sábado, 14 de dezembro de 2019

Apontamentos de uma viagem de ônibus


Tenho gostos por viajar de ônibus...

Na última viagem que fiz, um senhor sentou-se ao lado de uma senhora à minha frente. Fiquei agradecida por ele não ter se sentado ao meu lado, pois conversou o tempo todo. Mas a senhora parece ter gostado, compartilhando um sem número de histórias com ele. Aposentados, ambos já tinham viajado pela Europa, Estados Unidos da América do Norte. Além disso, foram descobrindo muitos outros pontos em comum.

Não pude deixar de ouvir algumas de suas histórias, contadas de modo muito peculiar.

Ela contou que, na Itália, certa vez, tinha visitado um vulcão. E tinha ficado com medo de ele entrar em atividade. O senhor confirmou o perigo, demonstrando conhecimento de causa. Explicou que do vulcão pode sair larvas... e as tais larvas vão matando tudo que encontram pela frente... sim, as larvas do vulcão são mesmo muito perigosas...

Adiante, foi a vez de ele contar que a esposa tinha feito uma série de exames, incluindo aquele que faz um vídeo do estômago. A palavra endoscopia não apareceu na conversa. Ele prosseguiu nas explicações. Tinham diagnostigado que ela estava com agapilóide. A senhora mostrou-se solidária. Coitada, o tratamento para a agapilóide é mesmo chato e difícil!

Olhando a paisagem pela janela, pensei, entre meus botões: Deus me livre da agapilóide, e também das larvas de algum vulcão!





sábado, 30 de novembro de 2019

Receita infalível para criar machistas



Na rodoviária. Uma mulher magra, meio desorientada, empurra uma mala muito grande, acompanhada de duas meninas pequenas e um menino maiorzinho. Ele, provavelmente, com uns 9 anos. A menina do meio com uns 6 e a pequena com não mais que 4. O menino tem uma postura de homem grande. É o chefe. As meninas traquinam em torno da mãe, sob o olhar de reprovação dele. A mãe pede que ele vá a algum lugar para fazer algo. Ele olha com impaciência. Ela tenta exercer alguma autoridade sobre ele, ao que ele responde com uma postura corporal de deboche. Caminha, displicente, na direção apontada por ela, enquanto ela tenta organizar as meninas. Pouco tempo depois, ele retorna. Senta-se na mesma cadeira onde já está sentada a menina do meio. Ele a empurra, e se acomoda, ocupando mais espaço que ela, no assento. Ela se apoia na mala, ao lado, e derruba uma pequena valise. Levanta-se para recoloca-la no lugar. O menino desliza o corpo, ocupando todo o assento. Ao retornar, menina reclama, quer seu lugar de volta. Ele olha duro para ela. Não recua. A mãe, sentada em outro lugar, repreende a menina, ela deve deixar o irmão quieto. Chama para que se sentem juntas, ela e as duas filhas. As meninas conversam entre si, brincam, ambas sentadas no colo da mãe. Pela conversa, parece que estão de mudança. As meninas perguntam como será a nova casa onde morarão. A mãe tenta explicar. Sua voz é frágil. Parece querer chorar. Onde estaria o pai daquelas crianças? Senhor e dono do banco, o menino abre os braços e as pernas. Observa à sua volta com autoridade, como se dominasse o mundo. Tenta convencer a mãe de que o ônibus no qual embarcarão mudou o horário. Informação errada, que a mãe corrige. Mas ele não aceita. Diz que ela não sabe olhar direito, adverte para que ela preste atenção. A mãe não faz caso. As meninas perguntam onde se sentarão no ônibus. Ela explica que a pequena irá com ela, e a menina do meio e o menino sentarão no mesmo banco. O menino olha duro para a mãe e afirma: eu não me sentarei com ela. A mãe não responde. A menina se achega a ele, dizendo que irão juntos, sim. Ela ri. Ele lambe o próprio dedo e passa no rosto dela. Ela reclama, novamente, volta para o colo da mãe. O menino continua com ares de machinho alfa. Quando o ônibus chega, é ele quem leva a mala para despachar, enquanto a mãe organiza as meninas. A mãe está confusa. Não sabe ao certo como proceder. Ele observa as irmãs e a mãe com impaciência e superioridade.

E eu? Observo a tudo, com vontade de dar umas chineladas no menino. Não sem antes dar uma boa sacudida na mãe. Embarco no mesmo ônibus. Mas nos sentamos distantes. Para meu alento.





terça-feira, 26 de novembro de 2019

Ontem eu bati de frente com a falta de cidadania. Não foi a primeira, nem será a última vez...



