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sábado, 9 de novembro de 2019

Cansaço e desalento



8 de novembro de 2019, sexta feira, fim de tarde. A semana foi intensa, com atividades incessantes, e alguns momentos tensos, nos quais foi necessário que eu trabalhasse questões bem difíceis. Os dias e as noites têm sido assim há tempos. E eu tenho me queixado, cada vez mais amiúde, de cansaço. Não só eu. As queixas de cansaço espalham-se como uma patologia social contagiosa que vai atingindo uma parcela importante da população, das pessoas com quem convivo, com quem compartilho, em alguma medida, atividades, projetos, afetos, utopias. Temos nossas energias exauridas, sem encontrarmos solução, antídoto, remédio.

Byung-Chul Han já escreveu sobre a sociedade do cansaço. Jonathan Crary já discorreu sobre os efeitos perversos de uma sociedade que passa a exigir de seus cidadãos estarem despertos e ativos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Os argumentos de ambos são consistentes, fundamentados. Mas minha exaustão parece ter mananciais que vão além, a despeito de integrarem, sim, as malhas do contexto em análise pelos dois autores. Eu poderia até praticar meditação, buscar outros subterfúgios, modificar a alimentação: o esgotamento persiste intocado, e me abate.

Mesmo assim, também por razões que tantas vezes me escapam, não desisto nem arredo da labuta diária, defendendo posições, propondo projetos, compartilhando aprendizagens. Pensando e buscando praticar empatia, solidariedade, poiésis...

8 de novembro de 2019, sexta feira, fim de tarde. Eu estava prostrada sobre alguma almofada, em casa, quando passou a ser televisionada a soltura do Lula, depois de quase 600 dias de prisão. Havia expectativa em relação a esse momento. Entre a multidão, ele falava com desenvoltura, energia. Agradeceu a um número enorme de pessoas. Desculpou-se com aqueles cujos nomes, inevitavelmente, teria esquecido. E prosseguiu em seu discurso de improviso, entre alegrias, aplausos, abraços e uma constelação de câmeras fazendo o registro. Com humor mas de modo assertivo, sem perder poder de ataque, posicionou-se em relação a tudo quanto que ele foi e que está sendo submetido, mas, sobretudo, ao que a população brasileira está sendo submetida.

Enquanto assistia à transmissão, outra sequência era repassada na memória: a sessão interminável, na Câmara dos Deputados, para a votação aprovando a abertura do processo de impeachment, pelo Senado, da então presidenta Dilma Rousseff. Um evento de que me evergonho, sem cura, sem lenitivos. Naquele dia, 17 de abril de 2016, eu vi a face mais obscura, amedrontadora da classe política brasileira. Naquele dia, eu vi a face da maioria dos representantes da população brasileira que, mais tarde eu seria obrigada a admitir, de fato representavam, e ainda representam, os anseios e o projeto social de boa parte das gentes nascidas neste país, marcadamente injusto, discricionário, autoritário.

Naquele dia, em abril de 2016, eu entristeci de uma dor que ainda não saiu de mim. A sessão ocorrida no Senado, no dia 31 de agosto de 2016 já não impactou tanto: estava tudo acertado, os resultados haviam sido negociados por antecedência. Não havia o que doer a mais: eu já me encontrava sob a égide da dor.

Desde então, a cada passo, o desmonte de um projeto político social imaginado, depois comprovado como viável, se não plenamente, ao menos em muitas frentes, foi sendo desmontado a passos largos. Nenhum motivo de alegria. Nenhuma brisa para refrescar os dias. Chuvas cada vez mais escassas para dar tom verde à paisagem.

