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domingo, 4 de março de 2018

Exercícios de alteridade: abelhas e pessoas


Para Rutinha, meu amor


Abelhinha, o que você está fazendo aqui?

Abelhinha, sai daí! Me deixe trabalhar!

Abelhinha, abelhinha, você está arriscando sua pele... tô avisando... tô com vontade de lhe dar uma panada...

Abelhinha! Eu vou encerrar você dentro do armário! Sai daí!

Ai, ai... ela é completamente surda!

Você voltou? Rapaz! Bichinho teimoso!

Oh, minha filha, eu tô armada! Se eu fosse você, tomava cuidado comigo! (com uma faca na mão, enquanto cortava legumes...)

Ah, então você vai sentar na panela quente? Senta! Problema seu. Eu não tenho nada com isso...

Acho que ela ouviu...



Conversas matinais da minha irmã, nas lidas na cozinha, enquanto umas três abelhas voejam, procurando alguma matéria prima para fazer mel...






sábado, 7 de outubro de 2017

De pirilampos e cigarras

  
Não estou certa se primeiro se foram os pirilampos ou as guaviras. O fato é que seus ciclos e presença entrelaçavam-se com as nossas próprias vidas. Estavam ali, conosco, como tudo o mais que tomava parte daquele pequeno mundo. Em novembro, o gosto doce das frutinhas redondas e esverdeadas era tão certo quanto as luzinhas piscando-piscando dos pirilampos à frente da casa, no cair da tarde.

Um dia começaram a chegar os tratores às fazendas vizinhas. Ajudariam a ampliar a produção na lavoura. Melhorariam o pasto para o gado. Aos poucos, a vegetação dos campos foi sendo modificada. Quando nos demos conta, já não havia pirilampos. Tampouco guaviras. Hoje nem eu posso pisar aquele chão vermelho-tinta. Mas essa é já outra história.

Quando vim de lá, um dos assuntos recorrentes durante a primavera, na capital federal, eram as cigarras. Amadas por uns, odiada por outros, compunham, obrigatoriamente, a trilha sonora dos meses de setembro, outubro, novembro. Umas com trinados mais agudos, outras graves e compassadas. Algumas cantavam noite adentro, outras na madrugada, e todas em pleno calor do dia.

Um dia, apareceram os pássaros pretos. Andavam rente ao chão, à espreita, prontos para saborear cabeças de cigarras desavisadas. Começaram a ser vistos corpos decapitados dos insetos cantantes. Os pássaros aprenderam rapidamente a esperar que elas emergissem da terra e passaram a devorá-las antes mesmo de deixarem suas cascas nos troncos das árvores.

Em 2017, outubro adentro, ainda não ouvi um trinado sequer de cigarra.

Buscando informações, descobri que um número enorme de insetos está na lista da fauna em risco de extinção: borboletas, abelhas, grilos, gafanhotos, pirilampos... e as cigarras... Efeitos do avanço das cidades, e da agricultura intensiva. Uma tragédia ambiental da qual não temos ainda noção das dimensões.

E eu pergunto: quem chamará as chuvas?





quarta-feira, 22 de junho de 2016

caças e caçadores


Mimi fica por ali, esticada ao sol, macia e atenta. Por vezes, sai à caça, atendendo ao chamado do espírito predador. Amiúde traz uma lagartixa para brincar até a morte do pequeno réptil. Mordisca, dá pequenos tapas, saltita em torno, até que decide devorá-la. Mas, entre as lagartixas há aquelas que não se deixam abater facilmente. Estrategas, executam eficientes planos de sobrevivência à impiedosa fêmea felina. Algumas lançam mão de recursos da performance. Abandonam-se, com a barriga voltada para cima, como se mortas. À menor distração de Mimi, escapam velozmente em direção ao primeiro vão, e dali para outras searas mais seguras. Deixam Mimi a ver navios...





terça-feira, 12 de abril de 2016

Mimi é avó


Quando a família mudou-se do apartamento, deixou para trás, em condição de orfandade, a pequena Mimi. Perdida, abandonada, a gatinha andou se escondendo pelos escuros, tentando conseguir alimento, e levando algumas surras que fizeram dela ainda mais arisca. Suja, maltratada, o brilho do pelo foi ficando desbotado. A mistura de sua natureza vira-lata com informações genéticas da raça siamesa perdeu a força e a beleza.

