quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A lição do jardineiro (Bertolt Brecht)


Pequeno reino de sebes e canteiros,
O meu jardim me ensina
Que até a rosa nobre de Mileto
Tem de, para ser bela, ser podada.
Também ela deve compreender
Que a couve, o alho e outros legumes
De origem modesta, mas não menos úteis,
Têm, como ela, direito
À sua ração de água.
O jardim seria mato
Se só na rosa imperial pensássemos.





quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O mar Eu nunca vi



Rosi Martins e Wolney Fernandes são artistas inquietos e sensíveis. Esta afirmação não é apenas exercício de retórica. À sua volta, os tecidos, as linhas, as sombras, os gestos, os olhares, as memórias, as histórias são enxertadas de sentido estético, e vão tomando feições de trabalho artístico, assim, um ligado ao outro, e ao outro, e todos entremeados à vida.

O mar, Eu nunca vi... No começo, configurou-se o desejo. Lembro-me de conversas breves pelos corredores, à porta das salas, quando se começou a pensar no projeto. De um lado, estavam as roupas inspiradas nos Sertões do Rosa. De outro lado, o cerrado resiliente, com sua rústica plasticidade. Entre um e outro, o desejo urgente e incontrolável de poesia imagética.

Então soube de Rosi e Wolney seguindo por estradas, ao encontro de paisagens onde pudessem escrever, com roupas surradas e árvores contorcidas, seus poemas. Numa tarde dessas, entre relatos efusivos e pausas encantadas, fui inundada por suas imagens de terra calcinada, árvores queimadas, céu denso, roupas ressecadas, marcadas pelo tempo, tons de vermelho e ocre evocando sentidos enraizados no que há de mais primevo, ao mesmo tempo duro e delicado, nas gentes que vêm, desde antanho, repisando nossa humanidade.

Sem pedir permissão, suas imagens tocavam minhas fragilidades, mostrando-as como sedas enroscadas entre galhos secos. Mas também reportavam força e persistência ante a dor, impressas pelas marcas do caminhar, com espaço ainda para celebração festiva pontuada por fitas coloridas.

Algum tempo terá se passado, desde então, até que, afinal, somos brindados com o compartilhamento dessa comovente experiência poética na forma de narrativa visual. O desejo toma forma, e se pronuncia. De pano, pele, couro, terra, cinza, galhos, gravetos e céu somos tecidos. Deixamos rastros, marcas no pó. A terra e o tempo deixam marcas em nossas histórias. O vento, que nos resseca, sussurra segredos. Por vezes, parece querer lembrar o mar... O mar? Ah, eu nunca vi...





segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Sobre a sociedade de produtores, de consumidores, e o BBB


Quando a Revolução Industrial transformou os modos de produção de bens necessários à vida, e o capitalismo gerou os mecanismos por meio dos quais as indústrias passaram a produzir não apenas os bens necessários à vida, mas itens além das necessidades, provocando sempre uma ampliação do desejo em direção de novos itens a serem produzidos, nessa circunstância foi necessário articular estratégias de formação de mão de obra produtora. Assim, constituíram-se, entre outras instituições, as escolas no formato como conhecemos, organizadas dentro da lógica fabril, capaz de ensinar não apenas os conteúdos escolares, mas o modo de operar em sociedade.

O pensamento geral, nessa etapa, foi o de que seria necessário buscar alguma forma de inserção no mercado, definindo um lugar na complexa malha de produção. Você faz o que? O que você pretende fazer? Essa, a senha para um ingresso ajustado nas redes da sociedade.

