terça-feira, 10 de outubro de 2017

Sobre a experiência estética

  
Foi ao Centro Cultural Caixa Econômica, para ver a exposição Êxodos, com fotografias de Sebastião Salgado. As 60 lâminas em preto e branco estavam dispostas ao longo de duas salas contíguas, organizadas em sequências que se referiam a refugiados de guerra, à condição humana nas grandes cidades, a disputas pelo direito à terra. Eu o vi observando longamente cada fotografia, e lendo as informações respectivas. Demorou-se diante de cada uma. Sua emoção transbordou no gesto e no silêncio. Comoveu-se com os rostos sofridos, com as cenas e os ambientes nos quais crianças, mulheres e velhos teimavam em continuar vivendo.

Saiu dali profundamente tocado.

Mais tarde, em casa, falou de sua comoção ante as condições de quantas mulheres e crianças em situação de risco e miséria, e da ignorância de todos nós no tocante às circunstâncias nas quais vivem milhares de pessoas nos quatro cantos do planeta. Falou como se fosse testemunha presencial das condições de dor e sofrimento vividas por aquelas pessoas fotografadas. 

A experiência deixou-lhe marcas indeléveis.

Salvo engano, se é que a arte serve para alguma coisa, deve ser para isso...






sábado, 7 de outubro de 2017

De pirilampos e cigarras

  
Não estou certa se primeiro se foram os pirilampos ou as guaviras. O fato é que seus ciclos e presença entrelaçavam-se com as nossas próprias vidas. Estavam ali, conosco, como tudo o mais que tomava parte daquele pequeno mundo. Em novembro, o gosto doce das frutinhas redondas e esverdeadas era tão certo quanto as luzinhas piscando-piscando dos pirilampos à frente da casa, no cair da tarde.

Um dia começaram a chegar os tratores às fazendas vizinhas. Ajudariam a ampliar a produção na lavoura. Melhorariam o pasto para o gado. Aos poucos, a vegetação dos campos foi sendo modificada. Quando nos demos conta, já não havia pirilampos. Tampouco guaviras. Hoje nem eu posso pisar aquele chão vermelho-tinta. Mas essa é já outra história.

Quando vim de lá, um dos assuntos recorrentes durante a primavera, na capital federal, eram as cigarras. Amadas por uns, odiada por outros, compunham, obrigatoriamente, a trilha sonora dos meses de setembro, outubro, novembro. Umas com trinados mais agudos, outras graves e compassadas. Algumas cantavam noite adentro, outras na madrugada, e todas em pleno calor do dia.

Um dia, apareceram os pássaros pretos. Andavam rente ao chão, à espreita, prontos para saborear cabeças de cigarras desavisadas. Começaram a ser vistos corpos decapitados dos insetos cantantes. Os pássaros aprenderam rapidamente a esperar que elas emergissem da terra e passaram a devorá-las antes mesmo de deixarem suas cascas nos troncos das árvores.

Em 2017, outubro adentro, ainda não ouvi um trinado sequer de cigarra.

Buscando informações, descobri que um número enorme de insetos está na lista da fauna em risco de extinção: borboletas, abelhas, grilos, gafanhotos, pirilampos... e as cigarras... Efeitos do avanço das cidades, e da agricultura intensiva. Uma tragédia ambiental da qual não temos ainda noção das dimensões.

E eu pergunto: quem chamará as chuvas?





domingo, 3 de setembro de 2017

Das lições de uma hortelã





Durante o dia, ela se alonga empurrando-se contra o vidro da janela, em busca da luz.
Mais tarde, já pela noite, no escuro, seus galhos estão eretos, voltados para cima. Repousa.
Tão precária a vida... tamanha gana de viver.




segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Não ser feminista é similar a ser escravagista.


O feminismo é o movimento de igualdade de que estávamos precisando. Não ser feminista é similar a ser escravagista. A decência diz que é preciso vencer o lugar comum e respaldar que homens e mulheres são iguais na casa, no trabalho, nas instituições, na religião; que não pode haver normas coercitivas por costumes ou interesses. Feminismo é decência, simplesmente. Nada mais e nada menos que isso.
Pilar del Río.









segunda-feira, 24 de julho de 2017

Conversas com Dona Olga

No pequeno restaurante, Dona Olga atende os fregueses com gentileza: monta os pratos feitos, arruma a mesa, serve o café, oferece sempre um sorriso tímido, fala pouco.

Pela manhã, fugindo à regra, desatou a conversar. Estava às voltas com uma questão que a inquietava: De que vale homenagear as pessoas depois que elas já morreram?

