segunda-feira, 19 de junho de 2017

Manual de instruções para viajantes de trem e metrô






Pessoas que viajam em trens e metrôs têm atitude.
Parecem distraídas, mas estão atentas.
Seus corpos parecem relaxados, mas estão a ponto de (re)agir.
Se em pé, parecem estáveis, embora suas musculaturas trabalhem para manter o equilíbrio apesar do movimento.
Os olhares parecem perdidos na paisagem, mas nada passa despercebido à volta.
Quando o trem se aproxima da estação, a expressão é de indiferença...
Mas quando o trem para e a porta é aberta, levantam e saem, como se tivessem decidido fazê-lo no último instante.
Os passos, pela estação, são rápidos, como quem percorre território conhecido e estranho ao mesmo tempo.

Essa atitude tem alguma correspondência com a lei da física que rege a condição de viajar no trem.
O corpo está parado dentro do trem que se movimenta em velocidade.
O corpo parece parado, mas não está: move-se com o trem.
E quando o trem para, e o viajante desembarca, o corpo começa a se movimentar.
Ou continua a se movimentar. De outra forma.

Em viagens de carro, ou de ônibus, o corpo também permanece parado dentro do veículo em movimento.
Mas ele não parece parado: as irregularidades da via sacodem o veículo.
Então não é possível parecer parado.
O movimento se faz sentir de todas as formas.

As viagens de trem, e metrô, de alguma maneira, se parecem com a viagem que fazemos no firmamento.
O solo por onde caminhamos parece parado, estável, seguro.
Por vezes caímos, mas é pelo efeito da gravidade, e dos nossos próprios tropeços.

Embora pareça, o planeta-veículo que habitamos não está parado.
Movimenta-se em alta velocidade em torno ao sol.
E o sistema solar movimenta-se em alta velocidade na galáxia.
E a galáxia movimenta-se pelo imponderável, em velocidade que não se calcula pelas escalas humanas...







segunda-feira, 12 de junho de 2017

Dia dos namorados

p/ o meu amor, que não me dá flores compradas na loja.





Que no dia dos namorados, o amor se revele em pequenas belezas capazes de surpreender e capturar os sentidos, pela forma, pelo perfume, pelo brilho no olhar. E, num fragmento de instante, o mundo ganhe algum sentido.






terça-feira, 6 de junho de 2017

A mocinha que vende performance de antifeminista e a mulher-robô de Fritz Lang


A câmera do aparelho telefônico está criteriosamente posicionada para colocar em tela seu rosto, a parte superior do tronco e, principalmente, os gestos contundentes das mãos, com unhas cuidadosamente pintadas. E para parecer um pouco negligente, como se estivesse colocada meio ao acaso. Ela, a moça que executará a performance, conhece bem o campo coberto pela câmera, e cuidadosamente se move de modo a tirar proveito do enquadramento, com algumas saídas estratégicas, para entradas veementes em seguida. Antes de iniciar o espetáculo, os organizadores, homens, preparam microfone, fazem comentários com ela, que responde sempre afável e com a expressão de segurança, de quem sabe o que está fazendo. O sorriso breve sugere reconhecimento do terreno bem como certeza dos modos como moverá as peças para dominar a cena.

Ela calculou todos os passos para causar impacto. Polêmica é o seu principal produto à venda. Performance é sua estratégia. Por isso escolheu, para usar como bandeira, um assunto capaz de mobilizar passionalidades. Combater o feminismo pode ser uma boa pedida. Não importa o teor do seu discurso, tampouco importa se articula de modo coerente os conceitos que anuncia. Não importa se mente, ou se de fato leu todas as autoras cujos nomes brada, como se preparasse a próxima lista de bruxas que devessem ser condenadas à fogueira. Nada disso importa. Por isso mesmo, não adianta contestar seu discurso, nem contra-argumentar, nem convocar à razão. O que está em pauta, de fato, é o seu cachê, os cachês que vão sendo pagos por organizadores de eventos para públicos marcadamente masculinos (também não importa quantas mulheres deles façam parte). O valor do cachê é diretamente proporcional à sua capacidade de incitação à reação.

Por isso são vãos os protestos das feministas. Ou melhor: não, não são vãos, eles fazem parte dos cálculos da mocinha, e integram as estratégias de sua performance. Ela precisa deles, e eles são infalíveis: estão sempre lá, ou à volta. Ou mesmo estão na audiência difusa que a acompanha por meio das imagens geradas pela câmera, aquela que foi criteriosamente posicionada para transmitir sua performance online, ao vivo, e depois manter o vídeo disponível em plataformas digitais, para seus admiradores e seguidores, tanto quanto para seus adversários. Isso a alimenta. Isso alimenta sua performance. Isso alimenta seu cachê.

Seu rosto, seu gesto, sua expressão lembram-me as feições de outra mulher que marca a história do cinema: a robô que ocupou o lugar de Maria, no filme Metrópolis, de Fritz Lang. Aos que não viram o filme, faço um briefing. Metrópolis é uma cidade dividida em camadas. Cada camada é ocupada por uma categoria, posicionada de acordo com seu poder, capital econômico e importância na estrutura social. A elite habita a superfície, em palácios suntuosos; as máquinas, que são o meio de produção de riquezas, ocupam o primeiro subsolo; os operários, que operam as máquinas em jornadas extenuantes, vivem abaixo, ainda, num segundo subsolo, e nunca, mas nunca mesmo, podem emergir à superfície. Entre eles, Maria é uma espécie de revolucionária pacífica, com tintas messiânicas. Ela se esforça por agregar os operários, e defende que, por meio do amor, poderão encontrar um meio de sair daquela situação desumana e insustentável. Promete, ainda, que esse dia está por chegar. O filho do empresário principal proprietário da cidade, por acidente, acaba por conhecê-la. Quando sai à sua busca, acaba tomando conhecimento dos subsolos da cidade, e das condições miseráveis dos operários. Finalmente, a vê numa espécie de catacumba ainda mais profunda, numa de suas pregações aos demais operários. Apaixonam-se um pelo outro.

