domingo, 10 de junho de 2018

Eu e as copas do mundo de futebol...


Nasci num ano de copa do mundo. Mas ninguém da minha família se interessava pelo assunto, nem naquela, nem na copa seguinte. A primeira vez que acompanhei uma copa do mundo de futebol foi em 1970. Acompanhar não é o verbo mais adequado para definir o que aconteceu. Àquela época, eu nunca assistira a uma partida de futebol. Portanto, não sabia como funcionava, não tinha incorporado aos meus poucos repertórios a cena, o ambiente, a dinâmica, o espetáculo do jogo. Meus irmãos já moravam em grandes centros. Mas eu, ainda menina, vivia com meus pais no campo. E acompanhávamos o que se passava pelo resto do país por meio da programação de rádio. Então, a primeira vez que acompanhei uma copa do mundo, foi por meio da transmissão dos jogos pelos rádios. Ouvia o narrador, tentando imaginar o que se passava. Imaginação não me faltava. Mas era sempre difícil reconstituir mentalmente uma cena da qual eu jamais participara.

De toda sorte, eu sabia que alguma coisa supostamente importante se passava ali. No último jogo, o Brasil foi campeão. Saí à porta lateral da casa, olhei o céu cinzento, revoada de andorinhas, um abacateiro enorme à frente. Eu deveria estar emocionada. A voz do narrador estava transtornada de felicidade. Eu fiz um esforço para também me sentir assim. Confesso que foi uma atuação. Talvez meus gostos por teatro tenham começado por ali... Muitos anos depois, por vezes eu encontrava, num velho dicionário, alguns resultados de jogos daquela ocasião, que eu e minha mãe tínhamos anotado. Tinha os nomes dos países, e os gols que cada um fizera. Para mim, interessava como anotações matemáticas, mais do que qualquer outra coisa.

Não me lembro da copa de 74, nem de 78. Em 82, num dos jogos, à tarde, eu estava na universidade. Eu estava sempre por lá: desenvolvendo algum projeto, trabalhando num atelier, estudando na biblioteca, ensaiando nalguma peça... Naqueles dias de jogo era ótimo trabalhar por lá, pois ela estava vazia... Então, do meio para o final da tarde, terminadas minhas atividades, saí do prédio, para iniciar uma caminhada de uns vinte minutos até a parada de ônibus. Alguém, no prédio da música, ensaiava alguma música ao saxofone. O som atravessava o deserto das vias, e a atmosfera cinzenta da seca já iniciada em pleno cerrado. Distante, alguns fogos pipocaram, e uns gritos comemoravam algum gol. Fui seguindo meu trajeto. O som do sax foi ficando cada vez mais distante, e o sol muito vermelho na medida em que se aproximava do horizonte.

Em 1986 eu morava e trabalhava em Planaltina. Em casa, eu tinha um aparelho de televisão a válvula, em preto e branco. Lembro-me de amigos que brincavam comigo, dizendo que se fossem assistir ao jogo lá em casa, eu teria de ligar a televisão uns três dias antes. Isso porque o aparelho se demorava a funcionar, até que as válvulas esquentassem. Não me lembro de nenhum jogo da copa.

Não me lembro de nada referente à copa de 1990. Mas, em 1994, eu trabalhava numa escola parque, em Brasília. Já mais ao final da copa, a direção organizou um churrasco na escola, e os professores foram assistir ao jogo. Num dos gols, todos levantaram, pularam, se abraçaram. Eu fui abraçada em festa por um professor com quem eu sequer conversava. Foi tudo muito estranho. Senti-me, novamente, como quando acompanhei os jogos pelo rádio... Naquele ano, o Brasil foi até a final. Mas eu viajaria no dia do último jogo. Então programei o vídeo para gravar no dia e horário certinhos. A fita de VHS, com duração de duas horas, seria disparada na hora do início do jogo. Foi meu erro: duas horas depois de iniciadas as gravações, acabou-se a fita, mas não o jogo. O Brasil ganhou nos pênaltis, depois da prorrogação. Nunca rodei a fita. Nem sei onde ela foi parar. Durante a viagem, quando o ônibus entrou nalguma cidadezinha do interior de São Paulo, as ruas estavam completamente vazias. Nem os fantasmas circulavam por ela. Na rodoviária, as pessoas se apinhavam em torno aos aparelhos de televisão. Estava na prorrogação. O ônibus partiu antes dos pênaltis. Eu só soube do resultado quando cheguei ao destino final, no outro dia.