Pensei em iniciar este texto afirmando: “Ontem eu bati de frente com o Brasil”. Mas, ao iniciar a escrita, percebi que estava sendo injusta com muitos outros brasileiros cujas condutas são irreparáveis. Seria injusta, por exemplo, com o motoqueiro que, também ontem, além de parar na faixa de pedestre enquanto uma senhora idosa atravessava a rua, tratou de sinalizar com os braços para que os demais motoristas a vissem, cuidando da segurança da pedestre. Em pensamento, agradeci, novamente, ao cuidado solidário do motoqueiro, e apaguei a primeira frase, para reiniciar a escrita:

Ontem eu bati de frente com a desonestidade e a falta de cidadania. Ontem eu bati de frente com um comportamento que tem se expandido nos últimos tempos. Saí um pouco esfolada. O protagonista do episódio acredita ter levado vantagem. Perdemos, a comunidade como um todo. Explico-me.

Precisei ir ao cartório, reconhecer minha firma num documento. Cartórios integram uma rede de instituições que dão fé e certificam a legitimidade de documentos os mais diversos. Concentram poder econômico, político e negociações inimagináveis. Funcionam de modo muito alheio à compreensão da maioria das pessoas.

Fui caminhando. Chovia um pouco, e a sombrinha cumpria a função muito mais de proteger o documento do que me proteger do frescor das poucas gotas que umedeciam a brisa. O cartório estava cheio de pessoas que aguardavam ser atendidas. Peguei minha senha e observei na tela onde se viam as chamadas. Havia 10 senhas à minha frente. Sentei-me e também aguardei. Não demorou muito para que eu fosse chamada. Tudo muito simples e rápido, para um valor tão alto a ser cobrado. 

Enquanto a moça atualizava meus dados cadastrais, um homem chegou, logo atrás de mim, querendo falar com a atendente no balcão onde eu me encontrava. Interrompeu meu atendimento, mostrando um documento, e indagando por um sinal público solicitado. Alegava ser aquela a terceira vez que ele ia buscar. A moça explicou que já tinham em mãos o sinal, e indicou para ele pegar a senha e aguardar, que seria chamado.

Eu já estava um pouco irritada pelo fato de ele ter interrompido meu atendimento sem sequer pedir licença. Mesmo assim, assisti a tudo com paciência quase professoral. No entanto, àquela altura da conversa, ele piscou o olho direito para a moça e perguntou, com voz macia e quase sussurrada, se ela não poderia atende-lo sem que precisasse entrar na fila. "Dá um jeitinho?" Eu olhei para a moça, que me olhou e não respondeu. Olhei para o homem e aguardei. Ele insistiu no pedido, de modo determinado. Não arredaria do intento. A moça me olhou, não respondeu. Na terceira investida do homem, eu lhe disse, também com voz macia, como se falasse com um estudante indisciplinado: “Meu irmão, pegue a senha, entre na fila, faça o certo!” Então ele resolveu convencer a mim quanto ao fato de que ele teria o tal direito. Afinal, era a terceira vez que ele ia ao cartório em busca do sinal público! Eu repeti: “Meu irmão, aqui tem gente que já veio não sei quantas vezes, tem pessoas de idade, tem gente com criança, tá todo mundo na fila. Pegue a senha, entre na fila, meu irmão!” Quando ele insistiu novamente, eu perdi a paciência e soltei a voz, de modo que todos ali à volta pudessem ouvir. Ela reverberou pela sala lotada. Senti um silêncio no cartório. Perguntei se ele queria mesmo furar a fila, se ele achava que tinha o direito de passar à frente de todas aquelas pessoas. Dirigi-me aos presentes: “Ele quer passar na frente de vocês! É isso mesmo?” E lembrei a ele que aquela prática era corrupção. "Pegue a senha, meu irmão!" Então ele disse: “Eu já peguei a senha” e sorriu, vitorioso, acreditando ter me enganado.

A moça finalizou o atendimento. Eu precisava pagar pelo serviço, e segui para a fila do caixa. Um senhor chegou ao meu lado, sorrindo. “Sua voz é forte, heim? E você é brava!” Buscava minha cumplicidade. Mas eu sabia que, em última instância, ele estava mesmo ao lado do homem-fura-fila. Dali, avistei o homem em pé, convencendo outro atendente para dar prioridade a ele. Ele percebeu que eu o observava, exatamente no momento quando ganhou a conivência do funcionário, que o atendeu. Ocorreu-me então que, provavelmente, não fosse a minha reação, a moça o tivesse atendido, como prática comum ali. 

Depois de atendido, o homem veio para a fila do caixa, logo atrás de mim. Movia-se, vitorioso. Debochado, começou a falar que não gostava de gente do PT, que era Bolsonaro mesmo. Para que searas se encaminha o discurso de uma pessoa que fura filas? Respondi que não, ele estava enganado, ele era cara de pau.

Voltei à rua. Já tinha parado de chover. Segui caminhando até a agência dos correios mais próxima, onde fui atendida por uma senhora gentil e ágil. Agradeci por seu atendimento, desejei-lhe uma boa semana.

