domingo, 20 de dezembro de 2015

Duas mulheres, duas artistas, uma saudade

 p/ Selma Reis e Nilce Eiko

Ontem partiram duas mulheres cujos trabalhos estão entremeados à minha vida com doses especiais de afeto.

Nilce, nossa querida Eiko, uma artista sensível, que tive o prazer de conhecer numa sala de aula, eu, no papel de professora, ela, no papel de estudante, inquietas, ambas, aprendendo juntas.

Selma Reis, que não conheci pessoalmente. Apesar de não acompanhar amiúde seu trajeto como artista, saber de sua morte foi como ter apagada a voz que, em música, marcou partes da minha vida de modo indelével. Estranho sentimento...

Pela memória de Nilce, disponibilizo um vídeo com a música “Meu veneno”, de Milton Nascimento e Ferreira Gullar, cantada por Selma Reis.

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vídeo disponível aqui


Pela memória de Selma Reis, cantora e atriz, disponibilizo uma imagem do trabalho de Nilce Eiko Hanashiro.



Porque a vida é finita, e finda, e somos frágeis, e estamos apenas de passagem...




             






segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Um estranho animal...

Foto: Gabriel Chaim
disponível em http://www.gabrielchaim.com/ 




Que animal estranho é esse, da espécie autorreferida como humana...

Constrói aparatos, complexas estruturas, geringonças de complicado funcionamento. Procria, ampliando a população em progressão geométrica. Destrói e mata ainda com mais velocidade. Destrói a si mesmo, aos próprios aparatos e estruturas. Mata representantes da própria espécie. Mas também mata e destrói animais de outras espécies, seus aparatos, suas construções.

E é capaz de sentar-se, em meio aos escombros, com olhar altivo, pleno de orgulho por seus feitos.

Esse animal me inspira medo...





segunda-feira, 30 de novembro de 2015

papel para carta...

Para minha mãe que hoje completa 88 anos,
e se ressente por não mais receber cartas...

Cheguei à papelaria, me aproximei do balcão. A moça, solícita, ofereceu-se para me atender. Você tem bloco de cartas? Ela me olhou de um modo estranho, como se eu tivesse pedido um quilo de carne assada, talvez. Envelope para cartas? perguntou-me, com uma entonação na voz que parecia mais querer corrigir um possível erro que eu teria cometido. Não, bloco para escrever cartas. Eu já começava a sorrir por dentro, tendo compreendido a situação. Ela me trouxe um bloco de anotações, com folhas quadradas, pequenas. Insisti: um bloco com folhas de papel para escrever cartas. Já viu algum? Ela parou, pensou. Buscou na memória alguma referência ao que eu lhe solicitava. Sentiu-se impotente. Há muito tempo não se vende papel para escrever carta... sentenciou.

Saí dali com uma certeza: voltarei a escrever cartas para postar via correios. E o primeiro desafio será encontrar blocos com papel de cartas.






domingo, 22 de novembro de 2015

O olhar daquele que vem de longe


Assim que embarquei e me acomodei na poltrona, ao lado esquerdo do corredor, o meu companheiro de viagem chegou, com uma mochila. Meio tímido, cumprimentou-me, e se acomodou. Chamou-me a atenção seu modo discreto, e o cuidado que teve em organizar-se sem invadir o espaço da minha poltrona. Perguntou-me a que horas chegaríamos a Goiânia. Constatei, ali, sua pouca familiaridade com o percurso da viagem.

Seguimos: eu, tentando cochilar um pouco, ele, atento à paisagem visível pela janela. Depois pegou um caderno de capa amarela, com um lápis desses que têm uma borracha embutida na ponta oposta à com a qual se escreve ou desenha, e começou a escrever. Confesso que fiquei curiosa, ante comportamento tão pouco usual.

Já fora da cidade, perguntei-lhe se era a primeira vez que iria a Goiânia. Sem nenhum sotaque, respondeu Sim, estou no Brasil há três dias, sou dos Estados Unidos. Talvez ante minha expressão de surpresa pela desenvoltura com que falava o português brasileiro, completou a informação Minha família é de Goiânia. Fizemos uma breve pausa no diálogo. Ele tomou a iniciativa Você sabe onde fica o Setor Pedro Ludovico? Pela primeira vez percebi o sotaque norte-americano. Sorri em silêncio: pronunciar o nome Pedro Ludovico não é mesmo exercício muito fácil para estrangeiros, mesmo os bem treinados, como ele. Respondi que sim, e tentei situá-lo em relação à rodoviária, onde desembarcaríamos. Alguém virá esperar por você? Sim, já o estavam aguardando.

Por vezes, fotografava alguma cena que lhe chamasse mais a atenção. Anotava coisas no caderno de capa amarela. Achei que ele gostaria de saber que em Anápolis havia uma réplica da Estátua da Liberdade. Ele riu Como a de Nova York? Confirmei. Já no viaduto, fotografou a réplica, achando divertido: Legal!

Seu olhar era inaugural: via, pela primeira vez, as coisas sobre as quais provavelmente ouvira falar desde sempre. Via, pela primeira vez, as paisagens das quais sua família original provavelmente sentisse saudades. Talvez sentisse saudades, ele, daquilo que não conhecera, mas soubera por outrem. Reconhecia a si e ao lugar ao qual pertencia sem antes ter estado ali.

