sábado, 18 de janeiro de 2020

Savana, Sebastian e outras Saudades


  
Lá pela primeira metade da década de 1990, nós conhecemos um lugarzinho delicioso, onde podíamos tomar café e conversar. Conversar entre nós, com outras pessoas que estivessem por ali, e com o trio proprietário do café: Ana, Claudia e Marcelo. Era o Café Savana, localizado no canto de um bloco comercial da Asa Norte, em Brasília. Era pequenino, cabia apenas uma ou duas mesas no espaço interno, com outras mesas na área externa.

A certa altura, as meninas decidiram fazer voo próprio. Cada uma vendeu a sua parte para o Marcelo. Ele comprou a sala ao lado, e ampliou o espaço do café. Mais tarde, agregou outra sala na lateral oposta, formando um L. O Café Savana ganhou a cara do Marcelo, no decurso de mais de duas décadas. Aos poucos, ele foi acrescentando atividades: lançamento de livros, exposições, e outros eventos culturais que reuniam, sobretudo, os frequentadores do espaço. Dentre esses, nós.

Quando as meninas saíram da sociedade, abriram outro espaço numa quadra também na Asa Norte. Era o Sebastian Café. Elas próprias estavam no comando de todas as etapas da produção do espaço, que oferecia inclusive café da manhã nos finais de semana. Era mais intimista, numa loja voltada para o interior da quadra. Assim, não ficava exposto à intensa movimentação comercial. No mesmo bloco onde se instalaram, havia uma loja de discos de vinil e CDs, onde, eventualmente, eu encomendava músicas importadas. Naqueles tempos ainda era um pouco complicado comprar coisas importadas. A dificuldade dava um certo charme ao processo. Cada CD que chegava era uma conquista.

Frequentávamos os dois lugares. Eventualmente, Ana e Cláudia iam ao Savana tomar um café. Ganhamos um adesivo do Sebastian, que colei na lateral da minha geladeira.

No comecinho da segunda metade da década de 1990, Ana e Cláudia fecharam o Sebastian, para atuar em outras frentes profissionais. Na verdade, passaram a trabalhar em campanhas para eleições, na área da publicidade. No Café Savana, Antony, que trabalhava com Marcelo, nos dava notícias delas, quando passava algum tempo sem que as pudéssemos ver. Mas o tempo tem seus rigores.

À medida que avança, vai desfazendo pequenas fibras de conexão. Antony saiu do Café Savana, para trabalhar numa universidade. Marcelo passou a nos falar delas, cada vez menos. E nós também não mais as vimos. Até porque, tendo mudado de cidade de residência, passamos também a frequentar menos o Savana.

Mesmo assim, toda vez que estávamos em Brasília, um dos lugares obrigatórios de estar era o Café. Para dar um abraço no Marcelo, para conversar com sua equipe, para comer um quiche, o melhor filé grelhado que eu já experimentei, ou uma salada de legumes. Tudo tão saboroso quanto estar ali, naquele lugar que exalava uma atmosfera de pluralidade, elegância, charme, bom humor.

No início deste ano, voltamos ao Savana. Estava fechado. Lembrei-me, então, que o Marcelo costumava dar um recesso coletivo no início do ano. Alguns dias depois, voltamos. Fomos informados que o Marcelo vendeu o ponto. No mercado, um café, uma loja, é apenas um ponto comercial, que se vende, que se passa à frente. E isso é tudo.

Alguns funcionários foram mantidos pelo novo proprietário. Estão preocupados. Ouviram a promessa de que cerca de 70% do cardápio será mantido. Isso para preservar a clientela acostumada ao lugar há mais de duas décadas. As mudanças devem ser promovidas aos poucos, como boas novidades, até que o novo proprietário coloque o lugar ao seu jeito.

Marcelo decidiu assumir o papel de professor, e foi atuar na área de Educação de Jovens e Adultos. Surpreendente. Não suspeitava desses desejos do Marcelo. Mas talvez esteja aí uma das explicações para as afinidades estabelecidas por tantos anos.

