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sábado, 9 de novembro de 2019

Cansaço e desalento



8 de novembro de 2019, sexta feira, fim de tarde. A semana foi intensa, com atividades incessantes, e alguns momentos tensos, nos quais foi necessário que eu trabalhasse questões bem difíceis. Os dias e as noites têm sido assim há tempos. E eu tenho me queixado, cada vez mais amiúde, de cansaço. Não só eu. As queixas de cansaço espalham-se como uma patologia social contagiosa que vai atingindo uma parcela importante da população, das pessoas com quem convivo, com quem compartilho, em alguma medida, atividades, projetos, afetos, utopias. Temos nossas energias exauridas, sem encontrarmos solução, antídoto, remédio.

Byung-Chul Han já escreveu sobre a sociedade do cansaço. Jonathan Crary já discorreu sobre os efeitos perversos de uma sociedade que passa a exigir de seus cidadãos estarem despertos e ativos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Os argumentos de ambos são consistentes, fundamentados. Mas minha exaustão parece ter mananciais que vão além, a despeito de integrarem, sim, as malhas do contexto em análise pelos dois autores. Eu poderia até praticar meditação, buscar outros subterfúgios, modificar a alimentação: o esgotamento persiste intocado, e me abate.

Mesmo assim, também por razões que tantas vezes me escapam, não desisto nem arredo da labuta diária, defendendo posições, propondo projetos, compartilhando aprendizagens. Pensando e buscando praticar empatia, solidariedade, poiésis...

8 de novembro de 2019, sexta feira, fim de tarde. Eu estava prostrada sobre alguma almofada, em casa, quando passou a ser televisionada a soltura do Lula, depois de quase 600 dias de prisão. Havia expectativa em relação a esse momento. Entre a multidão, ele falava com desenvoltura, energia. Agradeceu a um número enorme de pessoas. Desculpou-se com aqueles cujos nomes, inevitavelmente, teria esquecido. E prosseguiu em seu discurso de improviso, entre alegrias, aplausos, abraços e uma constelação de câmeras fazendo o registro. Com humor mas de modo assertivo, sem perder poder de ataque, posicionou-se em relação a tudo quanto que ele foi e que está sendo submetido, mas, sobretudo, ao que a população brasileira está sendo submetida.

Enquanto assistia à transmissão, outra sequência era repassada na memória: a sessão interminável, na Câmara dos Deputados, para a votação aprovando a abertura do processo de impeachment, pelo Senado, da então presidenta Dilma Rousseff. Um evento de que me evergonho, sem cura, sem lenitivos. Naquele dia, 17 de abril de 2016, eu vi a face mais obscura, amedrontadora da classe política brasileira. Naquele dia, eu vi a face da maioria dos representantes da população brasileira que, mais tarde eu seria obrigada a admitir, de fato representavam, e ainda representam, os anseios e o projeto social de boa parte das gentes nascidas neste país, marcadamente injusto, discricionário, autoritário.

Naquele dia, em abril de 2016, eu entristeci de uma dor que ainda não saiu de mim. A sessão ocorrida no Senado, no dia 31 de agosto de 2016 já não impactou tanto: estava tudo acertado, os resultados haviam sido negociados por antecedência. Não havia o que doer a mais: eu já me encontrava sob a égide da dor.

Desde então, a cada passo, o desmonte de um projeto político social imaginado, depois comprovado como viável, se não plenamente, ao menos em muitas frentes, foi sendo desmontado a passos largos. Nenhum motivo de alegria. Nenhuma brisa para refrescar os dias. Chuvas cada vez mais escassas para dar tom verde à paisagem.

Ontem, 8 de novembro de 2019, sexta feira, fim de tarde, isso tudo reascendeu em minha memória mais funda e mais afetiva. Eu entendi que minha exaustão decorre, sim, do excesso de trabalho, das tensões, das demandas que invadem a vida 24 horas por dia, 7 dias na semana, sem pausa. Byung-Chul Han e Jonathan Crary acertam em suas argumentações. Mas há outra fonte na qual esse cansaço se torna quase incurável. Essa fonte está no desalento, na falta de esperança. E ontem eu lembrei de um tempo quando eu tive esperança. Mais que isso, um tempo quando, com alegria, eu pude celebrar com quantas pessoas pequenas conquistas sociais, no âmbito dos projetos educativos, da arte, da cultura, dentre quantos outros.

Então eu chorei. Chorei muito. Depois dormi profundamente. E consegui sonhar. Um sonho breve, que logo se dissipou para a vida desperta. Mas sonhei.





segunda-feira, 14 de outubro de 2019

De passagem



O que você fez, por onde viajou?
Foi a festas?
Visitou museus?
Assistiu a espetáculos?
Aproveitou para ir a cidades vizinhas?
Duas ou três a cada dia?
Participou de grandes eventos?

Eu? Não…

Observei o movimento das pessoas…
O reflexo da luz do sol nas vidraças
O por do sol no rio
As temporalidades da cidade…
Seus sabores, silêncios e sonoridades

O meu silêncio...




sábado, 10 de agosto de 2019

Das instituições nosocomiais





A palavra nosocômio, do ponto de vista etimológico, tem sua origem no grego, e resulta da articulação de duas ideias: doença e processo de curar: νόσος (nósos, "doença") + κομέω (komeo, "curar") Assim, as instituições nosocomiais constituiriam naqueles espaços onde se deveria promover a cura para as doenças. 

Contudo, trazendo-se o conceito de nosocômio para o contexto da sociedade capitalista, de consumo e descarte, é preciso perguntar como se concebe a ideia de cura.

Nas instituições nosocomiais, os nossos hospitais, se realiza um enorme e complexo conjunto de procedimentos, desde os mais simples, como consultas breves, a cirurgias delicadas e demoradas, além de internações de longa duração. Em todas essas situações, a noção de cura que se pratica é tão parcial, tão fragmentária e reduzida, que acaba implicando na promoção de outros adoecimentos, muitos.

Explico-me. Um paciente procura uma emergência queixando-se de algum mal. A equipe logo trata de verificar uma causa possível, imediata, para o tal mal. Fazem-se exames. Chega-se a uma possibilidade de causa. Então aplicam-se os procedimentos considerados, ao momento, como os mais adequados para neutralizar ou abafar a causa, de modo pontual. Contudo, desses procedimentos desdobram-se efeitos colaterais de toda sorte, desde escarificações, lesões na pele, infecções por contaminação, até problemas e adoecimento de outros órgãos em razão das medicações.

Assim, o paciente pode até ter minimizado o mal que o levou ao nosocômio, mas são sempre grandes as chances de que deixe a instituição levando, em sua bagagem, uma coleção de problemas outros, os quais exigirão, também, novos cuidados e procedimentos... Numa espiral sem interrupção. Ou melhor, que se interrompe apenas com a morte.

