domingo, 23 de junho de 2013

Certas vozes, certas melodias



Alguns momentos ganharam registo tão particular na memória, que não mais os perdi de vista, a despeito de não estarem vinculados a grandes eventos, ou tomadas de decisão, ou qualquer outra referência marcante nos percursos da vida. Ao contrário. Foram momentos banais, embora portadores de alguns elementos comuns a todos: deslocamento em meio ao movimento da cidade, espírito desatento (talvez até disperso), a surpresa de uma sonoridade que, sem aviso prévio, toma o primeiro plano da cena, e arrebata a atenção, redimensionando o sentido da experiência em curso. Essa sonoridade é, especificamente, uma música que salta dentre todas as outras (incontáveis) que integram as programações das emissoras de rádio.

I
Já se passaram mais de 20 anos. Mas ainda sinto na pele o calor ameno do sol daquela manhã, quando estacionei o carro perto do portão da escola onde eu lecionava. As vozes das crianças chegavam até mim, rebrilhando ainda mais sob a luminosidade matutina. Quando estendi a mão para desligar o rádio, iniciavam-se os acordes de uma música conhecida, Trem das cores, de Caetano Veloso, mas executada de um modo como eu não ouvira antes. Tampouco conhecia a artista que a interpretava. Notei que sua voz também rebrilhava, dançando, naquela paisagem quotidiana, de modo inédito para mim. Ela atravessava o espaço com uma precisão e delicadeza que me prenderam o fôlego. Fiquei ali, parada, imersa naquela melodia, por uma extensão de tempo que foi muito além do cronometrado no relógio. Quando a música acabou, e o encantamento foi quebrado pela voz do locutor anunciando algum reclame, pude retomar a rotina de professora de ensino fundamental. Fui caminhando pelo pátio da escola com a sensação de que tomara um banho de rio.

II
Estava participando de um congresso de sociologia, em Campinas. Enquanto caminhava pelo campus, ouvi uma música que misturava timbres muito distintos, reverberando na paisagem um certo estranhamento e ao mesmo tempo um chamado à celebração. Algum instrumento com fole era acompanhado por palmas e percussão. Sua sonoridade alongava-se entre os edifícios. Alcançou-me. Acenou para mim. Acompanhei seu fluxo. Em meio à feira movimentada com bancas cheias de livro, encontrei uma banca onde se vendiam CDs de grupos vários, entre os quais, o Mawaca e suas músicas do mundo. Aceitei o convite para a viagem. 
Vinheta astrolábio, Mawaca

III
Havia algum tempo que eu me mudara para Goiânia. Durante o percurso que fazia para o trabalho, seguia acompanhada pela programação de alguma emissora de rádio local. Numa dessas manhãs, foi abordada por uma voz masculina que me pareceu frágil e forte ao mesmo tempo, apoiada por alguns acordes de violão, econômicos e precisos. Ela me contava, de modo sensível, quase sofrido, I hurt myself today to see if I still feel. I focus on the pain, the only thing that’s real. Quase estacionei à beira da via, impactada pela voz que me soprava aos ouvidos aqueles segredos sobre a dor, acompanhada pelos acordes do violão, plangentes, melancólicos. Prossegui, com o coração palpitante. Uma voz que eu não conhecia, bela e rústica, sofrida e sensível, tudo ao mesmo tempo, ao referir-se à própria dor, tocara na minha, apontando-a como a única coisa real.

IV 
Esta é uma experiência bem recente. Findara o dia. Depois da jornada de trabalho, ainda tive fôlego para ir ao mercado, em busca de frutas, pães, e outros itens de alimentação. À garagem, enquanto estacionava o veículo, e pensava em todas as sacolas e pastas e livros que teria de portar até minha residência, fui surpreendia por um entrelaçamento inusitado de sonoridades. A melodia, um clássico, poderia ser reconhecida logo nos primeiros acordes: A Primavera, de Vivaldi. O ritmo também familiar, chega ao corpo com vibração particular: as palmas e o recorte da música e dança flamencas. No entanto, o encontro entre um e outro pareceu multiplicar em megatons a vivacidade da primavera (distante, ainda, pois há pouco adentramos o inverno), ao mesmo tempo em que a primavera pareceu servir como uma luva para a atmosfera da música flamenca. Pelos quase quatro minutos de duração da melodia me olvidei dos afazeres, do peso das bagagens, da correria do dia a me exaurir. O pulso ajustou-se ao andamento vivaz das palmas a marcar uma dança de tudo à volta, e o pensamento flutuou pelos acordes vivaldianos. Esse teria sido o sentido de alegria a tomar-me assim, sem razão instrumental. Alegria que jorra, de repente, como água morna a aquecer no frio, como luz cálida sobre arbusto florido, como aves em algazarra de volta ao ninho nos fins de tarde.





sábado, 22 de junho de 2013

A horda...