Interessei-me por sua pergunta. Começamos a conversar sobre o assunto. Ela contou-me de uma senhorinha que, em vida, era muito só. Deixou sua herança para um projeto social de sua cidade. Então, e só então, os membros desse projeto, e seus vizinhos, e demais moradores do local descobriram que ela tinha um acervo com grande valor cultural. Em razão disso, organizaram várias homenagens a ela. Mas, como insistia Dona Olga, tais homenagens não chegaram à senhorinha... Eram, na verdade, uma espécie de redenção da comunidade pelo não reconhecimento a ela, em vida.

Contei-lhe a história de Van Gogh que, em vida, teve apenas uma pintura vendida, e atualmente seus quadros estão entre os mais caros no mercado da arte. Lembrei também da artista Artemísia e sua dramática história. Ela então ponderou que, se hoje as mulheres vivem circunstâncias tão desfavoráveis, como teria sido lá pelos séculos XV, XVI, XVII?

Perguntei-lhe então se gostava de poesia. Seus olhos brilharam, respondeu que sim. Que iria dar-lhe, então, um livro de poemas escritos por minha mãe, falei. Sorriu. Ela também já escrevera poemas. Era quase uma confissão. Nunca os publicou? Não, foi sua resposta. Disse que, à época, trabalhava num comércio, e tinha um caderno, onde metia as poesias que lhe apareciam à cabeça. Disse também que tinha escrito muitas, mas que estavam guardadas.

No dia seguinte, entreguei-lhe o livro. Espero que goste dos escritos da minha mãe. E que possamos celebrar a poesia, a experiência estética, os encontros fraternos em vida, sempre!



quinta-feira, 13 de julho de 2017

Aqui, agora



Recebi um mimo para entregar à minha mãe. Um burrinho pequenino, cuidadosamente construído com diversos materiais, por mãos de artífice habilidoso, artista popular.

Cheguei à sua casa, e lhe entreguei o mimo. Quem mandou? O Juan, minha mãe. Juan? Buscou na memória frágil alguma referência que a ajudasse descobrir quem era Juan. Trouxe-lhe uma almofada rosa, de que ela gosta muito. Lembra desta almofada? Quem fez foi a Lola, avó dele. Ele quem lhe trouxe. Ela fez hannnnn, como se lembrasse. Mas fez só para não ter que encompridar um exercício de memória que resultaria em nada.

Ela se encantou com o burrinho. Beijou, brincou com ele, procurou um lugar bem à vista para guardar: Não posso colocar num lugar onde ele corra o risco de cair... Colocou na sala, junto com o boizinho de fibra de vidro, ao lado de dois bibelôs na forma de cachorro. O burrinho era muito menor que o boizinho, e também perdia em tamanho para os cachorros. Rimos por isso.

Alguns minutos depois, já na cozinha, comentei sobre o burrinho. Ela me olhou, sem entender o comentário: Burrinho?...

Voltamos à sala. Quando avistou o burrinho, lembrou-se: Ah, o meu burrinho, é bunitinho!

Do Juan, ainda não conseguiu se lembrar. Mas agradece pelo mimo, toda afetos.






domingo, 2 de julho de 2017

Quem tem medo do Photoshop?


Cheguei à copiadora de costume. Os dois rapazes que atendem estavam ocupados. Então a gerente veio me atender. Expliquei que eu precisava fazer a cópia da minha identidade, frente e verso, e da carteira de motorista, todas juntas na mesma página, a cores. Perguntei: você pode fazer isso? Notei um lampejo de hesitação no seu rosto. Ela olhou na direção de um dos rapazes. Olhou para mim. Nessa fração de segundo, ocorreu-me um conjunto de estratégias que eu poderia usar, dispondo de vários programas de computador, para fazer isso. Arrependi-me de não ter preparado o arquivo, levando-o já pronto. Então ela disse: Posso fazer, sim. Entreguei os documentos a ela, que foi digitaliza-los. Depois mos devolveu, e disse: Vai demorar só um pouquinho. E foi trabalhar num dos computadores disponíveis. Depois de alguns minutos, fui observá-la enquanto editava o material. Estava trabalhando com o Photoshop. Mas, a certa altura, não conseguiu reunir a segunda imagem ao arquivo aberto. Fez algumas tentativas. Chamou o rapaz, já liberado da tarefa anterior. Ele veio, e mostrou a ela uns atalhos, por meio dos quais rapidamente conseguiu realizar o intento. Mais um e outro ajuste, estava pronto. Eu sorri, e brinquei: Ah, Photoshop, cheio de segredos e atalhos! O rapaz sorriu, com ares de expertise. Ele comentou que só consegue trabalhar fazendo uso de atalhos. Então a gerente olhou para mim, e comentou: Você não vai acreditar, mas é a primeira vez que eu mexo com o Photoshop! Já não havia hesitação no seu rosto. Ao contrário, estava contente. Alegre como uma criança que consegue superar um desafio. Comentei que tinha observado alguma hesitação no seu rosto, quando fiz o pedido. Ela respondeu que, constatando estarem os dois rapazes ocupados, se perguntou se ela própria conseguiria. Então decidiu tentar. E conseguiu ir sozinha até certa altura. Já se sentia especialista em Photoshop!


