sábado, 12 de maio de 2018

De mulher p'rá mulher: mãezinhas



Meu carinho a algumas mulheres-mães. Por intermédio delas, a todas as mulheres.

À Néia, que neste ano teve a surpresa de ficar grávida novamente, quando seu filho caçula já tinha comemorado os 15 anos. Mas também viveu a perda de seu neném no segundo mês de gravidez.

À Julia, mamãe da Alice e da Maitê, que vão se pondo mocinhas lindas! Enquanto isso, trabalha em jornada dupla, e começa a se reorganizar para retomar os estudos!

À Adriane, mamãe inquieta que vai estrear como avó, mas continua parecendo uma menina que frequenta o colegial! Mas não se enganem: já já será doutora!

À FafaZinha, que mal acabou de celebrar o aniversário da mocinha Alice, e já está em outra jornada maternal!

À Lorena, que está trazendo o Martin na embalagem... mas a embalagem já está ficando pequena, e não demora para ele ganhar o mundo!

À Anaí, minha comadre, mãe de dois rapazes lindos, o Mateus e o Heitor, de quem tenho saudades, por não estar perto, conforme gostaria tanto!

À amada Vagna, que neste ano vai passar o dia das mães hospitalizada, depois de uma travessia difícil com alguns sustos e intercorrências; mas na próxima semana já estará em casa, novamente, com os filhos e netos e amigos e marido e gatinha e cachorro e plantinhas! Todos esperam ansiosos por você!

À Dona Alice, minha mãezinha, que vai singrando o tempo para completar seus 91 anos!





sábado, 14 de abril de 2018

Das pegadas que o trabalho docente deixa



Iniciava-se a segunda reunião de 2018 dos pesquisadores de pós-doutorado do Programa Avançado em Cultura Contemporânea, o PACC, da UFRJ. As pessoas foram chegando, aos poucos. Conversas afetivas. Reencontros. Um rapaz me olhou, perguntando de onde me conhecia. Eu não sabia. Começamos a traçar lugares que poderiam sem comuns. Brasília. Universidade de Brasília. Ele lembrou-se: eu fora sua professora, em 2003. Lembrou-se mais ainda: estudou, comigo, a disciplina Introdução à Sociologia, quando eu a ministrei na condição de doutoranda, como atividade de estágio docência. Sorrimos. Era uma turma com mais de 90 pessoas. O desafio que me cabia era enorme. Eu não me lembraria de seus rostos. Não me lembrava dele. Mas ele se lembrava de mim. E se lembrava das minhas aulas, dos autores que estudamos, juntos. Citou Norbert Elias, dizendo que a partir dali interessou-se pelas ciências sociais.

Agora está cumprindo seu estágio pós-doutoral no PACC. Assim, reencontramo-nos. Assim, reencontrei-me com quem fui, ou penso que eu tenha sido, há 15 anos. Reencontrar esses rastros também me ajuda a pensar quem sou agora.

Feliz pelo encontro. A despeito de tudo, esses caminhos têm, sim, um coração.







terça-feira, 10 de abril de 2018

As razões para eu ter medo sentam-se ao meu lado



Do outro lado do corredor do ônibus, duas senhoras conversavam, durante a viagem. Uma delas falou que estava fazendo formação em reiki. Prestei atenção, pois já fiz essa formação e, durante muito tempo, apliquei reiki em muita gente. A outra perguntou o que era. Essa começou a ler, numa apostila alguma coisa como o reiki tem três níveis; um é das dores do corpo, nosso ego menor; outro é do nosso espírito; outro é do universo todo... mas isso foi uma leitura longa, quase interminável. A outra interrompeu: chega, está bem, já entendi, é uma seita. Eu ri. A estudante de reiki nem tinha explicado o que era, e já foi defendendo que não era uma seita, que era uma coisa muito boa, que era japonês, “é claro”, e mostrou símbolos diversos que estavam na apostila: infinito, estrela de seis pontas, palavras em japonês, etc.

Esta mesma contou que mora em Brasília, e pretende vender o apartamento para comprar uma casa no Plano Piloto, construir três quitinetes para alugar a “pessoas de bem”. Pensei: o que seriam pessoas de bem. Ofereceu logo para a outra, se quisesse, quando fosse a Brasília, para ficar numa das quitinetes que vai construir quando comprar a casa com o dinheiro do apartamento onde mora que ainda está pensando em vender... a outra aceitou, e passou o número do telefone, para acertarem o aluguel, quando estiverem prontas as quitinetes que vai construir quando comprar a casa com o dinheiro do apartamento onde mora que ainda está pensando em vender...

