sábado, 22 de fevereiro de 2014

um sol para Julinha







Peabiru






O Peabiru teria sido a mais importante via transcontinental da América do Sul pré-colombiana. Essa "estrada" teria um tronco e uma série de ramais, formando uma rede. A linha tronco teria cerca de 3 mil quilômetros, ligando o Atlântico ao Pacífico. Ia do Brasil ao Peru, ou vice-versa, unindo o litoral de Santa Catarina e São Paulo ao litoral peruano. No trajeto, o Brasil (Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul), Paraguai, Bolívia e Peru.

A palavra é de origem tupi-guarani, com uma grande variedade de traduções possíveis: "Caminho forrado, entulhado"; "Por aqui passa o caminho antigo de ida e de volta"; "Caminho pisado, pegada do caminho, marca do caminho"; "Caminho ralo, caminho sem ervas"; "Caminho brando, suave"; "Caminho cujo percurso se iniciou"; "Caminho tortuoso, cheio de voltas"; "Caminho que leva ao céu, ou às alturas" (Rosana Bond).







quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A incivilidade cresce na mesma razão da frota de carros...


Na garagem do prédio onde moro, dentre os quantos, um problema multiplica-se dia a dia: muitas camionetes com cabine dupla insistem em se abrigar em vagas projetadas para carros de passeio. Resulta que avançam entre meio metro e um metro na área de circulação e manobra: área de uso comum.

No início, era uma camionete. Depois duas. Então várias. O síndico explica: é que aumentou o poder aquisitivo dos moradores! Eu respondo: enquanto isso, a capacidade de convívio em coletividade vai atrofiando, juntamente à civilidade...

Mas não é só na garagem do meu prédio que os carros são estacionados de maneira indevida, desrespeitando o princípio da civilidade: essa situação reflete uma outra, muito mais grave, replicada aos milhares nas ruas, praças, passeios, e demais locais públicos, onde o cenário é, no mínimo, cabuloso.

Um repórter do Jornal O Popular circulou pela cidade durante 6h, anotando infrações de trânsito. Passou por vários bairros, no centro e mais afastados, bairros populares e de elite. Notem: ele não é especialista no assunto, e o fez em circulação, o que talvez restrinja a observação de certos tipos de infração em favor de outros. Sua jornada resultou no registro de 285 infrações, que incluíram: dirigir falando ao telefone celular; dirigir sem cinto; avançar no sinal vermelho; etc. Mas o recorde esteve no quesito “estacionamento em lugar proibido”: em cima de calçadas, em fila dupla, em esquinas, sobre faixa de pedestres, impedindo passagem, etc.

Ora. Se, como diz o síndico do meu prédio, o poder aquisitivo das classes emergentes aumenta, a pressão do mercado e do próprio Estado é pela aquisição de seu carro novo. Goiânia está entre as cidades brasileiras com a maior frota de carros per capita. E tem, de longe, a maior frota de motocicletas per capita.

Sem qualquer política voltada para a educação no trânsito, prevalece o espírito competitivo, segundo o qual as palavras de ordem são: eu primeiro, o meu agora, esse lugar para mim, vire-se!

Não é à toa que, em 2013, Goiânia registrou 314 mil multas por excesso de velocidade em 11 meses. Cerca de 951 multas por excesso de velocidade a cada dia! A indústria das multas é lucrativa para o Estado, tanto quanto a indústria automobilística e de motocicletas. Talvez isso explique a omissão do Estado em relação ao disciplinamento, fiscalização e educação no tocante ao trânsito.

Embora tenha algum sabor de clichê, não resisto à tentação de repetir a velha referência ao filme de animação de Disney, “O senhor volante”, realizado ainda na década de 50. Que filmes faria ele, vivesse hoje?


video






segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

PPG Arte e Cultura Visual: nova página



Esta é a nova página do Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual. Ainda sendo montada, está quase pronta! 
Vocês já deram uma passadinha por lá? Este é o link: http://culturavisual.fav.ufg.br/
O antigo endereço redireciona para este.



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Transformação (Contos contidos. Maria Lúcia Simões)


Teresa não gostava do seu corpo e do seu rosto.

Principalmente de sua vida. Só gostava do seu nome, o que lhe dava ainda alguma alegria. Gostava também de Armando que, sem que ela o soubesse, a admirava.

Depois de muito pensar e decidida a conquistar Armando, mandou fabricar enorme boneca, em tamanho natural, usando materiais caríssimos: pele de seda, voz de veludo, olhos minerais.

