Mostrando postagens com marcador universidade pública. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador universidade pública. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de março de 2017

Praia da FAV: uma lição de alegria e diversidade

Foto: (a identificar autoria)


Para Profª Carla 

Talvez eu deva iniciar este texto num ponto mais longínquo na linha do tempo: algum sábado pela manhã, em agosto de 2004, quando eu comecei minha trajetória como professora na Faculdade de Artes Visuais da UFG, oferecendo uma disciplina de Núcleo Livre. Sim, ela foi ofertada no sábado pela manhã. Fazia parte da turma uma estudante inquieta, atenta. Não sei porque ela estava ali, pois não tinha exatamente perfil de quem encontraria motivações pessoais o bastante para cursar uma disciplina aos sábados de manhã. Mas, contrariando as expectativas, estava, era assídua, pontual, e tinha motivação o bastante.

Desde então, o vínculo que nos ligou, no decurso do tempo, configurou-se delicado e fecundo. Mantivemos parcerias em projetos de iniciação científica, de conclusão de curso de graduação. Depois ela seguiu fazer mestrado e doutorado no exterior. Já devidamente titulada, foi aprovada em concurso, ingressando agora como professora na mesma escola onde fez sua formação inicial.

Não há novidades nessa condição: vários professores no quadro docente da nossa faculdade são egressos de nossos cursos de graduação ou pós-graduação stricto sensu. Mas a Profª Carla diferencia-se por guardar, em sua atuação como professora, faíscas da estudante que foi, do sujeito aprendente que sempre será. Estas faíscas encontram reverberação nas faíscas dos e das estudantes dos cursos de graduação, nos quais agora ela atua, ensinando. Desse encontro resultam projetos intensos, percursos ricos, marcados pelo desejo de pertencimento, pela vontade de perguntar, de aprender, de construir. Sobretudo, orientados pelo princípio do respeito inegociável à diversidade, e pelo direito à alegria.

O respeito inegociável à diversidade e o direito à alegria são os dois ingredientes principais do projeto Praia da FAV que, em 2017, ganhou sua segunda edição. Em geral, a chegada dos calouros aos seus cursos de graduação é tratada com uma programação marcadamente acadêmica, muitas vezes administrativa: apresentam-se os professores, as normas do lugar, a estrutura do curso, etc. Em geral, trata-se de uma aula a mais, na qual os estudantes recém-chegados ouvem o que os professores e, eventualmente, estudantes mais antigos têm a dizer. Tratam-se de informações que, quase sempre, são esquecidas logo em seguida...

Pensando nisso, lembrando a própria experiência como estudante, a Profª Carla decidiu modificar essa relação, alterando os protagonismos. Em seu projeto, o momento de apresentação, por parte dos coordenadores de curso de graduação, é preservado, mas ocupa um espaço mais econômico, sendo seguido de um tour pelo espaço físico da faculdade, guiado por estudantes veteranos. Espera-os o filé da celebração ao novo ano letivo que se inicia: uma intensa e diversificada programação na área externa do prédio, envolvendo piquenique coletivo, piscina com baleia de plástico, caixa d’água para brincar, jogo de vôlei, escorregador de sabão, balões de água, desfile de moda, música, alegria.

Pretende-se que os estudantes mais antigos façam a recepção aos calouros, responsabilizando-se pela estrutura física e pela organização das comissões. Sob a batuta animada da mentora da subversão.

Foi assim que, no dia 17 de março de 2017, a área externa da FAV lembrava, sim, uma praia instalada em pleno Planalto Central, a 800m de altitude em relação ao nível do mar. Gente bonita, alegre, celebrando seu ingresso num curso universitário público. Gente aprendendo a celebrar na diversidade, a respeitar as alegrias de todas as formas, sem que para isso sejam necessários discursos fadados ao esquecimento.

Lamenta-se, contudo, que a presença de professores dos cursos de graduação, sobretudo nos momentos iniciais do evento, seja tão escassa. Isso diz muito dos perfis que prevalecem, ainda, nas relações entre professores e estudantes. Isso nos informa, sobretudo, que as questões políticas vão além, muito além das discussões partidárias, penetrando os encaminhamentos mais basilares relativos aos modos de operação quotidiana da vida universitária.