Com o passar do tempo, ampliaram-se, em progressão geométrica, os itens produzidos, à disposição, para serem consumidos. Então, mais que produtores, passou a ser necessário assegurar a formação de consumidores vorazes. Havendo produtores o bastante, é preciso que haja, sempre, consumidores que devorem suas produções. O ingresso nos circuitos de produção ficou cada vez mais concorrido. A palavra de ordem é consumir (lembrando o oráculo do filme THX-1138, de George Lucas). Assim, cada vez mais precocemente, as crianças são convocadas a terem discernimento sobre que produtos preferem comprar, nos mercados, e a repetir rituais com roupas, jogos, maquiagens, músicas, e outros itens. Os circuitos de entretenimento também se voltam para a formação eficiente desses consumidores.

É nesses termos (e não em outros) que a instituição escolar formal encontra-se defasada. Sua estrutura mantém a noção da formação de produtores, sem ter sucumbido (ao menos não plenamente) às demandas da formação de consumidores. Os discursos de educadores que se pretendem progressistas, transformadores, reivindicam a implosão das estruturas da velha escola, em favor de sua flexibilização de acordo com a cultura contemporânea. De fato, as práticas da velha escola geram tensões, na medida em que formam produtores (com baixa capacidade competitiva) para uma sociedade de consumidores. Mas é preciso, também, que coloquemos em questão se queremos, mesmo, escolas a serviço da formação de consumidores.

Essas questões ganham novas ênfases, sobretudo, na atual etapa das relações impostas pelo capital, quando o consumo mais agressivo e lucrativo não é mais de produtos, mas dos próprios consumidores. É nesta etapa que entram os reality shows, as plataformas de relacionamento social nas redes de computadores, os aparatos tecnológicos oferecendo inclusão a todos, a preços módicos.

Já não importa o que você vai fazer, que produtor você será, ou o que você vai consumir, mas de que redes você toma parte, com quantos pontos de contato para assegurar a difusão de suas ideias (quaisquer que sejam, formuladas em breves frases, ou imagens, que se espalham com a mesma velocidade com que são esquecidas...). As ideias portadoras de valor são aquelas capazes de disseminar desejos de inclusão nas relações de consumo... Importa, acima de tudo, saber se você detém o aparato mais recente, que lhe permite acesso a esta e àquela redes de relacionamento e informação, onde possa consumir, mas também disponibilizar-se ao consumo.

Outras instituições sociais, que não as escolas, tomam para si o papel de formação desses consumidores. Por exemplo, a maior parte dos trabalhos artísticos localizados no âmbito da chamada arte e tecnologia cumprem o papel de demonstrar usos de novos aparatos tecnológicos, despertando o desejo de novos e potenciais consumidores, mais do que propiciar experiências estéticas de diversas naturezas. Outro exemplo está na multiplicação dos discursos inclusivos de toda espécie, cuja potência está muito mais na possibilidade de multiplicação de consumidores do que propriamente na inclusão benfazeja dos historicamente discriminados. Definitivamente, não se tratam de discursos beneficentes, tampouco de filantropia...

Todos esses discursos sugerem o sujeito como protagonista dos processos em curso, projetam sua imagem, colocam-no nas prateleiras mais visíveis, afetam seu desejo e vaidade. Ele passa a oferecer sua própria existência, à disposição do mercado, como moeda de troca para consumir outras existências igualmente à disposição.

É exatamente nesse cenário que entram os reality shows: escolas eficientemente afinadas com as demandas da sociedade contemporânea e sua lógica de consumo. Portanto, não basta reclamar dessas programações nas redes sociais (o que é, de fato, um contra-senso), ou desqualificar os participantes, sem compreender que eles são a imagem condensada, caricaturizada por vezes, daquilo que efetivamente somos, ou de que tomamos parte (para o bem, e para o mal). É preciso, sim, ter coragem de olhar para esse espelho, e perguntar onde cada um de nós está, que papel cumprimos nesse espetáculo? 

Afinal, não é verdade que estamos sempre disponíveis, conectados, antenados, prontos a assimilar a última novidade, com medo de perder nosso lugar nos fluxos incessantes de tudo quanto se refira à atualidade? E prontos para emitir alguma opinião, mesmo que queixosa, sugerindo alguma nostalgia de um suposto tempo quando parece que tudo tinha mais qualidade, como se fosse possível reivindicarmos isenção, ou inocência no tocante ao cenário contemporâneo...

