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terça-feira, 23 de agosto de 2016

18ºC


Existem temperaturas e temperaturas. Muitas vezes, 18 ºC não é o mesmo 18 ºC.

Quando, preparando minha viagem mais recente, me informei que a temperatura ficaria entre a mínima de 10ºC e máxima de 18ºC, pensei que seria essa uma faixa confortável, à qual estou habituada. Contudo, já instalada para iniciar as atividades, embora a temperatura tivesse chegado à máxima anunciada, o frio era intenso, contrariando a expectativa em relação ao que eu me sentia familiarizada. Eu sentia mais frio do que o termômetro insistia em mostrar!

No retorno para casa, ao descer do avião, a temperatura local indicava os mesmos 18ºC... E eu podia até sentir uma certa lufada quase morna roçando a pele.

Compreendi, então, que há uma diferença fundante entre 18ºC como ponto máximo de uma parábola com a<0, e 18ºC como ponto mínimo de uma parábola com a>0.

No primeiro caso, a curva se inicia em temperaturas mais baixas. As paredes, as águas, a atmosfera, as calçadas, as plantas estão imersas no frio há tempo suficiente para se demorarem frias, fazendo pouca concessão aos processos termodinâmicos de troca de calor, mesmo quando a curva se eleva até a temperatura máxima, os tais 18ºC. Ou seja, nesse ponto máximo, o ambiente permanece frio, ainda. E quando a curva volta a decrescer, a baixa temperatura se realimenta.

Por outro lado, quando a curva se inicia em temperaturas mais altas, ou muito mais altas, os corpos guardam calor, e se demoram em dissipá-lo. As casas, a atmosfera, os gestos, os metais, tudo quanto seja sólido, tudo quanto seja etéreo. Por isso, quando a curva chega à mínima temperatura de 18ºC, o calor que emana dos corpos e substâncias mantém, ainda, tudo mais aquecido.

Por isso, os 18ºC de cada uma das parábolas nunca coincidem, no movimento, a despeito de indicarem o mesmo valor absoluto...






terça-feira, 2 de junho de 2015

Tempo livre, ciência e existência


Em 1980 estudei, no curso de graduação, o livro Ciência e Existência, do filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto. Nalgum momento do texto, ele compartilhava a ideia de que o desenvolvimento da ciência deixaria mais tempo livre para as pessoas. Assim, elas poderiam usufruir desse tempo com sua família, fazendo coisas que lhes agradassem, desincumbidas dos afazeres do trabalho.

Essa ideia me pareceu, desde a primeira leitura, um equívoco. Afinal, a substituição da atividade humana pelos recursos tecnológicos significaria, antes de qualquer coisa, desemprego. Ou seja, eu via naquilo uma relação matemática simples e direta, sem cálculos intermediários: tempo livre = desemprego = problema.

35 anos depois, com os recursos tecnológicos penetrando nossas vidas de modo inimaginável para o autor àquela época, o sistema capitalista produtivista no qual estamos irremediavelmente imersos não permitiu sequer que nos déssemos conta da possibilidade de tempo livre: as tarefas se multiplicaram em progressão geométrica, esfarinhando o tempo que se perde em vãos invisíveis. A existência ficou mais estressada, a velocidade acelerada, as pausas violadas...

Tempo livre? Era o que eu tinha, quando pude ler as 537 páginas do livro Ciência e Existência, integralmente, para uma disciplina de primeiro semestre do curso de graduação...





domingo, 25 de janeiro de 2015

O (descom)passo de um relógio analógico movido a bateria



Às 18h10, o relógio analógico marca 3h15. Poderiam ser 15h15. As baterias foram trocadas recentemente. Alimentam normalmente seu movimento e trabalho. E por mais que se acerte o passo de seus ponteiros com os demais relógios da casa, não tarda para que eles tenham alterado o ritmo, e marquem horários outros.

E eu me pergunto: que tempo de que lugar este relógio se pôs a marcar?

Ficou decidido: não mais tentaremos forçá-lo a marcar as horas deste planeta, neste fuso horário. Um dia, quem sabe, eu descubra as coordenadas geográficas (ou extraplanetárias, sabe-se lá...) de acordo com as quais ele, de um tempo para cá, passou a funcionar...






domingo, 19 de outubro de 2014

da série "pausas necessárias"... 2




... e depois que o sol baixa um pouco, e diminui o calor, bom mesmo é ficar ali, sentada na calçada, passando a limpo a vida dos outros, contando conversa fiada, em boa companhia. Até de noitinha...




sábado, 18 de outubro de 2014

el olvido...



Hay quienes imaginan el olvido
como un depósito desierto / una
cosecha de la nada y sin ambargo
el olvido está lleno de memoria

(¿Cosecha de la nada?
Mario Benedetti,
 en El olvido está lleno de memoria)




sábado, 21 de abril de 2012

Insone



Para J. Bamberg

Havia uma espécie de descompasso entre sua percepção da passagem das horas, dos dias, e o tempo marcado nos relógios, nos calendários...Talvez por isso mesmo, ele se cercava de aparatos que marcavam a passagem do tempo: ponteiros analógicos com suas setas agudas apontando segundos e minutos, luzes digitais pulsando horas, tabelas numéricas cartesianas entrecruzando informações sobre dia da semana e do mês. E lembretes anotados manualmente, fixados na geladeira, sobre a mesa, em bloquetes, papéis soltos, desgarrados ao tempo-vento... Tudo em vão: o relógio sempre marcava uma hora que ou era muito mais cedo ou muito mais tarde do que ele imaginava. E na folhinha, ele nunca sabia ao certo o dia do mês ou da semana.

Acontece que ele se ressentia de uma acentuada sensibilidade para o emaranhado entrecruzamento de muitas linhas de tempo, suas tensões, suas dores, suas expectativas, suas memórias. Suas histórias humanas, demasiadamente humanas... As linhas, tantas, e nem um pouco retas, diluíam-se umas nas outras, confundiam-se e à sua própria percepção. Talvez cada relógio pudesse ser escalado para marcar um desses tempos. Mas relógios não sabem marcar outra coisa que não o tempo esquadrinhado para organizar dias em 24 horas, horas em 60 minutos, minutos em 60 segundos. Esse esquadrinhamento não acolhe emaranhados temporais de tantas existências, desejos, desenhos, sonhos, dores... dores noite a dentro, reivindicando da consciência que se mantenha desperta, que não repouse, que não se entregue.

Afinal, parece mesmo é que todos os relógios e calendários contam, gota a gota, dias marcados por dores. Dias que se prolongam em noites insones, em horas cuja extensão não é medida em minutos, mas em esperas. E ele se perde dessa contagem, sonhando com tempos outros, quando também não dormia, atravessando as noites em coreografias dançadas, em bailes gososos banhados a músicas cujo compasso acompanhava os batimentos do seu coração.