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sábado, 17 de janeiro de 2015

Bichos V - Gente (Vilém Flusser)

Bichos V
Gente
O que é que distingue o homem dos demais animais radicalmente, tão radicalmente que merece estudos totalmente separados da zoologia? Isto: todos os zoólogos pertencem, eles próprios, a espécie humana. Já que o Homem é o tema mais apaixonante do homem, e já que os zoólogos são homens, reservam ciências especiais e separadas da zoologia, para o estudo do Homem. Por exemplo a antropologia. E aí passam a descobrir, obviamente, que o Homem se distingue dos animais em muitos aspectos. Obviamente, porque se, em vez de antropologia, fizessem arthropodologia, descobririam que os insetos se distinguem dos animais em tantos aspectos, em quantos deles se distingue o Homem.
Todas as espécies são inteiramente distintas das demais sob certos aspectos. Não fosse assim, e não teria sentido falar-se em espécies distintas. E todas as espécies, cada qual por si, representa um ponto máximo na evolução da vida. Não fosse assim, e a espécie estaria extinta. Representam, cada qual, um ponto máximo da evolução. Mas cada qual o ponto máximo de um ramo da evolução que se dirige a metas divergentes. Apenas neste sentido é o Homem animal mais evoluído. Todos os animais existentes são, neste sentido, os mais evoluídos.
Será pois a nossa profunda convicção quanto à posição especial do Homem no contexto da vida apenas expressão do nosso chauvinismo humano? Não haverá realmente critério “objetivo” a permitir a afirmativa que somos superiores às minhocas? Estamos realmente condenados a dizer que “objetivamente” a minhoca nos supera por exemplo na capacidade de regenerar partes do corpo perdidas? Possivelmente não haja. Possivelmente a objetividade nos obriga a reconhecer que todos os animais são iguais, inclusive o homem. Animal Farm de Orwell. Mas o que significa isto? Absolutamente nada.
A objetividade que se dane. Viva o chauvinismo humano (o único chauvinismo que se justifica atualmente). Somos humanos, e nada de humano nos é alheio. Cantemos o louvor do Homem, não embora seja apenas animal igual aos outros, mas porque é apenas animal igual aos outros. E não cantemos apenas o louvor dos ditos “grandes” homens. Isto seria fácil. Sophocles e Mozart dispensam nossos louvores. Cantemos o louvor da gente. Isto é o que é difícil. É difícil ver na massa uniforme, cinzenta e corriqueira dos homens que nos cercam o fato de que cada qual desses homens é potencialmente o nosso parceiro na luta contra o absurdo da vida e da morte animalesca. É difícil, mas deve ser tentado. Não com, mas contra toda antropologia.

Vilém Flusser



sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

2001 e Interestelar



2001: A space odyssey
2001: Uma odisseia no espaço
Stanley Kubrick
 1968 



Interstellar
Interestelar
Christopher Nolan
2014





terça-feira, 11 de novembro de 2014

Sobre zoológicos de animais (inclusive humanos)...

p/ Aristein


Disponível aqui


Disponível aqui


Disponível aqui


Zoológicos são prisões.
 Enjaulados estão os vencidos.
 Os outros.

Os civilizados passeiam pelas vias da grande exposição.
 Da Exposição Universal.
 da Exposição Colonial.
 Do Zoológico...
Observam suas conquistas.
A conquista da civilização. 

Por entre as tramas das jaulas, os olhares se encontram.
 Os vencidos olham seus dominadores.
Os dominadores, melhor dizendo, os civilizados sentem pelos vencidos um misto de compaixão, curiosidade, distância.
Por trás das jaulas, não lhe oferecem perigo.
 Que assim sejam mantidos.
 Em favor da preservação da civilização, e todo seu cinismo.





segunda-feira, 11 de agosto de 2014

superior aos demais animais? então tá...


fonte: evolução

A vida se multiplica em formas, direções, substâncias. A espécie humana é apenas uma nesse pulso cujos limites nos escapam, de longe...





segunda-feira, 27 de maio de 2013

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

condição humana, condição animal



Que fique claro: meu profundo respeito aos animais não considera a menor possibilidade de desejar trazê-los à condição humana. Ao contrário: observando-os, relacionando-me com eles, recupero minha condição animal. É desde ela que vou ao encontro deles. 

Isso supõe disposição para os exercícios de alteridade. Inquieta-me imaginar como me percebem, o que vêem em mim. Haveria alguma forma de comunicação possível entre nossas naturezas?

Por isso, que não se espere, de mim, tratamento antropomorfizado a gatos, cães, pássaros, ou o que quer se seja. Aliás, acho mesmo que se há alguma saída para a humanidade, será acionado por seu lado animal.


terça-feira, 27 de novembro de 2012

visitante noturna indesejada


Já ia adiantada a noite. Eu tinha espalhado documentos, textos, livros, no chão, tentando inventar alguma organização para eles, enquanto buscava uns trabalhos perdidos no caos. Estava cansada daquilo, com sono, pronta a abandonar a empreitada para descansar. Então avistei um inseto grande voando em torno da lâmpada. Pensei que fosse uma mariposa. Por um instante fiquei ali, olhando seu trajeto aéreo, fazendo um círculo. O que estaria fazendo ali, aquela mariposa, àquelas horas da noite?