Uma coisa é certa: gostemos ou não disso, concordemos ou não com sua configuração, não estamos fora dele!





terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fastio e tédio


Em meio à movimentação intensa e ao caos acústico, chamou-me a atenção um apito de trem. Estranha sonoridade para aquele lugar. Logo avistei a máquina puxando três pequenos vagões, entre os corredores do shopping center. Um homem de uns 30 anos, fantasiado de maquinista, conduzia a engenhoca, a baixa velocidade, acionando o apito para alertar as pessoas sobre sua passagem. (Imaginei que aquele pudesse ser um emprego temporário para alguém em busca de lugar no mercado de trabalho saturado...) Um som gravado sugeria a aceleração da máquina, aumentando a intensidade do barulho e o ritmo do giro das rodas em trilhos hipotéticos. Mas a engenhoca seguia, sempre devagar. Ainda bem. As pessoas caminhavam à sua frente, sem se importar muito com possíveis riscos de atropelamento.

Havia uma música festiva que exalava de caixas instaladas em pontos estratégicos nos vagões. Estes estavam com a maior parte de seus lugares vazios. Apenas no primeiro vagão havia três crianças, sentadas, olhando à volta. Sua expressão, tanto quanto a expressão do maquinista, era de indiferença. As luzes das lojas e dos enfeites e dos corredores, os diversos sons, os apelos vindos das vitrines, os cenários montados para seduzir os consumidores, o colorido do trem, as pessoas indo e vindo, nada disso era capaz de se traduzir em algum raio de alegria, por menor que fosse, no olhar dos passageiros daquele trem. Ao contrário: a hiperestimulação parecia anestesiá-los. Mostravam-se apáticos. Como todos nós temos andado, afinal, nesta sociedade de consumidores...

Quando tudo há em excesso, restam fastio e tédio... nada mais...



domingo, 19 de janeiro de 2014

Lagoa (Carlos Drummond de Andrade)


Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
e calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar,
Eu vi a lagoa…




sábado, 18 de janeiro de 2014

Da passagem e da bagagem de cada um


No último semestre do meu curso de graduação, no início dos anos 1980, participei do Projeto Rondon. Integrando um grupo pequeno de estudantes, seguimos para Nova Xavantina, no Mato Grosso,  com disposição para desenvolver algumas atividades na área de ensino de arte com crianças e adolescentes da comunidade, no campus avançado da universidade, localizado ali.

Toda atividade coletiva propicia espaço para o aparecimento de uma ou duas pessoas que catalisam alguma liderança – reconhecida, ou não, pelos demais. Nesse caso, uma mocinha, talvez um ou dois anos mais velha que eu, evocou para si o papel de líder. Porque já tinha feito essa viagem, ela queria apontar os caminhos para os demais do grupo.

Seguimos até Barra do Garça. Lá, tomaríamos outro ônibus, que nos levaria até Nova Xavantina. Na rodoviária de Barra do Garça, a mocinha determinou vocês me dão o dinheiro da passagem, que eu compro as passagens de todos; enquanto isso, vocês cuidam da minha bagagem. Não achei que aquele encaminhamento tivesse sentido. Recusei-me a atender sua determinação. Minha passagem eu mesma compro, e cuido da minha bagagem. A mocinha ficou incomodada com minha tomada de posição. Resmungou, falou da importância de que as nossas passagens fossem compradas juntas, etc. Mas não recuei. Fui para a fila, levando minha bagagem, comprei a passagem no mesmo horário que os demais. Na volta, ela tentava entregar as passagens e devolver os respectivos trocos para cada um dos membros do grupo. Atrapalhou-se: faltou passagem, havia troco de mais para uns, troco de menos para outros. Irritada, ela justificou-se, dizendo que por minha causa ela tinha se confundido...