A inquilina, entre uma conversa e outra, contou que o filho trabalha com bitcoins. Pronto, a dona das quitinetes que ainda serão construídas animou-se, quer comprar bitcoins. Encontrou mais um motivo para confirmar o número do telefone da futura inquilina. Tinham, afinal, vários interesses em comum.

A dona das quitinetes que ainda serão construídas contou que a astrologia tem previsto uma grande mudança econômica, cujas características apontam para a revolução dos bitcoins, que ela insiste em pronunciar algo como bitcôn...

Estavam, ambas, preocupadas com as revoluções econômicas, e com o futuro da economia do país. Aí entraram no assunto do atual momento político brasileiro. A dona das quitinetes que ainda serão construídas explicou, com calma, que, com a vitória do candidato militar à Presidência da República, tudo ficará bem, pois ele tem os militares com ele, e os militares têm as armas e a determinação de defender as instituições. Acrescentou que os militares não vão deixar os políticos legislarem em causa própria, nem ficarem desviando todo o dinheiro para si. Senti um breve arrepio percorrer a pele. Ela prosseguiu: “E desta vez não vai ser como da outra vez. A gente não vai deixar eles matarem muita gente...” O arrepio transformou-se em calafrio subindo pela coluna vertebral.

Então, ela arrematou: “Agora, tem uns por aí que, se eu enxergar alguém dando tiro neles, eu faço de conta que não vi, não é nem comigo...”

Pessoas de bem... reiki... astrologia... bitcoins...

O medo abraçou o meu corpo. O ônibus seguia calmo pela estrada, mas eu olhava para o horizonte, à frente, receando não vislumbrar luzes no futuro ali desenhado...





sábado, 7 de abril de 2018

Déjà vu... dos sonhos e das dores...




Corria o ano de 1994. O movimento pelas Diretas Já mobilizava e comovia todo o país. A certa altura, eu trabalhava numa escola e estava acompanhando minha irmã, internada, depois de 10 dias entre a vida e a morte, numa UTI. As mobilizações ecoavam no meu peito, e eu atendia as minhas urgências portando roupa amarela, ou uma fita amarela no corpo, a cor símbolo da mobilização. Sim, a cor amarela já teve um peso bem diferente da que assume hoje, nas manifestações públicas...

O Congresso Nacional não aprovou a emenda das diretas. Era de se esperar, a se considerar o perfil espúrio de sua formação. Houve negociações. Tancredo, que estivera nos palanques do movimento, compareceu como alguém que, assumindo a presidência, poderia funcionar como um moderador para fazer a transição. Mas, de quebra, ele levou Sarney como candidato a vice. Era o preço da negociação. Parecia um mal necessário para se avançar. Engoliu-se em seco.

Tancredo/Sarney foram eleitos pelo voto indireto, com o aval das mobilizações populares. Mas, às vésperas do ritual de posse, Tancredo foi internado às pressas, para morrer no dia 21 de abril. Talvez tenha morrido no dia anterior, com a informação adiada pela importância simbólica do dia 21. Meu pai morrera também num dia 21 de abril, alguns anos antes disso...

A interpretação da lei, sempre, deixando dúvidas e brechas para atender aos interesses não da população, mas das elites. Como Tancredo não tomara posse antes de ser internado, Sarney não poderia ter assumido a presidência, substituindo Tancredo. Mas assumiu. E foi presidente por uma gestão completa, sem vice. Para mim, que atravessei esse período nos primeiros estágios da minha carreira profissional, pondo-me em pé como cidadã, foi traumático.

Nesse período, houve a Constituinte, aprovou-se a Constituição de 1988, e encaminharam-se as primeiras eleições diretas para presidente depois de longo e sombrio período de ditadura. Na cena política, começava a emergir um operário, com um discurso que apontava para outras possibilidades para um projeto de país. Emergia, também, um bravateiro, bem conhecido da cena brasiliense, não por sua máscara política, mas em sua versão como playboy.