A propósito da referência aos tantos anos, o adesivo do Sebastian está ali, na lateral da minha geladeira que já marca mais de três décadas comigo (por quanto tempo ainda resfriará nossos alimentos e sucos?). Risão, de braços abertos, parece imerso entre anotações de telefones que também de tão antigos já não funcionam mais. Sebastian aviva percursos da vida que, de singelos que são, ancoram os sentidos mais fundos.

Que sejam bons os caminhos trilhados por Ana, Cláudia, Antony, Marcelo. E também pelo novo proprietário do Café.

Em tempo1: no dia quando soubemos da venda do Café Savana, encontramos o Capeta, andando de bicicleta pela cidade. Ele nos acenou e gritou: Está fechando tudo! Durante décadas, o Capeta integrou o grupo de proprietários do Café Martinica, fechado no início de 2019.

Em tempo2: A loja de discos de vinil e CDs importados, que era vizinha ao Sebastian, também fechou há um bom tempo. Também, já não fazia sentido, mesmo: agora, importamos tudo pela internet...

Em tempo3: quando somos mais jovens, temos muitos projetos a executar, a vida inteira para conquistar. Nosso olhar vislumbra o que há de vir. Envelhecer também é passar a ter cada vez mais histórias para contar. Do já vivido. Até chegarmos à etapa quando começamos a nos esquecer...

Café Savana
 imagem buscada aqui









segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Coisas do homem da cobra



Noutro dia, ouvi a expressão “fala mais que o homem da cobra”, e fiquei me perguntando se as pessoas, hoje, sabem a que se refere. Há muito tempo não vejo nenhum homem da cobra, acho mesmo que já não existem mais esses profissionais da cultura popular, em atuação nos meios urbanos.

Tratava-se de um homem que, instalado em praça pública, portava uma mala e outras tranqueiras. Falando alto, e muito, sem parar, anunciava que tinha uma cobra na mala. Normalmente contava muitas potocas a respeito da tal cobra: seria venenosa, mas no caso daquela especificamente não ofereceria perigo, pois ele a teria adestrado, e dominava completamente seus humores, mas isso era coisa que só ele conseguia, e que logo ele mostraria ao público. Dizia para que não tivessem medo, que estava tudo sob controle. Enquanto ele falava, as pessoas se aglomeravam em torno dele formando um círculo, curiosas para saber mais sobre a tal cobra guardada na mala. Mas ele adiava por tempo indeterminado esse momento, prendendo a atenção do público, e aproveitando para vender coisas outras: desde descascadores de frutas até remédios com múltiplas funções, capazes de curar, numa só tomada, unha encravada, tumor no cérebro e os males da menopausa. Sim, já existiram desses remédios milagrosos que provavelmente tenham sido extintos por intrigas da indústria farmacêutica.

Assim, o homem da cobra passava uma, duas horas, boa parte da manhã ou da tarde, segurando o público em plena praça, vendendo suas tranqueiras, com a promessa de mostrar a cobra, guardada na mala. Muita gente se achegava e logo ia embora, por falta de tempo, ou porque sabia que o desfecho se demoraria. Afinal, se tratava do homem da cobra! Mas outros, ficavam por ali, acompanhando toda a movimentação. E muitos compravam um ou mais itens de sua venda.

Já esgotada a argumentação, ele abria a mala, e retirava dali uma cobra (que existia, de fato). Mexia com ela, e a enrolava no pescoço. Eventualmente dava pequenos sustos da audiência, avançando com cobra e tudo em direção às pessoas. Provavelmente a cobra tivesse arrancadas as prezas, não oferecendo, de fato, nenhum perigo. Com certeza, o IBAMA perseguia o evento, tendo em vista a inquestionável situação de maltrato à qual o animal era submetido. Essa deve ser uma das razões pelas quais não se vejam mais esses performers da cultura popular atuando.