Ontem, 8 de novembro de 2019, sexta feira, fim de tarde, isso tudo reascendeu em minha memória mais funda e mais afetiva. Eu entendi que minha exaustão decorre, sim, do excesso de trabalho, das tensões, das demandas que invadem a vida 24 horas por dia, 7 dias na semana, sem pausa. Byung-Chul Han e Jonathan Crary acertam em suas argumentações. Mas há outra fonte na qual esse cansaço se torna quase incurável. Essa fonte está no desalento, na falta de esperança. E ontem eu lembrei de um tempo quando eu tive esperança. Mais que isso, um tempo quando, com alegria, eu pude celebrar com quantas pessoas pequenas conquistas sociais, no âmbito dos projetos educativos, da arte, da cultura, dentre quantos outros.

Então eu chorei. Chorei muito. Depois dormi profundamente. E consegui sonhar. Um sonho breve, que logo se dissipou para a vida desperta. Mas sonhei.





sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Preciso de um recanto para descansar



“Eu estou cansada”. Esta tem sido uma frase recorrente. E vou ficando cansada de repeti-la (com o perdão do trocadilho cretino). Qual, afinal, é a fonte de tanto cansaço? Excesso continuado de trabalho, sim. Mas suspeito que não seja apenas isso.

Noutro dia, pensando a respeito, cheguei à possibilidade de que o cansaço viesse, sobretudo, do sentimento de injustiça e desalento, de desamparo diante das instituições, da sensação de vulnerabilidade sem proteção diante das estruturas sociais, do Estado, dos poderes instituídos.

Byung-Chul Han propõe uma análise desta que ele chama de sociedade do cansaço, apontando seus vários aspectos e dinâmicas que resultam na condição de burnout que incide sobre tantas pessoas, atualmente. Um pensador instigante, autor de uma das leituras mais interessantes dentre as recentes que fiz. De toda sorte, o escopo de discussão fica um pouco além do campo da percepção, ou da experiência corporal propriamente dita do cansaço. Ou seja: configura um conjunto de explicações racionais para uma experiência corporal e psíquica, no âmbito afetivo.

Temo que Walter Benjamin tenha acertado com precisão de atirador profissional, quando apontou o cinema cumprindo uma função pedagógica, no tocante à preparação das pessoas para as situações de choque da sociedade contemporânea. Ele escreveu o famoso ensaio em que faz tal apontamento há quase 100 anos, mas continua com uma assustadora atualidade...

Os filmes de ação com produção norte-americana organizam-se com um percentual menor de diálogos, e, em sua maior parte, mostram correrias, lutas, fugas, perseguições intermináveis. Costumo pensar que ser cidadão norte-americano na nação do filme blockbuster é muito sofrido. Viver fugindo de bandidos, sendo perseguido por inimigos, sob ameaças de toda sorte, sem tempo para pausas, deve ser muito desgastante, afinal...

Então me ocorreu que talvez meu cansaço advenha de um tempo em que tudo acontece como se eu estivesse dentro de um filme dessa natureza. Não há pausa para digerir as experiências, para processá-las. Quando começamos a refletir sobre o que se passa, já somos empurrados a novas e inesperadas situações, com tensão e pressão sempre crescentes.

Alguém pode avisar aos produtores que não quero mais participar desse roteiro? Alguém pode avisar que prefiro ser escalada para filmes mais pausados, com espaços vazios, e finais em aberto? Ah, também prefiro os filmes com orçamentos baixos, mais artesanais, tá?








segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Bolhas de sabão

p/ Ruth 

Na rodoviária, uma fila interminável para comprar passagens, três dias antes do Natal. Uma senhora, à minha frente, observa as filhas que inventam um modo de brincar enquanto o tempo não passa, e a fila não anda... A mais velha faz bolhas de sabão com um pequeno aparelhinho, provavelmente comprado numa loja de bugigangas baratas, enquanto a mais nova se diverte estourando as bolhas recém-sopradas. De modo muito sutil, a velocidade aumenta: no ritmo da mais velha produzindo as bolhas, e no gesto nervoso da mais nova em estourá-las, e rir ao fazê-lo. Por vezes, tal a sua afoiteza, ela estoura as bolhas antes de se despregarem do aparelho, nas mãos da irmã.