Que tenhamos o direito e o fôlego necessários para viver e realizar muitas mais festas como essa. Por uma universidade menos careta! Vida longa aos projetos da Profª Carla. É um privilégio ter a sua parceria!


Vida longa à liga VVTT!!!! 


Foto: (a identificar autoria)


Foto: (a identificar autoria)


Foto: (a identificar autoria)


Foto: Renato Cirino



As fotos desta postagem foram compartilhadas,
 em rede social, pelos participantes do evento.
 Aos que identificarem autoria, agradeceria a informação,
 para acrescentar os créditos. 





quarta-feira, 1 de março de 2017

Entre o 5º DÓ e o produtivismo nas universidades


Corriam os primeiros anos da década de 1990, quando eu comecei a fazer aulas de canto com o Prof. Luiz. Ele fora professor na Universidade de Brasília. Mas, por incompatibilidade com uma série de elementos da cultura universitária, exonerou-se e montou sua própria escola, numa pequena e aconchegante sala instalada num centro comercial. Ali, recebia seus alunos, muitos dos quais também alunos de música na UnB.

Já não me recordo como eu cheguei até ele. Eu já fizera aulas de canto em outros lugares. O encontro com ele foi particularmente feliz, e me propiciou aprendizagens que vão muito além do domínio vocal para o canto, coisa que aliás ando precisando voltar a praticar.

No meu primeiro dia de aula, ele me perguntou, com a simplicidade que lhe era peculiar: por que você quer cantar? Eu lhe expliquei, prontamente, que fazia teatro, e muitas vezes cantava em cena, além disso, eu cantava no Coro Sinfônico Comunitário da UnB, com mais outras 200 ou 300 vozes, e falei de afinidades e gostos, etc. Percebi que ele não perguntara questões funcionais ou práticas; notei que minha resposta resvalava para longe daquilo que ele queria saber. Entendi que eu mesma não tinha a resposta. Fiz de conta que estava satisfeita com o que lhe falara, mesmo sem estar. Ele também prosseguiu com a aula. Mas a pergunta se colou à minha pele, e nunca mais despregou. Por que eu queria cantar?

Algum tempo depois, no intervalo entre a minha aula e a próxima, uma moça contava, animada, que no dia anterior, fazendo exercício de vocalize, na universidade, alcançara o 5º DÓ. Esse é o DÓ mais agudo no teclado do piano, e encontra-se na 5º oitava desde o primeiro DÓ mais grave. Alcançar tal nota com a voz exige rigor no treinamento, domínio técnico, e extensão vocal.

Confesso, ela conseguiu seu intento de me impressionar com o feito. Mas o Luiz permaneceu sereno, ouvindo o relato da aluna. Ao final, ele perguntou Sim, você alcançou o 5º DÓ, e fez o quê com ele? A pergunta interrompeu o entusiasmo dela, e o meu estado de admiração. Como assim? Ele explicou Ora, se você alcança uma nota difícil só por alcançar, não acontece nada. Para chegar a uma nota, é preciso fazer isso com alguma finalidade expressiva. O que você fez com o 5º DÓ? A moça não fizera mais do que exercitar-se.

Ele aproveitou para prosseguir: você não precisa ter uma grande extensão vocal. Isso não necessariamente ajuda você. Mas precisa conhecer bem a extensão vocal que você tem, e saber usá-la em seus projetos. Ou seja: tem que dominar os recursos que sua voz lhe propicia, mesmo com pouca extensão vocal. Isso é mais importante do que alcançar notas muito agudas e não saber o que fazer com elas. Depois ele citou, como exemplo, a pequena extensão vocal da Nara Leão, e sua capacidade expressiva. Claro, ele não estava desqualificando qualquer domínio técnico, nem o trabalho de cantoras e cantores que tivessem grandes extensões vocais. Mas ressaltava ser necessário não confundir o domínio técnico em si com capacidade expressiva, com autoconhecimento corporal e vocal. 

Hoje, tantos anos depois, quando me deparo com professores exibindo os quantitativos de suas produções nos certames de avaliação institucional, eu me pergunto o que eles têm feito com os 5ºs DÓs que têm alcançado em exercícios de repetição. Inquieto-me da mesma forma com os outros professores que sequer se dispõem a fazer quaisquer exercícios vocais, alegando quaisquer razões para a negativa.