Já desembarcados, desejei-lhe boa estadia. Ele ficou aguardando a liberação da bagagem. Segui, me perguntando se é possível restaurar o encantamento do primeiro olhar.





sábado, 21 de novembro de 2015

Sobre ler e sobre escrever, num sistema marcadamente produtivista

Para a Koyziña, 
também conhecida como Alzira, minha querida,
 que fica cansada só de ver tanta letrinha...
 prá que tanta?


Não vou tratar das dores e mal-estares da sociedade marcadamente produtivista na qual vivemos, e de cujo princípio nos tornamos reféns. Isso ainda me transborda, e não consigo alinhavar muitas linhas de raciocínio a respeito. Neste momento, apenas ouso chamar ao foco um pequeno e insignificante recorte desse contexto, uma das traduções desse princípio produtivista na vida acadêmica, seja de docentes, seja de discentes.

No Sistema Nacional de Pós-Graduação há uma pressão, em contínuo crescente, sobre professores e estudantes, para que produzam(os). Desenvolvem-se sistemas de avaliação que, de um lado, criam as condições coercitivas para que a produção aconteça. Os mesmos sistemas, de outro lado, verificam a idoneidade e qualidade dos meios pelos quais essas produções são veiculadas. Ou seja: não basta escrever artigos, é preciso tê-los avaliados e aprovados nos meios qualificados pelos sistemas de avaliação geridos pelas agências reguladoras e financiadoras dos sistemas.

Há uma corrida por publicações. Acumulam-se periódicos nominados como científicos, em versões impressa e online, lutando por um lugar ao sol, de preferência, lugar ao sol A1 ou A2... talvez admita-se, provisoriamente, B1...[1].  Acumulam-se artigos, e mais artigos, cujos dados são lançados nos relatórios de produção. Acumulam-se livros que reúnem capítulos assinados por autores diversos, nem sempre em interlocução, mas irmanados na urgência de publicar. Acumulam-se trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses, todas disponibilizadas online, quase nunca lidas.

Textos e mais textos... Quase nunca lidos...

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(Pausa para um trecho do conto Fim do mundo do fim, de Julio Cortázar...)

Como os escribas continuarão, os poucos leitores que no mundo havia vão mudar de profissão e adotar também a de escriba. Cada vez mais os países serão compostos por escribas e por fábricas de papel e de tinta, os escribas de dia e as máquinas de noite para imprimir o trabalho dos escribas. Primeiro, as bibliotecas transbordarão para fora das casas; então, as prefeituras resolvem (já estamos vendo tudo) sacrificar as áreas de recreação infantil para ampliar as bibliotecas. Depois sucumbem os teatros, as maternidades, os matadouros, as cantinas, os hospitais. Os pobres aproveitam os livros como tijolos, grudam-nos com cimento e constroem paredes de livros e moram em casebres de livros. Então acontece que os livros transbordam das cidades e entram nos campos, vão esmagando os trigais e os campos de girassóis, o Ministério da Viação mal consegue que os caminhos fiquem desimpedidos entre duas paredes altíssimas de livros. Às vezes uma parede cede e há espantosas catástrofes automobilísticas. Os escribas trabalham sem trégua porque a humanidade respeita as vocações e os impressos já chegam à beira do mar. O Presidente da República telefona para os presidentes das outras repúblicas e propõe inteligentemente jogar no mar o excedente de livros, o que se faz ao mesmo tempo em todas as costas do mundo. Assim os escribas siberianos vêem seus impressos jogados no oceano glacial e os escribas indonésios etc. Isto permite aos escribas aumentarem sua produção, porque volta a haver espaço na terra para armazenar livros. Não pensam que o mar tem fundo, e que no fundo do mar começam a amontoar-se os impressos, primeiro em forma de pasta aglutinante, depois em forma de pasta consolidante e, finalmente, como um chão resistente embora viscoso, que sobe diariamente alguns metros e acabará por chegar à superfície. Então, muitas águas invadem muitas terras, produz-se uma nova distribuição de continentes e oceanos, e diversas repúblicas são substituídas por lagos e penínsulas, presidentes de outras repúblicas vêem abrir-se imensos territórios a suas ambições, etc. 
(...)

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(finda a pausa, retomando o fio da meada...) 

Assusta-me o fato de que não haja nenhuma expectativa quanto à leitura (não é possível ler tudo quanto seja publicado, nem há interesse: a maior parte se repete, diz do mesmo e da mesma maneira...). É claro, há um pressuposto: para escrever um texto, seu autor terá lido outros autores, tanto que ao final, nas referências, fará uma relação daqueles cujo pensamento contribuiu para apoiar sua linha de raciocínio. No entanto, eu contesto esse pressuposto. Desconfio, quase sempre, que essas leituras sejam aligeiradas, sob pressão, para atender o ritmo de produção exigido, para não perder o espaço de visibilidade, para ganhar melhores posições no cenário das publicações... para, quem sabe, passar de B1 para A2...