Passa o tempo, a brincadeira ganha certo tempero estressante. A irmã mais velha tenta ludibriar a menor, que não se cansa de estourar as bolhas. É vitoriosa. A mãe sorri. Sente-se aliviada, por vezes, quando a fila se move um pouco.

Lembro-me de quando, criança, eu brincava fazendo bolhas de sabão. Ensaboava as próprias mãos, com um pouco de água, e soprava no vão deixado pela meia curva de cada uma. Precisava saber dosar a água e o sabão. Conforme a abertura das mãos, a bola poderia ser maior, ou menor. E me emocionava quando elas se demoravam passeando sua transparência por longo percurso, até se esbarrar nalgum galho de árvore, ou tronco, ou folha, e reduzir-se a gotas de água ensaboada respingadas no chão.

Observo a menor, e penso que habitamos extremos opostos no exercício das bolhas de sabão. Eu me sentia feliz quando se prolongava sua existência frágil e delicadamente bela. Ela se realiza destruindo-as. Eu, de alguma forma, exercia o controle técnico de sua produção: quantidade de água e sabão nas mãos, o gesto para a produção da espuma, a posição das palmas e dedos, a pressão do sopro e o gesto de interrupção, para que a bolha se soltasse, e pudesse flutuar. A ela isso tudo não importa: tem as bolhas prontas, disponíveis para o mero gesto que resultará no seu estouro. E no estouro da próxima, e outra, incontáveis vezes...

Não será assim que vivemos, em meio aos rituais de consumo em que quotidianamente nos encontramos imersos? Não estamos todos, afinal, estourando bolhas de sabão, na expectativa da próxima, e de outras, quantas forem, não importando como, onde em que condições tenham sido produzidas?

Viva o espírito do Natal!







sábado, 20 de dezembro de 2014

Cuba e EUA... notas para começo de pensamento


Inicia-se um novo frenesi. Esquerda e direita manifestam-se com paixão. Uns a favor, outros contra. Eu tento encontrar algumas pontas, para tecer algum retalho de reflexão. Certa de que as coisas mais importantes se nos escapam, e por isso mesmo não conseguiremos compreender de fato o que se passa. Muito menos se movidos por paixão que polarize posições.

Nisso tudo, há uma questão que me chama a atenção, de modo particular: o hipercapitalismo, ou, como referiu Benjamin, o capitalismo como religião, e a condição sem saída da sociedade de consumo que ocupa todos os espaços da nossa existência. Compramos itens, diariamente, não por necessidade pragmática, mas cumprindo rituais. Consumimos conseguir processar, para assegurarmos nosso lugar nas catedrais, nos eventos sociais, nas celebrações. Aos poucos, nos saturamos com informações. Nossas casas entulham de coisas. Os aterros destinados para o depósito de lixo crescem assustadoramente, ante o descarte de quantas coisas, para que se abra espaço aos novos itens... porque os rituais precisam continuar!

Enquanto isso, em Cuba, graças ao embargo econômico imposto pelos EUA, não há itens disponíveis para serem comprados. As prateleiras dos supermercados ficam vazias. Os visitantes estrangeiros levam camisetas, sabonetes, com que presenteiam os ilhéus, como lhes entregassem objetos preciosos trazidos de outra galáxia. De alguma forma são.

Assim, em Cuba, as coisas precisam ser recicladas e usadas até além do limite de sua durabilidade e resistência material. Reinventam-se as tecnologias desde o mais precário, para efetivamente atender as necessidades. Talvez pudéssemos pensar que o povo cubano, não por escolha, mas por contingência, não se submete à condição de funcionário dos aparelhos, nos termos propostos por Flusser.

A situação limite vivida pelo povo cubano explicita uma face a ser considerada, como contraponto ao aprofundamento da sociedade de consumidores na qual estamos tão imersos que sequer conseguimos imaginar outros modos de organização da vida.