  


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Manual de instruções para viajantes de trem e metrô






Pessoas que viajam em trens e metrôs têm atitude.
Parecem distraídas, mas estão atentas.
Seus corpos parecem relaxados, mas estão a ponto de (re)agir.
Se em pé, parecem estáveis, embora suas musculaturas trabalhem para manter o equilíbrio apesar do movimento.
Os olhares parecem perdidos na paisagem, mas nada passa despercebido à volta.
Quando o trem se aproxima da estação, a expressão é de indiferença...
Mas quando o trem para e a porta é aberta, levantam e saem, como se tivessem decidido fazê-lo no último instante.
Os passos, pela estação, são rápidos, como quem percorre território conhecido e estranho ao mesmo tempo.

Essa atitude tem alguma correspondência com a lei da física que rege a condição de viajar no trem.
O corpo está parado dentro do trem que se movimenta em velocidade.
O corpo parece parado, mas não está: move-se com o trem.
E quando o trem para, e o viajante desembarca, o corpo começa a se movimentar.
Ou continua a se movimentar. De outra forma.

Em viagens de carro, ou de ônibus, o corpo também permanece parado dentro do veículo em movimento.
Mas ele não parece parado: as irregularidades da via sacodem o veículo.
Então não é possível parecer parado.
O movimento se faz sentir de todas as formas.

As viagens de trem, e metrô, de alguma maneira, se parecem com a viagem que fazemos no firmamento.
O solo por onde caminhamos parece parado, estável, seguro.
Por vezes caímos, mas é pelo efeito da gravidade, e dos nossos próprios tropeços.

Embora pareça, o planeta-veículo que habitamos não está parado.
Movimenta-se em alta velocidade em torno ao sol.
E o sistema solar movimenta-se em alta velocidade na galáxia.
E a galáxia movimenta-se pelo imponderável, em velocidade que não se calcula pelas escalas humanas...







segunda-feira, 12 de junho de 2017

Dia dos namorados

p/ o meu amor, que não me dá flores compradas na loja.





Que no dia dos namorados, o amor se revele em pequenas belezas capazes de surpreender e capturar os sentidos, pela forma, pelo perfume, pelo brilho no olhar. E, num fragmento de instante, o mundo ganhe algum sentido.






terça-feira, 6 de junho de 2017

A mocinha que vende performance de antifeminista e a mulher-robô de Fritz Lang


A câmera do aparelho telefônico está criteriosamente posicionada para colocar em tela seu rosto, a parte superior do tronco e, principalmente, os gestos contundentes das mãos, com unhas cuidadosamente pintadas. E para parecer um pouco negligente, como se estivesse colocada meio ao acaso. Ela, a moça que executará a performance, conhece bem o campo coberto pela câmera, e cuidadosamente se move de modo a tirar proveito do enquadramento, com algumas saídas estratégicas, para entradas veementes em seguida. Antes de iniciar o espetáculo, os organizadores, homens, preparam microfone, fazem comentários com ela, que responde sempre afável e com a expressão de segurança, de quem sabe o que está fazendo. O sorriso breve sugere reconhecimento do terreno bem como certeza dos modos como moverá as peças para dominar a cena.

Ela calculou todos os passos para causar impacto. Polêmica é o seu principal produto à venda. Performance é sua estratégia. Por isso escolheu, para usar como bandeira, um assunto capaz de mobilizar passionalidades. Combater o feminismo pode ser uma boa pedida. Não importa o teor do seu discurso, tampouco importa se articula de modo coerente os conceitos que anuncia. Não importa se mente, ou se de fato leu todas as autoras cujos nomes brada, como se preparasse a próxima lista de bruxas que devessem ser condenadas à fogueira. Nada disso importa. Por isso mesmo, não adianta contestar seu discurso, nem contra-argumentar, nem convocar à razão. O que está em pauta, de fato, é o seu cachê, os cachês que vão sendo pagos por organizadores de eventos para públicos marcadamente masculinos (também não importa quantas mulheres deles façam parte). O valor do cachê é diretamente proporcional à sua capacidade de incitação à reação.