Na superfície, seu pai também é informado sobre o que se passa. Então reúne-se com o cientista, com quem arquiteta um plano diabólico: programar um robô com as mesmas feições de Maria, para ocupar o seu lugar, enquanto ela é mantida sequestrada. A robô-Maria é sensual, sedutora, participa de festas em boites para o deleite dos homens. E, quando desce à catacumba, ao encontro dos operários, no lugar da verdadeira Maria, os incita à rebelião, ao ódio. A ideia é que os operários reajam com violência, para justificar à elite combatê-los também com violência. E eles correspondem ao chamado. Contudo, a reação em massa escapa ao controle de todos. A horda não só destrói as máquinas como também coloca em risco a segurança da população, inclusive das crianças, filhos dos operários. Quando estes se dão conta, voltam-se contra a robô. Perseguem-na, e a queimam na fogueira.

Maria, libertada, consegue, finalmente, reunir-se à sua gente, e ao novo amor. Mais que isso, conquista o intento de mediar as negociações de um novo tempo. Talvez o filme se encaminhe para um final excessivamente otimista, um pouco piegas até. Talvez àquele tempo fosse necessário uma dose extra de otimismo, dadas as circunstâncias tão adversas vividas na Alemanha da década de 1920. Aos sobressaltos, entre polarizações e escapando a gestos de ódio também transcorremos os dias de hoje. Não nos faria mal algumas doses extras de otimismo e de esperança, sem perder o sentido crítico do mundo vivido.

A mocinha que se diz antifeminista prossegue em sua atuação diante da câmera e da platéia que a aplaude. O lugar onde está não se assemelha à catacumba onde Maria-robô incitou os operários. Mas a mocinha que se diz antifeminista está no auditório de uma universidade, onde, em tese, transitam os homens (sobretudo homens) de ciência. Ela, Maria-robô, foi devidamente programada por dois homens: um da ciência (frequentaria também universidades?), outro do capital (que toma as decisões; por exemplo, pode decidir pagar por uma palestra da mocinha que se diz antifeminista...). A performance da mocinha, seu olhar, seu discurso têm muitas afinidades com os da Maria-Robô. Estremeço pensando no fim dado à antagonista criada por Fritz Lang. Espero, sinceramente, que a mocinha não corra o risco de ter qualquer desfecho trágico assemelhado àquele. Mas, ao mesmo tempo, espero que a horda por ela incitada não reaja de modo a destruir conquistas frágeis que têm sido construídas a duras penas, amealhadas no decurso do tempo.

O risco está sempre ali, à frente, iminente.

Para ver Metrópolis: aqui 












sábado, 22 de abril de 2017

Meu guia por territórios mágicos

p/ David

Eu tinha seis, sete, oito anos. Por vezes, meu pai me chamava para ir com ele buscar lenha, ou o milho maduro, já devidamente quebrado e reunido em grandes montes, no meio da roça. Ou mandioca, bananas, melancia... Íamos de carro de boi. Na ida, o carro ia vazio, e os solavancos do solo irregular nos jogavam de um lado para o outro, na caixa de madeira sobre rodas. Na volta, o carro pesado são sacudia tanto. Mas os bois sofriam mais.

Passávamos por dentro da mata. A mata estava bem ali, próxima. Mas era outro lugar, com outros tempos e outras temperaturas. A mata era um território mágico. Eu me sentia segura levada por ele. Ele conhecia os caminhos, as árvores, os sons, os perigos e as rotas sem risco. Ele era o senhor de suas cartografias.

Já se passaram 39 anos desde que ele se se foi, por outras matas mágicas, sem caminhos de volta.





segunda-feira, 10 de abril de 2017

Lolita e o cirurgião plástico. Ou: A escola psicossocial do Big Brother

Para todas as mulheres não-amélias deste "Brasil Varonil"...
e para J. Bamberg, com quem partilho esta indignação


Encontro muitas pessoas que, com ar de desdém, afirmam nem saber o que se passa no atual reality show da Globo, a décima sétima edição (já vai ganhando a maioridade civil...) do Big Brother Brasil.

De meu lado, tenho visto, para tentar entender um pouco do que se passa fora da tela da TV. É sabido que as mídias promovem mais educação, e de modo mais ágil, que todas as instituições escolares reunidas. Um programa como esses não funciona apenas como espelho que potencializa conflitos e comportamentos da vida social contemporânea. Funciona, também, como espaço potente de aprendizagens, de legitimação para comportamentos sociais.

Então, quando as notícias sobre violência à mulher assustam pelo grau de perversidade, pelas estatísticas crescentes, pelo sentimento de impotência que nos invade, é preciso perguntar por onde se passam esses descaminhos, quais seus mananciais. Sem dúvida, o programa em questão faz parte dessa cartografia... 

Sua edição neste 2017 trouxe ao écran dos aparelhos de televisão e demais aparatos midiáticos, diuturnamente, a relação de um casal formado por uma moça e um homem maduro, durante o jogo, cuja natureza ganhou feições assustadoras, amedrontadoras. A moça ocupa, no imaginário dentro e fora do confinamento, o lugar da ninfeta que mantém um vínculo ambíguo e conflituoso com o homem mais velho. Uma espécie de Lolita. A temática é antiga. As Lolitas ocupam o lugar de fetiche no imaginário sexual ocidental contemporâneo.

