terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Chamada para o V Seminário Nacional de Pesquisa em Arte e Cultura Visual




GEOPOLÍTICA, ARTE E CULTURA VISUAL
Faculdade de Artes Visuais | FAV
Universidade Federal de Goiás | UFG
Goiânia, GO
4 a 6 de junho de 2012

Uma série de práticas visuais sempre entrelaçadas com outras culturas e processos são propostas para o desenvolvimento, implantação e resistência de geopolíticas. Essas diversas culturas geopolíticas produzem e difundem maneiras de ver o mundo, que são continuamente re-eleitas e adaptadas às novas circunstâncias geopolíticas.

“Cultura visual e geopolítica” à primeira vista pode parecer uma relação estranha. No entanto, ao refletirmos sobre como chegamos a conhecer os acontecimentos mundiais, ou a natureza global e a política dos principais produtores de imagem do nosso tempo, a percepção da geopolítica e da cultura visual como áreas afins torna-se cada vez mais evidente. Assim, é possível pensar em visualidades decorrentes de, e ajudando a produzir, lugares e tempos diferentes.

O V Seminário Nacional de Pesquisa em Arte e Cultura Visual pretende reunir pesquisadores, estudantes de doutorado e mestrado, para juntamente com os conferencistas convidados debaterem o tema “Geopolítica, arte e cultura visual”. Inicialmente com abrangência apenas local e regional, o evento, organizado anualmente desde 2000 pelo programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual da Universidade Federal de Goiás, tornou-se nacional em 2008.

Na edição de 2011 o seminário reuniu cerca de 200 participantes, entre convidados, ouvintes e debatedores, que apresentaram trabalhos em duas modalidades: comunicação oral e narrativas visuais.

O Seminário Nacional de Pesquisa em Arte e Cultura Visual constitui-se em um espaço interdisciplinar para discussões de questões relacionadas às Artes e à Cultura Visual, com foco, principalmente, nas investigações sobre as manifestações de sentido que articulem cultura e visualidades. O evento tem se consolidado como referência na área de Artes, ao reunir anualmente pesquisadores do Centro-Oeste e de outras regiões do país e da América do Sul, contribuindo, dessa forma, para o fortalecimento do campo da Arte e da Cultura Visual na América Latina.


Link de acesso: V Seminário Nacional de Pesquisa em Arte e Cultura Visual










sábado, 25 de fevereiro de 2012

Simpósio Educação e Cultura Visual no 21º Encontro Nacional da ANPAP

O 21º Encontro Nacional da ANPAP será realizado no Rio de Janeiro, no período de 24 a 29 de setembro. Dentre os 12 simpósios em torno dos quais serão organizadas as comunicações, está o Simpósio Educação e Cultura Visual, do qual tomam parte professores que integram o Grupo de Pesquisa Cultura Visual e Educação.


As inscrições de trabalhos podem ser feitas até o dia 30 de março.


Vale a pena verificar esse e os demais simpósios, bem como a programação toda do evento, e o cronograma geral, no link abaixo:


21º Encontro Nacional da ANPAP - Simpósios



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Apontamentos sobre saudades


Este texto foi produzido em resposta à solicitação
 feita pelo meu querido amigo Elinaldo Meira,
 e refere-se à sua pesquisa de pós-doutorado no PACC/UFRJ.
 Está dedicado a ele, e à minha querida Heloísa Buarque de Hollanda,
 mentora primaz daquele Programa,
 e supervisora do projeto de pesquisa em pauta.
Saudades.

