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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Árvore



Foto: Renato Cirino, 2018


Árvore
Manoel de Barros

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus
seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul
E descobriu que uma casa vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,
envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros
e tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com muitas borboletas.












quarta-feira, 15 de março de 2017

Como não foi eu que escrevi?


como é tão fácil para você
ser gentil com as pessoas ele perguntou

leite e mel pingaram 
dos meus lábios quando respondi

porque as pessoas não foram
gentis comigo

(Rupi Kaur. Outros jeitos de usar a boca. Milk and honey).



--- § ---


Leio Rupi Kaur,
 e cantarolo os versos de Milton Nascimento:


Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece
Como não fui eu que fiz?
(...)

(Milton Nascimento. Certas Canções)






terça-feira, 27 de outubro de 2015

Motivo (Cecília Meireles)




Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Cecília Meireles
 MEIRELES, C. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.










terça-feira, 20 de outubro de 2015

os 100 anos de meu pai

p/ Seu David

Hoje meu pai faria 100 anos
Daqui 10 anos, eu estarei com a idade que ele tinha quando partiu
Foi bem pouco o tempo de convívio, esse nosso

Mas hoje eu posso dizer que meu pai é centenário
E isso vibra em mim uma estranha inteireza
Uma alegria vinda de fonte não sei qual

Terra Gwayá, 20 de outubro de 2015





sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Aniversário


Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[473]

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...











terça-feira, 28 de julho de 2015

De não saberes


Não sei falar mandarim
Não sei calcular viagens à Lua
Não sei quantas colônias de bactérias habitam meu corpo
Não sei fazer sapatos, nem ternos, nem chapéus
Não sei consertar redes elétricas, nem construir pontes, nem implodir edifícios

Não sei o que vim fazer aqui...

Na lista das coisas que não sei, talvez o primeiro item deva ser:
Não sei quais são todas as coisas que não sei

E esse não saber é o maior de todos...




domingo, 12 de abril de 2015

coisas incríveis podem acontecer num desenho!



Neste mundo tão incrível
Tudo vale tudo é possível
Isso é um barato
Porco na forma de rato

Fadas e lobisomens
Galo maior que homem
Gato do tamanho da calçada
Traço em nome de estrada

Cavalo que não é cavalo
Do resto nem falo
Se gostar, fale
Do contrário, não se cale

Alice Vieira Martins
BsB, 2/9/90











sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Do not go gentle into that good night

Dylan Thomas, 1914 - 1953

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.





domingo, 23 de novembro de 2014

Portais do começo do mundo

p/ Paul


havia montanhas e cavernas, no começo de tudo

nas encostas da Chapada dos Pareci
de dentro de uma montanha de pedra preta
saíram os homens e as mulheres
eles iriam habitar o mundo

vieram descabelados, pelados
sujos de cinza e carvão
cada um seguiu um caminho diferente
para se assentar
os (outros) animais também saíram dali
e se espalharam por todos os lugares

só os espíritos dos mortos
ficaram lá, vivendo no buraco 
e, do lado de fora, os nambikwara
se incumbiram de proteger a entrada 
aguardando os que voltariam

e voltaram, muito, muito, muito tempo depois
tinham se modificado
depois de ganharem o mundo
e atravessarem as águas

já não se lembravam de onde tinham saído
e nem se reconheceram nesse ponto de encontro
entre o passado incontável
e o futuro insuspeitado

por vezes, é preciso esquecer, para prosseguir vivendo

as entradas das cavernas estão lá
habitadas pelos espíritos dos que já morreram
vigiadas pelos moradores do vale

além desses, poucos, bem poucos conhecem esses portais
(assim seja)






sábado, 22 de novembro de 2014

dos registros de memória

p/ Seu Osorinho

das coisas que não existem mais
guardam-se fotos e vídeos
(por quanto tempo existirão?)




sábado, 18 de outubro de 2014

el olvido...