Em 1955, Vladimir Nabokov publicou o livro Lolita, que conta a história de um homem maduro, que se casa com uma mulher de mesma idade. Contudo, apaixona-se pela filha dela, uma adolescente. Essa história foi transformada em filme por Stanley Kubrick, em 1962. 

Na atual edição do Big Brother, o homem maduro é um médico, cirurgião plástico, que provavelmente tenha quase o dobro da idade da ninfeta. De saída, em escalas de poder, no imaginário social, pelo fato de ser homem e médico ele se encontra, no ponto de partida, numa posição diferenciada em relação aos demais. Na condição de cirurgião plástico, um componente a mais toma parte da composição: a vaidade. O médico é vaidoso, e opera sobre esse mesmo fetiche. 

A Lolita em questão é muito jovem, passional, explosiva. Ele é dominador, vaidoso, mais velho. Ambos são egoístas, e parecem movidos a tensão e conflito. Berram entre si. Os dedos em riste apontam o outro, tocando a pele do rosto. Corpo a corpo, o médico imobiliza a Lolita que grita para ele sair, sem ser atendida. Ele prende-lhe o pulso. Depois é ela quem volta, retoma a discussão. Provoca a ira... sob os olhares das outras mulheres também confinadas. Para estas, eventualmente, sobram ataques por parte do médico, ou malcriações por parte da Lolita. 

Todos esses detalhes não seriam tão relevantes, se não resultassem numa contínua relação de brigas, ameaças, embates físicos, que configuram assédio moral continuado, violência psicológica sendo veiculada em horário nobre pela TV, sem qualquer providência mais séria em relação à gravidade do quadro. O assédio moral estende-se dos embates entre o casal para as demais participantes, mulheres, que ocupam territórios periféricos à bomba relógio, vulneráveis a seus efeitos. Indefesas aos ataques do sultão em sua primazia... 

Contudo, a insanidade dos jogadores confinados pelo programa, ou o cinismo da emissora de televisão não são as principais fontes da indignação que motiva este texto. Uma e outra conduta são em alguma medida esperadas, lamentavelmente. A indignação vem, principalmente, da aprovação, por parte do público, do comportamento do casal, imbatíveis até à reta final do programa, candidatos favoritos à vitória. A Lolita tem a maioria da preferência do público em todas as enquetes, e o médico permanece em jogo, eliminando todos os adversários que tenham a má sorte de enfrentá-lo nos paredões. 

Parece se estabelecer uma relação de mão dupla: o programa ganha em audiência por veicular uma relação passional que transita impunemente pelo assédio e a violência morais. Ao mesmo tempo, com o programa, a emissora desenvolve uma pedagogia psicossocial segundo a qual tal comportamento não só é aprovado como elevado à condição de fetiche, porquanto premiado no certame em curso. 

Isso tudo acontece quando as discussões feministas de toda ordem ocupam lugar nas universidades, nas escolas, nas ruas, até mesmo nos telejornais da própria emissora de televisão! 

Então eu me pergunto: onde estão os grupos ativistas que não se posicionaram, que não gritaram, que não tomaram, até aqui, nenhuma providência legal sobre o que está ocorrendo? Se recusam ainda a ver o programa, por considerá-lo refratário à sua causa, ofensivo à sua capacidade intelectual? Mas o que ele veicula toma parte dos quantos vetores sociais que redundam na violência contra a mulher! Ignorá-lo é também passar ao largo das fontes da violência e ser, portanto, conivente com elas.

Hard times... bad times...






sábado, 18 de março de 2017

Praia da FAV: uma lição de alegria e diversidade

Foto: (a identificar autoria)


Para Profª Carla 

Talvez eu deva iniciar este texto num ponto mais longínquo na linha do tempo: algum sábado pela manhã, em agosto de 2004, quando eu comecei minha trajetória como professora na Faculdade de Artes Visuais da UFG, oferecendo uma disciplina de Núcleo Livre. Sim, ela foi ofertada no sábado pela manhã. Fazia parte da turma uma estudante inquieta, atenta. Não sei porque ela estava ali, pois não tinha exatamente perfil de quem encontraria motivações pessoais o bastante para cursar uma disciplina aos sábados de manhã. Mas, contrariando as expectativas, estava, era assídua, pontual, e tinha motivação o bastante.

Desde então, o vínculo que nos ligou, no decurso do tempo, configurou-se delicado e fecundo. Mantivemos parcerias em projetos de iniciação científica, de conclusão de curso de graduação. Depois ela seguiu fazer mestrado e doutorado no exterior. Já devidamente titulada, foi aprovada em concurso, ingressando agora como professora na mesma escola onde fez sua formação inicial.

Não há novidades nessa condição: vários professores no quadro docente da nossa faculdade são egressos de nossos cursos de graduação ou pós-graduação stricto sensu. Mas a Profª Carla diferencia-se por guardar, em sua atuação como professora, faíscas da estudante que foi, do sujeito aprendente que sempre será. Estas faíscas encontram reverberação nas faíscas dos e das estudantes dos cursos de graduação, nos quais agora ela atua, ensinando. Desse encontro resultam projetos intensos, percursos ricos, marcados pelo desejo de pertencimento, pela vontade de perguntar, de aprender, de construir. Sobretudo, orientados pelo princípio do respeito inegociável à diversidade, e pelo direito à alegria.

O respeito inegociável à diversidade e o direito à alegria são os dois ingredientes principais do projeto Praia da FAV que, em 2017, ganhou sua segunda edição. Em geral, a chegada dos calouros aos seus cursos de graduação é tratada com uma programação marcadamente acadêmica, muitas vezes administrativa: apresentam-se os professores, as normas do lugar, a estrutura do curso, etc. Em geral, trata-se de uma aula a mais, na qual os estudantes recém-chegados ouvem o que os professores e, eventualmente, estudantes mais antigos têm a dizer. Tratam-se de informações que, quase sempre, são esquecidas logo em seguida...