A horda...

Na superfície das grandes obras e vias, a elite instala-se com seus palacetes, e partilha banquetes entre os convivas. No primeiro nível dos subterrâneos estão os complexos de máquinas que fabricam as riquezas, funcionando 24h por dia. Executam os procedimentos que mantêm as máquinas em funcionamento um exército de operários que habitam o segundo nível dos subterrâneos. Nos poucos momentos que têm distantes das máquinas, os operários reúnem-se em labirintos ainda mais profundos dos subterrâneos, onde conspiram, liderados por Maria (esse nome é portador de uma tradição judaico-cristã importante). Ela defende a necessidade de uma revolução pacífica (isso nos lembra alguma coisa?), mediada pelo amor. Os operários não se pronunciam: ouvem Maria, ouvem as máquinas, ouvem... ouvem...

Na superfície, a elite também conspira, visando assegurar a manutenção de seu status quo. Há delatores entre os operários (sempre há...). Um dos quais, um operário muito grande, com rosto sem expressão, entrega o mapa do lugar onde se reúnem. Não pronuncia palavra. Não tem nome. Retorna aos subterrâneos, de onde não pode sair sem autorização.

Maria é sequestrada. O cientista do império cria um robô à sua imagem e semelhança, para ser colocado em seu lugar. O que há de mais avançado na ciência e na tecnologia está a serviço da elite, de sua permanência nos estratos mais altos das estruturas hierárquicas de poder político e econômico. Não, a ciência não é neutra.

Maria-robô segue para os subterrâneos e, cumprindo o papel para o qual foi programada por seus criadores, incita os operários à violência: tanto tempo esperando por vias pacíficas, sem qualquer resultado, agora é a vez de uma ação mais contundente. Liderados pelo robô, sem percebê-lo impostor (incapazes de interpretação crítica de seu contexto, afinal...), os operários avançam sobre as máquinas, em direção à superfície. Em meio caminho, descobrem a identidade usurpada. A fúria vigente não se modifica. A horda segue, em massa, incapaz de dar-se conta das manipulações e riscos reais em jogo.

Na superfície, a horda queima o robô em fogueira aberta (a inquisição das massas é implacável...), e persegue o cientista até a morte. Só os dois são castigados, sem direito a defesa: a ciência, e sua criação. Quem os financia, aqueles a quem prestam serviço, esses permanecem impunes ante a horda...

Na sequência final, elite e operariado fazem as pazes. O empresário aperta a mão daquele que representa o operariado. É o mesmo delator que entregou o mapa dos subterrâneos onde reuniam-se para conspirar. Continua sem nome, sem pronunciar palavra. Seu rosto ainda não tem expressão. O acordo é selado, em nome da paz. O filho do operário é o mediador. Desde o início da história, o herdeiro do império conduz todas as ações, e representa o coração a ligar a mente que pensa (o empresário) e as mãos que trabalham (os operários): assim anuncia Maria, a heroína liberta das garras do cientista nefasto.

Esse é um resumo breve do clássico Metropolis, dirigido por Fritz Lang, no final dos anos 20 do século XX. Um filme contraditório, realizado em contexto conturbado. Influenciado por ideias marxistas, pela Revolução Russa, pelos conturbados movimentos do nazismo ascendente, incorpora as tensões e os paradoxos correntes de seu tempo.

