domingo, 3 de setembro de 2017

Das lições de uma hortelã





Durante o dia, ela se alonga empurrando-se contra o vidro da janela, em busca da luz.
Mais tarde, já pela noite, no escuro, seus galhos estão eretos, voltados para cima. Repousa.
Tão precária a vida... tamanha gana de viver.




segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Não ser feminista é similar a ser escravagista.


O feminismo é o movimento de igualdade de que estávamos precisando. Não ser feminista é similar a ser escravagista. A decência diz que é preciso vencer o lugar comum e respaldar que homens e mulheres são iguais na casa, no trabalho, nas instituições, na religião; que não pode haver normas coercitivas por costumes ou interesses. Feminismo é decência, simplesmente. Nada mais e nada menos que isso.
Pilar del Río.









segunda-feira, 24 de julho de 2017

Conversas com Dona Olga

No pequeno restaurante, Dona Olga atende os fregueses com gentileza: monta os pratos feitos, arruma a mesa, serve o café, oferece sempre um sorriso tímido, fala pouco.

Pela manhã, fugindo à regra, desatou a conversar. Estava às voltas com uma questão que a inquietava: De que vale homenagear as pessoas depois que elas já morreram?

Interessei-me por sua pergunta. Começamos a conversar sobre o assunto. Ela contou-me de uma senhorinha que, em vida, era muito só. Deixou sua herança para um projeto social de sua cidade. Então, e só então, os membros desse projeto, e seus vizinhos, e demais moradores do local descobriram que ela tinha um acervo com grande valor cultural. Em razão disso, organizaram várias homenagens a ela. Mas, como insistia Dona Olga, tais homenagens não chegaram à senhorinha... Eram, na verdade, uma espécie de redenção da comunidade pelo não reconhecimento a ela, em vida.

Contei-lhe a história de Van Gogh que, em vida, teve apenas uma pintura vendida, e atualmente seus quadros estão entre os mais caros no mercado da arte. Lembrei também da artista Artemísia e sua dramática história. Ela então ponderou que, se hoje as mulheres vivem circunstâncias tão desfavoráveis, como teria sido lá pelos séculos XV, XVI, XVII?

Perguntei-lhe então se gostava de poesia. Seus olhos brilharam, respondeu que sim. Que iria dar-lhe, então, um livro de poemas escritos por minha mãe, falei. Sorriu. Ela também já escrevera poemas. Era quase uma confissão. Nunca os publicou? Não, foi sua resposta. Disse que, à época, trabalhava num comércio, e tinha um caderno, onde metia as poesias que lhe apareciam à cabeça. Disse também que tinha escrito muitas, mas que estavam guardadas.

No dia seguinte, entreguei-lhe o livro. Espero que goste dos escritos da minha mãe. E que possamos celebrar a poesia, a experiência estética, os encontros fraternos em vida, sempre!



quinta-feira, 13 de julho de 2017

Aqui, agora



Recebi um mimo para entregar à minha mãe. Um burrinho pequenino, cuidadosamente construído com diversos materiais, por mãos de artífice habilidoso, artista popular.

Cheguei à sua casa, e lhe entreguei o mimo. Quem mandou? O Juan, minha mãe. Juan? Buscou na memória frágil alguma referência que a ajudasse descobrir quem era Juan. Trouxe-lhe uma almofada rosa, de que ela gosta muito. Lembra desta almofada? Quem fez foi a Lola, avó dele. Ele quem lhe trouxe. Ela fez hannnnn, como se lembrasse. Mas fez só para não ter que encompridar um exercício de memória que resultaria em nada.

Ela se encantou com o burrinho. Beijou, brincou com ele, procurou um lugar bem à vista para guardar: Não posso colocar num lugar onde ele corra o risco de cair... Colocou na sala, junto com o boizinho de fibra de vidro, ao lado de dois bibelôs na forma de cachorro. O burrinho era muito menor que o boizinho, e também perdia em tamanho para os cachorros. Rimos por isso.

Alguns minutos depois, já na cozinha, comentei sobre o burrinho. Ela me olhou, sem entender o comentário: Burrinho?...

Voltamos à sala. Quando avistou o burrinho, lembrou-se: Ah, o meu burrinho, é bunitinho!

Do Juan, ainda não conseguiu se lembrar. Mas agradece pelo mimo, toda afetos.






domingo, 2 de julho de 2017

Quem tem medo do Photoshop?


Cheguei à copiadora de costume. Os dois rapazes que atendem estavam ocupados. Então a gerente veio me atender. Expliquei que eu precisava fazer a cópia da minha identidade, frente e verso, e da carteira de motorista, todas juntas na mesma página, a cores. Perguntei: você pode fazer isso? Notei um lampejo de hesitação no seu rosto. Ela olhou na direção de um dos rapazes. Olhou para mim. Nessa fração de segundo, ocorreu-me um conjunto de estratégias que eu poderia usar, dispondo de vários programas de computador, para fazer isso. Arrependi-me de não ter preparado o arquivo, levando-o já pronto. Então ela disse: Posso fazer, sim. Entreguei os documentos a ela, que foi digitaliza-los. Depois mos devolveu, e disse: Vai demorar só um pouquinho. E foi trabalhar num dos computadores disponíveis. Depois de alguns minutos, fui observá-la enquanto editava o material. Estava trabalhando com o Photoshop. Mas, a certa altura, não conseguiu reunir a segunda imagem ao arquivo aberto. Fez algumas tentativas. Chamou o rapaz, já liberado da tarefa anterior. Ele veio, e mostrou a ela uns atalhos, por meio dos quais rapidamente conseguiu realizar o intento. Mais um e outro ajuste, estava pronto. Eu sorri, e brinquei: Ah, Photoshop, cheio de segredos e atalhos! O rapaz sorriu, com ares de expertise. Ele comentou que só consegue trabalhar fazendo uso de atalhos. Então a gerente olhou para mim, e comentou: Você não vai acreditar, mas é a primeira vez que eu mexo com o Photoshop! Já não havia hesitação no seu rosto. Ao contrário, estava contente. Alegre como uma criança que consegue superar um desafio. Comentei que tinha observado alguma hesitação no seu rosto, quando fiz o pedido. Ela respondeu que, constatando estarem os dois rapazes ocupados, se perguntou se ela própria conseguiria. Então decidiu tentar. E conseguiu ir sozinha até certa altura. Já se sentia especialista em Photoshop!