Afinal, tomamos, todos, parte de uma espécie de coro em concerto. Nem todas as músicas cantadas requerem o uso do 5º DÓ. Por outra, é preciso que se ouçam as vozes uns dos outros, que se busquem pontos de afinação, harmonia entre as vozes, que se ajuste o andamento. Para isso, é preciso atenção à própria voz em relação às demais. E muitas vezes poderá parecer que a nossa voz se perdeu entre todas as demais. O que é um equívoco: ela integrou-se aos acordes, faz parte deles, dá corpo a eles. Eventualmente há solistas. Algumas vozes em destaque. Mas estas não têm vida se isoladas. Estas também estão em relação ao coro e aos instrumentos. Elas devem ter isso em conta.

Enquanto uns ostentam medalhas no peito: alcançou o 5º DÓ por 10 vezes! e outros desdenham, recusando-se aos vocalizes e outros exercícios da cantata, o coro desafina, o andamento desanda, faltam vozes, falta musicalidade...

Nem só produtivismo de um lado, nem preguiça, frouxidão de outro...

Eu, que tenho uma voz classificada como mezzo soprano, já cantei como tenorina e como contralto, vozes mais graves para timbres femininos. Durante algum tempo, no Coro Sinfônico, eu mais algumas mulheres integramos o grupo dos tenores exatamente para dar suporte às vozes masculinas em regiões que, para eles, eram mais agudas. Ali, onde as vozes deles perdiam fôlego, as nossas vozes ganhavam volume. Era o trabalho coletivo, colaborativo. 

Quando eu cantava entre os tenores, não exercitava as regiões mais agudas. Mais tarde, quando voltei a cantar na faixa mais central, recuperei as notas mais agudas, mas perdi as graves. Minha extensão vocal não é lá muito grande. Jamais alcançaria o 5º DÓ. Mas aprendi que posso cantar as canções de que gosto, que se aconchegam à minha voz, com sinceridade e sentimento. Principalmente, com conhecimento dos recursos de que disponho, para operar com eles, a partir deles.

Talvez hoje eu pudesse chegar um pouco mais próximo de uma resposta satisfatória à pergunta do Prof. Luiz: canto por que essa é uma das atividades que ajudam a viver, do mesmo modo que escrever poesias, fazer fotos, cultivar flores e afetos, aprender, ensinar, reinventar o mundo a cada dia.

Não, eu não quero estar entre os que alcançam o 5º DÓ várias vezes em exercícios vocais. Nem quero estar entre os professores que apresentam maiores quantitativos de produção qualificada da instituição a que pertenço. Tampouco quero estar entre os que têm produção medíocre. Quero poder cantar, de preferência no coletivo, exercitar a autocrítica e poder produzir conhecimento compartilhado, para continuar a caminhar pela estrada, rumo às utopias que vislumbro, em horizontes sempre moventes.





sexta-feira, 24 de julho de 2015

CARTA AOS ESTUDANTES DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS



Desde maio último os funcionários das áreas técnicas e administrativa estão em greve, com as atividades paralisadas. Reivindicam questões salariais, mas também têm em pauta as condições de trabalho. Nesse período, quase ninguém percebeu os efeitos da greve por eles deflagrada, pois quase tudo continuou funcionando minimamente, quase dentro da normalidade, apesar de todos os problemas que já se apresentavam. Nesse mesmo período, em muitas universidades federais o movimento grevista foi deflagrado também pelos professores, dadas as condições absolutamente precárias do ponto de vista dos orçamentos e funcionamento em geral com que as instituições estão operando desde o início do ano. Alguns poucos meios de comunicação têm se dignado a divulgar alguns dados a respeito. Mas muito menos do que deveria ser...

A cada passo, as informações que chegam aos gestores das instituições federais de ensino superior, seus funcionários e professores, aumentam a preocupação e evidenciam a inviabilidade de manter minimamente o funcionamento regular.

Não tenhamos dúvidas, nem alimentem ilusões: a universidade que todos esperam encontrar no retorno do recesso não será a mesma que foi deixada ao final do primeiro semestre. O profundo corte orçamentário terá repercussões graves, cuja abrangência eu ainda não consigo imaginar, mas, sabemos, é muito extensa.