Foi assim que me surpreendi quando, fazendo um despretensioso curso de licenciatura a distância (sem maiores expectativas no quesito qualidade das discussões...), descobri que, na lista das atividades complementares a serem cumpridas (atividades culturais em geral, cursos de extensão, eventos, etc.), eu poderia incluir relatos de livros que li no período (bem como de filmes que tenha visto, além de espetáculos). De livros que tenha lido? Na dúvida, retomei o item, e solicitei à tutoria orientação a respeito. Sim: minha interpretação estava correta. Eu poderia relatar o conteúdo de livros que tenha lido no período, estabelecendo relações com o conteúdo do curso, e isto me valem horas para o cumprimento semestral das atividades complementares.

Feliz surpresa. Terá valido o curso saber que momentos de pausa, de livre leitura, nalguma instituição, tem atribuído valor no processo de formação.

Enquanto isso, sob a pressão dos sistemas de avaliação de produtividade das graduações e pós-graduações, escrevem-se inumeráveis textos para ninguém... apenas para constar nos relatórios de produção...






[1] Escala de avaliação à qual periódicos de artigos científicos são submetidos, gerida pelo sistema WebQualis Periódicos, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A escala vai de A1 a C, sendo que A1 é a avaliação máxima, e C a avaliação mínima, além das produções e periódicos sem qualificação, que sequer entram nessa escala (em outras palavras, é como se não existissem...). Livros, eventos e produção artística também têm sistemas próprios de avaliação, chamados Qualis Livros, Qualis Eventos, e Qualis Artístico, todos pautados pela mesma lógica.








a tarde cai, a chuva cai...


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sábado, 7 de novembro de 2015

Coisas que se pode perguntar com a chegada de um vizinho inusitado



Foto: Ruth dos Santos Martins


Os fluxos da cidade parecem caóticos, suas dinâmicas parecem escapar a maiores sistematizações. Enganam-se os que acreditem nisso. A cidade observa regras e critérios rígidos, que sistematizam a vida muito além das leis e normas explicitadas pelas jurisdições vigentes. Quando algum indivíduo ocupa lugar não previsto em sua malha, causa espanto e desconforto. Desorganiza o quotidiano. Desloca percursos...

Nas cidades, as pessoas habitam apartamentos, casas e barracos. Há os que habitam as calçadas, nas ruas, ou recantos em viadutos e pontes. A cidade prevê, em sua própria estrutura, a existência dos moradores de rua. Por isso mesmo, eles permanecem invisíveis aos demais, na maior parte do tempo, como se houvesse paredes em torno deles.

Passemos, pois, à cena central deste relato: uma quadra residencial, com edifícios de apartamentos, jardins entre os edifícios, e vias internas de acesso, para carros, aos estacionamentos locais. Numa lateral, prédios comerciais, com alguns apartamentos minúsculos nas sobrelojas, habitados por alguns comerciantes locais. Pelas calçadas, transitam passantes que chegam para suas jornadas de trabalho, ou retornam ao final delas. Seguem, também, moradores que levam seus cães a passear, ou fazem caminhadas para sair da letargia sedentária à qual a maior parte das pessoas está submetida. Alguns ambulantes, eventualmente, vendem frutas e verduras, instalados provisoriamente à beira de alguma das vias internas. Muitos pássaros habitam as muitas árvores que dão sombra generosa, e passeiam entre as plantas floridas, em busca de alimento. Eventualmente, algum morador de rua se instala à beira dos edifícios comerciais. Logo a administração pública providencia seu deslocamento para um centro de atendimento social.

Esse pode ser considerado um quadro protocolar dentro dos padrões de normalidade para o fragmento da cidade trazido ao foco, neste texto.

Mas houve um dia quando uma personagem que não se enquadra em nenhum desses perfis passou a habitar um espaço nem um pouco usual. Um rapaz de porte saudável instalou uma barraca bem equipada sob os galhos de um pé de buganvília florido, próximo à calçada entre o último edifício residencial da quadra e a comercial local. Chegou, assim, vindo ninguém sabe de onde, escolheu o espaço bucólico, e fixou morada. Montou a barraca, organizou uma tenda um pouco mais ampla, para proteger seus pertences instalados num carrinho desses usados em supermercado, com rodas adaptadas e amortecedor, o que facilitava seu deslocamento. Na varanda improvisada, colocou uma banquetinha dobrável.

Os moradores ficaram surpresos com a novidade. Não se tratava de um morador de rua. Nem ambulante, nem passante, nem trabalhador contratado para alguma empreitada na área pública. Inicialmente, acharam que fosse passageiro, mas os dias foram passando, e o morador foi ficando por ali.

Os olhos curiosos começaram a tentar decifrar a estrutura montada pelo novo vizinho, além do que estava mais explícito. Parecia haver uma bateria alimentada por energia solar. Assim, o morador operava vários aparatos, como televisão de pequeno porte, computador, telefone. Todos respiravam aliviados pelo fato de se tratar de alguém extremamente civilizado, que não fazia barulho, não emitia qualquer sinal que causasse desconforto, além de limpar suas instalações, depositando, diariamente, o lixo no lugar adequado para a recolha pelo sistema público de limpeza. Nos dias que ali permaneceu, não fumou, não bebeu.