A instituição nosocomial na sociedade capitalista, de consumo e descarte, é regida por um modelo cuja meta é assegurar que seus pacientes resolvam seus problemas apenas parcialmente, não fiquem de todo curados. É preciso certificar-se de que eles retornarão para, assim, manter os fluxos da própria instituição. Sobretudo, os fluxos financeiros.

Nesses termos, envidam-se esforços para que o paciente não morra. "Fizemos tudo quanto estava ao nosso alcance..."  Os lucros cessam quando o paciente morre. Mas também é preciso garantir que não se alcance a cura mais eficiente. Afinal, paciente sadio também não é lucrativo para a instituição.

Essa lógica perversa deixa pacientes e funcionários em todos os quadros vulneráveis e infensos aos processos de adoecimento, de ferimento, escarificação da saúde.

Os nosocômios, como funcionam hoje, não são lugares de curar a doença, em seu sentido mais fundo. Sobrepõe-se, a esse sentido, um outro: o dos lugares de se fazerem negócios. Tratam-se dos negócios e dos negociantes que dependem da doença, que precisam dela. Portanto, ao final, não passam de lugares de adoecer. Tópos árrostos. Sem alento.








Em tempo, toma-se a palavra nosocômio como se fora sinônimo de hospital, o que é um equívoco. Seus sentidos e suas histórias são bem distintas. A palavra hospital tem a mesma raiz de hotel, ou do francês hostel. Elas derivam do latim hospes (que também resulta na palavra hóspede), e significa “aquele que é recebido”. Hostel, hospital, hospitaleiro, hóspede formam um conjunto de palavras que se reportam ao latim medievo “hospitale”. A noção de hospital que se originou referia-se à instituição voltada para o acolhimento e cuidado dos necessitados em geral.

As palavras hospital e hotel possuem a mesma raiz etimológica – ambas derivam do latim hospes, que significa "aquele que é recebido". Quanto ao vocábulo hotel, o mesmo surgiu do francês hôtel, que no século XIII era chamado de hostel em referência ao latim medieval hospitale. Já a ideia de hospital nasceu da necessidade de distinguir a instituição que acolhia e cuidava dos necessitados em geral.

A palavra hospício integra também essa família, designando casas que hospedavam pessoas doentes, velhos e crianças abandonadas. Só mais tarde é que foi associado mais especificamente a lugares para onde se recolhem pessoas com problemas mentais. Sempre os desafortunados, os que não têm lugar nas malhas sociais.

Seria possível relacionar a palavra hospício, portanto, a manicômio. Contudo, manicômio, de origem grega, também se refere a lugar de cura dos problemas que afetam o comportamento: manias, loucuras, iras.

Assim, do ponto de vista etimológico, os sentidos de hospício e manicômio não coincidem, do mesmo modo que os sentidos de hospital e nosocômio.




segunda-feira, 20 de maio de 2019

Tempos de truculência



Adjetiva-se como truculenta aquela pessoa que se comporta, na relação com os demais, como se estivesse numa mesa de truco. O jogo de carteado admite que o jogador minta, finja ter uma carta forte, para pressionar os demais jogadores. Dá uma informação errada, brada e bate na mesa para mostrar força e convicção num dado que é falseado. Fake news. Os outros jogadores acreditam, se ferram. E tudo bem. Segue o jogo.

Diferentemente do jogo de xadrez, ou de dama, por exemplo, não prevalece a capacidade de análise das situações, ou de projeção e planejamento; não prevalece a lógica, tampouco a disposição à reflexão. Valem os efeitos provocados pelas fake news, a capacidade de intimidação do gesto agressivo, ainda que sobre bases mentirosas. Ganha-se no grito: Truco!!!

E eu pergunto: é isso mesmo? O que faço, eu, que não sei, nem quero jogar truco?






terça-feira, 6 de junho de 2017

A mocinha que vende performance de antifeminista e a mulher-robô de Fritz Lang


A câmera do aparelho telefônico está criteriosamente posicionada para colocar em tela seu rosto, a parte superior do tronco e, principalmente, os gestos contundentes das mãos, com unhas cuidadosamente pintadas. E para parecer um pouco negligente, como se estivesse colocada meio ao acaso. Ela, a moça que executará a performance, conhece bem o campo coberto pela câmera, e cuidadosamente se move de modo a tirar proveito do enquadramento, com algumas saídas estratégicas, para entradas veementes em seguida. Antes de iniciar o espetáculo, os organizadores, homens, preparam microfone, fazem comentários com ela, que responde sempre afável e com a expressão de segurança, de quem sabe o que está fazendo. O sorriso breve sugere reconhecimento do terreno bem como certeza dos modos como moverá as peças para dominar a cena.

Ela calculou todos os passos para causar impacto. Polêmica é o seu principal produto à venda. Performance é sua estratégia. Por isso escolheu, para usar como bandeira, um assunto capaz de mobilizar passionalidades. Combater o feminismo pode ser uma boa pedida. Não importa o teor do seu discurso, tampouco importa se articula de modo coerente os conceitos que anuncia. Não importa se mente, ou se de fato leu todas as autoras cujos nomes brada, como se preparasse a próxima lista de bruxas que devessem ser condenadas à fogueira. Nada disso importa. Por isso mesmo, não adianta contestar seu discurso, nem contra-argumentar, nem convocar à razão. O que está em pauta, de fato, é o seu cachê, os cachês que vão sendo pagos por organizadores de eventos para públicos marcadamente masculinos (também não importa quantas mulheres deles façam parte). O valor do cachê é diretamente proporcional à sua capacidade de incitação à reação.

Por isso são vãos os protestos das feministas. Ou melhor: não, não são vãos, eles fazem parte dos cálculos da mocinha, e integram as estratégias de sua performance. Ela precisa deles, e eles são infalíveis: estão sempre lá, ou à volta. Ou mesmo estão na audiência difusa que a acompanha por meio das imagens geradas pela câmera, aquela que foi criteriosamente posicionada para transmitir sua performance online, ao vivo, e depois manter o vídeo disponível em plataformas digitais, para seus admiradores e seguidores, tanto quanto para seus adversários. Isso a alimenta. Isso alimenta sua performance. Isso alimenta seu cachê.

Seu rosto, seu gesto, sua expressão lembram-me as feições de outra mulher que marca a história do cinema: a robô que ocupou o lugar de Maria, no filme Metrópolis, de Fritz Lang. Aos que não viram o filme, faço um briefing. Metrópolis é uma cidade dividida em camadas. Cada camada é ocupada por uma categoria, posicionada de acordo com seu poder, capital econômico e importância na estrutura social. A elite habita a superfície, em palácios suntuosos; as máquinas, que são o meio de produção de riquezas, ocupam o primeiro subsolo; os operários, que operam as máquinas em jornadas extenuantes, vivem abaixo, ainda, num segundo subsolo, e nunca, mas nunca mesmo, podem emergir à superfície. Entre eles, Maria é uma espécie de revolucionária pacífica, com tintas messiânicas. Ela se esforça por agregar os operários, e defende que, por meio do amor, poderão encontrar um meio de sair daquela situação desumana e insustentável. Promete, ainda, que esse dia está por chegar. O filho do empresário principal proprietário da cidade, por acidente, acaba por conhecê-la. Quando sai à sua busca, acaba tomando conhecimento dos subsolos da cidade, e das condições miseráveis dos operários. Finalmente, a vê numa espécie de catacumba ainda mais profunda, numa de suas pregações aos demais operários. Apaixonam-se um pelo outro.