Desde então, em muitas outras situações, encontrei um sem número de pessoas que se arvoram a encaminhamentos semelhantes, atribuindo para si papéis de liderança, em troca de trabalho braçal dos seus súditos. Em contrapartida, adotei por bandeira a frase da rebeldia pronunciada na rodoviária de Barra do Garça: Minha passagem, eu mesma compro, e cuido da minha bagagem...




quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

cadáver adiado que procria...



D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou o meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

(Fernando Pessoa)

disponível em culturabrasil.org 





indagações sobre uma fornada de biscoitos





Seria, mesmo, o que parece: uma fornada de biscoitos?
Ou seria um ninho, com ovos disfarçados de biscoito,
 e duas avezinhas já nascidas?
Mistérios no forno de D. Alice...




segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Manoel de Barros


Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo.






Etelvina, a fila no Planetário, e uma questão de cidadania


Passava do meio dia, quando eu organizei os pacotes de feijão numa sacola, e segui para o Planetário. À uma da tarde, posicionei-me na fila já formada, com cerca de umas 16 pessoas aguardando a bilheteria que abriria às duas horas. O valor de cada ingresso era um quilo de alimento não perecível. Por isso todos portavam sacolas com diversos itens.

Mal tomei lugar, a moça que, com minha chegada, deixou de ser a última, passando a penúltima da fila, foi logo me avisando, em tom advertente, eu tenho uma amiga que ainda vai chegar, e o lugar dela é aqui comigo, estou falando para você não reclamar quando ela chegar!  O calor estava abafado. Sua voz com ares de autoridade somou-se ao desconforto do horário e da longa espera que teria de enfrentar. Depois de uma breve pausa, eu pensando como reagir à sua fala, se me calaria ou não, respondi faça como quiser, mas segurar lugar na fila para alguém ainda não chegou é falta de respeito com os que estarão na fila depois de você, no mínimo é falta de civilidade; eu não concordo.  

Neste ponto do relato, preciso referir a figura de Etelvina, a outra mulher que me habita. Nessas ocasiões, Etelvina revela-se. Aliás, ela anima-se com entusiasmo em situações como essa. Por isso mesmo, à reação da moça, que se seguiu, iniciou-se um breve bate-boca, do qual Etelvina tomou parte, é claro! A moça foi irônica, dizendo que aquilo estava parecendo fila da Disney, que se eu quisesse que ficasse com o Planetário só para mim, que o Planetário para ela era coisa comum, etc. Acho que Etelvina ofendeu-se, mesmo, foi com a ideia de que ela, nalgum dia, tivesse ido brigar por ingresso para entrar na Disney. E foi por isso que ela decidiu na minha frente, ninguém segura fila para ninguém. Ah, Etelvina! A moça respondeu quer saber? eu vou é passar para trás, assim não tenho que ficar olhando para a sua cara! E passou a ocupar o lugar imediatamente após mim. Ficou olhando o meu perfil, pois eu me recostei na parede, e fiquei ali, brava, observando o tempo passar, e pensando sobre o lugar da fila, sobre essa prática de segurar lugar na fila, que sempre me tira do sério. Ainda não tinha certeza se Etelvina agira de modo adequado. (Sim, eu reconheço que nem sempre Etelvina acerta na mão...)     

As duas filhas da moça, que brincavam por perto, vieram perguntar o que tinha acontecido. Ela deu explicações breves, e falou que voltassem a brincar, mas que não sumissem de sua vista. Então ligou para a amiga, para saber onde ela estava. A amiga ainda estava em casa. Ela disse que não se demorasse, ouviu as explicações da outra, e desligou o celular. Logo chegou outra moça, e se posicionou atrás dela. Desta vez, ela mudou a estratégia, e não deu nenhuma informação sobre a chegada de mais alguém com ela. Começou foi a conversar com a pessoa. Entre sorrisos e conversas amenas, ficaram cúmplices na fila. Falaram sobre o Planetário, sobre os filhos, férias... Ah, ela costuma ir à Disney levar as crianças. E odeia passar as férias em Brasília. Então é isso! Comecei a compreender melhor a situação. 