Mas ficou a expressão: falar mais que o homem da cobra. Vai conversar fiado assim lá no raio que o parta!





sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Sobre meus desentendimentos com Madame História com Agá Maiúsculo e outras socialáites...


Sempre gostei de ouvir histórias. E de contá-las. Desde muito cedo devorei livros: romances de José de Alencar, gibis, histórias sem fim de Malba Tahan, enciclopédias com verbetes que davam conta da história dita universal, revistas, fotonovelas... havia tanto a saber e a imaginar sobre o mundo!

Quando comecei a estudar numa escola regular, me encantava a possibilidade de saber ainda mais coisas. Então a professora pediu que escrevêssemos um trabalho sobre a vida de Tiradentes. Eu li as informações no livro. Ouvi, nalguns programas de rádio, histórias sobre ele, e deixei minha imaginação trilhar caminhos possíveis pelos quais o herói pudesse ter também transitado. Foi assim que, com dez anos, escrevi umas quantas páginas de caderno, contando uma história possível sobre Tiradentes: dados biográficos corretamente buscados no livro didático, o restante da vida, e mais interessante, recheei com visitas à namorada, passeios em praças, e quitutes de feiras tão típicas dos territórios mineiros.

Enquanto meus colegas tinham apenas copiado os dados que constavam no livro, preenchendo no máximo meia página, eu escrevera várias páginas de uma história que todos queriam ler. Eu estava feliz. Mas logo descobri que não deveria: a professora não só não gostou do que eu fizera, como deu-me uma bronca pública, diante de toda a turma. Aprendi, ali, que não poderia sair uma linha sequer das informações que constavam do livro didático de história adotado pela escola. Um texto chato, informações que não tinham qualquer relação com a minha vida. Descobri, muito cedo, que Madame História com Agá Maiúsculo era muito chata. E passei a cumprir o mínimo necessário para passar de ano, dali até concluir o ensino médio.

Na universidade, tive aulas de história da arte. Também eram muito chatas. Numa sala escura, com as paredes pintadas de preto, a professora, com voz monocórdica, ia passando slides de obras de arte dos diversos períodos históricos europeus, e ia descrevendo cada slide: este pavão significa... esta cor azul representa... a composição assimétrica... o contraste de luz... Era difícil manter a concentração. Muitos dos meus colegas dormiam tanto que eventualmente até roncavam. Eu não conseguia dormir. Mas achava que aquelas aulas não precisavam ser tão distantes da nossa vida, daquilo que era palpável para nós.  Mas também fui sendo aprovada, porquanto respondesse o necessário para tanto.

Foi no mestrado que voltei a me bater de frente com Madame História com Agá Maiúsculo. Dessa vez, de modo mais contundente e arriscado. Minha dissertação tratou do uso de desenhos reproduzidos nos processos de alfabetização. A pesquisa foi longa e complexa, envolvendo quase um ano de acompanhamento quase diário de uma turma de alfabetização numa escola pública da periferia da cidade, entrevistas nas escolas de formação das professoras dessa turma, e pesquisa sobre a história da educação, com recorte nas relações entre imagens e aprendizagens, particularmente nos processos de letramento. Então, havia um capítulo em que eu fazia alguns recortes desse uso de imagens nos projetos educativos, desde a Grécia antiga até aquele final do século XX, dando alguns saltos pela Idade Média, nas guildas, passando por algumas abordagens propostas por Comenius do século XVII, e chegando ao contexto brasileiro, num trânsito entre questões relativas ao ensino de arte e formação de professores para o início de escolarização.

Durante a defesa da dissertação, uma professora que integrava a banca examinadora (e era rival da minha orientadora, coisa que só fui descobrir depois) questionou minha suposta “abordagem histórica”, dizendo que eu tinha feito uma bagunça do ponto de vista das categorias adotadas bem como da orientação epistemológica. Os saltos em diversos períodos temporais e em diversos contextos pareceu-lhe uma heresia. E, para sustentar seus argumentos, ela evocou o fato de ter sido aluna de Demerval Saviani. Estaria, portanto, autorizada a fazer tais críticas: esse era o pressuposto.