Na minha volta, um amigo deixou um recado na secretária eletrônica do meu telefone, brincando com o fato de eu não estar em Brasília para receber a seleção heroica, em seu desfile pelo centro da cidade... eu quase respirei aliviada por não ter estado lá.

Não me lembro da copa de 98. Em 2002, os jogos eram todos muito tarde da noite, muitos na madrugada. Os vizinhos não me deixavam dormir. Mas eu não consegui ver nenhum jogo. Só acompanhei os noticiários. E o número de vezes que os fogos estouravam me informavam quantos gols a seleção tinha feito. Eu só não sabia quantos tinha levado. Ao final, foi pentacampeã.

Passaram-se, depois, as copas de 2006 e 2010. Não me recordo dos jogos, nem das circunstâncias. Só chegando a 2014, com os jogos no Brasil, foi impossível passar indiferente à programação. Houve treinos de seleções em Goiânia. Em Brasília o antigo Mané Garrincha (onde, nos anos 80 e 90, participei de tantas assembleias de professores em greves e outras mobilizações...) foi transformado no mais caro estádio construído – depois tema de investigação de desvio de dinheiro e corrupção. Foi nele, também, que a seleção brasileira protagonizou o jogo quando perdeu de 7 a 1 para a Alemanha – a mesma seleção de quem ganhou, em 2002, na final.

Diz-se que o resultado de 7 a 1 deixou trauma para a torcida e os jogadores. Eu tenho muitos traumas. Com certeza não incluo o resultado desse jogo como um deles.

Nesta semana fui informada que, por força de determinação do Ministério do Planejamento, o funcionalismo público (inclusive as universidades federais) deverá suspender as atividades nos turnos quando houver jogo da seleção brasileira. O cenário político atual talvez queira tirar proveito de alguma possível boa atuação da equipe canarinho, como foi feito em 1970... Depois das manifestações políticas com o pato amarelo e as camisetas da seleção, não consigo sequer olhar para a camiseta amarela.

Está bem, este relato é também uma confissão de idade... dou-me conta de que, neste ano, completo um número múltiplo de quatro em anos vividos...
Y así vamos, adelante, sin mismo saber lo que se pasa, más allá, adónde vamos…








sábado, 12 de maio de 2018

De mulher p'rá mulher: mãezinhas



Meu carinho a algumas mulheres-mães. Por intermédio delas, a todas as mulheres.

À Néia, que neste ano teve a surpresa de ficar grávida novamente, quando seu filho caçula já tinha comemorado os 15 anos. Mas também viveu a perda de seu neném no segundo mês de gravidez.

À Julia, mamãe da Alice e da Maitê, que vão se pondo mocinhas lindas! Enquanto isso, trabalha em jornada dupla, e começa a se reorganizar para retomar os estudos!

À Adriane, mamãe inquieta que vai estrear como avó, mas continua parecendo uma menina que frequenta o colegial! Mas não se enganem: já já será doutora!

À FafaZinha, que mal acabou de celebrar o aniversário da mocinha Alice, e já está em outra jornada maternal!

À Lorena, que está trazendo o Martin na embalagem... mas a embalagem já está ficando pequena, e não demora para ele ganhar o mundo!

À Anaí, minha comadre, mãe de dois rapazes lindos, o Mateus e o Heitor, de quem tenho saudades, por não estar perto, conforme gostaria tanto!

À amada Vagna, que neste ano vai passar o dia das mães hospitalizada, depois de uma travessia difícil com alguns sustos e intercorrências; mas na próxima semana já estará em casa, novamente, com os filhos e netos e amigos e marido e gatinha e cachorro e plantinhas! Todos esperam ansiosos por você!

