casa, já deixei pago, e voltei, pela calçada, encafifada com a notícia do sequestro. Na portaria, encontrei seu Francisco, aproveitei para conferir a informação. Seu Francisco foi solícito, explicando-me o ocorrido com muito cuidado e respeito à situação do seu Bretas e família: É que, depois que teve covid, ele ficou com uma alteração muito grande de comportamento... ficou agressivo, tinhas umas reações muito estranhas, às vezes ameaçadoras, com qualquer pessoa, a qualquer momento; então a filha, preocupada, resolveu internar num hospital psiquiátrico, onde ele ficou por mais de mês, em tratamento; quando teve alta, ele saiu contando que foi sequestrado, que foi torturado no lugar onde ficou preso... e quando as pessoas não conhecem ele, nem o que aconteceu, acreditam nessa história... é o que ele conta para todo mundo.

 

Eu, que já estava impressionada com a história do sequestro, fiquei ainda mais tocada com o desdobramento dos fatos, da internação no hospital psiquiátrico e da história criada por ele. Eu sabia que ele fora internado por longo período, por duas vezes, em razão da covid, mas não tinha noção da extensão do quadro.

 

Chegando em casa, contei o ocorrido para Ana, que trabalha comigo e conhece bem a família do seu Bretas e dona Nair. Ela ouviu com atenção e também ficou impressionada. Mas, um pouco depois, matutando sobre o relatado, chegou a uma outra possibilidade: Sabe que é capaz de a própria filha ter dito a ele que ele foi sequestrado e depois resgatado pela família, para ele não saber que estava num hospital psiquiátrico? Considerando o modo como a filha lida com os pais, é bem possível que ela tenha inventado essa história para ele, e a dona Nair tenha ajudado; pois eles são assim, inventam histórias para não ter que lidar com os fatos como são... as coisas acontecem, depois elas contam outra coisa que não é o que aconteceu...

 

Essa história toda já envolveu mais ação e suspense do que muitos filmes a que tenho assistido por aí. Por hoje, deu. Eu só queria um inocente e saboroso quilo de café moído na hora, da banca de seu Aloísio... e, por esse, terei de esperar até amanhã...

 


(Em tempo: os nomes das pessoas citadas foram inventados).

 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Coisas de viver em Brasília

 




Fotos: Gwavira Gwayá, 2022

No último dia 21 de abril, Brasília completou 62 anos. Acabei não me manifestando a respeito, embora estivesse atenta ao processo de amadurecimento da cidade. E também embora hoje eu reconheça que se há algum lugar em relação ao qual eu tenha sentimentos muito fundos de pertencimento, esse lugar é Brasília.

E porque no mesmo dia 21 de abril eu tenha sido surpreendida por uma experiência particular e especial, decidi compartilhá-la, para esclarecer: quem desqualifica a capital federal ou não a conhece em sua dimensão de espaço de se viver, ou não tem a menor ideia do que seja qualidade de vida.

Em primeiro lugar, é necessário dizer que Brasília não é a Esplanada dos Ministérios, nem a Praça dos Três Poderes (hoje, território de guerras...). A maior parte da população que vive no Distrito Federal muito raramente transita nesses espaços. Muitos nunca chegaram até ali. Esse território, em segundo lugar, é ocupado por políticos e profissionais vindos de todas as partes do país, cuja permanência não dura muito mais do que uma gestão. Em segundo lugar, em territórios outros, que nada devem à Esplanada dos Ministérios e à Praça dos Três Poderes, as pessoas tecem os seus viveres, numa cidade que oferece condições diferenciadas para tanto.

Dona Francisca foi minha vizinha de porta durante décadas. E dedicou-se a plantar pequenos arbustos e mudas de árvores frutíferas do outro lado da calçada que separava o jardim do prédio e o grande gramado central da quadra. Ali cresceram, então, vários pés de seriguela, acerola, mamão, dentre outras. Também marquei presença com um pé de pitanga que já se tornou uma pequena árvore. As plantas cresceram, criando uma espécie de corredor de sombras frescas sobre a calçada pela qual as pessoas passam, em suas caminhadas.

Por ali, segui também eu, pelo meio da manhã do dia 21 de abril, quando me deparei com um conjunto de trabalhos de arte pousados junto aos troncos e entre os galhos daquelas árvores. Fui tomada pelo espanto: de entre o chão coberto por folhas secas, enroscados entre galhos, já modificados pelas intempéries do clima (calor, chuva, poeira, etc.), repousavam grandes flores coloridas, peixes recortados em papelão ou madeira, trabalhos realizados com material de sucata.

Soube, pelo Seu Antônio, que um senhor, também morador do prédio, precisou se aposentar precocemente em razão de problemas graves de saúde. A partir de então, passou a produzir aquela linha de trabalhos. Alguns são vendidos. Mas a maior parte é destinada a integrar a paisagem, como aqueles que me surpreenderam.

Respiro fundo e volto a caminhar. Isso é Brasília. E me faz bem.

 

 


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Palavras e imagens


Numa plataforma digital de compartilhamento de conteúdos, encontrei a replicação de uma postagem, na qual alguém contava uma história mais ou menos assim: quando criança, ele assistira a uma palestra, na escola, de um padre que trabalhava com causas sociais. Em sua fala, o padre explicava a importância da empadinha para se ajudar as pessoas pobres. Segundo o relato, o padre enfatizou muito a questão da empadinha no trabalho junto às pessoas pobres. E o rapaz teria ficado muito intrigado, perguntando-se o porquê da empadinha. Não seria mais eficiente providenciar pão e outros alimentos? Cerca de 30 anos depois, ele descobriu que o padre estava falando, de fato, de empatia, e não de empadinha.

Achei muita graça do relato, compartilhei com pessoas amigas, para também compartilhar os risos. Enquanto contava à minha irmã, constatei que durante vários dias, enquanto lia e contava o relato, eu pensava em coxinha ante a palavra empadinha. Rimos muito do caso. Então ela resolveu contar sobre um rapaz de nossa cidade natal que teria quebrado o braço, em decorrência de um acidente. Disse: “Ele estava montando...” e eu a interrompi, completando a frase: “... um burro xucro!”. Não, “ele estava montando um toldo...”. Ele trabalhava com instalação de toldos... Isso foi motivo de muitos risos.