Sinto vergonha de comportamentos como o daquele homem. Mas também do comportamento de funcionários que passam à frente uns em detrimento de outros. Sobretudo sinto vergonha pelo comportamento de todos os demais clientes ali, sentados, passivos ante o que se passava. Quantas pessoas passariam à sua frente, por ter decidido suas prioridades podiam se sobrepor a todas as demais. Sinto vergonha também do cinismo do senhor que veio conversar comigo, como a mostrar coragem em se aproximar de alguém tão indômita quanto eu...

Mas me sinto agraciada por encontrar, pelos caminhos, pessoas como o motoqueiro que não só pára na faixa de pedestres, como ajuda a preservar a segurança da transeunte, alertando os demais motoristas para pararem também. Ou a senhora gentil dos correios, agilizando o atendimento dos clientes, na postagem de cartas, encomendas, documentos.

Os esfolados pelo corpo cicatrizam-se, embora deixem marcas na pele, no caminho, nos sonhos... No decurso do tempo, são muitas as histórias cartografadas pelas marcas no corpo. Por vezes temo perder as forças. Por enquanto, ainda não. Só uma tristeza me toma de repente, em alguns momentos inesperados. Ou eventualmente o sono cai sobre meus olhos e pensamento de modo indefensável... Mas, por enquanto, ainda estou na arena... e ainda tenho fôlego para fazer reverberar minha voz em salas, salões e outros espaços públicos.





sábado, 9 de novembro de 2019

Cansaço e desalento



8 de novembro de 2019, sexta feira, fim de tarde. A semana foi intensa, com atividades incessantes, e alguns momentos tensos, nos quais foi necessário que eu trabalhasse questões bem difíceis. Os dias e as noites têm sido assim há tempos. E eu tenho me queixado, cada vez mais amiúde, de cansaço. Não só eu. As queixas de cansaço espalham-se como uma patologia social contagiosa que vai atingindo uma parcela importante da população, das pessoas com quem convivo, com quem compartilho, em alguma medida, atividades, projetos, afetos, utopias. Temos nossas energias exauridas, sem encontrarmos solução, antídoto, remédio.

Byung-Chul Han já escreveu sobre a sociedade do cansaço. Jonathan Crary já discorreu sobre os efeitos perversos de uma sociedade que passa a exigir de seus cidadãos estarem despertos e ativos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Os argumentos de ambos são consistentes, fundamentados. Mas minha exaustão parece ter mananciais que vão além, a despeito de integrarem, sim, as malhas do contexto em análise pelos dois autores. Eu poderia até praticar meditação, buscar outros subterfúgios, modificar a alimentação: o esgotamento persiste intocado, e me abate.

Mesmo assim, também por razões que tantas vezes me escapam, não desisto nem arredo da labuta diária, defendendo posições, propondo projetos, compartilhando aprendizagens. Pensando e buscando praticar empatia, solidariedade, poiésis...

8 de novembro de 2019, sexta feira, fim de tarde. Eu estava prostrada sobre alguma almofada, em casa, quando passou a ser televisionada a soltura do Lula, depois de quase 600 dias de prisão. Havia expectativa em relação a esse momento. Entre a multidão, ele falava com desenvoltura, energia. Agradeceu a um número enorme de pessoas. Desculpou-se com aqueles cujos nomes, inevitavelmente, teria esquecido. E prosseguiu em seu discurso de improviso, entre alegrias, aplausos, abraços e uma constelação de câmeras fazendo o registro. Com humor mas de modo assertivo, sem perder poder de ataque, posicionou-se em relação a tudo quanto que ele foi e que está sendo submetido, mas, sobretudo, ao que a população brasileira está sendo submetida.

Enquanto assistia à transmissão, outra sequência era repassada na memória: a sessão interminável, na Câmara dos Deputados, para a votação aprovando a abertura do processo de impeachment, pelo Senado, da então presidenta Dilma Rousseff. Um evento de que me evergonho, sem cura, sem lenitivos. Naquele dia, 17 de abril de 2016, eu vi a face mais obscura, amedrontadora da classe política brasileira. Naquele dia, eu vi a face da maioria dos representantes da população brasileira que, mais tarde eu seria obrigada a admitir, de fato representavam, e ainda representam, os anseios e o projeto social de boa parte das gentes nascidas neste país, marcadamente injusto, discricionário, autoritário.

Naquele dia, em abril de 2016, eu entristeci de uma dor que ainda não saiu de mim. A sessão ocorrida no Senado, no dia 31 de agosto de 2016 já não impactou tanto: estava tudo acertado, os resultados haviam sido negociados por antecedência. Não havia o que doer a mais: eu já me encontrava sob a égide da dor.

Desde então, a cada passo, o desmonte de um projeto político social imaginado, depois comprovado como viável, se não plenamente, ao menos em muitas frentes, foi sendo desmontado a passos largos. Nenhum motivo de alegria. Nenhuma brisa para refrescar os dias. Chuvas cada vez mais escassas para dar tom verde à paisagem.

