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sábado, 9 de novembro de 2019

Cansaço e desalento



8 de novembro de 2019, sexta feira, fim de tarde. A semana foi intensa, com atividades incessantes, e alguns momentos tensos, nos quais foi necessário que eu trabalhasse questões bem difíceis. Os dias e as noites têm sido assim há tempos. E eu tenho me queixado, cada vez mais amiúde, de cansaço. Não só eu. As queixas de cansaço espalham-se como uma patologia social contagiosa que vai atingindo uma parcela importante da população, das pessoas com quem convivo, com quem compartilho, em alguma medida, atividades, projetos, afetos, utopias. Temos nossas energias exauridas, sem encontrarmos solução, antídoto, remédio.

Byung-Chul Han já escreveu sobre a sociedade do cansaço. Jonathan Crary já discorreu sobre os efeitos perversos de uma sociedade que passa a exigir de seus cidadãos estarem despertos e ativos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Os argumentos de ambos são consistentes, fundamentados. Mas minha exaustão parece ter mananciais que vão além, a despeito de integrarem, sim, as malhas do contexto em análise pelos dois autores. Eu poderia até praticar meditação, buscar outros subterfúgios, modificar a alimentação: o esgotamento persiste intocado, e me abate.

Mesmo assim, também por razões que tantas vezes me escapam, não desisto nem arredo da labuta diária, defendendo posições, propondo projetos, compartilhando aprendizagens. Pensando e buscando praticar empatia, solidariedade, poiésis...

8 de novembro de 2019, sexta feira, fim de tarde. Eu estava prostrada sobre alguma almofada, em casa, quando passou a ser televisionada a soltura do Lula, depois de quase 600 dias de prisão. Havia expectativa em relação a esse momento. Entre a multidão, ele falava com desenvoltura, energia. Agradeceu a um número enorme de pessoas. Desculpou-se com aqueles cujos nomes, inevitavelmente, teria esquecido. E prosseguiu em seu discurso de improviso, entre alegrias, aplausos, abraços e uma constelação de câmeras fazendo o registro. Com humor mas de modo assertivo, sem perder poder de ataque, posicionou-se em relação a tudo quanto que ele foi e que está sendo submetido, mas, sobretudo, ao que a população brasileira está sendo submetida.

Enquanto assistia à transmissão, outra sequência era repassada na memória: a sessão interminável, na Câmara dos Deputados, para a votação aprovando a abertura do processo de impeachment, pelo Senado, da então presidenta Dilma Rousseff. Um evento de que me evergonho, sem cura, sem lenitivos. Naquele dia, 17 de abril de 2016, eu vi a face mais obscura, amedrontadora da classe política brasileira. Naquele dia, eu vi a face da maioria dos representantes da população brasileira que, mais tarde eu seria obrigada a admitir, de fato representavam, e ainda representam, os anseios e o projeto social de boa parte das gentes nascidas neste país, marcadamente injusto, discricionário, autoritário.

Naquele dia, em abril de 2016, eu entristeci de uma dor que ainda não saiu de mim. A sessão ocorrida no Senado, no dia 31 de agosto de 2016 já não impactou tanto: estava tudo acertado, os resultados haviam sido negociados por antecedência. Não havia o que doer a mais: eu já me encontrava sob a égide da dor.

Desde então, a cada passo, o desmonte de um projeto político social imaginado, depois comprovado como viável, se não plenamente, ao menos em muitas frentes, foi sendo desmontado a passos largos. Nenhum motivo de alegria. Nenhuma brisa para refrescar os dias. Chuvas cada vez mais escassas para dar tom verde à paisagem.

Ontem, 8 de novembro de 2019, sexta feira, fim de tarde, isso tudo reascendeu em minha memória mais funda e mais afetiva. Eu entendi que minha exaustão decorre, sim, do excesso de trabalho, das tensões, das demandas que invadem a vida 24 horas por dia, 7 dias na semana, sem pausa. Byung-Chul Han e Jonathan Crary acertam em suas argumentações. Mas há outra fonte na qual esse cansaço se torna quase incurável. Essa fonte está no desalento, na falta de esperança. E ontem eu lembrei de um tempo quando eu tive esperança. Mais que isso, um tempo quando, com alegria, eu pude celebrar com quantas pessoas pequenas conquistas sociais, no âmbito dos projetos educativos, da arte, da cultura, dentre quantos outros.

Então eu chorei. Chorei muito. Depois dormi profundamente. E consegui sonhar. Um sonho breve, que logo se dissipou para a vida desperta. Mas sonhei.





sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Ciência e política: entreveros nem sempre recomendáveis...


Vez por outra, cada vez mais amiúde, sou provocada a retomar este tema, considerando, sobretudo, episódios lastimáveis em que o conhecimento científico se suja com a voracidade pelo poder experimentada por arrivistas políticos.