Não defendo bandeiras. Da mesma forma, sem titubear, não defendo qualquer ditadura. Nenhuma. Nenhum argumento justifica qualquer modalidade de opressão. Mas também reconheço que é preciso colocar em questão os formatos de democracia que julgamos exercer. É bom não esquecermos: dentre outras modalidades, vivemos sob a ditadura do mercado, e nos comportamos como se tivéssemos liberdades de escolha. Até cremos, mesmo, nisso... afinal, a crença também é elemento fundante do capitalismo como religião...







segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Sobre a sociedade de produtores, de consumidores, e o BBB


Quando a Revolução Industrial transformou os modos de produção de bens necessários à vida, e o capitalismo gerou os mecanismos por meio dos quais as indústrias passaram a produzir não apenas os bens necessários à vida, mas itens além das necessidades, provocando sempre uma ampliação do desejo em direção de novos itens a serem produzidos, nessa circunstância foi necessário articular estratégias de formação de mão de obra produtora. Assim, constituíram-se, entre outras instituições, as escolas no formato como conhecemos, organizadas dentro da lógica fabril, capaz de ensinar não apenas os conteúdos escolares, mas o modo de operar em sociedade.

O pensamento geral, nessa etapa, foi o de que seria necessário buscar alguma forma de inserção no mercado, definindo um lugar na complexa malha de produção. Você faz o que? O que você pretende fazer? Essa, a senha para um ingresso ajustado nas redes da sociedade.

Com o passar do tempo, ampliaram-se, em progressão geométrica, os itens produzidos, à disposição, para serem consumidos. Então, mais que produtores, passou a ser necessário assegurar a formação de consumidores vorazes. Havendo produtores o bastante, é preciso que haja, sempre, consumidores que devorem suas produções. O ingresso nos circuitos de produção ficou cada vez mais concorrido. A palavra de ordem é consumir (lembrando o oráculo do filme THX-1138, de George Lucas). Assim, cada vez mais precocemente, as crianças são convocadas a terem discernimento sobre que produtos preferem comprar, nos mercados, e a repetir rituais com roupas, jogos, maquiagens, músicas, e outros itens. Os circuitos de entretenimento também se voltam para a formação eficiente desses consumidores.

É nesses termos (e não em outros) que a instituição escolar formal encontra-se defasada. Sua estrutura mantém a noção da formação de produtores, sem ter sucumbido (ao menos não plenamente) às demandas da formação de consumidores. Os discursos de educadores que se pretendem progressistas, transformadores, reivindicam a implosão das estruturas da velha escola, em favor de sua flexibilização de acordo com a cultura contemporânea. De fato, as práticas da velha escola geram tensões, na medida em que formam produtores (com baixa capacidade competitiva) para uma sociedade de consumidores. Mas é preciso, também, que coloquemos em questão se queremos, mesmo, escolas a serviço da formação de consumidores.

Essas questões ganham novas ênfases, sobretudo, na atual etapa das relações impostas pelo capital, quando o consumo mais agressivo e lucrativo não é mais de produtos, mas dos próprios consumidores. É nesta etapa que entram os reality shows, as plataformas de relacionamento social nas redes de computadores, os aparatos tecnológicos oferecendo inclusão a todos, a preços módicos.

Já não importa o que você vai fazer, que produtor você será, ou o que você vai consumir, mas de que redes você toma parte, com quantos pontos de contato para assegurar a difusão de suas ideias (quaisquer que sejam, formuladas em breves frases, ou imagens, que se espalham com a mesma velocidade com que são esquecidas...). As ideias portadoras de valor são aquelas capazes de disseminar desejos de inclusão nas relações de consumo... Importa, acima de tudo, saber se você detém o aparato mais recente, que lhe permite acesso a esta e àquela redes de relacionamento e informação, onde possa consumir, mas também disponibilizar-se ao consumo.