Mas, ao mesmo tempo, os moradores se inquietavam, perguntando-se o que estaria fazendo ali uma pessoa com tal perfil: portador de equipamentos, com postura virtuosa, civilizada. Tratava-se de uma situação toda fora do lugar. Indecifrável. Além disso, sentiam certo receio, pois de onde ele se instalara era possível observar a movimentação nas unidades residenciais do prédio. Daí a sensação de insegurança.

Apesar de tudo, ninguém foi ter com o novo morador. Nem para dar as boas vindas, nem para arguir sua identidade, nem para pedir que saísse dali. Apenas um membro de uma igreja neopentecostal das proximidades resolveu oferecer-lhe a oportunidade de entregar-se ao Cristo, como única e talvez última chance de ser salvo. À noite, pela primeira vez, o morador puxou conversa com o porteiro do prédio contíguo à sua morada. Estava irritado com a tentativa de conversão. Contou que, em resposta, teria oferecido ao crente uma caixa de fósforos para queimar as páginas da sua Bíblia. Entre curioso e cioso de seu ofício, o porteiro decidiu manter-se reservado, e não avançar muito naquela conversa. No que não foi importunado pelo morador extra protocolar.

Poucos dias depois do episódio, ninguém sabe por qual razão, o rapaz desmontou a barraca, organizou todos os seus pertences dentro do tal carrinho de supermercado adaptado, e seguiu, pela calçada. Primeiro desceu, na direção leste. Pouco depois retornou, voltando rumo oeste. E foi-se. Dele não se teve mais notícia.

Aquele fragmento da cidade retomou sua normalidade. Mas ao se olhar para a área próxima ao pé de buganvília, os moradores do edifício contíguo imaginam a barraca montada. Ecos da perplexidade que tomou a todos ainda reverberam nessa lembrança. Ecos de um viver disciplinado pela cidade, a ponto de não se ter consciência sobre as grades que o cercam, e os limites que privam seus movimentos.






quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Trânsito em Goiânia ou corrida de obstáculos


Abro a porta da garagem. À saída, deparo-me, obstruindo a saída, com uma senhora fazendo manobra com seu carro ao meio da rua, para entrar na loja de carros usados, bem à frente. Bloqueio o portão automático, para que não bata no meu carro, e aguardo, pacientemente, que ela termine sua operação. Vários carros acumulam-se, na rua, nos dois sentidos. Uma tensão se instala. Ela me olha com raiva. Depois aguardo ainda mais algum tempo, até o fluxo da rua se normalizar, e também entro no fluxo. Em seguida, deparo-me com uma camioneta parada, em fila dupla, em frente à distribuidora de bebidas. Como a via tem apenas uma faixa de rolamento para cada sentido, preciso entrar na contramão para avançar. A operação encerra algum risco, pois está à altura de uma curva para quem sai da praça, sempre em velocidade mais ou menos acelerada. Consigo escapar. Vou entrando no anel da praça. Como o semáforo que antecede o ponto de entrada acabou de abrir, um fluxo intenso de veículos começa a se aproximar. Antecipo-me a eles, para entrar. Mas preciso alcançar a faixa de rolamento do centro, pois as duas, do meio e externa, estão ocupadas por carros parados em fila dupla e tripla. Encontro, de frente, um rapaz que caminha tranquilamente pela faixa interna, a única livre. Respiro fundo. Sinalizo para que ele não fique ali. Ele me olha com raiva. E segue, calmamente, em meio aos demais carros parados nas faixas duplas e triplas. Consigo ultrapassar mais esse obstáculo. Um semáforo vermelho. Espero, sob a pressão dos demais carros cujos motoristas não veem razão para parar. Motociclistas seguem, antes do sinal verde acender. Sigo. E me encaminho para passar por baixo do viaduto. Também temos ali duas faixas de rolamento, uma para cada sentido, sem acostamento. Um ciclista segue no mesmo sentido meu, próximo à parede do túnel. Vai em alta velocidade, considerando-se ser um ciclista, numa via perigosa, sem espaço seguro para seu veículo. Passo por ele tentando manter distância que garanta preservar sua integridade física. Quando ficamos lado a lado, percebo que ele está falando ao aparelho celular. Deixo-o para trás. Ao final da curva, deparo-me com um senhor que atravessa a rua sem olhar o fluxo de veículos. Quando ouve a buzina de um dos mais nervosos, olha com raiva, e segue. Próximo semáforo. Espera paciente. Quando o sinal verde indica que podemos avançar, sigo. Adiante, um senhor de cabelos brancos decide que pode atravessar a via com o sinal vermelho para ele, e passa, com sua camionete, bem à minha frente. Susto. Logo depois, na mesma faixa de rolamento pela qual estou seguindo, um motoqueiro conduz uma criança de uns 8 anos, na garupa. Segue a uma baixa velocidade, numa via em que os veículos seguem mais velozmente. Talvez suponha que assim protege a criança. Assumo o papel de escudo por alguns poucos quilômetros, até que ele entra por outra via, e eu posso continuar. Mais à frente, um pouco, há obras no canteiro central da via, e as máquinas ocupam a faixa de rolamento central. À direita, uma senhora parou o carro para conversar com alguém na calçada. Todo o fluxo da via em pleno movimento vai se ajeitando na faixa de rolamento central. Os motoqueiros teimam em driblar todos os carros, tentando furar os vãos para passar à frente. Buzinas, mais irritação. Depois da curva, um motoqueiro se aproxima do carro, por trás. Pelo retrovisor o observo. Parece galopar um animal selvagem campo afora. Parece encarnar o espírito de algum bravo herói com uma missão outorgada pelos deuses, o que o impele a superar todos os demais. Por isso mesmo, ele corta meu carro pela direita, contra uma calçada e carros estacionados. Faz rapidamente uma diagonal à esquerda, e, ato contínuo, atravessa a via à frente sem parar, entre um carro que sobe e um caminhão que desce. Já está distante, do outro lado do fluxo. Vários outros motoqueiros passam por mim, membros da mesma legião, com o mesmo comportamento. Quando chego ao meu destino, tenho sempre a impressão de ter acumulado alguns pontos na corrida de obstáculos, e fico feliz por não ter me deparado com uma placa: “Game over”.






sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Um plantador de árvores, e uma vereda de ipês


Minha palestra era sobre relações entre cinema e educação. O encontro foi à noite, e os estudantes vinham de um dia de trabalho. Minha preocupação era a de assegurar que minha fala não fosse enfadonha, para mentes cansadas. Durante algum tempo, falei sobre o tema que me apaixona, e também sobre os outros fazedores de cinema, com quem tenho aprendido lições indeléveis, eles, igualmente movidos a paixão. Sentado, na primeira fileira, um senhor acompanhava minha fala, olhava as fotos e o filme, com atenção acima da média, em relação aos demais estudantes de graduação, todos em sua terceira jornada dioturna.

Quando, finalmente, eu concluí, e passamos à etapa das perguntas e comentários, ele se apresentou: sou plantador de árvores. Seus olhos tinham um brilho diferente. Mais tarde, retomou a palavra, encorajado a complementar a fala que começara um pouco antes: eu, um esquizofrênico, um aleijado e um portador de síndrome de down plantamos uma vereda de ipês; se tivéssemos dependido do poder público, não teríamos feito nada. Ah, professora, além de plantador de árvores, eu também sou poeta.

Depois soube que ele era engenheiro e, em razão de escrever poesia, e ter uma pequena editora, começara a fazer o curso de Letras.

No dia seguinte, pela manhã, antes de partir, pedi para passar na alameda, a ver os mais de 80 pés de ipê. O motorista me explicou que eles não estavam mais floridos. Eu sabia que não, àquela época do ano. A floração acontecera já há coisa de dois meses. Mas eu queria ver as árvores. Ao longo da estrada, cobrindo uma calçada onde a população faz caminhada, os ipês verdejam. O motorista lembrou o nome do poeta plantador de árvores, e comentou: ele não bate muito bem da cabeça. Depois ponderou: ele é engenheiro, muito inteligente, estuda muito; acho que ficou assim de tanto estudar... Já na rota de saída da cidade, completou: se todo mundo fizesse o que ele fez, a cidade estava muito melhor...

Que haja mais poetas plantadores de árvores que não batem bem da cabeça!

Pela estrada, seguimos ouvindo uma seleção de músicas do melhor estilo sertanejo universitário.






Aforismos do sertanejo universitário


Eu vou pegar um tijolo, e nesse tijolo eu vou escrever a palavra SAUDADE. Depois eu vou pegar esse tijolo e mandar na sua cara, prá você ver o quanto que a saudade dói, sua BANDIDONAAAAAAAAAA!
(João Carreiro e Capataz)

Minha criação é xucra
A verdade ninguém furta
Sou bruto, rústico e sistemático
(João Carreiro e Capataz)

Aqui do meu lado tá bagunçado, mas tem gerência.
(João Carreiro e Capataz)








terça-feira, 27 de outubro de 2015

Motivo (Cecília Meireles)




Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Cecília Meireles
 MEIRELES, C. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.










sábado, 24 de outubro de 2015

Violeta e ensaios proto-filosóficos




p/ Julio


No jardim da minha casa de infância, num canto da calçada havia um canteiro de violetas mimosas. As folhas arredondadas, em tom verde-escuro, sobrepunham-se umas às outras, ocultando as florinhas lilases que se abriam mais próximas ao chão. Encontrá-las fazia parte do encantamento e dos mistérios da vida.

Elas estavam lá, eu sabia, ao alcance da mão. Mas eu preferia imaginá-las de outra forma: ocultas, por detrás das folhas, o que se passava com elas ficava sempre fora do meu alcance. Eu ficava observando as folhas, tentando adivinhar o que estivesse a acontecer nas regiões de sombra, que eu não conseguia ver. Se, num gesto rápido, eu afastasse as folhas, de pronto o que quer que estivesse se passando ali, desapareceria, e já seriam outros os processos deflagrados. De pouco adiantaria eu afastar as folhas de modo discreto, sem brusquidão: tampouco eu desvendaria o que sucedia na sombra, fora do alcance dos meus olhos, pois a circunstância se teria rompido.