Hay quienes imaginan el olvido
como un depósito desierto / una
cosecha de la nada y sin ambargo
el olvido está lleno de memoria

(¿Cosecha de la nada?
Mario Benedetti,
 en El olvido está lleno de memoria)




sexta-feira, 2 de maio de 2014

garoto-propaganda


...
quando o poeta que um dia foi marginal
nutrido à margem dos fluxos hegemônicos
assina contrato e comparece
como garoto-propaganda
do governo de Estado
suspiro, e penso: tá tudo dominado!
...



aos que ainda teimam em nutrir esperança
 nalguma utopia esquecida por aí,
 nalguma esquina que não há,
 em Brasília...





domingo, 20 de abril de 2014

Pé de cachimbo




hoje é domingo,
pé de cachimbo...
o cachimbo é de ouro...
bate no touro...
o touro é valente...
bate na gente
...a gente é fraco...
e cai no buraco...
o buraco é fundo...

acabou-se o mundo!




quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A lição do jardineiro (Bertolt Brecht)


Pequeno reino de sebes e canteiros,
O meu jardim me ensina
Que até a rosa nobre de Mileto
Tem de, para ser bela, ser podada.
Também ela deve compreender
Que a couve, o alho e outros legumes
De origem modesta, mas não menos úteis,
Têm, como ela, direito
À sua ração de água.
O jardim seria mato
Se só na rosa imperial pensássemos.





domingo, 19 de janeiro de 2014

Lagoa (Carlos Drummond de Andrade)


Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
e calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar,
Eu vi a lagoa…




quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

cadáver adiado que procria...



D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou o meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

(Fernando Pessoa)

disponível em culturabrasil.org 





segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Manoel de Barros


Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo.






sábado, 11 de janeiro de 2014

Alcoólicas (trechos) - Hilda Hilst


                    I
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

                    II
Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

                    III
Alturas, tiras, subo-as, recorto-as
E pairamos as duas, eu e a Vida
No carmim da borrasca. Embriagadas
Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.
Que estilosa galhofa. Que desempenados
Serafins. Nós duas nos vapores
Lobotômicas líricas, e a gaivagem
se transforma em galarim, e é translúcida
A lama e é extremoso o Nada.
Descasco o dementado cotidiano
E seu rito pastoso de parábolas.
Pacientes, canonisas, muito bem-educadas
Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.

Ah, o todo se dignifica quando a vida é líquida

                     IX
Se um dia te afastares de mim, Vida — o que não creio
Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida —
Bebe por mim paixão e turbulência, caminha
Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as)
Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te
Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado
                                                                    vazio.
Empresta-lhe meu coturno e meu casaco rosso:
                                                        compreenderá
O porquê de buscar conhecimento na embriaguês da via
                                                               manifesta.
Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica:
O êxtase de te deitares contigo. Beba.
Estilhaça a tua própria medida.







segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

ANTI-VIAGEM (Waly Salomão)


Toda viagem é inútil,
medito à beira do poço vedado.

Para que abandonar seu albergue,
largar sua carapaça de cágado
e ser impelido corredeira rio abaixo?

Para que essa suspensão do leito
da vida corriqueira, se logo depois
o balão desinfla velozmente e tudo
soa ainda pior que antes pois entra
agora em comparação e desdoiro?

Nenhum habeas corpus
é reconhecido no Tribunal do Júri do Cosmos.
O ir e vir livremente
não consta de nenhum Bill of Rights cósmico.
Ao contrário, a espada de Dâmocles
para sempre paira sobre a esfera do mapa-múndi.
O Atlas é um compasso de ferro
demarcando longitudes e latitudes.

Quem viaja arrisca
uma taxa elevada de lassitudes.
Meu aconchego é o perto,
o conhecido e reconhecido,
o que é despido de espanto
pois está sempre em minha volta,
o que prescinde de consulta
ao arquivo cartográfico.
O familiar é uma camada viscosa,
protetiva e morna
que envolve minha vida
como um pára-choque.

Nunca mais praias nem ilhas inacessíveis,
não me atraem mais
os jardins dos bancos de corais.

Medito è beira da cacimba estanque
logo eu que me supunha amante
ardoroso e fiel
do distante
e cria no provérbio de Blake que diz:

EXPECT POISON FROM THE STANDING WATER.

Ou seja:
AGUARDE VENENO DA ÁGUA PARADA.

ÁGUA ESTAGNADA SECRETA VENENO.