Os porteiros dos dois prédios contíguos, por onde ela circulava às escondidas, começaram a deixar-lhe algum leite e ração, sem forçá-la a aproximações indesejadas. Desconfiada, ela achegou-se, em busca do alimento. Mantendo o jeito arredio, adotou os novos amigos. Gata de rua, mas nem tanto. Logo emprenhou. Seus guardiões ficaram atentos à hora de ela dar cria. Mas ela se sumiu com os filhotes. O esconderijo em cima de outro prédio demorou algum tempo para ser revelado. Na segunda ninhada, todos já sabiam para onde ela iria, e puderam ajudá-la de modo mais eficiente. E também decidiram castrá-la.

Seus filhotes tiveram destinos diversos. Uns foram adotados, outros ninguém sabe, outros se criaram ali, pelos mesmos territórios da mãe.

Castrada, o pelo da Mimi ganhou mais brilho, as cores ficaram mais vivas. O azul dos olhos parece transbordar. E ela ficou mais amigueira. Achega-se às pernas de alguns moradores, oferece a barriga ao carinho de outros poucos... Está bem, nem tão poucos assim... Entre uma e outra demonstração de dengos, um de seus guardiões revelou que ela já é avó. Sim: uma filha teve a primeira ninhada debaixo de um carro antigo, estacionado em frente ao prédio. Uma senhora, moradora do outro prédio, está dando atenções à nova família. Os porteiros dos prédios também estão no monitoramento. Já aparecem os candidatos para adoção dos seus netos. Por baixo do tal carro, avistei o vulto da mãe recém parida, às voltas com a ninhada.

Além de pop, Mimi é, já, uma respeitável avó felina. O porteiro apruma-se, orgulhoso, como se fora o próprio tio avô... Ela o observa, com os olhos semicerrados, e solta um miado fino, curto. Quase um sussurro. Soa como uma declaração de amor.






sábado, 17 de janeiro de 2015

Bichos V - Gente (Vilém Flusser)

Bichos V
Gente
O que é que distingue o homem dos demais animais radicalmente, tão radicalmente que merece estudos totalmente separados da zoologia? Isto: todos os zoólogos pertencem, eles próprios, a espécie humana. Já que o Homem é o tema mais apaixonante do homem, e já que os zoólogos são homens, reservam ciências especiais e separadas da zoologia, para o estudo do Homem. Por exemplo a antropologia. E aí passam a descobrir, obviamente, que o Homem se distingue dos animais em muitos aspectos. Obviamente, porque se, em vez de antropologia, fizessem arthropodologia, descobririam que os insetos se distinguem dos animais em tantos aspectos, em quantos deles se distingue o Homem.
Todas as espécies são inteiramente distintas das demais sob certos aspectos. Não fosse assim, e não teria sentido falar-se em espécies distintas. E todas as espécies, cada qual por si, representa um ponto máximo na evolução da vida. Não fosse assim, e a espécie estaria extinta. Representam, cada qual, um ponto máximo da evolução. Mas cada qual o ponto máximo de um ramo da evolução que se dirige a metas divergentes. Apenas neste sentido é o Homem animal mais evoluído. Todos os animais existentes são, neste sentido, os mais evoluídos.
Será pois a nossa profunda convicção quanto à posição especial do Homem no contexto da vida apenas expressão do nosso chauvinismo humano? Não haverá realmente critério “objetivo” a permitir a afirmativa que somos superiores às minhocas? Estamos realmente condenados a dizer que “objetivamente” a minhoca nos supera por exemplo na capacidade de regenerar partes do corpo perdidas? Possivelmente não haja. Possivelmente a objetividade nos obriga a reconhecer que todos os animais são iguais, inclusive o homem. Animal Farm de Orwell. Mas o que significa isto? Absolutamente nada.
A objetividade que se dane. Viva o chauvinismo humano (o único chauvinismo que se justifica atualmente). Somos humanos, e nada de humano nos é alheio. Cantemos o louvor do Homem, não embora seja apenas animal igual aos outros, mas porque é apenas animal igual aos outros. E não cantemos apenas o louvor dos ditos “grandes” homens. Isto seria fácil. Sophocles e Mozart dispensam nossos louvores. Cantemos o louvor da gente. Isto é o que é difícil. É difícil ver na massa uniforme, cinzenta e corriqueira dos homens que nos cercam o fato de que cada qual desses homens é potencialmente o nosso parceiro na luta contra o absurdo da vida e da morte animalesca. É difícil, mas deve ser tentado. Não com, mas contra toda antropologia.