Por isso são vãos os protestos das feministas. Ou melhor: não, não são vãos, eles fazem parte dos cálculos da mocinha, e integram as estratégias de sua performance. Ela precisa deles, e eles são infalíveis: estão sempre lá, ou à volta. Ou mesmo estão na audiência difusa que a acompanha por meio das imagens geradas pela câmera, aquela que foi criteriosamente posicionada para transmitir sua performance online, ao vivo, e depois manter o vídeo disponível em plataformas digitais, para seus admiradores e seguidores, tanto quanto para seus adversários. Isso a alimenta. Isso alimenta sua performance. Isso alimenta seu cachê.

Seu rosto, seu gesto, sua expressão lembram-me as feições de outra mulher que marca a história do cinema: a robô que ocupou o lugar de Maria, no filme Metrópolis, de Fritz Lang. Aos que não viram o filme, faço um briefing. Metrópolis é uma cidade dividida em camadas. Cada camada é ocupada por uma categoria, posicionada de acordo com seu poder, capital econômico e importância na estrutura social. A elite habita a superfície, em palácios suntuosos; as máquinas, que são o meio de produção de riquezas, ocupam o primeiro subsolo; os operários, que operam as máquinas em jornadas extenuantes, vivem abaixo, ainda, num segundo subsolo, e nunca, mas nunca mesmo, podem emergir à superfície. Entre eles, Maria é uma espécie de revolucionária pacífica, com tintas messiânicas. Ela se esforça por agregar os operários, e defende que, por meio do amor, poderão encontrar um meio de sair daquela situação desumana e insustentável. Promete, ainda, que esse dia está por chegar. O filho do empresário principal proprietário da cidade, por acidente, acaba por conhecê-la. Quando sai à sua busca, acaba tomando conhecimento dos subsolos da cidade, e das condições miseráveis dos operários. Finalmente, a vê numa espécie de catacumba ainda mais profunda, numa de suas pregações aos demais operários. Apaixonam-se um pelo outro.

Na superfície, seu pai também é informado sobre o que se passa. Então reúne-se com o cientista, com quem arquiteta um plano diabólico: programar um robô com as mesmas feições de Maria, para ocupar o seu lugar, enquanto ela é mantida sequestrada. A robô-Maria é sensual, sedutora, participa de festas em boites para o deleite dos homens. E, quando desce à catacumba, ao encontro dos operários, no lugar da verdadeira Maria, os incita à rebelião, ao ódio. A ideia é que os operários reajam com violência, para justificar à elite combatê-los também com violência. E eles correspondem ao chamado. Contudo, a reação em massa escapa ao controle de todos. A horda não só destrói as máquinas como também coloca em risco a segurança da população, inclusive das crianças, filhos dos operários. Quando estes se dão conta, voltam-se contra a robô. Perseguem-na, e a queimam na fogueira.

Maria, libertada, consegue, finalmente, reunir-se à sua gente, e ao novo amor. Mais que isso, conquista o intento de mediar as negociações de um novo tempo. Talvez o filme se encaminhe para um final excessivamente otimista, um pouco piegas até. Talvez àquele tempo fosse necessário uma dose extra de otimismo, dadas as circunstâncias tão adversas vividas na Alemanha da década de 1920. Aos sobressaltos, entre polarizações e escapando a gestos de ódio também transcorremos os dias de hoje. Não nos faria mal algumas doses extras de otimismo e de esperança, sem perder o sentido crítico do mundo vivido.

A mocinha que se diz antifeminista prossegue em sua atuação diante da câmera e da platéia que a aplaude. O lugar onde está não se assemelha à catacumba onde Maria-robô incitou os operários. Mas a mocinha que se diz antifeminista está no auditório de uma universidade, onde, em tese, transitam os homens (sobretudo homens) de ciência. Ela, Maria-robô, foi devidamente programada por dois homens: um da ciência (frequentaria também universidades?), outro do capital (que toma as decisões; por exemplo, pode decidir pagar por uma palestra da mocinha que se diz antifeminista...). A performance da mocinha, seu olhar, seu discurso têm muitas afinidades com os da Maria-Robô. Estremeço pensando no fim dado à antagonista criada por Fritz Lang. Espero, sinceramente, que a mocinha não corra o risco de ter qualquer desfecho trágico assemelhado àquele. Mas, ao mesmo tempo, espero que a horda por ela incitada não reaja de modo a destruir conquistas frágeis que têm sido construídas a duras penas, amealhadas no decurso do tempo.

O risco está sempre ali, à frente, iminente.

