Mostrando postagens com marcador greve. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador greve. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de junho de 2024

O professor quer dar aula... mas o que ensina o professor?

 

foto: Jossier Boleão

Naquela terça-feira, pela manhã, o professor iniciou o dia determinado a dar sua aula. Logo cedo dirigiu-se ao prédio de sua faculdade, que não ficava muito longe, mas também não muito perto de sua casa. No dia anterior, tinha enviado mensagem eletrônica aos alunos de sua disciplina, confirmando as atividades do dia. Estava certo de que estariam esperando por ele (a propósito, era um professor movido por muitas certezas!).

Contudo o movimento grevista discente ainda estava em curso. Os estudantes da universidade vinham assumindo posições cada vez mais consistentes e coerentes em suas reivindicações e na crítica feita tanto à gestão institucional quanto ao orçamento destinado às universidades federais. Em suas reivindicações, apontavam desde a falta de papel higiênico nos sanitários, à falta de segurança nos campi, vários problemas em relação ao refeitório, a redução no financiamento de bolsas para permanência de estudantes de renda inferior, até a necessidade de discussão sobre os ajustes do calendário acadêmico considerando as circunstâncias atuais da comunidade universitária.

O movimento grevista estudantil foi reconhecendo sua própria força, ganhando fôlego e visibilidade. Os estudantes aprenderam e ensinaram em sua mobilização. Na manhã daquela terça-feira, o comando de greve do movimento estudantil teria reunião com a reitora, finalmente, para as negociações.

Ao mesmo tempo, a greve dos servidores das áreas administrativa e técnica também tinha continuidade, com poucos avanços na negociação em âmbito federal. Apesar disso, a reitoria escolhera dar prosseguimento às atividades na universidade como se não se ressentisse da ausência desses servidores. Em contrapartida, os estudantes, fortalecidos em suas relações de pertencimento, reforçavam tanto a importância da greve quanto a importância das funções institucionais por eles exercidas.

Mas o professor não abria mão de sua missão: dar aula. A greve dos docentes fora encerrada e ele estava determinado a dar prosseguimento aos conteúdos de sua disciplina. Chegando à faculdade, contudo, encontrou todas as salas fechadas, bloqueadas com cadeiras, painéis, armários e toda sorte de mobiliário. Os alunos o aguardavam, no corredor, temerosos de serem prejudicados com faltas ou avaliações caso não comparecessem. Cioso de seu exercício docente, ele os conclamou para ajudarem a liberar o acesso, desfazendo o bloqueio montado pelo comando de greve do movimento estudantil. Assim, retiraram as cadeiras, o armário, o painel. Ele abriu a sala e todos se acomodaram nas carteiras reorganizadas. O professor começou a aula abordando conteúdos imprescindíveis à formação daqueles estudantes, tinha certeza disso. Sentia-se forte, o professor, fortalecidas suas convicções. Os estudantes aprendiam com ele.

Aprendiam o quê? O que aprendiam, com ele, de modo que não esqueceriam, que passariam a compartilhar, como convicção? Aprendiam o conteúdo desenvolvido durante aquela aula? Provavelmente sim, mas com alguma chance de, pouco tempo depois, dele já terem se esquecido. Por outro lado, não se esqueceriam, porquanto teriam incorporado a aprendizagem, os ensinamentos sobre um posicionamento que minimiza, ou desconsidera, ou mesmo confronta o pertencimento a uma categoria em mobilização política, o pertencimento a um movimento de estudantes que questiona, que levanta sua voz para perguntar sobre as condições políticas e econômicas da educação e seus agentes, e sua comunidade como um todo.

Para aquele professor, a greve não passava de um ruído, uma perturbação momentânea, que logo passaria. Foi isso que seus estudantes aprenderam.

 




quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Dos lugares de aprender, e do não saber...

Aos estudantes que, em 5/8/2015,
 não desistiram da possibilidade
 de acompanhar presencialmente
 a Assembléia de professores em greve.

Os processos de aprendizagem estão em todos os momentos e lugares. Aprendemos no momento em que nos damos conta de certas relações, em que incorporamos modos de operar e pensar sobre certas coisas, processos, visões. Do micro ao macro, do estado de solidão ao coletivo, aprendemos.

