segunda-feira, 19 de junho de 2017

Manual de instruções para viajantes de trem e metrô






Pessoas que viajam em trens e metrôs têm atitude.
Parecem distraídas, mas estão atentas.
Seus corpos parecem relaxados, mas estão a ponto de (re)agir.
Se em pé, parecem estáveis, embora suas musculaturas trabalhem para manter o equilíbrio apesar do movimento.
Os olhares parecem perdidos na paisagem, mas nada passa despercebido à volta.
Quando o trem se aproxima da estação, a expressão é de indiferença...
Mas quando o trem para e a porta é aberta, levantam e saem, como se tivessem decidido fazê-lo no último instante.
Os passos, pela estação, são rápidos, como quem percorre território conhecido e estranho ao mesmo tempo.

Essa atitude tem alguma correspondência com a lei da física que rege a condição de viajar no trem.
O corpo está parado dentro do trem que se movimenta em velocidade.
O corpo parece parado, mas não está: move-se com o trem.
E quando o trem para, e o viajante desembarca, o corpo começa a se movimentar.
Ou continua a se movimentar. De outra forma.

Em viagens de carro, ou de ônibus, o corpo também permanece parado dentro do veículo em movimento.
Mas ele não parece parado: as irregularidades da via sacodem o veículo.
Então não é possível parecer parado.
O movimento se faz sentir de todas as formas.

As viagens de trem, e metrô, de alguma maneira, se parecem com a viagem que fazemos no firmamento.
O solo por onde caminhamos parece parado, estável, seguro.
Por vezes caímos, mas é pelo efeito da gravidade, e dos nossos próprios tropeços.

Embora pareça, o planeta-veículo que habitamos não está parado.
Movimenta-se em alta velocidade em torno ao sol.
E o sistema solar movimenta-se em alta velocidade na galáxia.
E a galáxia movimenta-se pelo imponderável, em velocidade que não se calcula pelas escalas humanas...







segunda-feira, 12 de junho de 2017

Dia dos namorados

p/ o meu amor, que não me dá flores compradas na loja.





Que no dia dos namorados, o amor se revele em pequenas belezas capazes de surpreender e capturar os sentidos, pela forma, pelo perfume, pelo brilho no olhar. E, num fragmento de instante, o mundo ganhe algum sentido.






terça-feira, 6 de junho de 2017

A mocinha que vende performance de antifeminista e a mulher-robô de Fritz Lang


A câmera do aparelho telefônico está criteriosamente posicionada para colocar em tela seu rosto, a parte superior do tronco e, principalmente, os gestos contundentes das mãos, com unhas cuidadosamente pintadas. E para parecer um pouco negligente, como se estivesse colocada meio ao acaso. Ela, a moça que executará a performance, conhece bem o campo coberto pela câmera, e cuidadosamente se move de modo a tirar proveito do enquadramento, com algumas saídas estratégicas, para entradas veementes em seguida. Antes de iniciar o espetáculo, os organizadores, homens, preparam microfone, fazem comentários com ela, que responde sempre afável e com a expressão de segurança, de quem sabe o que está fazendo. O sorriso breve sugere reconhecimento do terreno bem como certeza dos modos como moverá as peças para dominar a cena.

Ela calculou todos os passos para causar impacto. Polêmica é o seu principal produto à venda. Performance é sua estratégia. Por isso escolheu, para usar como bandeira, um assunto capaz de mobilizar passionalidades. Combater o feminismo pode ser uma boa pedida. Não importa o teor do seu discurso, tampouco importa se articula de modo coerente os conceitos que anuncia. Não importa se mente, ou se de fato leu todas as autoras cujos nomes brada, como se preparasse a próxima lista de bruxas que devessem ser condenadas à fogueira. Nada disso importa. Por isso mesmo, não adianta contestar seu discurso, nem contra-argumentar, nem convocar à razão. O que está em pauta, de fato, é o seu cachê, os cachês que vão sendo pagos por organizadores de eventos para públicos marcadamente masculinos (também não importa quantas mulheres deles façam parte). O valor do cachê é diretamente proporcional à sua capacidade de incitação à reação.

Por isso são vãos os protestos das feministas. Ou melhor: não, não são vãos, eles fazem parte dos cálculos da mocinha, e integram as estratégias de sua performance. Ela precisa deles, e eles são infalíveis: estão sempre lá, ou à volta. Ou mesmo estão na audiência difusa que a acompanha por meio das imagens geradas pela câmera, aquela que foi criteriosamente posicionada para transmitir sua performance online, ao vivo, e depois manter o vídeo disponível em plataformas digitais, para seus admiradores e seguidores, tanto quanto para seus adversários. Isso a alimenta. Isso alimenta sua performance. Isso alimenta seu cachê.