Volto, portanto, ao pequeno, mas nem por isso menos importante, livro escrito por Max Weber, intitulado Ciência e política: duas vocações. Nele, Weber argumenta em favor da manutenção de uma fronteira clara entre a produção de conhecimento e a atuação política. Ou seja: cientistas e professores não deveriam engajar-se em projetos políticos, defender bandeiras, fazendo, para isso, uso de seu lugar à frente de seus estudantes ou das ferramentas desenvolvidas no exercício de construção de saberes. O seu conhecimento deveria ser disponibilizado para que os grupos sociais pudessem, a partir dele, de modo esclarecido, fazer suas escolhas, atuar politicamente.

Está na base dessa orientação o princípio da isenção do conhecimento, a necessidade de distanciamento para que seja possível a construção autocrítica da interpretação do mundo. O que não é possível ao político, este defensor ardente de determinados pontos de vista, em detrimento dos demais.

Dito de outro modo, ao cientista caberia o papel social de ver e interpretar o que vê, produzindo conhecimento, tanto no âmbito das ciências da natureza quanto das sociais. Ao político, sim, caberia o papel de agir, tendo como referência o conhecimento produzido pelo cientista. Entre conhecer e agir, portanto, haveria um hiato a ser respeitado por um e pelo outro.

Este posicionamento funda-se nos princípios da objetividade e da neutralidade da ciência, condição que, desde há muito, reconhecemos impossível. Nada que se produza, pense, formule, está isento dos pontos de vista de seus autores. Ou seja: o pensamento científico, ao lado de todos os demais saberes e fazeres, estão encharcados das crenças do cientista, de suas inserções nas malhas sociais e culturais de pertencimento, de suas visões de mundo, ainda que não confessadas. Assim, a questão da ciência engajada tem sido tema de discussão desde há algum tempo, e se debate ainda entre dissenções as mais variadas.

Uma das estratégias mais prudentes talvez seja, novamente, apontada pelo próprio Weber, ainda no pequeno livro Ciência e política: duas vocações, quando sugere ser necessário, ao cientista e professor, o auto-esclarecimento a respeito de suas escolhas de cunho epistemológico nos processos de produzir ciência e ensiná-la. Em outras palavras, o exercício contínuo da autocrítica. A parceria incorruptível com a dúvida, em termos flusserianos.

No entanto, é preciso notar que há trânsitos em várias direções nessa via entre ciência e política, entre pensamento e ação. Se, de um lado, tem-se problematizado a natureza de uma ciência engajada, ou seja, da produção de conhecimento que abraça causas, de outro lado há que se observar e discutir os projetos políticos que buscam, nas instituições voltadas à produção de conhecimento, a chancela de suas bandeiras, a legitimação de seus discursos. Quantas vezes, com finalidades escusas, não declaradas, ou dissimuladas.

Evidentemente, parcerias entre a ciência e os projetos políticos sociais são desejáveis, apontando caminhos de superação de dificuldades, de resolução de problemas que afligem as populações. Contudo, a palavra-chave é parceria. Nela, as relações devem ser equalizadas de modo paritário, mantida a independência de uma em relação à outra. Dito assim, pode parecer de simples resolução. Mas, na verdade, é aí que começam as dificuldades. O intento de sua viabilização, sua verificação nas vias práticas, nos campos de negociação, nos agenciamentos quotidianos é que revelam os enormes desafios implícitos nessas relações.

O maior deles está na subjugação da ciência aos interesses políticos de segmentos específicos dos detentores do poder, bem como aos interesses econômicos. A produção de conhecimento e os sistemas de educação postos a serviço do mercado e das estruturas de poder é uma condição que deve ser rechaçada por educadores e pesquisadores com o mínimo de idoneidade no exercício de seus ofícios. 

Reconheço: a busca pelo rigor ético, pela idoneidade no exercício do ofício de professora e pesquisadora também é uma posição de engajamento. E, igualmente, não constitui uma escolha fácil. Supõe, muitas vezes, desafiar instâncias de onde se ouvem cantos de sereia com irresistível poder de sedução. Afinal, as vaidades instigam os egos. O chamado à visibilidade salta à frente. O desejo de reconhecimento pelas diversas comunidades de pertencimento impõe-se. Em nome dessas motivações, se produzem, rapidamente, discursos auto-justificatórios que mesclam questões sociais, defesa do bem-estar público, com ideias de progresso, desenvolvimento, etc.

Por isso mesmo, volto sempre a Weber e a Flusser, e aos princípios do auto-esclarecimento e da dúvida. Volto a eles, mesmo sem tomar ao pé da letra suas recomendações quanto à objetividade mais radical na produção de conhecimento. No entanto, assumo como um dos fundamentos no exercício do meu ofício, a necessidade de observar, com cautelosa distância, os projetos políticos, os debates partidários, as estratégias do poder e do mercado, em relação ao mundo da ciência. Cada vez mais.

