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sábado, 22 de abril de 2017

Meu guia por territórios mágicos

p/ David

Eu tinha seis, sete, oito anos. Por vezes, meu pai me chamava para ir com ele buscar lenha, ou o milho maduro, já devidamente quebrado e reunido em grandes montes, no meio da roça. Ou mandioca, bananas, melancia... Íamos de carro de boi. Na ida, o carro ia vazio, e os solavancos do solo irregular nos jogavam de um lado para o outro, na caixa de madeira sobre rodas. Na volta, o carro pesado são sacudia tanto. Mas os bois sofriam mais.

Passávamos por dentro da mata. A mata estava bem ali, próxima. Mas era outro lugar, com outros tempos e outras temperaturas. A mata era um território mágico. Eu me sentia segura levada por ele. Ele conhecia os caminhos, as árvores, os sons, os perigos e as rotas sem risco. Ele era o senhor de suas cartografias.

Já se passaram 39 anos desde que ele se se foi, por outras matas mágicas, sem caminhos de volta.





domingo, 20 de dezembro de 2015

Duas mulheres, duas artistas, uma saudade

 p/ Selma Reis e Nilce Eiko

Ontem partiram duas mulheres cujos trabalhos estão entremeados à minha vida com doses especiais de afeto.

Nilce, nossa querida Eiko, uma artista sensível, que tive o prazer de conhecer numa sala de aula, eu, no papel de professora, ela, no papel de estudante, inquietas, ambas, aprendendo juntas.

Selma Reis, que não conheci pessoalmente. Apesar de não acompanhar amiúde seu trajeto como artista, saber de sua morte foi como ter apagada a voz que, em música, marcou partes da minha vida de modo indelével. Estranho sentimento...

Pela memória de Nilce, disponibilizo um vídeo com a música “Meu veneno”, de Milton Nascimento e Ferreira Gullar, cantada por Selma Reis.

vídeo disponível aqui


Pela memória de Selma Reis, cantora e atriz, disponibilizo uma imagem do trabalho de Nilce Eiko Hanashiro.



Porque a vida é finita, e finda, e somos frágeis, e estamos apenas de passagem...




             






terça-feira, 20 de outubro de 2015

os 100 anos de meu pai

p/ Seu David

Hoje meu pai faria 100 anos
Daqui 10 anos, eu estarei com a idade que ele tinha quando partiu
Foi bem pouco o tempo de convívio, esse nosso

Mas hoje eu posso dizer que meu pai é centenário
E isso vibra em mim uma estranha inteireza
Uma alegria vinda de fonte não sei qual

Terra Gwayá, 20 de outubro de 2015





terça-feira, 19 de agosto de 2014

Memórias de felicidade, e de saudade


Há certos estímulos à percepção que deflagram memórias especiais, convocadas de recônditos registros encravados no corpo, tantas vezes olvidadas. 

De onde vem, por exemplo, essa repentina alegria ao ver o lilás cintilante das petréias floridas no fim da tarde, oscilando com a brisa? 

Ou esta sensação de felicidade plena invadindo o corpo pelas narinas, quando o odor das sementes torradas da imburana de cheiro se espalha pela casa? 

Trata-se da mesma felicidade de que é portador o momento quando, no princípio da noite, as damas da noite eclodem, de botão em flor, aspergindo perfume invisível e inebriante à sua volta. 

Essa felicidade, que toma de assalto o frescor noturno, é sorvida pelos viventes das sombras. 

Na manhã seguinte, a visão da flor esmorecida, pendendo da haste, subtraído seu perfume, é tradução inequívoca de saudade...





sábado, 1 de fevereiro de 2014

Saudades e ETs: uma história típica de Brasília


Para minha pesquisa de doutorado, eu andava às voltas com a etimologia da palavra saudade. Encontrava as referências corriqueiras, disponíveis em quaisquer dicionários, que dão conta da origem latina da palavra:  solitas, solitatis, que significam, originalmente, solidão. Na língua portuguesa, a palavra ganhou as formas arcaicas soedade, soidade e suidade. Recorrentemente é apontada, também, alguma relação com as palavras saúde e saudar

Mas o Prof. J.B. insistia que eu deveria buscar a influência árabe na formação da palavra. Contudo, eu não conseguia nenhuma referência bibliográfica, tampouco pesquisa publicada, que tratasse do assunto. Até que encontrei, num dicionário pequeno, quase artesanal, perdido entre as estantes da biblioteca, um estudo extenso para o verbete. Ali, encontrei citado um autor que defendia essa influência. Reportei a ele a novidade, contente também por saber que o autor do dicionário era um professor aposentado pela universidade onde eu estudava. De pronto, o Prof. J.B. resolveu empreender esforços para encontrá-lo. Afinal, tratava-se de alguém que admitia um tempero árabe para essa palavra tão cara a nós, falantes da língua portuguesa!