Imbuídos do papel social de professores, educadores, precisamos lembrar que, mais além dos nossos planos de ensino, planejamentos de aula, estratégias metodológicas e avaliativas, ensinamos pelos modos como conduzimos nossas relações com os estudantes, com as instituições, com o ato de conhecer. Com os nossos próprios processos de aprender.

Por isso, quando nos posicionamos em relação, por exemplo, a um movimento de greve, independentemente de quais sejam nossas orientações ideológicas, propiciamos aprendizagens. Quando escolhemos não acatar as orientações e decisões da categoria, ou quando acatamos; quando escolhemos nos omitir, “tirar férias” aproveitando a greve, ou quando partimos para os embates (todos), muitas vezes descontrolados pela emoção assoberbada; quando não deixamos de tomar parte, fazendo-nos presentes, mas sem abrir mão da dúvida e das perguntas como nossas melhores companhias e conselheiras... Ensinamos, e aprendemos, sempre.

O professor que, em assembleia, anunciou que não ficará sem férias, pois dará aulas mesmo em greve, pois não deixará de ensinar seus estudantes, estava ensinando enquanto pronunciava estas palavras.

Os professores que não queriam o ingresso dos estudantes no espaço da assembleia, mantendo-os do lado de fora, colados aos vidros do Centro de Eventos, ensinavam, do mesmo modo que os professores que levaram à votação a abertura das portas para que todos entrassem.

E por mais que caminhemos, por mais que aprendamos, saberemos sempre muito pouco para compreender de fato o nosso estar no mundo. Tão pouco. Muito menos do que sejamos capazes de supor.

Professora em greve, que estou, sou antes aprendiz consagrada ao não saber...






sexta-feira, 24 de julho de 2015

CARTA AOS ESTUDANTES DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS



Desde maio último os funcionários das áreas técnicas e administrativa estão em greve, com as atividades paralisadas. Reivindicam questões salariais, mas também têm em pauta as condições de trabalho. Nesse período, quase ninguém percebeu os efeitos da greve por eles deflagrada, pois quase tudo continuou funcionando minimamente, quase dentro da normalidade, apesar de todos os problemas que já se apresentavam. Nesse mesmo período, em muitas universidades federais o movimento grevista foi deflagrado também pelos professores, dadas as condições absolutamente precárias do ponto de vista dos orçamentos e funcionamento em geral com que as instituições estão operando desde o início do ano. Alguns poucos meios de comunicação têm se dignado a divulgar alguns dados a respeito. Mas muito menos do que deveria ser...

A cada passo, as informações que chegam aos gestores das instituições federais de ensino superior, seus funcionários e professores, aumentam a preocupação e evidenciam a inviabilidade de manter minimamente o funcionamento regular.

Não tenhamos dúvidas, nem alimentem ilusões: a universidade que todos esperam encontrar no retorno do recesso não será a mesma que foi deixada ao final do primeiro semestre. O profundo corte orçamentário terá repercussões graves, cuja abrangência eu ainda não consigo imaginar, mas, sabemos, é muito extensa.

Na UFG, muitos funcionários terceirizados já foram demitidos. Pessoas com quem trabalho há quanto tempo, em agosto, já não estarão lá. Os serviços por eles prestados estão paralisados, ou serão paralisados em seguida. Muitas atividades desenvolvidas por professores como parte obrigatória de suas atuações no tripé docência/pesquisa/extensão estão suspensas (seriam mantidas às custas dos próprios professores?...).

Fazer de conta que nada disso esteja acontecendo é, no mínimo, tapar o sol com a peneira. Neste momento, é necessário pensar sobre o que seja o efetivo exercício de cidadania. É necessário pensarmos nosso papel social e nossas tomadas de posição em relação aos projetos de sociedade que pretendamos defender. Ressalto: defender na ação, não em discursos oportunistas, nem nos bate-bocas das redes sociais...

Este é um momento propício para a defesa da universidade, de seus projetos, das condições efetivas de formação de profissionais em nível superior e em pós-graduação, por todos os segmentos da comunidade que integram a UFG. Tomar parte nesse processo também é formação, na compreensão de uma formação mais ampla, efetivamente engajada.