Na UFG, muitos funcionários terceirizados já foram demitidos. Pessoas com quem trabalho há quanto tempo, em agosto, já não estarão lá. Os serviços por eles prestados estão paralisados, ou serão paralisados em seguida. Muitas atividades desenvolvidas por professores como parte obrigatória de suas atuações no tripé docência/pesquisa/extensão estão suspensas (seriam mantidas às custas dos próprios professores?...).

Fazer de conta que nada disso esteja acontecendo é, no mínimo, tapar o sol com a peneira. Neste momento, é necessário pensar sobre o que seja o efetivo exercício de cidadania. É necessário pensarmos nosso papel social e nossas tomadas de posição em relação aos projetos de sociedade que pretendamos defender. Ressalto: defender na ação, não em discursos oportunistas, nem nos bate-bocas das redes sociais...

Este é um momento propício para a defesa da universidade, de seus projetos, das condições efetivas de formação de profissionais em nível superior e em pós-graduação, por todos os segmentos da comunidade que integram a UFG. Tomar parte nesse processo também é formação, na compreensão de uma formação mais ampla, efetivamente engajada.

Em lugar de se disseminarem lamentações e queixas sobre o que esteja, ou não, funcionando, lamúrias vitimizadas e vitimizantes, está na hora de se assumir o lugar responsável de cada um no projeto da educação pública de qualidade, e se defender a instituição onde, por excelência, ela possa ser promovida.

Por essa razão, há um indicativo de greve dos professores a ser iniciada no dia primeiro de agosto, somando-se à greve já em curso dos funcionários administrativos e técnicos. Não, não se tratam de férias prolongadas. Não, não queremos a universidade parada. Ao contrário. Será preciso que todos – professores, estudantes e funcionários das áreas técnicas e administrativas – ocupemos a universidade. Será preciso que, juntos, possamos discutir, perguntar sobre as condições necessárias para assegurarmos a universidade que queremos, a nossa universidade. Não percam de vista: os estudantes fazem parte disso. Não se omitam, neste momento!

Por fim, pergunto a vocês: A quem interessa a universidade inoperante?






sábado, 20 de abril de 2013

As corujas, símbolo de sabedoria, e a universidade



Eu tinha cinco anos, quando recebi a primeira correspondência: um postal enviado pelo Padre Wenceslau, que rezou a missa de meu batismo. Por isso eu o chamava de padrinho, e ele me chamava de afilhada. Algum tempo antes, minha mãe postara para ele uma carta que eu escrevera, não sem a preciosa ajuda dela. O postal vinha em resposta. Notícias longínquas, de algum lugar cujas feições eu não podia imaginar, para onde ele se transferira, após ter sido pároco em nossa pequena cidade durante muito tempo.

No postal ele falava de sua surpresa ao receber minha carta, e de sua alegria ao ler as palavras escritas pela minha própria mão. Na estampa, uma coruja usando o capelo, aquele chapéu usado em formaturas. A figura da corujinha era realizada com um efeito especial que dava a impressão de profundidade e movimento: duas imagens sobrepostas em filetes muito delgados, a enganar os olhos do observador. Quase um holograma. O postal, de alguma forma, foi meu primeiro diploma. E cunhou, também, embora não de modo fatalista, nem dramático, um caminho a seguir: o da formação e atuação acadêmica.

Enveredei pelas paisagens da educação, da arte, da pesquisa, da docência, dos livros, das fotografias, do cinema... Professora universitária, o campus onde atuo é habitado por uma comunidade famosa, comentada além de suas fronteiras: os macacos-prego que vivem na pequena reserva florestal, fragmento da mata atlântica a resistir bravamente ante o avanço da cidade. Os macacos invadem a vida acadêmica de estudantes, professores e quantos por ali se aventurarem. Roubam lanches e almoços, mexem nos papeis à procura de guloseimas, dependuram-se nas janelas durante conferências importantes, irreverentes que são.

Mas fui seduzida mesmo por outra comunidade, mais silenciosa, profundamente observadora, e capaz de ver aquilo que não somos capazes, sobretudo porque preparadas para ver na ausência da luz: as corujas-buraqueiras.

Tenho acompanhado algumas famílias, observando os filhotes com penugem ainda muito clara, arredios, prontos a deslizar para dentro da toca a qualquer movimento minimamente ameaçador. E os adultos, sempre por perto, observando-me a observar, emitindo alguma rezinga por vezes, quando sentem seus territórios invadidos além das fronteiras mínimas de segurança.