Não consigo deixar de pensar nele, por estes dias...





quarta-feira, 19 de junho de 2013

O monstro foi para a rua (de Elio Gaspari)



Em dezembro de 1974, a oposição havia derrotado a ditadura nas urnas, elegendo 16 dos 21 senadores, e o ex-presidente Juscelino Kubitschek estava num almoço quando lhe perguntaram o que acontecia no Brasil.
- O que vai acontecer, não sei. Soltaram o monstro. Ele está em todos os lugares.
Abaixou-se, como se procurasse alguma coisa embaixo da mesa e prosseguiu:
- Ele está em todos os lugares, aqui, ali, onde você imaginar.
- Que monstro?
- A opinião pública.
Dois anos depois JK morreu num acidente de automóvel e o monstro levou-o no ombros ao avião que o levaria a Brasília. Lá ocorreu a maior manifestação popular desde a deposição de João Goulart.
Em 1984 o general Ernesto Geisel estava diante de uma fotografia da multidão que fora à Candelária para o comício das Diretas Já.
- Eu me rendo --disse o ex-presidente, adversário até a morte de eleições diretas em qualquer país, em qualquer época.
Demorou uma década, mas o monstro prevaleceu. O oposicionista Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral e a ditadura finou-se.
O monstro voltou. O mesmo que pôs Fernando Collor para fora do Planalto.
No melhor momento de seu magnífico "Pós Guerra", o historiador Tony Judt escreveu que "os anos 60 foram a grande Era da Teoria". Havia teóricos de tudo e teorias para qualquer coisa. É natural que junho de 2013 desencadeie uma produção de teorias para explicar o que está acontecendo. Jogo jogado. Contudo, seria útil recapitular o que já aconteceu. Afinal, o que aconteceu, aconteceu, e o que está acontecendo, não se pode saber o que seja.
Aqui vão sete coisas que aconteceram nos últimos dez dias:
1) O prefeito Fernando Haddad e o governador Geraldo Alckmin subiram as tarifas e foram para Paris, avisando que não conversariam nem com os manifestantes. Mudaram de ideia.
2) Geraldo Alckmin defendeu a ação da polícia na manifestação de quinta-feira passada. Mudou de ideia e pacificou sua PM.
3) O comandante da PM disse que sua tropa de choque só atirou quando foi apedrejada. Quem estava na esquina da rua da Consolação com a Maria Antônia não viu isso.
4) Dilma Rousseff foi vaiada num estádio onde a meia-entrada custou R$ 28,50 (nove passagens de ônibus a R$ 3,20).
5) O cartola Joseph Blatter, presidente da Fifa, mandarim de uma instituição metida em ladroeiras, achou que podia dar lição de moral aos nativos. (A Viúva gastará mais de R$ 7 bilhões nessa prioridade. Só no MaracanãX, torraram R$ 1,2 bilhão.)
6) A repórter Fernanda Odilla revelou que o Itamaraty achou pequena a suíte de 81 m² do hotel Beverly Hills de Durban, na África do Sul, e hospedou a doutora Dilma no Hilton. (Por determinação do Planalto, essas informações tornaram-se reservadas e, a partir de agora, só serão divulgadas em 2015.)
7) A cabala para diluir as penas dadas aos mensaleiros que correm o risco de serem mandados para o presídio do Tremembé vai bem, obrigado. O ministro Dias Toffoli, do STF, disse que os recursos dos réus poderão demorar dois anos para ir a julgamento.
Para completar uma lista de dez, cada um pode acrescentar mais três, ao seu gosto.

Texto de Elio Gaspari.



segunda-feira, 17 de junho de 2013

depois do circo, o povo foi às ruas!

Na segunda feira, as cidades amanheceram em sua correria de sempre. Tudo parecia cumprir sua normalidade. Ao final, feito o primeiro balanço da Copa das Confederações, tudo indicava que as metas não tinham sido alcançadas em sua totalidade, no tocante à chegada de turistas, ao movimento de torcedores.

O movimento que ganhou visibilidade foi outro: milhares de pessoas foram às ruas, em várias cidades, entre capitais e outras de menor porte, em manifestações pacíficas. Os protestos contra o aumento do preço das passagens de ônibus foram fortalecidos pela insatisfação com as políticas públicas para a saúde, a educação, a segurança, num país onde se pagam as maiores taxas de impostos do planeta, e onde se gastam bilhões na construção de estádios que não significam benefícios efetivos para a população. Onde a corrupção multiplica-se em desvios do dinheiro público. Onde, aos poucos, se perde a confiança nos poderes que sustentam o Estado...