À Dona Alice, minha mãezinha, que vai singrando o tempo para completar seus 91 anos!





sábado, 14 de abril de 2018

Das pegadas que o trabalho docente deixa



Iniciava-se a segunda reunião de 2018 dos pesquisadores de pós-doutorado do Programa Avançado em Cultura Contemporânea, o PACC, da UFRJ. As pessoas foram chegando, aos poucos. Conversas afetivas. Reencontros. Um rapaz me olhou, perguntando de onde me conhecia. Eu não sabia. Começamos a traçar lugares que poderiam sem comuns. Brasília. Universidade de Brasília. Ele lembrou-se: eu fora sua professora, em 2003. Lembrou-se mais ainda: estudou, comigo, a disciplina Introdução à Sociologia, quando eu a ministrei na condição de doutoranda, como atividade de estágio docência. Sorrimos. Era uma turma com mais de 90 pessoas. O desafio que me cabia era enorme. Eu não me lembraria de seus rostos. Não me lembrava dele. Mas ele se lembrava de mim. E se lembrava das minhas aulas, dos autores que estudamos, juntos. Citou Norbert Elias, dizendo que a partir dali interessou-se pelas ciências sociais.

Agora está cumprindo seu estágio pós-doutoral no PACC. Assim, reencontramo-nos. Assim, reencontrei-me com quem fui, ou penso que eu tenha sido, há 15 anos. Reencontrar esses rastros também me ajuda a pensar quem sou agora.

Feliz pelo encontro. A despeito de tudo, esses caminhos têm, sim, um coração.







terça-feira, 10 de abril de 2018

As razões para eu ter medo sentam-se ao meu lado



Do outro lado do corredor do ônibus, duas senhoras conversavam, durante a viagem. Uma delas falou que estava fazendo formação em reiki. Prestei atenção, pois já fiz essa formação e, durante muito tempo, apliquei reiki em muita gente. A outra perguntou o que era. Essa começou a ler, numa apostila alguma coisa como o reiki tem três níveis; um é das dores do corpo, nosso ego menor; outro é do nosso espírito; outro é do universo todo... mas isso foi uma leitura longa, quase interminável. A outra interrompeu: chega, está bem, já entendi, é uma seita. Eu ri. A estudante de reiki nem tinha explicado o que era, e já foi defendendo que não era uma seita, que era uma coisa muito boa, que era japonês, “é claro”, e mostrou símbolos diversos que estavam na apostila: infinito, estrela de seis pontas, palavras em japonês, etc.

Esta mesma contou que mora em Brasília, e pretende vender o apartamento para comprar uma casa no Plano Piloto, construir três quitinetes para alugar a “pessoas de bem”. Pensei: o que seriam pessoas de bem. Ofereceu logo para a outra, se quisesse, quando fosse a Brasília, para ficar numa das quitinetes que vai construir quando comprar a casa com o dinheiro do apartamento onde mora que ainda está pensando em vender... a outra aceitou, e passou o número do telefone, para acertarem o aluguel, quando estiverem prontas as quitinetes que vai construir quando comprar a casa com o dinheiro do apartamento onde mora que ainda está pensando em vender...

A inquilina, entre uma conversa e outra, contou que o filho trabalha com bitcoins. Pronto, a dona das quitinetes que ainda serão construídas animou-se, quer comprar bitcoins. Encontrou mais um motivo para confirmar o número do telefone da futura inquilina. Tinham, afinal, vários interesses em comum.

A dona das quitinetes que ainda serão construídas contou que a astrologia tem previsto uma grande mudança econômica, cujas características apontam para a revolução dos bitcoins, que ela insiste em pronunciar algo como bitcôn...