Sobretudo quando observo um trânsito nem sempre auto-esclarecido, nem sempre submetido à dúvida, de pesquisadores de universidades públicas entre seus campos de atuação acadêmica e cargos políticos nos poderes executivo ou legislativo.

Sobretudo, em tempos quando os noticiários nacionais das redes abertas de televisão, em horário nobre, anunciam que um representante de um partido político, integrante do primeiro escalão de uma equipe de governo polêmico e contraditório, tem a chancela da academia para assumir um cargo na suprema corte do Poder Judiciário (cargo que exercerá, provavelmente, pelas próximas duas décadas, ou mais), porquanto tenha obtido o título máximo de doutor...




terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Para que serve uma tese de doutorado?


Nos últimos anos, marcadamente desde o início dos anos 2000, mais precisamente a partir de 2002, aumentou em razão geométrica o número de doutores no Brasil. A política de expansão das universidades públicas e dos programas de pós-graduação possibilitou que um grande número de jovens, antes excluídos tanto do ensino superior e, sobretudo, dos cursos de pós-graduação, pudessem sonhar e realizar seus projetos de alcançarem os títulos de mestres e doutores.

Por sua vez, o Sistema Nacional de Pós-Graduação também passou por mudanças profundas, no sentido de desenvolver programas e plataformas cada vez mais complexas de controle e avaliação.

Nos bancos de teses e dissertações, multiplicam-se trabalhos aprovados em bancas e disponibilizados ao público, como parte da prestação de contas que se deva à sociedade: socializar o conhecimento produzido.

De tudo quanto seja produzido em nome das exigências de produtividade, ao fim e ao cabo, muito pouco é lido: artigos, capítulos de livros, teses, dissertações... Mas estas últimas, as teses e dissertações, não só são lidas como examinadas por bancas idôneas, que verificam a consistência do conhecimento produzido, que solicitam revisões antes da aprovação. Supõe-se que uma tese, quando aprovada, traga resultados legitimados, comprovados, de pesquisas desenvolvidas de acordo com os diferentes protocolos das diferentes áreas de conhecimento.

É claro: há sempre falhas no processo. Eventualmente, algum membro de banca não chegou a examinar o material com o devido cuidado. Muitas vezes fez uma leitura aligeirada, tendo decidido, previamente, aprovar o candidato a doutor. Noutras, prevalecem na avaliação questões de vaidade, mais que epistemológicas ou conceituais. Na academia, a fogueira das vaidades arde sem cessar...

O que dizer quando um doutorando, depois de ter defendido uma posição, em sua tese, obtendo aprovação em sua argumentação, em sua atividade pública assume posição antagônica à defendida? Quando a ação contraria o preceito, na atuação da mesma pessoa em questão?

Nesses casos, cabe a pergunta: para que serve uma tese de doutorado? Tão somente para alçar o candidato ao título? Eu, que recorrentemente me debruço sobre teses e dissertações de quantos candidatos, lendo com o respeito que cada um deles merece, mas também com o rigor que a produção de conhecimento requer, sinto-me desnorteada diante dessa questão.

Está posto: o Ministro da Justiça defendeu um ponto de vista em sua tese de doutorado. A banca o aprovou. O título de doutor legitima suas ações: é um conhecedor do assunto. Mas suas ações são conduzidas na contramão do que defendeu. Sobretudo quando o ponto da pauta é seu interesse próprio: tornar-se ministro no STF.

E eu aqui, me perguntando: para que serve uma tese de doutorado?


Tese: Jurisdição constitucional e tribunais constitucionais - garantia suprema da Constituição
Autor: Dr. Alexandre de Moraes 

Defendida em 2000, no Programa de Pós-Graduação em Direito - USP
Orientador: Dr. Dalmo de Abreu Dallari 






sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Estado Paralelo


Paralelo é um adjetivo ao qual podem ser atribuídas, dentre outras, duas acepções. Na primeira, refere-se a duas linhas coplanares, ou seja, fazem parte de um mesmo plano, que não se cruzam, nunca. Encontram-se apenas num ponto imaginário, localizado no infinito. Na segunda acepção, refere-se àquilo que opera, milita, funciona, trabalha colateralmente a outra atividade ou instituição de mesma natureza.

Para começar alguma reflexão sobre a noção de Estado Paralelo, é necessário notar que este está associado ao mesmo tempo que se contrapõe ao Estado de Direito, cujas funções são mais facilmente reconhecíveis, ao menos do ponto de vista discursivo: assegurar paz social, segurança e desenvolvimento aos cidadãos, habitantes que ocupam um território determinado. Não é por acaso que as variáveis saúde, educação e segurança são convocadas a participar dos comícios e planos de gestão de todos os políticos sedentos de alguma credibilidade e, principalmente, votos, não importando o que entendam por isso, ou o que pretendam fazer com isso. 

Defendemos o Estado de Direito, é nele que depositamos nossas esperanças, é para ele que empenhamos partes significativas de nossos salários e ganhos diversos, na forma de impostos e outros tributos, como condição de financiamento das políticas públicas que façam jus às suas palavras de ordem.