Em outras palavras, no primeiro certame de voto direto à Presidência da República, no período pós-ditadura militar, o embate foi entre um operário e um playboy bravateiro.

Em plena campanha, um pouco antes das eleições, era fim de tarde, passei num supermercado antes de voltar para casa. À saída, um menino que cuidava dos carros veio conversar comigo. Tinha vigiado meu fusquinha cor amarelo-limão. Seus olhos brilhavam. Ele me perguntou o que eu achava, se o Lula ganharia as eleições. Disse que não sabia. Havia esperança nos olhos dele, e emoção na minha resposta. Ele me abraçou. Voltei para casa comovida.

Mas foi no playboy que a maioria da população votou, convencida por seus discursos inflamados e pela promessa de combate aos marajás... 

Logo começaram os problemas. E boa parte da população ocupou as ruas. Até ele ser destituído do posto. Novamente o vice-presidente assumia o cargo. (Como é que a gente não aprende?)

Nas duas eleições seguintes o operário estava lá, na linha de frente, enfrentando não mais um playboy, mas um sociólogo. Só em 2002, na quarta rodada, contra o representante do sociólogo, o operário foi eleito.

No dia da posse, havia uma atmosfera vibrátil envolvendo a população, a cidade, a atmosfera. Cada minuto daquele dia foi carregado de emoção. Cada gesto era portador de um significado denso e profundo.

Mas as utopias não se realizam assim. Sobretudo nos estratos mais altos do poder os embates são muito mais duros, astutos, e operam com múltiplas faces e máscaras. Nem sempre o que parece é, nem sempre o que é dá-se a perceber. Os jogos transcorrem deixando à vista muito pouco. Aliás, mostrar e ocultar e fingir e forjar são estratégias do próprio jogo. Demora-se para aprender isso. Demora-se a ponto de já não haver tempo para se defender...

A posse do Lula coincidiu com o início de minha carreira como professora em universidade pública federal. Então eu firmei meu passo nesse caminho dentro do projeto de educação que ele bancou. Antes disso, eu fora estudante de graduação, mestrado e doutorado, sempre em universidade pública. Tinha testemunhado como a ditadura tratou o ensino superior, e depois testemunhei as vacas magras da universidade na última década do século XX, período que antecedeu a gestão Lula. 

Integrar a comunidade de uma universidade em expansão foi motivador como eu não tinha imaginado possível. Eu, que vinha de uma longa experiência como professora na educação básica, tinha a oportunidade de atuar na formação de professores, como parte do projeto que sonha com uma sociedade mais justa, solidária.

Depois de duas gestões, o operário conseguiu fazer eleger sua sucessora, a primeira mulher a assumir a presidência da República. Um marco importante, mas certamente insuportável para uma sociedade patriarcal-machista. Independentemente de sua possível pouca habilidade para negociar (importa perguntar o que significa negociar tendo-se um Congresso Nacional que manteve as feições daquele que não aprovou a emenda das diretas e emplacou Sarney como vice do Tancredo...) e outras dificuldades, o fato é que ela sofreu todas as pressões que o cargo supõe, multiplicadas várias vezes por sua condição de mulher.

Não foi ao acaso que, na cerimônia de sua primeira posse, Dilma enfrentou uma chuva intensa. Prenúncio das tempestades que viria a enfrentar, e que já estavam plantadas de antemão, embora bem dissimuladas. Foi em nome das negociações que seu vice foi escolhido. Ah, as negociações e os vices! Ela governou com o inimigo ocupando esse cargo. Foi ele quem assumiu a presidência, na segunda gestão, depois do processo de impedimento, no qual ele cumpriu papel protagonista.

Ah, os vice-presidentes... definitivamente, nós não aprendemos...

Hoje, dia 7 de abril de 2018, no final da tarde, muitos fogos começaram a pipocar pela cidade, numa Brasília 34 anos mais velha em relação àquela mobilizada pelas diretas já. Carros buzinavam pelas ruas. Parecia final de copa do mundo de futebol. Não era. Com os equipamentos de comunicação desligados, pressenti o que estivesse a ocorrer. Naquele momento, Lula se entregava à prisão, e era conduzido ao prédio da Polícia Federal. À entrada, uma placa com seu nome, o Presidente da República em cuja gestão aquela sede foi inaugurada.