Ontem, 8 de novembro de 2019, sexta feira, fim de tarde, isso tudo reascendeu em minha memória mais funda e mais afetiva. Eu entendi que minha exaustão decorre, sim, do excesso de trabalho, das tensões, das demandas que invadem a vida 24 horas por dia, 7 dias na semana, sem pausa. Byung-Chul Han e Jonathan Crary acertam em suas argumentações. Mas há outra fonte na qual esse cansaço se torna quase incurável. Essa fonte está no desalento, na falta de esperança. E ontem eu lembrei de um tempo quando eu tive esperança. Mais que isso, um tempo quando, com alegria, eu pude celebrar com quantas pessoas pequenas conquistas sociais, no âmbito dos projetos educativos, da arte, da cultura, dentre quantos outros.

Então eu chorei. Chorei muito. Depois dormi profundamente. E consegui sonhar. Um sonho breve, que logo se dissipou para a vida desperta. Mas sonhei.





segunda-feira, 14 de outubro de 2019

De passagem



O que você fez, por onde viajou?
Foi a festas?
Visitou museus?
Assistiu a espetáculos?
Aproveitou para ir a cidades vizinhas?
Duas ou três a cada dia?
Participou de grandes eventos?

Eu? Não…

Observei o movimento das pessoas…
O reflexo da luz do sol nas vidraças
O por do sol no rio
As temporalidades da cidade…
Seus sabores, silêncios e sonoridades

O meu silêncio...




domingo, 29 de setembro de 2019

Breves considerações sobre Bacurau e O Rinoceronte



Já há alguns dias fui assistir ao filme Bacurau. A sala de cinema estava cheia, e eu me reuni às milhares de pessoas que tem acorrido às sessões. Levava comigo a expectativa de gostar, e muito, do filme. Acho que ando precisando, ando desejando ver e ouvir narrativas que me arrebatem, ao mesmo tempo em que me ajudem a pensar sobre o que temos vivido nestes tempos estranhos. Tempos com cara de esfinge. Sinto-me engolida pela esfinge, mais do que capaz de decifrar qualquer enigma. Quem sabe Bacurau pudesse me dar alguma pista?...

No decurso da sessão, tive a sensação física de ser empurrada para fora da narrativa. A cada nova sequência, a cada novo contexto, deparava-me com elementos que, em lugar de me envolver, me empurravam de volta para a sala de cinema, para o desconforto da poltrona. Então eu me esforçava para voltar à narrativa. Eu queria, mesmo, mergulhar nela.

Noto que esse movimento de volta à sala de cinema, de saída da condição de imersão na narrativa em nada tem a ver com o estranhamento reivindicado por Bertold Brecht. Tratava-se, sim, de uma espécie de contra-fluxo que me empurrava para fora da correnteza, embora eu me esforçasse por seguir o fluxo.

Brecht reivindica, para o teatro, não a função catártica, mas o estranhamento capaz de nos fazer pensar. É preciso lembrar que se trata de uma encenação, e é preciso discuti-la. A função catártica não necessariamente resulta num processo reflexivo, mas numa espécie de purgação do que faz mal, dos excessos. Essa purgação minimiza, mesmo que provisoriamente, o mal estar. (Peço perdão pelo modo reducionista com que discorro sobre catarse...). 

No caso de Bacurau, suspeito de uma experiência catártica vivida pela maioria das pessoas. Uma catarse da qual eu é que não consigo tomar parte... Ao final da sessão, uma pessoa muito querida veio ao meu encontro, profundamente impactada pelo filme. Disse-me estar sem palavras para descrever a experiência. Buscava em mim ecos de sua catarse. Fiz um esforço, mas não consegui corresponder. Senti-me incompleta. Era como se eu tivesse sorvido da mesma bebida que ela, contudo sem experimentar o mesmo efeito. Saí da sessão um tanto frustrada, querendo entender o que se passava.

Recorrentemente, todos se referiam ao filme como uma experiencia impactante. Impacto do qual não fui destinatária. Por que?

Meu primeiro impulso foi tentar compreender o que faltava ao filme. Há várias lacunas, fios soltos na narrativa, figuras incompletas. Elementos que não têm continuidade. Argumentos que talvez não se sustentem. Mas nada disso justificaria minha falta de conexão com o filme. Li algumas críticas de pessoas que não gostaram do trabalho. Seus argumentos pareciam fazer sentido, mas, ao fim e ao cabo, não chegavam ao ponto da minha frustração. Do mesmo modo, os argumentos de críticos que gostaram do filme faziam sentido, mas igualmente não me convenciam de modo efetivo.