Quando um cidadão vai até às urnas, e nelas deposita seu voto, supõe-se que o faça dentro dos princípios do Estado de Direito.

O Estado Paralelo se estabelece no mesmo plano/território que o Estado de Direito. Ali, institui-se e opera de maneira colateral, tomando para si atribuições negligenciadas pelo Estado de Direito. Ou seja, a ausência ou a omissão do Estado de Direito abre lacunas que são, rapidamente ocupadas por instituições organizadas à margem da legalidade, com capacidade para constituir-se Estado dada a abrangência e complexidade de sua inserção social, bem como as territorialidades que demarcam suas ações.

Em um nível mais complexo de sua consolidação, que se sucede aos momentos iniciais de sua instalação institucional e territorial, começa a estabelecer laços cada vez mais estreitos (e promíscuos) com os poderes oficiais do Estado de Direito. Assim, o Estado Paralelo encontra-se cada vez mais imbrincado nele, até com ele confundir-se. Assim, ele passa a jogar com os próprios ritos e legislações vigentes no sentido de ter asseguradas suas ações que, embora ilegítimas à luz dos princípios do Estado de Direito, mostram-se invulneráveis aos processos jurídicos e condenatórios. Apoiam-se em princípios de uma pretendida legalidade...

A essas alturas, o Estado de Direito ganha feições de uma raiz carcomida por dentro, ou um ovo cuja gema tenha sido sugada. Apresenta-se casca sem conteúdo, ou com conteúdo precário, prestes a se partir. Contudo, é bom lembrar: a falência e quebra total do Estado de Direito não interessa ao Estado Paralelo, pois este precisa da máscara daquele, com a qual pode travestir seus projetos, dissimular suas redes, justificar suas ações, confundir os cidadãos que ainda creem na democracia. Assim, votam-se em candidatos que, embora falem de educação, saúde e segurança, atendem a interesses outros evocados pelo Estado Paralelo. Prisões de segurança máxima são transformadas em verdadeiros fortes de onde se planejam e administram redes nacionais e internacionais de crimes de toda sorte. Fações criminosas diversificam as atividades comerciais, para otimizar os lucros. Moradores de favelas não se negam a pagar taxas aos donos dos morros para garantir sua integridade, sempre por um fio. 

Cidadãos esgarçados entre os dois Estados, dissimulados num só...






sábado, 18 de junho de 2016

De censuras e outros medos


Corria o ano de 1987. Já se vão quase 30 anos. Eu estava montando o espetáculo Estórias da Carochinha, que resultou do ajuntado de exercícios cênicos de estudantes adolescentes, matriculados na escola de ensino médio da rede pública, onde eu trabalhava. O texto, divertido e debochado, misturava personagens das histórias infantis clássicas, modificava-lhes as identidades, atualizava os diálogos e discussões. O Lobo era gay, a Rapunzel era interpretada por uma travesti, o gênio da lâmpada era uma menina chamada Eugênia que estava em greve por melhores salários, a lâmpada era uma chaleira, a Cinderela e a Branca de Neve foram transformadas em personagens masculinos, e havia uma noiva que procurava, durante todo o espetáculo, o noivo desaparecido, até que, ao final, decidia se livrar do vestido branco e cair na festa.

No elenco, quase 20 adolescentes entusiasmados que vinham, de ônibus, desde a periferia da capital federal até o Plano Piloto, para atuar no palco do Teatro Garagem.

Na antevéspera da estreia, fizemos a apresentação para os censores. Sim, em 1987, ainda estava em vigência a estrutura de censura, e qualquer espetáculo não podia estrear sem ter a apresentação prévia para receber a autorização documental assinada pelos censores.

Nosso espetáculo recebeu a autorização com um pequeno corte. Proibia a fala da Fada Madrinha, no breve diálogo com o Cinderelo, quando reclamavam da carestia de tudo e atribuíam a responsabilidade ao governo e sua incompetência. Fomos censurados. (Talvez eu devesse inserir esse fato no meu currículum vitae...). Mesmo com a proibição, assumimos correr o risco, e mantivemos a fala. Éramos adolescentes, afinal.

A temporada de duas semanas foi um sucesso. Voltamos a apresentar o espetáculo em outros espaços.

Para amanhecer hoje, sonhei que meu livro, Brevidades, não tinha sido impresso em razão de um poema que fazia referência à revolução e a mentiras. No sonho, reagi indignada, denunciando a volta da censura política, e do sistema de repressão covarde e amedrontador.

Ao acordar, pensei que as gerações com 30 anos ou menos não têm a menor ideia do que seja isso. Tenho receios...





segunda-feira, 18 de abril de 2016

Um espetáculo sombrio


Domingo, 17 de março de 2016, não será esquecido. Não por mim.