Numa livraria bem conhecida, ele encontrou não só notícias sobre o autor do dicionário, bem como o próprio autor, e a informação de que estava sendo feita uma segunda edição da obra. Como providência inevitável, assegurou a aquisição de um exemplar. Ante o entusiasmo tanto meu quanto do Prof. J.B. com o assunto, o autor e a dona da livraria nos convidaram para tomar parte de um grupo devotado ao estudo de filosofia. As reuniões eram numa chácara, aos domingos. Ante uma provocação de tal natureza (quem, afinal, recusa um convite para estudar filosofia, aos domingos, numa chácara nas cercanias da cidade?), acolhemos a proposta, e providenciamos nossa participação já para o fim de semana seguinte.

A chácara ficava na estrada que liga Brasília a Goiânia, um pouco antes de Alexânia. Logo depois das sete curvas, havia uma estradinha de terra, à esquerda. Seguimos, observando os pontos de referência. Chegamos a uma casa com planta arredondada. Os muitos carros estacionados indicavam que as atividades já tinham sido iniciadas, contando com um número razoável de pessoas. No salão, várias mesas ocupadas por pessoas de faixas etárias diversas. Acomodamo-nos, por indicação da dona da livraria, numa mesa um pouco mais distante, e tentamos nos inteirar sobre os trabalhos em curso.

Uma senhora, a dona da chácara, fazia uma palestra, acompanhada com atenção pelo público numeroso. Ela relatava sua experiência com extraterrestres, ocorrida no final dos anos 1980, quando teria sido abduzida. Observando melhor, lembrei-me de ter visto seu rosto estampado num livro assinado por ela, cujo exemplar tinha estado, à época, em minhas mãos. Nele, ela fazia o relato do evento que, quase duas décadas depois, ocupava sua palestra. Trocamos breves olhares, eu e o professor, compartilhando suspeitas sobre qual o tipo de discussão que aconteceria ali. A senhora exaltava a sabedoria de seus amigos interplanetários, com quem mantinha contato continuado. A propósito, ela destacava a presença dos extraterrestres entre nós, mesmo que não os percebêssemos, e anunciava sua capacidade de cura para os nossos males.

Já ao meio dia, ela explicou que seria servido o almoço, para que, no período da tarde, pudessem retomar as atividades. O menu era próprio para a ocasião, incluindo em seu preparo elementos especiais que não só serviam para limpar o organismo como também deixavam as pessoas mais aptas e sensíveis para o contato extraterrestre. A essas alturas, o Prof. J.B. inquietou-se na cadeira e, mesmo sem me consultar previamente sobre se eu queria ou não experimentar tais iguarias, foi logo se lamentando pelo fato de termos um compromisso em Anápolis e outro em Goiânia, tudo no mesmo domingo, o que nos impediria de partilhar a refeição com o grupo, e acrescentou mais alguns argumentos, antes que nos despedíssemos, com abraços fraternos e votos de muitas coisas boas, e agradecimentos pelo convite e pela acolhida, e coisa e tal. E já seguíamos pela estrada, de volta, com uma fome danada, pensando em filosofia, ETs e, quem sabe, um rodízio de churrascaria...

Ainda hoje, quando passamos por aquela altura da estrada, lembramos do episódio que ficou, em minha memória, ligado a um sentido fundo da palavra saudade, esse sentimento que lembra o sangue pisado e preto dentro do coração, como parecem sugerir as expressões árabes, suad, saudá e suaidá...




quarta-feira, 6 de novembro de 2013

saudades

Que seu espírito alegre de menino siga seu caminho de luz! Saudades dos que ficam.



Nesta foto, o registro do momento quando ele nos pregou uma peça.
 Tínhamos acabado de chegar de viagem.
 Disfarçado de mendigo, para pedir comida, veio bater à porta de casa,
 depois de montar a personagem com todo cuidado.
 A sua benção, meu tio!