Na superfície, seu pai também é informado sobre o que se passa. Então reúne-se com o cientista, com quem arquiteta um plano diabólico: programar um robô com as mesmas feições de Maria, para ocupar o seu lugar, enquanto ela é mantida sequestrada. A robô-Maria é sensual, sedutora, participa de festas em boites para o deleite dos homens. E, quando desce à catacumba, ao encontro dos operários, no lugar da verdadeira Maria, os incita à rebelião, ao ódio. A ideia é que os operários reajam com violência, para justificar à elite combatê-los também com violência. E eles correspondem ao chamado. Contudo, a reação em massa escapa ao controle de todos. A horda não só destrói as máquinas como também coloca em risco a segurança da população, inclusive das crianças, filhos dos operários. Quando estes se dão conta, voltam-se contra a robô. Perseguem-na, e a queimam na fogueira.

Maria, libertada, consegue, finalmente, reunir-se à sua gente, e ao novo amor. Mais que isso, conquista o intento de mediar as negociações de um novo tempo. Talvez o filme se encaminhe para um final excessivamente otimista, um pouco piegas até. Talvez àquele tempo fosse necessário uma dose extra de otimismo, dadas as circunstâncias tão adversas vividas na Alemanha da década de 1920. Aos sobressaltos, entre polarizações e escapando a gestos de ódio também transcorremos os dias de hoje. Não nos faria mal algumas doses extras de otimismo e de esperança, sem perder o sentido crítico do mundo vivido.

A mocinha que se diz antifeminista prossegue em sua atuação diante da câmera e da platéia que a aplaude. O lugar onde está não se assemelha à catacumba onde Maria-robô incitou os operários. Mas a mocinha que se diz antifeminista está no auditório de uma universidade, onde, em tese, transitam os homens (sobretudo homens) de ciência. Ela, Maria-robô, foi devidamente programada por dois homens: um da ciência (frequentaria também universidades?), outro do capital (que toma as decisões; por exemplo, pode decidir pagar por uma palestra da mocinha que se diz antifeminista...). A performance da mocinha, seu olhar, seu discurso têm muitas afinidades com os da Maria-Robô. Estremeço pensando no fim dado à antagonista criada por Fritz Lang. Espero, sinceramente, que a mocinha não corra o risco de ter qualquer desfecho trágico assemelhado àquele. Mas, ao mesmo tempo, espero que a horda por ela incitada não reaja de modo a destruir conquistas frágeis que têm sido construídas a duras penas, amealhadas no decurso do tempo.

O risco está sempre ali, à frente, iminente.

Para ver Metrópolis: aqui 












sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Preciso de um recanto para descansar



“Eu estou cansada”. Esta tem sido uma frase recorrente. E vou ficando cansada de repeti-la (com o perdão do trocadilho cretino). Qual, afinal, é a fonte de tanto cansaço? Excesso continuado de trabalho, sim. Mas suspeito que não seja apenas isso.

Noutro dia, pensando a respeito, cheguei à possibilidade de que o cansaço viesse, sobretudo, do sentimento de injustiça e desalento, de desamparo diante das instituições, da sensação de vulnerabilidade sem proteção diante das estruturas sociais, do Estado, dos poderes instituídos.

Byung-Chul Han propõe uma análise desta que ele chama de sociedade do cansaço, apontando seus vários aspectos e dinâmicas que resultam na condição de burnout que incide sobre tantas pessoas, atualmente. Um pensador instigante, autor de uma das leituras mais interessantes dentre as recentes que fiz. De toda sorte, o escopo de discussão fica um pouco além do campo da percepção, ou da experiência corporal propriamente dita do cansaço. Ou seja: configura um conjunto de explicações racionais para uma experiência corporal e psíquica, no âmbito afetivo.

Temo que Walter Benjamin tenha acertado com precisão de atirador profissional, quando apontou o cinema cumprindo uma função pedagógica, no tocante à preparação das pessoas para as situações de choque da sociedade contemporânea. Ele escreveu o famoso ensaio em que faz tal apontamento há quase 100 anos, mas continua com uma assustadora atualidade...

Os filmes de ação com produção norte-americana organizam-se com um percentual menor de diálogos, e, em sua maior parte, mostram correrias, lutas, fugas, perseguições intermináveis. Costumo pensar que ser cidadão norte-americano na nação do filme blockbuster é muito sofrido. Viver fugindo de bandidos, sendo perseguido por inimigos, sob ameaças de toda sorte, sem tempo para pausas, deve ser muito desgastante, afinal...

Então me ocorreu que talvez meu cansaço advenha de um tempo em que tudo acontece como se eu estivesse dentro de um filme dessa natureza. Não há pausa para digerir as experiências, para processá-las. Quando começamos a refletir sobre o que se passa, já somos empurrados a novas e inesperadas situações, com tensão e pressão sempre crescentes.

Alguém pode avisar aos produtores que não quero mais participar desse roteiro? Alguém pode avisar que prefiro ser escalada para filmes mais pausados, com espaços vazios, e finais em aberto? Ah, também prefiro os filmes com orçamentos baixos, mais artesanais, tá?








domingo, 2 de outubro de 2016

"A humanidade está sentada em um trono de sangue e dor".


A humanidade está sentada em um trono de sangue e dor. A verdadeira história nunca pode ser conhecida a fundo porque sempre há muitas mãos manipulando, escondendo, torcendo os fatos e, principalmente, os rastros que os acontecimentos deixam.

(Pedro Juan Gutiérrez. Fabián e o caos. Ed. Alfaguara, 2016. p. 46)







quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Sobre Guerra nas Estrelas e alguma nostalgia


Ontem fui ver o campeão de bilheterias do momento. Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens), ou Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força. Como queiram.

Divirto-me observando quem vá ver filmes com produção como essa e depois façam longas críticas, apontando problemas, defeitos, e comparando-os aos primeiros da saga, desqualificando as produções mais recentes.

Confesso que fui desvestida de qualquer expectativa, ou de protocolos para análise e avaliação. Fui por entretenimento. Fui ouvir e ver uma história que se conecta a um conjunto de outras histórias já contadas, mas que deve também ser degustada em sua individualidade.

Considero positivo o resultado da minha predisposição. Surpreendentemente, foi o filme que me conduziu a memórias, afetos, e mostrou a mim mesma como diante de um espelho. Foi bom olhar. Foi bom ouvir.

