quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Das funções do riso


Sentadas à mesa, eu tomava uma xícara de xá, enquanto minha irmã fazia nebulização. Eu falava besteiras, e nós duas ríamos muito, ríamos de nada, ríamos como riem as irmãs com o espírito leve, em tardes ensolaradas, depois de temporais.

Sentada, ao outro lado da mesa, às vésperas de completar 90 anos, nossa mãe nos observava, e ria também. Numa pausa, ela iniciou uma declaração, em tom quase solene:

- Vocês duas não imaginam o quanto me ajudaram, com essa risadaiada...

Eu e minha irmã aguardamos o seguimento da fala, na expectativa que ela se referisse ao papel da alegria para manter a família unida, ou do quanto a alegria faz bem à saúde, ou algo similar. Havia uma quase comoção no ar. 

Então ela prosseguiu:

- Enquanto vocês riam, eu aproveitei para soltar tantos peidos... Nossa, estou aliviada!

Os risos se prolongaram, sim, por mais um bom tempo. Por que faz bem. Inclusive para eliminar gases!







domingo, 29 de outubro de 2017

Refeição diferenciada para pessoas diferenciadas


p/ o Renato

Nosso voo saiu depois do meio dia, e teria duração de mais de três horas. Como os procedimentos no balcão de bagagens, na polícia, na aduana, etc. em geral são demorados (e de fato demoraram), foram iniciados bem antes do horário do almoço. Por isso, quando embarcamos, ninguém tinha almoçado. Alguns se anteciparam ao voo, servindo-se com algum sanduíche vendido a preço de ouro em lanchonetes do aeroporto, instaladas na área do embarque. Assim, já durante a viagem, quando os comissários de voo começaram a servir o lanche, que consistia num sanduíche com recheio de presunto e queijo e um copo de algum suco de caixinha, a maior parte dos passageiros alegrou-se, apesar do menu precário.

Mas, à minha frente, uma senhora esperou calmamente todos serem servidos. Buscou, então, em sua bagagem, uma sacolinha de papel, de onde retirou uma cenoura crua. Sentada em sua poltrona, com ares de meditação, passou a degusta-la. Cada mordida era seguida de longas e incontáveis mastigadas. Concentrada em sua atividade, comeu duas cenouras cruas inteiras. A certa altura, até pegou o sanduíche que lhe fora entregue. Abriu-o, e eu cheguei a pensar que a cenoura teria sido apenas um aperitivo. Ela iria ceder ao chamado do sanduíche! Enganei-me. Fez um discreto gesto de repulsa, e largou o sanduíche sobre a mesinha, retornando ao último pedaço de cenoura entre os dedos.

Depois amassou a sacolinha e a descartou enquanto os comissários de voo recolhiam copos e plásticos e outros restos deixados pelos demais pobres mortais passageiros, tão susceptíveis ao chamado de sanduíches feitos com produtos processados, e sucos enlatados carregados com açúcares tão nocivos à saúde.

O gesto da senhora da cenoura tinha um traço de distanciamento. Flutuava além dos vícios alimentares terrenos, tão afeitos à sociedade industrial do sistema capitalista.

Ora, dizei-me o que comeis, e direi que, a despeito das diferenças e divergências, eu ainda prefiro a diversidade de possibilidades! Bom apetite!






terça-feira, 24 de outubro de 2017

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Sobre a experiência estética

  
Foi ao Centro Cultural Caixa Econômica, para ver a exposição Êxodos, com fotografias de Sebastião Salgado. As 60 lâminas em preto e branco estavam dispostas ao longo de duas salas contíguas, organizadas em sequências que se referiam a refugiados de guerra, à condição humana nas grandes cidades, a disputas pelo direito à terra. Eu o vi observando longamente cada fotografia, e lendo as informações respectivas. Demorou-se diante de cada uma. Sua emoção transbordou no gesto e no silêncio. Comoveu-se com os rostos sofridos, com as cenas e os ambientes nos quais crianças, mulheres e velhos teimavam em continuar vivendo.

Saiu dali profundamente tocado.

Mais tarde, em casa, falou de sua comoção ante as condições de quantas mulheres e crianças em situação de risco e miséria, e da ignorância de todos nós no tocante às circunstâncias nas quais vivem milhares de pessoas nos quatro cantos do planeta. Falou como se fosse testemunha presencial das condições de dor e sofrimento vividas por aquelas pessoas fotografadas. 

A experiência deixou-lhe marcas indeléveis.

Salvo engano, se é que a arte serve para alguma coisa, deve ser para isso...






sábado, 7 de outubro de 2017

De pirilampos e cigarras

  
Não estou certa se primeiro se foram os pirilampos ou as guaviras. O fato é que seus ciclos e presença entrelaçavam-se com as nossas próprias vidas. Estavam ali, conosco, como tudo o mais que tomava parte daquele pequeno mundo. Em novembro, o gosto doce das frutinhas redondas e esverdeadas era tão certo quanto as luzinhas piscando-piscando dos pirilampos à frente da casa, no cair da tarde.

Um dia começaram a chegar os tratores às fazendas vizinhas. Ajudariam a ampliar a produção na lavoura. Melhorariam o pasto para o gado. Aos poucos, a vegetação dos campos foi sendo modificada. Quando nos demos conta, já não havia pirilampos. Tampouco guaviras. Hoje nem eu posso pisar aquele chão vermelho-tinta. Mas essa é já outra história.

Quando vim de lá, um dos assuntos recorrentes durante a primavera, na capital federal, eram as cigarras. Amadas por uns, odiada por outros, compunham, obrigatoriamente, a trilha sonora dos meses de setembro, outubro, novembro. Umas com trinados mais agudos, outras graves e compassadas. Algumas cantavam noite adentro, outras na madrugada, e todas em pleno calor do dia.

Um dia, apareceram os pássaros pretos. Andavam rente ao chão, à espreita, prontos para saborear cabeças de cigarras desavisadas. Começaram a ser vistos corpos decapitados dos insetos cantantes. Os pássaros aprenderam rapidamente a esperar que elas emergissem da terra e passaram a devorá-las antes mesmo de deixarem suas cascas nos troncos das árvores.

Em 2017, outubro adentro, ainda não ouvi um trinado sequer de cigarra.

Buscando informações, descobri que um número enorme de insetos está na lista da fauna em risco de extinção: borboletas, abelhas, grilos, gafanhotos, pirilampos... e as cigarras... Efeitos do avanço das cidades, e da agricultura intensiva. Uma tragédia ambiental da qual não temos ainda noção das dimensões.

E eu pergunto: quem chamará as chuvas?