Lembramos de outra ocasião, quando se instalaram as primeiras barreiras eletrônicas para controle de velocidade de veículos automotores, nas vias da cidade. Minha irmã me explicou, à época, que se passássemos “montados na faixa”, o sensor eletrônico não capturaria. Eu, com o repertório de imagens que conecto à palavra montar e seus derivados, fui logo imaginando alguém a trote, montando um cavalo, passando pelos sensores. E concluí que não seria capturado pelos sensores, provavelmente, pela baixa velocidade. Mas o que ela queria dizer era que se os carros passassem com uma lateral numa faixa e outra lateral noutra faixa...

Agora fico a imaginar alguém montando um cavalo xucro sendo capturado pelos sensores eletrônicos de velocidade, enquanto busca uma empadinha... (ou seria uma coxinha?) vendida sob algum toldo... 

 

 

 

sábado, 24 de abril de 2021

O sapo


Quem venha das bandas do poente caminha pouco mais que meia légua depois da ponte, e já se depara com a entrada para a casa da minha tia, numa curva da estrada. Ali, ela vive com o marido, as plantas e os animais domésticos. E outros que se agregam às instalações residenciais, sem necessariamente terem sido convidados, por assim dizer.

Tem já algum tempo, ela começou a se deparar com o aumento da população de sapos. Quando menos espera, tropeça num. Uns mirrados, outros bem grandes... Sapo é bicho que não se pode matar. Toda vez que encontra um, com todo o cuidado, ela coloca o animal num saco, e o deixa no outro lado do rio. 

Andava cansada de tanto atravessar o rio para levá-los à outra margem. Coisa trabalhosa. Também começou a ter dúvidas a respeito da quantidade efetiva de sapos, especialmente os maiores. Por isso, resolveu tomar uma providência. Munida com um vidro de esmalte vermelho, pegou um dos sapos, dos grandes, e pintou-lhe as unhas. O bicho, imobilizado dentro do saco, não teve como escapar. Ela ainda esperou, pacientemente, até ter certeza de que a tinta estava seca, antes de deixá-lo, como de rotina, do outro lado do rio. Voltou para casa, entre expectativas.

Não demorou nem uma semana, e ela já pôde fazer a verificação de que precisava: lá estava o sapo, nas cercanias da casa, senhor de si e das unhas pintadas com seu esmalte vermelho. Havia outros. Mas aquele, especificamente, passou a ser referência para ela. 

É de se supor, também, que ela tenha sido adotada pelo sapo, e não o contrário. Talvez fosse ele quem andasse às voltas, tentando entender as motivações dela para leva-lo, tão insistentemente, para o outro lado do rio...




domingo, 21 de fevereiro de 2021

Sobre um encontro com Lisístrata

 

Lisístrata, a greve do sexo é uma comédia grega escrita pelo grego ateniense Aristófanes, que teria vivido por volta dos anos 445 e 385 antes da era cristã. Ela conta a história do levante de mulheres de Atenas, com a parceria das espartanas, lideradas por Lisístrata, contra a guerra interminável entre soldados atenienses e espartanos. A guerra ceifa a vida dos homens e dos filhos dessas mulheres, além de esvaziar os cofres públicos. Elas, então, decidem deflagrar uma greve de sexo, que só é interrompida quando seus maridos assinam o acordo de paz. O acordo, personificado pela própria figura da Paz corporificada, é a condição para que se inicie uma orgia. Fecha-se o pano. Fim de espetáculo.

Em meados dos anos 1980, uma amiga integrou o elenco que estava trabalhando na montagem do espetáculo. Ela faria exatamente a personagem Paz. Eu comecei a ajuda-la na na composição da personagem. Para tanto passei a comparecer aos ensaios. Ela desistiu de participar, e eu acabei assumindo o papel. Tinha me afeiçoado. Ao longo das demais cenas, eu participava do côro feminino. A certa altura, deixava o côro, indo preparar a personagem final, com maquiagem intensa, apliques que alongavam os cabelos até à altura das pernas, um véu muito transparente e o corpo nu.

O elenco era numeroso. No decurso dos trabalhos, delineou-se uma divergência entre o grupo dos homens, autorreferidos como mais profissionais, exigentes no tocante aos rigores da produção, e o grupo das mulheres, por eles apontadas como amadoras, pouco profissionais. As tensões decorrentes dessa situação intensificaram-se desde circunstâncias pontuais até uma predisposição quase permanente para a discussão.

Se o elenco feminino, em geral, era considerado amador, especialmente eu era destinatária de piadas recorrentes. A personagem Paz não tinha fala, e a mulher do côro se manifestava poucas vezes, no coletivo, sem destaque. Amiúde, eu ouvia por parte de alguns dos atores a pergunta: “Vocês já ouviram a fala dela? Gente, prestem atenção, senão não ouvimos sua voz!”

A atriz que interpretava Lampito, a espartana que participava na assembleia de mulheres atenienses, na primeira cena, começou a cobrar do diretor uma tomada de posição em relação às provocações recorrentes do elenco masculino. O diretor tentava contornar a situação, sem confrontos.

Havia, sim, uma cisão claramente marcada entre homens e mulheres na montagem daquele espetáculo que tratava exatamente de uma greve deflagrada por mulheres ante o comportamento competitivo e belicoso dos homens... curiosa situação...

A pré-estreia do espetáculo estava agendada para um sábado, numa cidade satélite. Funcionaria como um ensaio geral com público. Na quinta-feira da semana seguinte ocorreria a estreia para temporada de várias semanas no teatro onde tudo já estava devidamente montado: cenário, iluminação, sonorização, etc. Na quinta feira de véspera, a atriz que interpretava Lampito, depois do ensaio e de alguns confrontos com o elenco masculino, anunciou sua saída do espetáculo. Não se sujeitaria mais àquela situação. Antes de se retirar, desafiou o diretor: “Quero ver você estrear essa peça”.