As mariposa quando chega o frio
Fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá
Elas roda, roda, roda e dispois se senta
Em cima do prato da lâmpida prá descansá.


As mariposa, de Adoniran Barbosa.

Lembrei da palestra do Gilberto Prado falando sobre o projeto de arte e tecnologia do seu grupo de pesquisa, intitulado Desluz, cujo aparato trabalha com ondas infravermelhas, invisíveis aos olhos humanos, mas perceptíveis, por exemplo, para as mariposas.

Foi então que saí do breve encantamento, e dei-me conta de que não se tratava de uma mariposa, mas de uma barata voadora enorme, que pousou, de leve, um pouco acima da estante de livros, bem agarrada à parede, perto do teto. Senti-me indignada com a invasão. Entrara pela janela aberta, trazida pela lufada da brisa no calor noturno. Fechei a porta que dava acesso à parte íntima da casa. Procurei algum veneno para insetos, mas não encontrei. Anotei na lista de compras para a próxima ida ao supermercado. Peguei uma vassoura, um pé de chinelo, e uma embalagem para esborrifar álcool com cânfora (caso ela se encantonasse, poderia irritá-la, para sair a alguma área mais aberta). E fiquei ali, olhando fixamente para ela. E ela para mim. (No dia seguinte, ouvi da Alzira: ainda bem que ela não tinha nenhum spray para espirrar em você...).

Ficamos ali, paradas, na espreita uma da outra. Eu sabia que, ao menor movimento meu, ela desapareceria entre as milhares de páginas e folhas de papel bem ao alcance de suas patas ágeis. Enquanto permanecia ali, imóvel, lembrei-me de um artigo que li há algum tempo, no qual pesquisadores referiam a natureza sociável das baratas. Elas não saberiam viver isoladas, afirmavam, além do que teriam um sentido familiar muito forte. Além de demonstrarem grande sensibilidade ao ambiente. Quase senti simpatia por ela. Pensei, também, que, na próxima hecatombe, quando vier a última explosão nuclear capaz de eliminar a vida humana da face do planeta, restarão as baratas: elas! Talvez por isso eu experimente tamanha irritação quando de suas visitas indesejadas. Sobretudo quando a visita acontece em meio à noite, hora de meu descanso.

Olhei o relógio na parede. Já beirava a uma hora da manhã. E eu ali, parada, olhando para a barata que me vigiava também. Até quando eu ficaria ali? Decidi partir para o ataque, certa de que fracassaria. Mas resolvi arriscar as migalhas de chances que tinha de acertar uma vassourada nela, acima das prateleiras, rente aos livros e papéis e porta-retratos e outras quinquilharias. Nem esbocei o golpe, e ela deslizou para trás de tudo aquilo. Esborrifei o álcool com cânfora. Ela saiu de trás, fazendo uma meia lua, e desapareceu mais adiante da prateleira.

Desisti. Vedei o vão inferior da porta. Recolhi-me ao quarto, com alguma esperança de que ela não adentrasse ali. Precisava dormir. Amanhã compro veneno, pensei. 


terça-feira, 19 de junho de 2012

o Sistema Solar e o átomo…



... não consigo parar de pensar no Sistema Solar como um átomo...
de que molécula de que tecido de que organismo faríamos parte, afinal?




quinta-feira, 3 de maio de 2012

fronteiras que se desfazem: de que fronteiras estamos falando?



Para meu avô Francisco e minha avó Antônia,
 que no início do século XX viajaram durante 6 meses,
 desde o sul do país, atravessando fronteiras várias,
 para se instalar no limite entre Brasil e Paraguai.


Na segunda década do terceiro milênio da Era Cristã, no Ocidente, são recorrentes os discursos, nos circuitos intelectuais e artísticos, no âmbito das ciências e também no senso comum, que articulam defesas entusiasmadas deste como sendo o tempo quando os territórios – geográficos, culturais, e quaisquer outros – se sobrepõem, as identidades se tornam impermanentes, e as fronteiras se desfazem, esboroam-se sob o avanço das tecnologias da comunicação, o avanço dos movimentos do mercado e suas mercadorias, a ampliação e sofisticação do desejo dos consumidores, as diásporas, as migrações, os interesses de ordem econômica...

Antes que o consenso autorize o compartilhamento coletivo passivo a esse respeito, é preciso retomar algumas perguntas que antecedem a conformação de tais convicções: Que fronteiras são referidas nesses casos? Que dissolução ou esboroamento estão em curso? Do ponto de vista de quais sujeitos sociais? Atendendo a que interesses nas relações de força que não concedem tréguas em conflitos e tensões nem sempre explicitados? Quando não terá sido assim?