Em lugar de se disseminarem lamentações e queixas sobre o que esteja, ou não, funcionando, lamúrias vitimizadas e vitimizantes, está na hora de se assumir o lugar responsável de cada um no projeto da educação pública de qualidade, e se defender a instituição onde, por excelência, ela possa ser promovida.

Por essa razão, há um indicativo de greve dos professores a ser iniciada no dia primeiro de agosto, somando-se à greve já em curso dos funcionários administrativos e técnicos. Não, não se tratam de férias prolongadas. Não, não queremos a universidade parada. Ao contrário. Será preciso que todos – professores, estudantes e funcionários das áreas técnicas e administrativas – ocupemos a universidade. Será preciso que, juntos, possamos discutir, perguntar sobre as condições necessárias para assegurarmos a universidade que queremos, a nossa universidade. Não percam de vista: os estudantes fazem parte disso. Não se omitam, neste momento!

Por fim, pergunto a vocês: A quem interessa a universidade inoperante?






domingo, 2 de setembro de 2012

A greve dos professores e as políticas de expansão da universidade pública



O Reuni é o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, e foi instituído por Decreto em abril de 2007, durante a gestão do então Presidente Luis Inácio Lula da Silva. Das 54 universidades federais existentes à época, 53 aderiram ao Programa em duas etapas iniciais. A Universidade Federal de Goiás integrou o primeiro grupo de universidades que aderiu ao Programa, de modo que já no primeiro semestre de 2008 iniciou-se a implementação de ações, que previam a construção de prédios, a aquisição de equipamentos e laboratórios diversos, a ampliação no número de vagas para professores, entre outros. Em contrapartida, deveria ser assegurada a ampliação de vagas a serem ofertadas nos vestibulares, bem como a abertura de novas turmas e cursos, ocupando áreas e horários subutilizados nas estruturas que já estavam em funcionamento. A criação de novas universidades federais integrou o conjunto de ações previstas pelo Governo Federal.

Vale lembrar, também, que, entre os anos de 2005 e 2008, foi criado e consolidado o Sistema UAB, Universidade Aberta do Brasil, pelo MEC, para a realização de cursos em plataformas online, na modalidade a distância. O Sistema, articulado à política do Reuni, visou à expansão na oferta dos cursos de graduação, à sua interiorização, na multiplicação de polos de formação, sobretudo, em regiões sem cobertura por universidades públicas, sejam estaduais ou federais.

Nesse mesmo período, ganhou corpo a discussão sobre a reserva de cotas na oferta de vagas, nos exames de vestibular, nas universidades públicas. Inicialmente visando assegurar vagas a serem pleiteadas por candidatos afrodescendentes, a discussão incluiu as comunidades de origem indígena, e posteriormente foi ampliada para a inclusão de estudantes com formação básica em escolas públicas.

A proposta de reestruturação e expansão das universidades federais, em alguma medida, visou responder à constatação recorrente de uma inversão, por parte das universidades públicas, no papel de formação de profissionais, particularmente no tocante aos segmentos sociais aos quais elas atendem, majoritariamente. Visou, também, responder às diversas pressões sociais que reivindicavam não só justiça social no acesso às universidades públicas, bem como cobravam a responsabilidade, por parte dessas instituições, no tocante à formação de profissionais que atendessem os segmentos sociais mais carentes, ou mais distantes dos grandes centros, no tocante à saúde, educação, e outras frentes.

Desde a década de 60 do século passado, pesquisadores da área de Educação, Ciências Sociais, Políticas, entre outras áreas, têm apontado, no cenário da sociedade capitalista, o papel da educação como reprodutora das desigualdades sociais. Numa breve revisão, podem ser lembrados alguns clássicos, tais como o livro A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino, que resultou de ampla pesquisa realizada com estudantes do ensino superior, na França, assinado pelos pesquisadores Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, ou o livro A escola capitalista na França, assinado por Christian Baudelot e Roger Establet. Muitos outros autores, de orientação marxista, neo-marxista, quantos deles articulados com as teorias críticas na Educação, e as pedagogias mais progressistas, dedicaram-se a tentar compreender como os sistemas educacionais atuam no sentido de promover educação de qualidade para as elites, oferecendo uma educação de segunda categoria para as demais classes trabalhadoras, de modo que, de um lado, cumpram satisfatoriamente seus papéis nas searas sociais que lhe cabem, por onde possam transitar, e, de outro lado, sejam minimizadas, quando não neutralizadas, as possibilidades efetivas de mobilidade (ascensão) social.