Buscando a etimologia da palavra saudade, encontramos indicações de sua raiz na palavra latina solitatem, é o que defende, entre outros estudiosos da língua portuguesa, Francisco da Silveira Bueno (1974). O verbete diz de um sentimento que mistura tristeza e esperança, ante a ausência de uma pessoa, de um país, de que se está distante, privado. Mas diz, também, da esperança de ainda revê-los. A palavra chega à sua forma contemporânea tendo tomado, no século XIII, as formas arcaicas soidade e soydade, no século XV, a forma soedade e, no século XVI, suydades.
No entanto, João Ribeiro (ALMEIDA, 1980) questiona a informação de que o termo soidade seja a raiz de saudade, e acena para a possibilidade de influência da língua árabe. Nela, se encontram as expressões saiad, saudá e suaidá, que, além de “lembrar” a palavra saudade, têm certo sentido de profunda tristeza, “do sangue pisado e preto dentro do coração” (p. 260).
Não importa se uma palavra de origem latina ou árabe, sentir saudades, no ambiente da língua portuguesa contemporânea (vale lembrar que o sentido de saudade tem representação em palavras em outras línguas, também, não só no português, como nós, seus falantes, desejaríamos que fosse. A exemplo das palavras citadas, no árabe), pressupõe um investimento afetivo voltado para eventos já vividos, ou pessoas conhecidas, objetos, enfim, que, anteriormente próximos de alguma forma, se tenham ausentado. Contudo, a ausência, a distância espacial ou temporal mais relevante não é a de dimensão objetivamente mensurável, mas subjetiva, relacionada com a intimidade do sujeito que sente solidão pela falta, cujo coração encontra-se tomado por dor e sangue pisado.
Mas Elinaldo propõe, em seu projeto de pesquisa, pensar em relações, dentre outras, entre noções de saudade e virtual. O que me pareceu instigante. Podemos começar a pensar sobre a questão, tomando a fala encontrada no poema dramático O Marinheiro (1980), de Fernando Pessoa, escrito em 1913, quando uma das personagens, a Segunda Veladora, declara que “só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...” (p. 114).
Ora, o mar, aquele que não veremos nunca, é virtual: existe como potência a ser realizada. A saudade refere-se, assim, a um sentimento investido num evento virtual, ainda não atualizado. O atual, que se contrapõe ao virtual, está aqui, agora, viabilizado, com sua potência tornada concretude. Do atual, não sentimos saudade, pois não está ausente, não nos acena como possibilidade: é, aqui e agora. Não há sangue para ser repisado no fundo do coração...

ALMEIDA, R. C. de. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Brasília: Valci Editora LTDA, 1980.
BUENO, F. da S. Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa. São Paulo: Ed. Brasília LTDA, 1974.
PESSOA, F. O eu profundo e os outros eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A vida venceu! O filhote sobreviveu!



Em novembro passado, acompanhei um casal de quero-queros com uma ninhada recém-descascada. Os quatro filhotes logo ficaram reduzidos a um, e não demorou para que eu encontrasse o casal solitário, sem filhote algum. Logo a fêmea estava aninhada, chocando mais quatro ovos, enquanto o macho andava às voltas, vigiando. Pouco antes do Natal, a nova ninhada ganhou o gramado. Dos quatro, logo encontrei apenas dois. Saí de férias com a impressão de que, quando retornasse, reencontraria o casal sem os filhotes, talvez insistindo em mais uma ninhada. No meu retorno, a primeira coisa que fiz foi andar pelo gramado, com cuidado, para não espantá-los. Só avistei o macho, passeando pelo asfalto. E a família de corujas buraqueiras, vizinhas dos quero-queros, que ficam observando o movimento, e gritando com os visitantes indesejados - eu, por exemplo. Os dois filhotes do casal de corujas já estão taludinhos, as penas mais escuras. Quase já não os diferencio dos pais. No segundo dia, observada atentamente pelas corujinhas, retornei à área. Avistei o macho, a fêmea, e um terceiro quero-quero aninhado num trecho do gramado, perto do asfalto. Chegando um pouco mais perto, confirmei: um dos filhotes sobreviveu, e já tem o porte quase igual ao dos pais. A família aumentou. Agora são três, calmamente instalados, observando os passantes.

E assim, prossegue a vida.




domingo, 19 de fevereiro de 2012

Um acidente, ou o carnaval?