Assisti ao Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança no final dos anos 1970. Eu não tinha, ainda, 20 anos. A Princesa Leia teria um pouco mais que isso. Era um tempo de efervescências. Em plena ditadura militar, a metáfora do embate entre a sombra e a luz ganhava uma potência extra. Vi os dois episódios que se seguiram. Acho que já não tinham a intensidade inaugural do Episódio IV, mas ligavam-se a ele, articulando sentidos à história que já se instalara, de modo indelével, no meu imaginário.

A segunda trilogia, lançada duas décadas depois da primeira, encontrou outro cenário político e social, outras tensões moviam os afetos. Os recursos tecnológicos digitais que animavam as imagens e os sons suplantaram as referências artesanais com que a primeira trilogia fora realizada, de modo que poucos elos pareciam ligar uma à outra de modo mais explícito, orgânico. Apesar de tratar da mesma saga, descolara-se, a segunda, da primeira, na forma, no ritmo, no espírito. Além disso, o embate entre as sombras e a luz ganhou dubiedades, já fora de contextos tão claramente divididos, como anteriormente: EUA e URSS, esquerda e direita, ditadura e democracia. O Muro de Berlin já fora derrubado.

Ainda e assim, as histórias trouxeram apelos e energia próprios, capazes de encantar.

Mas ontem, ao assistir ao Episódio VII, e ver os rostos envelhecidos de Hans Solo e da Princesa Leia, vi o meu próprio rosto quase quatro décadas depois do episódio inaugural. Mais que isso, entendi que os embates de então não acabaram. Acho mesmo que nunca acabarão. Hoje apresentam-se a mim um pouco mais envelhecidos. Talvez tenham mudado de roupagem, de direção e estúdio. Mas os reconheço como os mesmos. São os mesmos do mesmo modo como eu sou a mesma, ainda que já não...

Sempre renovados, os conflitos, as tensões, as lutas são continuamente restituídos, reinstalados. Repassados às novas gerações, que as assumem como se inaugurais...

Que a força esteja... 




domingo, 20 de setembro de 2015

Sobre borboletas e baratas

Para Afonso Medeiros

Meu querido Prof. Afonso Medeiros compartilhou, recentemente, uma frase com a seguinte provocação: “Se você esmagar uma barata, você é um herói. Se você esmagar uma borboleta, você é um vilão. A moral tem critério estético.” Para colocar a provocação em negrito, acrescentou: "Um exemplo bem banal do porque, para alguns filósofos, a estética precede a ética..." 

Como as baratas têm ocupado uma parte importante dessas reflexões que vão me tomando quando o pensamento vaga, aparentemente à toa (mas só aparentemente, pois ao fazê-lo vai tecendo possibilidades outras no exercício de indagar sobre o mundo), a provocação me arrebatou. Por acaso, à noite, na sala da minha casa, lá vinha, desde a varanda, uma barata adulta, ligeira, ágil, fazendo uma curva, indo se esconder por baixo de uma prateleira. Todos essas passos foram executados de modo mais rápido que o meu reflexo, antes de eu constatar que eu estava descalço e não tinha nada à mão para enfrentá-la. Iniciaria-se, então, uma atividade divertida na noite: o duelo entre mim e a barata.

Definitivamente, baratas não são rudes, monstruosas, grotescas. Ao contrário, são inteligentes, atentas, montam estratégias. Além disso, pesquisadores (sim, há quem se interesse por pesquisar a vida das baratas!) têm constatado que são gregárias não num sentido caótico como possa nos parecer (estupidamente antropocêntricos que somos), mas organizadas em núcleos familiares. E não suportam ficar sozinhas. Se alguém quiser torturar uma barata até à morte, coloque-a numa solitária. Ela não resistirá à tristeza da solidão. Pois bem: todas essas coisas me ocorrem sempre que eu sigo para algum duelo com uma barata.

Essa, especificamente, depois de me ter escaneado, ficou debaixo do móvel, na espreita. Se eu me distraísse, iniciava uma fuga, fazendo corridas até certa distância. Avaliando o insucesso de sua tentativa, voltava ao abrigo, mais rápida que da primeira vez. Por vezes, eu a percebia à sombra, imóvel, me olhando. Qualquer movimento, e de novo desaparecia num vão qualquer. Sempre à espreita. Ela, escondida, e eu, à luz, já munida de um par de chinelas à mão.

Agora, às minhas ponderações sobre a vida das baratas, veio se somar a outra pergunta: e se fosse uma borboleta? Talvez eu me olvidasse do mundo a observá-la, sem querer que ela deixasse o ambiente... talvez eu até me lembrasse da lagarta feia, sem muito encantamento... mesmo assim, poucas seriam as chances de eu me dispor a um duelo com ela.

Por que? Pensei que, na borboleta, as cores estão separadas, organizadas, simétricas, vívidas, enquanto que, na barata, as cores se misturaram, resultando naquilo que minha avó chamava de cor de burro quando foge. Na borboleta, a dança das cores nos hipnotiza, enquanto que, na barata, o tom marrom da mistura nos afasta, lembrando caos, sujeira, mistura descontrolada...

Buscando a etimologia da palavra estética, chegamos à noção de experiência profunda, ou impactante sobre os sentidos. Ora, uma e outra proporcionam experiências significativas aos nossos sentidos: encantamento e repulsa. O belo e o feio. 

Então o velho filósofo Flusser me vem em auxílio, com suas não menos inquietantes provocações. No livro que compila as últimas aulas ministradas na Alemanha pouco antes de sua morte, ele indaga sobre o sentido e o lugar da arte no cenário contemporâneo. Constrói, então, o fio de seu raciocínio, a partir da ideia de que a arte seja uma experiência capaz mudar nossa percepção do mundo, e de nós mesmos, a partir do modo como impacta os nossos sentidos, ou seja, pela experiência estética. Nesse ponto, ele indaga qual teria sido a obra humana que mais fortemente teria afetado os nossos sentidos, no século XX, de modo a alterar nossa percepção do mundo. E responde: a bomba atômica. Desafiando artistas e estetas, ele constata que a obra de arte mais potente produzida pela humanidade nesse século teria sido a bomba atômica.


imagem encontrada aqui

A visão do cogumelo resultante da bomba é recorrente em nosso imaginário. Aterroriza e seduz ao mesmo tempo. Lembra o quanto somos cruéis, perversos, mesmo quando não admitimos. É a prova cabal da ausência de neutralidade do conhecimento científico. E no artístico também. Escancara a nossa finitude da pior e mais bela forma.

Ao pensar na bomba e nos corpos humanos que se desfazem pelo efeito da radiação, volto à barata, à espreita, debaixo do móvel da sala. Se a bomba pode eliminar a espécie humana, e também as borboletas, no bolo dos 90% das espécies viventes da face do planeta, elas, as baratas, ao menos a maioria delas, teriam mais chances de sobreviver, exatamente pelos hábitos que nos causam repulsa: habitar esgotos, andar por frestas, espreitar às escondidas. E por sua enorme e invejável capacidade de adaptação.

imagem encontrada aqui

A possibilidade de que elas sobrevivam a nós reforçaria o desejo de extingui-las, numa espécie de raiva movida pela inveja, mesmo que de modo não consciente?