Lisístrata andava com a popularidade em alta, por aqueles tempos. Numa faculdade de artes cênicas, um professor acabara de montar a cena da assembleia, fazendo alguns experimentos de atuação, cenário e figurino. Alguém sugeriu convidar a atriz que interpretava Lampito dessa outra montagem, e assim se fez: a pré-estreia, na cidade satélite, contou com a atriz que fazia parte do outro projeto. Embora tudo tenha transcorrido bem, ela comunicou que não poderia permanecer no espetáculo, por uma questão ética. Sua atuação fora dirigida pelo outro diretor, e estava articulada a uma concepção de cena diversa daquela da qual fazíamos parte. Desse modo, voltávamos à estaca zero. E na segunda feira nos reunimos no teatro, para buscar alguma solução.

Entre as poucas saídas disponíveis, considerou-se a possibilidade de que eu assumisse a personagem em questão. Essa solução, contudo, apresentava um problema. A ideia inicial era preservar a imagem final da Paz. Assim, para assumir Lampito, foi necessário construir um perfil com traços muito distintos e próprios também. Enquanto a Paz era sensual, sinuosa, cabelos longos e esvoaçantes, cercada de tecidos leves em tons de branco e azul claro, Lampito era uma guerreira, portando capa e armadura, botas, cabelos presos, roupas de couro em tons de marrom escuro e preto, gestos duros e decididos, voz grave e firme, com espaços para algumas doses de humor. Assim, os homens do elenco passaram a ter oportunidades multiplicadas para ouvir a minha voz, desde a primeira cena...

Os ensaios aconteceram em apenas dois dias, terça e quarta feiras, com estreia já na quinta-feira, entre sustos, mas sem comprometer o espetáculo.

O elenco masculino recuou da postura mais agressiva, tendo passado a ter mais cuidado em relação à linguagem. Ainda e assim, seu perfil se manteve marcadamente arrogante, com necessidade de se impor, em relações de poder assimétricas.

A temporada naquele teatro seguiu-se a uma série de temporadas curtas em outras cidades satélites, com uma diversidade de situações que, de diferentes formas, replicaram para os contextos da produção e das relações com os públicos as questões tratadas pelo texto teatral. Sua atualidade chama a atenção.

Do mesmo modo, merece destaque o elenco personificando a tensão desenhada pelo espetáculo, explicitando o quanto essas são questões que pulsam, movendo nossa sociedade marcadamente patriarcal, machista e belicosa. Mesmo quando se trata do campo da arte, cujos agentes reivindicam para si comportamentos capazes de criticar o status quo...

 

 

 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

III Guerra Mundial


De saída, devo informar que não me sinto confortável com a expressão “guerra mundial”, se pensamos em abrangência planetária, envolvendo embates entre a espécie humana (ainda que tais embates repercutam mortalmente entre outras espécies de vida). Não cabe a uma guerra entre humanos a alcunha de mundial... 

Mas, vamos lá: não é de hoje que os medos sobressaltam pessoas nos cinco continentes, com a possibilidade de que se inicie a III Guerra Mundial, quando os traumas e as sequelas causadas pelas I e II Guerras ainda não foram totalmente sanadas. Como seria a III edição da guerra? Qual seria o seu disparo? Quais as armas?

Suspeito que, presa a imaginação a modelos anteriores de guerra, não se tenha percebido que há estamos imersos na III Guerra Mundial em pleno curso.

Mulheres são mortas em crimes horrendos de feminicídio em escala crescente, a despeito de legislações, mobilizações, pedidos de socorro.

Populações negras são assassinadas nas periferias das cidades, em atos crescentes de desprezo às suas existências.

Comunidades indígenas vêm sendo eliminadas, apagadas, no continente americano desde a chegada dos europeus.

Populações e etnias de quantos países não têm direito de voltar a suas casas, em confrontos bélicos, mas também religiosos, que se estendem à violência contra mulheres, contra orientações sexuais não dominantes, racismos e processos de escravização de toda ordem. A morte é só uma das etapas de sua desterritorialização radical, de sua dor, do castigo que que é impingido pelo crime que cometem por viverem.

E o Corona Vírus 19 comparece dando celeridade a uma guerra já em curso, manifestada em múltiplas faces e feições.

As duas primeiras guerras configuraram-se entre estados-nação. Ao final do século XX, falou-se tanto sobre o enfraquecimento dos estados-nação ante os processos de radicalização da economia global, e ante o poder do capital multinacional. Por que haveríamos de esperar, então, uma guerra entre estados-nação, e não uma guerra que, embora pautada e supostamente performada por estados-nação, seja regida, de fato, pelo capital, que não reconhece outras fronteiras geopolíticas que não as de seus próprios ativos?

O capital avança sobre as mulheres, os pretos, os pobres, os índios, as florestas, o deserto, o gelo, os elefantes, os tigres, as onças pintadas, as águas, os peixes, os outros, os diferentes, os não sabidos, os estranhos... seu rastro é de morte. Devem morrer, mas é preciso que não morram todos, para assegurar a manutenção de mão de obra, de populações para serem escravizadas, de mulheres para a reprodução e para serem estupradas, violadas...

Sim, estamos em plena vigência de uma guerra que envolve os estados-nação regida pelo capital. Os cadáveres se acumulam por todas as partes. A dor me atravessa o peito e já quase não consigo respirar. Os mortos não são apenas vítimas da COVID-19. Ao contrário. A pandemia é apenas mais um vetor.


 

PS.: A propósito, é preciso admitir: o Corona Vírus é uma substância viva altamente inteligente. Rapidamente tem se adaptado ao comportamento da espécie humana, reconhecendo nossa insanidade e beligerância, e jogando com elas. Talvez, hoje, o Corona Vírus conheça mais do nosso comportamento do que nós mesmos.

 




terça-feira, 22 de dezembro de 2020

E então novamente é Verão. E então é Natal mais uma vez.