No domingo de carnaval, em Brasília, eu dei carona ao meu amigo baiano. Seguíamos pelo Eixinho W, na Asa Norte. A certa altura, ele me advertiu pare, pare, ali adiante tem um acidente! Olhei, e não vi nada que se parecesse com algum acidente. Havia, sim, um pequeno grupo de foliões que brincavam à volta de uma camionete equipada com caixas de som. Era um bloco de carnaval, seguindo pelo Eixão Norte devidamente fechado ao trânsito de veículos.

Nos divertimos com a situação. Naquele momento, o carnaval candango não era muito mais que algo assemelhado a um acidente.

Mas há de se fazer justiça: pela W3 norte, seguia, pela contramão, o Pacotão, bloco que marcou sua irreverência ainda em tempos de ditadura, e do qual tomei parte muitas vezes, compartilhando alegria.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Lista das plantas que cultivaremos no quintal da casa onde algum dia haveremos de viver



Para J. Bamberg, que me ajudará a escolher as mudas,
 a fazer os plantios, a regar e a celebrar seu desenvolvimento.


E para Bachelard, e sua Poética do espaço.


Jacarandá mimoso, sibipiruna, urucum, pau-brasil, sapucaia, ipê branco, rosa, roxo e amarelo, quaresmeira, flamboyant vermelho e amarelo, primavera de todas as cores, paineira, árvore-guarda-chuva, aroeira, jurubeba, calabura, umbuzeiro, canela, jasmineiro, onze horas, violeta, roseira menina, roseira branca, margarida branca, amarela e roxa, hibisco vermelho, açucena, dama da noite, orquídea, flor de maio, berinjela, quiabo, jiló, couve, couve-flor, abóbora, chuchu, cará, mandioca, babosa, gengibre, bananeira, pé de figo, jambo, laranjeira, limoeiro, limeira, goiabeira, seriguela, mexerica, mangueira, abacateiro, amoreira, jaqueira, pitanga, jabuticaba, cajá, cajá-manga, caju, romã, guavira, maracujá, alecrim, sálvia, capim santo, boldo, hortelã miúda, hortelã graúda, hortelã graúda da folha gorda, radíchia, alface, manjericão, manjerona, salsa, coentro, erva doce, alfavaca, chicória, beldroega, cebolinha, arruda...

As aves haverão de vir fazer seus ninhos, e se alimentar de seus frutos. E as borboletas virão voejar entre as flores.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

... porque finda a tarde...



(...)
finda a tarde a terra cora
e a gente chora
porque finda a tarde
(...)

Canto de um povo de um lugar
Caetano Veloso



sábado, 11 de fevereiro de 2012

A propósito do texto "diário íntimo" (http://historiasdesagradaveis.blogspot.com/2012/02/diario-intimo.html?spref=fb)



para meu amigo, sempre querido, Gladstone.

Eu era membro do júri de um festival de cinema. Convidada para a sessão de abertura, errei o horário, e cheguei uma hora antes ao teatro. Os funcionários estavam, ainda, montando o cenário do evento. Sentei-me na pequena praça à frente, bem no centro da cidade, e fiquei observando o movimento do fim do dia. Trabalhadores cansados retornavam para casa depois da jornada. Uma balconista sentou-se no mesmo banco que eu, tirou as sandálias altas, colocou uma rasteirinha, esticou as pernas. Falou das dores que sentia, da trabalheira que era atender o gosto das clientes, e do quanto gostava do burburinho das lojas e das ruas. Ficou ali, esperando pelo namorado. Viu a movimentação no teatro, e perguntou do que se tratava. Expliquei. Animou-se quando viu um jornalista chegar com a equipe para apresentar matéria ao vivo para o telejornal local. Esse eu até levava prá minha casa, falou, entre risos desabridos que reverberaram entre as luzes da rua sendo acesas, uma a uma. Acompanhou à distância o rapaz decidir o enquadramento, ajustar as luzes, testar a voz, verificar se ficou bem no vídeo, etc. E eu acompanhei suas reações, divertindo-me. Aos poucos, o público do festival começou a chegar: artistas, críticos de arte, cineastas, críticos de cinema, intelectuais, produtores, atores, atrizes, fotógrafos com suas câmeras ostensivas, autoridades... Ali, sentada no banco da praça, fui me sentindo cada vez mais próxima da balconista, de seu anonimato, de suas pernas cansadas, de seu riso desabrido, do ônibus lotado que ela enfrentaria com o namorado, da rua fumacenta perdendo-se na noite... e cada vez mais distante do espetáculo que eu, oculta numa zona de sombra, assistia ser montado, ali, a poucos metros do banco da praça. Fui ficando inquieta. Por que chegara tão cedo? Se tivesse chegado atrasada, teria caído no meio do evento, sem tempo para pensar, sem tempo para reagir. Talvez até ficasse quieta a um canto, quase anônima, mas teria enfrentado a arena. Mas ali, acomodada no banco da praça há tanto tempo, vendo tudo ser montado, não encontrava vontade nem argumento forte o suficiente para adentrar o cenário.