Cedo à tentação de imaginar a grande saga humana, desde os primeiros homens em África, rumo aos quatro cantos do mundo, inclusive às Américas (que só seriam assim chamadas muitos milênios depois de sua chegada...). Quantas fronteiras terão sido dissolvidas, esboroadas, ao longo desse decurso? E quantas outras terão sido erguidas, muitas das quais na ilusória esperança de serem definitivas, ou quem sabe apenas para assegurar a próxima etapa da caminhada.

Identidades móveis, diásporas, migrações. Nômades, ou sedentários? A humanidade teria sido, em algum momento, sedentária? O que é o nomadismo? 



sábado, 21 de abril de 2012

Insone



Para J. Bamberg

Havia uma espécie de descompasso entre sua percepção da passagem das horas, dos dias, e o tempo marcado nos relógios, nos calendários...Talvez por isso mesmo, ele se cercava de aparatos que marcavam a passagem do tempo: ponteiros analógicos com suas setas agudas apontando segundos e minutos, luzes digitais pulsando horas, tabelas numéricas cartesianas entrecruzando informações sobre dia da semana e do mês. E lembretes anotados manualmente, fixados na geladeira, sobre a mesa, em bloquetes, papéis soltos, desgarrados ao tempo-vento... Tudo em vão: o relógio sempre marcava uma hora que ou era muito mais cedo ou muito mais tarde do que ele imaginava. E na folhinha, ele nunca sabia ao certo o dia do mês ou da semana.

Acontece que ele se ressentia de uma acentuada sensibilidade para o emaranhado entrecruzamento de muitas linhas de tempo, suas tensões, suas dores, suas expectativas, suas memórias. Suas histórias humanas, demasiadamente humanas... As linhas, tantas, e nem um pouco retas, diluíam-se umas nas outras, confundiam-se e à sua própria percepção. Talvez cada relógio pudesse ser escalado para marcar um desses tempos. Mas relógios não sabem marcar outra coisa que não o tempo esquadrinhado para organizar dias em 24 horas, horas em 60 minutos, minutos em 60 segundos. Esse esquadrinhamento não acolhe emaranhados temporais de tantas existências, desejos, desenhos, sonhos, dores... dores noite a dentro, reivindicando da consciência que se mantenha desperta, que não repouse, que não se entregue.

Afinal, parece mesmo é que todos os relógios e calendários contam, gota a gota, dias marcados por dores. Dias que se prolongam em noites insones, em horas cuja extensão não é medida em minutos, mas em esperas. E ele se perde dessa contagem, sonhando com tempos outros, quando também não dormia, atravessando as noites em coreografias dançadas, em bailes gososos banhados a músicas cujo compasso acompanhava os batimentos do seu coração.



terça-feira, 17 de abril de 2012

Jamais saberemos como seria se não tivesse sido como foi... ou: a flecha do tempo é irreversível.

Para Pina Bausch, Win Wenders e Christina Garcia

Marília, a louca da corte. Teatro Garagem. Brasília.1987.
Direção: Delson Antunes
No elenco: Ivan Marques, Muna Amad, Moisés, Dina Brandão, José Alves Neto, Feitosa, Kalissa Nawá.


Roqueiros, prostitutas, suicidas, figuras góticas, noivas abandonadas, políticos decadentes circulavam entre andaimes de uma construção jamais terminada. Desfiavam versos que brotavam dos submundos da capital federal, nos estertores da ditadura militar. A corte habitada por Marília louca...


Durante o espetáculo, num certo momento, eu saía do palco, e me posicionava ao lado da plateia. Os demais atores desenvolviam a cena, preparando o ambiente para que eu começasse a interação com pessoas do público. Quando um rapaz vestido de policial subia na plataforma mais alta, eu sabia onde cada um estava posicionado, e esperava pelo som seco da chave sendo acionada pelo operador da mesa de luz. Palco e público eram inundados por luz. Aproveitando o susto, eu saía, atirando perguntas aleatoriamente, contra uma e outra pessoa. Esbravejava. Na próxima vez que eu for a Brasília, eu trago um rato do cerrado para você!


Fazia uma meia lua, e ia retornando aos poucos para o palco. Eu não precisava olhar: sabia para onde cada um tinha seguido, enquanto eu executava a cena. Dávamos curso ao espetáculo, formando uma espécie de escada humana, que era escalada por outra atriz, enquanto declamava versos desesperados. O momento já era outro, outra tensão, outra intenção.

Na minha sequência, enquanto aguardava o momento de interagir com a plateia, de fora, por um instante, eu podia observar o espetáculo, antevendo os movimentos de cada um. Eu já houvera internalizado toda a dinâmica das cenas, as passagens de uma para a outra, e as sequências todas. Podia fechar os olhos, e imaginar o espetáculo do início ao fim. No entanto, me inquietava constatar que, enquanto estava ali, observando os demais, eu vislumbrava um espetáculo que não era o mesmo vivido, experimentado, imaginado pelos outros atores do elenco. Mesmo com os olhos fechados, não podia imaginar de outro modo que não desde o lugar que eu ocupava - o que eu conhecia, o que minha memória reconhecia. Qualquer esforço para perceber o espetáculo do ponto de vista dos demais era em vão: o ponto de vista de outro, que não o meu, se me escapava, mesmo que eu já trouxesse, inscrita no corpo, a cartografia dos movimentos, dos percursos de cada um, entrecruzando-se com os meus. O bailado que executávamos, eu o reconhecia sempre a partir de mim. E isso me soava quase como sentença, condenação, prisão.

