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domingo, 21 de fevereiro de 2021

Sobre um encontro com Lisístrata

 

Lisístrata, a greve do sexo é uma comédia grega escrita pelo grego ateniense Aristófanes, que teria vivido por volta dos anos 445 e 385 antes da era cristã. Ela conta a história do levante de mulheres de Atenas, com a parceria das espartanas, lideradas por Lisístrata, contra a guerra interminável entre soldados atenienses e espartanos. A guerra ceifa a vida dos homens e dos filhos dessas mulheres, além de esvaziar os cofres públicos. Elas, então, decidem deflagrar uma greve de sexo, que só é interrompida quando seus maridos assinam o acordo de paz. O acordo, personificado pela própria figura da Paz corporificada, é a condição para que se inicie uma orgia. Fecha-se o pano. Fim de espetáculo.

Em meados dos anos 1980, uma amiga integrou o elenco que estava trabalhando na montagem do espetáculo. Ela faria exatamente a personagem Paz. Eu comecei a ajuda-la na na composição da personagem. Para tanto passei a comparecer aos ensaios. Ela desistiu de participar, e eu acabei assumindo o papel. Tinha me afeiçoado. Ao longo das demais cenas, eu participava do côro feminino. A certa altura, deixava o côro, indo preparar a personagem final, com maquiagem intensa, apliques que alongavam os cabelos até à altura das pernas, um véu muito transparente e o corpo nu.

O elenco era numeroso. No decurso dos trabalhos, delineou-se uma divergência entre o grupo dos homens, autorreferidos como mais profissionais, exigentes no tocante aos rigores da produção, e o grupo das mulheres, por eles apontadas como amadoras, pouco profissionais. As tensões decorrentes dessa situação intensificaram-se desde circunstâncias pontuais até uma predisposição quase permanente para a discussão.

Se o elenco feminino, em geral, era considerado amador, especialmente eu era destinatária de piadas recorrentes. A personagem Paz não tinha fala, e a mulher do côro se manifestava poucas vezes, no coletivo, sem destaque. Amiúde, eu ouvia por parte de alguns dos atores a pergunta: “Vocês já ouviram a fala dela? Gente, prestem atenção, senão não ouvimos sua voz!”

A atriz que interpretava Lampito, a espartana que participava na assembleia de mulheres atenienses, na primeira cena, começou a cobrar do diretor uma tomada de posição em relação às provocações recorrentes do elenco masculino. O diretor tentava contornar a situação, sem confrontos.

Havia, sim, uma cisão claramente marcada entre homens e mulheres na montagem daquele espetáculo que tratava exatamente de uma greve deflagrada por mulheres ante o comportamento competitivo e belicoso dos homens... curiosa situação...

A pré-estreia do espetáculo estava agendada para um sábado, numa cidade satélite. Funcionaria como um ensaio geral com público. Na quinta-feira da semana seguinte ocorreria a estreia para temporada de várias semanas no teatro onde tudo já estava devidamente montado: cenário, iluminação, sonorização, etc. Na quinta feira de véspera, a atriz que interpretava Lampito, depois do ensaio e de alguns confrontos com o elenco masculino, anunciou sua saída do espetáculo. Não se sujeitaria mais àquela situação. Antes de se retirar, desafiou o diretor: “Quero ver você estrear essa peça”.

Lisístrata andava com a popularidade em alta, por aqueles tempos. Numa faculdade de artes cênicas, um professor acabara de montar a cena da assembleia, fazendo alguns experimentos de atuação, cenário e figurino. Alguém sugeriu convidar a atriz que interpretava Lampito dessa outra montagem, e assim se fez: a pré-estreia, na cidade satélite, contou com a atriz que fazia parte do outro projeto. Embora tudo tenha transcorrido bem, ela comunicou que não poderia permanecer no espetáculo, por uma questão ética. Sua atuação fora dirigida pelo outro diretor, e estava articulada a uma concepção de cena diversa daquela da qual fazíamos parte. Desse modo, voltávamos à estaca zero. E na segunda feira nos reunimos no teatro, para buscar alguma solução.