Nos outros dias, seria muito mais fácil: em meio ao público geral, sentada a uma poltrona qualquer, assistiria cada filme com fome de histórias e atenção de caçador. Mergulharia nas narrativas de cada um deles, me lambuzaria com suas luzes e sons. Eu desejava que esse momento chegasse, sem tem que passar pela sessão solene de abertura...

Quando o namorado chegou, a balconista despediu-se de mim, e sumiram-se, os dois, entre as gentes, pelas calçadas da cidade. Eu chamei o taxista que me deixara ali cerca de uma hora e meia antes. Voltei para casa.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vingança definitiva



Ela decidiu terminar o noivado que já durava quase dois anos. Foi até a roça onde morava o noivo, e tentou explicar que o noivado tinha sido um erro, mas que ainda estava em tempo de evitar um erro maior que seria casar, etc. Ele quis saber quem era o outro, com quem ela andava se engraçando, e ela explicou que não havia ninguém, que era ela mesmo que não queria mais casar. Ele não aceitou, tentou convencê-la a recuar na decisão, a ficar ali com ele. Mas ela estava determinada, e depois de muita discussão, voltou para casa. Sentia-se aliviada pela decisão, mas sabia que não seria fácil lidar com a questão, até ele se conformar. Mas um dia haveria de se conformar, afinal não era nenhuma criança, pensava.

Nas semanas que se seguiram, não teve um dia que ele não a procurasse, e a pressionasse para reatarem o noivado. Ela permaneceu irredutível.

Mas, nos últimos dias, ele parecia ter sossegado. Não aparecera na cidade, tampouco a havia importunado. Ela chegou a pensar que, finalmente, poderia retomar a normalidade da vida.

No sábado, foi almoçar na casa de uma amiga, a mãe e os irmãos foram visitar uns parentes na cidade vizinha. No comecinho da tarde, ele chegou à casa dela. Entrou pelo pátio chamando seu nome. Caminhou pela varanda ampla, que tinha um pé direito alto. No oitão constatou que a casa estava vazia. Cumprimentou a senhora da casa ao lado. Conversaram um pouco. Ela contou para onde a ex-noiva tinha ido. Ele conhecia a casa. Seguiu, a pé mesmo, os dois quarteirões. Bateu lá. A amiga veio atender. Ela lhe pediu que deixasse a ex-noiva em paz, que parasse com aquilo. Mas ele explicou que era isso mesmo o que ele queria, encerrar aquele assunto, deixar tudo para trás. Ela animou-se e chamou a amiga, que veio ouvi-lo. Então ele desfiou o que tinha a dizer: que ela ficasse tranquila, que ele a deixaria em paz a partir daquele dia, que não mais a procuraria, que ela podia seguir sua vida, e coisa e tal. Como sinal material de sua decisão, lhe entregou uma rosa vermelha. Ela pegou a rosa, entre desconfiada e feliz. Mais feliz que desconfiada.

Depois ele tomou o caminho de volta, e ela ficou ali, aliviada com o desfecho da história. Repisou o assunto com a amiga durante mais um par de horas, e decidiu voltar para casa. Queria estar lá para contar tudo à mãe, quando chegasse com os irmãos do passeio.