Por isso as pequenas florinhas, por tão pequeninas que fossem, eram também portadoras de um mistério capaz de enredar minha atenção durante boas fatias do meu tempo de infância: estavam ali, ao alcance da minha mão, e ao mesmo tempo não. Eram frágeis, mimosas, e ao mesmo tempo capazes de escapar a qualquer captura, a qualquer determinação. Eu as podia ver desenvolverem-se. Era eu quem as regava, todos os dias. Mas não podia suspeitar o que se passava com elas, sob as folhas revestidas de verde-escuro. Jamais o saberia...







terça-feira, 20 de outubro de 2015

os 100 anos de meu pai

p/ Seu David

Hoje meu pai faria 100 anos
Daqui 10 anos, eu estarei com a idade que ele tinha quando partiu
Foi bem pouco o tempo de convívio, esse nosso

Mas hoje eu posso dizer que meu pai é centenário
E isso vibra em mim uma estranha inteireza
Uma alegria vinda de fonte não sei qual

Terra Gwayá, 20 de outubro de 2015





sábado, 17 de outubro de 2015

Prêmio de Popularização da Ciência 2015 - SBPC/GO

Minha homenagem à Profª Noeli, à Profª Janieire, e às minhas sempre queridas Ana Priscilla F. Azevedo e Nanda Amorim.

Acaba de ser divulgado o resultado da segunda edição do Prêmio de Popularização da Ciência 2015, promovido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - Regional Goiás (SBPC/GO) divulgou o resultado do 2º Prêmio SBPC/GO de Popularização da Ciência - 2015.

Na área de Música e Artes, o primeiro lugar ficou com Janiere Rodrigues Rosa Biano, orientada pela professora da FAV, Noeli Batista dos Santos, com a pesquisa "Palavras de Marias e João - experimentações com materiais reutilizáveis no ensino de Arte".

Parabéns à Janieire Rosa pelo belo trabalho, pela dedicação e persistência; e à Profa Noeli, sempre presente, atenta, e sensível, engajada com a qualidade acadêmica e da aprendizagem dos nossos estudantes.

Minha alegria é multiplicada, pelo fato de que temos aí um importante indicador de qualidade em relação ao curso de Licenciatura em Artes Visuais, considerando ser esse o segundo prêmio dessa categoria que estudantes do nosso curso conquistam. No ano passado, 2014, minhas orientandas Ana Priscilla Furtado de Azevedo e Fernanda Isabel Melo de Amorim também foram premiadas com o trabalho intitulado CINEMA: DESENCADEANDO MEMÓRIAS, na primeira edição do concurso promovido pela SBPC/GO. O livro já foi publicado, e distribuído para as escolas da rede pública. Nessa primeira edição, a área de Artes concorreu com as áreas de Letras e Linguística. Nesta edição, com as Artes configurando uma área específica - como deveria ter sido desde o início -, Janieire mostrou a que veio, conquistando o primeiro lugar.

Também é importante lembrar que, nesse concurso, trabalhos de conclusão de curso concorrem, em pé de igualdade, com dissertações de mestrado e teses de doutorado. Para bom entendedor, pingo é letra!

Já disse em outro espaço: isso é o que não nos deixa desistir, isso é o que nos motiva a continuar! Que venham outros desafios!

Noeli, segura essa que é sua!





segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Marcas da voz e da risada


Cheguei ao hall da Secretaria de Cultura. No balcão, perguntei pela pessoa com quem tinha marcado horário para conversar. Havia um rapaz no guichê ao lado, também aguardando por atendimento. A menina perguntou pelo meu nome, e entrou para me anunciar. Logo o funcionário veio ao meu encontro, e falou meu nome novamente. Então o rapaz levantou-se para falar comigo, efusivo. Fora meu aluno no final dos anos 1990, na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Reconheceu-me pela voz. Disse que quando me ouviu, teve certeza de que me conhecia. Não poderia esquecer daquela voz ministrando as aulas. Abraçou-se afetuosamente. Também fiquei feliz pelo reencontro.

Isso tem sido mais ou menos recorrente: a voz ecoando pelos corredores a denunciar minha presença em salas e outros espaços.

Esse episódio me lembrou uma situação ocorrida no final dos anos 1980, quando eu fazia aulas de canto com um professor muito especial, o Luís Sales. Ele dava as aulas numa sala localizada num centro comercial. A sala era dividida em dois ambientes: uma antessala, e o espaço de aula propriamente dito, mais interno e preservado. Luís era desses professores que, antes de nos ensinar qualquer coisa, faz perguntas que nos forçam a pensar sobre o que queremos aprender. No primeiro dia de aula, ele me perguntou porque eu queria fazer aulas de canto, e porque eu queria cantar. Pega de surpresa (eu já fizera aulas de canto com outros professores que nunca perguntaram coisas assim...), inventei uma resposta. Confesso que não fiquei convencida dela. Talvez nem ele. Até hoje essa pergunta me acompanha, já congregada a uma multidão de outras perguntas que vão se multiplicando.

Pois bem, naquele dia, ele propôs fazermos um exercício de projeção da voz. Minha aula ocorria no início da noite, quando a maior parte dos escritórios localizados naquele andar já se haviam fechado. A porta da antessala permanecia entreaberta para a circulação de ar, e nós trabalhávamos na sala interna. Então, ele me passou uma linha melódica, que eu deveria cantar em vários tons, com o objetivo de furar a parede à frente, mantendo o controle da voz: sem gritar, afinada, limpa, etc. Seguimos brincando com o exercício. Amiúde ele me interrompia perguntando: Como você fez isso? Ficou bom! Repita! Essa maneira de ele conduzir o processo fazia com que eu observasse com mais atenção o modo como eu acionava a voz, tensionando ou relaxando músculos, impulsionando a respiração, enfim, sem perder de vista o objetivo de furar a parede, por mais absurdo que pudesse parecer.

