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quarta-feira, 11 de março de 2015

plataforma para saltar

Algumas coisas eu aprendi a fazer ou fiz pela primeira vez tardiamente. Por exemplo, comecei a andar de bicicleta aos 28 anos. Foi quando também levei o primeiro tombo. Afinal, só se aprendeu, de fato, a andar de bicicleta depois de se ter levado um tombo, daqueles "tipo completo". 

Hoje, depois dos 52 anos, pela primeira vez, pulei de uma plataforma dentro da piscina de saltos. 

Meus coleguinhas, todos com seus 11, 12 anos, estavam agitados com a possibilidade de saltar. Mais ponderada, comecei a fazer os 300m iniciais da aula, para aquecimento. Terminados, o professor chamou Vem saltar também! Eu não! foi o que respondi. Venha sim! Obedeci. Na verdade, obedeci porque estava mesmo querendo saltar, ainda que sentisse uma pontinha de receio. Subi à primeira plataforma, com modestos 2m de altura. Olhando lá de cima, parece mais alto. A água azul tremulando lá embaixo. Respirei fundo e avancei. O chão faltou sob os pés. Logo senti o impacto do corpo contra a água. Mergulhei. Depois de afundar, o corpo começou a subir. Perto da tona, soltei o ar. Logo estava com a cabeça fora da água. E o corpo em festa. Eu ria como criança. Saí do tanque, pronta para outro salto. Que alegria!

Depois do terceiro, pulo, voltei à piscina olímpica, completar os 800m metros de nado, que havia proposto como meta do dia. Ao final, as crianças estavam muito agitadas com a aventura. Alguns meninos tinham pulado da plataforma de 6m, outros alternaram entre 2m e 4m. Apenas a pequena Joly tinha ficado na plataforma de 2m, olhando a piscina, sem coragem de lançar-se. Ela chegava até a borda, com ímpetos de pular, olhava para baixo e recuava, tremendo de medo. Eu quero muito ir, mas tenho muito mais medo do que quero... Ao final, desceu da plataforma, ouvindo os relatos dos colegas que tinham se arriscado um pouco mais.

O professor ria das histórias. Depois confessou à Joly: Dá medo mesmo... eu mesmo não pulo: tenho medo de altura...

Da próxima vez, talvez eu pule da rampa de 4m.




terça-feira, 4 de junho de 2013

Ter ou ser o corpo


Quando eu falo sobre meu corpo, não falo sobre mim, mas sobre alguma coisa que me pertence, que é minha propriedade. Esta condição instala uma cisão insuperável entre o sujeito que é e seu corpo, o corpo que o sujeito tem. Na lista de suas propriedades, o corpo alinha-se às demais posses: a casa, equipamentos, hobbies, carro, etc. Como propriedade, o corpo está sujeito a pareceres, consultorias e atuação de profissionais experts em certos aspectos de seu funcionamento. Como proprietário, o dono, ou a dona, do corpo funciona como usuário, ou usuária, que conhece algumas de suas funções, e sabe colocá-lo para funcionar, com mais ou menos habilidade, de acordo com os desejos (de quem?) e os desígnios (de quem?). Atua, em alguma medida, como um cliente, um consumidor, ou consumidora, às voltas com seu equipamento. Se alguma coisa no corpo não funciona, procura-se um técnico para consertar. Se o tédio se impõe, providencia-se logo uma reforma, para renovar a paisagem, ao sabor dos modismos. A propósito, há profissionais autointitulados personal-quase-tudo (personal trainer, personal organizer, personal stilist, personal fashion...), cuja principal tarefa é nos ajudar a tornar isso que nos pertence, o corpo, em mercadoria mais atraente, de acordo com as regras de mercado vigentes. 

Quem é essa entidade-eu que detém a propriedade do meu corpo? De qual lugar exerço a propriedade sobre o corpo? De qual torre do castelo existencial observo, escolho, decido? É possível alguma libertação desse aprisionamento? Há algum caminho possível de reencontro com o corpo próprio – que não é o próprio corpo... – ?