Aquela barata, a minha visitante noturna, em particular, poderia até sobreviver à bomba. Mas não sobreviveu ao impacto da minha chinela, depois de uma longa dança de idas e vindas, tentativas frustradas de fugas, e pacientes observações mútuas. Não me sinto heroína. Apenas acrescentei um ponto a mais nos duelos travados com sua espécie, à qual destino profundo respeito. A propósito, nesse duelo, tenho bem menos pontos que elas, vencedoras na maior parte das vezes. Aliás: vencedoras hors concours, pois sobreviverão à nossa espécie!

Nenhuma borboleta veio visitar as flores da minha varanda, ultimamente.

PS.: deliberadamente, esta postagem não tem imagem de borboletas... 







sexta-feira, 14 de agosto de 2015

tempos de delação premiada...

p/ minha querida Laura Coutinho

Tempos de perplexidade, estes
quando os que cometem crimes ainda podem ser premiados caso aceitem o papel de delatores...

E todos pronunciamos a expressão "delação premiada", atribuída a condenados e suspeitos, sem pensar sobre suas implicações...

Enquanto isso, cidadãos cumpridores da legislação vigente, e atentos às normas sociais, cada vez mais amiúde encontram-se ao desamparo do Estado, da justiça, dos órgãos de proteção a quem quer que seja...

Compreender é um exercício a nos convocar... mas talvez nem consigamos atender à convocação... 
Esboçar marcadores éticos nesse contexto? Trata-se de desafio fadado ao insucesso, ao menos a curto prazo...

Urgente, mesmo, é descobrir como sobreviver... com alguma sanidade, se possível...

Quem viver, verá...





terça-feira, 21 de julho de 2015

O que se pode aprender com uma postagem sobre dillenia, no facebook?



Na plataforma digital de relacionamento social, pululam questões, denúncias, declarações, afetos e desafetos, notícias, as últimas descobertas científicas, e também as mais falsificadas... também pululam os grupos com bandeiras as mais diversificadas, cujos membros empunham gritos de guerra no mais das vezes sem sequer compreender-lhes os sentidos...

Foi assim que, fazendo parte de um dos incontáveis grupos ativos, deparei-me com uma questão que me despertou o interesse, por tratar-se de assunto diretamente vinculado à minha própria experiência. Um dos membros postou a foto de uma fruta pouco conhecida, perguntando se alguém lhe sabia o nome.

Há tempos venho observando a planta que dá essa fruta. Suas folhas são plissadas, as flores são belas, e os frutos são, no mínimo, instigantes. Da primeira vez quando me deparei com ela, fui em busca de seu nome e histórico. Levantadas as informações, delas me esqueci, e perdi suas pistas. Como tem sido recorrente em nossas vidas, hoje em dia.

Feita a postagem, rapidamente algumas pessoas começaram a tentar respostas à pergunta do internauta, alternando nomes com imagens de outras frutas. Desde o meu olvido, comecei a acompanhar as tentativas, em silêncio. Mas logo percebi que as pessoas não sabiam de que planta se tratava, e estavam atribuindo a ela nomes e referências erradas. Fiquei aflita, pois conhecendo a planta, sem lhe saber o nome, não conseguia encontrar referência nos buscadores da rede mundial de computadores. Fiz uma única postagem, advertindo que não era nenhuma das plantas já referidas, que se tratava de uma planta de origem asiática (disso eu me lembrava), e, portanto, não era nativa. Mas alguns ainda insistiam em plantas nativas, apesar da minha observação.

Até que alguém, mais curiosa que eu, e mais sistemática, já fizera uma pesquisa sobre a planta, e disponibilizou, na postagem, todas as informações: nome científico, nomes populares, ciclos, origem, características, etc. Ufa! Como é bom encontrar alguém que tem a resposta buscada, e disposta a partilhar as informações. Essa foi a primeira aprendizagem mais importante decorrente da postagem em questão.

O que parecia resolvido, no entanto, acabou revelando outro complicador, este talvez insolúvel, relativo ao comportamento em rede.

Apesar da resposta dada, da questão esclarecida, sem deixar margens para dúvida, as pessoas continuaram escrevendo respostas sem ler as anteriores. Assim, muitos insistiam em atribuir nomes errados à imagem do autor da postagem, postavam outras imagens, comentavam propriedades de outras frutas, perguntavam sobre a original, e ainda, enfatizando seu interesse na questão, pediam a alguém que esclarecesse a questão (já esclarecida...).

Vez e outra, o autor da postagem advertia seus leitores e seguidores que a questão já estava resolvida, bastava que lessem os posts anteriores, e, gentilmente, repetia a resposta. Mas, indiferentemente ao fato de a resposta estar ali, à vista de todos, os demais prosseguiam fazendo sugestões, pedindo respostas.

O episódio mostrou-me, de modo a não deixar dúvidas, o quão superficial tem sido a leitura de informações feita pela esmagadora maioria dos usuários das redes digitais. Emitem-se pareceres, julgamentos, sentenças a partir da apropriação de uma ou duas frases, palavras, sugestões encontradas aligeiradamente no início ou fim de alguma postagem.

A suposta multifonia propiciada pelas redes sociais em ambiente digital resulta, de fato, de um exercício insano de falar, de postar mensagens, sem que se leia, sem que se busque estabelecer relações mais substanciais com as falas/postagens dos demais.

Esta, a segunda grande aprendizagem resultante dessa postagem. Dela, também fui tomada por alguns sustos e preocupações. Dentre essas, a constatação de que as questões coletivas, na melhor das hipóteses, reunindo pessoas com as melhores intenções, ganham esse tipo de discussão...

Mad times... os dessa toada...

Replico os três últimos comentários, registradas às 9:45 do dia 21 de julho. Outros virão, por certo. Mas estes dizem bem da insanidade revelada a partir dessa postagem:

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Resposta n – Por favor, quando descobrirem, postem dizendo que fruta é, e se é comestível.
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Resposta n + 1 – Gente. A pergunta foi respondida a muito tempo leiam as postagens mais antigas. A planta chama - se Dillenia indica. É uma planta exótica do sudeste asiático. Sim ela é comestível mas por ser fibrosa a melhor forma de come-la é fazendo suco ou geléia. Não é cagaita nem marmelo!!!!!. Parem de perguntar e leiam os posts antigos!
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Resposta n + 2 – Esta fruta se chama FRUTA PAO. a massa dela serve para colocar na farinha quando o pao esta para ser amassado.
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Desesperador...







segunda-feira, 29 de junho de 2015

De músicas e compaixões



Na terça feira pela manhã, precisei ir de táxi ao trabalho. Às 8h, o motorista me aguardava à porta do prédio onde moro. Muito gentil, identificou-se, nos cumprimentamos, informei o endereço para onde pretendia seguir, combinamos o trajeto. Houve uma pausa nos encaminhamentos, enquanto o carro era conduzido pelas ruas cheias de movimentos os mais diversos. Havia uma espécie de tristeza naquele silêncio. Então o rapaz comentou, num tom entre desconsolado e perplexo: ouvi pela emissora da rádio que o Cristiano Araújo morreu, nesta madrugada, num acidente de carro. Aquela informação provocava, nele, um sofrimento que não podia permanecer calado. O nome Cristiano Araújo soava com familiaridade em sua fala. E reivindicava minha cumplicidade.

