De saída, devo informar que não me sinto confortável com a
expressão “guerra mundial”, se pensamos em abrangência planetária, envolvendo embates
entre a espécie humana (ainda que tais embates repercutam mortalmente entre
outras espécies de vida). Não cabe a uma guerra entre humanos a alcunha de mundial...
Mas, vamos lá: não é de hoje que os medos
sobressaltam pessoas nos cinco continentes, com a possibilidade de que se
inicie a III Guerra Mundial, quando os traumas e as sequelas causadas pelas I e
II Guerras ainda não foram totalmente sanadas. Como seria a III edição da
guerra? Qual seria o seu disparo? Quais as armas?
Suspeito que, presa a imaginação a modelos anteriores de
guerra, não se tenha percebido que há estamos imersos na III Guerra Mundial em
pleno curso.
Mulheres são mortas em crimes horrendos de feminicídio em
escala crescente, a despeito de legislações, mobilizações, pedidos de socorro.
Populações negras são assassinadas nas periferias das cidades,
em atos crescentes de desprezo às suas existências.
Comunidades indígenas vêm sendo eliminadas, apagadas, no
continente americano desde a chegada dos europeus.
Populações e etnias de quantos países não têm direito de
voltar a suas casas, em confrontos bélicos, mas também religiosos, que se
estendem à violência contra mulheres, contra orientações sexuais não
dominantes, racismos e processos de escravização de toda ordem. A morte é só uma
das etapas de sua desterritorialização radical, de sua dor, do castigo que que
é impingido pelo crime que cometem por viverem.
E o Corona Vírus 19 comparece dando celeridade a uma guerra
já em curso, manifestada em múltiplas faces e feições.
As duas primeiras guerras configuraram-se entre
estados-nação. Ao final do século XX, falou-se tanto sobre o enfraquecimento
dos estados-nação ante os processos de radicalização da economia global, e ante
o poder do capital multinacional. Por que haveríamos de esperar, então, uma
guerra entre estados-nação, e não uma guerra que, embora pautada e supostamente
performada por estados-nação, seja regida, de fato, pelo capital, que não
reconhece outras fronteiras geopolíticas que não as de seus próprios ativos?
O capital avança sobre as mulheres, os pretos, os pobres,
os índios, as florestas, o deserto, o gelo, os elefantes, os tigres, as onças
pintadas, as águas, os peixes, os outros, os diferentes, os não sabidos, os estranhos... seu rastro é de morte. Devem morrer,
mas é preciso que não morram todos, para assegurar a manutenção de mão de obra,
de populações para serem escravizadas, de mulheres para a reprodução e para serem estupradas, violadas...
Sim, estamos em plena vigência de uma guerra que envolve os
estados-nação regida pelo capital. Os cadáveres se acumulam por todas as partes.
A dor me atravessa o peito e já quase não consigo respirar. Os mortos não são
apenas vítimas da COVID-19. Ao contrário. A pandemia é apenas mais um vetor.
PS.: A propósito, é preciso admitir: o Corona Vírus é uma
substância viva altamente inteligente. Rapidamente tem se adaptado ao
comportamento da espécie humana, reconhecendo nossa insanidade e beligerância,
e jogando com elas. Talvez, hoje, o Corona Vírus conheça mais do nosso comportamento
do que nós mesmos.