No Brasil não são recentes as constatações que dão conta de uma inversão observada nos fluxos da formação escolar, na passagem da Educação Básica para o Ensino Superior. Estudantes oriundos das redes públicas de ensino, quando não interrompem sua formação (o que acontece, ainda, com a maioria dos jovens) antes de ingressarem num curso de graduação, acabam matriculando-se numa das miríades de instituições de ensino superior da iniciativa privada. São faculdades de pequeno, médio e grande porte, universidades diversas, muitas promovendo ensino de qualidade mínima duvidosa, e de cujos professores, em sua maioria, é cobrado que ministrem aulas – pelo que recebem salários relativos às horas-aula ministradas – sem qualquer ênfase no desenvolvimento de pesquisa ou projetos de extensão. São os chamados professores auleiros.

O acesso às universidades públicas, sobretudo às federais, dada a alta concorrência, particularmente no caso dos cursos mais valorizados (Medicina, engenharias, áreas tecnológicas...), acaba mostrando-se viável aos que realizaram os estudos da Educação Básica na iniciativa privada, onde não só experimentam um ensino de melhor qualidade, como também são preparados para situações que exigem espírito competitivo.

Assim, o Programa Reuni, articulado ao Sistema UAB, em alguma medida, representou uma iniciativa do Governo Federal para, ao menos em tese, enfrentar essa inversão. Muitas universidades transformaram-se em verdadeiros canteiros de obras. Outras, novas, brotaram desses canteiros. E houve a abertura de um grande número de concursos, para todas as áreas, com o ingresso de novos professores para a carreira docente como não se via desde o final dos anos 80, início dos anos 90. Essa referência, por certo, apoia-se numa memória mais subjetiva, carecendo de dados objetivos a lhe dar calço. Provavelmente requeira correção. Mas, tomada como metáfora a reforçar uma constatação, serve para enfatizar o fato de que, há muito, não havia tantas oportunidades de acesso à carreira docente nas universidades federais, como ocorreu a partir de 2008.

Como resultado, o quadro de professores efetivos mudou de feições, renovado de modo significativo. O número de professores em estágio probatório multiplicou-se, avolumando os processos de acompanhamento e avaliação. Novas demandas foram criadas nos diversos conselhos que organizam as universidades. Novos ventos sopravam, ao mesmo tempo em que alguns problemas também começavam a ganhar visibilidade.

Também se sabe, e não é de hoje, quase sempre os salários recebidos pelos professores nas universidades públicas federais mostram-se menos sedutores do que os oferecidos por algumas grandes universidades da iniciativa privada – nestas, em alguns casos, a remuneração chega a ser o dobro em relação àquelas. Muitos professores das universidades públicas, tão logo se aposentam, ocupam vagas nessas universidades, para enfim degustarem a possibilidade de remuneração competitiva no mercado. Por outro lado, também é sabido que o espaço para a pesquisa, com garantias à diversidade de abordagens, temáticas, sem maiores submissões aos ditames do mercado, só pode ser encontrado no ambiente da universidade pública. Essa possibilidade preserva, na universidade pública, o poder atrativo para o qual são endereçados projetos de atuação profissional por parte de jovens pesquisadores, a despeito dos salários pouco competitivos num mercado cada vez mais agressivo, a despeito das dificuldades internas relativas a gestões administrativas, a financiamentos de projetos e programas, ao déficit de apoios logísticos, entre outros itens que podem ser relacionados.

Assim, desde 2008, novos professores passaram a transitar pelos territórios das universidades federais, compartilhando espaços de aprendizagens com um número expandido de novos estudantes, muitos destes tendo assegurado suas vagas por meio do sistema de cotas implantado em algumas instituições, cada qual dentro de normativas estabelecidas internamente. Estudantes matriculados nos cursos na modalidade a distância ampliaram os raios de alcance da ação desses professores, multiplicados pela atuação de tutores com provisórios vínculos de trabalho e formação nem sempre suficiente, talvez nem sempre satisfatória, para as demandas de suas funções. E também remunerados em caráter de exceção (o que resulta na fragilidade nas estruturas de oferta desses cursos).

