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terça-feira, 26 de agosto de 2025

Livros pássaros que também são livros travesseiros


No domingo, deixei o primeiro grupo de livros na Praça Universitária, dentro do projeto Livros Pássaros. Só retornei lá hoje, dois dias depois, para buscar rastros do que pudesse ter ocorrido desde então, e deixar o segundo grupo de livros.

No banco onde deixei um pequeno totem de livros, um morador de rua estava dormindo. Quando me aproximei, percebi que ele usava quatro livros para apoiar a cabeça. Sorri. Comecei a organizar os livros no canteiro onde ficam os totens feitos com pedaços de tijolo e cimento. Estavam todos derrubados. Montei quatro grupos de livros, e apoiei um pequeno pedaço de cimento sobre cada um, para proteger do vento.

Outro morador de rua, curioso, me perguntou sobre os livros. Respondi que eram para quem gostasse de ler. Você gosta de ler? Que sim, respondeu. Olhou, de longe, e seguiu. O rapaz que dormia no banco espreguiçou-se. Sem pressa, levantou-se, pegou sua mochila e foi embora. Fui verificar quais eram os quatro livros deixados no banco. Só então percebi que havia, no chão, alguns dos bilhetes que deixei dentro dos livros.

Fui me distanciando. Um rapaz sentou-se no banco, olhou os livros, depois seguiu na direção oposta à minha.

Seguimos todos: eu, o rapaz, os moradores de rua, os livros... quem sabe dos nossos destinos?












domingo, 24 de agosto de 2025

Livros pássaros




Comecei a executar o projeto Livros Pássaros. A bem da verdade, no último período da seca, eu já havia iniciado, mas de forma precária, sem sistematização. Eu apenas deixei alguns livros numa praça, sem mensagem, sem voltar depois para saber se teriam alçado voos ou não. 

Do que se trata? Minha casa é habitada por muitos livros. A maior parte dos quais, depois de terem sido lidos, depois de terem integrado pesquisas diversas, já não são usados. Os temas de pesquisa mudaram. Os referenciais teóricos também. As interlocuções passaram a reivindicar outros pontos de vista. Por isso, decidi libertar esses livros das gaiolas de armários e prateleiras, onde ficam, hibernados, sem encontrar com quem conversar.

Na Praça Honestino Guimarães, popularmente conhecida como Praça Universitária, há um bom tempo, um senhor organiza pequenos totens de pedra, pedaços de tijolos ou cimento. Os totens se encontram em toda a extensão da praça, debaixo de árvores, nos canteiros, ao lado das esculturas de artistas reconhecidos. De aparência frágil, muitas pessoas passam, desmontando os totens. Mas, no dia seguinte, eles estão lá, reconstituídos, ocupando outros espaços. Se a estrutura dos totens é frágil, podendo ser facilmente desmontada, a capacidade de reconstrução demonstrada pelo senhor que os organiza é enorme, bem como a força sutil que o move nesse projeto.

Decidi, então, dialogar com os totens de cimento, construindo totens com os livros nas mesmas áreas por eles ocupadas. Dentro de cada um dos livros, deixo uma mensagem para quem os venha a encontrar:



Quando terminei de organizar o segundo grupo de livros, na praça, e fui me afastando, uma jovem passou por perto, diminuiu o passo, ficou olhando. Depois seguiu. Perguntei se ela tinha se interessado pelos livros. De longe, respondeu que tinha achado curioso. Falei que ela poderia olhar e tomar algum que lhe interessasse, se quisesse. Ela voltou, olhou os livros enquanto conversamos. Tinha interesse por livros de literatura. Eu não tinha deixado nenhum, nessa leva. Prometi que, no próximo grupo, levaria alguns de literatura. Contou que é estudante de medicina, que passa por ali todos os dias. Disse também que já viu o senhor organizando os totens de tijolos, mas nunca lhe ocorreu conversar com ele. Da próxima vez, vai conversar.

Seguimos, cada uma, nossos caminhos. Os livros pássaros já começaram a produzir efeitos. Que sigam livres em seus voos.








 

 

  

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Tartarugas

Há alguns anos, a professora comprou um carro novo, que tinha airbag. Andava feliz pela cidade, dirigindo a novidade. Numa noite de muita chuva, algumas ruas alagaram. Num cruzamento cheio de água, ela seguiu em linha reta onde precisava contornar uma rotatória demarcada com peças de concreto com a forma de uma esfera cortada ao meio, carinhosamente chamadas de tartarugas. A professora não as viu, pois estavam imersas na água. Como resultado, bateu o carro contra uma delas. No impacto, o airbag foi acionado e explodiu, espalhando material químico e causando queimaduras na pele da professora, em várias partes do corpo.

 

Ela foi à delegacia registrar o ocorrido, para responsabilizar a fábrica do carro pela explosão do airbag. O funcionário preencheu o formulário: “a vítima informa que bateu com o carro contra uma tartaruga...” A professora, atenta, pediu que ele completasse a informação adequadamente: “escreva aí, bateu com o carro contra uma tartaruga de cimento!”. Não queria problemas com as sociedades protetoras dos animais.

 

Algum tempo depois, noite adentro, um carro, depois de ter contornado corretamente uma rotatória demarcada por tartarugas de cimento, bateu com violência contra algum objeto que ele não percebera, danificando a roda e o pneu. O motorista parou o carro adiante, olhou a rua meio transtornado, sem avistar nada que pudesse ter atingido seu veículo. Ficou, por algum tempo, ali, sem compreender o ocorrido. Um passante ofereceu ajuda, que o motorista recusou, entre receios. O passante seguiu sua caminhada, lentamente, observando à distância o carro danificado. E pôde testemunhar o segundo carro também colidindo com alguma coisa, a mesma coisa, que até então ninguém conseguira identificar. O segundo motorista também parou o carro adiante e foi se solidarizar com o primeiro, ambos com a roda e o pneu direito traseiro do carro danificado.