Para ver Metrópolis: aqui 












sábado, 22 de abril de 2017

Meu guia por territórios mágicos

p/ David

Eu tinha seis, sete, oito anos. Por vezes, meu pai me chamava para ir com ele buscar lenha, ou o milho maduro, já devidamente quebrado e reunido em grandes montes, no meio da roça. Ou mandioca, bananas, melancia... Íamos de carro de boi. Na ida, o carro ia vazio, e os solavancos do solo irregular nos jogavam de um lado para o outro, na caixa de madeira sobre rodas. Na volta, o carro pesado são sacudia tanto. Mas os bois sofriam mais.

Passávamos por dentro da mata. A mata estava bem ali, próxima. Mas era outro lugar, com outros tempos e outras temperaturas. A mata era um território mágico. Eu me sentia segura levada por ele. Ele conhecia os caminhos, as árvores, os sons, os perigos e as rotas sem risco. Ele era o senhor de suas cartografias.

Já se passaram 39 anos desde que ele se se foi, por outras matas mágicas, sem caminhos de volta.





segunda-feira, 10 de abril de 2017

Lolita e o cirurgião plástico. Ou: A escola psicossocial do Big Brother

Para todas as mulheres não-amélias deste "Brasil Varonil"...
e para J. Bamberg, com quem partilho esta indignação


Encontro muitas pessoas que, com ar de desdém, afirmam nem saber o que se passa no atual reality show da Globo, a décima sétima edição (já vai ganhando a maioridade civil...) do Big Brother Brasil.

De meu lado, tenho visto, para tentar entender um pouco do que se passa fora da tela da TV. É sabido que as mídias promovem mais educação, e de modo mais ágil, que todas as instituições escolares reunidas. Um programa como esses não funciona apenas como espelho que potencializa conflitos e comportamentos da vida social contemporânea. Funciona, também, como espaço potente de aprendizagens, de legitimação para comportamentos sociais.

Então, quando as notícias sobre violência à mulher assustam pelo grau de perversidade, pelas estatísticas crescentes, pelo sentimento de impotência que nos invade, é preciso perguntar por onde se passam esses descaminhos, quais seus mananciais. Sem dúvida, o programa em questão faz parte dessa cartografia... 

Sua edição neste 2017 trouxe ao écran dos aparelhos de televisão e demais aparatos midiáticos, diuturnamente, a relação de um casal formado por uma moça e um homem maduro, durante o jogo, cuja natureza ganhou feições assustadoras, amedrontadoras. A moça ocupa, no imaginário dentro e fora do confinamento, o lugar da ninfeta que mantém um vínculo ambíguo e conflituoso com o homem mais velho. Uma espécie de Lolita. A temática é antiga. As Lolitas ocupam o lugar de fetiche no imaginário sexual ocidental contemporâneo.

Em 1955, Vladimir Nabokov publicou o livro Lolita, que conta a história de um homem maduro, que se casa com uma mulher de mesma idade. Contudo, apaixona-se pela filha dela, uma adolescente. Essa história foi transformada em filme por Stanley Kubrick, em 1962. 

Na atual edição do Big Brother, o homem maduro é um médico, cirurgião plástico, que provavelmente tenha quase o dobro da idade da ninfeta. De saída, em escalas de poder, no imaginário social, pelo fato de ser homem e médico ele se encontra, no ponto de partida, numa posição diferenciada em relação aos demais. Na condição de cirurgião plástico, um componente a mais toma parte da composição: a vaidade. O médico é vaidoso, e opera sobre esse mesmo fetiche. 

A Lolita em questão é muito jovem, passional, explosiva. Ele é dominador, vaidoso, mais velho. Ambos são egoístas, e parecem movidos a tensão e conflito. Berram entre si. Os dedos em riste apontam o outro, tocando a pele do rosto. Corpo a corpo, o médico imobiliza a Lolita que grita para ele sair, sem ser atendida. Ele prende-lhe o pulso. Depois é ela quem volta, retoma a discussão. Provoca a ira... sob os olhares das outras mulheres também confinadas. Para estas, eventualmente, sobram ataques por parte do médico, ou malcriações por parte da Lolita. 

Todos esses detalhes não seriam tão relevantes, se não resultassem numa contínua relação de brigas, ameaças, embates físicos, que configuram assédio moral continuado, violência psicológica sendo veiculada em horário nobre pela TV, sem qualquer providência mais séria em relação à gravidade do quadro. O assédio moral estende-se dos embates entre o casal para as demais participantes, mulheres, que ocupam territórios periféricos à bomba relógio, vulneráveis a seus efeitos. Indefesas aos ataques do sultão em sua primazia... 

