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domingo, 27 de setembro de 2020

Breves apontamentos sobre Vilém Flusser e Walter Benjamin


Passados 80 anos da morte de Walter Benjamin (26 de setembro de 1940), enquanto tentava cruzar a fronteira entre a França e a Espanha, também são cumpridos 80 anos da migração de Vilém Flusser para o Brasil, tendo saído de Praga no ano anterior. E, neste mesmo ano de 2020, Vilém Flusser completaria 100 anos (ele nasceu em 20 de outubro de 1920, 5 anos depois de meu pai, que nascera em 20 de outubro de 1915).

Não por acaso, há tantos elementos que se entrecruzam na vida e na obra desses dois pensadores tão instigantes, Benjamin e Flusser. Ambos de origem judia, transitaram entre os horrores do nazismo. Vilém Flusser sobreviveu graças à fuga com a família de seu amor de infância, Edith Barth, que se tornaria sua esposa. Saíram de Praga em 1939, passaram pela Inglaterra e França. Deixaram uma Europa em escombros para trás, e chegaram ao Brasil, onde constituiu família, trabalhando com o sogro numa empresa de importações e exportações. Sem deixar a atividade intelectual, dedicou-se a indagar sobre a vida, se ela mereceria ou não ser vivida. Isso porque, já em terras brasileiras, teve informações sobre a morte dos pais, irmã e avós, que fariam parte da trágica história de Auschwitz.

Algum tempo depois, deixou as atividades comerciais para atuar como professor de filosofia da linguagem e da ciência, e teoria da comunicação. Entre o final dos anos 50, a década de 1960 e o início dos anos 70, produziu a primeira etapa de sua obra densa e múltipla. No trato com a palavra encontrara a estratégia na qual investiria todos os seus esforços, buscando compreender o incompreensível: os caminhos pelos quais a cultura ocidental resultou em Auschwitz, tendo o campo de concentração como uma de suas obras máximas, ao lado da bomba atômica e dos computadores.

É de se notar que, se Vilém Flusser considerou sua condição de estrangeiro uma das bases existenciais e de articulação de seu pensamento, ele também foi um outsider em relação à sua formação intelectual. Tendo estudado filosofia na Universidade Carolina, em Praga, entre 1938 e 1939, seu percurso transcorreu, sobretudo, refratário aos rituais protocolares das instituições acadêmicas.

Entre os anos 1960, 1970 e 1980, o Brasil também atravessou territórios de horrores. E, constatando que a esperança se encolhia à sua volta, bem como sua expectativa em torno do “novo homem” possível, Vilém Flusser decidiu migrar de volta para a Europa, instalando-se na França. Contudo, manteve os vínculos com o Brasil, para onde continuou vindo com regularidade. Esse período foi marcado por sua produção mais profícua, e também passou a ganhar maior repercussão. O tema das imagens técnicas passou a figurar em seus escritos, de modo que ganhou a alcunha de filósofo das mídias (o que acaba por ser um reducionismo em relação à complexidade e abrangência de sua produção).

Walter Benjamin nasceu em 1892, em Berlin. E, no ano do nascimento de Flusser, ele já defendera seu doutorado havia um ano, na Universidade de Berna. Em meados da década de 1920, aproximou-se da Escola de Frankfurt. Contudo, sua produção também se caracterizou por uma certa autonomia em relação às instituições acadêmicas e seus protocolos. Talvez autonomia não seja a melhor palavra atribuída ao seu trabalho, considerando-se que a universidade e demais instituições acadêmicas não acolheram a produção de Benjamin. Um desses indicadores pode ser constatado na rejeição de sua tese de livre docência pela Universidade de Frankfurt. Talvez possamos também notar que suas relações com o grupo de intelectuais da Escola de Frankfurt, do mesmo modo, frequentemente deparavam-se com dissenções (o que, ressalte-se, não alterou a estreita relação entre ele e Theodor Adorno). 

No início dos anos 1930, com a ascensão do regime nazista, Walter Benjamin migrou para a França, onde viveu e produziu parte importante de sua obra. No entanto, não demorou para que jornais e revistas alemãs começassem a se recusar a publicar seus escritos. Como a maioria dos judeus, perdeu a cidadania alemã. Na tentativa de fuga para a Espanha, de onde supostamente poderia seguir para os Estados Unidos da América do Norte, foi barrado na fronteira, morrendo em 26 de setembro de 1940.