Em frente ao espelho, com afiada faca, abriu o próprio peito, retirando do fundo o coração que, nas suas mãos, pulsava sangrando como um animal ferido. Introduzido em seu corpo, logo começou a boneca a ter vida própria guardando de Teresa apenas o nome e o coração.

E encontrando Armando, esse não a reconheceu, o que tornou inútil todo o seu trabalho.






terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Três concepções de identidade, segundo Stuart Hall

(A Identidade em questão. In Identidade Cultural na Pós-modernidade. pp. 07-22)

a) três concepções de identidade

Para os propósitos desta exposição, distinguirei três concepções muito diferentes de identidade, a saber, as concepções de identidade do:
a)sujeito do Iluminismo,
b)sujeito sociológico e
c)sujeito pós-moderno.

O sujeito do Iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo "centro" consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo - contínuo ou "idêntico" a ele - ao longo da existência do indivíduo. O centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa. Direi mais sobre isto em seguida, mas pode-se ver que essa era uma concepção muito "individualista" do sujeito e de sua identidade (na verdade, a identidade 'dele': já que o sujeito do Iluminismo era usualmente descrito como masculino).

A noção de sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com "outras pessoas importantes para ele", que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos - a cultura - dos mundos que ele/ela habitava, G.H. Mead, C.H. Cooley e os interacionistas simbólicos são as figuras-chave na sociologia que elaboraram esta concepção "interativa" da identidade e do eu. De acordo com essa visão, que se tornou a concepção sociológica clássica da questão, a identidade é formada na "interação" entre o eu e a sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o "eu real", mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais "exteriores" e as identidades que esses mundos oferecem.

A identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o "interior" e o "exterior" - entre o mundo pessoal e o mundo público. O fato de que projetamos a "nós próprios" nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornando-os "parte de nós" contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. A identidade, então, costura (ou, para usar uma metáfora médica, "sutura") o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis.

Argumenta-se, entretanto, que são exatamente essas coisas que agora estão "mudando". O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas. Correspondentemente, as identidades, que compunham as paisagens sociais "lá fora" e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as "necessidades" objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático.

Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma "celebração móvel": formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987). É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um "eu" coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora "narrativa do eu" (veja Hall, 1990). A identidade plenamente identificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar - ao menos temporariamente.


Deve-se ter em mente que as três concepções de sujeito acima são, em alguma medida, simplificações. No desenvolvimento do argumento, elas se tornarão mais complexas e qualificadas. Não obstante, elas se prestam como pontos de apoio para desenvolver o argumento central deste livro.




sábado, 8 de fevereiro de 2014

Labareda

p/ Carla


e para lembrar as canções do Liga Tripa: Labareda


LABAREDA, de Nonato Veras

Mesmo se chovesse tanto
Que arrasasse o milharal
Outra semente eu plantaria
Lá no fundo do quintal

Mesmo que o lume da noite
Vagalumeando o céu
Ainda assim eu acharia
Um avião de papel

Um olhar
Língua de fogo
É labareda

Um olhar
Língua de fogo
É labareda






sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

5. (Manoel de Barros, em Livro sobre nada)


Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bols-Sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim.



terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A idade do vidro quebrado


Dona Dilce terminou seu trabalho mais cedo, e veio para nossa casa, esperar pela filha, enquanto ela concluía a faxina, no sábado. Aproveitou para tomar um café, lavou a xícara, enxugou e foi guardar. Olhou longamente a porta do armário e sentenciou Este quebrado deste vidro é velho! Concordei com ela, dizendo que o armário estava precisando renovação. Ela discordou, reiterando que ela não estava falando nem do armário, nem do vidro do armário, mas do quebrado do vidro. Esse era o foco. Para não deixar dúvidas, decidiu ser bem didática, e explicar tudo direitinho: ela trabalhara com um casal de idosos, que morou neste apartamento quando o prédio era bem novinho. E o vidro já estava quebrado. Depois a filha dela trabalhou com outra família, também aqui, e o vidro continuava com o mesmo quebrado. Várias famílias passaram por aqui desde então. Ela e eventualmente uma das filhas trabalharam aqui. E o vidro? Ali, inteiro, íntegro em seu quebrado! Eu mesma, já estou aqui há coisa de uns... 6 anos! Acho mesmo que o vidro quebrado já virou patrimônio. 