Até que ouvi, de outra pessoa muito querida, que o diretor sabia exatamente para quem produziu o filme, seu endereçamento e, portanto, seu discurso/narrativa tinham uma coesão interna que atendia a esse projeto. Um tal argumento modificou minha percepção do filme, abrindo-me um pouco mais para questões às quais eu me mantivera mais refratária. Ainda e assim, havia um oco, uma vereda entre eu e o filme onde eu não me encontrava.

Quando, finalmente, retomei a ideia dos estrangeiros participando da caça aos habitantes de Bacurau, inimigos de morte, caí em mim, na minha frustração, na minha dor. Não, a metáfora criada em Bacurau não aborda as circunstâncias que fazem brotar a maior dor, neste momento: os inimigos capazes de decepar, de assassinar os sonhos, a dignidade, a empatia não são estrangeiros, não vieram de fora, não falam inglês. Ao contrário: convivem comigo, compartilham comigo os quotidianos, são os meus vizinhos, são pessoas de meus afetos, são pessoas que têm o meu DNA.

Recosto-me, então, na cadeira, e me volta à memória a figura do rinoceronte, construída por Ionesco... O primeiro rinoceronte passa pela rua, em fúria, desumanizado. Depois dele, outras pessoas também vão se tornando rinocerontes... inclusive pessoas muito próximas a mim... e eu estou ali, à mesa do café, conversando sobre política, arte, ciência, problemas sociais... As pessoas que me são caras, aos poucos, se tornam rinocerontes... eu eu ali, conversando, à mesa do café... 

O texto de Ionesco me desconcerta, ainda hoje, embora tenha sido escrito há mais de 50 anos. Ele me empurra para o lugar da pergunta sobre mim mesma, no contexto no qual me encontro. Ele me faz pensar que pode chegar o momento quando eu também queira me tornar rinoceronte... talvez já não consiga... se assim, o que poderá acontecer?

Respiro fundo. Não sei. Nada sei... 

Aos poucos, vou conseguindo entrar no fluxo de Bacurau, no passo da compreensão daquilo que, nele, me empurra para fora de seu fluxo. Pretendo vê-lo novamente. Talvez consiga fazê-lo, antes que me transforme em rinoceronte... 



Sugestões:
O Rinoceronte pode ser lido, integralmente, aqui.
Um ensaio sobre o texto de Ionesco pode ser lido aqui
Uma crítica sobre Bacurau que pode ser lida aqui



sábado, 28 de setembro de 2019

Das cigarras




No fim da tarde quente e seca, estacionei o carro em meio ao trânsito intenso e tenso, em frente a uma frutaria. Quando abri a porta, ouvi, entre os sons dos motores, o início de um trinado, que se prolongou, estendendo-se pelo céu fumacento. Parei, tomada por uma alegria quase infantil, de quem encontra um presente em meio ao caos. Por alguns instantes, apenas o trinado distante da cigarra solitária ocupou minha atenção. Depois a percebi reverberando entre os prédios, as vidraças, os veículos em movimento. O ar pesado tornara-se mais leve. Quase dançante. Corri comprar bananas, castanhas, abacaxi. Dentre as cigarras, em franco processo de extinção, algumas ainda resistem. Até quando? Vida longa a elas!




sábado, 10 de agosto de 2019

Das instituições nosocomiais





A palavra nosocômio, do ponto de vista etimológico, tem sua origem no grego, e resulta da articulação de duas ideias: doença e processo de curar: νόσος (nósos, "doença") + κομέω (komeo, "curar") Assim, as instituições nosocomiais constituiriam naqueles espaços onde se deveria promover a cura para as doenças. 

Contudo, trazendo-se o conceito de nosocômio para o contexto da sociedade capitalista, de consumo e descarte, é preciso perguntar como se concebe a ideia de cura.

Nas instituições nosocomiais, os nossos hospitais, se realiza um enorme e complexo conjunto de procedimentos, desde os mais simples, como consultas breves, a cirurgias delicadas e demoradas, além de internações de longa duração. Em todas essas situações, a noção de cura que se pratica é tão parcial, tão fragmentária e reduzida, que acaba implicando na promoção de outros adoecimentos, muitos.

Explico-me. Um paciente procura uma emergência queixando-se de algum mal. A equipe logo trata de verificar uma causa possível, imediata, para o tal mal. Fazem-se exames. Chega-se a uma possibilidade de causa. Então aplicam-se os procedimentos considerados, ao momento, como os mais adequados para neutralizar ou abafar a causa, de modo pontual. Contudo, desses procedimentos desdobram-se efeitos colaterais de toda sorte, desde escarificações, lesões na pele, infecções por contaminação, até problemas e adoecimento de outros órgãos em razão das medicações.

Assim, o paciente pode até ter minimizado o mal que o levou ao nosocômio, mas são sempre grandes as chances de que deixe a instituição levando, em sua bagagem, uma coleção de problemas outros, os quais exigirão, também, novos cuidados e procedimentos... Numa espiral sem interrupção. Ou melhor, que se interrompe apenas com a morte.