Vilém Flusser



terça-feira, 11 de novembro de 2014

Sobre zoológicos de animais (inclusive humanos)...

p/ Aristein


Disponível aqui


Disponível aqui


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Zoológicos são prisões.
 Enjaulados estão os vencidos.
 Os outros.

Os civilizados passeiam pelas vias da grande exposição.
 Da Exposição Universal.
 da Exposição Colonial.
 Do Zoológico...
Observam suas conquistas.
A conquista da civilização. 

Por entre as tramas das jaulas, os olhares se encontram.
 Os vencidos olham seus dominadores.
Os dominadores, melhor dizendo, os civilizados sentem pelos vencidos um misto de compaixão, curiosidade, distância.
Por trás das jaulas, não lhe oferecem perigo.
 Que assim sejam mantidos.
 Em favor da preservação da civilização, e todo seu cinismo.





domingo, 19 de outubro de 2014

domingo, 15 de junho de 2014

Deixem as ostras em paz!


 
Dando seguimento às reflexões sobre as relações entre humanos e outros animais, e ao meu pouco conforto com o que chamei de estilo cut cut que prevalece como tendência nessas relações, trago à pauta o processo de atribuição de um sentido humano ao comportamento animal. O que quero trazer aqui, é uma situação em que um aspecto da vida animal é tomado como argumento para conselhos de autoajuda, em livro de autoajuda, altamente lucrativo. (Os direitos dos animais? Do que você está falando, mesmo? Ah, sim, esse é já outro assunto...)



Há algum tempo, chegou-me às mãos um livro, cujo título me deixou inquieta. Trata-se de uma coletânea de pequenos ensaios na forma de aconselhamentos, dos quais um empresta seu título ao livro como um todo. O título pode ser considerado forte, produzindo resultado para chamar convocar potenciais leitores à leitura. É sucesso de vendas. Anuncia, na capa, que ostra feliz não faz pérolas. Ao lê-lo, observei, ali, alguns elementos que me soavam mal. Mas eu não consegui identificá-los prontamente. Pareceu-me, de saída, uma apologia à infelicidade. Algo como: para fazer alguma coisa interessante, não seja feliz, melhor, impinja-se dor, seja infeliz! Mas também me assaltava outra questão: a pérola é interessante para quem? Para o joalheiro? Para a dondoca que usa joias com pérolas? E para a ostra, o que lhe parece?



Vamos por partes. Primeiramente, iniciemos por uma breve recordação de nossas aulas de biologia básica, para repetir um tema que é domínio de todos: a ostra tem um corpo mole, frágil, e vive dentro da concha, fechada, dura, cálcio puro, que a protege. Quando algum corpo estranho invade esse espaço interno, causando lesão ao corpo da ostra, ela produz nácar para envolver e neutralizar esse estranho. O nácar envolvendo a causa da lesão dá forma à pérola.



O problema é que, ao conseguir resolver o problema que ameaça sua integridade física, a ostra gera outro problema, que provoca a sua própria e definitiva morte, bem como a morte de muitas outras ostras que não tiveram que produzir o nácar para dirimir a ação de qualquer invasor. Explicando melhor, na caça às pérolas, muitos pescadores recolhem ostras, indiferenciadamente, e as matam, abrindo a concha, para só então saber se são portadoras de pérolas ou não... No caso de criadouros de ostras para a produção de pérolas, elas não são mortas: são abertas para a retirada da pérola e a inserção de outro invasor, para que a ostra, sobrevivente, produza mais pérolas para alimentar o mercado de joias...  Ou seja... para bom entendedor, pingo é letra...



Ainda sobre a função das pérolas para a saúde das ostras, é inevitável pensar no funcionamento do nosso próprio corpo. Por exemplo, entre os inúmeros casos de câncer, que se multiplicam no cenário contemporâneo, há alguns tipos de tumores que são encapsulados pelo tecido conjuntivo. Assim, esses tumores (estranhamente chamados de benignos...) não invadem os tecidos próximos. Eles ficam ali, latentes, aprisionados. Enquistados, podem até se expandir e exercer pressão à sua volta, mas não conseguem se disseminar pelo corpo. O tratamento é quase sempre melhor sucedido em relação aos outros tipos de tumores não encapsulados, pois os procedimentos cirúrgicos conseguem retirá-los em sua totalidade. Poderíamos pensar em pérolas humanas? A que designer interessaria produzir joias com elas?