Como seria ver a cena em que eu interagia com o público desde a plataforma ocupada pelo ator vestido de policial? Ou do posto ocupado pela menina que subiria a escada humana, e já se preparava para isso, enquanto eu executava minha cena? A totalidade escapa entre os vãos da minha percepção...

Mais que isso: se, em lugar de seguir um percurso, eu seguisse outro, em que eu teria alterado o curso dos fatos? Não é possível saber, pois não há como verificar, comparar as diferentes possibilidades em igualdade de condições, inclusive as temporais.

A flecha do tempo é irreversível, e não há qualquer simetria possível nas experiências humanas. Nas não humanas? Jamais saberei...



quinta-feira, 5 de abril de 2012

Declaração de fé e uma crítica à visão antropocêntrica de Deus


a propósito da Semana Santa, em curso


Eu tinha 11 anos. Nos domingos pela manhã, ia à missa das 8h, e na volta assistia à aula dominical da Igreja Batista, mantenedora da escola na qual eu estudava durante a semana. Numa dessas aulas, a professora, que também era minha professora de Ensino Religioso, e esposa do Pastor, pediu que levantasse a mão quem fosse cristão. Aquela pergunta provocou inquietações em mim: o que implicava, de fato, ser cristão? As demais crianças não hesitaram em responder. Mas eu não estava muito certa de minhas convicções quanto a ser ou não ser cristã. E me inquietava com a ideia de levantar a mão, declarando uma convicção que, na verdade, vacilava entre algumas poucas certezas. Ao mesmo tempo, não corri o risco de assumir publicamente aquelas dúvidas entre pessoas movidas por tanta fé e tantas certezas, que se sentiam escolhidas entre os mortais para serem salvas quando do fim do mundo. Na dúvida, e ante a possibilidade, qualquer que fosse, de salvação no julgamento final, eu tomaria as providências necessárias para me proteger. E começaria ali mesmo, em plena aula dominical, entre crianças convictas de sua fé: levantei a mão, assumindo de público minha cristianidade.

Nalgum domingo à noite, por esses mesmos dias, assistindo ao culto, senti-me comovida pela possibilidade do amor, da fé, anunciados em discurso exaltado e vibrante. Quem aceita o Cristo no coração? Ora, se o Cristo é sinônimo de amor, de fé, de sintonia e encontro com Deus, que tola seria eu para não aceitar? À saída da igreja, me esperava uma ficha para ser preenchida, para fins de recolha do dízimo. Mas o Cristo que pulsara em mim não tinha contas a pagar, nem se submetia a prestações. Estava ligado, sim, ao sentido de vida que move os seres, e o de amor que os liga. Declinei do preenchimento, e continuei me perguntando, em silêncio, o que significava ser cristão.

Deparei-me com muitas situações, desde então. Frequentei centros espíritas, participei de rituais indígenas, fiz primeira comunhão, deixei-me conduzir no ritual de batismo mergulhada em água. Sem chegar a crer plenamente. No entanto, sem deixar de crer. Mas crer em que? De certo que minha fé sempre foi encaminhada a endereço diverso em relação aos demais participantes de cada um dos diferentes rituais. Qual endereço? Onde eu encontraria abrigo? Antes disso: encontraria, eu, abrigo nalgum lugar?

Mais recentemente compreendi o que me causa desconforto no arcabouço do pensamento cristão: a visão estritamente antropocêntrica da fé e seu sentido de transcendência. Não posso comungar um credo que tem seu princípio e seu fim na saga humana (está certo que não é pouca nem pequena...), quando o universo de estende ao infinito tanto na direção do micro, no mundo que supomos conhecer, ao menos onde vivemos e convivemos com mistérios insondáveis entre desconhecidas formas de vida, quanto em direção ao macro, na infinitude de planetas, galáxias, universos sem fim, mundos de que sequer temos noção de dimensões, fronteiras, marcos, tempos e espaços inconcebíveis para nossos limites tão humanos.

Que Deus seria esse que se ocuparia tão somente dos humanos, sendo sua criação tão infinitamente maior do que a própria humanidade?

Talvez eu prefira pensar numa força divinal que possa se apresentar de infinitas formas ante cada forma de vida das infinitas existentes. Sem nome, nem forma, nem rosto, não é homem nem mulher, não é bom nem mau, pulsa em cada manifestação da vida, desde as mais ínfimas até as tão enormes e imponderáveis. Vibra em e faz vibrar tanto bactérias quanto humanos, mesmo quando a sobrevivência das primeiras concorra com a sobrevivência destes últimos. Aliás, não tem contrato exclusivo de prestação de serviços para atender aos desejos e aplacar os temores humanos. Não atua nos mercados financeiros, não conhece normas sociais, nem estruturas hierárquicas de poder estritamente humanas.