Naquele momento, pesou sobre mim um sentimento de incompetência e ignorância. Como eu não sabia quem era Cristiano Araújo, nem o que fazia? Seria algum político local? Algum empresário muito conhecido? Um artista? Como eu desconhecia essa pessoa, eu, senhora de discursos que pretendem colocar na berlinda relações de poder, estruturas hierárquicas que segregam alguns segmentos da cultura em nome de outros, estes elitizados, excludentes? Como eu sequer sabia o que fizesse o referido rapaz morto no acidente, enquanto aquele motorista se sentia profundamente comovido com o ocorrido?

Senti-me incapaz de compartilhar daquela comoção. Portanto, incapaz de lhe compreender não só o sentimento experimentado por ele, mas boa parte do contexto em que se insere. Fui lhe ouvindo os comentários, até compreender que se tratava de um jovem cantor, com rápida ascensão, da chamada música sertaneja universitária. Provavelmente um cantor presente na festa da exposição agropecuária, pensei (eu, que nunca vou à feira, e ainda desvio percursos para evitar suas cercanias, e os excessos de carros, pessoas, bebidas, barulho...).

Pensei, também, nos quantos adolescentes pobres que, em lugar de sonhar em ser jogador de futebol, preferem o sonho de ser estrela do estilo musical sertanejo universitário. Nos quantos irmãos que treinam, desde muito cedo, suas vozes para o canto em duplas, e animam festas de amigos, imaginando, algum dia, ocupar palcos iluminados ante plateias emocionadas. O motorista do táxi poderia estar numa delas, com sua namorada, família, filhos.

Carreira musical inconsistente? Promovida às custas de jabás? Talvez. Quantos artistas pagam volumosos jabás, sem conseguir ter seus trabalhos reverberando no peito de sua audiência? Que lugar eu poderia ocupar que me autorizaria a desqualificar o sentimento pulsante no peito do motorista do táxi, naquela manhã de terça feira? Nenhum, além do lugar da arrogância e da prepotência.

Na volta para casa no dia seguinte, final da tarde, tive o percurso interceptado por algum evento que, em meio ao tumulto de carros, viaturas, transeuntes, não conseguia identificar. Parada, esperando a liberação do trânsito de automóveis, chamou-se a atenção o número de pessoas fotografando alguma coisa que minha visão não conseguia alcançar. Até que uma senhora de meia idade me explicou: eram os corpos do Cristiano Araújo e sua namorada (cujo nome só depois fui saber: Allana) sendo liberados para os funerais. Mais uma vez meu caminho se deparava com o do jovem cantor, em sua morte. Mais uma vez, eu me via pensando a respeito da vida, da arte, das reverberações de trabalhos, da produção de sentidos...

Nesse episódio, uma carreira foi interrompida abruptamente. Seus fãs, assustados, lembraram-se quão finita e breve é nossa vida. Dessa finitude, nem nossos ídolos estão livres. Mas eles permanecem, em alguma medida, vibrando nos trabalhos que realizaram. Em suas músicas.

Não, ainda não sei que músicas esse menino gravou. Mas lhe tenho o mais profundo respeito. E compartilho o sentimento de perda com o motorista do táxi, e com todos os demais que lhe sentem a falta. A isso, dá-se o nome de compaixão. Por minha história, por minha estrada, experimento do mesmo sentimento quando, por exemplo, ouço a voz da querida Inezita Barroso nalguma gravação, ou vejo seus programas dominicais sendo reprisados na TV Cultura.

Não, a música de Inezita não morreu. Nem a de Cristiano. Vida longa à música de ambos! Às gentes deste Brasil de dentro e sua cultura! E à compaixão!






domingo, 14 de junho de 2015

futuros...


Devo confessar que temo ao pensar como será a vida daqui alguns anos, quando tiverem chegado à vida adulta as gerações de crianças criadas tendo seus desejos prontamente atendidos, suas vontades não só realizadas, como estimuladas, experimentando de modo muito escasso situações de frustração, impotência, negação...

Quem viver, viverá...



terça-feira, 2 de junho de 2015

Tempo livre, ciência e existência


Em 1980 estudei, no curso de graduação, o livro Ciência e Existência, do filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto. Nalgum momento do texto, ele compartilhava a ideia de que o desenvolvimento da ciência deixaria mais tempo livre para as pessoas. Assim, elas poderiam usufruir desse tempo com sua família, fazendo coisas que lhes agradassem, desincumbidas dos afazeres do trabalho.

Essa ideia me pareceu, desde a primeira leitura, um equívoco. Afinal, a substituição da atividade humana pelos recursos tecnológicos significaria, antes de qualquer coisa, desemprego. Ou seja, eu via naquilo uma relação matemática simples e direta, sem cálculos intermediários: tempo livre = desemprego = problema.

35 anos depois, com os recursos tecnológicos penetrando nossas vidas de modo inimaginável para o autor àquela época, o sistema capitalista produtivista no qual estamos irremediavelmente imersos não permitiu sequer que nos déssemos conta da possibilidade de tempo livre: as tarefas se multiplicaram em progressão geométrica, esfarinhando o tempo que se perde em vãos invisíveis. A existência ficou mais estressada, a velocidade acelerada, as pausas violadas...

Tempo livre? Era o que eu tinha, quando pude ler as 537 páginas do livro Ciência e Existência, integralmente, para uma disciplina de primeiro semestre do curso de graduação...





sábado, 23 de maio de 2015

Onde pego o ônibus para o não-lugar?


Nas discussões sobre territórios e fronteiras, tão recorrentes hoje em dia, sempre comparece a noção de não-lugar, proposta por Marc Augé no livro Non-lieux: Introduction á une anthropologie de la surmodernité, de 1992. Lembro-me de um projeto de mestrado, no início dos anos 2000, cujo trabalho final foi uma instalação num quarto de hotel. Versava sobre um não-lugar.

Apesar de ter lido e relido o livro do Augé, nunca cheguei a ficar convencida a respeito de sua proposição. Mas me demorei um pouco para situar e compreender meu desconforto. Vejamos, então.