Há quem diga que a morte o poupou de testemunhar os campos de concentração (ou talvez de sucumbir a eles), bem como a bomba atômica, e também a derrocada da modernidade. Vilém Flusser não só testemunhou isso tudo como sofreu com a perda dos seus. E esforçou-se por inventar modos de digerir cada fragmento dessa experiência, em seus escritos. Talvez em razão da tragédia, mesmo tendo retornado para a Europa no início dos anos 1970, e viajado por vários países para ministrar palestras e cursos, demorou-se muito para voltar à sua cidade natal. Em novembro de 1991, foi convidado para proferir uma palestra no Goethe-Institut de Praga. Ao lado de Edith, só então foi reencontrar-se com as ruas, os prédios, os lugares de sua infância e juventude. Esse relato está em seus últimos escritos. Na viagem de volta, ambos sofreram um acidente, fatal para ele. Foi enterrado no Novo Cemitério Judeu de Praga. Em 2014, o corpo de Edith foi sepultado no mesmo túmulo. Na lápide consta a seguinte inscrição: “Não morreremos conjugados. “Nós” nunca morreremos, porque apenas eu e tu, a solidão é para a morte”.

No alto de uma colina, no cemitério de Portbou, na Espanha, de frente para o oceano e para as ruinas do bunker alemão, há um túmulo com a inscrição do nome de Walter Benjamin. No entanto, seu corpo não está enterrado ali. Quando ele morreu, foi enterrado naquele cemitério, num jazigo pago para um período de 5 anos. Ao final desse desse prazo, seus restos mortais foram jogados numa vala comum. O túmulo, construído pela prefeitura de Portbou, é simbólico.

 




 

sábado, 17 de janeiro de 2015

Bichos V - Gente (Vilém Flusser)

Bichos V
Gente
O que é que distingue o homem dos demais animais radicalmente, tão radicalmente que merece estudos totalmente separados da zoologia? Isto: todos os zoólogos pertencem, eles próprios, a espécie humana. Já que o Homem é o tema mais apaixonante do homem, e já que os zoólogos são homens, reservam ciências especiais e separadas da zoologia, para o estudo do Homem. Por exemplo a antropologia. E aí passam a descobrir, obviamente, que o Homem se distingue dos animais em muitos aspectos. Obviamente, porque se, em vez de antropologia, fizessem arthropodologia, descobririam que os insetos se distinguem dos animais em tantos aspectos, em quantos deles se distingue o Homem.
Todas as espécies são inteiramente distintas das demais sob certos aspectos. Não fosse assim, e não teria sentido falar-se em espécies distintas. E todas as espécies, cada qual por si, representa um ponto máximo na evolução da vida. Não fosse assim, e a espécie estaria extinta. Representam, cada qual, um ponto máximo da evolução. Mas cada qual o ponto máximo de um ramo da evolução que se dirige a metas divergentes. Apenas neste sentido é o Homem animal mais evoluído. Todos os animais existentes são, neste sentido, os mais evoluídos.
Será pois a nossa profunda convicção quanto à posição especial do Homem no contexto da vida apenas expressão do nosso chauvinismo humano? Não haverá realmente critério “objetivo” a permitir a afirmativa que somos superiores às minhocas? Estamos realmente condenados a dizer que “objetivamente” a minhoca nos supera por exemplo na capacidade de regenerar partes do corpo perdidas? Possivelmente não haja. Possivelmente a objetividade nos obriga a reconhecer que todos os animais são iguais, inclusive o homem. Animal Farm de Orwell. Mas o que significa isto? Absolutamente nada.
A objetividade que se dane. Viva o chauvinismo humano (o único chauvinismo que se justifica atualmente). Somos humanos, e nada de humano nos é alheio. Cantemos o louvor do Homem, não embora seja apenas animal igual aos outros, mas porque é apenas animal igual aos outros. E não cantemos apenas o louvor dos ditos “grandes” homens. Isto seria fácil. Sophocles e Mozart dispensam nossos louvores. Cantemos o louvor da gente. Isto é o que é difícil. É difícil ver na massa uniforme, cinzenta e corriqueira dos homens que nos cercam o fato de que cada qual desses homens é potencialmente o nosso parceiro na luta contra o absurdo da vida e da morte animalesca. É difícil, mas deve ser tentado. Não com, mas contra toda antropologia.