Operando além, muito além das fronteiras estreitas disponíveis a alguma interpretação possível pela cognição humana, não se encontra nem dentro, nem fora: é o próprio universo, o que quer que isso signifique, quaisquer sejam as suas dimensões espaço-temporais. (N)ele. E por isso mesmo, (em mim) eu, que também (estou no) sou o universo. Eu, parte integrante do todo sem fim. Eu também portadora dos seus mistérios, de suas infinitudes. E isso faz com que me sinta irreversivelmente vinculada ao mundo, seus movimentos, tremores, pavores, encantamentos. E a toda a humanidade, e a toda forma de vida.

Isso faz com que minha participação nos rituais das diversas igrejas seja movida pela mais funda sinceridade, ainda que não pela mesma fé que move os demais. O elo que nos liga precede e sucede qualquer explicação humana a qualquer mistério: faz parte dos próprios mistérios aos quais me entrego, pelos quais me deixo conduzir – não por vontade própria, mas por inevitabilidade...

Pensar/sentir desse modo muda radicalmente minha percepção dos fenômenos em geral, das metamorfoses, dos rearranjos dos elementos. De alguma forma tudo ganha uma densidade maior, e ao mesmo tempo se torna mais leve. Morrer, nascer, viver são parte de um único processo que não tem fim, tudo interligado, em transformação contínua.

Assim seja!


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Apontamentos sobre saudades


Este texto foi produzido em resposta à solicitação
 feita pelo meu querido amigo Elinaldo Meira,
 e refere-se à sua pesquisa de pós-doutorado no PACC/UFRJ.
 Está dedicado a ele, e à minha querida Heloísa Buarque de Hollanda,
 mentora primaz daquele Programa,
 e supervisora do projeto de pesquisa em pauta.
Saudades.

Buscando a etimologia da palavra saudade, encontramos indicações de sua raiz na palavra latina solitatem, é o que defende, entre outros estudiosos da língua portuguesa, Francisco da Silveira Bueno (1974). O verbete diz de um sentimento que mistura tristeza e esperança, ante a ausência de uma pessoa, de um país, de que se está distante, privado. Mas diz, também, da esperança de ainda revê-los. A palavra chega à sua forma contemporânea tendo tomado, no século XIII, as formas arcaicas soidade e soydade, no século XV, a forma soedade e, no século XVI, suydades.
No entanto, João Ribeiro (ALMEIDA, 1980) questiona a informação de que o termo soidade seja a raiz de saudade, e acena para a possibilidade de influência da língua árabe. Nela, se encontram as expressões saiad, saudá e suaidá, que, além de “lembrar” a palavra saudade, têm certo sentido de profunda tristeza, “do sangue pisado e preto dentro do coração” (p. 260).
Não importa se uma palavra de origem latina ou árabe, sentir saudades, no ambiente da língua portuguesa contemporânea (vale lembrar que o sentido de saudade tem representação em palavras em outras línguas, também, não só no português, como nós, seus falantes, desejaríamos que fosse. A exemplo das palavras citadas, no árabe), pressupõe um investimento afetivo voltado para eventos já vividos, ou pessoas conhecidas, objetos, enfim, que, anteriormente próximos de alguma forma, se tenham ausentado. Contudo, a ausência, a distância espacial ou temporal mais relevante não é a de dimensão objetivamente mensurável, mas subjetiva, relacionada com a intimidade do sujeito que sente solidão pela falta, cujo coração encontra-se tomado por dor e sangue pisado.
Mas Elinaldo propõe, em seu projeto de pesquisa, pensar em relações, dentre outras, entre noções de saudade e virtual. O que me pareceu instigante. Podemos começar a pensar sobre a questão, tomando a fala encontrada no poema dramático O Marinheiro (1980), de Fernando Pessoa, escrito em 1913, quando uma das personagens, a Segunda Veladora, declara que “só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...” (p. 114).
Ora, o mar, aquele que não veremos nunca, é virtual: existe como potência a ser realizada. A saudade refere-se, assim, a um sentimento investido num evento virtual, ainda não atualizado. O atual, que se contrapõe ao virtual, está aqui, agora, viabilizado, com sua potência tornada concretude. Do atual, não sentimos saudade, pois não está ausente, não nos acena como possibilidade: é, aqui e agora. Não há sangue para ser repisado no fundo do coração...

ALMEIDA, R. C. de. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Brasília: Valci Editora LTDA, 1980.
BUENO, F. da S. Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa. São Paulo: Ed. Brasília LTDA, 1974.
PESSOA, F. O eu profundo e os outros eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.


domingo, 15 de janeiro de 2012

Mal destes tempos



A recorrência de uma notícia entre pessoas amigas, conhecidos próximos, familiares, me força a pensar sobre o estilo de vida que temos construído nos últimos tempos, que resulta na alta incidência de casos de câncer, nos mais diversos contextos sociais, culturais, e geográficos.