Logo correu, na fila, a informação de que o limite de ingressos adquiridos por pessoa era cinco. Ela fez as contas, e concluiu que faltariam dois ingressos para o total entre ela, a amiga, as filhas das duas, e as demais crianças que a amiga estava trazendo. A outra moça sugeriu que ela consultasse, na fila, alguém que não iria adquirir o total de cinco, para completar os que lhe faltavam. Então ela encontrou alguém bem no início da fila que se dispôs a fazer-lhe o favor.

Rapidamente correram, pela fila, várias negociações desse tipo. Num instante, pessoas que estavam mais atrás solicitaram, como a moça fizera, que pessoas mais à frente assegurassem-lhes a complementação da quota de ingressos. 

A amiga da moça com quem Etelvina teve o entrevero chegou pouco antes das duas. Já estava tudo resolvido. Posicionou-se à frente de todos, na fila já imensa. Estava tudo bem. As amigas conversaram animadamente sobre trabalho, férias com as crianças, etc. Soube, então, que eram bancárias, e que estavam se organizando para ir a Caldas Novas ainda naquela semana. Caldas Novas não era exatamente como a Disney, mas já dava para aliviar um pouco a tarefa de terem de conviver intensivamente com os filhos durante as férias. Etelvina contorceu-se, resmungando ah, essa classe média!... Eu fiz um sinal para que ela se calasse. Etelvina, por hoje já deu!

Mas Etelvina estava certa, em alguma medida. As duas amigas não estavam sozinhas. Partilhavam de uma mentalidade predominante entre quantas famílias de classe média, muito bem representadas ali na fila, e em outros espaços públicos. Por isso, e não por outra razão, negociavam pequenos privilégios e vantagens supostamente inocentes, como ocorria ali. Enquanto isso, ensinavam aos filhos que não há nada de mal em assegurar tais pequenas vantagens. Que mal há, afinal, em segurar lugar na fila para quem ainda não chegou, mesmo quando em detrimento de quem tenha efetivamente chegado antes? 

Pensei nos meus tios, que eu presentearia com os ingressos para uma sessão do Planetário. Já idosos, residentes em lugar distante daqui, provavelmente não tivessem outra oportunidade de conhecer uma projeção desse tipo. Eu estava contente por poder proporcionar-lhes acesso a essa sessão. 

Mais que isso, tive fortalecida a convicção de que não há lugar específico para se praticar a ética e a cidadania, à parte de outros lugares onde se possa dispensar tal prática. De nada valem os discursos sobre ética e cidadania, enquanto esses princípios não estejam tão incorporados a todas as práticas sociais, por mínimas que sejam, de tal forma que já sequer precisemos pensar sobre eles, de tal forma que eles orientem todas nossas ações, e apontem a formação das crianças com quem convivemos. 

Eu mesma não fui à sessão. Mas minha alegria foi completa quando constatei a alegria dos dois, no retorno para casa, impressionados com o que tinham visto. 

Etelvina, valeu!



sábado, 11 de janeiro de 2014

Alcoólicas (trechos) - Hilda Hilst


                    I
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

                    II
Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

                    III
Alturas, tiras, subo-as, recorto-as
E pairamos as duas, eu e a Vida
No carmim da borrasca. Embriagadas
Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.
Que estilosa galhofa. Que desempenados
Serafins. Nós duas nos vapores
Lobotômicas líricas, e a gaivagem
se transforma em galarim, e é translúcida
A lama e é extremoso o Nada.
Descasco o dementado cotidiano
E seu rito pastoso de parábolas.
Pacientes, canonisas, muito bem-educadas
Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.