Outras instituições sociais, que não as escolas, tomam para si o papel de formação desses consumidores. Por exemplo, a maior parte dos trabalhos artísticos localizados no âmbito da chamada arte e tecnologia cumprem o papel de demonstrar usos de novos aparatos tecnológicos, despertando o desejo de novos e potenciais consumidores, mais do que propiciar experiências estéticas de diversas naturezas. Outro exemplo está na multiplicação dos discursos inclusivos de toda espécie, cuja potência está muito mais na possibilidade de multiplicação de consumidores do que propriamente na inclusão benfazeja dos historicamente discriminados. Definitivamente, não se tratam de discursos beneficentes, tampouco de filantropia...

Todos esses discursos sugerem o sujeito como protagonista dos processos em curso, projetam sua imagem, colocam-no nas prateleiras mais visíveis, afetam seu desejo e vaidade. Ele passa a oferecer sua própria existência, à disposição do mercado, como moeda de troca para consumir outras existências igualmente à disposição.

É exatamente nesse cenário que entram os reality shows: escolas eficientemente afinadas com as demandas da sociedade contemporânea e sua lógica de consumo. Portanto, não basta reclamar dessas programações nas redes sociais (o que é, de fato, um contra-senso), ou desqualificar os participantes, sem compreender que eles são a imagem condensada, caricaturizada por vezes, daquilo que efetivamente somos, ou de que tomamos parte (para o bem, e para o mal). É preciso, sim, ter coragem de olhar para esse espelho, e perguntar onde cada um de nós está, que papel cumprimos nesse espetáculo? 

Afinal, não é verdade que estamos sempre disponíveis, conectados, antenados, prontos a assimilar a última novidade, com medo de perder nosso lugar nos fluxos incessantes de tudo quanto se refira à atualidade? E prontos para emitir alguma opinião, mesmo que queixosa, sugerindo alguma nostalgia de um suposto tempo quando parece que tudo tinha mais qualidade, como se fosse possível reivindicarmos isenção, ou inocência no tocante ao cenário contemporâneo...

Uma coisa é certa: gostemos ou não disso, concordemos ou não com sua configuração, não estamos fora dele!





terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fastio e tédio


Em meio à movimentação intensa e ao caos acústico, chamou-me a atenção um apito de trem. Estranha sonoridade para aquele lugar. Logo avistei a máquina puxando três pequenos vagões, entre os corredores do shopping center. Um homem de uns 30 anos, fantasiado de maquinista, conduzia a engenhoca, a baixa velocidade, acionando o apito para alertar as pessoas sobre sua passagem. (Imaginei que aquele pudesse ser um emprego temporário para alguém em busca de lugar no mercado de trabalho saturado...) Um som gravado sugeria a aceleração da máquina, aumentando a intensidade do barulho e o ritmo do giro das rodas em trilhos hipotéticos. Mas a engenhoca seguia, sempre devagar. Ainda bem. As pessoas caminhavam à sua frente, sem se importar muito com possíveis riscos de atropelamento.

Havia uma música festiva que exalava de caixas instaladas em pontos estratégicos nos vagões. Estes estavam com a maior parte de seus lugares vazios. Apenas no primeiro vagão havia três crianças, sentadas, olhando à volta. Sua expressão, tanto quanto a expressão do maquinista, era de indiferença. As luzes das lojas e dos enfeites e dos corredores, os diversos sons, os apelos vindos das vitrines, os cenários montados para seduzir os consumidores, o colorido do trem, as pessoas indo e vindo, nada disso era capaz de se traduzir em algum raio de alegria, por menor que fosse, no olhar dos passageiros daquele trem. Ao contrário: a hiperestimulação parecia anestesiá-los. Mostravam-se apáticos. Como todos nós temos andado, afinal, nesta sociedade de consumidores...

Quando tudo há em excesso, restam fastio e tédio... nada mais...



domingo, 8 de dezembro de 2013

Mensagem de Natal (Ruth dos Santos Martins)


O Natal ... tudo de novo ... ano vai ... ano vem.
Por favor, deixem-me curtir as arvores de manga, de jaca, de abacate, de acerola, de pitanga ...