Contradições em cena, conflitos, tensões, a nação começa a sair da letargia. Reaprende a ocupar os espaços de exercício da cidadania. Move-se. Expressa-se. Reage.

Ainda é possível sonhar?




domingo, 16 de junho de 2013

Pão e circo e o leão do imposto de renda à população


No sábado, a cidade acordou um pouco mais cedo. Todos tinham pressa nos afazeres rotineiros, para participar, presencialmente ou à distância, do evento-espetáculo abertura da Copa das Confederações. Quase todos. Alguns tinham pressa para se manifestar contrários à política do pão e circo vigente nos vários âmbitos do Estado brasileiro, política da qual o grande espetáculo tomava parte.

Algumas ruas foram interditadas. Grandes palcos com espaço para shows musicais e telão foram instalados para que o público pudesse testemunhar tudo, mesmo sem ter acesso ao Estádio Nacional Mané Garrincha. Houve até jornalista que questionasse o nome do estádio, referindo-se à homenagem ao grande jogador. Ninguém lembrou que o grande Mané Garrincha viveu seus últimos dias no Distrito Federal, morrendo pobre e sem assistência na cidade satélite de Sobradinho. À parte dos espetáculos...

À porta do estádio, alguns entreveros: manifestantes empunhavam protestos, policiais posturavam-se na frágil passarela do discurso que anunciava “é preciso garantir o direito de expressar-se, de manifestar-se, mas também é preciso garantir ao cidadão que comprou seu ingresso o direito de assistir ao espetáculo”, famílias e torcedores em geral vestiam-se com bandeiras e alegrias meio tontas enquanto dirigiam-se aos portões de acesso. Nos céus, helicópteros, aviões não tripulados, e nuvens numa tarde que fora anunciada como ensolarada. Muitas nuvens, que redundaram em chuva durante a partida. Erros de previsão acontecem, afinal...

À tarde, as pessoas se acotovelaram em torno de aparelhos de televisão nos bares, nas casas, além do palco no gramado da Esplanada dos Ministérios.

Mas houve também, e não foram poucos, aqueles que tenham se mantido à parte da festa, observando criticamente o momento político e econômico do país, a desfaçatez em que se encontra a saúde pública, ao lado da educação e da segurança, ante os bilhões gastos para a construção de um estádio que pouca serventia terá, e uma festa “para gringo japonês ver”.

Foram muitas as comemorações da vitória brasileira no primeiro jogo. Finalmente Neymar voltou a apresentar seu bom futebol! Bebeu-se ao grande feito. Dançou-se pelo grande feito. No domingo, a cidade amanheceu com cara de ressaca. Cada um foi retomando sua vida, suas dívidas, os impostos (cada vez mais caros) a pagar, as rezingas quotidianas, o cansaço do trabalho, os pés doloridos no fim de cada dia...

Minha mãe sentencia: “se faltarem os trabalhadores, os campesinos, a cidade não sobrevive; se a cidade acabar, os trabalhadores e os campesinos inventam outra cidade; se os jogadores acabarem, todos continuam vivendo...”

Disponível em emBrasília (facebook)




quinta-feira, 13 de junho de 2013

estado de saturação

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quarta-feira, 12 de junho de 2013

sexta-feira, 7 de junho de 2013

que tudo passe

                              p/ Maria Geneci, com carinho


                    passe a noite
                    passe a peste
                    passe o verão
                    passe o inverno
                    passe a guerra
                    e passe a paz

                    passe o que nasce
                    passe o que nem
                    passe o que faz
                    passe o que faz-se

                    que tudo passe
                    e passe muito bem


(Paulo Leminski)




quarta-feira, 5 de junho de 2013

AMBOS MUNDOS: Gê Orthof

A Galeria da FAV convida para a exposição individual AMBOS MUNDOS, de Gê Orthof.
Abertura e encontro com o artista no dia 10 de junho, às 17h30, na Galeria da FAV
Visitação de 11 de junho a 05 de julho de 2013, das 8h às 12h, e das 13h às 17h.
Faculdade de Artes Visuais, Campus II da UFG. Goiânia/GO
Telefone: (62) 3521 1445
galeriadafav@gmail.com