O ano em curso inaugurou-se com a perda de um compadre amigo nosso, enquanto a tia do meu amigo tinha diagnosticado um tumor abdominal. Recebemos, hoje, a notícia de seu falecimento. Entre amigos e familiares de amigos, grande é o número dos que estão, neste momento, na arena de combates, entre tratamentos, todos sofridos, contra algum tumor, algum conjunto de células enlouquecidas, capazes de enlouquecer os organismos.

Tenho ouvido médicos em geral assegurarem que têm conseguido tratar e curar um número cada vez maior de casos de câncer, salvando vidas. No entanto, um número cada vez maior de pessoas próximas tem sido vitimado por essa doença, e muitos têm perdido a batalha, vindo a óbito: diferentes faixas etárias e condições econômicas, residentes em centros urbanos e no campo, variadas formações escolares...

Que complexo de fatores da vida contemporânea é comum a todos esses contextos, e acaba disparando gatilhos capazes de desequilibrar de modo radical o funcionamento das células?

Penso na qualidade dos alimentos que ingerimos, quaisquer que sejam as orientações alimentares. Vegetarianos não podem evitar a contaminação de vegetais por venenos os mais diversos. Mesmo os alimentos orgânicos não estão livres, pois os solos encontram-se em tal estado de impregnação de venenos, que mesmo parte dos lençóis freáticos estão contaminados. Os que usam carne acabam ingerindo teores desconhecidos de hormônios de que sequer se tenha noção, de animais criados em condições as mais adversas. Os produtos industrializados, desses, nunca sabemos ao certo de que substâncias são portadores: pães, farinhas, macarrões, embutidos, bebidas, óleos, congelados, a lista não tem fim. Chamando à cena os produtos industrializados, não podem ficar fora da lista os cosméticos, materiais de higiene, tecidos... (não posso desconsiderar o risco de ficar neurótica, também, pensando nessas listas...)

Afora a questão alimentar, assusto-me com o fato de que nossos corpos, de que nossas células – essas, que de repente podem enlouquecer, e que não queremos que enlouqueçam – são atravessadas por toda sorte de ondas eletromagnéticas, 24 horas por dia – e essa é, definitivamente, uma condição inevitável hoje, quer vivamos nos centros urbanos, quer vivamos em selvas longínquas: telefonia celular, transmissões via satélite, redes de televisão, tecnologias wireless para os mais diversos equipamentos, rádio transmissores, fornos de micro ondas, computadores, e quantas outras parafernálias, quantos itens, de que não abrimos mão, pela comodidade para o encaminhamento de quantas atividades diárias a ocupar nossas agendas sempre tão concorridas.

Ainda mais, quantas partículas pairando na atmosfera são absorvidas pelo nosso corpo, enquanto respiramos, ou pela pele, pela água, as roupas que usamos, e estabelecem relações reagentes com nosso organismo, sem que nos demos conta disso. 


Resta, ainda, acrescentar os níveis sempre crescentes de estresse, decorrentes de múltiplas demandas contemporâneas, profissionais, de comportamento, pressões e expectativas, ansiedades, ambições, medos...

Várias luzes amarelas, de advertência, estão acesas. Avermelhadas, talvez. É preciso atenção crítica ao que estejamos a fazer de nossas vidas. Não basta comprar no mercado o próximo estilo de viver que se anuncia anticancerígeno, ou anti uma série de outros males em curso – não passam de convites do mercado ao próximo cliente consumidor incauto. É preciso o esforço de pensar além desses circuitos. Por certo que nossa ignorância a respeito desses quadros, nos quais estamos imersos  é muito maior do que preferimos acreditar.

Cada vez mais, sou instada a perguntar se o desenvolvimento tecnológico – em todas as suas frentes – leva, de fato, ao desenvolvimento humano, e à qualidade de vida. Uma coisa não supõe a outra. Essa afirmação parece óbvia, mas nossos comportamentos são embalados pela crença e pelo deslumbramento à tecnologia, de modo acrítico no mais das vezes. Chegará o momento de escolhermos entre uma coisa e outra. Ou de decidirmos que só nos interessa aquela tecnologia que de fato assegure melhores qualidades nas relações humanas, do ponto de vista da saúde em todos os âmbitos. E essa decisão precisará ser tomada fora dos tentáculos sedutores da lógica do mercado – se é que podemos nos imaginar fora deles, hoje.

Haverá tempo para tomarmos tal decisão? Teremos a sabedoria necessária e a determinação para tanto?... Faço votos de que sim.

Enquanto isso, seguimos, entre sobressaltados e desconsolados, mas persistentes na esperança de tempos melhores para viver.


domingo, 1 de janeiro de 2012

Para encontrar e viver o seu amor



Noutro dia, sonhei com uma jovem que descobriu, ao acaso, ser possível materializar coisas que ela imaginava. Sem pensar em fazê-lo, imaginou algo, e em seguida a coisa flutuava em torno dela, ao alcance de sua mão. Ainda brincando, executou com sucesso pela segunda vez a proeza. Na sequência, quando desejou ter o domínio sobre o processo, já não conseguiu. Punha-se sentada, concentrada, em meditação, imaginando coisas. Ao final de algum tempo, olhava em torno, para constatar, frustrada, que não obtivera êxito em seu intento. Observando o processo, compreendi que o segredo estava em não desejar, em não querer ter o poder de decisão sobre quando e o que imaginar e materializar. Além do segredo, ali também residia um paradoxo: para realizar o intento, era preciso não querer realizá-lo, não ter expectativas a respeito. Retomar um estado original de inocência, já rompido.

