literatices... letras para nada, talvez para tudo... imagens de nada, que podem ser de tudo... matutações... penseros... rabiscações... daquilo que vejo... ou não... porque tomo assento neste tempo quando a humanidade produz vertiginosamente letras, símbolos e imagens, em busca de sentidos, quaisquer que sejam... ou não...
Mostrando postagens com marcador animais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador animais. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 28 de março de 2018
domingo, 4 de março de 2018
Exercícios de alteridade: abelhas e pessoas
Para Rutinha, meu amor
Abelhinha, o que você está fazendo aqui?
Abelhinha, sai daí! Me deixe trabalhar!
Abelhinha, abelhinha, você está arriscando sua pele... tô
avisando... tô com vontade de lhe dar uma panada...
Abelhinha! Eu vou encerrar você dentro do armário! Sai daí!
Ai, ai... ela é completamente surda!
Você voltou? Rapaz! Bichinho teimoso!
Oh, minha filha, eu tô armada! Se eu fosse você, tomava cuidado comigo! (com uma faca na mão, enquanto cortava legumes...)
Ah, então você vai sentar na panela quente? Senta! Problema seu. Eu não tenho nada com isso...
Acho que ela ouviu...
Ah, então você vai sentar na panela quente? Senta! Problema seu. Eu não tenho nada com isso...
Acho que ela ouviu...
Conversas matinais da minha irmã, nas lidas na cozinha,
enquanto umas três abelhas voejam, procurando alguma matéria prima para fazer
mel...
sábado, 7 de outubro de 2017
De pirilampos e cigarras
Não estou certa se primeiro se foram os pirilampos ou as
guaviras. O fato é que seus ciclos e presença entrelaçavam-se com as nossas
próprias vidas. Estavam ali, conosco, como tudo o mais que tomava parte daquele
pequeno mundo. Em novembro, o gosto doce das frutinhas redondas e esverdeadas
era tão certo quanto as luzinhas piscando-piscando dos pirilampos à frente da
casa, no cair da tarde.
Um dia começaram a chegar os tratores às fazendas vizinhas. Ajudariam
a ampliar a produção na lavoura. Melhorariam o pasto para o gado. Aos poucos, a
vegetação dos campos foi sendo modificada. Quando nos demos conta, já não havia
pirilampos. Tampouco guaviras. Hoje nem eu posso pisar aquele chão vermelho-tinta.
Mas essa é já outra história.
Quando vim de lá, um dos assuntos recorrentes durante a
primavera, na capital federal, eram as cigarras. Amadas por uns, odiada por
outros, compunham, obrigatoriamente, a trilha sonora dos meses de setembro,
outubro, novembro. Umas com trinados mais agudos, outras graves e compassadas. Algumas
cantavam noite adentro, outras na madrugada, e todas em pleno calor do dia.
Um dia, apareceram os pássaros pretos. Andavam rente ao
chão, à espreita, prontos para saborear cabeças de cigarras desavisadas. Começaram
a ser vistos corpos decapitados dos insetos cantantes. Os pássaros aprenderam
rapidamente a esperar que elas emergissem da terra e passaram a devorá-las
antes mesmo de deixarem suas cascas nos troncos das árvores.
Em 2017, outubro adentro, ainda não ouvi um trinado sequer de
cigarra.
Buscando informações, descobri que um número enorme de
insetos está na lista da fauna em risco de extinção: borboletas, abelhas,
grilos, gafanhotos, pirilampos... e as cigarras... Efeitos do avanço das
cidades, e da agricultura intensiva. Uma tragédia ambiental da qual não temos
ainda noção das dimensões.
E eu pergunto: quem chamará as chuvas?
sábado, 3 de junho de 2017
segunda-feira, 18 de julho de 2016
quarta-feira, 22 de junho de 2016
caças e caçadores
Mimi fica por ali, esticada ao sol, macia e atenta. Por vezes, sai à
caça, atendendo ao chamado do espírito predador. Amiúde traz uma lagartixa para
brincar até a morte do pequeno réptil. Mordisca, dá pequenos tapas, saltita em torno, até que decide devorá-la. Mas, entre as lagartixas há aquelas que não se
deixam abater facilmente. Estrategas, executam eficientes planos de sobrevivência
à impiedosa fêmea felina. Algumas lançam mão de recursos da performance. Abandonam-se, com a barriga voltada para cima, como se
mortas. À menor distração de Mimi, escapam velozmente em direção ao primeiro
vão, e dali para outras searas mais seguras. Deixam Mimi a ver navios...
terça-feira, 14 de junho de 2016
terça-feira, 12 de abril de 2016
Mimi é avó
Quando
a família mudou-se do apartamento, deixou para trás, em condição de orfandade,
a pequena Mimi. Perdida, abandonada, a gatinha andou se escondendo pelos
escuros, tentando conseguir alimento, e levando algumas surras que fizeram dela
ainda mais arisca. Suja, maltratada, o brilho do pelo foi ficando desbotado. A
mistura de sua natureza vira-lata com informações genéticas da raça siamesa
perdeu a força e a beleza.