 

Enquanto isso, com calma, o passante chegou mais próximo do cruzamento e identificou uma tartaruga de cimento na rua, deslocada da rotatória, próxima da calçada. À noite, todos os gatos são pardos. As tartarugas de cimento também: pardas e da mesma cor do asfalto e da calçada. Talvez tivesse saído fazer uma caminhada. Assim, disfarçada, ela atingira os dois carros sem ser percebida.

 

Pensando por outro lado, pobre tartaruguinha, mal saíra para um breve passeio, acabou atropelada por dois carros seguidos...

 

Há poucos dias, outra professora relatou que sofrera uma queda, em razão da qual precisou ficar em licença médica por alguns dias. Indagada pela gravidade da queda, ela explicou que, atravessando a rua, tropeçara numa tartaruga... Na queda, bateu com o rosto em outra tartaruga, quebrara um dente, além de escoriações em todo o corpo, resultando em vários hematomas.

 

Tartarugas de cimento: prefiro tê-las minhas amigas... melhor não arriscar!

 

 

 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Duas pequenas histórias que me dão pistas sobre quem eu provavelmente seja

 



Pássaros feridos

Eu fazia regularmente o trajeto entre Goiânia e Brasília de ônibus. Nas idas e vindas, conheci pessoas, ouvi histórias, passei por dissabores...

Numa das viagens de Brasília para Goiânia, sentei-me ao lado de uma senhorinha bem idosa, que conversou animadamente comigo durante quase todo o percurso. Soube que ela morava sozinha, que as filhas iam diariamente vê-la. Que às vezes não era diariamente, mas estavam sempre por lá. Que gostava de ler. Que quando precisava sair, tinha um taxista que se tornara seu amigo... Quando estávamos quase chegando, ela ficou menos falante. Disse que a filha ou o genro estariam esperando por ela. Mas ao desembarcar, não os encontrou. Então me disse que precisava ir ao sanitário. Era um pouco longe de onde estávamos. Fui conduzindo suas duas malas e tentando ajuda-la na rampa longa que precisávamos descer antes de tomar o corredor ao final do qual estava o sanitário feminino. Ela entrou e eu fiquei, do lado de fora, cuidando da bagagem. O tempo passou. Sua demora já me despertava preocupação. Entrei levando as duas malas dela e minha mochila. Ela se olhava no espelho, tentando arrumar um casaco amarrado à cintura. Perguntou-me se aparecia alguma mancha por trás, em sua calça comprida. Observei com cuidado, não aparecia. Então ela me segredou que não conseguira controlar o intestino, e estava tentando disfarçar o pequeno desastre que acontecera. Estava tudo bem, lhe disse. E voltamos, devagar, para o ponto do desembarque. A filha com o genro ainda se demoraram um pouco para chegar. Nesse ínterim, ela anotou meu telefone. Quando ela, finalmente, encontrou-se entre os seus, nos despedimos. Alguns dias depois, ela me ligou, queria me fazer uma visita. Entre minhas atividades na universidade, aguardei por ela em casa, no meio da tarde de algum dia da semana. Ela chegou pontualmente, trazida pelo amigo taxista, que a aguardou. Veio elegante, sorridente. Estava feliz por me reencontrar. Eu também fiquei feliz por vê-la. Trouxe um pequeno pacote, que me entregou. Era um livro. Pássaros Feridos. Abri. Na primeira página, havia uma dedicatória da filha para ela, em celebração a uma data de aniversário de quase 10 anos atrás. Disse-lhe que eu não poderia receber o livro, pois era um presente que ela recebera da filha. Ela estava determinada: trouxera para mim, não o levaria de volta. A filha não daria pela falta do livro, nem perceberia. Ela tinha gostado muito e tinha certeza de que eu também iria gostar da leitura. Contou-me um pouco sobre o livro, falou-me um pouco sobre sua vida de idosa que vivia sozinha, perguntou um pouco sobre mim, e se foi.

Não me lembro mais do seu nome. Na dedicatória, a filha, que se chama Laura, refere-se a ela apenas como mãe, sem nomeá-la.

 

 

A balconista e o festival de cinema

Naquele ano, integrei o júri de um festival de cinema. Por isso, fui convidada para a abertura oficial do evento. Errei o horário, e cheguei uma hora e meia antes. A porta principal do teatro ainda estava fechada. Fim de tarde. No centro da cidade, era intenso o fluxo de pessoas encerrando suas jornadas de trabalho. Num calçamento à frente do teatro, sentei-me num banco público, fiquei observando o movimento. Logo sentou-se ao meu lado uma moça, alegre, à espera do namorado. Voltariam juntos para casa. Era balconista, contou-me, e estava com as pernas cansadas. Perguntada, contei-lhe que era professora e que aguardava para assistir à abertura de um festival de cinema. Tudo foi motivo de interesse para ela: eu ser professora, as artes, o cinema, o festival, o teatro. Embora trabalhasse ali do lado, nunca tinha entrado naquele teatro. Perguntou muitas coisas. E notou a equipe de reportagem recém chegada, com especial atenção ao repórter, que "era um gato", de acordo com sua avaliação. Rimos muito, abordando tantos assuntos de modo leve e despretensioso. Quando chegou o namorado, nos despedimos. Eu fiquei ali, observando as pessoas que começavam a chegar ao teatro já aberto ao público. Algumas dessas pessoas tinham estudado comigo, nos cursos de graduação ou na pós-graduação, outras trabalhavam comigo. Todas eram portadoras de uma atitude típica de intelectuais e artistas. Caminhavam com cuidado, os gestos eram quase performados. Talvez fossem mesmo. Tinham familiaridade não só com aquele espaço, mas também com os rituais que nele eram realizados. Comecei a sentir falta da balconista. Dei-me conta de que eu estava mais perto dela. Até pensei em me levantar e chegar ao hall do teatro. Se o fizesse, quebraria o encanto, encontraria pessoas, teríamos histórias para contar. Não consegui: fiquei ali, imóvel, sentada no banco de cimento, em meio à tarde que cedia espaço para a noite. Entendi que meu papel mais importante começaria no dia seguinte, nas sessões de projeção dos filmes que me caberia avaliar, ao lado de mais duas pessoas, formando o júri. Mexi-me no banco, quase inquieta. Faltando pouco para começar o ritual de instalação do evento, levantei-me, fui caminhando, devagar, para cada vez mais longe do teatro. Atravessei a avenida movimentada logo à frente. Depois outra rua um pouco menos movimentada, depois outras ruelas. Entrei à esquerda, à direita, outros semáforos, uma praça, uma rotatória, a calçada quebrada, buracos no asfalto, a brisa quase fresca com o início da noite... Cheguei em casa.