sábado, 1 de fevereiro de 2014

Saudades e ETs: uma história típica de Brasília


Para minha pesquisa de doutorado, eu andava às voltas com a etimologia da palavra saudade. Encontrava as referências corriqueiras, disponíveis em quaisquer dicionários, que dão conta da origem latina da palavra:  solitas, solitatis, que significam, originalmente, solidão. Na língua portuguesa, a palavra ganhou as formas arcaicas soedade, soidade e suidade. Recorrentemente é apontada, também, alguma relação com as palavras saúde e saudar

Mas o Prof. J.B. insistia que eu deveria buscar a influência árabe na formação da palavra. Contudo, eu não conseguia nenhuma referência bibliográfica, tampouco pesquisa publicada, que tratasse do assunto. Até que encontrei, num dicionário pequeno, quase artesanal, perdido entre as estantes da biblioteca, um estudo extenso para o verbete. Ali, encontrei citado um autor que defendia essa influência. Reportei a ele a novidade, contente também por saber que o autor do dicionário era um professor aposentado pela universidade onde eu estudava. De pronto, o Prof. J.B. resolveu empreender esforços para encontrá-lo. Afinal, tratava-se de alguém que admitia um tempero árabe para essa palavra tão cara a nós, falantes da língua portuguesa!

Numa livraria bem conhecida, ele encontrou não só notícias sobre o autor do dicionário, bem como o próprio autor, e a informação de que estava sendo feita uma segunda edição da obra. Como providência inevitável, assegurou a aquisição de um exemplar. Ante o entusiasmo tanto meu quanto do Prof. J.B. com o assunto, o autor e a dona da livraria nos convidaram para tomar parte de um grupo devotado ao estudo de filosofia. As reuniões eram numa chácara, aos domingos. Ante uma provocação de tal natureza (quem, afinal, recusa um convite para estudar filosofia, aos domingos, numa chácara nas cercanias da cidade?), acolhemos a proposta, e providenciamos nossa participação já para o fim de semana seguinte.

A chácara ficava na estrada que liga Brasília a Goiânia, um pouco antes de Alexânia. Logo depois das sete curvas, havia uma estradinha de terra, à esquerda. Seguimos, observando os pontos de referência. Chegamos a uma casa com planta arredondada. Os muitos carros estacionados indicavam que as atividades já tinham sido iniciadas, contando com um número razoável de pessoas. No salão, várias mesas ocupadas por pessoas de faixas etárias diversas. Acomodamo-nos, por indicação da dona da livraria, numa mesa um pouco mais distante, e tentamos nos inteirar sobre os trabalhos em curso.

Uma senhora, a dona da chácara, fazia uma palestra, acompanhada com atenção pelo público numeroso. Ela relatava sua experiência com extraterrestres, ocorrida no final dos anos 1980, quando teria sido abduzida. Observando melhor, lembrei-me de ter visto seu rosto estampado num livro assinado por ela, cujo exemplar tinha estado, à época, em minhas mãos. Nele, ela fazia o relato do evento que, quase duas décadas depois, ocupava sua palestra. Trocamos breves olhares, eu e o professor, compartilhando suspeitas sobre qual o tipo de discussão que aconteceria ali. A senhora exaltava a sabedoria de seus amigos interplanetários, com quem mantinha contato continuado. A propósito, ela destacava a presença dos extraterrestres entre nós, mesmo que não os percebêssemos, e anunciava sua capacidade de cura para os nossos males.

Já ao meio dia, ela explicou que seria servido o almoço, para que, no período da tarde, pudessem retomar as atividades. O menu era próprio para a ocasião, incluindo em seu preparo elementos especiais que não só serviam para limpar o organismo como também deixavam as pessoas mais aptas e sensíveis para o contato extraterrestre. A essas alturas, o Prof. J.B. inquietou-se na cadeira e, mesmo sem me consultar previamente sobre se eu queria ou não experimentar tais iguarias, foi logo se lamentando pelo fato de termos um compromisso em Anápolis e outro em Goiânia, tudo no mesmo domingo, o que nos impediria de partilhar a refeição com o grupo, e acrescentou mais alguns argumentos, antes que nos despedíssemos, com abraços fraternos e votos de muitas coisas boas, e agradecimentos pelo convite e pela acolhida, e coisa e tal. E já seguíamos pela estrada, de volta, com uma fome danada, pensando em filosofia, ETs e, quem sabe, um rodízio de churrascaria...

Ainda hoje, quando passamos por aquela altura da estrada, lembramos do episódio que ficou, em minha memória, ligado a um sentido fundo da palavra saudade, esse sentimento que lembra o sangue pisado e preto dentro do coração, como parecem sugerir as expressões árabes, suad, saudá e suaidá...