Nesse dia, a espetacularização foi a grande estratégia de dominação e desestabilização da instituição do Estado. Funcionou. A programação televisiva do domingo à tarde trocou as tolices dos quadros de entretenimento pela funesta ópera encenada pelo parlamento, endereçada às famílias brasileiras, instaladas em seus lares. Teria trocado, mesmo, ou a ópera seria resultado da pedagogia infalível dos incontáveis domingos e seus quadros de entretenimento?

A sessão dominical extraordinária não deixou dúvidas: previa a população brasileira à frente dos aparelhos televisivos, acompanhando voto a voto, a performance dos deputados eleitos pelo voto popular. Estes, por sua vez, ensaiaram scripts cuidadosamente montados, nos quais evocavam, em sua maioria, membros da própria família, a figura de Deus, sua comunidade, a cidade, o país, a humanidade. Buscavam estabelecer empatia com as famílias que acompanhavam a ópera, numa rasa percepção sincrética da comoção que atravessava a atmosfera. Outros foram mais atrevidos, evocando, inclusive, os protagonistas mais perversos da ditadura militar. (Resistirei bravamente à tentação de fazer referência aos crimes cometidos ao uso da língua mãe...)

Talvez essa tenha sido a única oportunidade propiciada pelo Congresso Nacional de ver a sua face à luz, inteira. Apenas duas ausências. Estas não fizeram falta, sem repercussões significativas para as feições macabras, sombrias do parlamento.

Não faltou quem, generosa e esperançosamente, bradasse que o Congresso não representa a população brasileira. Em termos estatísticos, de fato, as proporções são díspares: a representação de mulheres, negros, índios, jovens, entre outros segmentos, é mínima, quando não inexistente. Enquanto que a representação de homens, brancos, empresários é majoritária.

No entanto, essa representação majoritária corresponde ao pensamento predominante entre os eleitores (incluídos aí todos os segmentos não representados no parlamento...). Para construir alguma interpretação possível, recorro à segunda das sete leis herméticas, a Lei da Correspondência: "Aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo." Hermes Trismegisto tinha em mente as relações entre o macrocosmo e o microcosmo, ao formular essa lei. Entendo que ela possa ajudar a compreender as relações nas várias instâncias, incluindo as das relações sociais e políticas, traduzidas, em cascata, desde as instituições macro e os grandes coletivos, aos grupos mais singulares representados pelos núcleos familiares, por exemplo. Se assim, é possível pensar que, sim, o parlamento que ontem mostrou sua face mais assustadora corresponde, em alguma medida, à face invisível da população que o elegeu.

Há questões que não se podem deixar de consider nessa correspondência. Dos mais de quinhentos deputados que compõem a Câmara, são raros os que não estão respondendo a processos na justiça, em diferentes instâncias, pelos mais variados tipos de crime (talvez essa também seja uma categoria a ser agregada às outras majoritárias: homens, brancos, empresários, respondendo a processos na justiça...). Desse mesmo corpo parlamentar, apenas pouco mais de 30 foram eleitos pelos chamados votos próprios. Ou seja, foram eleitos por votos nominalmente endereçados a eles. Os demais foram arrastados pelos votos proporcionais em suas coligações. Assim, muitos candidatos eleitos obtiveram menos votos que outros muito mais votados, mas vinculados a coligações que não conseguiram alcançar a chamada média proporcional. Essa regra gera distorções, sim.

Mas não quero me iludir, justificando a face feia do congresso a partir dessa regra, e isentando a população de ter eleito candidatos tão afeitos à corrupção e ao cinismo. Os parlamentares eleitos pelo voto próprio não têm perfil muito distinto dos demais. Esses, que funcionam como puxadores dos outros eleitos pela proporcionalidade, estabelecem, com aqueles, relações de afinidade. Tiririca é um exemplo inequívoco. Ao fim e ao cabo, montam um mosaico mais ou menos coeso e coerente de uma cena da qual eu não gostaria de tomar parte, como cidadã e eleitora que sou.

Cidadã. Mulher. Eleitora. Fracassada. O sentimento de fracasso de que sou tomada se refere ao papel social por mim assumido, como educadora. Empurra-me a indagar sobre os caminhos que tenho escolhido, fundados em propostas que defendem o esclarecimento, o exercício da autocrítica, a pergunta, a ética da alteridade, a disposição ao diálogo... Em que medida eu de fato tenho contribuído na formação cidadã nessa direção? Contra que forças esse projeto deve empreender seus embates? O que eu tenho deixado de ver, e por isso tenho falido nesse propósito? (Eu, e os quantos que, como eu, defendam esses mesmos princípios...)

O espetáculo de ontem, promovido pelo Congresso Nacional, cumpriu também uma função pedagógica de grande impacto. O monstro mostrou sua face, eu a vi. Ela me causou horror e náusea. Eu aprendi. Não a esquecerei.





sábado, 15 de agosto de 2015

Queimem a bruxa na fogueira!