Ainda tenho vivos na memória os acontecimentos ocorridos em mês de dezembro de 2012, principalmente aqueles relativos às festividades do natal. O ambiente natalino nos é apresentado todos os anos desde o vislumbrar do mês de novembro e fortalecido por todo o mês de dezembro, só sumindo de todos os meios de comunicação e propaganda em meados de janeiro, quando sobram, aos montes e para todos, preocupações com as contas a pagar, impostos à vista, reajuste do combustível, alta da inflação, falta de políticas públicas (sérias) para segurança, saúde, educação, emprego e renda etc.

Assim o novo (não tão novo!) ano vai ficando velho, ... e novamente aproxima-se o período do natal, ... e tudo de novo. São os apelos comerciais, os enfeites natalinos, a montagem de árvores de natal, sempre com bolinhas vermelhas, papais noeis de vermelho, gordinhos, a procura por presentes, a renovação de promessas pessoais, os encontros, as confraternizações.

Nós, moradores do Distrito Federal, sabemos que todo o ano, infalivelmente enfrentamos um período de seca, onde o nosso verde praticamente desaparece, a poeira se faz presente com intensidade, o ar seco nos perturba e, por isso, esperamos, ansiosos e esperançosos, o inicio das chuvas.

Que alegria! Após a estiagem, lá pelo mês de outubro ou novembro, chegam as primeiras chuvas tornando-se presentes, por alguns meses, no nosso dia a dia. Esse período, aqui no DF e em algumas outras localidades, coincide com o natal e ano novo.

O verde das plantas se torna exuberante; os pássaros cantam, as flores pipocam por todos os cantos; os frutos dessa época aparecem escandalosamente deliciosos, mostrando todo o vigor e toda a beleza! A paisagem da cidade se transforma rapidamente; passa do marrom seco ao verdejante em questão de dias. É reconfortante sair e andar pelas ruas, pelos becos, pelos gramados e observar tudo o que a natureza nos oferece! Além do colorido das plantas e das flores ouvimos o cantar dos pássaros – são sabiás, joão de barro, almas de gato, pombinhas (as rolinhas), pássaros pretos e tantos outros, grandes e pequeninos.

Andando por ahi, sentindo o “espírito de natal” instalado principalmente no comércio; percebendo a angustia das pessoas, tão comum nessa época em todos os anos, o transito nervoso senti-me desolada, incomodada com a situação e pensei: “parece-me que foi ontem ... e já estamos vivendo tudo de novo”!

Questionei-me sobre o verdadeiro sentimento de religiosidade existente no consumo de tantos objetos por ocasião do natal e do ano novo; no acúmulo de tantas quinquilharias adquiridas e/ou recebidas em nome das festas natalinas; no oferecimento de panetones aos serviçais, lixeiro, moço da água e depois, no restante do ano, muitas vezes nem um bom dia ou boa tarde, como vai? ou outras gentilezas que tanto dignificam o verdadeiro ser humano.

Se prestarmos atenção à natureza, nessa época, veremos, sem exagero, que a mesma nos oferece toda a decoração natalina que tanto desejamos. Basta olhar, com carinho, as mangueiras, altas e soberanas, com seus galhos e folhas quase sempre dispostas simetricamente, enfeitadas de bolinhas de vários tamanhos, em tons variados de verde, todas pendentes, bem ao alcance de nossos olhos; assim também as jaqueiras, as pitangueiras, os abacateiros, ...

E as flores? Multicoloridas e tantos perfumes! Tudo isso adornado pelos passarinhos, que cumprindo a missão, voam por entre toda essa riqueza. Tudo tão enfeitado para nós! Sem apelo comercial, sem cansaço, sem trânsito infernal, trombadas em shoppings.