Na quinta feira, dei aula a manhã toda. Era a segunda aula do semestre com a turma ingressante no curso de licenciatura em artes visuais. Uma turma grande, plural, cuja interlocução me estimulava. Tínhamos um percurso a cumprir juntos, na disciplina Fundamentos da Arte na Educação.

Mas já havia uma expectativa no ar, relativa à pandemia, em curso. Ninguém tinha uma ideia do que aconteceria a seguir. Ainda não se tem. Acho que nunca se terá.

Na parte da tarde, ainda na universidade, encontrei alguns orientandos e orientandas. Conversei com uma professora que participava de um projeto comigo. Dei vários encaminhamentos que ganharam feições de preparação para o extraordinário, ainda que não fosse essa a intenção.

Maria me procurou. Tínhamos agendado uma reunião de orientação para a segunda feira seguinte. Desmarcamos, pois a universidade já tinha acenado para a suspensão das atividades a partir da semana próxima. Aguardaríamos os desdobramentos, para agendar novo encontro.

No final da tarde, saí à porta da faculdade. Avistei a cidade, ao longe, sob o sol morno daqueles que ainda eram dias de verão. Na mata, ao lado, a bicharada fazia algazarra. Despedi-me das pessoas que também cumpriam suas jornadas por ali. Alguns cachorros espreguiçavam nas calçadas. O carro saiu aos solavancos no trecho de terra que liga o edifício à rua de acesso.

Levava a expectativa a respeito do que se abateria sobre nós. Não era possível supor. Desde então, não retornei à faculdade. Alguns dias depois daquela quinta feira, teve início o Outono. Falava-se, então, que a suspensão das aulas iria até o final do primeiro semestre. Parecia muito. Mas o tempo correu mais rapidamente do que se supunha. E levou, consigo, um número cada vez mais crescente de vítimas da COVID-19. Os prazos foram se alargando progressivamente. Algumas atividades acadêmicas foram sendo retomadas, buscando-se alternativas em suas formas e dinâmicas. Outras atividades não tiveram interrupção.

E veio o inverno. A universidade acabou retomando as atividades quase que plenamente, no segundo semestre. Com as atividades remotas, o calor insuportável, a baixa umidade, as aulas da graduação foram retomadas. A turma com que eu estivera naquela quinta feira quando ainda era verão retomou as aulas, agora com outras dinâmicas. Muitas pessoas desistiram de estudar neste momento. Foram muitas as perdas. Mas também se conquistou a possibilidade de cumprir a jornada até o final, apesar das dores, com quem tenha conseguido reunir forças, energia e determinação suficientes para não desistir.

Aulas, reuniões, bancas, orientação, encontros, eventos, seminários, cursos, oficinas, eleições, tudo, tudo, tudo migrou para os ambientes digitais. Rapidamente, os écrans tomaram conta do quotidiano, numa infinidade de links, sobreposições de agendas, regras de conduta, interlocuções de toda natureza.

A Primavera nos encontrou exaustos. E continuamos exaustos até que chegamos novamente ao Verão. No segundo dia da nova estação, tomou posse a diretoria da Faculdade de Artes Visuais, para cumprir nova gestão de quatro anos. O diretor, reconduzido para o cargo, se investe de sensibilidade e coragem para essa travessia com desafios extras cujas dimensões ainda não podemos mensurar. O vice-diretor, jovem, com carreira iniciante, se lança à empreitada, evocando o espírito de colaboração, com garra e coragem.

Daqui a dois dias, será véspera de Natal. Uma semana depois se iniciará a contagem dos dias de um novo calendário, referente ao ano 2021 da era cristã. Ainda estamos em pandemia. Nossas atividades acadêmicas e escolares presenciais ainda estão em suspenso. Mas o funcionamento da universidade prossegue, a pleno vapor. Intenso.

Noutro dia, soube que aumentou o número de família das corujas buraqueiras no Campus II. Queria saber também sobre as outras famílias, dos quero-queros, dos pica-paus, das curicacas... e dos pés de jacarandá mimoso, de ipê, de flamboyant... E como andariam os macacos-prego? Os cães continuam guardando o prédio da faculdade. Ainda bem!

Nesses tempos, fortaleceram-se alguns vínculos com pessoas de outros países. Vamos nos descobrindo, aprendendo a compartilhar inquietações e sonhos. Não, não estamos sós, embora também estejamos. Penso nas e nos estudantes que iniciaram o curso duas semanas antes da suspensão das atividades presenciais. Teria ficado feliz se quem desistiu tivesse condições de permanecer, ou de voltar. Penso nos meus orientandos, nas minhas orientandas; nas professoras e nos professores parceiros; nas parcerias de pesquisa, naquelas pessoas que não abandonaram as trincheiras.

Rapidamente, nos aproximamos, no Brasil, da marca dos 200.000 mortos pela COVID-19.

Além do corolário de mortes, o Verão trouxe as chuvas, e manteve o calor. Traçamos planos para o futuro, mas já não para futuros distantes. Mesmo dos futuros próximos já não conseguimos ter mínimas certezas. Tememos. O que planejar para o próximo Outono? Que estejamos vivos, talvez. Que possamos nos reencontrar depois do próximo Inverno, quem sabe? Melhor ater os projetos na possibilidade de celebrar este dia, agora, esta luz diáfana, o frescor deste vento, as sonoridades que se dissipam no espaço... os afetos que aquecem o coração.

E então novamente é Verão! E então é Natal mais uma vez!

 

 

domingo, 18 de outubro de 2020

Da dádiva e da gentileza


Nestes tempos tão obtusos (e me pergunto o que eu teria, de fato, contra os ângulos obtusos? O que seria, afinal, dos ângulos agudos não existissem os obtusos?...), o desalento muitas vezes nos toma de assalto, e permanece, sem querer nos deixar. Das questões macro às relações interpessoais quotidianas, não faltam sustos, inquietações e preocupações a desestabilizar quaisquer projetos de calma.