Pensando nisso, lembrando a própria experiência como estudante, a Profª Carla decidiu modificar essa relação, alterando os protagonismos. Em seu projeto, o momento de apresentação, por parte dos coordenadores de curso de graduação, é preservado, mas ocupa um espaço mais econômico, sendo seguido de um tour pelo espaço físico da faculdade, guiado por estudantes veteranos. Espera-os o filé da celebração ao novo ano letivo que se inicia: uma intensa e diversificada programação na área externa do prédio, envolvendo piquenique coletivo, piscina com baleia de plástico, caixa d’água para brincar, jogo de vôlei, escorregador de sabão, balões de água, desfile de moda, música, alegria.

Pretende-se que os estudantes mais antigos façam a recepção aos calouros, responsabilizando-se pela estrutura física e pela organização das comissões. Sob a batuta animada da mentora da subversão.

Foi assim que, no dia 17 de março de 2017, a área externa da FAV lembrava, sim, uma praia instalada em pleno Planalto Central, a 800m de altitude em relação ao nível do mar. Gente bonita, alegre, celebrando seu ingresso num curso universitário público. Gente aprendendo a celebrar na diversidade, a respeitar as alegrias de todas as formas, sem que para isso sejam necessários discursos fadados ao esquecimento.

Lamenta-se, contudo, que a presença de professores dos cursos de graduação, sobretudo nos momentos iniciais do evento, seja tão escassa. Isso diz muito dos perfis que prevalecem, ainda, nas relações entre professores e estudantes. Isso nos informa, sobretudo, que as questões políticas vão além, muito além das discussões partidárias, penetrando os encaminhamentos mais basilares relativos aos modos de operação quotidiana da vida universitária.

Que tenhamos o direito e o fôlego necessários para viver e realizar muitas mais festas como essa. Por uma universidade menos careta! Vida longa aos projetos da Profª Carla. É um privilégio ter a sua parceria!


Vida longa à liga VVTT!!!! 


Foto: (a identificar autoria)


Foto: (a identificar autoria)


Foto: (a identificar autoria)


Foto: Renato Cirino



As fotos desta postagem foram compartilhadas,
 em rede social, pelos participantes do evento.
 Aos que identificarem autoria, agradeceria a informação,
 para acrescentar os créditos. 





quarta-feira, 15 de março de 2017

Como não foi eu que escrevi?


como é tão fácil para você
ser gentil com as pessoas ele perguntou

leite e mel pingaram 
dos meus lábios quando respondi

porque as pessoas não foram
gentis comigo

(Rupi Kaur. Outros jeitos de usar a boca. Milk and honey).



--- § ---


Leio Rupi Kaur,
 e cantarolo os versos de Milton Nascimento:


Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece
Como não fui eu que fiz?
(...)

(Milton Nascimento. Certas Canções)






segunda-feira, 13 de março de 2017

passarinhozinhozinho





Durante o tempo em que esteve no arbusto, só consegui ouvir seu canto e acompanhar, sempre em atraso, o seu movimento estremecendo as folhagens. 
Ei-lo, revelado.




domingo, 12 de março de 2017

Dos que se olham e se veem


Eu a vejo
Ela me vê
Eu empunho a câmera
Ela me observa
Eu ajusto a lente, abertura, velocidade, faço fotos
Ela me olha com firmeza
Sinto-me indagada
Ela agita as asas, e alça voo

Agora observo as fotos
Nelas, ela persiste em me olhar
E eu a ela




sábado, 11 de março de 2017

Polêmicas sobre Leandro Karnal à parte...


Clóvis de Barros Filho, Mario Sergio Cortella e Leandro Karnal são referidos como os três intelectuais brasileiros que aprenderam a operar as mídias sociais, ganhando visibilidade, chamando a atenção para seus discursos, e fazendo a cabeça de muitos jovens, ao tratar de temas diretamente ligados às angústias da vida contemporânea. E, é claro, faturando dividendos com isso, seja na venda de seus livros ao estilo bem mercadológico, seja no retorno financeiro resultante das visualizações de seus vídeos na plataforma Youtube. 

Destes, Leandro Karnal, com formação na área de História, é um professor universitário que atende a todas as exigências protocolares de quem orienta estudantes em cursos de graduação e pós-graduação stricto sensu. Por exemplo: tem seu currículo disciplinadamente atualizado na Plataforma Lattes, do CNPq, conforme exigem os sistemas de avaliação da CAPES/MEC. Atualização tão disciplinada quanto os ternos que usa, a camisa impecavelmente passada, e colocada para dentro da calça, como muito bem observou meu amigo Márcio Paixão Júnior, numa advertência com muita procedênciaNunca confie em ninguém com fala empostada e camisa pra dentro da calça.

A propósito, há um caroço no angu dessa conduta pretendidamente impecável, ou ilibada: a despeito de o caro professor ser DE (contrato que prevê dedicação exclusiva) na UNICAMP, a maior parte do seu tempo é dedicada a atividades com remuneração extra, tais como palestras, cursos de especialização, entre outras... Por exemplo, a PUC do Rio Grande do Sul está iniciando um curso de especialização em Finanças, Investimentos e Banking, de cujo corpo docente ele faz parte, ao lado de uma constelação de celebridades do momento. 

Bom, façamos vistas grossas a esse... digamos... deslize do rapaz. À frente. Nos vídeos que posta regularmente em seu canal no Youtube, articula discursos que se pretendem críticos, talvez em certa medida subversivos, no mínimo capazes de provocar alguma desestabilização em sua audiência. Contudo, são discursos disciplinados, bem comportados, com performance bem ensaiada.