Ultrapassou o batente do portão quase distraída. Olhou as florinhas do jardim, achando que estavam ainda mais lindas. Levava a rosa vermelha na mão. Só então deparou-se com o corpo dele balançando, dependurado por uma corda amarrada a um dos caibros mais altos da varanda. Enforcara-se, o desgraçado, ali, na sua casa!

A pobre infeliz passou mais de ano em tratamento, internada numa clínica psiquiátrica. Nunca mais foi a mesma. Nunca mais conseguiu se libertar dele.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Modas, mercados e cabelos despudorados



à minha avó Antônia, que não conheci,
 de quem herdei a precocidade dos cabelos grisalhos.


Por que o mercado não lança, como moda, comportamentos que independam da compra de produtos?

Meus cabelos vêm se colocando grisalhos aos poucos, há tempos. Duas mexas aninharam-se à frente, e brincam com as ondas e os cachos, para um lado e para o outro. Dali, estendem outros fios brancos que se misturam aos pretos, estes ainda em maioria. Meu corpo transforma-se. Eu sou meu corpo. A imagem refletida no espelho diz de mim.

Noutro dia, notei a presença de uma faixa de novos fios pretos entre os brancos. Estariam, meus cabelos, escurecendo em consequência das mudanças na alimentação que venho providenciando nos últimos tempos?

Essa constatação provocou-me uma pergunta aparentemente tola, mas que deflagrou outras reflexões mas amplas: como as mulheres que pintam seus cabelos dão-se conta de pequenas e significativas mudanças em seu organismo, a exemplo dessa que notei em mim? Seria mesmo importante percebê-las? Penso que sim. Isso faz parte dos processos que nos levam a estar mais próximos daquilo que somos, e a ter mais autonomia nas nossas relações conosco e com o mundo onde estamos inseridos. Mas como perceber tais mudanças, se os cabelos estão entintados, se os pelos foram arrancados com cera, se as unhas estão cobertas por esmalte, se a gordura foi retirada em sessões de lipoaspiração?

Concomitantemente, vi uma reportagem que tratava dos produtos usados para colorir os cabelos, e dos danos à saúde tanto do cabelo em si, quanto do organismo dos usuários como um todo. Num evento com público predominantemente feminino, fiquei observando as cabeças das senhoras com seus 50, 60 anos, formando uma espécie de paleta diversificada das cores de tinturas disponíveis no mercado: vários tons de dourado, vermelhos, castanhos, louros, etc. O branco de seus cabelos devidamente ocultos, mascarados, dissimulados. Já nem supõem como sejam. Penso que talvez elas até acreditem, ao menos na maior parte do tempo, que seus cabelos tenham de fato aquelas cores, compradas de acordo com a oferta dos fabricantes.

Lembrando a reportagem, ocorreu-me que as agências, às quais cabe o papel de promover e ditar os comportamentos da moda, jamais haverão de sugerir a suas seguidoras algo como “agora, você está livre para assumir o que você é, de fato: não precisa mais viver correndo para comprar este ou aquele produto”, ou “para estar antenada com o que há de mais novo e chique, redescubra os seus próprios traços, as suas próprias feições, livres de quaisquer produtos à venda nas lojas do ramo!”. Seria uma estratégia suicida para o mercado, que precisa dos consumidores reféns de suas artimanhas, e crentes que, para “serem eles mesmos”, dependem de comprar os últimos itens lançados.

Em outras palavras: a moda, qualquer uma que seja, não visa o bem estar de seus usuários, de seus consumidores, mas o lucro assegurado aos vários segmentos do mercado envolvidos em cada novo comportamento instaurado: os fabricantes dos produtos, aqueles que os colocam em circulação, os que fazem sua propaganda convencendo os consumidores de que são essenciais, os que fabricam e vendem outros produtos relacionados, os especialistas que ensinam como usar “com estilo” pessoal e singular...