Finalmente, trazendo a questão à dimensão específica do comportamento humano, por que haveríamos de fazer a apologia da dor, em favor da produção de pérolas, numa metáfora tosca que coloca as pérolas no lugar de tudo quanto seria nobre e elevado: gestos de superação, poesia, arte, beleza? Havemos de aprender a lidar com nossas dores, sim. E com nossas frustrações e impotências. Mas também com nossas alegrias, nosso prazer, nossa satisfação, nossa saúde! E, de tudo isso, viver poesia, do modo como tenhamos condições, com a matéria de que dispusermos. Com uma pitada de loucura pois, como muito bem nos advertiu o poeta de muitos eus, Fernando Pessoa, "sem a loucura, que é o homem mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?"



Não vou citar o autor do tal livro, especificamente, pois a expressão “ostra feliz não faz pérolas” é recorrente entre as pessoas, e integra o repertório daqueles que se disponham a consolar gentes entristecidas por alguma dor intensa de que sejam acometidas. Pessoalmente, prefiro a outra pérola (com o perdão do trocadilho): "calma, não há bem que sempre dure, nem há mal que nunca acabe..."



Não deixando de ter em consideração (a mais alta delas) a boa intenção de gestos solidários signatários de tais sentenças, ainda e assim, não posso me negar ao convite (não menos solidário): vamos lá, minha gente, deixem as ostras em paz!













quinta-feira, 12 de junho de 2014

Animais humanos...


Quando olho um gato, ou uma coruja, e eles me olham, nosso assunto se estabelece de bicho para bicho: o bicho que eu sou e o bicho que eles são. Acho que isso tem me deixado meio inquieta com essa onda na linha cut cut com os animaizinhos. Quaisquer animaizinhos. É quase uma histeria coletiva, que resulta de uma ilusão de defesa dos direitos dos animais. Contudo, tanto a defesa desses direitos quanto o comportamento cut cut com os animais deixam de levar em consideração duas coisas fundamentais: gatos, cachorros, pássaros, patos, cobras, elefantes, minhocas não são humanos! São gatos, cachorros, pássaros, patos, cobras, elefantes, minhocas... têm lá suas próprias formas de se instalar e interpretar o mundo. Aliás, formas inacessíveis para nós, e nem por isso menos complexas, menos válidas, ou menos efetivas. Nós, da espécie humana, somos tão animais quanto qualquer um deles. Por isso mesmo não somos melhores que nenhum leão, ou bactéria. Eles não são dignos de respeito por cultivarem alguma moral humana, ou capacidade de afeto que se aproxime da humana. Ao contrário: sua força está em sua dimensão animal não-humana! Por isso mesmo, não deveríamos, em nome de nos colocarmos de igual para igual, trazê-los para o nosso habitat e impingir-lhes o nosso modo de vida. Aliás, havemos de lembrar, também, que os discursos recorrentes em defesa dos seus direitos fundam-se em argumentos humanos, e não caninos, felinos, paquidérmicos... Do mesmo modo, o modo cut cut de cuidar dos animaizinhos também os força a sair de suas próprias dinâmicas, para se submeterem ao modus vivendi cut cut dos humanos. Eles, por sua vez, adaptam-se, para sobreviver. Submetem-se às roupas humanas, os seus banhos, os shampoos, os odores, os alimentos, as esquizofrenias, à desrazão humana, para assegurarem-se vivos.

Sabe-se lá como!





terça-feira, 31 de dezembro de 2013

domingo, 6 de outubro de 2013

bichinho de estimação: batatossauro

Batatossauros são viventes doces, de cor arroxeada, facilmente plantam raízes, fáceis de conviver, gostam de brincar com nossa imaginação. São silenciosos, herbívoros, e precisam beber água.

Chego a pensar que os primeiros tenham sido criados pelos cronópios, nos contos de Cortázar...

Não é que encontrei um desses, morando na cozinha da minha mãe?