Nem faz tanto tempo assim. Na Idade Média, período ao qual os "iluminados" dos séculos XX e XXI chamam, também, de Idade das Trevas, um dos eventos recorrentemente lembrados como exemplo da ignorância imperante à época é a caça às bruxas. A bem da verdade, embora se atribua à Idade Média, a caça às bruxas aconteceu na Europa do início do período moderno, do final do século XIV ao começo do século XVIII. Destaca-se o fato de que a Suíça tenha sido o país europeu que mais promoveu execuções (muito pouco se fala disso...), e Friburgo foi terceira cidade europeia no ranking de execuções. Foi também uma das primeiras cidades a instituir os processos por bruxaria sem a assistência de inquisidores religiosos.

Era preciso haver uma confissão, para que uma bruxa fosse condenada. Mas não era muito difícil fazer uma mulher confessar práticas de bruxaria. Bastava quebrar-lhe as pernas, arrancar-lhe as unhas, afogá-la. O suplício da tortura era tão insuportável, que a fogueira comparecia como uma possibilidade de libertação do inferno. (Sem dúvidas, foi uma escola inestimável aos centros de tortura física existentes ainda hoje).

Não raro, as narrativas a esse respeito reportam a ignorância vigente e a manipulação da igreja, resultando, entre tantos fatos, em cruéis atos punitivos de cunho religioso. Mulheres que desenvolvessem quaisquer práticas consideradas estranhas, diferenciadas, podiam ser apontadas como bruxas. Acusadas, muitas eram levadas à fogueira, pois a morte pelo fogo seria a única forma de depurar e salvar o espírito corrompido pelo corpo.

Estima-se ter havido entre 40 mil e 100 mil execuções em quatro séculos, na Europa. Provavelmente, mais de meia centena de milhares de mulheres foram queimadas vivas em fogueiras públicas, por se atreverem a desenvolver práticas desaprovadas pelos homens santos da igreja, pelos senhores do poder. Uma história inequívoca e trágica de discriminação e exercício do poder masculino no jugo das mulheres.

Mas há de se notar: essa história não acabou...

Mudam os séculos, mudam os modos de organização social, mudam os homens santos (que são sempre homens...), mudam as igrejas, mudam os sacerdotes e os senhores do poder (que são sempre homens...). Mudam as fogueiras e as práticas de bruxaria... Mas não mudam as relações de poder.

No Brasil, o machismo ganha feições variadas, muitas vezes dissimulado, mas também configurando assustadores dados estatísticos na forma em violência explícita, de ordem física ou moral. 

Neste momento, uma bruxa está sendo levada à fogueira. Para legitimar o ato, os santos (?!!) sacerdotes convocam o clamor popular. Pergunto: que crimes cometeu a bruxa? Vamos lá, deixemos a razão conduzir nossa reflexão. Ela não terá cometido mais crimes, nem piores, do que os cometidos pelos homens que a precederam, ou pelos que a sucederão. (Sim, ela será sucedida por homens: eles decidiram que se acabou a brincadeira...). O crime maior dessa bruxa em julgamento sumário foi, sendo mulher, atrever-se a querer jogar o jogo dos homens, com os homens. Bruxa!

Não vai aqui nenhuma defesa de todos os encaminhamentos equivocados, de todas as besteiras e desfaçatezes que ela tenha cometido à frente do cargo maior do Poder Executivo da República do Brasil. No entanto, não dá para disfarçar o fato de que o julgamento e a sentença para a primeira mulher presidente no país são muito mais impiedosos do que seria para um homem no mesmo posto e situação. Mais que isso: o julgamento e sentença são presididos pela Santa Inquisição Masculina, à qual a maior parte da população se submete, emocionalmente conduzida. O chamado "coro popular" é formado por vozes de homens que defendem seus lugares de mando e vozes de mulheres submissas, embora se creiam senhoras de seus destinos.

Que a Presidente da República seja chamada à razão, sim! Que cada segmento da sociedade brasileira assuma sua parcela de responsabilidade no tocante ao momento crítico pelo qual passamos neste momento, sim! Que assumamos, cada brasileiro, a responsabilidade pela nossa omissão, pelo nosso quinhão (por menor que seja) de participação na mentalidade corrupta que grassa, sim!

Definitivamente, eu não sairei às ruas neste 16 de agosto de 2015, nem no dia 20, nem atenderei qualquer outro chamamento para conduzir a bruxa à fogueira! Não tomo parte de qualquer prática persecutória, discriminatória. Não me coloco no lugar de nenhum juiz do tribunal da Inquisição. De meu gesto não resultará nenhuma bruxa na fogueira.









segunda-feira, 9 de março de 2015

Alinhavos de pensamento sobre conjuntura política, dia internacional da mulher, e outras contingências...


Na sociedade brasileira, marcadamente machista, a cada 12 segundos uma mulher é vítima de violência! Para piorar o quadro, os dados estatísticos vão sendo naturalizados, perdendo gradativamente a capacidade de chocar ou causar indignação.