Essa decoração que nos é oferecida pela natureza ainda proporciona alimento a muita gente que colhe seus frutos, sombra para descanso dos transeuntes, abrigo aos passarinhos e ainda permanece ao longo do ano em que pese a estiagem, o sol escaldante.

Precisamos mesmo comprar enfeites, espalhá-los e montar árvores de natal dentro de nossas casas quando temos todos os enfeites do mundo lá fora e ... ao alcance de nossos olhos?

Pensemos nisso.

Meu querido e minha querida, você é o belo em nossa vida o ano inteiro! Você enfeita e alegra nosso caminho! Você é o presente do natal, do ano novo, de todos os dias que nosso Pai Maior nos deu; obrigada por você existir, por você nos olhar meigamente, ter um sorriso lindo que nos encanta, nos enche de esperança e reforça a crença no ser humano; você é a nossa saudade quando está longe de nós!

Para você, familiares e amigos um olhar de uma árvore verde, com bolas em todos os tons de verde e de todos os tamanhos e tipos, flores multicores e muitos pássaros completando a bela paisagem para este Natal. Um abraço forte e cheio de carinho.


Ruth dos Santos Martins



terça-feira, 4 de junho de 2013

Ter ou ser o corpo


Quando eu falo sobre meu corpo, não falo sobre mim, mas sobre alguma coisa que me pertence, que é minha propriedade. Esta condição instala uma cisão insuperável entre o sujeito que é e seu corpo, o corpo que o sujeito tem. Na lista de suas propriedades, o corpo alinha-se às demais posses: a casa, equipamentos, hobbies, carro, etc. Como propriedade, o corpo está sujeito a pareceres, consultorias e atuação de profissionais experts em certos aspectos de seu funcionamento. Como proprietário, o dono, ou a dona, do corpo funciona como usuário, ou usuária, que conhece algumas de suas funções, e sabe colocá-lo para funcionar, com mais ou menos habilidade, de acordo com os desejos (de quem?) e os desígnios (de quem?). Atua, em alguma medida, como um cliente, um consumidor, ou consumidora, às voltas com seu equipamento. Se alguma coisa no corpo não funciona, procura-se um técnico para consertar. Se o tédio se impõe, providencia-se logo uma reforma, para renovar a paisagem, ao sabor dos modismos. A propósito, há profissionais autointitulados personal-quase-tudo (personal trainer, personal organizer, personal stilist, personal fashion...), cuja principal tarefa é nos ajudar a tornar isso que nos pertence, o corpo, em mercadoria mais atraente, de acordo com as regras de mercado vigentes. 

Quem é essa entidade-eu que detém a propriedade do meu corpo? De qual lugar exerço a propriedade sobre o corpo? De qual torre do castelo existencial observo, escolho, decido? É possível alguma libertação desse aprisionamento? Há algum caminho possível de reencontro com o corpo próprio – que não é o próprio corpo... – ?

Como exercício, proponho pensar a mim mesma como corpo em sua inteireza – capaz de sentir, perceber, lembrar, pensar, vibrar... –. E pensar dessa forma é buscar restabelecer uma relação com isso que sou eu, e que resulta da interação entre corpo, experiência, memória, transcendência, tudo junto, tudo inseparável. Supõe, sobretudo, a expansão da autopercepção, o autoexame, a coragem para o conhecimento efetivo de si...

E como proceder? Por onde começar? Alguns caminhos se mostram possíveis, prováveis. Dentre eles, escolho comentar, aqui, aquele que se incia pela linguagem, supondo que ela resulte de certa compreensão do mundo e de mim mesma. Modificando-a, quem sabe, contribua para modificar essa relação. Assim sendo, no âmbito da linguagem, tentarei adotar algumas estratégias, que se seguem, e vejamos o que ocorre:

1.   Não me referirei mais ao meu corpo como algo que me pertence, mas a mim mesma enquanto corpo (ou qualquer parte do corpo-eu). Assim, em lugar de dizer-pensar-sentir “meu pé está doendo”, passo a dizer-pensar-sentir “me dói o pé”; ou em lugar de “meu corpo ficou todo encharcado”, “encharquei-me o corpo todo”; ainda, em lugar de “levei minha mão até a maçaneta da porta”, “alcancei a maçaneta da porta com a mão”. São exemplos banais, tolos quem sabe, mas talvez me ajudem a realinhar uma posição em relação a mim mesma, como um todo. Uma posição que é perceptiva, mas também política, no tocante a assumir o corpo que eu sou e não a propriedade de um corpo vulnerável às intervenções mais radicais de uma sociedade de consumo, que reifica todas as dimensões do ser.

2.   Buscarei, sempre que possível, adotar a mesma orientação em relação às outras pessoas. Algo mais ou menos assim: em lugar de dizer-pensar-sentir “ela tem os olhos verdes”, preferir “ela é toda olhos verdes”; ou “sofreu uma queda e quebrou-se a perna” em lugar de "a perna dele quebrou numa queda"; e ainda “dói-lhe a cabeça” em lugar de "sua cabeça está doendo"...

3.   Talvez haja algumas situações em que, mesmo pensando a partir do verbo ser, ainda seja o caso de adotar verbo ter, na medida em que o tópico em questão seja resultado de alguma aquisição efetiva. Por exemplo, quando as unhas postiças chamam a atenção, cabe a pergunta: “Suas unhas são bem desenhadas. São importadas?”; ou “ Que belo par de peitos ela tem!”, depois da cirurgia plástica.

Ser o corpo em cada aspecto é condição bem diversa à de tê-lo, exercer sua propriedade. Aquele que tem seu corpo não necessariamente o conhece, pois não é o corpo. Ao contrário, domina-o, submete-o, decide sobre ele. Ser o corpo supõe escuta interna, reconhecimento de si em cada recanto, atenção intensa, autonomia – alguma que seja – nas decisões tomadas acerca de si, o corpo próprio.

Talvez descubra que estou enganada, e não seja nada disso. Terá valido pelo exercício.



domingo, 19 de maio de 2013

O taxista, o psiquiatra e a socióloga



O taxista era dos conversadores. Puxou prosa, e logo lhe informei que eu era professora. Falei-lhe sobre a universidade, a área de artes, e não deixei de referir minha formação também em sociologia. De artes, ele julgou entender. Quem não ouve música, vê filmes, novelas e shows na TV, tem algum artesanato em casa? Mas sociologia era uma palavra cujo significado lhe escapava ao repertório. O que é o sociólogo, o que faz, perguntou. Ele tenta compreender as relações entre as pessoas vivendo na sociedade, em coletivo. O taxista buscou, então, um paralelo com alguma referência entre as profissões que conhecia. É como um psiquiatra, então! Animei-me com a conexão estabelecida. O psiquiatra se ocupa das pessoas, individualmente; o sociólogo quer saber como o conjunto de pessoas desenvolve suas atividades, e as questões que decorrem dos modos como o conjunto de pessoas, em sociedade, se organiza. Ele silenciou por algum tempo, para então decretar uma questão da sociedade é a droga, essa sim é um problema! Concordei com ele. Essa, por exemplo, é uma questão que importa aos sociólogos, pensando em termos da sociedade.

Ele fez mais uma pausa, para então confessar eu tenho um irmão que nós perdemos para a droga. E prosseguiu a droga destruiu a família dele, as economias da família, hoje é como se os filhos não tivessem pai. Ele já está com mais de 40 anos, e não consegue sair da droga. Não tem jeito, mais. Nem o psiquiatra deu conta...

A pausa que se seguiu pareceu me inquirir se essa seria uma causa a ser tomada por algum sociólogo. Sinto, muito, senhor, foi o que pensei, sem coragem de pronunciar. Tampouco sociólogos, tampouco sociólogos dariam conta...

Chegávamos, já, ao aeroporto.