De toda sorte, eventualmente, algumas das questões propostas são desenvolvidas de modo interessante. Afora o fato de que ninguém é tema de consenso todo o tempo, e que coerência entre discurso e prática é matéria prima cada vez mais escassa, por vezes ouvia seus discursos até o final, para tentar compreender seu modus operandi.

Foi assim que, há algum tempo, postei, na minha página da plataforma Facebook, o link de um vídeo seu, no qual defendia a ideia de que "Ser louco é a única possibilidade de ser sadio nesse mundo doente”. Bom, a essas alturas, um outro professor, também historiador, reagiu ao vídeo, argumentando que o Karnal fazia tal afirmação de modo irresponsável, sem ter em conta o drama das famílias que precisam lidar com a loucura patológica. Eu concordo com essa ponderação. O problema é que o tal professor o fez vociferando, xingando, enfiando palavrões numa postagem que eu fizera na minha timeline (minha timeline, não: timeline na qual o Mark Elliot Zuckerberg me autoriza a postar coisas em meu nome... sendo que ele continua sendo o dono...).

Bom, se o Mark Elliot Zuckerberg é o dono de todas as timelines do Facebook, e autoriza que eu poste e administre postagens em uma página com meu nome, e se alguém se arvora a bradar palavrões em razão de uma postagem feita por mim, depois de algum tempo observando o que ocorria, decidi tomar posição, e firmar pé. Pedi, diplomaticamente, que ele prestasse atenção à sua linguagem ao fazer comentários na postagem que eu fizera, que reservasse um mínimo de educação, ao menos ali. Ele reagiu de modo ainda mais agressivo, como se eu estivesse defendendo o vídeo do Karnal. Como se eu fosse responsável pelo discurso do Karnal. Ao final, sugeriu que, caso eu não quisesse que ele se manifestasse nas minhas postagens, que eu o bloqueasse.

Sugestão dada, sugestão aceita: bloqueei o rapaz, e nunca mais postei nada do Karnal, nem gastei meu tempo para ouvi-lo.

Agora me perguntem: senti falta de um dos dois rapazes? Eu lhes respondo: nenhuma! Ao contrário. Definitivamente, os discursos do Karnal não fazem falta para o aprofundamento das questões que me movem. Na verdade sequer considero a possibilidade de buscar neles alguma referencialidade. Até porque eles não propiciam quaisquer aprofundamentos, de fato: são rasos, tratam questões relevantes de modo aligeirado, até irresponsável muitas vezes (nisso, o historiador que eu bloqueei estava certo), e visam o mercado. O outro historiador? Se eu sinto falta dele? Bem, quem era mesmo ele? Nem me lembro seu nome...

A propósito, em relação à polêmica causada pela postagem de uma foto em que o Karnal está jantando com o juiz Moro, em Curitiba, cioso da magnífica companhia e dos projetos possíveis a se anunciar, reitero o que já escrevi anteriormente: boa parte dos pensadores legitimados pela história oficial das ideias da tradição ocidental de matriz europeia, à parte serem homens razoavelmente inteligentes, considerando-se os privilégios previamente garantidos pelo status quo, à parte dominarem a arte da oratória e do espetáculo, e concordando com o fato de eventualmente até terem ideias instigantes, não abriam mão de estar à sombra do poder, e manter suas cumbucas muito bem servidas, desde sempre! Sem julgamentos, nem sentenças radicais, sem dramas existenciais, Karnal apenas não é exceção a essa regra. Ponto.

Quem gosta de ver seus vídeos, que continue vendo; quem gosta de ler seus livros, que continue lendo. Mas é preciso sermos um pouco menos inocentes... ou crédulos...

Fica a dica.

PS.: em relação a Clóvis de Barros Filho e Mario Sergio Cortella, não tenho nada a dizer, porque não sei o que andam dizendo por aí. Tenho vontade de repetir o versinho que costumava declamar, quando criança, caso quisesse ressaltar a desimportância de algum assunto: não sei, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe... Está bem, não tenho raiva de quem sabe, mas não estou exatamente interessada em saber...





quarta-feira, 1 de março de 2017

Entre o 5º DÓ e o produtivismo nas universidades


Corriam os primeiros anos da década de 1990, quando eu comecei a fazer aulas de canto com o Prof. Luiz. Ele fora professor na Universidade de Brasília. Mas, por incompatibilidade com uma série de elementos da cultura universitária, exonerou-se e montou sua própria escola, numa pequena e aconchegante sala instalada num centro comercial. Ali, recebia seus alunos, muitos dos quais também alunos de música na UnB.

Já não me recordo como eu cheguei até ele. Eu já fizera aulas de canto em outros lugares. O encontro com ele foi particularmente feliz, e me propiciou aprendizagens que vão muito além do domínio vocal para o canto, coisa que aliás ando precisando voltar a praticar.

No meu primeiro dia de aula, ele me perguntou, com a simplicidade que lhe era peculiar: por que você quer cantar? Eu lhe expliquei, prontamente, que fazia teatro, e muitas vezes cantava em cena, além disso, eu cantava no Coro Sinfônico Comunitário da UnB, com mais outras 200 ou 300 vozes, e falei de afinidades e gostos, etc. Percebi que ele não perguntara questões funcionais ou práticas; notei que minha resposta resvalava para longe daquilo que ele queria saber. Entendi que eu mesma não tinha a resposta. Fiz de conta que estava satisfeita com o que lhe falara, mesmo sem estar. Ele também prosseguiu com a aula. Mas a pergunta se colou à minha pele, e nunca mais despregou. Por que eu queria cantar?