No dia seguinte, daríamos início aos trabalhos, normalmente. 

 




quinta-feira, 30 de março de 2023

Um inocente quilo de café

 

Dia de feira, fui até a barraca do seu Aloísio comprar o melhor pó de café que já conheci, moído na hora, com um aroma delicioso. Como faço sempre, cheguei por volta de quinze para as onze, um pouco antes de a feira fechar. Desta vez ele já não tinha nem meio quilo de café disponível. Professora, antes das dez eu já tinha vendido tudo, me falou, entre contente e sem graça por não ter o café para mim. Eu fico é muito alegre, pelo senhor, concluí. Coisa boa ter vendido tudo, não é? Eu é que fiquei só na vontade... rimos.

 

Então ele resolveu propor uma solução: Eu posso levar para a senhora em sua casa; onde a senhora mora? Aqui mesmo nesta rua, seu Aloísio, ali naquele prédio, mostrei a ele. Ele olhou, identificando o lugar como familiar: Ah, é o mesmo prédio do seu Bretas... Eu tenho um vizinho chamado Bretas, só não sei se é o mesmo que o senhor conhece, comentei. Ele é casado com a dona Nair? Acho que sim, me respondeu. Eu continuei tentando identificar o vizinho: Ele teve covid, ficou bem fraquinho depois... Aí seu Aloísio me corrigiu: Na verdade ele ficou bem ruinzinho depois que foi sequestrado, no ano passado; ele teve covid, depois sofreu o sequestro; isso é que acabou com ele. Eu levei um susto. Sequestrado? Como eu não soube disso? Fiquei impressionada com a informação e com o fato de eu não saber, sendo vizinha dele.

 

Combinamos, então, o dia e a hora que seu Aloísio entregaria o café lá em casa, já deixei pago, e voltei, pela calçada, encafifada com a notícia do sequestro. Na portaria, encontrei seu Francisco, aproveitei para conferir a informação. Seu Francisco foi solícito, explicando-me o ocorrido com muito cuidado e respeito à situação do seu Bretas e família: É que, depois que teve covid, ele ficou com uma alteração muito grande de comportamento... ficou agressivo, tinhas umas reações muito estranhas, às vezes ameaçadoras, com qualquer pessoa, a qualquer momento; então a filha, preocupada, resolveu internar num hospital psiquiátrico, onde ele ficou por mais de mês, em tratamento; quando teve alta, ele saiu contando que foi sequestrado, que foi torturado no lugar onde ficou preso... e quando as pessoas não conhecem ele, nem o que aconteceu, acreditam nessa história... é o que ele conta para todo mundo.

 

Eu, que já estava impressionada com a história do sequestro, fiquei ainda mais tocada com o desdobramento dos fatos, da internação no hospital psiquiátrico e da história criada por ele. Eu sabia que ele fora internado por longo período, por duas vezes, em razão da covid, mas não tinha noção da extensão do quadro.

 

Chegando em casa, contei o ocorrido para Ana, que trabalha comigo e conhece bem a família do seu Bretas e dona Nair. Ela ouviu com atenção e também ficou impressionada. Mas, um pouco depois, matutando sobre o relatado, chegou a uma outra possibilidade: Sabe que é capaz de a própria filha ter dito a ele que ele foi sequestrado e depois resgatado pela família, para ele não saber que estava num hospital psiquiátrico? Considerando o modo como a filha lida com os pais, é bem possível que ela tenha inventado essa história para ele, e a dona Nair tenha ajudado; pois eles são assim, inventam histórias para não ter que lidar com os fatos como são... as coisas acontecem, depois elas contam outra coisa que não é o que aconteceu...

 

Essa história toda já envolveu mais ação e suspense do que muitos filmes a que tenho assistido por aí. Por hoje, deu. Eu só queria um inocente e saboroso quilo de café moído na hora, da banca de seu Aloísio... e, por esse, terei de esperar até amanhã...

 


(Em tempo: os nomes das pessoas citadas foram inventados).

 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Coisas de viver em Brasília

 




Fotos: Gwavira Gwayá, 2022

No último dia 21 de abril, Brasília completou 62 anos. Acabei não me manifestando a respeito, embora estivesse atenta ao processo de amadurecimento da cidade. E também embora hoje eu reconheça que se há algum lugar em relação ao qual eu tenha sentimentos muito fundos de pertencimento, esse lugar é Brasília.

E porque no mesmo dia 21 de abril eu tenha sido surpreendida por uma experiência particular e especial, decidi compartilhá-la, para esclarecer: quem desqualifica a capital federal ou não a conhece em sua dimensão de espaço de se viver, ou não tem a menor ideia do que seja qualidade de vida.