Entre as poucas saídas disponíveis, considerou-se a possibilidade de que eu assumisse a personagem em questão. Essa solução, contudo, apresentava um problema. A ideia inicial era preservar a imagem final da Paz. Assim, para assumir Lampito, foi necessário construir um perfil com traços muito distintos e próprios também. Enquanto a Paz era sensual, sinuosa, cabelos longos e esvoaçantes, cercada de tecidos leves em tons de branco e azul claro, Lampito era uma guerreira, portando capa e armadura, botas, cabelos presos, roupas de couro em tons de marrom escuro e preto, gestos duros e decididos, voz grave e firme, com espaços para algumas doses de humor. Assim, os homens do elenco passaram a ter oportunidades multiplicadas para ouvir a minha voz, desde a primeira cena...

Os ensaios aconteceram em apenas dois dias, terça e quarta feiras, com estreia já na quinta-feira, entre sustos, mas sem comprometer o espetáculo.

O elenco masculino recuou da postura mais agressiva, tendo passado a ter mais cuidado em relação à linguagem. Ainda e assim, seu perfil se manteve marcadamente arrogante, com necessidade de se impor, em relações de poder assimétricas.

A temporada naquele teatro seguiu-se a uma série de temporadas curtas em outras cidades satélites, com uma diversidade de situações que, de diferentes formas, replicaram para os contextos da produção e das relações com os públicos as questões tratadas pelo texto teatral. Sua atualidade chama a atenção.

Do mesmo modo, merece destaque o elenco personificando a tensão desenhada pelo espetáculo, explicitando o quanto essas são questões que pulsam, movendo nossa sociedade marcadamente patriarcal, machista e belicosa. Mesmo quando se trata do campo da arte, cujos agentes reivindicam para si comportamentos capazes de criticar o status quo...

 

 

 

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Festa de anos


Para César Guinda








 




Nunca consegui entender o que motiva as pessoas a parabenizarem os aniversariantes. Por que parabéns? O que terão feito os aniversariantes que justifique serem parabenizados? Será por terem conseguido estar vivos até ali? Ou por terem sobrevivido a mais uma rodada completa da Terra em torno ao Sol?

A contagem do tempo também é coisa que me intriga, dada sua arbitrariedade, e a precariedade de sustentação, embora seja elemento central na organização da civilização de matriz ocidental, europeia, atualmente estendida aos quatro (ou quantos sejam) cantos do pequeno planeta em que vivemos.

Pois bem, é bem assim que cumpri 56 anos. Seja lá o que isso signifique. Já há algum tempo tenho vivido esse momento de marcação do tempo de modos distintos, refratários aos modos digamos que considerados usuais de celebração. Tem sido divertido. Quando não, tem propiciado pensar essas e outras questões sobre a existência.

Neste ano, meu aniversário ocorreu numa quarta-feira, dia em que, neste semestre, leciono pela manhã e pela tarde. No turno vespertino, ministro uma disciplina intitulada Oficina dos Fios, na qual experimentamos compartilhar aprendizagens que envolvem bordar, tecer, fazer crochê, há quem faça tricô, macramê. Trata-se, afinal, de uma oficina.

Foi pensando nela que meu tão querido amigo César Lignelli, professor do curso de Artes Cênicas da UnB, fez uma proposta no mínimo instigante, motivadora. Ele vem construindo uma performance/espetáculo/celebração/festa/sabe-se-lá-o-quê intitulada DeBanda. Nela, ele veste, literalmente, um instrumento que vem sendo inventado há não-sei-quanto-tempo, e que nunca est(ar)á pronto. Atualmente, pesa uns 30kg. Instalado às costas, tem fios ligados aos pés, joelhos, dedos das mãos, cotovelos. Assim, diferentes instrumentos sonoros são acionados conforme sua movimentação. Ele opera, ainda, duas sanfonas, conforme a cena, além de uma sirene.

Mas não se trata de mera execução do instrumento, o que já seria uma tarefa exaustiva. Ele conta uma história sem texto, para a qual constrói personagens distintos, que assumem posições antagônicas entre si, chegando a lutar. Há paixão, há conflito, há tragédia, mas também pode haver recomeço. Mais que isso, ele estabelece comunicação contínua com o público presente, dialoga, divertem-se. É um trabalho de Sísifo... porquanto louco, interminável, exaustivo. Mas, talvez por isso mesmo, apaixonante, comovente, capaz de encantar.