Algum tempo depois, no intervalo entre a minha aula e a próxima, uma moça contava, animada, que no dia anterior, fazendo exercício de vocalize, na universidade, alcançara o 5º DÓ. Esse é o DÓ mais agudo no teclado do piano, e encontra-se na 5º oitava desde o primeiro DÓ mais grave. Alcançar tal nota com a voz exige rigor no treinamento, domínio técnico, e extensão vocal.

Confesso, ela conseguiu seu intento de me impressionar com o feito. Mas o Luiz permaneceu sereno, ouvindo o relato da aluna. Ao final, ele perguntou Sim, você alcançou o 5º DÓ, e fez o quê com ele? A pergunta interrompeu o entusiasmo dela, e o meu estado de admiração. Como assim? Ele explicou Ora, se você alcança uma nota difícil só por alcançar, não acontece nada. Para chegar a uma nota, é preciso fazer isso com alguma finalidade expressiva. O que você fez com o 5º DÓ? A moça não fizera mais do que exercitar-se.

Ele aproveitou para prosseguir: você não precisa ter uma grande extensão vocal. Isso não necessariamente ajuda você. Mas precisa conhecer bem a extensão vocal que você tem, e saber usá-la em seus projetos. Ou seja: tem que dominar os recursos que sua voz lhe propicia, mesmo com pouca extensão vocal. Isso é mais importante do que alcançar notas muito agudas e não saber o que fazer com elas. Depois ele citou, como exemplo, a pequena extensão vocal da Nara Leão, e sua capacidade expressiva. Claro, ele não estava desqualificando qualquer domínio técnico, nem o trabalho de cantoras e cantores que tivessem grandes extensões vocais. Mas ressaltava ser necessário não confundir o domínio técnico em si com capacidade expressiva, com autoconhecimento corporal e vocal. 

Hoje, tantos anos depois, quando me deparo com professores exibindo os quantitativos de suas produções nos certames de avaliação institucional, eu me pergunto o que eles têm feito com os 5ºs DÓs que têm alcançado em exercícios de repetição. Inquieto-me da mesma forma com os outros professores que sequer se dispõem a fazer quaisquer exercícios vocais, alegando quaisquer razões para a negativa.

Afinal, tomamos, todos, parte de uma espécie de coro em concerto. Nem todas as músicas cantadas requerem o uso do 5º DÓ. Por outra, é preciso que se ouçam as vozes uns dos outros, que se busquem pontos de afinação, harmonia entre as vozes, que se ajuste o andamento. Para isso, é preciso atenção à própria voz em relação às demais. E muitas vezes poderá parecer que a nossa voz se perdeu entre todas as demais. O que é um equívoco: ela integrou-se aos acordes, faz parte deles, dá corpo a eles. Eventualmente há solistas. Algumas vozes em destaque. Mas estas não têm vida se isoladas. Estas também estão em relação ao coro e aos instrumentos. Elas devem ter isso em conta.

Enquanto uns ostentam medalhas no peito: alcançou o 5º DÓ por 10 vezes! e outros desdenham, recusando-se aos vocalizes e outros exercícios da cantata, o coro desafina, o andamento desanda, faltam vozes, falta musicalidade...

Nem só produtivismo de um lado, nem preguiça, frouxidão de outro...

Eu, que tenho uma voz classificada como mezzo soprano, já cantei como tenorina e como contralto, vozes mais graves para timbres femininos. Durante algum tempo, no Coro Sinfônico, eu mais algumas mulheres integramos o grupo dos tenores exatamente para dar suporte às vozes masculinas em regiões que, para eles, eram mais agudas. Ali, onde as vozes deles perdiam fôlego, as nossas vozes ganhavam volume. Era o trabalho coletivo, colaborativo. 

Quando eu cantava entre os tenores, não exercitava as regiões mais agudas. Mais tarde, quando voltei a cantar na faixa mais central, recuperei as notas mais agudas, mas perdi as graves. Minha extensão vocal não é lá muito grande. Jamais alcançaria o 5º DÓ. Mas aprendi que posso cantar as canções de que gosto, que se aconchegam à minha voz, com sinceridade e sentimento. Principalmente, com conhecimento dos recursos de que disponho, para operar com eles, a partir deles.

Talvez hoje eu pudesse chegar um pouco mais próximo de uma resposta satisfatória à pergunta do Prof. Luiz: canto por que essa é uma das atividades que ajudam a viver, do mesmo modo que escrever poesias, fazer fotos, cultivar flores e afetos, aprender, ensinar, reinventar o mundo a cada dia.

Não, eu não quero estar entre os que alcançam o 5º DÓ várias vezes em exercícios vocais. Nem quero estar entre os professores que apresentam maiores quantitativos de produção qualificada da instituição a que pertenço. Tampouco quero estar entre os que têm produção medíocre. Quero poder cantar, de preferência no coletivo, exercitar a autocrítica e poder produzir conhecimento compartilhado, para continuar a caminhar pela estrada, rumo às utopias que vislumbro, em horizontes sempre moventes.





terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O meu amigo Du


Tenho uma amiga muito especial, a quem endereço o afeto mais fundo. Um dos filhos dela tem um cão labrador, o Du. Como o filho fica a maior parte do tempo longe de casa, o Du convive mesmo é com minha amiga.

Se tem coisa que me deixa encafifada é essa história de as pessoas serem donas de animais. Proprietários de bens sobre patas, ou com asas, enfim. Do mesmo modo com as plantas...

O meu caso com o Du é antigo. De quando em vez, passo pela casa da minha amiga, só para dizer oi para ele (ah, e para ela também). Ele corresponde sacudindo a bunda, latindo com seu bocarrão, e trazendo coisas para brincar comigo: garrafas pet estraçalhadas, tapetes rasgados, cabos de vassoura mastigados...

Já fazia algum tempo eu não o via.