Em primeiro lugar, é necessário dizer que Brasília não é a Esplanada dos Ministérios, nem a Praça dos Três Poderes (hoje, território de guerras...). A maior parte da população que vive no Distrito Federal muito raramente transita nesses espaços. Muitos nunca chegaram até ali. Esse território, em segundo lugar, é ocupado por políticos e profissionais vindos de todas as partes do país, cuja permanência não dura muito mais do que uma gestão. Em segundo lugar, em territórios outros, que nada devem à Esplanada dos Ministérios e à Praça dos Três Poderes, as pessoas tecem os seus viveres, numa cidade que oferece condições diferenciadas para tanto.

Dona Francisca foi minha vizinha de porta durante décadas. E dedicou-se a plantar pequenos arbustos e mudas de árvores frutíferas do outro lado da calçada que separava o jardim do prédio e o grande gramado central da quadra. Ali cresceram, então, vários pés de seriguela, acerola, mamão, dentre outras. Também marquei presença com um pé de pitanga que já se tornou uma pequena árvore. As plantas cresceram, criando uma espécie de corredor de sombras frescas sobre a calçada pela qual as pessoas passam, em suas caminhadas.

Por ali, segui também eu, pelo meio da manhã do dia 21 de abril, quando me deparei com um conjunto de trabalhos de arte pousados junto aos troncos e entre os galhos daquelas árvores. Fui tomada pelo espanto: de entre o chão coberto por folhas secas, enroscados entre galhos, já modificados pelas intempéries do clima (calor, chuva, poeira, etc.), repousavam grandes flores coloridas, peixes recortados em papelão ou madeira, trabalhos realizados com material de sucata.

Soube, pelo Seu Antônio, que um senhor, também morador do prédio, precisou se aposentar precocemente em razão de problemas graves de saúde. A partir de então, passou a produzir aquela linha de trabalhos. Alguns são vendidos. Mas a maior parte é destinada a integrar a paisagem, como aqueles que me surpreenderam.

Respiro fundo e volto a caminhar. Isso é Brasília. E me faz bem.

 

 


sábado, 18 de janeiro de 2020

Savana, Sebastian e outras Saudades


  
Lá pela primeira metade da década de 1990, nós conhecemos um lugarzinho delicioso, onde podíamos tomar café e conversar. Conversar entre nós, com outras pessoas que estivessem por ali, e com o trio proprietário do café: Ana, Claudia e Marcelo. Era o Café Savana, localizado no canto de um bloco comercial da Asa Norte, em Brasília. Era pequenino, cabia apenas uma ou duas mesas no espaço interno, com outras mesas na área externa.

A certa altura, as meninas decidiram fazer voo próprio. Cada uma vendeu a sua parte para o Marcelo. Ele comprou a sala ao lado, e ampliou o espaço do café. Mais tarde, agregou outra sala na lateral oposta, formando um L. O Café Savana ganhou a cara do Marcelo, no decurso de mais de duas décadas. Aos poucos, ele foi acrescentando atividades: lançamento de livros, exposições, e outros eventos culturais que reuniam, sobretudo, os frequentadores do espaço. Dentre esses, nós.

Quando as meninas saíram da sociedade, abriram outro espaço numa quadra também na Asa Norte. Era o Sebastian Café. Elas próprias estavam no comando de todas as etapas da produção do espaço, que oferecia inclusive café da manhã nos finais de semana. Era mais intimista, numa loja voltada para o interior da quadra. Assim, não ficava exposto à intensa movimentação comercial. No mesmo bloco onde se instalaram, havia uma loja de discos de vinil e CDs, onde, eventualmente, eu encomendava músicas importadas. Naqueles tempos ainda era um pouco complicado comprar coisas importadas. A dificuldade dava um certo charme ao processo. Cada CD que chegava era uma conquista.

Frequentávamos os dois lugares. Eventualmente, Ana e Cláudia iam ao Savana tomar um café. Ganhamos um adesivo do Sebastian, que colei na lateral da minha geladeira.

No comecinho da segunda metade da década de 1990, Ana e Cláudia fecharam o Sebastian, para atuar em outras frentes profissionais. Na verdade, passaram a trabalhar em campanhas para eleições, na área da publicidade. No Café Savana, Antony, que trabalhava com Marcelo, nos dava notícias delas, quando passava algum tempo sem que as pudéssemos ver. Mas o tempo tem seus rigores.

À medida que avança, vai desfazendo pequenas fibras de conexão. Antony saiu do Café Savana, para trabalhar numa universidade. Marcelo passou a nos falar delas, cada vez menos. E nós também não mais as vimos. Até porque, tendo mudado de cidade de residência, passamos também a frequentar menos o Savana.

Mesmo assim, toda vez que estávamos em Brasília, um dos lugares obrigatórios de estar era o Café. Para dar um abraço no Marcelo, para conversar com sua equipe, para comer um quiche, o melhor filé grelhado que eu já experimentei, ou uma salada de legumes. Tudo tão saboroso quanto estar ali, naquele lugar que exalava uma atmosfera de pluralidade, elegância, charme, bom humor.

No início deste ano, voltamos ao Savana. Estava fechado. Lembrei-me, então, que o Marcelo costumava dar um recesso coletivo no início do ano. Alguns dias depois, voltamos. Fomos informados que o Marcelo vendeu o ponto. No mercado, um café, uma loja, é apenas um ponto comercial, que se vende, que se passa à frente. E isso é tudo.

Alguns funcionários foram mantidos pelo novo proprietário. Estão preocupados. Ouviram a promessa de que cerca de 70% do cardápio será mantido. Isso para preservar a clientela acostumada ao lugar há mais de duas décadas. As mudanças devem ser promovidas aos poucos, como boas novidades, até que o novo proprietário coloque o lugar ao seu jeito.