Na verdade, as corujas, bem como os macacos, os quero-queros, as curicacas, e outros representantes da flora e da fauna do cerrado já estavam lá quando a universidade chegou, e depois a cidade cresceu em torno, com seus restaurantes, as lojas, os alojamentos de estudantes, os bares, o movimento de carros, ônibus, os grandes eventos, os grandes estacionamentos... Por outro lado, encanto-me registrando o encontro metafórico daquela que é o símbolo da sabedoria, a coruja, com a casa destinada à formação para o conhecimento, qual seja a universidade: esta última, construída nos mesmos terrenos desde há quanto tempo habitados pela primeira! (é claro: um encontro descrito desde o ponto de vista estritamente antropocêntrico. Qual seria, então, a descrição feita pela coruja?)

Não estou certa de que a comunidade universitária esteja muito atenta a isso. Ao contrário: com frequência suas construções têm ameaçado ninhos e ninhadas, feito desmoronar tocas, produzido barulho em excesso a ponto de estressar as comunidades. Mas elas resistem, adaptam-se rapidamente, e a população se amplia. Enfrentam as máquinas, não temem os animais da espécie humana, convivem com os quero-queros, caçam insetos e animais de pequeno porte.

Integram a vida universitária, ao seu modo. Ao seu modo, testemunham a paisagem se transformar à sua volta, sem perder um detalhe, sem se perder nela. Talvez por serem sábias, por verem mais e além, por perceberem o mundo quando ainda prevalecem as sombras.




domingo, 2 de setembro de 2012

A greve dos professores e as políticas de expansão da universidade pública



O Reuni é o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, e foi instituído por Decreto em abril de 2007, durante a gestão do então Presidente Luis Inácio Lula da Silva. Das 54 universidades federais existentes à época, 53 aderiram ao Programa em duas etapas iniciais. A Universidade Federal de Goiás integrou o primeiro grupo de universidades que aderiu ao Programa, de modo que já no primeiro semestre de 2008 iniciou-se a implementação de ações, que previam a construção de prédios, a aquisição de equipamentos e laboratórios diversos, a ampliação no número de vagas para professores, entre outros. Em contrapartida, deveria ser assegurada a ampliação de vagas a serem ofertadas nos vestibulares, bem como a abertura de novas turmas e cursos, ocupando áreas e horários subutilizados nas estruturas que já estavam em funcionamento. A criação de novas universidades federais integrou o conjunto de ações previstas pelo Governo Federal.

Vale lembrar, também, que, entre os anos de 2005 e 2008, foi criado e consolidado o Sistema UAB, Universidade Aberta do Brasil, pelo MEC, para a realização de cursos em plataformas online, na modalidade a distância. O Sistema, articulado à política do Reuni, visou à expansão na oferta dos cursos de graduação, à sua interiorização, na multiplicação de polos de formação, sobretudo, em regiões sem cobertura por universidades públicas, sejam estaduais ou federais.

Nesse mesmo período, ganhou corpo a discussão sobre a reserva de cotas na oferta de vagas, nos exames de vestibular, nas universidades públicas. Inicialmente visando assegurar vagas a serem pleiteadas por candidatos afrodescendentes, a discussão incluiu as comunidades de origem indígena, e posteriormente foi ampliada para a inclusão de estudantes com formação básica em escolas públicas.

A proposta de reestruturação e expansão das universidades federais, em alguma medida, visou responder à constatação recorrente de uma inversão, por parte das universidades públicas, no papel de formação de profissionais, particularmente no tocante aos segmentos sociais aos quais elas atendem, majoritariamente. Visou, também, responder às diversas pressões sociais que reivindicavam não só justiça social no acesso às universidades públicas, bem como cobravam a responsabilidade, por parte dessas instituições, no tocante à formação de profissionais que atendessem os segmentos sociais mais carentes, ou mais distantes dos grandes centros, no tocante à saúde, educação, e outras frentes.