A instituição nosocomial na sociedade capitalista, de consumo e descarte, é regida por um modelo cuja meta é assegurar que seus pacientes resolvam seus problemas apenas parcialmente, não fiquem de todo curados. É preciso certificar-se de que eles retornarão para, assim, manter os fluxos da própria instituição. Sobretudo, os fluxos financeiros.

Nesses termos, envidam-se esforços para que o paciente não morra. "Fizemos tudo quanto estava ao nosso alcance..."  Os lucros cessam quando o paciente morre. Mas também é preciso garantir que não se alcance a cura mais eficiente. Afinal, paciente sadio também não é lucrativo para a instituição.

Essa lógica perversa deixa pacientes e funcionários em todos os quadros vulneráveis e infensos aos processos de adoecimento, de ferimento, escarificação da saúde.

Os nosocômios, como funcionam hoje, não são lugares de curar a doença, em seu sentido mais fundo. Sobrepõe-se, a esse sentido, um outro: o dos lugares de se fazerem negócios. Tratam-se dos negócios e dos negociantes que dependem da doença, que precisam dela. Portanto, ao final, não passam de lugares de adoecer. Tópos árrostos. Sem alento.








Em tempo, toma-se a palavra nosocômio como se fora sinônimo de hospital, o que é um equívoco. Seus sentidos e suas histórias são bem distintas. A palavra hospital tem a mesma raiz de hotel, ou do francês hostel. Elas derivam do latim hospes (que também resulta na palavra hóspede), e significa “aquele que é recebido”. Hostel, hospital, hospitaleiro, hóspede formam um conjunto de palavras que se reportam ao latim medievo “hospitale”. A noção de hospital que se originou referia-se à instituição voltada para o acolhimento e cuidado dos necessitados em geral.

As palavras hospital e hotel possuem a mesma raiz etimológica – ambas derivam do latim hospes, que significa "aquele que é recebido". Quanto ao vocábulo hotel, o mesmo surgiu do francês hôtel, que no século XIII era chamado de hostel em referência ao latim medieval hospitale. Já a ideia de hospital nasceu da necessidade de distinguir a instituição que acolhia e cuidava dos necessitados em geral.

A palavra hospício integra também essa família, designando casas que hospedavam pessoas doentes, velhos e crianças abandonadas. Só mais tarde é que foi associado mais especificamente a lugares para onde se recolhem pessoas com problemas mentais. Sempre os desafortunados, os que não têm lugar nas malhas sociais.

Seria possível relacionar a palavra hospício, portanto, a manicômio. Contudo, manicômio, de origem grega, também se refere a lugar de cura dos problemas que afetam o comportamento: manias, loucuras, iras.

Assim, do ponto de vista etimológico, os sentidos de hospício e manicômio não coincidem, do mesmo modo que os sentidos de hospital e nosocômio.




terça-feira, 9 de julho de 2019

Balanço provisório do percurso docente de uma professora-orientadora que, de repente, se olha no espelho, e leva um susto.


Hoje, 9 de julho, foi a banca de qualificação da tese de doutorado da Carol. Fizeram parte da banca duas mulheres especiais: Carla e Lara. E, de repente, olhando para elas, dei-me conta de que os 15 anos percorridos estavam ali, cheios de energia e vitalidade, renovados em pessoas que, agora, partilham das empreitadas, em parcerias de que não abro mão, e que me revigoram.

Respirei fundo, e revisitei um dos caminhos que constituem esse percurso: as doutoras e os doutores que estabeleceram interlocução comigo em seus processos de formação. Que gangue maravilhosa, essa, que vem se constituindo! Eu tenho muita sorte!

Das mulheres da banca de hoje, Carla é com quem há mais tempo eu tenho caminhado junto. Na verdade, desde o comecinho desses 15 anos, quando ela fazia ainda graduação. Foi minha orientanda de iniciação científica, com um trabalho belíssimo que depois foi publicado com o patrocínio da Petrobrás. Mais tarde, fez o mestrado em Barcelona, e o doutorado, do qual assumi a cotutela no processo de dupla titulação. Em seguida, Carla passou no concurso, e se tornou professora. Lado a lado, caminhamos, hoje. Carla é dessas pessoas em quem eu confio tanto, a ponto de poder discordar dela sem medo. Minha amiga, amada. 

Lara já era docente na UFG quando chegou para o doutoramento. E assumiu parceria desde o primeiro momento: partilhamos dúvidas, inquietações, sofrências, banhos de chuva, risos moleques, viagens, redes, aprendizagens, setes de filmagem. E continuamos assim, inventando modas que nos desafiam. Mas não se enganem: ela não deixa passar nada, sempre com a perspicácia sensível e crítica que orienta seu estar no mundo. Hoje integra o corpo docente de dois programas de pós-graduação, reunindo, em torno de si, um grande número de orientandos, seus interlocutores. Quase vou me sentindo, assim, meio avó...