Marcelo decidiu assumir o papel de professor, e foi atuar na área de Educação de Jovens e Adultos. Surpreendente. Não suspeitava desses desejos do Marcelo. Mas talvez esteja aí uma das explicações para as afinidades estabelecidas por tantos anos.

A propósito da referência aos tantos anos, o adesivo do Sebastian está ali, na lateral da minha geladeira que já marca mais de três décadas comigo (por quanto tempo ainda resfriará nossos alimentos e sucos?). Risão, de braços abertos, parece imerso entre anotações de telefones que também de tão antigos já não funcionam mais. Sebastian aviva percursos da vida que, de singelos que são, ancoram os sentidos mais fundos.

Que sejam bons os caminhos trilhados por Ana, Cláudia, Antony, Marcelo. E também pelo novo proprietário do Café.

Em tempo1: no dia quando soubemos da venda do Café Savana, encontramos o Capeta, andando de bicicleta pela cidade. Ele nos acenou e gritou: Está fechando tudo! Durante décadas, o Capeta integrou o grupo de proprietários do Café Martinica, fechado no início de 2019.

Em tempo2: A loja de discos de vinil e CDs importados, que era vizinha ao Sebastian, também fechou há um bom tempo. Também, já não fazia sentido, mesmo: agora, importamos tudo pela internet...

Em tempo3: quando somos mais jovens, temos muitos projetos a executar, a vida inteira para conquistar. Nosso olhar vislumbra o que há de vir. Envelhecer também é passar a ter cada vez mais histórias para contar. Do já vivido. Até chegarmos à etapa quando começamos a nos esquecer...

Café Savana
 imagem buscada aqui









sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Obrigado, professora!



Na cidade, multiplicam-se os cruzamentos, cheios de carros conduzidos por motoristas nervosos, inquietos a cada espera. Há fuligem no ar. Tensão.

Em muitos desses cruzamentos, nalguns horários do dia, ou da noite, artistas de rua quebram a aspereza da paisagem, com gestualidades, habilidades, bailados, artimanhas que, em breves segundos, capturam o olhar, algum suspense, algum riso, encantamentos fugazes.

Uns fazem malabarismos com facões, bolas, garrafas... Outros tocam violino. Há os que sobem em escadas sem apoio. Outros brincam com fogo, noite adentro...

Hoje pela manhã, um rapaz muito jovem trajado e maquiado para um espetáculo posturou-se, diante dos carros, dentre os quais o meu, que aguardavam o sinal verde para avançar. Ninguém estava ali para ver apresentações de arte: todos tinham urgências, queriam seguir. Mas ele ignorou tal impaciência: tomou uma bola de vidro, transparente, e a colocou para bailar sobre seus braços, equilibrar-se entre as mãos, rodar sobre seu rosto. Pareciam flutuar: ele e a pequena bola, entre seus gestos ágeis, leves, precisos. 

Por um instante, esqueci-me dos automóveis, e deixei-me enlevar pela visão do rapaz com sua bola. Depois percebi que o tempo do semáforo já estava acabando, e ele prosseguia com o número, talvez também encantado com a própria dança. Busquei algum trocado na bolsa e, finda a apresentação, agitei os braços, para que ele me visse, e viesse pegar o dinheiro. 

Quando ele chegou, com um sorriso largo, eu lhe disse: “Cara, isso, da bola, é foda!” Então sua voz me soou familiar, e ele respondeu: “Obrigado, professora”, e saiu correndo. Os carros já avançavam.

Fui pega de surpresa. Professora! Sua voz, familiar, continuou reverberando nos meus ouvidos: “Obrigado, professora”, e eu comecei a chorar. Chorei como criança. Pensava no meu papel, como professora, na vida dessas pessoas. Pensava no quanto precisamos ter em vista a dimensão humana, a poesia, entre o trabalho árduo, em nossos ofícios. Pensando nisso, e entre lágrimas, segui, na velocidade do fluxo, cada vez mais distante daquele encontro.

À tarde, quando voltei, já não mais havia artistas no cruzamento. Ele concluíra a jornada do dia (do mesmo modo que a vendedora de águas de outro cruzamento, e a vendedora de docinhos num terceiro...). Sua missão fora cumprida: seu gesto e sua voz vibravam ainda em meu coração.




segunda-feira, 20 de novembro de 2017

De perguntas que uma socióloga não é capaz de responder...


Durante a noite choveu tanto, tanto, que a cidade amanheceu toda alagada, e o trânsito parado. Quem tinha que ir trabalhar acabou preso nalgum ponto das ruas imobilizadas. No início da tarde, alguns setores da cidade começaram a fluir, mas ainda havia viadutos e algumas vias debaixo d’água. No hotel, me informaram que o percurso para o aeroporto estava livre. Alívio. Decidi ir bem mais cedo, para evitar sustos de última hora.

O taxista foi conversando, explicando os desvios, as alternativas que ele, conhecedor profissional da cidade, dominava para evitar os problemas de trânsito. E também contando os dramas de pessoas conhecidas suas ante o caos provocado pela chuvarada. Numa breve pausa, me perguntou o que a senhora faz? A resposta pareceu-me fácil, a princípio: sou professora. Quem já não teve uma professora? Mas então ele veio com o desdobramento da pergunta, só para complicar: de que? Pensei rápido. Se falasse professora de artes, complicaria. Melhor falar que era de sociologia. A profissão de sociólogo parecia um pouco menos complicada, pois sempre tem algum sociólogo na televisão explicando porque as coisas acontecem assim ou assado. Teve uma rebelião no presídio? Chama o sociólogo para explicar. Durante o carnaval, lá vem algum sociólogo falar sobre essa manifestação popular massiva. O Papa veio visitar o país, tem um sociólogo de plantão para falar sobre. Pronto. Professora de sociologia, respondi.