Mas também é nesses tempos tão obtusos que pequenos gestos ganham uma dimensão particular, assegurando a ancoragem de sentidos possíveis aos nossos dias. Foi assim quando a vizinha deixou uma abóbora no batente da porta de casa, e ligou avisando. Ou quando a outra vizinha deixou dependurada uma sacolinha com doces jabuticabas e, na semana seguinte, uma sacola com pequi. E o pão caseiro deixado por um casal de amigos queridos, que já haviam deixado, anteriormente, um bolo. E o outro bolo com sabor e cheiro de laranja trazido por um amigo e uma amiga, com um livro de poemas, e eu ainda não sei qual é mais doce: o bolo, o livro, o afeto, ou tudo junto... E o que falar da caixinha com torrõezinhos de chá de erva-cidreira? E da camiseta com o anjo da história? E do bolo de jatobá, feito a seis mãos, quatro das quais tão pequeninas e sábias? E o bolo de maçã, assado numa forma que mais parece uma mandala? E a azaleia cor de rosa florida, parceira da orquídea lilás? E as mudinhas de onze horas vicejando na chaleira que virou vaso de plantas sobre a mesa? E a pombinha que, na varanda, cuida já de sua segunda ninhada de filhotes? 

Pois ontem foi dia de mais um gesto de dádiva e gentileza: recebi, de presente, um CD com o encarte e uma máscara que integram um projeto belíssimo realizado pelo Frederico Carvalho. Com direito também a um sorriso fraterno, num fim de tarde com alguma chuva, e algum frescor.

Por vezes, tendo a me alinhar aos discursos que argumentam ter sido, este, um ano perdido. Mas quando me aninho com esses gestos de afeto tão especiais, porque são necessários tanto quanto água e ar, entendo que não tenho o direito de ser injusta. Nas travessias mais duras encontram-se também as manifestações mais potentes daquilo que nos dá ânimo para não desistir.

Se, a cada gesto de dádiva de que somos destinatários, nos cabe acolher e retribuir (na velha equação que diz: dar, receber, retribuir), neste ano tenho visto ampliar-se o rol das minhas responsabilidades de partilha, para corresponder à possibilidade de manifestações de afeto que dizem: estamos aqui, somos melhores se estivermos juntos, se formos capazes de multiplicar gestos de gentileza.

Obrigada Mary Elza, Ivones, Renato, Lorena, Juan, Bruno, Naras, Rafael, Mariana, Denilson, Julia, Marcelo, Alices, Maitê, Alzira, Iana, Leda, Bráulio, Fred, Cátia, Jossier, Carol, Carla, Bárbara, Aline, Matheus, Gabrielas, Adriane, Henrique, Zaldo, Emile, César, Anai, Nilo, Jota, Ruth, Marias, Néia, Yunna, António, Márcias, Maurício, Muniz, Vagna, Adalto, Iria, Helô, Josés, Anas, Adrianas, Esau, Sofía, Fernandos, Gonzalo, Diana, Rubén, Norberto, Wanderley, Mara, Tony, Reginaldo, Cleuzinha, Vi, Lara, Hélio, Antonella, Katia, Vanessas, Lauras, Gabriéis, Taísa, Luti, Paulo, Ro, Juliana, Márcio, Lu, Talita, Renata, Neila, Aristein, Dheniffer, Ayme, Valéria, Lilian, Noeli...

 


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Sobre ser gorda... ou ser um monstro... ou ser um carro da Fórmula 1...


Desde criança, sempre fui considerada gorda. Tanto ouvi que era gorda, afinal acreditei no que me falavam. Hoje, vejo fotos antigas minhas... e dou-me conta do absurdo de que fui convencida. Nessa perspectiva, vivi muitas situações discricionárias, desrespeitosas, violentas. Mas esse é um assunto sobre o qual a maior parte das pessoas se cala. Inclusive nós, as mulheres gordas.

Duas circunstâncias envolvendo profissionais da saúde foram especialmente marcantes. Sobretudo porque as interlocutoras eram mulheres... 

Na primeira, eu tinha por volta de 22 anos, vestia manequim 44, fazia aulas de dança, era professora, em plena atividade. Por ter ouvido excelentes referências, fiz consulta de rotina com uma médica, clínica geral que também era homeopata. No retorno à consulta, levei-lhe os exames solicitados. Os resultados eram todos excelentes. Ela os leu, anotou, disse que estava tudo muito bem, mas eu tinha uma questão urgente a tratar. Foi incisiva: eu tinha um rosto angelical, mas meu corpo era de um monstro. Eu precisava tomar providências urgentes para emagrecer. Aquilo me impactou de tal forma, que saí meio zonza do consultório. Não retornei mais.

Mas, no decurso do tempo, a acusação de ser gorda (sim, é sempre uma acusação, uma culpa) vinha acompanhada do apontamento de uma possibilidade de redenção: restrição alimentar para o emagrecimento. Basta fechar a boca! Ou fazer o bom uso de medicamentos... Não, senhoras e senhores, não é bem assim!

Minha alimentação sempre foi muito cuidada, sempre fui ativa, envolvida com várias práticas corporais que passavam pelo teatro e pela dança. Tive várias doenças, sobretudo as virais e também infecções por bactérias. Mas, no geral, minha saúde sempre esteve bem melhor do que a saúde de minhas colegas mais magras, algumas magérrimas.

Já perto dos 40 anos, conheci uma nutricionista que me ajudou a equacionar algumas coisas da minha alimentação. Sem maiores mirabolâncias, tudo foi feito de modo muito simples. Ela trabalhava num hospital público. Durante um ano, estive com ela poucas vezes, umas quatro, no máximo. Mas havia outros vetores envolvidos. De modo que, naquele período, tudo parece ter convergido para uma estabilização do meu peso, e eu me senti um pouco melhor. O que significa eu ter me sentido melhor? Sobretudo, eu tinha a aprovação das pessoas que me olhavam e diziam coisas que poderiam ser traduzidas para "agora sim, finalmente você não está mais tão gorda!"