O machismo, que abriga dados tão impressionantes, consolida-se desde a socialização primária, propiciada às crianças, no ambiente doméstico. No seio da família, meninas e meninos recebem diferentes atribuições, tipos de cobranças, punições, desenvolvendo-se em função de diferentes expectativas.

Isto pode ser traduzido em termos corriqueiros, em aspectos simples do quotidiano. Quantas traquinagens dos meninos são relevadas, enquanto não se admitem as mesmas traquinagens quando levadas a cabo pelas meninas? Advertências e punições para traquinagens de mesma natureza variam de acordo com seus autores, sejam meninas ou meninos. E isto pode ser constatado mesmo entre famílias consideradas esclarecidas, com boa formação cultural e altos níveis de escolarização. Nestes casos, essas diferenças passam a ser dissimuladas em justificativas mais sofisticadas, apoiadas em discursos pseudointelectualizados e politizados.

Aquilo que pode ser observado como traço marcante nos ambientes familiares pode também ser projetado, preservadas as relações de proporcionalidade e complexidade, aos contextos institucionais, do mercado de trabalho, e das instalações políticas.

Por esta via, chego ao episódio ocorrido no dia 8 de março de 2015, em relação à vaia-panelaço em resposta ao pronunciamento, em rede nacional, da presidente brasileira.  Não parece termos saído, ainda, do seio familiar, onde meninos são autorizados a cometer traquinagens (até espera-se deles que as cometam), enquanto meninas são tratadas com mais rigor quando o façam.

Não consigo observar os discursos inflamados, os dedos em riste acusatórios, a fogueira já pronta para ser acesa, endereçada à presidente brasileira (escolho adotar a escrita presidente), sem constatar o alto teor machista, até misógino, que os contextualiza. O mesmo cenário, liderado por um homem, teria tratamento diferenciado, sem dúvidas.

Faço a ressalva: estas considerações não têm a intenção de minimizar responsabilidades, de desviar o foco do quadro grave de corrupção que afeta todos os recantos da estrutura política brasileira, nos âmbitos legislativo, executivo e judiciário, à esquerda, à direita e no cento. Alio-me à população preocupada com os desdobramentos deste momento, apreensiva quanto às nuvens escuras que se assomam em torno. Contudo, não posso deixar de ter em conta que, em meio a este temporal, as mãos de ferro recaem com peso extra sobre a liderança que responde pelo poder executivo, sobretudo, pelo fato de ser uma mulher.

Essa mulher não poderia ser perdoada, mesmo em relação aos pecados que porventura não tenha cometido, pelo mero fato de ser mulher, atrevida a meter-se em assuntos e traquinagens permitidas apenas a homens. No dia internacional da mulher (a letra minúscula é intencional), castigo inclemente a ela! A ela serão, reiteradamente, endereçadas formas diversas de violência, somando-se a todas as demais que compõem as estatísticas vigentes, terríveis, amedrontadoras, endereçadas às demais mulheres brasileiras. Até que os homens da família/pátria (que não é mátria, e eu queria que fosse frátria...) sintam-se vingados, e retomem o lugar seu de direito. Com a chancela masculina, e também de todas as mulheres que os pariram, os criaram e os educaram para subjugá-las...

Y así pasan los dias...






sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ciência, política, a vocação e o apagão




No início do século XX, Max Weber escreveu um pequeno e instigante livro que, em português, se chama Ciência e política: duas vocações. Na primeira parte, Ciência como vocação, o autor defende, veementemente, a necessidade de se manter o trabalho científico – do qual a docência faz parte – preservado dos arroubos do ativismo político. Na segunda parte, Política como vocação, ele ressalta a necessidade, sim, de que se façam intervenções na sociedade, no sentido de promover sua transformação, mas destaca ser esse o papel do político, e não do cientista. Dito de outra forma, ao cientista cabe a tarefa de observar, analisar, compreender, interpretar, conhecer, de modo isento, sem imiscuir-se com bandeiras, crenças, ideologias. A intervenção deve ficar ao cargo do político, e que este, preferencialmente, busque estar embasado no conhecimento produzido pelo cientista.

Weber advertia, inclusive, que a cátedra deveria ser preservada de qualquer discurso de natureza política. A cátedra é o espaço vocacionado ao conhecimento. A política deve ser exercida no palanque dos comícios, nos congressos, nas casas de negociações do poder.

Quando o texto foi escrito, o mundo já experimentara os horrores da Primeira Guerra Mundial. Já experimentara, também, o sabor amargo da constatação de que, mesmo quando à revelia do cientista, o conhecimento científico e seus produtos não podem ser mantidos isentos da política, nem do exercício do poder, seja o econômico, seja o bélico – irmãos siameses esses dois poderes, afinal. Mas não experimentara, ainda, os estertores da Segunda Guerra, o limite da bomba atômica, quando essa aprendizagem seria definitiva.