Eu sabia que, em parte, ela tinha razão. Mas minha dissertação não tinha abordagem histórica. Naquele capítulo, eu tão somente tinha buscado algumas referências, fragmentos, para identificar as bases do ideário para uma orientação pedagógica que eu observara em sala de aula. Parece que eu não me entendia, mesmo, com Madame História com Agá Maiúsculo. Minha irritação ficou maior quando, em lugar de argumentar, a professora evocou a chancela de Demerval Saviani, para me questionar. Ora, se ela era discípula dele, eu também tinha lá minhas mestras e, em minha resposta, decidi evoca-las também. Então, iniciei dizendo que, infelizmente eu não tivera o privilégio de ser aluna de Demerval Saviani, mas tinha aprendido a contar histórias com as bordadeiras e as tecedeiras, que misturam os fios, as texturas, que trabalham com diagonais, transversais, além da urdidura, que brincam com as tramas para criar tessituras diversas. Aquele capítulo fora escrito dessa maneira, esclareci.

Meu erro foi me sentir vitoriosa no embate pelo fato de ter sido aplaudida em cena aberta. Eu não estava atuando numa peça de teatro, embora o ritual de passagem também tenha seus componentes de espetáculo. O aplauso em cena aberta sangrou o orgulho da pedagoga que se pretendia historiadora. Na reunião fechada, ela resistiu bravamente no propósito de me reprovar. O que estava em jogo não era exatamente minha resposta, mas o fato de que minha postura poderia servir como exemplo para os demais pós-graduandos. E isso seria inadmissível. Mas fui defendida por duas outras mulheres também fortes, que não deixaram vingar o projeto de reprovação.

Enquanto isso, eu, que não supunha o que pudesse estar se passando na reunião fechada, celebrava em festa com colegas e amigos, enquanto esperava o resultado final. Mal poderia imaginar que Madame História com Agá Maiúsculo tramava contra mim, naquele instante.

Anos mais tarde, fui salva por Vilém Flusser, o filósofo que, para os demais filósofos é considerado um bom poeta, e que, em suas discussões problematiza a própria noção de história, provocando a ira de historiadores também. Com ele, aprendi duas coisas fundamentais: Madame História com Agá Maiúsculo produz uma narrativa que exclui mais de 95% da humanidade. Sua narrativa é limitada, e opera com alguns parâmetros que interessa a contextos muito específicos. Madame História com Agá Maiúsculo tem seus méritos, que devem ser respeitados. Mas não tem a palavra final sobre as sagas da humanidade, muito menos sobre as sagas da vida neste planeta. A natureza “universal” de sua narrativa está restrita a uma faixa territorial estreita, e a um modo de pensar o mundo muito específico. Não é, portanto, universal.

Mais recentemente, assistindo ao filme “God exists, her name is Petrunya” (direção: Teona Strugar Mitevska, 2019), que no Brasil foi chamado “Deus é mulher e seu nome é Petúnia”, essas questões foram reavivadas em minha memória. As histórias que são contadas, com assinatura masculina, precisam ser confrontadas. Não negadas, nem apagadas, mas questionadas. Respeito muito historiadores e suas investigações. Madame História com Agá Maiúsculo tem todo meu respeito, mesmo considerando que, embora substantivo feminino, seja concebida a partir de pontos de vista majoritariamente masculinos... (e só essa questão já dá muito o que pensar!). Ressalto, contudo, que sua narrativa não é exclusiva. Há tantas outras tão legítimas quanto, mesmo quando divergentes das suas. Tão potentes até mesmo porque divergentes!

Respiro com alívio e alguma alegria. Pressinto que, mesmo intuitivamente, desde o princípio venho estabelecendo uma relação crítica e necessária em relação aos discursos dogmáticos relativos a essa senhora. E a outras senhoras da High Society também, tais como Madame Arte com A Maiúsculo, Madame Filosofia com Éfe Maiúsculo, e todas as demais socialáites da cultura, das ciências e do mundo do conhecimento.