Muitos dos professores ingressantes depararam-se com universidades recém inauguradas, em condições muito precárias de trabalho, estruturas físicas ainda não concluídas. Outros se deram conta de que as perspectivas anunciadas pela carreira docente, a médio e longo prazo, haviam se redesenhado, em relação aos cenários de duas décadas atrás, soprando, dos horizontes abertos, algumas brisas de frustração.

Ora, é preciso ter-se em conta algumas referências das regras de funcionamento do mercado, que não deixariam de se fazer valer, mesmo que sob a vigência de políticas públicas e decretos de lei que, supostamente, pretendam minimizar seus efeitos nos programas de escolarização e formação profissional da população. No cenário da educação brasileira, o processo de universalização da educação básica implicou, também, na perda da qualidade do ensino promovido nas escolas públicas – esta afirmação tem em conta o recorte da educação no decurso do século XX, e não apenas as últimas décadas. A pressão, se não pela universalização, ao menos pela expansão chegou ao ensino superior, nas universidades públicas. Multiplicam-se os discursos que argumentam a necessidade de se assegurar o acesso das camadas mais pobres da população ao ensino de qualidade ali promovido.

Pois bem, que se assegure esse acesso, dirá o mercado. No entanto, dentre as possibilidades, que já se fazem sentir, de desdobramentos da expansão universitária, está a perda da qualidade do ensino ali promovido. Esse é o preço, sussurrará o mercado, entre risos de canto de boca. Ora, quando a elite permite aos pobres que tomem parte da festa, é porque seus membros já se retiraram do salão, levando consigo o melhor do banquete. Ocupam-se, já, de outros jogos e prazeres.

Os filhos das elites, que cumpriram a Educação Básica em escolas da iniciativa privada, começam a dispensar as vagas não reservadas às cotas – agora, por força de lei federal, 50% de todas as vagas oferecidas nos vestibulares, pelas universidades públicas, são reservadas para estudantes oriundos das redes públicas de ensino. Os filhos das elites não precisam delas. Podem bancar os altos custos de universidades da iniciativa privada que, ao longo dos últimos anos, se prepararam para recebê-los, estruturando seus laboratórios, remunerando muito bem seus doutores, fazendo uso, inclusive, de subsídios de dinheiro público para isso. Os salários e planos de carreira nas universidades públicas federais, a seguir essas tendências, em pouco tempo deixarão de ser interessantes para quem alce vôos minimamente ambiciosos do ponto de vista profissional.

É nessa atmosfera, mas nem sempre tendo muita clareza dos jogos de força no embate, que professores, uma parcela significativa dos quais com  não mais de 5 anos de carreira docente, iniciaram uma mobilização que chegou a envolver 57 das 59 universidades federais existentes, deflagrando uma greve de abrangência e força como ainda não se tinha experimentado na era pós-ditadura. Esses professores, em geral, concluíram seus cursos de graduação nos anos 90, e os cursos de pós-graduação já na primeira década deste milênio. Não têm relação com memórias dos embates mais dolorosos com a ditadura. Seus projetos vinculam-se à satisfação na atuação profissional, o que pode ser traduzido em boas condições de trabalho, salários satisfatórios, projeções razoáveis de progressão na carreira.

A greve de professores das universidades públicas federais, iniciada em maio de 2012, a se estender por setembro adentro, por certo, é um dos primeiros efeitos de grande repercussão do Programa Reuni, e outras extensões relativas à expansão do ensino universitário, público e gratuito, na esfera federal.

Os embates estão apenas se iniciando. Asseguremos bons lugares para observar os movimentos na arena. Ou tomemos parte dela. Sem perder de vista a necessidade de algum distanciamento para tentarmos compreender as relações de força em jogo, e para não nos deixarmos transformar em peões a serviço não se sabe ao certo de quem. Alguma vez, porventura, teremos alguma clareza?



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O SONHO DOS RATOS (Rubem Alves)


Para não desistirmos dos sonhos,
 mas também para não deixarmos
 que nos transformem em ratos/gatos... 

Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma casa velha. Havia ratos de todos os tipos: grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, da roça e da cidade. 

