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domingo, 8 de março de 2015

Províncias e provincianos


O Capitão Pedro era o líder do grupo mamaindê, no posto indígena que levava seu nome: PI Capitão Pedro. Homem de meia idade, estava sempre atento às notícias de fora, sem perder os pés firmes em seu chão. Foi assim que, um dia, me perguntou como funcionava esse negócio do botijão de gás. Sentados, conversando na cozinha do posto indígena, eu expliquei que, quando o gás daquele botijão acabasse, ele seria levado para a cidade, para ser trocado por outro, cheio, nas lojas especializadas. Ele insistiu: eles vão encher esse de novo? Expliquei que provavelmente eles encheriam esse, sim, mas que eu não traria esse em específico: eu traria outro que já estivesse cheio; depois, outra pessoa levaria esse, já cheio. Ele pensou um pouco a respeito, e sentenciou: então você é dona de um botijão, mas não desse; o que você compra é o miolo dele... 

Eu me encantava com sua capacidade de síntese, ao lado de sua curiosidade a respeito das coisas de fora, desconhecidas para ele.

Numa tarde, ele me chamou. Disse que queria me mostrar uma coisa. E me entregou uma bíblia resumida escrita em língua nhambikwara. Nos anos 70, os vários grupos identificados pela FUNAI com o mesmo nome de nhambikwara foram dados como extintos pelo Estado. O antropólogo norte-americano Paul David Price dedicou-se a defender os sobreviventes, reunir os grupos, fortalecê-los, e estabelecer as condições para a demarcação da área. 

Mas, antes dele, missionários de uma organização denominada Wycliffe Bible Translators, ou Summer Institute of Linguistics (SIL), já tinham começado a atuar com os grupos nhambikwara. Foi Peter Kingston que deu início aos estudos da língua Mamaindê, entre os nhambikwara do norte. Aquele exemplar da bíblia resultara desse trabalho. 

Mal eu pensei em formular algum comentário em relação àquele objeto em minhas mãos, ele se antecipou: Nesse livro, está escrita a história que o seu povo conta sobre o mundo. Meu povo também tem uma história sobre o mundo, que é diferente da sua. E eu vou contar para você.

Confesso que me restaram à lembrança apenas fragmentos da história que ele contou. Naquele momento, a principal lição já tinha sido dada, e eu me encontrava impactada por ela. Uma lição sobre alteridade, sobre como podemos compreender os nossos lugares no mundo, sem perder de vista a pluralidade desse mundo, e os lugares dos outros nele.

No centro de sua aldeia, Capitão Pedro era um cidadão cosmopolita.




quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Cyrano de Bergerac, o cambacica, e algum sentido para o mundo...


De tempos em tempos me lembro de um diálogo antológico, de Cyrano de Bergerac, no romance intitulado Histoire comique des états et empires de la Lune, escrito em 1656, publicado no Brasil com o título Viagem aos impérios do Sol e da Lua. Ali, a personagem principal é prisioneira entre habitantes da Lua. Um dos companheiros de cela acusa a espécie humana de ser a mais soberba dentre as espécies animais, e defende a ideia de que todos os serem vivos sentem e pensam, até mesmo um pé de couve, ainda que não disponham dos mesmos recursos humanos para se expressar e defender seus pontos de vista. 

Cyrano de Bergerac é, ele próprio, uma personagem extraordinária, trazida ao conhecimento do grande público no texto de teatro escrito por Rostand há pouco mais de um século. Essa história foi, posteriormente, adaptada para o cinema em algumas versões bem populares. 

Em seus escritos, Bergerac faz um esforço bem interessante de deslocamento de pontos de vista: tenta imaginar sociedades fora do ambiente terrestre, e evocar reflexões como essa, que envolve o pé de couve. Não consegue, contudo, muito sucesso no projeto de escapar às malhas da velha visão de mundo européia, e suas instituições seculares, que pretende criticar.

Ah, o velho Savinien de Cyrano de Bergerac... 

Enquanto penso nesse lunático (no melhor dos sentidos!), ali, do lado de fora da janela, num galho da árvore, um passarinho bem pequenino canta e saltita... É um cambacica. A minha máquina fotográfica tem dificuldade para ajustar o foco automático, tão pequeno o espaço que ele ocupa no escaneamento da objetiva, com distância focal ajustada em 200mm. O trinado da avezinha enche a manhã. Pelo menos a minha manhã, que se inunda de som, sol e movimento. 

E, por um instante, o mistério se realiza. Durante uma fração de segundo, eu consigo perceber uma fração de sentido para a vida, e experimento uma breve lufada de felicidade. 

Em seguida, a pequena ave voa, levando consigo o sentido, qualquer um que fosse...



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Exercícios de alteridade - preto e branco



Dominante preto
No princípio estava a escuridão. Era abafado, e não se avistava nada em qualquer direção. Toda luz sugada no decurso dos tempos fazia-se energia contida. O vórtice encheu-se de todas as luzes em suas múltiplas cores, e inchou-se a tal ponto, que, a certa altura, começou a regurgitar de volta fiapos delas. Aos poucos, os fiapos ganharam volume, e jorravam em arcos de luzes coloridas sobre o vazio. O espaço começou a se mostrar, em transparências. Azuis, amarelos, vermelhos, verdes, roxos, laranjas, libertos das vísceras da noite, expandiram-se nesse espaço-tempo.

Dominante multicolorido
Aprisionadas no preto durante tanto tempo, as luzes, diversas em suas cores, alongaram-se em várias direções, a experimentar o espaço, em contínuo movimento. Refletiram em superfícies espelhadas, multiplicaram-se. Aos poucos foram ganhando familiaridade. Dançantes, e ruidosas, descobriram que podiam brincar entre si, transmutando tonalidades, ganhando mais luminosidade, mais energia.
Energia fluida acelera frequências, e aumenta a rotação dos corpos. Cada vez mais agitadas e alegres, crescentemente mais claras e mais efusivas, tenderam a fundir suas vibrações. Fontes intensas de luz, chegaram a ofuscar-se, entre si.

Dominante branco
Dançando uma dança eletrizante, misturando-se umas às outras em frenesi, não se via mais que luz branca em expansão, a eliminar quaisquer vestígios de sombra, um leve tom cinza que fosse. A luz branca, que jorra com intensidade, ofusca a vista. O sem fim do mundo confunde-se com o logo ali, pois não se vêem distâncias, volumes, formas, proximidades e lonjuras.
Apenas movimento intenso, e luzes refletidas, devolvidas, sem trégua.

Dominante da alteridade
A exaustão apoderou-se das luzes, desejosas de retomarem suas propriedades diferenciais. Na desaceleração, redescobriram-se amarelas, lilazes, verdes, azuis, vermelhas, alaranjadas, em passagens entre-cores de várias tonalidades.
Em comum acordo, passaram a alternar luminosidades, abertas à possibilidade de, eventualmente, serem absorvidas pelo preto, ou serem devolvidas em aceleração máxima pelo branco... podendo, sempre, retornar ao movimento suave dos dias e das noites.