Os
porteiros dos dois prédios contíguos, por onde ela circulava às escondidas,
começaram a deixar-lhe algum leite e ração, sem forçá-la a aproximações
indesejadas. Desconfiada, ela achegou-se, em busca do alimento. Mantendo o
jeito arredio, adotou os novos amigos. Gata de rua, mas nem tanto. Logo
emprenhou. Seus guardiões ficaram atentos à hora de ela dar cria. Mas ela se
sumiu com os filhotes. O esconderijo em cima de outro prédio demorou algum
tempo para ser revelado. Na segunda ninhada, todos já sabiam para onde ela
iria, e puderam ajudá-la de modo mais eficiente. E também decidiram castrá-la.
Seus
filhotes tiveram destinos diversos. Uns foram adotados, outros ninguém sabe, outros
se criaram ali, pelos mesmos territórios da mãe.
Castrada, o pelo da Mimi ganhou mais brilho, as cores ficaram mais vivas. O azul dos olhos parece transbordar. E ela ficou mais amigueira. Achega-se às pernas de alguns moradores, oferece a
barriga ao carinho de outros poucos... Está bem, nem tão poucos assim... Entre uma e
outra demonstração de dengos, um de seus guardiões revelou que ela já é avó.
Sim: uma filha teve a primeira ninhada debaixo de um carro antigo, estacionado em
frente ao prédio. Uma senhora, moradora do outro prédio, está dando atenções à nova
família. Os porteiros dos prédios também estão no monitoramento. Já aparecem os candidatos para adoção dos seus netos. Por baixo do tal carro, avistei o vulto da mãe recém parida, às voltas com a ninhada.
Além de pop, Mimi é,
já, uma respeitável avó felina. O porteiro apruma-se, orgulhoso, como se fora o próprio
tio avô... Ela o observa, com os olhos semicerrados, e solta um miado fino, curto. Quase um sussurro. Soa como uma declaração de amor.
sexta-feira, 17 de julho de 2015
sábado, 17 de janeiro de 2015
Bichos V - Gente (Vilém Flusser)
Bichos V
Gente
O que é que distingue o homem dos
demais animais radicalmente, tão radicalmente que merece estudos totalmente
separados da zoologia? Isto: todos os zoólogos pertencem, eles próprios, a
espécie humana. Já que o Homem é o tema mais apaixonante do homem, e já que os
zoólogos são homens, reservam ciências especiais e separadas da zoologia, para
o estudo do Homem. Por exemplo a antropologia. E aí passam a descobrir, obviamente,
que o Homem se distingue dos animais em muitos aspectos. Obviamente, porque se,
em vez de antropologia, fizessem arthropodologia, descobririam que os insetos
se distinguem dos animais em tantos aspectos, em quantos deles se distingue o
Homem.
Todas as espécies são
inteiramente distintas das demais sob certos aspectos. Não fosse assim, e não
teria sentido falar-se em espécies distintas. E todas as espécies, cada qual
por si, representa um ponto máximo na evolução da vida. Não fosse assim, e a
espécie estaria extinta. Representam, cada qual, um ponto máximo da evolução. Mas
cada qual o ponto máximo de um ramo da evolução que se dirige a metas
divergentes. Apenas neste sentido é o Homem animal mais evoluído. Todos os
animais existentes são, neste sentido, os mais evoluídos.
Será pois a nossa profunda
convicção quanto à posição especial do Homem no contexto da vida apenas
expressão do nosso chauvinismo humano? Não haverá realmente critério “objetivo”
a permitir a afirmativa que somos superiores às minhocas? Estamos realmente condenados
a dizer que “objetivamente” a minhoca nos supera por exemplo na capacidade de
regenerar partes do corpo perdidas? Possivelmente não haja. Possivelmente a
objetividade nos obriga a reconhecer que todos os animais são iguais, inclusive
o homem. Animal Farm de Orwell. Mas o que significa isto? Absolutamente nada.
A objetividade que se dane. Viva o
chauvinismo humano (o único chauvinismo que se justifica atualmente). Somos
humanos, e nada de humano nos é alheio. Cantemos o louvor do Homem, não embora
seja apenas animal igual aos outros, mas porque é apenas animal igual aos outros.
E não cantemos apenas o louvor dos ditos “grandes” homens. Isto seria fácil.
