segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A louca do guarda-chuvas ataca em 2018



Fui comprar a passagem de retorno. Muitas pessoas aguardavam, com apenas um guichê em funcionamento. Assumi meu lugar na fila, e posicionei o guarda-chuvas verde atravessado debaixo do braço esquerdo, apontando na direção da próxima pessoa que ficou logo atrás de mim. Com o tempo, aprendi a usar dessa estratégia para lidar com a falta de educação dos que vão avançando mesmo sem a fila ter caminhado. Principalmente homens, que se acham no direito de ir chegando cada vez mais perto, a ponto de roçar nas costas. O guarda-chuvas estabelece uma área de reserva. Sobretudo quando eu faço o giro do corpo, e ele desenha um arco, ameaçando espetar quem tenha adentrado esse território.

Mas nem todos entendem o recado, e muitos ainda se dão por ofendidos e ameaçados com o estratagema. Foi o que aconteceu naquele dia. Não demorou para que eu sentisse a ponta do guarda-chuvas espetar a barriga do senhor que estava logo atrás de mim. Mantive a calma, e torci para que ele, a partir dali, mantivesse a distância mínima. Mas ele desviou um pouco mais à esquerda, e avançou. Então eu girei o guarda-chuvas mais à esquerda, e senti que o espetei novamente. Ele contornou à direita, e manteve o avanço. Girei o corpo, e o guarda-chuvas novamente o alcançou. Então ele reagiu, advertindo que eu tivesse mais cuidado com aquele guarda-chuvas. Foi a deixa para eu lhe dar a resposta já ensaiada e usada em quantas situações anteriores: O senhor é que deve manter distância. O guarda-chuvas está aí exatamente para que o senhor não se aproxime mais do que isso. Portanto, se não quer ser espetado, recue. Ele reagiu, fazendo-se de ofendido. Já com a voz impostada, reverberando em toda a fila, determinei: O senhor, por favor, recue! Mantenha distância!

Algumas pessoas da fila olharam. O senhor recuou. Eu voltei à minha posição inicial. Uma senhora logo à minha frente, depois de alguns instantes, olhou-me discretamente e, com um sorriso, falou: Gostei de ver. Trocamos algumas palavras. Eu lhe contei que sempre uso o guarda-chuvas como estratégia de defesa.

Mais tarde, cruzou comigo novamente, no saguão da rodoviária. Desejou-me um bom ano. E recomendou: Continue a usar o guarda-chuvas! Continuarei, sim!






quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Das coisas de que preciso tanto quanto do ar para respirar


Ouvir sons de origem não humana: pássaros, vento, chuva, trovoadas, macacos, cães, gatos, e quantos outros...

Ler poemas, contos, literatura ficcional... ficção científica restaura as energias...

Assistir a filmes ruins... se eu já os tiver visto anteriormente, uma ou mais vezes, tanto melhor...

Ouvir músicas consideradas ruins, cantá-las a plenos pulmões, como se o mundo estivesse por se acabar...

Assistir a bons filmes... se eu já os tiver visto anteriormente, renovo o encantamento, caso contrário, entrego-me à experiência da narrativa, para refazer as minhas...

Conversar fiado (com o perdão de Vilém Flusser... nem sempre estou disposta a exercícios de linguagem que possam expandir os horizontes do mundo reconhecível...)

Olhar o firmamento sem buscar nada... apenas deixar-me engolfar por ele...

Lembrar que tudo, tudo sem exceção, se perderá no tempo, como poeira ao vento...







terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Votos de Boas Festas com sabor de algodão doce




Uma das coisas boas que se pode fazer, quando viajamos, é pedir informações mesmo quando não precisamos, tão somente para ouvir as explicações das pessoas, interagir com elas.

Assim, mesmo sabendo que estávamos no caminho certo para sair rumo à cidade onde residíamos, meu marido resolveu confirmar nosso percurso. Paramos diante de uma pequena barraca, onde um homem vestido de Papai Noel operava um equipamento para fazer algodão doce. Diante dele, e sob seu olhar, um senhor de meia idade, cliente, estava muito concentrado preparando talvez aquele que seria o seu próprio algodão doce.

Nós os cumprimentamos, e meu marido pediu a informação. O senhor, cliente do Papai Noel, voltou-se para nós, sorriu, e começou a explicar que bastava seguirmos em frente, com atenção, pois havia muita fiscalização na estrada. Então aproximou-se do carro e ofereceu-me o algodão doce que ele próprio preparara. Sigam com cuidado, e que Deus os guie. Amém, respondemos. Ele insistiu muita atenção com os radares na estrada. Esses foram os seus votos, que retribuímos, desejando Feliz Natal a ambos, o Papai Noel e o seu cliente.