A experiência humana no tocante ao amor é prenhe de tensões que se assemelham à situação do sonho. Durante muito tempo me perguntei como encontrar um amor. Onde buscar? Como saber quando o teria encontrado? Como reconhecer nele o poder de realização? Nunca obtive resposta satisfatória. Mas aprendi que o amor parece que gosta de se mostrar quando não estamos ocupados em procurá-lo. E quando se revela, desdobra-se em novos paradoxos. Um deles é que desejamos ser amados, mas também desejamos que a pessoa amada nos ame em condição de liberdade para exercê-lo. Em outras palavras: que seja livre, e, assim sendo, que nos eleja para amar. Se não formos escolhidos, caímos em sofrimento. Ao mesmo tempo, conquistar daquele que nos recusa é desafio tão sedutor e apaixonante!... A excitação de ganhar o prêmio de ser amado por quem era livre para nos rejeitar pode usurpar o lugar das motivações iniciais em direção à experiência alentadora e menos sobressaltada de amar e ser amado.

Podemos pensar n’alguém que deseje ter borboletas em seu quintal. Como realizar o projeto? Se recolher borboletas pelos campos e soltá-las no quintal, provavelmente, irão embora em seguida. Se prendê-las em redomas, poderão morrer. Redomas especiais podem assegurar sua sobrevivência. Mas logo perderão a graça, pois já não estarão em liberdade – afinal é preciso que, em estado de liberdade, escolham permanecer por perto... Para ter borboletas no quintal é preciso tomar outras providências, que não sair à sua caça, ou preparar alçapões para apanhá-las: é preciso plantar flores, regá-las, adubar a terra, cuidar da grama, abrir as janelas, arejar os cômodos da casa, esperar pelo sol... Afinal, sem sol, não há borboletas... Com sorte, elas aparecerão, e quem sabe até escolham ficar voejando por ali. Passados os primeiros momentos de aproximação, e conquistada a confiança, podem mesmo decidir depositar os ovos aos cuidados do seu jardim.

Nessa etapa, será revelada a natureza lagarta das borboletas. Nem sempre estamos dispostos a conviver com ela. Em geral, quando evocamos a leveza, a graça e o colorido das borboletas, não levamos em conta a feiura das lagartas. Nunca ouvi alguém dizer que desejasse ter lagartas no seu jardim. Mas borboletas, sim...

Acontece de chegar o dia quando nos deparamos com a natureza lagarta da pessoa amada. Ela está ali, disponível para nos amar, e suas feições já não são de borboleta. Nesse dia, esmorecida a paixão, desfeita a embriaguez da conquista, restam alguns resíduos da ressaca. Olhamos o ser amado-lagarta, e nos perguntamos se ainda há amor. Somos hábeis em esquecer que também temos a nossa própria natureza lagarta, igualmente manifesta, igualmente voraz. Igualmente repulsiva.

A impaciência pode nos fazer esquecer que é necessário tempo para que os ciclos se cumpram; é preciso tempo para que os jardins floresçam, e as borboletas se aproximem; é preciso tempo para que elas estabeleçam vínculo com o lugar, não mais se assustem com a nossa presença; e também para que coloquem seus ovos; os ovos também precisam de tempo – e sol – para descascarem as lagartas – nem sempre tão feias, afinal; e mais tempo será necessário para que elas teçam seu casulo, e se recolham a ele, iniciando a grande transformação. Só então, renascerão borboletas...

Deveria haver um único nome para esse ser borboleta-lagarta-borboleta-lagarta... Deveríamos ter espelhos próprios para vislumbrarmos as faces da nossa natureza lagarta. Imaginar que sejamos sempre borboleta, ou fixar o investimento do amor nas asas coloridas e ágeis das borboletas da pessoa amada é perder de vista os ciclos mais amplos e complexos dos tempos, das transformações.

Sobretudo, é perder de vista que é preciso esperar pelo sol. E ele virá, mas só depois de cumprida a noite. Onde estão as borboletas durante a noite? O que fazem as lagartas no escuro?

Para encontrar o seu amor, cultive flores por onde andar. Para viver o seu amor, cuide das crisálidas, pacientemente. E deixe entrarem o sol e o vento pelas janelas abertas. Quando for noite, proteja os sonhos – eles também podem voar, ou ainda transformar-se em pesadelos medonhos... Mas nunca se esqueça: tudo oscila nos ciclos, tudo passa e tudo volta, lagarta-borboleta-lagarta-borboleta...