Mas, em seguida, iniciei novo percurso profissional, em outra cidade, e o corpo retomou também a linha lenta e continuamente ascendente no peso. Por indicação e insistência de pessoas próximas, acabei agendando consulta com uma médica nutróloga que me recebeu já advertindo: eu precisaria cortar a cerveja, a coca cola e o guaraná. Brinquei com ela dizendo que o desafio dela era ainda maior, pois eu não usava nenhuma dessas bebidas. Fiz todos os exames solicitados. Ela surpreendeu-se com os resultados excelentes. Disse-me que eu tinha um carro da Fórmula 1 (referindo se ao meu organismo como uma máquina), mas me apontou o dedo dizendo que eu estava tratando mal esse super carro. Em nenhum momento ela considerou o fato de que os exames mostravam bons resultados exatamente porque eu me cuidava. Ou seja: ser gorda não era um indicador de falta de saúde, mas um traço biotípico. Ao contrário, ela me acusava de ter a sorte de ser proprietária de uma máquina invejável, e de trata-la de modo negligente, sendo gorda.

Também a esse consultório não retornei. 

Situações como essa se repetiram algumas vezes, com diversos profissionais que deveriam cuidar da saúde...

O contexto cultural em que vivemos padece de uma espécie de esquizofrenia sistêmica. Nossos corpos se esgarçam entre demandas contraditórias, assimétricas. Precisam responder a exigências estapafúrdias, cobranças, culpas e acusações. O corpo é tido como coisa, objeto, natureza a ser dominada por um projeto de sociedade cheio de fissuras, fraturas, mortes... Nesse contexto, o corpo é propriedade, mas não me pertence. E eu, que sou tudo junto, sou corpo-afetos-pensamento-percepção-mundo, preciso desenvolver estratégias de sobrevivência, jogando entre as culpabilizações (no mais das vezes silenciosas, mas nem por isso menos contundentes) e as possibilidades de me encontrar plena nos territórios e caminhos por onde transito, nos contextos de meu pertencimento, sendo mulher, sendo o que sou.

 

 

 


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Cindidos















imagem de arquivo pessoal



 imagem encontrada aqui


imagem encontrada aqui

Nasci na fronteira. A fronteira é parte constituinte do que sou. Eu não glamourizo a fronteira: ela é sempre tensa, prenhe de conflitos, mas também nos ensina a transitar entre as diferenças, na diversidade. Na fronteira se formam trincheiras, em tempos de guerra. Mas também se constroem as feiras de compras e vendas, as trilhas que levam a encontros, a falares de muitas línguas.

A fronteira, de onde eu vim, é marcada pela guerra. A guerra mais perversa impetrada na América do Sul, que resultou num genocídio do qual não se pode olvidar. As memórias da guerra pulsam em territórios insuspeitados. Mas sobre ela constroem-se, ou buscam-se construir relações outras, capazes de cultivar esperanças e alegrias.

Na minha infância, uma das alegrias tinha o nome de coquito: um biscoito redondo, crocante, comprado no Paraguai, numa padaria que ficava muito próxima da nossa casa, do lado brasilense.

Muitos anos mais tarde, já na adolescência, habitante do Planalto Central, caminhava pela Esplanada dos Ministérios, com a sensação de mergulho nos verdes e azuis daquela paisagem imensa. Avistar os edifícios logo ali adiante, e descobrir que tinham enganado minha visão no tocante às lonjuras dava uma sensação de liberdade embriagante. De deslimite. Não por acaso a capital federal também foi escola de encontro com o outro: todos não éramos dali, e experimentávamos esses deslimites, em nossas diferenças.

De algum tempo para cá, isso tudo ficou fraturado. A dor que sinto hoje, provocada por essa fratura, sequestra qualquer esperança de que, em algum momento, se possa recuperar a possibilidade do encontro na diversidade pautado pela ética, pelo respeito, pela civilidade.

Visualmente, posso localizar essa fratura em dois momentos.

O primeiro, ocorrido em 2016, quando, em razão das manifestações populares durante as votações para o afastamento da Presidenta da República, foi erguida uma parede longitudinal ao meio da Esplanada dos Ministérios. Tinha o objetivo de evitar o enfrentamento corporal de manifestantes enraivecidos, já incapazes de encontrar o outro.

Ainda sem essa informação, passava distraída pelo lugar, quando me deparei com a parede. A parede fraturou a sensação de lonjuras, de deslimite, de possibilidades múltiplas. A parede fraturou minha relação com aquele lugar. Desde então, entendi que éramos gentes cindidas, e que talvez sequer tivéssemos uma ideia de como resolver esta cisão. Talvez muitas gentes prefiram mesmo continuar cindidas...

Quatro anos depois, nos encontramos em meio a uma guerra que vai muito além de fronteiras geopolíticas, e da qual depende nossa sobrevivência. Uma pandemia provocada por um vírus sobre o qual quase nada se sabe. E voltamos ao cenário político local, em que nos deparamos com uma política nacional construída a partir da cisão. Assim, em estado de guerra em razão da pandemia, precisamos nos salvar, mas nos encontramos num cenário com aprofundamento das fraturas visualizadas desde a construção daquela parede em plena Esplanada nos Ministérios.

Assustamo-nos diante da publicação de cada novo relatório do número de mortos. "No hay muerto que no me duela", cantarola Jorge Drexler, "No hay un bando ganador... No hay nada más que dolor, y otra vida que se vuela..." Superamos já todos os países em número de mortes diárias. Subimos ao podium. Nossas feições são de medo, desalento, desamparo. Recebo mensagens de amigos de outros países. Querem nos fortalecer. Querem dizer que vamos superar. Que somos fortes. E eu já não estou certa disso.

Então me deparo o segundo momento, também traduzido em imagem para compor a narrativa da fratura. O governo paraguaio fechou as fronteiras. Entre as duas cidades de onde eu venho, foi aberta uma vala, foram estendidos fios de arames farpados e colocados pneus nas passagens. Guardas armados garantem a preservação da integridade de seus cidadãos, evitando que brasilenses os contaminem com o novo vírus, tendo em conta, sobretudo, o modo caótico com que a questão tem sido tratado do lado de cá das fronteiras.