No entanto, quando eu, usuária, incorporo este ou aquele comportamento, não atendo, de fato, às minhas próprias necessidades, ou os meus desejos, mas às pressões das dinâmicas do mercado que me modificam ao sabor de sua fome insaciável de lucros. Nessa lista, estão todos os itens relacionados ao mundo dos cosméticos, das vestimentas, da alimentação, das academias para atividades físicas, das cirurgias estéticas, das publicações periódicas, novas e revolucionárias tecnologias, entre quantas e inumeráveis outros itens – à mostra, na vitrine, prontos para serem colocados no carrinho de compras.

Não são poucas as mulheres a me pressionar para pintar os cabelos. Acham que sou nova ainda para andar por aí, desavergonhadamente, expondo fios nus que embranquecem aos poucos. Minha atitude ganha ares de atentado ao pudor. Parece desafiá-las. Talvez as ofenda, ou cause desconforto. Tanta insistência durante tanto tempo, cheguei a considerar a possibilidade de fazê-lo. Pensei em pintar uma ou duas mexas em azul, ou vermelho. Fui ter com um cabeleireiro para saber sua opinião. Ele se recusou a executar o meu projeto, e demoveu-me, em definitivo, da ideia – que já não era portadora de muita convicção. Disse-me que os fios eram saudáveis, e seria muita a agressão necessária para pintá-los.

Por isso, ando ainda por aí, cada vez mais despudorada, com meus cabelos nus, rindo-se dos que têm medo da passagem das horas. A propósito, meu aparelho de telefone celular comprado em 2004, com tecnologia CDMA, ainda está em pleno funcionamento, apesar das ameaças da operadora de interromper os serviços em setembro último.

E assim prossigo brincando de executar pequenas estratégias de resistência nos jogos do mercado...





terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Outra face do galã



Corriam os anos 80. Naqueles tempos, eu participava de grupos experimentais de dança, teatro, desenho, pintura, entre tantos. Para isso, não esperávamos por editais de financiamento – eles nem existiam. Éramos movidos pelo desejo de jogar com os elementos das linguagens, com as inquietações, na ventura de encontrar possibilidades de expressão. Nem sempre o resultado satisfazia, ou constituía alguma coisa mais relevante. Mas os processos eram extremamente interessantes, e aprendia-se muito. Aprendia-se quase tudo, desde as negociações coletivas, ética do trabalho em grupo, produção e viabilização prática de formulações estéticas, construção de metáforas que dessem conta das tensões político-sociais daqueles tempos, trânsitos, poéticas.

Num desses grupos, eu o conheci. Era jovem, acabara de concluir a graduação, e logo foi aprovado num concurso para ser professor na universidade. Miúdo, pele clara, cabelo esvoaçante, provocava suspiros entre as meninas por onde passava. Foi convidado a integrar um pequeno grupo experimental que havíamos montado com a intenção de montar cenas e performances breves para fazer inserções/intervenções em espaços diversos. 

Trabalhávamos nos sábados pela manhã. Mas o grupo não teve vida muito longa, sequer chegamos a fechar alguma cena. Tínhamos muitas ideias, mas não conseguimos dar-lhes forma cênica, corporificá-las. Do processo, ficou a amizade, e algumas imagens provocadas pelos projetos não realizados.

Algum tempo depois de terminado o grupo, o reencontrei na festa de um casal de amigos em comum. Ele, professor na universidade, gracioso. As meninas, na festa, fazendo uso das artimanhas de que dispunham para se aproximarem dele. O sábado quente foi a deixa para se beber muita cerveja, em alguns casos misturada a caipirinha. Eu me encharquei em suco de uva. No final da tarde, quando decidi vir embora, ele me pediu carona. Para as concorrentes, aquele foi um sinal de escolha por parte dele, ainda que eu não estivesse na disputa.