Mas foi Aline a primeira orientanda de doutorado com ingresso por meio de seleção regular para o programa. A doce Aline, a maja dançarina de flamenco. Também foi a primeira orientanda que passou um ano fora, em Barcelona, para cumprir período de doutorado sanduíche. Andou a fazer cartografias de afetos e deslocamentos. Andou a perguntar o que pensavam e aprendiam essas gentes que andavam a se deslocar daqui para lá para estudar. Já doutora, foi ensinar primeiro em Florianópolis, e agora em Porto Alegre, professora efetiva da UFRGS. Estivemos juntas, eu, ela e Lara, num Simpósio temático da ANPAP, em Campinas, em 2017. Saudades, muitas.

Depois veio a Lara. No ano seguinte, chegou Vandimar. Vinha com perguntas, questões tantas. Tinha ganas de fotografar, produzir filmes, discutir questões com pessoas da comunidade indígena tapirapé. Passou um ano, pelo programa de doutorado sanduíche, no México. Eu estive lá, nesse período, e nos encontramos: eu, ele e Itandehuy. Depois Ita também veio para cá, com ele, e está já a concluir seu mestrado. Vandimar concluiu o doutorado logo depois de seu retorno. Ainda bem que não mais nos tenhamos perdido de vista. Por meio dele, conheci Paula, que cumpriu doutorado sanduíche no nosso programa, com a minha supervisão, entre o final de 2018 e o início de 2019.

O grupo que se seguiu foi formado por três moços queridos, cada qual com uma história tão singular e potente quanto o outro. Começo pelo Paul, que já fora, durante a graduação, meu orientando de iniciação científica e de conclusão de curso. Chegou ao mestrado e, em apenas um ano, já escrevera a dissertação completa. Assim, fez acesso direto ao doutorado. Tudo desse modo: quase sem tomar fôlego, com pressa de perguntar, de virar do avesso, com intensidades de viver. Durante o doutorado, viveu processos ainda mais intensos, além da escrita, também de criação, junto ao Grupo EmpreZa. Com Paul nunca teria sido possível estacionar no mediano. Foi assim até o final. Na semana anterior à defesa, apresentou um trabalho na feira SP Arte. Um trabalho exaustivo, que exigiu um esforço extremo de seu corpo. Terminou exaurido. Mal se recuperou, e enfrentou a banca, para a defesa. O trabalho apresentado na feira lhe valeu uma residência artística em Londres. Paul segue seu caminho como artista, como pessoa que pensa e se pergunta insistentemente. Tenho saudades de conviver com ele.

No mesmo ano do acesso de Paul ao doutorado, chegou a Goiânia Juan, vindo de Manizales, Colômbia, depois de ter feito o mestrado na Universidade de Caldas, com minha orientação. Veio pelo programa da CAPES para estudantes estrangeiros. Juan é um desses presentes que nos chegam à vida, pelo modo suave como age, sem prescindir de densidade, de seriedade, de competência. Tampouco do afeto. É um parceiro, antes de qualquer coisa, desses que não mais sairão da minha querência. Sorte a minha, pois ele, concluído o doutorado, voltou a estudar, curso de graduação, como discente de licenciatura em artes visuais. É professor numa faculdade da iniciativa privada. A universidade pública precisa de profissionais com o seu perfil. A humanidade precisa de mais Juans.

O terceiro desse grupo foi o Marcelo, que já fizera o mestrado no nosso programa, mas em outra linha. Dessa vez, enveredou pela linha c, para pensar o audiovisual e as relações de mediação. Marcelo aceitou o desafio de assumir uma turma, durante um semestre, numa escola pública do ensino médio. Ali, desenvolveu sua pesquisa, trabalhando na escola, com as e os adolescentes. Professor na universidade estadual, passou a pensar e oferecer formação, no âmbito do audiovisual, para professoras e professores da educação básica. E continuamos, nós dois, a fazer coisas juntos. Neste semestre próximo, vamos ministrar uma disciplina sobre cinema, arte e educação, para as turmas do curso de licenciatura em artes visuais na modalidade ead. O Juan vai participar, como estudante. O Renato também vai participar, como doutorando, cumprindo estágio docência.

Sobre as doutorandas e os doutorandos que ainda estão em percurso, prefiro não me estender, pois temos diferentes eitos ainda a cumprir em caminhada compartilhada. A Carol qualificou sua tese hoje. A Adriane defende em meados de agosto. O Renato deve qualificar no final de agosto. O Paulo defenderá a tese no final de novembro. No segundo semestre deste ano, um novo grupo de pós-graduandos iniciará sua caminhada, abrindo novas veredas, para outras venturas de desaprender e aprender o novo.