Contudo, a insanidade dos jogadores confinados pelo programa, ou o cinismo da emissora de televisão não são as principais fontes da indignação que motiva este texto. Uma e outra conduta são em alguma medida esperadas, lamentavelmente. A indignação vem, principalmente, da aprovação, por parte do público, do comportamento do casal, imbatíveis até à reta final do programa, candidatos favoritos à vitória. A Lolita tem a maioria da preferência do público em todas as enquetes, e o médico permanece em jogo, eliminando todos os adversários que tenham a má sorte de enfrentá-lo nos paredões. 

Parece se estabelecer uma relação de mão dupla: o programa ganha em audiência por veicular uma relação passional que transita impunemente pelo assédio e a violência morais. Ao mesmo tempo, com o programa, a emissora desenvolve uma pedagogia psicossocial segundo a qual tal comportamento não só é aprovado como elevado à condição de fetiche, porquanto premiado no certame em curso. 

Isso tudo acontece quando as discussões feministas de toda ordem ocupam lugar nas universidades, nas escolas, nas ruas, até mesmo nos telejornais da própria emissora de televisão! 

Então eu me pergunto: onde estão os grupos ativistas que não se posicionaram, que não gritaram, que não tomaram, até aqui, nenhuma providência legal sobre o que está ocorrendo? Se recusam ainda a ver o programa, por considerá-lo refratário à sua causa, ofensivo à sua capacidade intelectual? Mas o que ele veicula toma parte dos quantos vetores sociais que redundam na violência contra a mulher! Ignorá-lo é também passar ao largo das fontes da violência e ser, portanto, conivente com elas.

Hard times... bad times...






sábado, 18 de março de 2017

Praia da FAV: uma lição de alegria e diversidade

Foto: (a identificar autoria)


Para Profª Carla 

Talvez eu deva iniciar este texto num ponto mais longínquo na linha do tempo: algum sábado pela manhã, em agosto de 2004, quando eu comecei minha trajetória como professora na Faculdade de Artes Visuais da UFG, oferecendo uma disciplina de Núcleo Livre. Sim, ela foi ofertada no sábado pela manhã. Fazia parte da turma uma estudante inquieta, atenta. Não sei porque ela estava ali, pois não tinha exatamente perfil de quem encontraria motivações pessoais o bastante para cursar uma disciplina aos sábados de manhã. Mas, contrariando as expectativas, estava, era assídua, pontual, e tinha motivação o bastante.

Desde então, o vínculo que nos ligou, no decurso do tempo, configurou-se delicado e fecundo. Mantivemos parcerias em projetos de iniciação científica, de conclusão de curso de graduação. Depois ela seguiu fazer mestrado e doutorado no exterior. Já devidamente titulada, foi aprovada em concurso, ingressando agora como professora na mesma escola onde fez sua formação inicial.

Não há novidades nessa condição: vários professores no quadro docente da nossa faculdade são egressos de nossos cursos de graduação ou pós-graduação stricto sensu. Mas a Profª Carla diferencia-se por guardar, em sua atuação como professora, faíscas da estudante que foi, do sujeito aprendente que sempre será. Estas faíscas encontram reverberação nas faíscas dos e das estudantes dos cursos de graduação, nos quais agora ela atua, ensinando. Desse encontro resultam projetos intensos, percursos ricos, marcados pelo desejo de pertencimento, pela vontade de perguntar, de aprender, de construir. Sobretudo, orientados pelo princípio do respeito inegociável à diversidade, e pelo direito à alegria.

O respeito inegociável à diversidade e o direito à alegria são os dois ingredientes principais do projeto Praia da FAV que, em 2017, ganhou sua segunda edição. Em geral, a chegada dos calouros aos seus cursos de graduação é tratada com uma programação marcadamente acadêmica, muitas vezes administrativa: apresentam-se os professores, as normas do lugar, a estrutura do curso, etc. Em geral, trata-se de uma aula a mais, na qual os estudantes recém-chegados ouvem o que os professores e, eventualmente, estudantes mais antigos têm a dizer. Tratam-se de informações que, quase sempre, são esquecidas logo em seguida...

Pensando nisso, lembrando a própria experiência como estudante, a Profª Carla decidiu modificar essa relação, alterando os protagonismos. Em seu projeto, o momento de apresentação, por parte dos coordenadores de curso de graduação, é preservado, mas ocupa um espaço mais econômico, sendo seguido de um tour pelo espaço físico da faculdade, guiado por estudantes veteranos. Espera-os o filé da celebração ao novo ano letivo que se inicia: uma intensa e diversificada programação na área externa do prédio, envolvendo piquenique coletivo, piscina com baleia de plástico, caixa d’água para brincar, jogo de vôlei, escorregador de sabão, balões de água, desfile de moda, música, alegria.