Todo o equipamento com que trabalha, e quantas outras tranqueiras de viver e inventar o viver, são alojados num motorhome, com o qual anda para cima e para baixo, na cidade de sua residência, ou em viagens por aí... Entre o final de 2017 e início de 2018, ele, com a família, percorreu 20.000km pela América do Sul, fazendo apresentações em praças, oficinas, quintais, e outros espaços nem sempre entendidos como destinados a produções teatrais-cênicas-musicais-performáticas-etc.

Sua proposta para a Oficina dos Fios foi que bordássemos um estandarte para integrar o espaço teatralizável de suas atuações. Lançado o desafio, combinamos que ele viria à nossa oficina, para nos mostrar o DeBanda. Equacionando as datas, a melhor mostrou-se justamente no dia de meus anos. Quase não me contive de tanto contentamento pela coincidência. Tomei a oportunidade como um presente.

Pouco depois das 13h, ele chegou à faculdade, vindo de 200km de estrada. Às 14hs, o grupo que integra a oficina foi até o caminhãozinho para conhecer a casa que anda, e ajudar a levar os equipamentos todos para a Oficina. Recuaram-se as mesas, para abrir uma clareira em meio à sala. Ajudou-se o artista a vestir o instrumento. Ele foi explicando cada fio, e tirando sons do instrumento múltiplo-nunca-acabado. Até que ele se levantou, e começou a dar lugar às personagens, e contar uma história performada-musicada-dançada-compartilhada. Encantamento e insanidade.

Afinal, “Sem a loucura que é o homem mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?” (Fernando Pessoa).

Ao final da apresentação, conversamos sobre o que vivemos ali: nós, da oficina, ele, e suas personagens. Depois reunimos as pessoas que vão trabalhar no estandarte, para planejarmos o trabalho. E prosseguimos, cada qual com seus fios, uns bordando, outros tecendo, outros tentando fazer crochê. Todos enleados nas tramas de nossos sonhos, desejos, desatinos. 

Quantas vezes, nos decursos de nossa vida, encontros tão intensos e especiais ocorrem? Não são muitas. E são sempre inesquecíveis.

César, querido, obrigada pela festa. Não importa a contagem dos anos, nem os marcos tão precários das repetições dos ciclos. Em qualquer data, eu não poderia ter recebido presente mais nobre e valioso!








sábado, 18 de junho de 2016

De censuras e outros medos


Corria o ano de 1987. Já se vão quase 30 anos. Eu estava montando o espetáculo Estórias da Carochinha, que resultou do ajuntado de exercícios cênicos de estudantes adolescentes, matriculados na escola de ensino médio da rede pública, onde eu trabalhava. O texto, divertido e debochado, misturava personagens das histórias infantis clássicas, modificava-lhes as identidades, atualizava os diálogos e discussões. O Lobo era gay, a Rapunzel era interpretada por uma travesti, o gênio da lâmpada era uma menina chamada Eugênia que estava em greve por melhores salários, a lâmpada era uma chaleira, a Cinderela e a Branca de Neve foram transformadas em personagens masculinos, e havia uma noiva que procurava, durante todo o espetáculo, o noivo desaparecido, até que, ao final, decidia se livrar do vestido branco e cair na festa.

No elenco, quase 20 adolescentes entusiasmados que vinham, de ônibus, desde a periferia da capital federal até o Plano Piloto, para atuar no palco do Teatro Garagem.

Na antevéspera da estreia, fizemos a apresentação para os censores. Sim, em 1987, ainda estava em vigência a estrutura de censura, e qualquer espetáculo não podia estrear sem ter a apresentação prévia para receber a autorização documental assinada pelos censores.

Nosso espetáculo recebeu a autorização com um pequeno corte. Proibia a fala da Fada Madrinha, no breve diálogo com o Cinderelo, quando reclamavam da carestia de tudo e atribuíam a responsabilidade ao governo e sua incompetência. Fomos censurados. (Talvez eu devesse inserir esse fato no meu currículum vitae...). Mesmo com a proibição, assumimos correr o risco, e mantivemos a fala. Éramos adolescentes, afinal.

A temporada de duas semanas foi um sucesso. Voltamos a apresentar o espetáculo em outros espaços.

Para amanhecer hoje, sonhei que meu livro, Brevidades, não tinha sido impresso em razão de um poema que fazia referência à revolução e a mentiras. No sonho, reagi indignada, denunciando a volta da censura política, e do sistema de repressão covarde e amedrontador.

Ao acordar, pensei que as gerações com 30 anos ou menos não têm a menor ideia do que seja isso. Tenho receios...