Dediquei os últimos 34 anos à defesa de sonhos em favor de uma sociedade mais fraterna, pautada pelo convívio solidário. Embora me faltem certezas a respeito de que formatos tenha uma sociedade assim, o cenário que se desenha no horizonte não se parece em nada com nenhuma formatação que aponte nessa direção.

Reencontro personagens parecidos com os que já tivemos a oportunidade de conhecer. Sinto um grande cansaço diante do déjà vu... o outro sentimento que se soma ao cansaço é a tristeza.

No quarto, minha mãe tosse, recém-saída de uma internação hospitalar. Que os afetos apontem caminhos possíveis de sair desta zona de sombras e incertezas, desse terreno tão pouco afeito aos sonhos...




segunda-feira, 19 de março de 2018

Botina e plantinha





p/ Jô.

Sempre há algo que antecede qualquer ponto de partida de uma história a ser contada. Esta história, por exemplo, poderia começar muito antes. Mas, na condição de narradora, escolho começá-la numa pastagem muito verde, onde novilhos carnudos alimentam-se de brotos tenros de grama. Fazem parte de um grupo de animais que o fazendeiro proprietário de tudo por ali chama de gado para corte

Não demora para que alguns caminhões estacionem junto ao curral, onde os boizinhos se apinham, pressionados pelo pouco espaço. Dali, são engaiolados nas carrocerias, e seguem por estradas, mal acomodados, amedrontados pelo que os espera, embora não saibam exatamente o que seja.

Mortos no frigorífico, seus corpos transformados em produtos, mercadorias, ganham destinos diversos. De um lado, a carne tenra é destinada aos processamentos para produtos de alimentação. De outro lado, sua pele é encaminhada para beneficiamento. O couro devidamente tratado é destinado à indústria de calçados, chapéus, bolsas, roupas, dentre tantos outros objetos e mercadorias.

Um dos novilhos carnudos da pastagem verde teve seu couro retirado, tratado, e encaminhado para a indústria de calçados, mais especificamente de botinas, em sua maioria usadas por pessoas que trabalham no campo, na agricultura ou criação de animais, ou que transitam entre o campo e a cidade. Pois bem, o couro daquele novilho foi transformado numa botina de número 39, com solado de borracha, e elástico nas laterais, para facilitar no processo de calçar. Cor preta. Confeccionada por máquinas, mãos operárias as colocaram numa caixa de papelão na qual se podiam ler suas especificações. Seguiu, com muitas outas caixas, para ser acomodada em prateleiras de uma loja especializada em calçados, de onde foi comprada por um fazendeiro, desses que moram na cidade e trabalham no campo, e vão e vêm em camionetes atrevidas singrando estradas nem sempre bem conservadas. A botina era confortável, caiu-lhe bem nos pés. Começou a usar, e já quase não descalçava.

Depois de muitos meses de uso, a botina, que um dia foi pele de um novilho carnudo, já mostrava desgaste, o que até lhe dava um certo charme. A sola, meio entortada, as bordas do couro meio desbeiçadas. O elástico já frouxo. E, na ponta de um dos dedões, um furo mal aberto já começava a se esgarçar.

A um amigo artesão especializado em objetos de couro, encomendou um par de botas feitas à mão. Estava com as botinas, quando foi experimentar as botas novas. Estas afeiçoaram-se aos seus pés de tal modo que, uma vez calçadas, não mais quis tirá-las. Foi-se embora, deixando as botinas velhas para trás: tortas, feias, desgastadas.

A esposa do artesão as olhou, e vislumbrou nelas um par de vasos para umas mudas de orelha-de-elefante. A mudinha gostou do pé de botina furado no dedão. Aconchegou-se em suas curvas. Suas raízes espalharam-se no espaço com terra, antes ocupado pelo pé do agricultor. E as folhas foram estendendo-se, timidamente, para cima, experimentando a morada.

No último domingo à noite, fomos visitar o artesão e sua esposa. Voltei para casa alegre, nutrida de afetos, abraçada à botina com a muda da orelha-de-elefante. A botina, que um dia já foi novilho, repousa sobre a mesa da varanda. Agora é morada de uma plantinha que vai se pondo valente, à vista das demais plantas habitantes desse espaço.

Olho para elas, a botina e a plantinha, e penso em todas essas metamorfoses, esses caminhos, e todos os outros que sequer consigo imaginar...



Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo...
 (Raul Seixas)