terça-feira, 4 de junho de 2013

Ter ou ser o corpo


Quando eu falo sobre meu corpo, não falo sobre mim, mas sobre alguma coisa que me pertence, que é minha propriedade. Esta condição instala uma cisão insuperável entre o sujeito que é e seu corpo, o corpo que o sujeito tem. Na lista de suas propriedades, o corpo alinha-se às demais posses: a casa, equipamentos, hobbies, carro, etc. Como propriedade, o corpo está sujeito a pareceres, consultorias e atuação de profissionais experts em certos aspectos de seu funcionamento. Como proprietário, o dono, ou a dona, do corpo funciona como usuário, ou usuária, que conhece algumas de suas funções, e sabe colocá-lo para funcionar, com mais ou menos habilidade, de acordo com os desejos (de quem?) e os desígnios (de quem?). Atua, em alguma medida, como um cliente, um consumidor, ou consumidora, às voltas com seu equipamento. Se alguma coisa no corpo não funciona, procura-se um técnico para consertar. Se o tédio se impõe, providencia-se logo uma reforma, para renovar a paisagem, ao sabor dos modismos. A propósito, há profissionais autointitulados personal-quase-tudo (personal trainer, personal organizer, personal stilist, personal fashion...), cuja principal tarefa é nos ajudar a tornar isso que nos pertence, o corpo, em mercadoria mais atraente, de acordo com as regras de mercado vigentes. 

Quem é essa entidade-eu que detém a propriedade do meu corpo? De qual lugar exerço a propriedade sobre o corpo? De qual torre do castelo existencial observo, escolho, decido? É possível alguma libertação desse aprisionamento? Há algum caminho possível de reencontro com o corpo próprio – que não é o próprio corpo... – ?

Como exercício, proponho pensar a mim mesma como corpo em sua inteireza – capaz de sentir, perceber, lembrar, pensar, vibrar... –. E pensar dessa forma é buscar restabelecer uma relação com isso que sou eu, e que resulta da interação entre corpo, experiência, memória, transcendência, tudo junto, tudo inseparável. Supõe, sobretudo, a expansão da autopercepção, o autoexame, a coragem para o conhecimento efetivo de si...

E como proceder? Por onde começar? Alguns caminhos se mostram possíveis, prováveis. Dentre eles, escolho comentar, aqui, aquele que se incia pela linguagem, supondo que ela resulte de certa compreensão do mundo e de mim mesma. Modificando-a, quem sabe, contribua para modificar essa relação. Assim sendo, no âmbito da linguagem, tentarei adotar algumas estratégias, que se seguem, e vejamos o que ocorre:

1.   Não me referirei mais ao meu corpo como algo que me pertence, mas a mim mesma enquanto corpo (ou qualquer parte do corpo-eu). Assim, em lugar de dizer-pensar-sentir “meu pé está doendo”, passo a dizer-pensar-sentir “me dói o pé”; ou em lugar de “meu corpo ficou todo encharcado”, “encharquei-me o corpo todo”; ainda, em lugar de “levei minha mão até a maçaneta da porta”, “alcancei a maçaneta da porta com a mão”. São exemplos banais, tolos quem sabe, mas talvez me ajudem a realinhar uma posição em relação a mim mesma, como um todo. Uma posição que é perceptiva, mas também política, no tocante a assumir o corpo que eu sou e não a propriedade de um corpo vulnerável às intervenções mais radicais de uma sociedade de consumo, que reifica todas as dimensões do ser.

2.   Buscarei, sempre que possível, adotar a mesma orientação em relação às outras pessoas. Algo mais ou menos assim: em lugar de dizer-pensar-sentir “ela tem os olhos verdes”, preferir “ela é toda olhos verdes”; ou “sofreu uma queda e quebrou-se a perna” em lugar de "a perna dele quebrou numa queda"; e ainda “dói-lhe a cabeça” em lugar de "sua cabeça está doendo"...

3.   Talvez haja algumas situações em que, mesmo pensando a partir do verbo ser, ainda seja o caso de adotar verbo ter, na medida em que o tópico em questão seja resultado de alguma aquisição efetiva. Por exemplo, quando as unhas postiças chamam a atenção, cabe a pergunta: “Suas unhas são bem desenhadas. São importadas?”; ou “ Que belo par de peitos ela tem!”, depois da cirurgia plástica.