Estavam, ambas, preocupadas com as revoluções econômicas, e com o futuro da economia do país. Aí entraram no assunto do atual momento político brasileiro. A dona das quitinetes que ainda serão construídas explicou, com calma, que, com a vitória do candidato militar à Presidência da República, tudo ficará bem, pois ele tem os militares com ele, e os militares têm as armas e a determinação de defender as instituições. Acrescentou que os militares não vão deixar os políticos legislarem em causa própria, nem ficarem desviando todo o dinheiro para si. Senti um breve arrepio percorrer a pele. Ela prosseguiu: “E desta vez não vai ser como da outra vez. A gente não vai deixar eles matarem muita gente...” O arrepio transformou-se em calafrio subindo pela coluna vertebral.

Então, ela arrematou: “Agora, tem uns por aí que, se eu enxergar alguém dando tiro neles, eu faço de conta que não vi, não é nem comigo...”

Pessoas de bem... reiki... astrologia... bitcoins...

O medo abraçou o meu corpo. O ônibus seguia calmo pela estrada, mas eu olhava para o horizonte, à frente, receando não vislumbrar luzes no futuro ali desenhado...





sábado, 7 de abril de 2018

Déjà vu... dos sonhos e das dores...




Corria o ano de 1994. O movimento pelas Diretas Já mobilizava e comovia todo o país. A certa altura, eu trabalhava numa escola e estava acompanhando minha irmã, internada, depois de 10 dias entre a vida e a morte, numa UTI. As mobilizações ecoavam no meu peito, e eu atendia as minhas urgências portando roupa amarela, ou uma fita amarela no corpo, a cor símbolo da mobilização. Sim, a cor amarela já teve um peso bem diferente da que assume hoje, nas manifestações públicas...

O Congresso Nacional não aprovou a emenda das diretas. Era de se esperar, a se considerar o perfil espúrio de sua formação. Houve negociações. Tancredo, que estivera nos palanques do movimento, compareceu como alguém que, assumindo a presidência, poderia funcionar como um moderador para fazer a transição. Mas, de quebra, ele levou Sarney como candidato a vice. Era o preço da negociação. Parecia um mal necessário para se avançar. Engoliu-se em seco.

Tancredo/Sarney foram eleitos pelo voto indireto, com o aval das mobilizações populares. Mas, às vésperas do ritual de posse, Tancredo foi internado às pressas, para morrer no dia 21 de abril. Talvez tenha morrido no dia anterior, com a informação adiada pela importância simbólica do dia 21. Meu pai morrera também num dia 21 de abril, alguns anos antes disso...

A interpretação da lei, sempre, deixando dúvidas e brechas para atender aos interesses não da população, mas das elites. Como Tancredo não tomara posse antes de ser internado, Sarney não poderia ter assumido a presidência, substituindo Tancredo. Mas assumiu. E foi presidente por uma gestão completa, sem vice. Para mim, que atravessei esse período nos primeiros estágios da minha carreira profissional, pondo-me em pé como cidadã, foi traumático.

Nesse período, houve a Constituinte, aprovou-se a Constituição de 1988, e encaminharam-se as primeiras eleições diretas para presidente depois de longo e sombrio período de ditadura. Na cena política, começava a emergir um operário, com um discurso que apontava para outras possibilidades para um projeto de país. Emergia, também, um bravateiro, bem conhecido da cena brasiliense, não por sua máscara política, mas em sua versão como playboy.

Em outras palavras, no primeiro certame de voto direto à Presidência da República, no período pós-ditadura militar, o embate foi entre um operário e um playboy bravateiro.

Em plena campanha, um pouco antes das eleições, era fim de tarde, passei num supermercado antes de voltar para casa. À saída, um menino que cuidava dos carros veio conversar comigo. Tinha vigiado meu fusquinha cor amarelo-limão. Seus olhos brilhavam. Ele me perguntou o que eu achava, se o Lula ganharia as eleições. Disse que não sabia. Havia esperança nos olhos dele, e emoção na minha resposta. Ele me abraçou. Voltei para casa comovida.

Mas foi no playboy que a maioria da população votou, convencida por seus discursos inflamados e pela promessa de combate aos marajás... 

Logo começaram os problemas. E boa parte da população ocupou as ruas. Até ele ser destituído do posto. Novamente o vice-presidente assumia o cargo. (Como é que a gente não aprende?)