Como exercício, proponho pensar a mim mesma como corpo em sua inteireza – capaz de sentir, perceber, lembrar, pensar, vibrar... –. E pensar dessa forma é buscar restabelecer uma relação com isso que sou eu, e que resulta da interação entre corpo, experiência, memória, transcendência, tudo junto, tudo inseparável. Supõe, sobretudo, a expansão da autopercepção, o autoexame, a coragem para o conhecimento efetivo de si...

E como proceder? Por onde começar? Alguns caminhos se mostram possíveis, prováveis. Dentre eles, escolho comentar, aqui, aquele que se incia pela linguagem, supondo que ela resulte de certa compreensão do mundo e de mim mesma. Modificando-a, quem sabe, contribua para modificar essa relação. Assim sendo, no âmbito da linguagem, tentarei adotar algumas estratégias, que se seguem, e vejamos o que ocorre:

1.   Não me referirei mais ao meu corpo como algo que me pertence, mas a mim mesma enquanto corpo (ou qualquer parte do corpo-eu). Assim, em lugar de dizer-pensar-sentir “meu pé está doendo”, passo a dizer-pensar-sentir “me dói o pé”; ou em lugar de “meu corpo ficou todo encharcado”, “encharquei-me o corpo todo”; ainda, em lugar de “levei minha mão até a maçaneta da porta”, “alcancei a maçaneta da porta com a mão”. São exemplos banais, tolos quem sabe, mas talvez me ajudem a realinhar uma posição em relação a mim mesma, como um todo. Uma posição que é perceptiva, mas também política, no tocante a assumir o corpo que eu sou e não a propriedade de um corpo vulnerável às intervenções mais radicais de uma sociedade de consumo, que reifica todas as dimensões do ser.

2.   Buscarei, sempre que possível, adotar a mesma orientação em relação às outras pessoas. Algo mais ou menos assim: em lugar de dizer-pensar-sentir “ela tem os olhos verdes”, preferir “ela é toda olhos verdes”; ou “sofreu uma queda e quebrou-se a perna” em lugar de "a perna dele quebrou numa queda"; e ainda “dói-lhe a cabeça” em lugar de "sua cabeça está doendo"...

3.   Talvez haja algumas situações em que, mesmo pensando a partir do verbo ser, ainda seja o caso de adotar verbo ter, na medida em que o tópico em questão seja resultado de alguma aquisição efetiva. Por exemplo, quando as unhas postiças chamam a atenção, cabe a pergunta: “Suas unhas são bem desenhadas. São importadas?”; ou “ Que belo par de peitos ela tem!”, depois da cirurgia plástica.

Ser o corpo em cada aspecto é condição bem diversa à de tê-lo, exercer sua propriedade. Aquele que tem seu corpo não necessariamente o conhece, pois não é o corpo. Ao contrário, domina-o, submete-o, decide sobre ele. Ser o corpo supõe escuta interna, reconhecimento de si em cada recanto, atenção intensa, autonomia – alguma que seja – nas decisões tomadas acerca de si, o corpo próprio.

Talvez descubra que estou enganada, e não seja nada disso. Terá valido pelo exercício.



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Questões sobre ser e pertencer




Quando afirmo: “cortei minha mão”, algumas perguntas me assaltam: se a mão é minha, e não sou eu, quem é essa entidade à qual a mão pertence? Mais que isso, quem é essa outra entidade que provoca o corte na mão que, não sendo eu, pertence a outrem? De que lugar do corpo, ou melhor, de que lugar, que voz pronuncia a relação de posse com o corpo? Meu pé, minha perna, minha voz, meus olhos, meu coração...

Se tenho transplantado o pé, não deixo de ser eu, e o novo pé passa a integrar a lista de pertencimentos dessa entidade que continua a pronunciar: meu pé. Pergunto, então, qual o limite de transplantes é possível de se realizar para que essa entidade se reconheça como eu? Posso transplantar os pés, as pernas, os braços, os rins, o útero, o fígado, o coração, os ossos, a pele... Quanto da pele? Em que partes do corpo? Poderia ter o rosto transplantado, e o reconheceria como meu? Ou como eu?

De onde é pronunciado esse pertencimento? Do cérebro? Provavelmente não, pois também a ele me refiro como sendo meu: meu cérebro se confunde, e não consegue responder essa questão. Meu, de quem? Que metafísica é essa que descola o corpo daquilo que sou, colocando-o no lugar daquilo que me pertence?