Ah, o todo se dignifica quando a vida é líquida

                     IX
Se um dia te afastares de mim, Vida — o que não creio
Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida —
Bebe por mim paixão e turbulência, caminha
Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as)
Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te
Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado
                                                                    vazio.
Empresta-lhe meu coturno e meu casaco rosso:
                                                        compreenderá
O porquê de buscar conhecimento na embriaguês da via
                                                               manifesta.
Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica:
O êxtase de te deitares contigo. Beba.
Estilhaça a tua própria medida.







sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Sobre viagens e cartografias


Para algumas pessoas, a maior parte delas, a ideia de viagem está atrelada à noção de deslocamento entre cidades. Alguém que tenha viajado muito terá estado em muitas cidades, e trazido muitas pequenas recordações de cada uma delas, impregnadas de histórias, cada qual. A cartografia desses viajantes aproxima-se, em alguma medida, do mapas geográficos.

Penso em viagens outras, que não dependem de empresas aéreas, trens, ônibus. Penso em viagens cujo projeto seja desbravar os árduos caminhos que ligam não cidades, mas pessoas. Por vezes, pressinto que a distância entre uma pessoa e outra é muito maior que a distância entre duas cidades de países distintos.

Minhas cartografias de viagem portam anotações sobre essas distâncias, e esses percursos. Há notas, também, sobre as distâncias entre as pessoas e os lugares que elas ocupam. Pois, estar num lugar não implica conhecer esse lugar, estabelecer meios de comunicação com ele, percebê-lo de modo intenso...

Quando ouço relatos de viagem, e breves descrições de lugares, paisagens, monumentos, muitas fotos, penso sobre os que vivem ali, seus sonhos, suas redes de relações , suas dores, seus medos, seus amores... E quando as pessoas me perguntam Você conhece tal cidade? antes de responder sim, ou não, eu me pergunto, em silêncio, quem a conhece? Seus habitantes a conhecem? Ter passado por ela faz de alguém um seu conhecedor?

Quando me falam sobre cidades, penso em seus habitantes. Além das pessoas, isso também inclui os pássaros que voejam por ali, e seus ciclos – coisa que não dá para se saber numa breve estadia, em viagem orientada por roteiros de cidades...




quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Sobre uma advertência, e sobre "imagens extremamente fortes"


A notícia correu as redes sociais. Os detentos de uma penitenciária no Maranhão, durante uma rebelião, decapitaram 3 homens. Em seguida, fazendo uso da câmera de um aparelho celular, gravaram o cenário de horror. O vídeo foi encaminhado pelo Sindicato dos Servidores do Sistema Penitenciário do Estado do Maranhão a um jornal de grande circulação. Não há informações sobre como o vídeo tenha passado das mãos dos presidiários ao Sindicato. Mas é certo que foi feito para ganhar repercussão. Seus autores, mantidos no anonimato, obtiveram sucesso. No entanto, aqui, não disponibilizarei link de acesso ao vídeo, nem divulgarei imagens. Não corroborarei com seu projeto. Apenas esboço pensamentos desordenados, sensações deflagradas pela visão do horror.

Na matéria que li a respeito, antes do link de acesso ao vídeo, havia uma advertência aos incautos, avisando de que as cenas eram extremamente fortes. Mesmo assim, acionei o vídeo. Ele começa com um letreiro, reiterando o aviso sobre a natureza das cenas. As imagens que se seguem são feitas por alguém que empunha uma câmera voltada para o chão. Um homem de bermudas e chinelas. Ele permanece anônimo. Uma voz dá algumas instruções básicas. Lembra que tem que ajeitar o foco. Temo prosseguir. Penso em tudo quanto temos discutido sobre imagens digitais, cultura contemporânea, sociedade do espetáculo. Temo que tudo isso caia no vazio que possa ser provocado pelas imagens a seguir. Mas me mantenho firme, diante do vídeo. Apenas observo a duração, não chega a um minuto. Acho que ainda tenho fígado para esse trago. Sigo. O homem com a câmera na mão, apontando para o chão, também segue. Aparecem seus pés caminhando. Há movimentação em volta, muitas vozes agitadas. Logo entra no enquadramento uma mancha de sangue, e um corpo sem a cabeça. E outros corpos sem cabeça, e cabeças separadas dos corpos. Mãos anônimas ajeitam as cabeças decepadas para que apareçam melhor no vídeo.Troncos perfurados por incontáveis facadas, cobertos de sangue. Fim.