A vegetação muito verde, em resposta à temporada das chuvas, alongava-se até o horizonte, para encontrar com o céu muito azul, território de nuvens brancas, como o algodão doce enrolado num palito de madeira, preso à minha mão. Não me lembro de ter comido algum algodão doce antes... sempre ouvi da minha mãe que era puro açúcar e, portanto, deveria evitar. Mas ali, avançando pela estrada, aquele em especial tinha gosto de nuvem, céu e cerrado...

Acho que prefiro os Papai Noéis que vendem algodão doce, aos que fingem deixar presentes debaixo de árvores de Natal...

A propósito, que os tempos sejam sempre renovados para todos! Boas Festas!










segunda-feira, 20 de novembro de 2017

De perguntas que uma socióloga não é capaz de responder...


Durante a noite choveu tanto, tanto, que a cidade amanheceu toda alagada, e o trânsito parado. Quem tinha que ir trabalhar acabou preso nalgum ponto das ruas imobilizadas. No início da tarde, alguns setores da cidade começaram a fluir, mas ainda havia viadutos e algumas vias debaixo d’água. No hotel, me informaram que o percurso para o aeroporto estava livre. Alívio. Decidi ir bem mais cedo, para evitar sustos de última hora.

O taxista foi conversando, explicando os desvios, as alternativas que ele, conhecedor profissional da cidade, dominava para evitar os problemas de trânsito. E também contando os dramas de pessoas conhecidas suas ante o caos provocado pela chuvarada. Numa breve pausa, me perguntou o que a senhora faz? A resposta pareceu-me fácil, a princípio: sou professora. Quem já não teve uma professora? Mas então ele veio com o desdobramento da pergunta, só para complicar: de que? Pensei rápido. Se falasse professora de artes, complicaria. Melhor falar que era de sociologia. A profissão de sociólogo parecia um pouco menos complicada, pois sempre tem algum sociólogo na televisão explicando porque as coisas acontecem assim ou assado. Teve uma rebelião no presídio? Chama o sociólogo para explicar. Durante o carnaval, lá vem algum sociólogo falar sobre essa manifestação popular massiva. O Papa veio visitar o país, tem um sociólogo de plantão para falar sobre. Pronto. Professora de sociologia, respondi.

Ele pensou por um momento, e perguntou do que trata um professor de sociologia? A estas alturas, comecei a suspeitar que eu houvera entrado numa armadilha montada por mim mesma. Trata da vida em grupo, de como as pessoas se organizam para viver em conjunto, na sociedade... Eu mesma não estava muito convencida com a minha resposta. Observei a expressão no rosto do motorista. Depois de mais uma pausa, ele falou eu tenho um irmão que tem problema. Ele é usuário de drogas. A gente já fez de tudo, ele já foi internado, nenhum psiquiatra, nenhum médico conseguiu tirar ele do mundo das drogas. Será que um sociólogo ajudava?

Não, não ajudava... Weber já diferenciou claramente a ciência da política, o conhecimento da ação. Sociólogos não querem intervir, só querem explicar... Explicar, para o que? Ali no táxi, a caminho do aeroporto, senti o peso da inutilidade das intermináveis explicações, de todas as teorias sociológicas, quando nenhuma delas é capaz de sequer aplacar a dor de pessoas às voltas em seus descaminhos na vida social...

Despedi-me, formulando votos de que o irmão dele conseguisse superar o desafio. Estava decidida, também, a responder, da próxima vez que fosse questionada sobre minha profissão, sou mera professorinha de artes, e ensino a bordar, e talvez alguns pontos de crochê...

Muito mais útil!





quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Das funções do riso


Sentadas à mesa, eu tomava uma xícara de xá, enquanto minha irmã fazia nebulização. Eu falava besteiras, e nós duas ríamos muito, ríamos de nada, ríamos como riem as irmãs com o espírito leve, em tardes ensolaradas, depois de temporais.

Sentada, ao outro lado da mesa, às vésperas de completar 90 anos, nossa mãe nos observava, e ria também. Numa pausa, ela iniciou uma declaração, em tom quase solene:

- Vocês duas não imaginam o quanto me ajudaram, com essa risadaiada...

Eu e minha irmã aguardamos o seguimento da fala, na expectativa que ela se referisse ao papel da alegria para manter a família unida, ou do quanto a alegria faz bem à saúde, ou algo similar. Havia uma quase comoção no ar. 

Então ela prosseguiu:

- Enquanto vocês riam, eu aproveitei para soltar tantos peidos... Nossa, estou aliviada!

Os risos se prolongaram, sim, por mais um bom tempo. Por que faz bem. Inclusive para eliminar gases!