Embarcados no meu fusca amarelo limão, perguntei-lhe onde queria que eu o deixasse. Que fôssemos até minha casa, de lá ele seguiria, me disse. Subiu até meu apartamento, para beber água. Quando voltei da cozinha, estava mal acomodado nas almofadas, sobre o colchonete, a um canto da sala. Dormia profundamente. E roncava, como roncava!

Diverti-me imaginando a expectativa das meninas, ante a cena que tinha à minha frente.

No dia seguinte, acordou descomposto, com dores pelo corpo. Foi a última vez que o vi.

Recentemente, soube que ele integra a equipe de mentores e produtores de um filme documentário cuja temática é de meu interesse. Quando li a notícia, foi inevitável lembrar o episódio. Procurei mais informações sobre seu percurso, o que tem feito. Continua na universidade, responde por cargo de relativa visibilidade. Ao contrário de muitos dos professores que iniciaram suas carreiras àquela época e acabaram por não fazer mestrado, menos ainda doutorado, ele investiu em sua formação acadêmica. Mas parece não ter tomado gosto pela pesquisa científica mais sistemática: não integra nenhum grupo de pesquisa, sua produção tem natureza mais prática, de conhecimento aplicado.

É possível, mesmo, que hoje ande contando os anos e os dias que faltam para se aposentar...

Roncará, ainda, quando dorme?


Dona Alice olha a lua


... e já foram tantos os luares, que seus cabelos ficaram prateados...





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

aquela que tem nome de flor



Ela tem nome de flor. Depois dos filhos criados, os netos nascidos, chegou a pensar que poderia dedicar mais tempo a passear com o marido, mais velho e cada vez mais dependente dos cuidados dela. Mas um dia descobriu um caroço num dos seios. A biópsia não deixou dúvidas, e começou a longa peregrinação terapêutica para os casos de câncer.

Logo na primeira série de sessões de quimioterapia, o braço inchou, e tanto, que foi preciso enfaixá-lo para conter a expansão. O líquido retido exudava, então, pelos poros. Nas pausas entre as séries, o braço mostrava pequenos sinais de melhora. Mas logo se inchava novamente, retomada a quimioterapia. Como passaram a alternar os braços, os dois ganharam as faixas, uma espécie de nova pele contentora, da qual já não conseguia libertar-se.

Algum tempo depois, foram detectados novos nódulos no cérebro. As sessões de quimioterapia começaram a ser alternadas com sessões de radioterapia. Uma primeira bateria diária. Pausa. Nova bateria. A pele se ressentindo. O cabelo caído, substituído por um chapéu. O corpo franzino da que tem nome de flor ficou ainda mais franzino, foi perdendo o brilho, o viço foi lhe vazando pelos poros. Mas não perdeu o ânimo para prosseguir, cumprindo cada etapa do proposto para recuperar a integridade de sua saúde.

O marido, cada vez mais queixoso, não aceita os cuidados de outra pessoa. Por isso, além de tudo, àquela que tem nome de flor ainda cabe as tarefas de lhe preparar as refeições, acompanhar as atividades do dia, ajudá-lo na higiene. Os filhos já não sabem como preservá-la, protegê-la em percurso tão difícil. O filho mais velho divide-se entre acompanhá-la, atender às lamúrias do pai, cuidar de seus filhos e mulher, trabalhar.

Há coisa de um mês, foram descobertos alguns novos caroços no outro seio, e vários nos dois braços, próximos à axila. Ela estremeceu. O filho suspirou fundo. Colheram material que foi enviado para a biópsia. O médico sugere que sejam extirpados os dois seios, e feita uma espécie de raspagem nos dois braços. Em conversa com minha irmã, o filho mais velho disse que, caso se confirme o prognóstico, está pensando em interromper o tratamento. Quer poupá-la de tanto sofrimento. Acha, mesmo, que vai propor a ela viajarem juntos, de férias, como não fazem desde que ele era criança.