O sentimento provocado pelas imagens ganhou forma física no estômago. Mas não foi náusea, nem dor. Acho mesmo que foi um vazio. Vazio de humanidade. Vazio de sentido. Como se eu tivesse saltado num precipício. Pouco menos de um minuto, e eu sentia no estômago o frio cortante do vácuo capaz de me tragar.

... tem que ajeitar o foco. Ah, o foco!

Na anomia, o homem é o lobo do homem. O frio no estômago não vem dessa constatação. Mas de algumas perguntas e uma suspeita: na sociedade do espetáculo, que sentidos se constroem para a vida em sociedade? Que ética rege tais relações, se é que há alguma? Qual do papel dos dispositivos nesse contexto? Penso nos dispositivos penitenciária, câmera de vídeo e redes sociais. A que processos de subjetivação imagens como essas estão vinculadas? O que me parece mais perverso não é o ato, em si, mas a sua execução premeditada, com vistas ao espetáculo, e a disseminação do horror na forma do vídeo, nas redes sociais. A suspeita: cenas como essa não resultam de anomia, mas de projetos sociais cuidadosamente montados. Suspeito, também, que tudo quanto eu faça, todos os meus discursos e ações, de uma forma ou de outra, mesmo que à revelia da minha vontade ou intenção, acabem por corroborar com esses projetos.

Haveria como eu me negar a isso, do mesmo modo que me nego a disponibilizar, aqui, o link de acesso ao vídeo, mesmo sabendo o quão fácil é, para qualquer um, localizá-lo?

Que monstros nos habitam, cuja existência insistimos em dissimular?




segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

ANTI-VIAGEM (Waly Salomão)


Toda viagem é inútil,
medito à beira do poço vedado.

Para que abandonar seu albergue,
largar sua carapaça de cágado
e ser impelido corredeira rio abaixo?

Para que essa suspensão do leito
da vida corriqueira, se logo depois
o balão desinfla velozmente e tudo
soa ainda pior que antes pois entra
agora em comparação e desdoiro?

Nenhum habeas corpus
é reconhecido no Tribunal do Júri do Cosmos.
O ir e vir livremente
não consta de nenhum Bill of Rights cósmico.
Ao contrário, a espada de Dâmocles
para sempre paira sobre a esfera do mapa-múndi.
O Atlas é um compasso de ferro
demarcando longitudes e latitudes.

Quem viaja arrisca
uma taxa elevada de lassitudes.
Meu aconchego é o perto,
o conhecido e reconhecido,
o que é despido de espanto
pois está sempre em minha volta,
o que prescinde de consulta
ao arquivo cartográfico.
O familiar é uma camada viscosa,
protetiva e morna
que envolve minha vida
como um pára-choque.

Nunca mais praias nem ilhas inacessíveis,
não me atraem mais
os jardins dos bancos de corais.

Medito è beira da cacimba estanque
logo eu que me supunha amante
ardoroso e fiel
do distante
e cria no provérbio de Blake que diz:

EXPECT POISON FROM THE STANDING WATER.

Ou seja:
AGUARDE VENENO DA ÁGUA PARADA.

ÁGUA ESTAGNADA SECRETA VENENO.





quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Leminski

Paulo Leminski, in Polonaises

...
tenho andado fraco

levanto a mão
é uma mão de macaco

tenho andado só
lembrando que sou pó

tenho andado tanto
diabo querendo ser santo

tenho andado cheio
o copo pelo meio

tendo andado sem pai

yo no creo en caminos
pero que los hay
                             hay






leminskiana inacabada