Ontem, foi aniversário da minha amiga. Liguei para ela. No meio da conversa, confessei: por vezes, sinto mais saudades do Du que de você... Mentira. Até porque sentir saudades dele é o mesmo que sentir dela: os dois são carne e unha. Eu queria mesmo era provocar. Aí ela me disse fala alguma coisa, que eu vou colocar o telefone no ouvido dele. Comecei a conversar com ele. Depois ouvi um barulho que não consegui decifrar, e ela caiu na gargalhada. Explicou-me: ao ouvir a minha voz, correu pegar a garrafa pet para brincar comigo. O barulho era a garrafa rangendo entre seus dentes.

Hoje não resisti. Fui até a casa deles, checar de perto essa história de ele querer brincar, ao ouvir minha voz pelo telefone. Du, meu querido! Saudades! Ele latiu, pulou para lá e para cá, entrou chamar minha amiga, e voltou ao portão, sacudindo a bunda mais que passista de carnaval. Depois trouxe um pequeno saco de plástico, para brincar. Esse saco não aguenta suas brincadeiras, Du! E se encostou em mim de frente, de ré, de lado. Encheu-me de pelos.

Quando saí, ficou me olhando pela grade do portão, olhos meio baixos, um tapete velho atravessado na boca.

Meu amigo querido. Amigos não são propriedades. A gente não possui: o afeto é que nos toma e estabelece laços.

Du, não vou me demorar a voltar. Preciso não demorar.




domingo, 12 de fevereiro de 2017

Fora do ninho


Na lateral do prédio, as caixas destinadas a aparelhos de ar condicionado que não foram usadas ganharam nova função: ninho para um casal de pombos criar seus filhotes.

Todos os dias, o trabalho da família é interminável: trazer alimento aos filhotes, abriga-los das intempéries.

Os filhotes crescem rapidamente, e logo já têm estatura próxima à dos pais. É quando começam a sacudir as asas, no ensaio do voo.

Num desses ensaios, o acidente doméstico: um dos filhotes caiu do ninho, entre os carros da garagem, no piso térreo do prédio. A mãe, entre aflita e ativa, impossibilitada de alçá-lo de volta ao ninho, trata de vigiá-lo, alimentá-lo, estimulá-lo a tentar voar. Ainda sem sucesso. Vigia a cria nesse novo e perigoso território de seu não-pertencimento.

O filhote, meio assustado, mas gradativamente ambientado, tem dormido em cantos ocultos ao movimento dos carros e das pessoas.

Não voltará ao ninho original. Ninguém voltará.
Não sabe o que lhe reserva o futuro. Ninguém sabe.





sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Ciência e política: entreveros nem sempre recomendáveis...


Vez por outra, cada vez mais amiúde, sou provocada a retomar este tema, considerando, sobretudo, episódios lastimáveis em que o conhecimento científico se suja com a voracidade pelo poder experimentada por arrivistas políticos.

Volto, portanto, ao pequeno, mas nem por isso menos importante, livro escrito por Max Weber, intitulado Ciência e política: duas vocações. Nele, Weber argumenta em favor da manutenção de uma fronteira clara entre a produção de conhecimento e a atuação política. Ou seja: cientistas e professores não deveriam engajar-se em projetos políticos, defender bandeiras, fazendo, para isso, uso de seu lugar à frente de seus estudantes ou das ferramentas desenvolvidas no exercício de construção de saberes. O seu conhecimento deveria ser disponibilizado para que os grupos sociais pudessem, a partir dele, de modo esclarecido, fazer suas escolhas, atuar politicamente.

Está na base dessa orientação o princípio da isenção do conhecimento, a necessidade de distanciamento para que seja possível a construção autocrítica da interpretação do mundo. O que não é possível ao político, este defensor ardente de determinados pontos de vista, em detrimento dos demais.

Dito de outro modo, ao cientista caberia o papel social de ver e interpretar o que vê, produzindo conhecimento, tanto no âmbito das ciências da natureza quanto das sociais. Ao político, sim, caberia o papel de agir, tendo como referência o conhecimento produzido pelo cientista. Entre conhecer e agir, portanto, haveria um hiato a ser respeitado por um e pelo outro.

Este posicionamento funda-se nos princípios da objetividade e da neutralidade da ciência, condição que, desde há muito, reconhecemos impossível. Nada que se produza, pense, formule, está isento dos pontos de vista de seus autores. Ou seja: o pensamento científico, ao lado de todos os demais saberes e fazeres, estão encharcados das crenças do cientista, de suas inserções nas malhas sociais e culturais de pertencimento, de suas visões de mundo, ainda que não confessadas. Assim, a questão da ciência engajada tem sido tema de discussão desde há algum tempo, e se debate ainda entre dissenções as mais variadas.

Uma das estratégias mais prudentes talvez seja, novamente, apontada pelo próprio Weber, ainda no pequeno livro Ciência e política: duas vocações, quando sugere ser necessário, ao cientista e professor, o auto-esclarecimento a respeito de suas escolhas de cunho epistemológico nos processos de produzir ciência e ensiná-la. Em outras palavras, o exercício contínuo da autocrítica. A parceria incorruptível com a dúvida, em termos flusserianos.

No entanto, é preciso notar que há trânsitos em várias direções nessa via entre ciência e política, entre pensamento e ação. Se, de um lado, tem-se problematizado a natureza de uma ciência engajada, ou seja, da produção de conhecimento que abraça causas, de outro lado há que se observar e discutir os projetos políticos que buscam, nas instituições voltadas à produção de conhecimento, a chancela de suas bandeiras, a legitimação de seus discursos. Quantas vezes, com finalidades escusas, não declaradas, ou dissimuladas.