Mas ninguém ligava para as diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes. Comer o queijo seria a suprema felicidade...Bem pertinho é modo de dizer. 

Na verdade, o queijo estava imensamente longe porque entre ele e os ratos estava um gato... O gato era malvado, tinha dentes afiados e não dormia nunca. Por vezes fingia dormir. Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco para que o gato desse um pulo e, era uma vez um ratinho...Os ratos odiavam o gato. 
Quanto mais o odiavam mais irmãos se sentiam. O ódio a um inimigo comum os tornava cúmplices de um mesmo desejo: queriam que o gato morresse ou sonhavam com um cachorro... 


Como nada pudessem fazer, reuniram-se para conversar. Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem para quem), e chegaram mesmo a escrever livros com a crítica filosófica dos gatos. Diziam que um dia chegaria em que os gatos seriam abolidos e todos seriam iguais. "Quando se estabelecer a ditadura dos ratos", diziam os camundongos, "então todos serão felizes"... 

- O queijo é grande o bastante para todos, dizia um. 

- Socializaremos o queijo, dizia outro. 


Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções. 
Era comovente ver tanta fraternidade. Como seria bonito quando o gato morresse! Sonhavam. Nos seus sonhos comiam o queijo. E quanto mais o comiam, mais ele crescia. 


Porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados: não diminuem: crescem sempre. E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando: "o queijo, já!"... 


Sem que ninguém pudesse explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha sumido. O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar uns poucos passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente ao redor. Aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era. 
O gato havia desaparecido mesmo. Chegara o dia glorioso, e dos ratos surgiu um brado retumbante de alegria. Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum. E foi então que a transformação aconteceu. 


Bastou a primeira mordida. Compreenderam, repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescer, diminuem. 


Assim, quanto maior o número dos ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem inimigos. Olharam, cada um para a boca dos outros, para ver quanto queijo haviam comido. E os olhares se enfureceram. 


Arreganharam os dentes.Esqueceram-se do gato. Eram seus próprios inimigos. A briga começou. Os mais fortes expulsaram os mais fracos a dentadas. E, ato contínuo, começaram a brigar entre si. 
Alguns ameaçaram a chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a ordem. O projeto de socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos: 
“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono”. 
Mas como rato algum jamais abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar esperando.Os ratinhos magros, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que havia acontecido. 

O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o jeito do gato o olhar malvado, os dentes à mostra. 

Os ratos magros nem mais conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora. E compreenderam, então, que não havia diferença alguma. Pois todo rato que fica dono do queijo vira gato. Não é por acidente que os nomes são tão parecidos.





quinta-feira, 5 de julho de 2012

Greve de professores x greve de motoristas de ônibus. Ou: para evitar que não haja desgaste das peças...




Noutro dia, o síndico do meu prédio me procurou. Queria que eu o ajudasse na revisão de um comunicado a ser divulgado entre os condôminos. Num ponto do texto, ele explicava certa providência tomada, justificando que era para “evitar que não houvesse desgaste das peças”. Chamei sua atenção para o fato de que ele estaria assumindo que tal procedimento era para provocar o desgaste das tais peças. Ele não compreendeu muito minha explicação. Lemos, juntos, o trecho, tentei mostrar de outra maneira o efeito reverso da estrutura da frase que ele montara. Ao final, mais confiando em mim do que compreendendo o problema, pediu-me que eu mesma corrigisse, para ele imprimir a versão final. Comentou, com um sorriso afável: “Ainda bem que posso contar com uma professora para me ajudar...” Ele tem curso superior, com formação na área de informática, e diploma obtido numa faculdade de iniciativa privada. Atua no mercado há muitos anos.

Ontem, foi amplamente divulgada a greve dos rodoviários, em Recife, já em seu segundo dia. De um lado, a população pena para conseguir se deslocar pela cidade, de outro lado, motoristas e patrões não chegaram, ainda, a um acordo. Esses dados informam, afinal, já ter havido rodada de negociação. Enquanto isso, a greve de professores, estudantes e funcionários nas universidades federais de todo o país vai completando seu segundo mês (e não o segundo dia...) com quase nenhum espaço sério de informação nas mídias diversas, e sem qualquer aceno de negociação por parte do governo federal.