Pretende-se que os estudantes mais antigos façam a recepção aos calouros, responsabilizando-se pela estrutura física e pela organização das comissões. Sob a batuta animada da mentora da subversão.

Foi assim que, no dia 17 de março de 2017, a área externa da FAV lembrava, sim, uma praia instalada em pleno Planalto Central, a 800m de altitude em relação ao nível do mar. Gente bonita, alegre, celebrando seu ingresso num curso universitário público. Gente aprendendo a celebrar na diversidade, a respeitar as alegrias de todas as formas, sem que para isso sejam necessários discursos fadados ao esquecimento.

Lamenta-se, contudo, que a presença de professores dos cursos de graduação, sobretudo nos momentos iniciais do evento, seja tão escassa. Isso diz muito dos perfis que prevalecem, ainda, nas relações entre professores e estudantes. Isso nos informa, sobretudo, que as questões políticas vão além, muito além das discussões partidárias, penetrando os encaminhamentos mais basilares relativos aos modos de operação quotidiana da vida universitária.

Que tenhamos o direito e o fôlego necessários para viver e realizar muitas mais festas como essa. Por uma universidade menos careta! Vida longa aos projetos da Profª Carla. É um privilégio ter a sua parceria!


Vida longa à liga VVTT!!!! 


Foto: (a identificar autoria)


Foto: (a identificar autoria)


Foto: (a identificar autoria)


Foto: Renato Cirino



As fotos desta postagem foram compartilhadas,
 em rede social, pelos participantes do evento.
 Aos que identificarem autoria, agradeceria a informação,
 para acrescentar os créditos. 





quarta-feira, 15 de março de 2017

Como não foi eu que escrevi?


como é tão fácil para você
ser gentil com as pessoas ele perguntou

leite e mel pingaram 
dos meus lábios quando respondi

porque as pessoas não foram
gentis comigo

(Rupi Kaur. Outros jeitos de usar a boca. Milk and honey).



--- § ---


Leio Rupi Kaur,
 e cantarolo os versos de Milton Nascimento:


Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece
Como não fui eu que fiz?
(...)

(Milton Nascimento. Certas Canções)






segunda-feira, 13 de março de 2017

passarinhozinhozinho





Durante o tempo em que esteve no arbusto, só consegui ouvir seu canto e acompanhar, sempre em atraso, o seu movimento estremecendo as folhagens. 
Ei-lo, revelado.




domingo, 12 de março de 2017

Dos que se olham e se veem


Eu a vejo
Ela me vê
Eu empunho a câmera
Ela me observa
Eu ajusto a lente, abertura, velocidade, faço fotos
Ela me olha com firmeza
Sinto-me indagada
Ela agita as asas, e alça voo

Agora observo as fotos
Nelas, ela persiste em me olhar
E eu a ela




sábado, 11 de março de 2017

Polêmicas sobre Leandro Karnal à parte...


Clóvis de Barros Filho, Mario Sergio Cortella e Leandro Karnal são referidos como os três intelectuais brasileiros que aprenderam a operar as mídias sociais, ganhando visibilidade, chamando a atenção para seus discursos, e fazendo a cabeça de muitos jovens, ao tratar de temas diretamente ligados às angústias da vida contemporânea. E, é claro, faturando dividendos com isso, seja na venda de seus livros ao estilo bem mercadológico, seja no retorno financeiro resultante das visualizações de seus vídeos na plataforma Youtube. 

Destes, Leandro Karnal, com formação na área de História, é um professor universitário que atende a todas as exigências protocolares de quem orienta estudantes em cursos de graduação e pós-graduação stricto sensu. Por exemplo: tem seu currículo disciplinadamente atualizado na Plataforma Lattes, do CNPq, conforme exigem os sistemas de avaliação da CAPES/MEC. Atualização tão disciplinada quanto os ternos que usa, a camisa impecavelmente passada, e colocada para dentro da calça, como muito bem observou meu amigo Márcio Paixão Júnior, numa advertência com muita procedênciaNunca confie em ninguém com fala empostada e camisa pra dentro da calça.

A propósito, há um caroço no angu dessa conduta pretendidamente impecável, ou ilibada: a despeito de o caro professor ser DE (contrato que prevê dedicação exclusiva) na UNICAMP, a maior parte do seu tempo é dedicada a atividades com remuneração extra, tais como palestras, cursos de especialização, entre outras... Por exemplo, a PUC do Rio Grande do Sul está iniciando um curso de especialização em Finanças, Investimentos e Banking, de cujo corpo docente ele faz parte, ao lado de uma constelação de celebridades do momento. 