Vilém Flusser



quarta-feira, 17 de setembro de 2014

El gesto de filmar (fragmentos)


Menos banal, aunque igualmente significativa, es la comparación entre supermercados y cines. Unos y otros son basílicas del tipo del Panteón de Roma, y responden a la doble función de la basílica como mercado cubierto (supermercado) y de la iglesia (cine). (p. 117-118)

(...)

Hoy existen dos planos históricos: el cuatridimensional de la vida diaria y el tridimensional de las basílicas cartesianas. Un complicado feedback conecta esos dos planos; pero la tendencia trata de anteponer el plano tridimensional – como trompre-l’oeil que es – al plano cuatridimensional, con el que se choca y que ofrece una resistencia.

No se excluye que no futuro la historia, existencialmente significativa, se desarrolle ante los ojos de los espectadores sobre paredes y pantallas de televisión, y no en el espacio del tiempo. Eso sería realmente una posthistoria. Por eso el filme es “el arte” de nuestro tiempo, y el gesto fílmico del “hombre nuevo”, un ser que desde luego no nos resulta incondicionalmente simpático. (p. 122)

(Vilém Flusser. Los gestos. Barcelona, Editorial Herder, 1994)






sábado, 29 de março de 2014

O ELOGIO DA SUPERFICIALIDADE, POR VILÉM FLUSSER: AS MÍDIAS DIGITAIS






57ª ED. CAFÉ FILOSÓFICO COM Will Goya (GYN): 30/03/14, às 17h00

“O ELOGIO DA SUPERFICIALIDADE, POR VILÉM FLUSSER: AS MÍDIAS DIGITAIS”

CUSTO: 5kg de alimentos não perecíveis.
LOCAL: Bolshoi Pub, Rua T-53/T-2, n° 1140, Setor Bueno/GYN. 3285-6185.


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Unicórnios


Unicórnios
Vilém Flusser
publicado no Jornal Folha de São Paulo de 24 de março de 1972

Embora não sejam, a rigor, animais domésticos, são, no entanto, extremamente úteis ao homem. A sua utilidade varia com o tempo. Na antigüidade o seu chifre servia, apropriadamente moído, como remédio contra todos os venenos. Na Idade Média o unicórnio servia como atributo da virgindade, portanto tinha utilidade pública incontestável. No romantismo e pós-romantismo foi amplamente utilizado como tema de poesias, (embora a palavra "unicórnio" não tenha muitas rimas nas línguas latinas). E atualmente é indispensável para livros de lógica e teoria do conhecimento. Com efeito: tais livros não poderiam existir, se o unicórnio não existisse, e nem, se existisse. Para prová-lo, tomemos as seguintes sentenças:

1. A maçã é verde.
2. O sangue é verde.
3. Deus é verde.
4. A liberdade é verde.
5. O presente rei da França é verde.
6. O unicórnio é verde.

A primeira sentença pode ou não ser verdadeira. A segunda é falsa. Ambas têm sentido. As demais sentenças não têm sentido. Pois isto é fácil dizer-se, é fácil verificar-se, já que, ao dizermos tais sentenças, estamos segurando a risada. Por não terem sentidos tais sentenças, são ridículas e divertidas. Difícil é dizer por que tais sentenças não têm sentido, porque os seus sujeitos, a saber: Deus, a liberdade, o presente rei da França e o unicórnio, não existem. Mas não podemos dizê-lo. Não se pode dizer que Deus não existe, porque seria primeiro necessário definir o termo "Deus". Coisa impossível. Não se pode dizer que a liberdade não existe, porque a sua presença ou ausência são nitidamente constatáveis. A sentença "a liberdade é verde" não tem sentido, embora a liberdade exista. Não se pode dizer que o presente rei da França não existe, sem dizer-se, também, quando se está falando. Por exemplo: no século 17 existia um rei da França que estava presente, e a sentença era então provavelmente falsa, e tinha portanto sentido. Mas, quanto ao unicórnio, todos estão de acordo que não existe. Portanto podemos dizer claramente porque a sentença "o unicórnio é verde" não tem sentido. O único caso nítido entre os exemplos fornecidos. Não fosse o unicórnio, e os livros de lógica e teoria de conhecimento não teriam sentido. Não teriam sentido, porque não poderiam exemplificar o que quer dizer: "não ter sentido". Isto seria uma pena, especialmente para professores de lógica e teoria do conhecimento. Mas, felizmente, há unicórnio, e Sócrates é seu fiel companheiro. Assim: Sócrates é mortal, e o unicórnio é verde. Viva a cultura.