As discussões a respeito da neutralidade ou não do conhecimento científico geram debates intensos ainda hoje, século XXI adentro. Há bandeiras que defendam uma ciência confessadamente engajada. Outras discorrem sobre a impossibilidade de se produzir conhecimento neutro, apresentando argumentos fundados em experiências históricas recentes. E há os que cultivem, ainda, a crença na isenção da ciência, distanciada das disputas de poder, econômicas, das estruturas hierárquicas.

Todo conhecimento tem as marcas do seu tempo, as marcas do contexto sociocultural no qual é produzido, e está contaminado pelas posições e escolhas do cientista que o produza. Mesmo no âmbito das ciências duras, em cujos campos o objeto de conhecimento parece ter autonomia em relação ao sujeito que o investigue, mesmo ali, o conhecimento produzido (que é diferente do objeto a respeito do qual o conhecimento versa) é portador de tais marcas.

Ou seja, não há conhecimento isento. Há fendas nas fronteiras dos campos nos quais a ciência é articulada, e por essas fendas, tanto entram elementos externos, quanto o conhecimento vaza para outros campos. Contudo, mesmo reconhecendo a porosidade das fronteiras, e o entrelaçamento dos campos, é preciso exercer o esforço no sentido de preservação das especificidades de cada um. Sobretudo, não se perca de vista que o conhecimento produzido a serviço de determinados projetos de poder, ou econômicos, ou políticos, é ferramenta de opressão, dominação, é antônimo de qualquer princípio democrático.

Para avançar nesta questão, é preciso fazer a ressalva a respeito da diferença, fundante, entre política como exercício de cidadania de um lado, e política partidária de outro. Quando tomadas de posição, no âmbito científico, possam ser entendidas como posicionamentos políticos, é indispensável resguardar essa potencialidade da sanha das políticas partidárias.

Na noite de 28 de agosto de 2014, quando a SBPC/Goiás promoveu a solenidade de entrega do 1º Prêmio de Popularização da Ciência, ocorreram dois fatos que evocaram esta reflexão. Realizada em pleno período de campanha eleitoral para cargos estaduais e federais, foi aberto espaço para alguns candidatos se manifestarem, em discursos que tratavam de suas bandeiras e do lugar da ciência em seus planos de trabalho. O concurso promovido dela SBPC/Goiás, cujo mérito é indiscutível, e cujos resultados têm um teor político cidadão, ao visar a popularização da ciência, imiscuiu-se, naquele palco, com as bandeiras partidárias, conclamando eleitores a confiarem votos neste ou naquele candidato.

Curiosamente, durante o primeiro discurso político-partidário, ocorreu uma queda de energia, que atingiu apenas a ala da qual o auditório da solenidade tomava parte. Sem disponibilidade de outro espaço ao momento, e sem a possibilidade de solução do problema que ocasionara o apagão, decidiu-se continuar a solenidade às escuras, com o auxílio das luzes dos aparelhos telefônicos – os candeeiros do século XXI. Dessa forma, a cerimônia teve prosseguimento, cumprindo o protocolo plenamente: entrega dos prêmios alternada com discursos de candidatos. Tudo às escuras. Do lado de fora do auditório, a luz correspondia ao calor em intensidade. À maneira da alegoria da caverna, descrita por Platão...

Foi inevitável pensar em Agamben, quando aborda o contemporâneo:

(...) contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para perceber não as luzes, mas o escuro. (...) o contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interprelá-lo, algo que, mais do que todas as luzes, se volta diretamente e singularmente para ele. Contemporâneo é aquele que recebe em plena face o feixe de treva que provém de seu tempo.
Giorgio Agamben. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009.

Na solenidade de ontem, as sombras presidiram a associação entre ciência e política partidária. O que podemos aprender com isso?








segunda-feira, 17 de junho de 2013

depois do circo, o povo foi às ruas!

Na segunda feira, as cidades amanheceram em sua correria de sempre. Tudo parecia cumprir sua normalidade. Ao final, feito o primeiro balanço da Copa das Confederações, tudo indicava que as metas não tinham sido alcançadas em sua totalidade, no tocante à chegada de turistas, ao movimento de torcedores.

O movimento que ganhou visibilidade foi outro: milhares de pessoas foram às ruas, em várias cidades, entre capitais e outras de menor porte, em manifestações pacíficas. Os protestos contra o aumento do preço das passagens de ônibus foram fortalecidos pela insatisfação com as políticas públicas para a saúde, a educação, a segurança, num país onde se pagam as maiores taxas de impostos do planeta, e onde se gastam bilhões na construção de estádios que não significam benefícios efetivos para a população. Onde a corrupção multiplica-se em desvios do dinheiro público. Onde, aos poucos, se perde a confiança nos poderes que sustentam o Estado...

Contradições em cena, conflitos, tensões, a nação começa a sair da letargia. Reaprende a ocupar os espaços de exercício da cidadania. Move-se. Expressa-se. Reage.

Ainda é possível sonhar?