Evidentemente, parcerias entre a ciência e os projetos políticos sociais são desejáveis, apontando caminhos de superação de dificuldades, de resolução de problemas que afligem as populações. Contudo, a palavra-chave é parceria. Nela, as relações devem ser equalizadas de modo paritário, mantida a independência de uma em relação à outra. Dito assim, pode parecer de simples resolução. Mas, na verdade, é aí que começam as dificuldades. O intento de sua viabilização, sua verificação nas vias práticas, nos campos de negociação, nos agenciamentos quotidianos é que revelam os enormes desafios implícitos nessas relações.

O maior deles está na subjugação da ciência aos interesses políticos de segmentos específicos dos detentores do poder, bem como aos interesses econômicos. A produção de conhecimento e os sistemas de educação postos a serviço do mercado e das estruturas de poder é uma condição que deve ser rechaçada por educadores e pesquisadores com o mínimo de idoneidade no exercício de seus ofícios. 

Reconheço: a busca pelo rigor ético, pela idoneidade no exercício do ofício de professora e pesquisadora também é uma posição de engajamento. E, igualmente, não constitui uma escolha fácil. Supõe, muitas vezes, desafiar instâncias de onde se ouvem cantos de sereia com irresistível poder de sedução. Afinal, as vaidades instigam os egos. O chamado à visibilidade salta à frente. O desejo de reconhecimento pelas diversas comunidades de pertencimento impõe-se. Em nome dessas motivações, se produzem, rapidamente, discursos auto-justificatórios que mesclam questões sociais, defesa do bem-estar público, com ideias de progresso, desenvolvimento, etc.

Por isso mesmo, volto sempre a Weber e a Flusser, e aos princípios do auto-esclarecimento e da dúvida. Volto a eles, mesmo sem tomar ao pé da letra suas recomendações quanto à objetividade mais radical na produção de conhecimento. No entanto, assumo como um dos fundamentos no exercício do meu ofício, a necessidade de observar, com cautelosa distância, os projetos políticos, os debates partidários, as estratégias do poder e do mercado, em relação ao mundo da ciência. Cada vez mais.

Sobretudo quando observo um trânsito nem sempre auto-esclarecido, nem sempre submetido à dúvida, de pesquisadores de universidades públicas entre seus campos de atuação acadêmica e cargos políticos nos poderes executivo ou legislativo.

Sobretudo, em tempos quando os noticiários nacionais das redes abertas de televisão, em horário nobre, anunciam que um representante de um partido político, integrante do primeiro escalão de uma equipe de governo polêmico e contraditório, tem a chancela da academia para assumir um cargo na suprema corte do Poder Judiciário (cargo que exercerá, provavelmente, pelas próximas duas décadas, ou mais), porquanto tenha obtido o título máximo de doutor...




terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Para que serve uma tese de doutorado?


Nos últimos anos, marcadamente desde o início dos anos 2000, mais precisamente a partir de 2002, aumentou em razão geométrica o número de doutores no Brasil. A política de expansão das universidades públicas e dos programas de pós-graduação possibilitou que um grande número de jovens, antes excluídos tanto do ensino superior e, sobretudo, dos cursos de pós-graduação, pudessem sonhar e realizar seus projetos de alcançarem os títulos de mestres e doutores.

Por sua vez, o Sistema Nacional de Pós-Graduação também passou por mudanças profundas, no sentido de desenvolver programas e plataformas cada vez mais complexas de controle e avaliação.

Nos bancos de teses e dissertações, multiplicam-se trabalhos aprovados em bancas e disponibilizados ao público, como parte da prestação de contas que se deva à sociedade: socializar o conhecimento produzido.

De tudo quanto seja produzido em nome das exigências de produtividade, ao fim e ao cabo, muito pouco é lido: artigos, capítulos de livros, teses, dissertações... Mas estas últimas, as teses e dissertações, não só são lidas como examinadas por bancas idôneas, que verificam a consistência do conhecimento produzido, que solicitam revisões antes da aprovação. Supõe-se que uma tese, quando aprovada, traga resultados legitimados, comprovados, de pesquisas desenvolvidas de acordo com os diferentes protocolos das diferentes áreas de conhecimento.

É claro: há sempre falhas no processo. Eventualmente, algum membro de banca não chegou a examinar o material com o devido cuidado. Muitas vezes fez uma leitura aligeirada, tendo decidido, previamente, aprovar o candidato a doutor. Noutras, prevalecem na avaliação questões de vaidade, mais que epistemológicas ou conceituais. Na academia, a fogueira das vaidades arde sem cessar...

O que dizer quando um doutorando, depois de ter defendido uma posição, em sua tese, obtendo aprovação em sua argumentação, em sua atividade pública assume posição antagônica à defendida? Quando a ação contraria o preceito, na atuação da mesma pessoa em questão?

Nesses casos, cabe a pergunta: para que serve uma tese de doutorado? Tão somente para alçar o candidato ao título? Eu, que recorrentemente me debruço sobre teses e dissertações de quantos candidatos, lendo com o respeito que cada um deles merece, mas também com o rigor que a produção de conhecimento requer, sinto-me desnorteada diante dessa questão.

Está posto: o Ministro da Justiça defendeu um ponto de vista em sua tese de doutorado. A banca o aprovou. O título de doutor legitima suas ações: é um conhecedor do assunto. Mas suas ações são conduzidas na contramão do que defendeu. Sobretudo quando o ponto da pauta é seu interesse próprio: tornar-se ministro no STF.

E eu aqui, me perguntando: para que serve uma tese de doutorado?


Tese: Jurisdição constitucional e tribunais constitucionais - garantia suprema da Constituição
Autor: Dr. Alexandre de Moraes 

Defendida em 2000, no Programa de Pós-Graduação em Direito - USP
Orientador: Dr. Dalmo de Abreu Dallari