Desde a década de 60 do século passado, pesquisadores da área de Educação, Ciências Sociais, Políticas, entre outras áreas, têm apontado, no cenário da sociedade capitalista, o papel da educação como reprodutora das desigualdades sociais. Numa breve revisão, podem ser lembrados alguns clássicos, tais como o livro A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino, que resultou de ampla pesquisa realizada com estudantes do ensino superior, na França, assinado pelos pesquisadores Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, ou o livro A escola capitalista na França, assinado por Christian Baudelot e Roger Establet. Muitos outros autores, de orientação marxista, neo-marxista, quantos deles articulados com as teorias críticas na Educação, e as pedagogias mais progressistas, dedicaram-se a tentar compreender como os sistemas educacionais atuam no sentido de promover educação de qualidade para as elites, oferecendo uma educação de segunda categoria para as demais classes trabalhadoras, de modo que, de um lado, cumpram satisfatoriamente seus papéis nas searas sociais que lhe cabem, por onde possam transitar, e, de outro lado, sejam minimizadas, quando não neutralizadas, as possibilidades efetivas de mobilidade (ascensão) social.

No Brasil não são recentes as constatações que dão conta de uma inversão observada nos fluxos da formação escolar, na passagem da Educação Básica para o Ensino Superior. Estudantes oriundos das redes públicas de ensino, quando não interrompem sua formação (o que acontece, ainda, com a maioria dos jovens) antes de ingressarem num curso de graduação, acabam matriculando-se numa das miríades de instituições de ensino superior da iniciativa privada. São faculdades de pequeno, médio e grande porte, universidades diversas, muitas promovendo ensino de qualidade mínima duvidosa, e de cujos professores, em sua maioria, é cobrado que ministrem aulas – pelo que recebem salários relativos às horas-aula ministradas – sem qualquer ênfase no desenvolvimento de pesquisa ou projetos de extensão. São os chamados professores auleiros.

O acesso às universidades públicas, sobretudo às federais, dada a alta concorrência, particularmente no caso dos cursos mais valorizados (Medicina, engenharias, áreas tecnológicas...), acaba mostrando-se viável aos que realizaram os estudos da Educação Básica na iniciativa privada, onde não só experimentam um ensino de melhor qualidade, como também são preparados para situações que exigem espírito competitivo.

Assim, o Programa Reuni, articulado ao Sistema UAB, em alguma medida, representou uma iniciativa do Governo Federal para, ao menos em tese, enfrentar essa inversão. Muitas universidades transformaram-se em verdadeiros canteiros de obras. Outras, novas, brotaram desses canteiros. E houve a abertura de um grande número de concursos, para todas as áreas, com o ingresso de novos professores para a carreira docente como não se via desde o final dos anos 80, início dos anos 90. Essa referência, por certo, apoia-se numa memória mais subjetiva, carecendo de dados objetivos a lhe dar calço. Provavelmente requeira correção. Mas, tomada como metáfora a reforçar uma constatação, serve para enfatizar o fato de que, há muito, não havia tantas oportunidades de acesso à carreira docente nas universidades federais, como ocorreu a partir de 2008.

Como resultado, o quadro de professores efetivos mudou de feições, renovado de modo significativo. O número de professores em estágio probatório multiplicou-se, avolumando os processos de acompanhamento e avaliação. Novas demandas foram criadas nos diversos conselhos que organizam as universidades. Novos ventos sopravam, ao mesmo tempo em que alguns problemas também começavam a ganhar visibilidade.

Também se sabe, e não é de hoje, quase sempre os salários recebidos pelos professores nas universidades públicas federais mostram-se menos sedutores do que os oferecidos por algumas grandes universidades da iniciativa privada – nestas, em alguns casos, a remuneração chega a ser o dobro em relação àquelas. Muitos professores das universidades públicas, tão logo se aposentam, ocupam vagas nessas universidades, para enfim degustarem a possibilidade de remuneração competitiva no mercado. Por outro lado, também é sabido que o espaço para a pesquisa, com garantias à diversidade de abordagens, temáticas, sem maiores submissões aos ditames do mercado, só pode ser encontrado no ambiente da universidade pública. Essa possibilidade preserva, na universidade pública, o poder atrativo para o qual são endereçados projetos de atuação profissional por parte de jovens pesquisadores, a despeito dos salários pouco competitivos num mercado cada vez mais agressivo, a despeito das dificuldades internas relativas a gestões administrativas, a financiamentos de projetos e programas, ao déficit de apoios logísticos, entre outros itens que podem ser relacionados.