Seu rosto, seu gesto, sua expressão lembram-me as feições de outra mulher que marca a história do cinema: a robô que ocupou o lugar de Maria, no filme Metrópolis, de Fritz Lang. Aos que não viram o filme, faço um briefing. Metrópolis é uma cidade dividida em camadas. Cada camada é ocupada por uma categoria, posicionada de acordo com seu poder, capital econômico e importância na estrutura social. A elite habita a superfície, em palácios suntuosos; as máquinas, que são o meio de produção de riquezas, ocupam o primeiro subsolo; os operários, que operam as máquinas em jornadas extenuantes, vivem abaixo, ainda, num segundo subsolo, e nunca, mas nunca mesmo, podem emergir à superfície. Entre eles, Maria é uma espécie de revolucionária pacífica, com tintas messiânicas. Ela se esforça por agregar os operários, e defende que, por meio do amor, poderão encontrar um meio de sair daquela situação desumana e insustentável. Promete, ainda, que esse dia está por chegar. O filho do empresário principal proprietário da cidade, por acidente, acaba por conhecê-la. Quando sai à sua busca, acaba tomando conhecimento dos subsolos da cidade, e das condições miseráveis dos operários. Finalmente, a vê numa espécie de catacumba ainda mais profunda, numa de suas pregações aos demais operários. Apaixonam-se um pelo outro.

Na superfície, seu pai também é informado sobre o que se passa. Então reúne-se com o cientista, com quem arquiteta um plano diabólico: programar um robô com as mesmas feições de Maria, para ocupar o seu lugar, enquanto ela é mantida sequestrada. A robô-Maria é sensual, sedutora, participa de festas em boites para o deleite dos homens. E, quando desce à catacumba, ao encontro dos operários, no lugar da verdadeira Maria, os incita à rebelião, ao ódio. A ideia é que os operários reajam com violência, para justificar à elite combatê-los também com violência. E eles correspondem ao chamado. Contudo, a reação em massa escapa ao controle de todos. A horda não só destrói as máquinas como também coloca em risco a segurança da população, inclusive das crianças, filhos dos operários. Quando estes se dão conta, voltam-se contra a robô. Perseguem-na, e a queimam na fogueira.

Maria, libertada, consegue, finalmente, reunir-se à sua gente, e ao novo amor. Mais que isso, conquista o intento de mediar as negociações de um novo tempo. Talvez o filme se encaminhe para um final excessivamente otimista, um pouco piegas até. Talvez àquele tempo fosse necessário uma dose extra de otimismo, dadas as circunstâncias tão adversas vividas na Alemanha da década de 1920. Aos sobressaltos, entre polarizações e escapando a gestos de ódio também transcorremos os dias de hoje. Não nos faria mal algumas doses extras de otimismo e de esperança, sem perder o sentido crítico do mundo vivido.

A mocinha que se diz antifeminista prossegue em sua atuação diante da câmera e da platéia que a aplaude. O lugar onde está não se assemelha à catacumba onde Maria-robô incitou os operários. Mas a mocinha que se diz antifeminista está no auditório de uma universidade, onde, em tese, transitam os homens (sobretudo homens) de ciência. Ela, Maria-robô, foi devidamente programada por dois homens: um da ciência (frequentaria também universidades?), outro do capital (que toma as decisões; por exemplo, pode decidir pagar por uma palestra da mocinha que se diz antifeminista...). A performance da mocinha, seu olhar, seu discurso têm muitas afinidades com os da Maria-Robô. Estremeço pensando no fim dado à antagonista criada por Fritz Lang. Espero, sinceramente, que a mocinha não corra o risco de ter qualquer desfecho trágico assemelhado àquele. Mas, ao mesmo tempo, espero que a horda por ela incitada não reaja de modo a destruir conquistas frágeis que têm sido construídas a duras penas, amealhadas no decurso do tempo.

O risco está sempre ali, à frente, iminente.

Para ver Metrópolis: aqui 












sábado, 22 de abril de 2017

Meu guia por territórios mágicos

p/ David

Eu tinha seis, sete, oito anos. Por vezes, meu pai me chamava para ir com ele buscar lenha, ou o milho maduro, já devidamente quebrado e reunido em grandes montes, no meio da roça. Ou mandioca, bananas, melancia... Íamos de carro de boi. Na ida, o carro ia vazio, e os solavancos do solo irregular nos jogavam de um lado para o outro, na caixa de madeira sobre rodas. Na volta, o carro pesado são sacudia tanto. Mas os bois sofriam mais.

Passávamos por dentro da mata. A mata estava bem ali, próxima. Mas era outro lugar, com outros tempos e outras temperaturas. A mata era um território mágico. Eu me sentia segura levada por ele. Ele conhecia os caminhos, as árvores, os sons, os perigos e as rotas sem risco. Ele era o senhor de suas cartografias.

Já se passaram 39 anos desde que ele se se foi, por outras matas mágicas, sem caminhos de volta.