Bom, façamos vistas grossas a esse... digamos... deslize do rapaz. À frente. Nos vídeos que posta regularmente em seu canal no Youtube, articula discursos que se pretendem críticos, talvez em certa medida subversivos, no mínimo capazes de provocar alguma desestabilização em sua audiência. Contudo, são discursos disciplinados, bem comportados, com performance bem ensaiada.

De toda sorte, eventualmente, algumas das questões propostas são desenvolvidas de modo interessante. Afora o fato de que ninguém é tema de consenso todo o tempo, e que coerência entre discurso e prática é matéria prima cada vez mais escassa, por vezes ouvia seus discursos até o final, para tentar compreender seu modus operandi.

Foi assim que, há algum tempo, postei, na minha página da plataforma Facebook, o link de um vídeo seu, no qual defendia a ideia de que "Ser louco é a única possibilidade de ser sadio nesse mundo doente”. Bom, a essas alturas, um outro professor, também historiador, reagiu ao vídeo, argumentando que o Karnal fazia tal afirmação de modo irresponsável, sem ter em conta o drama das famílias que precisam lidar com a loucura patológica. Eu concordo com essa ponderação. O problema é que o tal professor o fez vociferando, xingando, enfiando palavrões numa postagem que eu fizera na minha timeline (minha timeline, não: timeline na qual o Mark Elliot Zuckerberg me autoriza a postar coisas em meu nome... sendo que ele continua sendo o dono...).

Bom, se o Mark Elliot Zuckerberg é o dono de todas as timelines do Facebook, e autoriza que eu poste e administre postagens em uma página com meu nome, e se alguém se arvora a bradar palavrões em razão de uma postagem feita por mim, depois de algum tempo observando o que ocorria, decidi tomar posição, e firmar pé. Pedi, diplomaticamente, que ele prestasse atenção à sua linguagem ao fazer comentários na postagem que eu fizera, que reservasse um mínimo de educação, ao menos ali. Ele reagiu de modo ainda mais agressivo, como se eu estivesse defendendo o vídeo do Karnal. Como se eu fosse responsável pelo discurso do Karnal. Ao final, sugeriu que, caso eu não quisesse que ele se manifestasse nas minhas postagens, que eu o bloqueasse.

Sugestão dada, sugestão aceita: bloqueei o rapaz, e nunca mais postei nada do Karnal, nem gastei meu tempo para ouvi-lo.

Agora me perguntem: senti falta de um dos dois rapazes? Eu lhes respondo: nenhuma! Ao contrário. Definitivamente, os discursos do Karnal não fazem falta para o aprofundamento das questões que me movem. Na verdade sequer considero a possibilidade de buscar neles alguma referencialidade. Até porque eles não propiciam quaisquer aprofundamentos, de fato: são rasos, tratam questões relevantes de modo aligeirado, até irresponsável muitas vezes (nisso, o historiador que eu bloqueei estava certo), e visam o mercado. O outro historiador? Se eu sinto falta dele? Bem, quem era mesmo ele? Nem me lembro seu nome...

A propósito, em relação à polêmica causada pela postagem de uma foto em que o Karnal está jantando com o juiz Moro, em Curitiba, cioso da magnífica companhia e dos projetos possíveis a se anunciar, reitero o que já escrevi anteriormente: boa parte dos pensadores legitimados pela história oficial das ideias da tradição ocidental de matriz europeia, à parte serem homens razoavelmente inteligentes, considerando-se os privilégios previamente garantidos pelo status quo, à parte dominarem a arte da oratória e do espetáculo, e concordando com o fato de eventualmente até terem ideias instigantes, não abriam mão de estar à sombra do poder, e manter suas cumbucas muito bem servidas, desde sempre! Sem julgamentos, nem sentenças radicais, sem dramas existenciais, Karnal apenas não é exceção a essa regra. Ponto.

Quem gosta de ver seus vídeos, que continue vendo; quem gosta de ler seus livros, que continue lendo. Mas é preciso sermos um pouco menos inocentes... ou crédulos...

Fica a dica.

PS.: em relação a Clóvis de Barros Filho e Mario Sergio Cortella, não tenho nada a dizer, porque não sei o que andam dizendo por aí. Tenho vontade de repetir o versinho que costumava declamar, quando criança, caso quisesse ressaltar a desimportância de algum assunto: não sei, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe... Está bem, não tenho raiva de quem sabe, mas não estou exatamente interessada em saber...