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Um ingresso por uma casa para Néia



Sempre achei muito caros os ingressos cobrados pelo Cirque Du Soleil. Mas nunca tive dúvidas quanto ao potencial de encantamento dos seus espetáculos, quantos deles marcando de modo indelével nossos imaginários. Tudo fruto de trabalho primoroso e exaustivo desenvolvido a longo prazo, envolvendo doses equilibradas de técnica, tecnologia e paixão. Por isso, naquele ano decidi que iria ao Cirque, e essa seria a celebração do meu aniversário.

Foi por aqueles dias, também, que encontrei a Néia cheia de angústia. Estava morando com os dois filhos pequenos e o marido numa casa alugada, localizada num bairro distante, sem água, nem segurança. Acabava passando os dias com a mãe, e temia que lhe roubassem suas poucas coisas, enquanto estava ausente. Precisavam decidir se valia a pena cavar um poço, ou investir o dinheiro – de que não dispunham – para arrumar um barraco nos fundos da casa de sua mãe, dando condições mínimas de habitação. O que falta? Portas e janelas, e fiação para puxar a luz. Assim, já seria possível a família ocupar o espaço da casa. Tudo o mais poderia ser ajeitado depois aos poucos. De quanto precisariam para essa primeira etapa? Pouco mais do que o valor de um ingresso para o espetáculo do Cirque Du Soleil...

Naquele ano, pedi ao meu marido, como presente de aniversário, que se juntasse a mim para participar do trabalho que asseguraria condições à nova morada da Néia e sua família. Não fomos ao Cirque. O valor dos dois ingressos foram convertidos em material de construção. Depois confessamos, um ao outro, a alegria em estado puro que nos assaltou, tomada a decisão.

Um ano e meio depois, as paredes já estão todas rebocadas e pintadas, o piso com cerâmica, água nas pias, no tanque, no sanitário. No mês vindouro, começarão a construir mais um cômodo, para desmembrar a área da sala de estar da cozinha.

O Cirque está em mais uma tournê pelo Brasil.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Medo das utopias...



Les utopies apparaissent comme bien plus réalisables qu’on ne le croyait autrefois. Et nous nous trouvons actuellement devant une question bien autrement angoissante: Comment éviter leur réalisation définitive?... Les utopies sont réalisables. La vie marche vers les utopies. Et peut-être um siècle nouveau commence-t-il, um siècle où les intelectuels et la classe cultivée rêveront aux moyens d’éviter les utopies et de retourner à société non utopique, moins ‘parfaite’ et plus libre.

Nicolas Berdiaeff, in Brave New World (Admirável Mundo Novo), escrito em 1932, por Aldous Huxley.


domingo, 16 de outubro de 2011

Viagem pelo firmamento

p/ Fernando Pessoa

Ficava ali, deitada de costas. O gramado alto, à minha volta, tirava do campo de visão a casa, o curral, os cercados, e outros aparatos que me pudessem lembrar as instalações domésticas quotidianas. Apenas avistava a copa das árvores de onde partiam revoadas de passarinhos, recortando o céu na tarde quente.

Meu corpo estava colado ao chão, o que me dava certo conforto, pois sentia vertigens só em pensar que poderia cair no vácuo aberto à frente...

Imaginava seguir numa nave – o Planeta Terra – que avançava no espaço, Sistema Solar afora. Os pássaros recortavam os ares, abrindo o caminho para ela. E eu ali, miúda, agarrando-me à sua superfície, vivendo a ventura sentir o peso do firmamento nos próprios ossos, e experimentando o medo de me perder nele...

Medo de me perder? Nalgum dia, por acaso, já teríamos sabido ao certo por onde andamos navegando, universo adentro? Quem detém o mapa dessa viagem? É certo que não andamos, meio perdidos, por aí?


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Entre o macro e o micro

p/ Alexandre, o Grande, Marx, Freud, Mao Tsé-Tung,
Che Guevara, Steve Jobs, e quantos outros.

Fico imaginando como seja o convívio diário com grandes homens (são poucas as mulheres na lista das grandes personalidades, essas que tenham marcado profundamente a história da humanidade...). Considerando que sua grandeza está em não se imiscuir com pequenezas, e que o convívio é assunto do quotidiano, é de se supor que esse compartilhamento das pequenas coisas do dia a dia não seja dos mais fáceis...

Afinal, não é toda grandeza que habilita as pessoas à construção, dia a dia, ponto a ponto, das malhas que ligam as pessoas, como a tecedeira que monta seus lençóis e mantas impregnadas de aconchego.

Grandes homens estão, quase sempre, muito ocupados com itens relativos ao macro: macro-estrutura, macro-economia, dimensões macro da existência humana... Não dispõem-se a perder seu tempo pensando no dia a dia, em pequenos pontos, nas coisas práticas da vida (coisas de que mais se ocupam as mulheres...).


Mas, onde reside o humano? Talvez não resida: em fluxos, o humano pulse entre o macro e o micro, entre o grandioso e as pequenas ações do quotidiano...

Pergunto-me, então, onde encontrar as pessoas cuja sabedoria lhes permita transitar entre o macro e o micro, entre o quotidiano e as questões que dizem respeito à humanidade...

Essas, provavelmente, anônimas, ou quase, sequer constem dos anais das histórias...