Ele pensou por um momento, e perguntou do que trata um professor de sociologia? A estas alturas, comecei a suspeitar que eu houvera entrado numa armadilha montada por mim mesma. Trata da vida em grupo, de como as pessoas se organizam para viver em conjunto, na sociedade... Eu mesma não estava muito convencida com a minha resposta. Observei a expressão no rosto do motorista. Depois de mais uma pausa, ele falou eu tenho um irmão que tem problema. Ele é usuário de drogas. A gente já fez de tudo, ele já foi internado, nenhum psiquiatra, nenhum médico conseguiu tirar ele do mundo das drogas. Será que um sociólogo ajudava?

Não, não ajudava... Weber já diferenciou claramente a ciência da política, o conhecimento da ação. Sociólogos não querem intervir, só querem explicar... Explicar, para o que? Ali no táxi, a caminho do aeroporto, senti o peso da inutilidade das intermináveis explicações, de todas as teorias sociológicas, quando nenhuma delas é capaz de sequer aplacar a dor de pessoas às voltas em seus descaminhos na vida social...

Despedi-me, formulando votos de que o irmão dele conseguisse superar o desafio. Estava decidida, também, a responder, da próxima vez que fosse questionada sobre minha profissão, sou mera professorinha de artes, e ensino a bordar, e talvez alguns pontos de crochê...

Muito mais útil!





segunda-feira, 19 de junho de 2017

Manual de instruções para viajantes de trem e metrô






Pessoas que viajam em trens e metrôs têm atitude.
Parecem distraídas, mas estão atentas.
Seus corpos parecem relaxados, mas estão a ponto de (re)agir.
Se em pé, parecem estáveis, embora suas musculaturas trabalhem para manter o equilíbrio apesar do movimento.
Os olhares parecem perdidos na paisagem, mas nada passa despercebido à volta.
Quando o trem se aproxima da estação, a expressão é de indiferença...
Mas quando o trem para e a porta é aberta, levantam e saem, como se tivessem decidido fazê-lo no último instante.
Os passos, pela estação, são rápidos, como quem percorre território conhecido e estranho ao mesmo tempo.

Essa atitude tem alguma correspondência com a lei da física que rege a condição de viajar no trem.
O corpo está parado dentro do trem que se movimenta em velocidade.
O corpo parece parado, mas não está: move-se com o trem.
E quando o trem para, e o viajante desembarca, o corpo começa a se movimentar.
Ou continua a se movimentar. De outra forma.

Em viagens de carro, ou de ônibus, o corpo também permanece parado dentro do veículo em movimento.
Mas ele não parece parado: as irregularidades da via sacodem o veículo.
Então não é possível parecer parado.
O movimento se faz sentir de todas as formas.

As viagens de trem, e metrô, de alguma maneira, se parecem com a viagem que fazemos no firmamento.
O solo por onde caminhamos parece parado, estável, seguro.
Por vezes caímos, mas é pelo efeito da gravidade, e dos nossos próprios tropeços.

Embora pareça, o planeta-veículo que habitamos não está parado.
Movimenta-se em alta velocidade em torno ao sol.
E o sistema solar movimenta-se em alta velocidade na galáxia.
E a galáxia movimenta-se pelo imponderável, em velocidade que não se calcula pelas escalas humanas...







domingo, 11 de dezembro de 2016

a cidade é moderna



Trastevere
Milton Nascimento

A cidade é moderna
Dizia o cego a seu filho 
Os olhos cheios de terra
O bonde fora dos trilhos 
A aventura começa no coração dos navios
Pensava o filho calado
Pensava o filho ouvindo
Que a cidade é moderna
Pensava o filho sorrindo
E era surdo e era mudo
Mas que falava e ouvia

  



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Cuba: instantâneos


1995 se iniciava, e eu fui participar de um congresso de educação, em Havana. Como não havia linhas aéreas, os voos para lá eram fretados, para situações específicas. No caso, era um voo da Varig, fretado pela empresa de turismo que representava o congresso no Brasil. Saímos de São Paulo, no final da manhã. O voo fez uma parada na Isla Margarita, na Venezuela. Chegamos a Havana quase meia noite. No hotel onde tinha sido feita a reserva, descobri que a prática de over booking era normal, e não havia vagas para mim e boa parte dos participantes do congresso. Ficamos no hall, aguardando alguma solução. Havia um grande salão, com música e dança. Transitavam, por ali, homens bem vestidos, que logo ganhavam a companhia de belas mulheres usando roupas com brilhos e sandálias de plataforma altíssimas. Lá pelo meio da madrugada, fomos transferidos para outro hotel, de médio porte, onde fomos acomodados razoavelmente: Hotel Copacabana.

A abertura do congresso foi no Teatro Karl Marx. Depois que toda a audiência foi cuidadosamente acomodada na estrutura grandiosa do prédio, num momento solene a cortina do palco ergueu-se ao som do hino de Cuba. Ao centro, Fidel Castro, em pé, com seu uniforme de cor cáqui. A expressão firme mirava um horizonte além daquele lugar. À sua volta, ministros e funcionários de sua confiança, acompanhando-o no cenho. A cena era simples e contundente. Confesso que estremeci diante da sua intensidade.

Mais tarde, Fidel podia ser facilmente encontrado entre os participantes do congresso, no Centro de Convenções de Havana, conversando com uns e outros. Carismático, seduzia em papel de anfitrião hospitaleiro, com gestos e movimentação muito bem calculados. Os estrangeiros ficaram muito impressionados com aquela aproximação. Numa das noites do congresso, ouvimos um dos famosos discursos do comandante. Soube que nem foi dos mais longos. Deve ter durado pouco mais de duas horas de fala.