No último domingo, no fim da tarde, chegando em casa minha irmã encontrou um vazo florido deixado de presente para ela. Entre os botões em flor, um bilhete, cuja mensagem dizia mais ou menos o seguinte: “Querida amiga, passamos aqui para lhe dar um abraço, e dizer o quanto sua amizade é importante para nós. Na próxima semana, eu e minha mãe seguiremos para Natal. Vamos passar um tempo na praia. Papai fica aos cuidados do meu irmão mais novo. Um abraço. Filho Mais Velho daquela que Tem Nome de Flor”.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

As panelinhas da minha avó



A casa de minha avó materna ficava no mesmo quintal da casa de um dos filhos. Assim, ele podia ter-lhe atenção no que fosse preciso, ao mesmo tempo em que ela tinha seu espaço preservado, para conduzir as coisas ao jeito dela.

Ela sempre recebia mais visitas do que o filho. Na sala, netos, filhos, sobrinhos, afilhados, vizinhos entretiam-se em animadas conversas. Uns iam a cavalo, outros de bicicleta, bem poucos de carro. Havia os que passavam só para pedir a benção, outros iam para fazer um serviço, ou pedir alguma coisa, levar recado, trazer notícias. Alguns ficavam um pouco mais, tomavam chimarrão, esticavam a prosa até a hora do almoço.

Miúda, ligeira, os cabelos grisalhos presos numa trança eram enovelados num coque fixado por um grampo na parte alta da cabeça. Na cozinha, picava um punhadinho de charque, lavava um punhadinho de arroz, pegava uns pedaços de carne de porco guardados numa vasilha com banha, descascava uma raiz de mandioca pequena que logo lavava na bacia, deixando esbranquiçada a água. O punhado de arroz, refogado com o charque, era preparado numa panelinha de ferro, a mandioca ferventada noutra, o feijão já estava cozido desde cedo. A carne de porco era refogada numa frigideira. Só para esquentar, pois já era guardada pronta, imersa na banha.

Eu recontava, na sala, o número de pessoas que iriam ficar para o almoço. Olhava as panelas e tinha certeza de que a comida seria pouca.

Fia, me ajuda a pôr a mesa? Enquanto isso, ia até a horta, pegava um pezinho de alface, separava as folhas, e ia lavando, enquanto conversava com as mulheres que a acompanhavam.

Eu estendia a toalha sobre a mesa, dispunha os pratos brancos esmaltados, um a um, com os respectivos talheres. Na hora do almoço, ela punha o feijão numa travessa também esmaltada (algumas tinham uma estampa discreta com flor já meio desbotada), o arroz com charque na outra, as mandiocas macias numa terceira, e num prato redondo vinham as folhas de alface. A carne de porco era acomodada numa tigela de vidro de cor fumê. Às vezes, preparava uma limonada fresca, feita com limão caipira, bem vermelho, colhido na hora.

Todos se sentavam. Sem interromper a conversa, iam se servindo. Gente que trabalha no campo capricha na hora de fazer seu prato. Eu observava, enquanto a comida se multiplicava, como num milagre, ali, diante dos meus olhos. Todos ficavam saciados, nunca faltava. Também, nunca sobrava. Numa dessas vezes, minha mãe, às escondidas, acrescentou um punhado de arroz ao que ela já havia separado para ser preparado. Foi exatamente a quantia que sobrou, ao final do almoço. Para espanto da minha avó. Por que será que eu errei a quantia hoje?

Na sobremesa, todos tomavam leite no prato fundo. Leite cru, com espuma, acompanhado por banana picada em rodelas, ou por pedaços da mandioca cozida. À vezes, tinha angu de milho, docinho, para mistura. Ao gosto de cada um.

Depois cada qual seguia, cuidar da vida. Sua benção, Dinha Véia! Até mais ver, D. Ernestina! Deus te abençoe! Um abraço prá comadre! Lembrança pros demais! Casa vazia, louça lavada, apagado o tição no fogão a lenha, cozinha varrida, minha avó ia sestear no quarto ventilado, cheio de janelas abertas na parede de madeira. As panelinhas de ferro também repousavam na prateleira, bem areadas, brilhando tanto que pareciam fazer inveja ao alumínio. Ficavam ali, à espera da próxima sessão de milagres.