Se a supermodernidade é caracterizada pelo excesso, pela superabundância espacial e individualização das referências, o que resulta em transformações das categorias de tempo, espaço e indivíduo, para Augé os não-lugares opõem-se à noção de lugar de pertencimento, que integra as relações identitárias dos sujeitos. Os não-lugares descortinam um mundo provisório e efêmero, comprometido com o transitório e com a solidão, e marcado pelo hiper em todas as suas dimensões: nos fluxos, nos signos, nos sujeitos, no desenraizamento.

A demarcação conceitual parece ser posta de modo a não deixar dúvidas. Por que, então, permanece meu desconforto em relação à definição?

Ora, o desconforto resulta da natureza conceitual que não supõe o lugar de quem pronuncia o conceito. Se o não-lugar de Augé é definido pelo não pertencimento, pelo não estabelecimento de relações identitárias com os sujeitos, é preciso definir quem sejam esses sujeitos. Ou melhor, esses não-sujeitos. E, dessa forma, o não-lugar não pode ser definido per si, como uma natureza própria, mas a partir de quem o defina enquanto tal.

Assim, ao definir algum espaço como não-lugar, o sujeito que pronuncia a definição fala mais de si mesmo em relação ao espaço em questão, do que propriamente desse espaço. Explico-me melhor: se eu defino uma rodoviária como um não-lugar, eu me revelo como alguém que usa a rodoviária de passagem – se é que eu ouse usá-la! Ou se eu defino um hotel como um não-lugar, declaro-me desde a condição de pagante de diárias do hotel para usufruir dos serviços por ele prestados, de modo provisório, efêmero, sem vínculos mais profundos.

Um divã do psicanalista, assim, seria um não-lugar para o psicanalisando que paga pela sessão, pelo direito de nele se recostar, provisoriamente, enquanto desfia suas autonarrativas...

Mas a mesma rodoviária não será vista como um não-lugar pelo grupo de meninos e meninas em situação de risco, que encontram ali um ambiente propício para ocupar o status de sua casa: o lugar, o lar, o aconchego, vínculos, pertencimento. Meninos e meninas em situação de risco moradores da rodoviária do Plano Piloto em Brasília lhe conhecem todos os recantos, becos, vãos, com intimidade e afeto. Fazem dela sua residência no mundo. Seu lugar.

Do mesmo modo, ao hotel acorre, diariamente, o garçon que trabalha no seu restaurante. Sabe como lidar com os hóspedes, conhece os ritmos da casa, da rua, os humores do patrão. Tem, ali, o espaço de trabalho e a fonte de renda com a qual mantém a família, educa os filhos. É seu lugar. No mesmo hotel, a camareira percorre os corredores de que não é proprietária, mas que recebem seu zelo diariamente, e encontra neles sua fonte de sustento, seu lugar de atuação profissional.

Tampouco o psicanalista tem, em seu consultório, um não-lugar...

Aos poucos, compreendo que certos conceitos são forjados desde o lugar do intelectual que se limita a certos trilhos na malha das relações sociais, sem ter em conta que tais conceitos não são suficientes, tampouco satisfatórios, se a entrada na malha das relações sociais se der por outros trilhos, outros pontos de vista, outras modalidades de relação e interação. 

No entanto, é preciso admitir o quão arriscado parece ser abrir mão de certas seguranças, para perceber que o mundo tem outras visagens, feições, além daquelas que insistimos em descrever desde nossos castelos de cristal, intelectuais que somos, a repetir conceitos que, já está decidido, nos satisfazem.

É preciso sair do lugar, e sair dos modos recorrentes de operar, para realizar o esforço de compreender talvez a mesma coisa mas desde outro ponto de vista, de outro lugar: esse lugar ao qual talvez eu não pertença, mas pertence a outrem, e é desde a sua perspectiva que me forço a ver esse lugar.

Assim, aos poucos compreendo meu desconforto, e sorrio, tomada pela convicção de que não, não há não-lugares.








domingo, 1 de março de 2015

Em tempos de zap zap


Dona Dirce trabalha como diarista, de segunda a sábado, em três residências no centro da cidade. Sai de casa, todos os dias, às 5h da manhã, rumo à parada de ônibus. Já no caminho, vai encontrando as amigas. Estrategicamente, mantêm-se em grupo, para evitar maiores riscos em função da violência urbana, principalmente nas periferias mais distantes.

Dona Dirce é alta, sorridente, gesto amplo, conta histórias, faz graças, conversa com todos. É dessas gentes que agregam as pessoas, estabelecendo vínculos de afeto. Para cada um, tem uma pergunta, dá uma notícia, faz um afago. No ônibus, do motorista ao passageiro sentado na última poltrona, conversa com todos. Assim, nem vê o tempo passar. 

Quase duas horas depois de ter saído de casa, ela desembarca nas cercanias de seu trabalho. No meio da tarde, segue de volta, reencontrando alguns companheiros da manhã, e revendo outros velhos conhecidos com quem só partilha a viagem de volta. Conversam sobre os afazeres do dia, e os planos para a vida. Divertem-se.

Sentada numa banqueta da cozinha, enquanto toma um gole de café, ela me conta que as coisas andam mudadas. “A mulherada, agora, só anda é com a cabeça baixa, esfregando aquele dedo no celular. É o tal do zap zap! Professora, é um silêncio que só, naquele ônibus! Ninguém conversa mais! De vez em quando, uma solta uma gaitada, rindo sozinha, que parece até louca. Eu só fico olhando, e achando graça. Eu, que nem tenho esse zap zap, né, professora?”

Ultimamente, quando consegue viajar sentada, Dona Dirce até tira uns cochilos ao longo do percurso. Coisa que ela nem pensava em fazer, antes do advento do zap zap...





quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Metacinema e Os Mercenários



Um grupo de bandidos orientais (há alguma diferença entre bandidos e mercenários?...) tem um refém preso a uma cadeira, com as mãos para trás e um saco cobrindo seu rosto. O líder tortura esse prisioneiro, espancando-o, ameaçando-o de morte. Mas ele nada fala, e não faz um movimento sequer. Parece desmaiado. À frente, um senhor oriental está deitado, ensanguentado. Parece vivo, ainda. Também é prisioneiro.

Enquanto isso, um grupo conduzindo veículos multifuncionais, blindados, armados por todos os lados, avança sobre o forte onde essa cena se passa. Matam tudo e todos quantos lhes cruzem o caminho, ou estejam, ao acaso, nas cercanias. Aos poucos, é revelada ao espectador a face de cada um deles: atores famosos de filmes de ação norte-americanos, todos reunidos na mesma produção. A maior parte deles já na meia idade, divertindo-se em fazer o de sempre: contar, no cinema, a mesma história. Divertem-se no percurso. Chegam, afinal, ao salão onde estão os dois prisioneiros. Depois de terem “limpado a área”, Stallone, o velho Rambo, líder do bando, revela o rosto do prisioneiro, tirando-lhe o saco da cabeça. É ninguém menos que Arnold Schwarzenegger, cuja fala primeira formula uma queixa quanto à demora dos parceiros. Em seguida, reivindica uma arma “bem grande”. Olha para Terry Crews, especialista em armamento pesado. Quero essa sua, grunhe. Terry Crews se recusa a lhe emprestar, mas Stallone intercede, sugerindo que ele use a de reserva. Terry, então ameaça Arnold, enquanto lhe entrega a preciosidade: Se você não devolver, eu extermino você! Nem no futuro, é a resposta de Arnold, numa referência ao filme Exterminador do futuro, Terminator no título original (o tradutor tratou de fazer uma gambiarra para encaixar a versão do título em português).