Assim, desde 2008, novos professores passaram a transitar pelos territórios das universidades federais, compartilhando espaços de aprendizagens com um número expandido de novos estudantes, muitos destes tendo assegurado suas vagas por meio do sistema de cotas implantado em algumas instituições, cada qual dentro de normativas estabelecidas internamente. Estudantes matriculados nos cursos na modalidade a distância ampliaram os raios de alcance da ação desses professores, multiplicados pela atuação de tutores com provisórios vínculos de trabalho e formação nem sempre suficiente, talvez nem sempre satisfatória, para as demandas de suas funções. E também remunerados em caráter de exceção (o que resulta na fragilidade nas estruturas de oferta desses cursos).

Muitos dos professores ingressantes depararam-se com universidades recém inauguradas, em condições muito precárias de trabalho, estruturas físicas ainda não concluídas. Outros se deram conta de que as perspectivas anunciadas pela carreira docente, a médio e longo prazo, haviam se redesenhado, em relação aos cenários de duas décadas atrás, soprando, dos horizontes abertos, algumas brisas de frustração.

Ora, é preciso ter-se em conta algumas referências das regras de funcionamento do mercado, que não deixariam de se fazer valer, mesmo que sob a vigência de políticas públicas e decretos de lei que, supostamente, pretendam minimizar seus efeitos nos programas de escolarização e formação profissional da população. No cenário da educação brasileira, o processo de universalização da educação básica implicou, também, na perda da qualidade do ensino promovido nas escolas públicas – esta afirmação tem em conta o recorte da educação no decurso do século XX, e não apenas as últimas décadas. A pressão, se não pela universalização, ao menos pela expansão chegou ao ensino superior, nas universidades públicas. Multiplicam-se os discursos que argumentam a necessidade de se assegurar o acesso das camadas mais pobres da população ao ensino de qualidade ali promovido.

Pois bem, que se assegure esse acesso, dirá o mercado. No entanto, dentre as possibilidades, que já se fazem sentir, de desdobramentos da expansão universitária, está a perda da qualidade do ensino ali promovido. Esse é o preço, sussurrará o mercado, entre risos de canto de boca. Ora, quando a elite permite aos pobres que tomem parte da festa, é porque seus membros já se retiraram do salão, levando consigo o melhor do banquete. Ocupam-se, já, de outros jogos e prazeres.

Os filhos das elites, que cumpriram a Educação Básica em escolas da iniciativa privada, começam a dispensar as vagas não reservadas às cotas – agora, por força de lei federal, 50% de todas as vagas oferecidas nos vestibulares, pelas universidades públicas, são reservadas para estudantes oriundos das redes públicas de ensino. Os filhos das elites não precisam delas. Podem bancar os altos custos de universidades da iniciativa privada que, ao longo dos últimos anos, se prepararam para recebê-los, estruturando seus laboratórios, remunerando muito bem seus doutores, fazendo uso, inclusive, de subsídios de dinheiro público para isso. Os salários e planos de carreira nas universidades públicas federais, a seguir essas tendências, em pouco tempo deixarão de ser interessantes para quem alce vôos minimamente ambiciosos do ponto de vista profissional.

É nessa atmosfera, mas nem sempre tendo muita clareza dos jogos de força no embate, que professores, uma parcela significativa dos quais com  não mais de 5 anos de carreira docente, iniciaram uma mobilização que chegou a envolver 57 das 59 universidades federais existentes, deflagrando uma greve de abrangência e força como ainda não se tinha experimentado na era pós-ditadura. Esses professores, em geral, concluíram seus cursos de graduação nos anos 90, e os cursos de pós-graduação já na primeira década deste milênio. Não têm relação com memórias dos embates mais dolorosos com a ditadura. Seus projetos vinculam-se à satisfação na atuação profissional, o que pode ser traduzido em boas condições de trabalho, salários satisfatórios, projeções razoáveis de progressão na carreira.

A greve de professores das universidades públicas federais, iniciada em maio de 2012, a se estender por setembro adentro, por certo, é um dos primeiros efeitos de grande repercussão do Programa Reuni, e outras extensões relativas à expansão do ensino universitário, público e gratuito, na esfera federal.

Os embates estão apenas se iniciando. Asseguremos bons lugares para observar os movimentos na arena. Ou tomemos parte dela. Sem perder de vista a necessidade de algum distanciamento para tentarmos compreender as relações de força em jogo, e para não nos deixarmos transformar em peões a serviço não se sabe ao certo de quem. Alguma vez, porventura, teremos alguma clareza?