Eu sou mesmo uma pessoa de sorte! E continuo, cada vez mais sentimental.







segunda-feira, 20 de maio de 2019

Tempos de truculência



Adjetiva-se como truculenta aquela pessoa que se comporta, na relação com os demais, como se estivesse numa mesa de truco. O jogo de carteado admite que o jogador minta, finja ter uma carta forte, para pressionar os demais jogadores. Dá uma informação errada, brada e bate na mesa para mostrar força e convicção num dado que é falseado. Fake news. Os outros jogadores acreditam, se ferram. E tudo bem. Segue o jogo.

Diferentemente do jogo de xadrez, ou de dama, por exemplo, não prevalece a capacidade de análise das situações, ou de projeção e planejamento; não prevalece a lógica, tampouco a disposição à reflexão. Valem os efeitos provocados pelas fake news, a capacidade de intimidação do gesto agressivo, ainda que sobre bases mentirosas. Ganha-se no grito: Truco!!!

E eu pergunto: é isso mesmo? O que faço, eu, que não sei, nem quero jogar truco?






sábado, 5 de janeiro de 2019

Hexagrama 23: desintegração


As linhas obscuras estão prestes a galgar o cume e provocar a queda da última linha firme e luminosa, exercendo sobre ela sua influência corrosiva. O inferior, o obscuro, não luta de maneira direta contra o que é superior e forte, mas vai solapando lentamente em sua ação dissimulada, até que ao final provoca-lhe a queda. As linhas do hexagrama representam a imagem de uma casa. A linha superior é o telhado. Ao ruir o telhado, a casa desaba. O hexagrama é atribuído ao nono mês (outubro-novembro). O poder Yin avança dominando cada vez mais e está prestes a suplantar por completo o poder Yang.

DESINTEGRAÇÃO.
Não é favorável ir a parte alguma.
Esta é a época do avanço dos inferiores, que estão prestes a expulsar os últimos homens fortes e nobres. Sob tais circunstâncias, decorrentes do ciclo em andamento, não é favorável ao homem superior empreender coisa alguma. A atitude correta nessas épocas adversas deve ser deduzida das imagens e seus atributos. O trigrama inferior significa a terra, cujo atributo é a docilidade e a devoção. O trigrama superior significa a montanha, cujo atributo é a quietude. Isso sugere a aceitação da época adversa, mantendo-se a quietude. Não se trata aqui de uma iniciativa humana, mas das condições do ciclo em vigor; estes ciclos, seguindo as leis celestiais, alternam o aumento e a diminuição, a plenitude e o vazio. Não é possível se contrariar essas condições do tempo e por isso não é covardia, e sim sabedoria, submeter-se, evitando a ação.

A montanha repousa sobre a terra: a imagem da DESINTEGRAÇÃO.
Assim, os superiores só podem garantir suas posições mediante dádivas aos inferiores.
A montanha repousa sobre a terra. Se ela for íngreme e estreita, não tendo uma base larga, ruirá. Sua posição é segura somente quando se ergue da terra larga e ampla, e não orgulhosa e íngreme. Do mesmo modo, aqueles que governam repousam sobre o amplo fundamento do povo. Eles também devem ser generosos e magnânimos como a terra, que a tudo sustenta. Desse modo, tornarão sua posição segura como a montanha em sua tranqüilidade.

JULGAMENTO
“Desgastando-se perigosamente não é conveniente ter aonde ir.”
Obter este hexagrama na consulta ao oráculo significa que aquilo que constitui o ponto principal da consulta está prestes a acabar, está numa situação muito frágil, está se desmanchando, desabando. O sujeito ou o objeto da consulta, ou ambos, estão numa situação de enfraquecimento e ruína. Se houver elementos contrários a eles, antagônicos, estes estão prevalecendo no momento e sua atuação nem sempre é visível, pode estar oculta ou dissimulada.

Por tudo isso, não é o momento para se fazer planos ou empreender ações com vista à consecução de um objetivo. Se há um objetivo que se almeja, ele provavelmente não será alcançado por enquanto. Se há um desenlace que se receie, é muito provável que ele ocorra por estes tempos. Assim, de um modo geral, este é um hexagrama de conotação mais negativa do que positiva, embora possa, em princípio, ser bom ou mau. O positivo praticamente se restringe aos casos em que se pergunta sobre o andamento de uma realidade negativa e ele nos diz que já está perto o seu fim. Mas, ainda neste caso, o que pode estar se desgastando, prestes a desmoronar, podem ser as esperanças do sujeito da consulta com relação àquela realidade. Os aspectos negativos são a tal ponto predominantes que a pessoa não tem como lutar contra eles. Não pode atacá-los e, para defender-se, pode apenas submeter-se ou resistir passiva e caladamente e entender que a vida é assim mesmo: apresenta períodos bons e maus.

Isso é verdadeiro principalmente se este hexagrama saiu sozinho ou como segundo na consulta, indicando a forte tendência ao desmoronamento que existe na realidade enfocada.

Fontes: 
1. I Ching, o livro das mutações, de Richard Wilhelm