Nas duas eleições seguintes o operário estava lá, na linha de frente, enfrentando não mais um playboy, mas um sociólogo. Só em 2002, na quarta rodada, contra o representante do sociólogo, o operário foi eleito.

No dia da posse, havia uma atmosfera vibrátil envolvendo a população, a cidade, a atmosfera. Cada minuto daquele dia foi carregado de emoção. Cada gesto era portador de um significado denso e profundo.

Mas as utopias não se realizam assim. Sobretudo nos estratos mais altos do poder os embates são muito mais duros, astutos, e operam com múltiplas faces e máscaras. Nem sempre o que parece é, nem sempre o que é dá-se a perceber. Os jogos transcorrem deixando à vista muito pouco. Aliás, mostrar e ocultar e fingir e forjar são estratégias do próprio jogo. Demora-se para aprender isso. Demora-se a ponto de já não haver tempo para se defender...

A posse do Lula coincidiu com o início de minha carreira como professora em universidade pública federal. Então eu firmei meu passo nesse caminho dentro do projeto de educação que ele bancou. Antes disso, eu fora estudante de graduação, mestrado e doutorado, sempre em universidade pública. Tinha testemunhado como a ditadura tratou o ensino superior, e depois testemunhei as vacas magras da universidade na última década do século XX, período que antecedeu a gestão Lula. 

Integrar a comunidade de uma universidade em expansão foi motivador como eu não tinha imaginado possível. Eu, que vinha de uma longa experiência como professora na educação básica, tinha a oportunidade de atuar na formação de professores, como parte do projeto que sonha com uma sociedade mais justa, solidária.

Depois de duas gestões, o operário conseguiu fazer eleger sua sucessora, a primeira mulher a assumir a presidência da República. Um marco importante, mas certamente insuportável para uma sociedade patriarcal-machista. Independentemente de sua possível pouca habilidade para negociar (importa perguntar o que significa negociar tendo-se um Congresso Nacional que manteve as feições daquele que não aprovou a emenda das diretas e emplacou Sarney como vice do Tancredo...) e outras dificuldades, o fato é que ela sofreu todas as pressões que o cargo supõe, multiplicadas várias vezes por sua condição de mulher.

Não foi ao acaso que, na cerimônia de sua primeira posse, Dilma enfrentou uma chuva intensa. Prenúncio das tempestades que viria a enfrentar, e que já estavam plantadas de antemão, embora bem dissimuladas. Foi em nome das negociações que seu vice foi escolhido. Ah, as negociações e os vices! Ela governou com o inimigo ocupando esse cargo. Foi ele quem assumiu a presidência, na segunda gestão, depois do processo de impedimento, no qual ele cumpriu papel protagonista.

Ah, os vice-presidentes... definitivamente, nós não aprendemos...

Hoje, dia 7 de abril de 2018, no final da tarde, muitos fogos começaram a pipocar pela cidade, numa Brasília 34 anos mais velha em relação àquela mobilizada pelas diretas já. Carros buzinavam pelas ruas. Parecia final de copa do mundo de futebol. Não era. Com os equipamentos de comunicação desligados, pressenti o que estivesse a ocorrer. Naquele momento, Lula se entregava à prisão, e era conduzido ao prédio da Polícia Federal. À entrada, uma placa com seu nome, o Presidente da República em cuja gestão aquela sede foi inaugurada.

Dediquei os últimos 34 anos à defesa de sonhos em favor de uma sociedade mais fraterna, pautada pelo convívio solidário. Embora me faltem certezas a respeito de que formatos tenha uma sociedade assim, o cenário que se desenha no horizonte não se parece em nada com nenhuma formatação que aponte nessa direção.

Reencontro personagens parecidos com os que já tivemos a oportunidade de conhecer. Sinto um grande cansaço diante do déjà vu... o outro sentimento que se soma ao cansaço é a tristeza.

No quarto, minha mãe tosse, recém-saída de uma internação hospitalar. Que os afetos apontem caminhos possíveis de sair desta zona de sombras e incertezas, desse terreno tão pouco afeito aos sonhos...