Ser o corpo em cada aspecto é condição bem diversa à de tê-lo, exercer sua propriedade. Aquele que tem seu corpo não necessariamente o conhece, pois não é o corpo. Ao contrário, domina-o, submete-o, decide sobre ele. Ser o corpo supõe escuta interna, reconhecimento de si em cada recanto, atenção intensa, autonomia – alguma que seja – nas decisões tomadas acerca de si, o corpo próprio.

Talvez descubra que estou enganada, e não seja nada disso. Terá valido pelo exercício.



domingo, 2 de junho de 2013

Os seis minutos mais belos da História do cinema


Giorgio Agamben, Profanações (2007)



Sancho Pança entra num cinema de uma cidade do interior. Está procurando Dom Quixote e o encontra sentado isolado, fixando o telão. A sala está quase cheia; a galeria - uma espécie de "galinheiro" - está totalmente ocupada por crianças barulhentas. Após algumas inúteis tentativas de chegar a Dom Quixote, Sancho senta-se de má vontade na plateia, ao lado de uma menina (Dulcineia?), que lhe oferece um lambe-lambe. A projeção começou: é um filme de época; sobre o telão correm cavaleiros armados, e num certo momento aparece uma mulher em perigo. De repente, Dom Quixote se ergue em pé, desembainha a sua espada, se precipita contra o telão e os seus golpes começam a cortar o tecido. No telão aparecem ainda a mulher e os cavaleiros, mas o corte preto aberto pela espada de Dom Quixote se alarga cada vez mais, devorando implacavelmente as imagens. No final, quase nada sobra do telão, vendo apenas a estrutura de madeira que o sustentava. O público indignado abandona a sala, mas no "galinheiro" as crianças não param de encorajar fanaticamente Dom Quixote. Só a menina na plateia o fixa com reprovação.

O que devemos fazer com nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas a ponto de as devermos destruir, falsificar (este é, talvez, o sentido do cinema de Orson Wells). Mas quando no final se revelam vazias, insatisfeitas, quando mostram o nada de que são feitas, só então (importa) descontar o preço de sua verdade, compreender que Dulcineia - que salvamos - não pode nos amar.






El sapo guardiero


(Lydia Cabrera. Cuentos negros de Cuba)


Estos eran los mellizos que andaban solos pelo mundo: eran do tamaño de un grano de alpiste.

Este era el bosque negro de la bruja mala, que hacia inerte el aire; y éste era el sapo que guardaba el bosque y su secreto.

Andando, andando por la vida inmensa, los mellizos, hijos de nadie.

Un día, un senderito avieso les salió al encuentro y, con engaños, los conduje al bosque. Cuando quisieran volver, el trillo había huido y ya estaban perdidos en una negrura interminable, sin brecha de luz.

Avanzaban a tientas – sin saber a dónde – palpando la oscuridad con manos ciegas, y el bosque cada vez más intrincado, más siniestro – terriblemente mudo – se sumía en la entraña de la noche sin estrellas.

Lloraran los mellizos y despertó el sapo que dormitaba en su charco de agua muerta, muerta de muchos siglos, sin sospechar la luz.

(Nunca había oído el sapo viejo llorar a un niño.)

Hizo un largo recorrido por el bosque, que no tenía voz – ni música de pájaros ni dulzura de rama – y halló a los mellizos, que temblaban como el canto del grillo en la yerba. (Nunca, nunca había visto un niño el sapo frío.) Donde los mellizos se le abrazaron sin saber quién era – y él se quedó estático –. Un mellizo dormido en cada brazo. Su pecho tibio, fundido; el sueño de los niños fluyendo por sus venas.

“Tángala, tángala, mitángala, tú juran gánga.
Kuluñongo, Diablo Malo, escoba nueva que barre suelo, barre luceros.
¡Cocuyero, dame la vista que yo no veo!
Espanta sueño, tiembla que tiembla; yo tumbo la Seiba Angulo, los Siete Rayos, la Mama Luisa…
Sarabanda, brinca Cavallo de Palo; Centella, Rabo de Nube… Viento Malo, ¡llévalo, llévalo!”