Eu conheci uma professora e um professor, irmãos, de Ciego de Ávila, uma cidade localizada mais ao centro da ilha. Ela usava sapatos sem salto, um vestido singelo. Notei que seu calçado era muito comum entre as professoras cubanas. Não vi ninguém com calçados parecidos com os das moças avistadas no hotel da primeira noite. A professora me explicou que elas eram garotas de programa. Seus clientes pagavam em dólares norte-americanos. Por isso podiam comprar aqueles calçados. Ela, como as demais professoras e outros trabalhadores, recebiam em pesos cubanos. Só conseguiam comprar o que havia disponível nos mercados populares, quando havia alguma coisa para comprar. Entreguei a ela parte dos sabonetes, material escolar e outros itens que eu levara para fazer doação. Então ela me perguntou quanto eu pagara pela passagem aérea. Ao ouvir o valor, perdeu-se em pensamentos. Depois comentou que nem reservando o salário dela de anos conseguiria reunir o valor correspondente em pesos cubanos.

Na ilha circulavam dólares norte-americanos entre os que tinham autorização para atender turistas, prestar serviços etc. Muito poucos tinham esse acesso. Logo aprendi que os turistas eram conduzidos cuidadosamente para certas regiões do mapa, e impedidos de circular nas demais. Do mesmo modo, poucos cubanos tinham permissão para o convívio com os estrangeiros. Tudo era mantido sob intenso e rigoroso controle.

Visitei a Escola de Belas Artes da Universidade. Visitei uma escola do ensino fundamental, onde policiais brincavam com as crianças. Visitei as ruínas de um forte. Tudo dentro da programação oficial. Aos poucos, algumas pessoas do lugar foram me mostrando como esse controle era estabelecido, de modo a regular as relações entre a população com os mensageiros do mundo lá de fora. A professora e o professor de Ciego de Ávila começaram a me sondar sobre a possibilidade de eu recebe-los em minha casa, no Brasil, em caso de uma fuga.

Uma senhora de meia idade, funcionária do hotel, falou-me longamente sobre sua admiração ao comandante. Ela, do mesmo modo que muitos outros cidadãos, referia-se a ele como a um membro da família. Grata pelo que ele fizera à sua família, assegurando alimento, moradia, educação, saúde, se desdobrava em elogios e votos de vida longa ao seu líder. Multiplicavam-se os jovens que não poupavam críticas à rigidez do controle estabelecido pelo governo, ao profundo desnível econômico entre a elite do governo e a população, ao fechamento da ilha. Um taxista, engenheiro de formação, mas sem emprego para atuar nessa área, vendia seus livros reunidos no decurso de sua história, escondidos porque proibidos. Comprei-lhe alguns exemplares. E outros, antigos, dispostos em calçadas, a preço de peso cubano. Trouxe, na bagagem, Los cuentos negros de Cuba, de Lydia Cabrera. Amor à primeira vista.

O taxista engenheiro ofereceu-se para me levar a Varadero. Embora eu não quisesse ir, aproveitei para ouvir seu relato sobre o ponto turístico. Explicou-me que ele tinha autorização para ir, em razão de sua formação escolar. Mas nem todos podiam. E as prostitutas credenciadas ficavam numa região específica, longe da orla, para atender aos turistas. Havia, também, os rapazes que se dispunham a acompanhar mulheres que viajavam sozinhas. Não era o meu caso. Em geral, eles experimentavam certa dose de esperança para, quem sabe, conseguir sair da ilha como esposo de alguma estrangeira.

Conheci uma brasileira que fazia o curso de medicina em Havana. Fui almoçar na casa onde ela morava, pagando um dinheiro que complementava a escassa renda da família que a acolhera. A dona da casa esmerou-se para me receber. Conseguiu economizar algumas batatas da cota semanal, e um pouco de carne moída encontrado nalgum mercado, por pura sorte. Entendi que era um banquete caríssimo, uma extravagância da parte deles. Senti-me honrada com o modo como fui recebida, naquele apartamento mínimo, num prédio sem elevador, localizado na parte velha de Havana, onde não são previstos tours para turistas.

Soube, então, que, ainda que alguma família vivesse numa casa com quintal, não poderia plantar hortas ali, ou criar galinhas, para evitar comercialização de alimentos entre a população fora do controle do Estado. Deveriam, sim, aguardar pelas cotas do governo. Mesmo quando elas ficassem mais minguadas, pelo aprofundamento da crise econômica no país. Durante o congresso, descobri, também, que havia uma região, em Cuba, com alta incidência de pessoas surdocegas.

Aprendi que a população de uma nação não coincide com a estrutura da instituição estatal. Ou seja: o governo não é o mesmo que a população de um país. O povo cubano tem uma energia vibrátil acima e mais forte que qualquer forma de governo.

Vida longa ao povo cubano!





segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Eta vida besta




Cidadezinha qualquer
             Carlos Drummond de Andrade


Casas entre bananeiras
Mulheres entre laranjeiras
Pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.


Alguma poesia (1930)








domingo, 16 de outubro de 2016

Entre taxistas e motoristas da Uber


Quando o ônibus entrou na cidade, vários passageiros começaram a acionar, por meio de seus smartphones ou iphones, motoristas da plataforma Uber para, quando desembarcados, seguirem para casa.

Trata-se de uma mudança no comportamento de passageiros, que migram do tradicional serviço prestado pelas redes de táxi para o inaugural sistema Uber, mais barato para o consumidor, mais ágil, atrelado às plataformas digitais acionadas pelos aparatos móveis.