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O caminho da vida

A perda de um irmão
Deixa marcas no coração
Que se esquece jamais.
Quantas perdas de fato existem,
E, se irmãos sofrem tristes
Imaginem só a dor dos pais!

Embora sabendo que a vida
Tem sua chegada e sua saída
Ninguém se conforma com a morte!
A perda de um ente querido
Faz-nos sempre tristes, sofridos ...
Tantos os fracos como os fortes.

Nas orações entrego a Deus
Que se faça o melhor para os meus;
O que lhes for bom será também para mim.
Se a morte for a melhor salvação
Não deveremos ser contra, não!
A vida ... um dia ... chegará ao seu fim.

A vida ... nasce, cresce,
Floresce, frutifica, amadurece,
Envelhece e encerra sua missão.
Ela, em si, é a divina realidade;
Não acaba, não morre de verdade ...
É eterna, tem sua renovação.

A todos os irmãos amigos e amigos irmãos
O meu amor, o meu carinho e a minha gratidão.

Alice Vieira Martins

Brasília (DF), 06/11/2013


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Apontamentos sobre saudades


Este texto foi produzido em resposta à solicitação
 feita pelo meu querido amigo Elinaldo Meira,
 e refere-se à sua pesquisa de pós-doutorado no PACC/UFRJ.
 Está dedicado a ele, e à minha querida Heloísa Buarque de Hollanda,
 mentora primaz daquele Programa,
 e supervisora do projeto de pesquisa em pauta.
Saudades.

Buscando a etimologia da palavra saudade, encontramos indicações de sua raiz na palavra latina solitatem, é o que defende, entre outros estudiosos da língua portuguesa, Francisco da Silveira Bueno (1974). O verbete diz de um sentimento que mistura tristeza e esperança, ante a ausência de uma pessoa, de um país, de que se está distante, privado. Mas diz, também, da esperança de ainda revê-los. A palavra chega à sua forma contemporânea tendo tomado, no século XIII, as formas arcaicas soidade e soydade, no século XV, a forma soedade e, no século XVI, suydades.
No entanto, João Ribeiro (ALMEIDA, 1980) questiona a informação de que o termo soidade seja a raiz de saudade, e acena para a possibilidade de influência da língua árabe. Nela, se encontram as expressões saiad, saudá e suaidá, que, além de “lembrar” a palavra saudade, têm certo sentido de profunda tristeza, “do sangue pisado e preto dentro do coração” (p. 260).
Não importa se uma palavra de origem latina ou árabe, sentir saudades, no ambiente da língua portuguesa contemporânea (vale lembrar que o sentido de saudade tem representação em palavras em outras línguas, também, não só no português, como nós, seus falantes, desejaríamos que fosse. A exemplo das palavras citadas, no árabe), pressupõe um investimento afetivo voltado para eventos já vividos, ou pessoas conhecidas, objetos, enfim, que, anteriormente próximos de alguma forma, se tenham ausentado. Contudo, a ausência, a distância espacial ou temporal mais relevante não é a de dimensão objetivamente mensurável, mas subjetiva, relacionada com a intimidade do sujeito que sente solidão pela falta, cujo coração encontra-se tomado por dor e sangue pisado.
Mas Elinaldo propõe, em seu projeto de pesquisa, pensar em relações, dentre outras, entre noções de saudade e virtual. O que me pareceu instigante. Podemos começar a pensar sobre a questão, tomando a fala encontrada no poema dramático O Marinheiro (1980), de Fernando Pessoa, escrito em 1913, quando uma das personagens, a Segunda Veladora, declara que “só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...” (p. 114).
Ora, o mar, aquele que não veremos nunca, é virtual: existe como potência a ser realizada. A saudade refere-se, assim, a um sentimento investido num evento virtual, ainda não atualizado. O atual, que se contrapõe ao virtual, está aqui, agora, viabilizado, com sua potência tornada concretude. Do atual, não sentimos saudade, pois não está ausente, não nos acena como possibilidade: é, aqui e agora. Não há sangue para ser repisado no fundo do coração...

ALMEIDA, R. C. de. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Brasília: Valci Editora LTDA, 1980.
BUENO, F. da S. Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa. São Paulo: Ed. Brasília LTDA, 1974.
PESSOA, F. O eu profundo e os outros eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.