El bosque se apretaba en puntillas a su espalda, e le espiaba angustiosamente. De las ramas muertas colgaban orejas que oían latir su corazón; millones de ojos invisibles, miradas furtivas, agujereaban la oscuridad compacta. Abría, detrás, su garra, el silencio.

Sorprendido, el sapo guardiero dejó a los mellizos tendidos en el suelo.

“Duela a quien duela, Sampunga quiere sangre.
Duela a quien duela, Sampunga quiere sangre.”

Al otro extremo de la noche, la bruja alargó sus manos de raíces podridas.

Dio el sapo un hondo suspiro y se tragó a los mellizos.

Atravesó el bosque, huyendo como un ladrón; los mellizos, despertando de un rebote, se preguntaban:

– “Chamatú, chekundale,
Chamatú, chekundale, champudale
Kuma, kumatú
¡Túm, túm! ¡Tumbiyaya!
¿Dónde me llevan? ¡Tumbiyaya!
¿Dónde me llevan? ¡Tumbiyaya!”

En el vientre de barro.

Polvo de las encrucijadas.

La tierra del cementerio, a la media noche, removida.

Tierra prieta de hormiguero, trabajando afanosamente – sin dolor ni alegría – desde que el mundo es mundo, las Bibijaguas, las sabias trajineras…

Barriga de Mamá Téngue, Mamá Téngue que aprendió labor de misterio en la raíz de la Seiba Abuela; siete días en el seno de la tierra; siete días Mamá Téngue, aprendiendo labor de silencio, en el fondo del río, rozada de peces. Se bebió la Luna.

Con Araña Peluda y Alacrán, Cabeza de Gallo Podre y Ojo de Lechuza, ojo de noche inmóvil, collar de sangre, la palabra de sombra resplandece.

Espíritu Malo. ¡Espíritu Malo! Boca de negrura, boca de gusanos, chupa vida. ¡Allá, Kiriki, allai bosaikombo, allá, kiriki!

La vieja de bruces escupía aguardiente, pólvora y pimienta china, en la cazuela bruja.

Trazaba en el suelo flechas de ceniza, serpientes de humo. Hablaban conchas de mar.

“Sampunga, Sampunga quiere sangre.”

– “Ha pasado la hora,” dijo la bruja.

El sapo no contestó.

– “Dame lo que es mio” – volvió a decir la bruja.

El sapo abrió apenas la boca y manó un hilo verde, viscoso.

La bruja tuvo un acceso de risa, una tempestad de hojas secas.

Llenó un saco de piedras. Las piedras se trocaran peñascos; el saco se hizo grande como una montaña…

– “Llévame este fardo lejos, a ninguna parte.”

El sapo, con sus brazos blandos, levantó la montaña y se la echó a cuestas sin esfuerzo.

El sapo avanzaba brincando por la oscuridad sin límites. (La bruja lo seguía por un espejo roto.)

– “Chamatú, chekundale,
Chamatú, chekundale,
Kuma, kumatú
¡Túm, túm! ¡Tumbiyaya! ¿Dónde me llevan?
¡Tumbiyaya!
¿Dónde me llevan? ¡Tumbiyaya!”

Ahora el sapo, su pecho tibio, alegremente cantaba a cada tranco:

“San Juan de Paúl
De un solo tranco
San Juan de Paúl
Así yo trago.”

Allá lejos ¿dónde? – pero ni cerca ni lejos – el sapo hizo salir a los mellizos de su vientre.

De nuevo encerrados en la noche desconocida – despiertos – volvieran a llorar amargamente.

La carota grotesca del sapo expresó una ternura inefable; dijo la palabra incorruptible, olvidada, perdida, más vieja que la tristeza del mundo, y la palabra se hizo luz de amanecer. A través de sus lágrimas, los mellizos vieron retroceder el bosque, deshacerse en lentos girones de vaguedad, borrarse en el horizonte pálido; y a poco fue el día nuevo, el olor claro de la mañana.

Estaban a las puertas de un pueblo, a pleno sol, y se fueran cantando y riendo por el camino blanco.

– “¡Traidor!” – gritó la bruja retorciéndose de odio; y el sapo, traspasado de suavidad, soñaba en su charca de fango con el agua más pura…

La bruja iba a matarlo; pero ya él estaba dormido, muerto dulcemente, en aquella agua clara, infinita. Quieta de eternidad…