Vale notar que boa parte dos meus conterrâneos costumava buscar atendimento de saúde do lado paraguaio, dada a precariedade do atendimento público brasilense, e o caráter mercantil das instituições médicas e hospitalares de natureza privada. Dentre os inumeráveis exemplos, estão os quantos brasilensezinhos trazidos à luz em hospitais paraguaios.

Eu não poderia imaginar, no pior dos pesadelos, ou na mais imaginativa distopia, uma cena assim traçada. Nela, já não me seria dado comprar coquitos do outro lado da rua.

Em tempo 1: a palavra diabo chegou ao português contemporâneo por via do latim diabolus, do grego clássico διάβολος ‎(diábolos), vocábulo constituído pelo prefixo διά ‎(diá) e por βάλλω ‎(bállō), «atirar». O referido prefixo exprime separação, divisão, pelo que diabo, literalmente, indica aquele que desune, que inspira ódio ou inveja. (informações buscadas em Ciberdúvidas da Língua Portuguesa)

Em tempo 2: a palavra brasilense resulta do topônimo Brasil+ense, significando a nacionalidade de quem nasce no Brasil. É uma opção intencional em substituição à palavra brasileiro, ou brasileira, usada amplamente e tomada, quase sempre, como única possibilidade. A respeito dessa escolha na escrita, você pode buscar esta postagem: Sobre ser brasilense 











terça-feira, 12 de maio de 2020

De pitahayas, mimos e afetos (para o Bruno, meu sempre querido Bruno)



Tempos estranhos, estes. Lembro-me de ter ido à universidade numa quinta-feira. Dei aulas a manhã toda, almocei, e à tarde encontrei com alguns orientandos, resolvi questões administrativas de rotina, preenchi relatórios. Acabei desmarcando um encontro agendado para a sexta-feira. Havia outro agendado para a segunda-feira seguinte, mas confirmaríamos durante o final da semana. Voltei para casa no final da tarde. E não retornei mais à universidade, há mais de 70 dias, mês de maio adentro. 

Tampouco saí da universidade: docentes, estudantes, técnicos e gestores, todos continuamos a trabalhar, desde nossas casas, pelas vias digitais. E já vamos ficando exaustos nesse exercício de compressão de todas as nossas atividades acadêmicas nas janelas dos aparatos tecnológicos das redes digitais de comunicação...

Saudades de encontrar as pessoas queridas pelos corredores, dos debates em sala de aula, dos abraços fraternos... Ah, os abraços!

Dia desses recebi uma mensagem por uma das redes digitais de relacionamento social: tem uma coisa para você na portaria do seu prédio. Seu Walmir, o porteiro, confirmou: um rapaz deixou uma coisa aqui para a senhora.

Coloquei a roupa e o calçado destinados para as breves saídas (cada vez mais raras), deixei o álcool próximo à porta para a desinfecção no retorno, coloquei a máscara de algodão duplo, e desci. Numa sacola, uma pitahaya rosa, enorme. Sorri. Pitahaya é a outra palavra com que, agora, posso nominar o gesto do abraço. Abraço grande, adocicado, que aquece o coração.

Demorei para decidir saboreá-la. Queria que a pitahaya permanecesse ali, no tempo. Afeto que fica.

Para quem ainda não experimentou seu sabor: pitahaya, ou pitaya, ou ainda pitaia, velha conhecida da cultura asteca, é o fruto de algumas espécies de cactos nativos da América Latina. A palavra pitahaya significa “fruta escamosa”, e pertence à língua taína, da família linguística macroarahuacana, que se estende desde a América do Sul, até o Caribe. Sua flor, branca e intensamente perfumada, abre-se apenas durante a noite. Por isso é chamada de rainha da noite.





sexta-feira, 8 de maio de 2020

Dos que habitam esta casa, e sobre um filhote de lagartixa, mais especificamente.




Em fala comum, recorrente, eu diria que sou dona desta casa. "A minha casa" é uma expressão que traduz bem esse sentimento de posse e pertencimento. Ela foi adquirida há pouco mais de 13 anos, desde quando eu a habito. Sou portanto, sua proprietária...

Quanto engano, o meu!

Uma miríade de vidas habita estes aposentos. Algumas passíveis de serem percebidas pela minha visão, quantas outras não! Podemos pensar sobre essas vidas por escalas. Comecemos pelas plantas, muitas das quais eu sou a responsável pelo plantio, mas várias outras vieram sem serem trazidas por mim. Embora, em escala de percepção imediata ao olhar eu possa dizer que são facilmente constatáveis, seu comportamento não, conquanto observem outras escalas temporais. Ou seja, seus movimentos, suas reações seus avanços e recuos não são facilmente observáveis na medida em que exijam outra noção de ciclos temporais. Estão ali, e eu as vejo. Só que não...

Já entre elas, miríades de pequenos seres coabitam, entre os galhos, as terras, os vasos, as flores: desde formigas e pequenos seres voejantes, até os micro-organismos inalcançáveis à minha visão. E eu nem saí da varanda...

Pela casa adentro, mais minúsculas formigas coabitam a casa, mesmo quando eu julgue tê-las extinguido. Pequenos besouros, borboletinhas, insetos de toda sorte, além de mais miríades de micro-organismos... tão ou mais proprietários destes territórios do que eu...

E as lagartixas domésticas constituem um caso à parte. Desde que aqui cheguei, já nem sei com quantas gerações delas terei compartilhado os aposentos, principalmente da sala e biblioteca. Vez ou outra, em períodos razoavelmente espaçados para a minha escala de tempo, deparo-me com uma delas, que foge, assustada. Em tempos de pandemia e distanciamento social, suponho que estejam incomodadas com nossa presença ininterrupta na casa. Perderam, em muito, a possibilidade de circular sem maiores riscos.

Sim, sempre há riscos... O convívio nem sempre é amigável, com consequências diversas, seja para as demais formas de vida, seja para as formas de vida da espécie humana...