Que essa brisa nunca me deixe!





terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Primeiros apontamentos sobre God Exists, Her Name Is Petrunija



Como ponto de partida, devo dizer que o filme God Exists, Her Name Is Petrunija (com uma tradução ruim para a versão brasileira: Deus é mulher e seu nome é Petúnia) bateu fundo, em vários níveis. Em primeiro lugar, trata-se de uma história que se reporta a uma Petrunija que existe e viveu aquela situação, muito recentemente, na cidade-set do filme. A experiência para essa mulher foi violenta e traumática. Sua vida naquela cidade tornou-se insustentável e, atualmente, ela vive na Inglaterra, com identidade preservada. Na Macedônia, é simplesmente referida como “aquela mulher louca”. A diretora, Teona Strugar Mitevska, que também assina o roteiro em coautoria com Elma Tataragic, reporta, também, sua experiência tentando contar essa história, na mesma cidade, a despeito das reações dos moradores, da igreja, dentre outros.

Por que o filme tem reverberado em tantos lugares, apesar de ter sido rodado na Macedônia, a partir de uma comunidade e uma história tão particulares? Há uma frase atribuída a Tolstoi, que diz mais ou menos assim: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.” (Há outras versões para essa frase, tais como: “'Canta a tua aldeia e serás universal”, ou “Seja universal, fale de sua aldeia”). Afora discordar da pretensão de universalidade a qualquer narrativa, ou ideia, é preciso admitir: há projetos que, desde a particularidade, ou a singularidade, conseguem tocar em questões sensíveis para um gradiente maior de outras particularidades e outras singularidades. A possibilidade de produzir ressonância num número maior de pessoas e contextos resulta dessa capacidade de, ao contar uma história particular, fazê-lo deixando espaços nos quais essas pessoas consigam se encontrar. Esse é um dos méritos do filme de Teona: mulheres e comunidades da Índia e do Brasil, da Alemanha e da França conseguem ver-se em Petrunija, solidarizam-se com ela, colocam-se ao seu lado em sua saga.

O argumento do filme é consistente, e ele se desenvolve também de modo coerente, muito bem articulado, sem exageros, sem superlativos. Desde a primeira sequência, até a última.

Poderia ser um libelo feminista. Mas consegue ser muito mais que isso: escancara o domínio masculino, numa sociedade patriarcal cuja sustentação é feita também pelas mulheres. Não por acaso, as duas primeiras críticas escritas ao filme de Teona foram assinadas por mulheres, que recomendaram à diretora nunca mais fazer filmes em sua vida.

De acordo com a própria diretora, o filme trata, em última instância, da justiça. Em suas palavras, “Petúnia está atrás de justiça. E essa é uma questão que diz respeito a todos nós.” (Papo de Cinema).

Há muitas outras reverberações de Petúnia em mim. Mas preciso bem mais que dois dias para articular essas percepções múltiplas. Por ora, deixo Petúnia, pelas mãos de Teona, falar por mim.








quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Denominações


Nunca é demais lembrar...

Terra Brasilis, o Brasil primeiro é Pindorama, Pindó-rama, pin'dob-orama.

Fazia parte de Abya Yala, Terra Viva, à qual depois foi imputado o nome de América...



sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Sobre alguns ritos de passagem...



Preciso pensar um pouco sobre os modos como eu tenho cumprido alguns rituais de passagem. Por vezes, tenho a impressão de que as celebrações, o espetáculo desses momentos perde um pouco em importância para mim, que já estou pensando nos próximos processos a serem deflagrados. Já me ocupo deles. Afora isso, por ter atuado em teatro por tanto tempo, nas encenações vivi todos os rituais, as personagens e as celebrações possíveis... Talvez me tenha saciado.