A certa altura, alguém chegou à porta da antessala. Uma moça, muito educada, pediu licença para falar com ele. Disse que a música cantada estava muito bonita. Mas eles estavam em reunião e, em alguns momentos, estavam com dificuldade para ouvirem-se uns aos outros, do outro lado do corredor, em função do volume da minha voz. Pedia para, se possível, fecharmos a porta da antessala. Eu levei um susto, e ele voltou sorrindo, com ares de vitória: Viu, você conseguiu, furou a parede com a voz!

Voz e risada, em mim, são parceiras antigas... Volto ainda um pouco mais, no tempo, ao início dos anos 1980. Num teatro, enquanto aguardava o início de um espetáculo de cuja equipe técnica eu tomava parte, celebrava o reencontro com uma antiga colega do ensino médio. Ela era muito atenta às regras de cortesia e elegância. Em meio à conversa, escapou-me uma dessas risadas que me crescem por dentro, até chegar o momento de eclodir. E o fazem sem pedir permissão. Escancaram-me a boa, sacodem-me o corpo, e seu som se espalha sem controle. Nem sempre me dou conta dos efeitos que elas produzem à minha volta. Por vezes, preocupo-me com isso... depois esqueço...

Naquela situação, a eclosão da risada resultou numa delicada repreensão por parte da minha antiga colega. Ela solicitou, com um gesto, que eu me contivesse um pouco. Olhei à volta, ainda sob o efeito da reverberação da risada. Logo foi preciso que eu retomasse meu posto para o início do espetáculo. As demais risadas em processo de gestação, em mim, estavam um pouco inquietas, sem saber seu eu tomaria alguma providência para inibi-las. Na verdade, nunca consegui fazê-lo.

Talvez por isso mesmo seja tão recorrente eu ser encontrada ou reconhecida pelas pessoas a partir da minha voz que pode até furar paredes, embora eu não saia por aí falando aos gritos, ou pelas eclosões de risadas que me escapam de chofre, espalhando-se pelos ambientes onde eu esteja, a denunciar minha presença...








sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Aniversário


Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[473]

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...











domingo, 4 de outubro de 2015

Um cão para o menino



Domingo calorento. A família foi passear na feira de artesanato. Aproveitaram para ouvir histórias contadas pela Glorinha Fulustreka, com seus baús encantados, de onde se tiram livros, lagartas, boiungas, bolos da macaca, poesia, e tantas outras tranqueiras. O pai, a mãe e a avó sentaram-se sobre os panos recortados, distribuídos no chão, estrategicamente, com pequenas trovas manuscritas pela Glorinha. O menino, com seus cerca de 8 anos, ouviu um pouco das histórias, levantou-se, sentou-se, levantou novamente, e se sumiu entre os movimentos das gentes, entre as bancas e os demais encantamentos da feira. A mãe, o pai e a avó ficaram ali, enlevados pelas histórias. Até que o menino voltou. Trazia um filhotinho de cachorro no colo. Vinha como quem porta um bem precioso. Sentou-se, olhou para pai, mãe e avó, explicando: “Ganhei!”. Sorria com a alegria de quem se sente abençoado. Os três adultos olharam-se, quase pálidos. “Não, vai devolver! Ganhou de quem?” “Da mulher! Ali! Ela me meu. Não posso devolver! É meu! Eu vou cuidar dele”. O pai foi até o lugar apontado pelo filho. A mulher confirmou: dera o cãozinho para o menino. No domingo calorento, a família estava aumentada quando voltou da feira.









sábado, 3 de outubro de 2015

Uma flor e um cronópio para Camila






Um cronópio encontra uma flor solitária no meio dos campos. Primeiro pensa em arrancá-la, mas percebe que é uma crueldade inútil, e se coloca de joelhos junto dela e brinca alegremente com a flor, isto é: acaricia-lhe as pétalas, sopra para que ela dance, zumbe feio uma abelha, cheira seu perfume, e deita finalmente debaixo da flor envolvido em uma enorme paz.
A flor pensa: "É como uma flor".

Julio Cortázar.
Do livro: Histórias de cronópios e de famas.
 Editora Civilização Brasileira, 10ª edição, 2007.












domingo, 20 de setembro de 2015

Sobre borboletas e baratas

Para Afonso Medeiros

Meu querido Prof. Afonso Medeiros compartilhou, recentemente, uma frase com a seguinte provocação: “Se você esmagar uma barata, você é um herói. Se você esmagar uma borboleta, você é um vilão. A moral tem critério estético.” Para colocar a provocação em negrito, acrescentou: "Um exemplo bem banal do porque, para alguns filósofos, a estética precede a ética..." 