Sophocles e Mozart dispensam nossos louvores. Cantemos o louvor da gente. Isto é
o que é difícil. É difícil ver na massa uniforme, cinzenta e corriqueira dos
homens que nos cercam o fato de que cada qual desses homens é potencialmente o
nosso parceiro na luta contra o absurdo da vida e da morte animalesca. É difícil,
mas deve ser tentado. Não com, mas contra toda antropologia.
Vilém Flusser
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Sobre zoológicos de animais (inclusive humanos)...
p/ Aristein
Disponível aqui
Disponível aqui
Zoológicos são prisões.
Enjaulados estão os vencidos.
Os outros.
Os civilizados passeiam pelas vias da grande exposição.
Da Exposição Universal.
da Exposição Colonial.
Do Zoológico...
Observam suas conquistas.
Da Exposição Universal.
da Exposição Colonial.
Do Zoológico...
Observam suas conquistas.
A conquista da civilização.
Por entre as tramas das jaulas, os olhares se encontram.
Os vencidos olham seus dominadores.
Os dominadores, melhor dizendo, os civilizados sentem pelos vencidos um misto de compaixão, curiosidade, distância.
Os vencidos olham seus dominadores.
Os dominadores, melhor dizendo, os civilizados sentem pelos vencidos um misto de compaixão, curiosidade, distância.
Por trás das jaulas, não lhe oferecem perigo.
Que assim sejam mantidos.
Que assim sejam mantidos.
Em favor da preservação da civilização, e todo seu cinismo.
domingo, 26 de outubro de 2014
domingo, 19 de outubro de 2014
da série "pausas necessárias"...
... porque já se iniciou o horário de verão, e o calor passa dos 35ºC...
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
domingo, 15 de junho de 2014
Deixem as ostras em paz!
Dando seguimento às reflexões sobre as relações entre
humanos e outros animais, e ao meu pouco conforto com o que chamei de estilo cut
cut que prevalece como tendência nessas relações, trago à pauta o processo de atribuição de um sentido humano ao comportamento animal. O que quero trazer aqui, é uma situação em que um aspecto da vida animal é tomado como argumento para conselhos
de autoajuda, em livro de autoajuda, altamente lucrativo. (Os direitos dos
animais? Do que você está falando, mesmo? Ah, sim, esse é já outro assunto...)
Há algum tempo, chegou-me às mãos um livro, cujo título me
deixou inquieta. Trata-se de uma coletânea de pequenos ensaios na forma de aconselhamentos, dos quais um empresta seu título ao livro como
um todo. O título pode ser considerado forte, produzindo resultado para chamar convocar potenciais leitores à leitura. É sucesso de vendas. Anuncia, na capa, que ostra feliz não faz pérolas. Ao lê-lo, observei, ali, alguns elementos que
me soavam mal. Mas eu não consegui identificá-los prontamente. Pareceu-me,
de saída, uma apologia à infelicidade. Algo como: para fazer alguma coisa
interessante, não seja feliz, melhor, impinja-se dor, seja infeliz! Mas também me assaltava outra questão: a pérola é
interessante para quem? Para o joalheiro? Para a dondoca que usa joias com
pérolas? E para a ostra, o que lhe parece?
Vamos por partes. Primeiramente, iniciemos por uma breve recordação de nossas aulas de biologia básica,
para repetir um tema que é domínio de todos: a ostra tem um corpo mole, frágil,
e vive dentro da concha, fechada, dura, cálcio puro, que a protege. Quando algum corpo
estranho invade esse espaço interno, causando lesão ao corpo da ostra, ela produz nácar
para envolver e neutralizar esse estranho. O nácar envolvendo a causa da lesão dá forma
à pérola.
O problema é que, ao conseguir resolver o problema que ameaça
sua integridade física, a ostra gera outro problema, que provoca a sua própria
e definitiva morte, bem como a morte de muitas outras ostras que não tiveram
que produzir o nácar para dirimir a ação de qualquer invasor. Explicando melhor,
na caça às pérolas, muitos pescadores recolhem ostras, indiferenciadamente, e
as matam, abrindo a concha, para só então saber se são portadoras de pérolas ou
não... No caso de criadouros de ostras para a produção de pérolas, elas não são
mortas: são abertas para a retirada da pérola e a inserção de outro invasor,
para que a ostra, sobrevivente, produza mais pérolas para alimentar o mercado
de joias... Ou seja... para bom
entendedor, pingo é letra...