Ainda ontem, entrei no sanitário, à noite. Quando acendi a luz, percebi o pequenino ser próximo à porta. Era um filhotinho de lagartixa. Como não fugia à minha presença, cheguei mais perto para observar. Eu esmagara seu rabo, e ela estava colada ao chão. Acho mesmo que não vou esquecer de seus olhos muito negros a saltar do pequeno corpo, fixos em mim. Exercitando, na medida do possível, alguma empatia, me imaginei em seu lugar, e pensei no pânico que estaria sentindo. Com cuidado, fui descolando do chão o rabo esmagado, enquanto a lagartixinha agitava as patinhas, tentando se desvencilhar de mim. Escapou, meio desequilibrada, saiu arrastando a cauda destruída. Parou entre a cesta de roupas e a parede. Ficou ali, paradinha, sem se mover. E eu parada a observá-la, querendo muito que ela sobrevivesse ao desastre provocado por mim.

Algum tempo depois, quando retornei para ver como estava a minha vítima, já não a encontrei. As lagartixas comportam-se assim: muitas vezes fazem-se de mortas, até passar o perigo. Depois fogem, para cuidar de si. Espero, sinceramente, que ela possa restaurar o rabo o mais prontamente! E possamos nos reencontrar em situações menos desastrosas, para ela e para mim...







sábado, 4 de abril de 2020

Afetos, abóbora e gratidão







O dia foi marcadamente mais angustiado do que tem sido até aqui. Acho que ter assistido ao filme O Poço, ontem, me deixou o pensamento com inquietudes extras. Some-se a isso a leitura de uma reportagem alertando para o fato de que São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro, Amazonas e Distrito Federal estariam enveredando, a estas alturas, já para a segunda fase do processo de contaminação pelo covid 19, chamada de “aceleração descontrolada”, a mais agressiva. O Distrito Federal destoa ainda mais nesse cenário, apresentando o coeficiente de incidência mais alto, de 13,2 infectados para cada 100 mil habitantes, enquanto a média nacional é de 4,3 infectados para cada 100 habitantes.

Aceleração descontrolada... Em algum momento houve algum tipo de controle no expoente multiplicador do processo de contaminação por esse vírus? Em algum momento, governantes, autoridades sanitárias, empresários, responsáveis pela saúde pública, e mesmo as populações em geral tiveram algum controle sobre a aceleração desse avanço?

Pela manhã, confeccionei uma máscara para mim, com algodão duplo, com estampas de flores. Não importa se são portadoras de humor, se são graciosas, se posso combinar com os óculos ou a roupa, são as novas burcas, de uso obrigatório: devem ser usadas toda vez que formos à rua. 

No final da tarde, recebi a mensagem de uma amiga contando que uma conhecida sua, técnica de enfermagem, jovem com 38 anos, morrera em decorrência do vírus, ainda hoje pela manhã. Pensei na sua morte, nas mortes em decorrência do covid 19: mortes solitárias, sem afagos, sem alento. Funerais aligeirados, sem testemunhas...

Sem conseguir me desfazer de sustos e indagações, tentei dar curso a algumas atividades inadiáveis: relatórios, projetos, textos, cuidados com a casa, e me perdi no tempo, sem me aperceber.

Já passava das 20 horas, quando ouvi a campainha tocar. Fui tomada de sobressalto. Quem, em tempo de isolamento social, tocaria a campainha de casa num sábado à noite, sem se anunciar? Algum morador do prédio precisando de ajuda? Ouvi uma voz de mulher, chamando pelo meu nome. Reconheci a voz de uma vizinha muito querida. Abri a porta rapidamente, enquanto ela me dizia: Só uma palavrinha, mas de longe! Ela estava apoiada na parede oposta à da porta, olhos afetuosos, um sorriso que eu podia adivinhar por trás da máscara. No batente da porta, uma abóbora. “Trouxe da roça, acabei de chegar de lá! Está bem lavada, higienizada!”. Contou-me dela, contei-lhe de mim, em breves palavras trocadas, entre alegrias contidas. Perguntou se eu gostava de abóbora. Que sim, respondi, adoro! Disse-me que gosta de assar. Eu já pensava mesmo em assá-la com outros legumes. Sentia-lhe já o cheiro do assado.

Queria tê-la abraçado. Tentei fazê-lo com meu olhar. Recolhi a abóbora que terá sabor de afeto.







sábado, 21 de março de 2020

Triste



Queria construir explicações para o momento, como fazem tantos teóricos, como ensaiam pesquisadores... De nada serviriam. As explicações construídas sobre a experiência em curso não explicam, de fato: elas tentam dar algum alento, talvez apontem alguma salvação, talvez nos digam que não sobreviveremos, mas não foi por nossa culpa.

Elas não explicam, nem mostram saídas. Talvez porque não haja saídas...

As explicações tão somente reiteram nossas posições prévias, reafirmam nossos sistemas de crenças. As explicações, em lugar de nos ajudar a ver, aprofundam a dificuldade de perceber o que quer que seja um pouco além do que permite nossa miopia antropocêntrica...

Tenho medo. De que? Da morte? Difícil dizer que não seja da morte. Mas não estou certa de que seria. Talvez pareça arrogância de minha parte, mas olho no espelho e, no fundo dos meus olhos refletidos, não vislumbro que eu tenha medo da minha morte. Tenho, sim, medo da morte à minha volta, me rejeitando, e ceifando os demais. Tenho medo da dor, do desamparo, da desesperança. Tenho medo do odor fétido do ódio, da crueldade que rege as ações de governantes e demais lideranças políticas e econômicas.

Pela rua, um rapaz passa, em sua bicicleta. Vai desatento, pelos poucos carros que circulam. Há bem pouco tempo havia mais movimento, e muitas vozes se deslocavam animadas pelas calçadas. Um vento fresco atravessa a casa. Deixo-lhe janelas e portas abertas. Queria que arejasse esta tristeza...

Preciso fazer alguma coisa. E tudo à minha volta repete: sim, precisamos fazer, com urgência; e o que temos a fazer é exatamente não fazer...

O medo pede tão somente meu silêncio. Nenhum gesto a mais, qualquer um que seja.

No mais, estou triste. E é tudo.


Gwavira Gwayá
Planalto Central do Brasil,
Segundo dia do outono de 2020, sexto dia de reclusão continuada.