Terá sido assim, quando, no último dia 13 de novembro, eu deveria estar numa sessão solene em comemoração aos 50 anos da UFG, quando um grupo de docentes, discentes e funcionários da área administrativa seriam homenageados. Eu estava nessa relação. Mas também presidiria uma banca de defesa de doutorado no mesmo horário, uma tese belamente escrita. Fiquei com a banca, faltei à sessão de homenagem. O cerimonial me informou que eu deveria ir à reitoria para pegar meu certificado. Eu o fiz, quase uma semana depois. Quando lá cheguei, o setor estava completamente vazio. O cenário era no mínimo intrigante: salas sem ninguém. Fiquei parada em meio ao corredor, observando e pensando no que deveria fazer. Alguns minutos depois, apareceu um senhor. Relatei o que desejava, ali. Ele ficou em dúvida sobre como proceder. Os demais todos estavam em reunião, noutra área da reitoria. Depois de procurar um tanto, encontrou os certificados sobre uma mesa, junto à relação dos homenageados. Identificou meu nome, entregou-me o certificado. Ficou em dúvida se eu deveria receber também o troféu. Verifiquei no e-mail que me haviam encaminhado. Sim, eu tinha direito ao troféu. Recebi das suas mãos, e segui, pelo corredor vazio, com minha alegria pela homenagem. Foi tudo.

Mas também não foi diferente quando tomei posse na mesma universidade, há quinze anos. Depois de ter atravessado, em Brasília, um primeiro semestre de 2004 cheio de surpresas e desafios, naquele mês de julho, recém-chegada a Goiânia, numa manhã, trajando uma calça jeans e uma camiseta branca, cheguei à mesma reitoria. Onde se toma posse? Perguntei a alguém nalgum corredor. Alguém me apontou o departamento. Dirigi-me até ali. Em poucos minutos assinei o termo de posse, depois dirigi-me à faculdade e entrei em exercício. Tudo na mesma manhã. Quando retornei para casa, já na condição de professora efetiva da UFG, meu marido me aguardava, com terno e gravata devidamente preparados, para acompanhar minha posse, que já tinha acontecido. Levei um susto: seria um momento para ser tratado com tanta deferência? Talvez sim.

Desde então, tenho acompanhado outros e outras docentes tomando posse, em momentos esfuziantemente celebratórios. Nenhum problema nisso. Eu é que talvez seja talhada com outro perfil. Não por menos intensidade. Mas por outras formatações.

Um critério de medida que talvez funcione melhor para mim: Quanto mais singelo, mais fundamente se fixa na experiência sensível, e no fundo do coração...







sábado, 14 de dezembro de 2019

Apontamentos de uma viagem de ônibus


Tenho gostos por viajar de ônibus...

Na última viagem que fiz, um senhor sentou-se ao lado de uma senhora à minha frente. Fiquei agradecida por ele não ter se sentado ao meu lado, pois conversou o tempo todo. Mas a senhora parece ter gostado, compartilhando um sem número de histórias com ele. Aposentados, ambos já tinham viajado pela Europa, Estados Unidos da América do Norte. Além disso, foram descobrindo muitos outros pontos em comum.

Não pude deixar de ouvir algumas de suas histórias, contadas de modo muito peculiar.

Ela contou que, na Itália, certa vez, tinha visitado um vulcão. E tinha ficado com medo de ele entrar em atividade. O senhor confirmou o perigo, demonstrando conhecimento de causa. Explicou que do vulcão pode sair larvas... e as tais larvas vão matando tudo que encontram pela frente... sim, as larvas do vulcão são mesmo muito perigosas...

Adiante, foi a vez de ele contar que a esposa tinha feito uma série de exames, incluindo aquele que faz um vídeo do estômago. A palavra endoscopia não apareceu na conversa. Ele prosseguiu nas explicações. Tinham diagnostigado que ela estava com agapilóide. A senhora mostrou-se solidária. Coitada, o tratamento para a agapilóide é mesmo chato e difícil!

Olhando a paisagem pela janela, pensei, entre meus botões: Deus me livre da agapilóide, e também das larvas de algum vulcão!