Ainda sobre a função das pérolas para a saúde das ostras, é
inevitável pensar no funcionamento do nosso próprio corpo. Por exemplo, entre
os inúmeros casos de câncer, que se multiplicam no cenário contemporâneo, há alguns
tipos de tumores que são encapsulados pelo tecido conjuntivo. Assim, esses tumores (estranhamente chamados de benignos...) não
invadem os tecidos próximos. Eles ficam ali, latentes, aprisionados. Enquistados,
podem até se expandir e exercer pressão à sua volta, mas não conseguem se disseminar pelo corpo. O tratamento
é quase sempre melhor sucedido em relação aos outros tipos de tumores não encapsulados, pois os procedimentos cirúrgicos conseguem
retirá-los em sua totalidade. Poderíamos pensar
em pérolas humanas? A que designer interessaria produzir joias com elas?
Finalmente, trazendo a questão à dimensão específica do
comportamento humano, por que haveríamos de fazer a apologia da dor, em favor
da produção de pérolas, numa metáfora tosca que coloca as pérolas no lugar de
tudo quanto seria nobre e elevado: gestos de superação, poesia, arte, beleza? Havemos
de aprender a lidar com nossas dores, sim. E com nossas frustrações e
impotências. Mas também com nossas alegrias, nosso prazer, nossa satisfação,
nossa saúde! E, de tudo isso, viver poesia, do modo como tenhamos condições,
com a matéria de que dispusermos. Com uma pitada de loucura pois, como muito
bem nos advertiu o poeta de muitos eus, Fernando Pessoa, "sem a loucura,
que é o homem mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?"
Não vou citar o autor do tal livro, especificamente, pois a expressão
“ostra feliz não faz pérolas” é recorrente entre as pessoas, e integra o
repertório daqueles que se disponham a consolar gentes entristecidas por alguma
dor intensa de que sejam acometidas. Pessoalmente, prefiro a outra pérola (com o perdão do trocadilho): "calma, não há bem que sempre dure, nem há mal que nunca acabe..."
Não deixando de ter em consideração (a mais alta delas) a boa
intenção de gestos solidários signatários de tais sentenças, ainda e assim, não posso me negar ao convite (não menos solidário): vamos lá, minha gente, deixem as ostras em
paz!
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Animais humanos...
Quando olho um gato, ou uma coruja, e eles me olham, nosso
assunto se estabelece de bicho para bicho: o bicho que eu sou e o bicho que
eles são. Acho que isso tem me deixado meio inquieta com essa onda na linha cut cut com os animaizinhos. Quaisquer animaizinhos. É quase uma histeria coletiva,
que resulta de uma ilusão de defesa dos direitos dos animais. Contudo, tanto a
defesa desses direitos quanto o comportamento cut cut com os animais deixam de levar em consideração duas coisas
fundamentais: gatos, cachorros, pássaros, patos, cobras, elefantes, minhocas
não são humanos! São gatos, cachorros, pássaros, patos, cobras, elefantes,
minhocas... têm lá suas próprias formas de se instalar e interpretar o mundo. Aliás,
formas inacessíveis para nós, e nem por isso menos complexas, menos válidas, ou menos efetivas. Nós, da espécie humana, somos tão animais quanto qualquer um deles. Por
isso mesmo não somos melhores que nenhum leão, ou bactéria. Eles não são dignos de
respeito por cultivarem alguma moral humana, ou capacidade de afeto que se
aproxime da humana. Ao contrário: sua força está em sua dimensão animal não-humana!
Por isso mesmo, não deveríamos, em nome de nos colocarmos de igual para igual,
trazê-los para o nosso habitat e
impingir-lhes o nosso modo de vida. Aliás, havemos de lembrar, também, que os
discursos recorrentes em defesa dos seus direitos fundam-se em argumentos
humanos, e não caninos, felinos, paquidérmicos... Do mesmo modo, o modo cut cut de cuidar dos animaizinhos
também os força a sair de suas próprias dinâmicas, para se submeterem ao modus vivendi cut cut dos humanos. Eles, por sua
vez, adaptam-se, para sobreviver. Submetem-se às roupas humanas, os seus
banhos, os shampoos, os odores, os alimentos, as esquizofrenias, à desrazão
humana, para assegurarem-se vivos.
Sabe-se lá como!
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
sábado, 16 de novembro de 2013
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
domingo, 6 de outubro de 2013
bichinho de estimação: batatossauro
Batatossauros são viventes doces, de cor arroxeada, facilmente plantam raízes, fáceis de conviver, gostam de brincar com nossa imaginação. São silenciosos, herbívoros, e precisam beber água.
Chego a pensar que os primeiros tenham sido criados pelos cronópios, nos contos de Cortázar...
Não é que encontrei um desses, morando na cozinha da minha mãe?
Chego a pensar que os primeiros tenham sido criados pelos cronópios, nos contos de Cortázar...
Não é que encontrei um desses, morando na cozinha da minha mãe?
Assinar:
Postagens (Atom)