Os Mercenários, The Expendables, foi escrito por David Callaham e Sylvester Stallone. Este é, também, o diretor e assume o papel principal (papel principal?...). Com a primeira produção lançada em 2010, desde então o projeto emplacou 3 continuações. De fato, o papel principal não é de Stallone, mas do cinema de ação norte-americano. O mérito de Stallone foi reunir, na mesma produção, todos os caras maus que andam por aí, matando gente em nome da defesa sabe-se lá de quem ou do quê (além de seu próprio faturamento, é claro). Sempre sozinhos, lutando contra todos os bandidos do mundo, nessa versão do mesmo filme de ação norte-americano, eles resolveram reunir suas fúrias, sua sanha de matar, sua sede de limpar a humanidade de seus inimigos, e andam em bando, fazendo a mesma e única coisa que sabem fazer.

Mas o tempo é implacável até com esses caras. Os jovens que encaravam o mundo sem medo estão coroas. Stallone apresenta barbas grisalhas. Os corpos continuam musculosos, mas sem o viço de há algumas décadas. A pele já ressente dos tratamentos recorrentes. Contudo, eles parecem não se importar. Divertem-se recontando, em bando, a mesma história que cada um vem contando, há décadas, sozinho. Divertem-se, sobretudo, vendo suas contas bancárias ficando recheadas com os lucros resultantes dessa única história que sabem contar e, mais que isso, sabem vender como ninguém.

Um viva as membros do Sistema CooperAção Amigos do Cinema, que também andam em bando, fazendo filmes artesanais, sem custos, e se divertindo muito! Só não sabem vender...





sábado, 10 de janeiro de 2015

Ética, ciência, filosofia: entre o filme Interestelar e os Pensadores da nova esquerda



Fui assistir ao filme Interestelar. Entre as temáticas abordadas no enredo, estão questões éticas da pesquisa tecnocientífica. Além dos dilemas marcados entre decisões que envolvem escolhas entre os vínculos afetivos mais próximos e o destino da humanidade, estão as situações em que, cada qual movido por razões singulares, cientistas mentem, ou forjam dados, para assegurar a realização de seus projetos. É particularmente sobre este ponto que pretendo me deter.

Curiosamente, no mesmo dia, chegou-me às mãos uma resenha crítica do livro intitulado Pensadores da nova esquerda (cuja aquisição já providenciei), escrito por Roger Scruton nos anos 80 do século XX, mas só traduzido para o português em 2014. Nele, o filósofo inglês faz uma análise crítica da obra de um conjunto de quatorze intelectuais importantes no cenário do século XX, que aprofundaram as discussões marxistas, conhecidos como Nova Esquerda. Alguns deles ainda mantêm vigor em suas ideias, influenciando a produção de conhecimento século XXI adentro. Dentre esses, estão Foucault, Gramsci, Althusser, Habermas, Lukács, Galbraith. Nessa lista, também está Jean-Paul Sartre, protagonista de um episódio que me motiva a esta reflexão.

Scruton é duro em suas análises, advertindo para o fato de que a maior parte da produção reflexiva nessa direção é prenhe de bandeiras ideológicas, pouco restando de conhecimento crítico reflexivo propriamente dito. Vai mais longe, apontando situações nas quais os intelectuais e pensadores não hesitaram em forjar dados, ou mentir sobre o que teriam testemunhado, para confirmar suas convicções e defender seus projetos. Particularmente, os projetos vinculados às revoluções de esquerda.

Esse teria sido o caso de Jean-Paul Sarte que, mesmo tendo testemunhado atrocidades imperdoáveis na União Soviética, quando lá esteve em 1954, mentiu sobre elas, omitindo esse testemunho, em favor do projeto marxista de sociedade, de uma utopia não realizada. Ou seja, a construção de uma sociedade socialista, que se pretendia mais justa, valia o preço de uma montanha de cadáveres. E também justificava a falsificação dos fatos. Sartre teria admitido esse episódio já perto de sua morte, sem, contudo, trazê-lo à mesma visibilidade com que o fez em relação à defesa messiânica do projeto de esquerda, ancorado na experiência soviética.

No filme Interestelar, Dr. Mann é um cientista enviado em viagem através de um buraco de minhoca, para explorar um planeta que, aparentemente, poderia oferecer condições de abrigar a espécie humana, quando parecia inevitável a falência da vida no planeta Terra. O cientista teria registrado dados que confirmavam essa possibilidade no planeta onde fazia as investigações. Isso justificou a decisão de se fazer uma nova viagem até o planeta, para resgatar o Dr. Mann, e fazer o reconhecimento do local. Assim, seria possível verificar o que seria necessário para colonizar o local. No entanto, os dados tinham sido forjados pelo cientista, num gesto de desespero ante a constatação de que, sendo inóspito o local, ele estaria condenado a morrer ali, sozinho. Mentir foi a única saída que ele encontrou para ser resgatado, não importando se esse resgate custaria a descoberta de alguma saída para a sobrevivência da espécie humana. Ou seja, poderia custar a morte da humanidade.

No filme, a série de atitudes tomadas pelo cientista, em favor da própria sobrevivência e em detrimento do coletivo, ou da humanidade, foi castigada com sua morte. Não poderia ser diferente, considerando-se a moral que prevalece às narrativas hollywoodianas, sobretudo, as superproduções que evocam o imaginário de nação, a nação que encarna o próprio sentido de humanidade.

O cientista, na ficção científica, foi condenado à pena de morte, porque mentiu para ser resgatado e continuar vivo. O filósofo existencialista do século XX mentiu em defesa de um projeto de sociedade ainda em construção, que já tinha devorado e ceifado vidas sem fim, num campo de atrocidades nem sempre admitidas. O filósofo não sofreu nenhuma penalidade. Ao contrário, permanece sendo evocado por bandeiras que defendem uma sociedade mais livre e justa.

Parece, mesmo, que nossas noções de ética na pesquisa e na ciência precisam ganhar maturidade. Pois, até aqui, amiúde, o que entendemos por ética se aproxima muito mais a argumentos justificatórios para a realização dos desejos mais infantis e egoístas.


INTERESTELAR. Interstellar. Direção: Christopher Nolan. Duração: 169 min. EUA, 2014.
SCRUTON, Roger. Pensadores da nova esquerda. São Paulo: Editora É Realizações, 2014.