Conheço alguns taxistas que estão já se organizando, também, para migrar. Depois de muito pesarem os prós e os contras, concluíram que, feitas todas as contas, os riscos são os mesmos, e talvez os prejuízos sejam menores. O que muda é o valor, na ponta, pago pelo passageiro.

No serviço prestado pelas cooperativas de táxi, entre o passageiro e o taxista, vários são intermediários envolvidos. Comecemos pela equipe da base, que atende aos telefonemas dos clientes e encaminha o taxista ao endereço indicado. Esses funcionários recebem salário fixo mensal, com carteira assinada, todos os benefícios previstos pela CLT. Seu trabalho não envolve riscos. Muitas vezes, esses funcionários atendem mal aos clientes, negam informação, fazem encaminhamentos errados, mas não recai sobre eles qualquer sanção. Contudo, eles têm autoridade para “castigar” os motoristas, caso estes cometam algum erro no atendimento às corridas solicitadas. Vale ressaltar que o seu salário é pago pelas corridas dos motoristas de táxi.

Há os proprietários das frotas de veículos, que cobram diária pelo uso dos automóveis. O pagamento da diária é pago pelo taxista, contratualmente, não importando se ele rode ou não, se consiga fazer corridas ou não. O taxista paga, também, o aluguel da permissão do taxi. Este pagamento, do mesmo modo, independe de seu desempenho na praça.

De todos estes itens a pagar, se sobrar algum trocado, o taxista leva para casa, ao final do dia. Uma coisa é certa: diariamente, ele começa a jornada como devedor, e se dá por feliz se chegar ao final do seu turno com essas dívidas quitadas. No entanto, todo o sistema só gira a partir de sua força de trabalho, e dos riscos que esse profissional corre, atuando na ponta, na frente. O valor da corrida, pago pelo passageiro, vaza pelos dedos, para ser redistribuído entre o dono do carro, o dono da permissão, o presidente da cooperativa e os funcionários da base.

O diferencial proposto pelo sistema Uber é que essa relação é mais direta: o motorista se cadastra, recebe algumas orientações, e passa a constar entre os que podem prestar os serviços a partir do aplicativo para aparelho móvel. Também não tem quaisquer garantias. Está sozinho, circulando na cidade, com seu próprio carro, por sua conta e risco. Sim, ele tem que disponibilizar seu próprio veículo e arcar com os custos de manutenção. O percentual de cada corrida que paga à empresa lhe assegura apenas o direito de aparecer na plataforma do aplicativo, nada mais. Talvez haja menos intermediários. Isso resulta num valor menor a ser pago pelo passageiro. E também numa dívida menor a ser quitada, diariamente, pelo motorista. Se ele corre, paga, se não corre, não paga.

A plataforma do sistema Uber está no começo. Não nos entusiasmemos por antecipação. Ainda há espaço para entrarem as intermediações. Nada impede, por exemplo, que, com a crise chegando à plataforma do serviço de táxis, os donos de frotas migrem para a Uber também. Há já anúncios de aumento nas tarifas.

Vale lembrar que, quando a GOL começou a operar no ramo da aviação aérea para passageiros, trouxe uma série de inovações que baratearam as passagens de modo importante. Mas não demorou para que os valores equalizassem novamente, e atualmente seus preços estão no mesmo patamar das demais empresas à época de sua entrada no mercado.

Enquanto isso, por vezes, vou de Uber, no mais das vezes, ainda vou de táxi...




sexta-feira, 9 de setembro de 2016

sobre pedestres e motoristas


Saí a caminhar pela cidade. Cross urbano em que o pedestre tem que ir superando todos os obstáculos contra os fluxos de carro, motos, os temporizadores dos semáforos, cruzamentos sem sinalização...

Num dos cruzamentos, o condutor do carro parou em cima da faixa de pedestre, para aguardar o sinal verde. Fui atravessando devagar, olhei longamente a faixa, o carro avançado. Olhei para dentro do carro. Uma mocinha, linda, esperava para avançar. Você sabe que parou o carro sobre a faixa, não é? Você sabe que está errada, não é? Ela me olhou, e assentiu com um gesto quase imperceptível. Na próxima vez, respeite a faixa de pedestres, minha filha!

Acabei a travessia. Não estava irritada. Muitas vezes consigo me divertir fazendo isso. Foi o caso. Mais adiante, uma longa fila de carros à espera da luz verde em outro semáforo. No final da fila, um dos carros aguardava parado sobre a “caixa amarela”. A chamada caixa amarela sinaliza a área dos cruzamentos onde não se pode parar, para não obstruir a passagem dos outros carros. Um rapaz conduzia esse carro. Janela aberta. Não me furtei de lembra-lo que estava incorrendo numa infração. Da próxima vez, meu filho, se lembre que não pode, e não deve parar sobre esse xadrez amarelo, viu? Ele me olhou, surpreso. Segui minha caminhada.

Então me ocorreu que falta aos motoristas viver a cidade como pedestre. Caminhar entre os carros e motos lhes daria uma outra percepção de sua condição como motoristas. Talvez, a cada 5 anos, quando da renovação da carteira de habilitação, pudesse ser feito um treinamento, no qual os motoristas devessem cumprir percursos a pé, nos quais fosse necessário fazer uso de faixas de pedestres, travessias em cruzamentos com semáforos de 3 tempos, caminhar por calçadas onde há carros estacionados, etc.

Com certeza, uma experiência como essa modificaria o comportamento dos motoristas na condução dos carros.







segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Você já foi a Pirenópolis?

fim de tarde...

primeira estrela (que não é estrela...)


vista do alto da Rua do Lazer

a Igreja Matriz, restaurada


o II Pirenópolis Doc foi um sucesso!


Domingo tem até engarrafamento! Mas logo passa...


Nada, nada tira o charme da ponte sobre o Rio das Almas...