Como as baratas têm ocupado uma parte importante dessas reflexões que vão me tomando quando o pensamento vaga, aparentemente à toa (mas só aparentemente, pois ao fazê-lo vai tecendo possibilidades outras no exercício de indagar sobre o mundo), a provocação me arrebatou. Por acaso, à noite, na sala da minha casa, lá vinha, desde a varanda, uma barata adulta, ligeira, ágil, fazendo uma curva, indo se esconder por baixo de uma prateleira. Todos essas passos foram executados de modo mais rápido que o meu reflexo, antes de eu constatar que eu estava descalço e não tinha nada à mão para enfrentá-la. Iniciaria-se, então, uma atividade divertida na noite: o duelo entre mim e a barata.

Definitivamente, baratas não são rudes, monstruosas, grotescas. Ao contrário, são inteligentes, atentas, montam estratégias. Além disso, pesquisadores (sim, há quem se interesse por pesquisar a vida das baratas!) têm constatado que são gregárias não num sentido caótico como possa nos parecer (estupidamente antropocêntricos que somos), mas organizadas em núcleos familiares. E não suportam ficar sozinhas. Se alguém quiser torturar uma barata até à morte, coloque-a numa solitária. Ela não resistirá à tristeza da solidão. Pois bem: todas essas coisas me ocorrem sempre que eu sigo para algum duelo com uma barata.

Essa, especificamente, depois de me ter escaneado, ficou debaixo do móvel, na espreita. Se eu me distraísse, iniciava uma fuga, fazendo corridas até certa distância. Avaliando o insucesso de sua tentativa, voltava ao abrigo, mais rápida que da primeira vez. Por vezes, eu a percebia à sombra, imóvel, me olhando. Qualquer movimento, e de novo desaparecia num vão qualquer. Sempre à espreita. Ela, escondida, e eu, à luz, já munida de um par de chinelas à mão.

Agora, às minhas ponderações sobre a vida das baratas, veio se somar a outra pergunta: e se fosse uma borboleta? Talvez eu me olvidasse do mundo a observá-la, sem querer que ela deixasse o ambiente... talvez eu até me lembrasse da lagarta feia, sem muito encantamento... mesmo assim, poucas seriam as chances de eu me dispor a um duelo com ela.

Por que? Pensei que, na borboleta, as cores estão separadas, organizadas, simétricas, vívidas, enquanto que, na barata, as cores se misturaram, resultando naquilo que minha avó chamava de cor de burro quando foge. Na borboleta, a dança das cores nos hipnotiza, enquanto que, na barata, o tom marrom da mistura nos afasta, lembrando caos, sujeira, mistura descontrolada...

Buscando a etimologia da palavra estética, chegamos à noção de experiência profunda, ou impactante sobre os sentidos. Ora, uma e outra proporcionam experiências significativas aos nossos sentidos: encantamento e repulsa. O belo e o feio. 

Então o velho filósofo Flusser me vem em auxílio, com suas não menos inquietantes provocações. No livro que compila as últimas aulas ministradas na Alemanha pouco antes de sua morte, ele indaga sobre o sentido e o lugar da arte no cenário contemporâneo. Constrói, então, o fio de seu raciocínio, a partir da ideia de que a arte seja uma experiência capaz mudar nossa percepção do mundo, e de nós mesmos, a partir do modo como impacta os nossos sentidos, ou seja, pela experiência estética. Nesse ponto, ele indaga qual teria sido a obra humana que mais fortemente teria afetado os nossos sentidos, no século XX, de modo a alterar nossa percepção do mundo. E responde: a bomba atômica. Desafiando artistas e estetas, ele constata que a obra de arte mais potente produzida pela humanidade nesse século teria sido a bomba atômica.


imagem encontrada aqui

A visão do cogumelo resultante da bomba é recorrente em nosso imaginário. Aterroriza e seduz ao mesmo tempo. Lembra o quanto somos cruéis, perversos, mesmo quando não admitimos. É a prova cabal da ausência de neutralidade do conhecimento científico. E no artístico também. Escancara a nossa finitude da pior e mais bela forma.

Ao pensar na bomba e nos corpos humanos que se desfazem pelo efeito da radiação, volto à barata, à espreita, debaixo do móvel da sala. Se a bomba pode eliminar a espécie humana, e também as borboletas, no bolo dos 90% das espécies viventes da face do planeta, elas, as baratas, ao menos a maioria delas, teriam mais chances de sobreviver, exatamente pelos hábitos que nos causam repulsa: habitar esgotos, andar por frestas, espreitar às escondidas. E por sua enorme e invejável capacidade de adaptação.

imagem encontrada aqui

A possibilidade de que elas sobrevivam a nós reforçaria o desejo de extingui-las, numa espécie de raiva movida pela inveja, mesmo que de modo não consciente?

Aquela barata, a minha visitante noturna, em particular, poderia até sobreviver à bomba. Mas não sobreviveu ao impacto da minha chinela, depois de uma longa dança de idas e vindas, tentativas frustradas de fugas, e pacientes observações mútuas. Não me sinto heroína. Apenas acrescentei um ponto a mais nos duelos travados com sua espécie, à qual destino profundo respeito. A propósito, nesse duelo, tenho bem menos pontos que elas, vencedoras na maior parte das vezes. Aliás: vencedoras hors concours, pois sobreviverão à nossa espécie!

Nenhuma borboleta veio visitar as flores da minha varanda, ultimamente.

PS.: deliberadamente, esta postagem não tem imagem de borboletas...