Começo a achar que eu me equivoquei, e o síndico estava certo: os caras estão mesmo evitando que não haja desgaste das peças...

Salve o Corinthians...



terça-feira, 26 de junho de 2012

essa tal de pós-modernidade...



O professor é marxista. Quando fala sobre Marx, seus olhos brilham do mesmo modo que brilham os olhos de alguns crentes em sua fé cristã. E em seu gesto ressoa uma crítica discreta endereçada aos colegas que não compartilham do mesmo entusiasmo em relação ao marxismo. Burgueses, pensa, sem confessar.


A greve foi se espalhando: entre professores, funcionários técnico-administrativos, estudantes. As discussões foram ganhando espaço: educação pública, financiamento da educação, a universidade que queremos, etc. Novas gerações de professores e estudantes, que nunca haviam participado de mobilizações antes, começaram a construir novas aprendizagens.


O professor marxista, que não declarou nem a adesão nem o voto contrário à greve, marcou prova para os alunos de sua turma. No silêncio da unidade acadêmica esvaziada, os mais assustados compareceram, temendo represálias. O professor não quer correr o risco de ter prejudicada uma viagem internacional programada desde antes da greve.


Burgueses...


PS.: ele não está sozinho...





quarta-feira, 13 de junho de 2012

O trem da História só passa uma vez



Para os  estudantes que vão redescobrindo
 o poder político de seu grito,
 de seu gesto, de sua determinação.

Ingressei na universidade no primeiro semestre de 1980. Tinha ainda 17 anos, e logo me deparei com uma greve deflagrada pelos estudantes. Os anos mais duros da ditadura militar começavam a perder força, mas ainda não tínhamos o direito ao exercício democrático nas diversas instituições. Mas no DCE, o direito à voz era assegurado, e as decisões eram tomadas com base no voto. Mesmo sabendo que havia os dedo-duros infiltrados, que denunciavam militantes, ações programadas, etc.

As primeiras lições de cidadania foram logo ganhando lugar. O trem da História só passa uma vez, e é preciso assumirmos posição.

Àquele tempo, nosso antagonista tinha feições claras, vociferava ameaças abertamente, e cumpria o prometido quase sempre. Nossas assembléias mobilizavam milhares de estudantes, e não raro eram compartilhadas por políticos de esquerda que nos apoiavam. Em volta, centenas de soldados com cães nos vigiavam, prontos a atacarem, à menor alteração de humor, ao menor indício de que já fosse a hora de dar um basta.

Durante os quatro anos do meu curso de graduação, atuei num grupo de teatro estudantil, participei de um sem número de assembléias, e lancei-me com força a toda a mobilização de coisa de duas ou três greves de estudantes. Nessas greves, não contávamos com o apoio dos professores, que registravam nossas faltas nas aulas, e ameaçavam nos reprovar, o que poderia redundar em jubilamento. As palavras de ordem pediam contratação de professores, verbas para os cursos, e democratização da instituição, entre outras coisas.

Muitos jovens saíram do movimento para assumir carreiras políticas. Alguns ocupam, hoje, cargos executivos no governo federal. Seus discursos mudaram um tanto. Suas práticas ainda mais. Nem tudo é linear, nem todas as relações são claras. Eu não cometeria a ingenuidade de pensar que todos, àquela época, fossem movidos pelo mesmo ideário que me movia, e que vinha marcado por valores morais e éticos depurados. Muitos interesses nem sempre revelados estavam em jogo. Mas havia uma força outra, do coletivo, que parecia prevalecer, uma solidariedade que imprimia o tom das mobilizações acima de motivações outras, possíveis, prováveis.

Concluído meu curso, afastei-me da vida acadêmica durante uma década, atuando na educação básica. Ali também as greves ocupavam os calendários letivos, em embates que, embora sofridos, potencializavam nossa energia e vontade de lutar por uma sociedade mais democrática, justa, por um projeto de educação de qualidade, por condições melhores para se ensinar e aprender. Foram muitas as passeatas pelo centro da cidade, assembléias em frente ao Congresso Nacional, no estacionamento do Estádio Mané Garrincha. Milhares de professores levantavam a voz e o braço. Eu fazia parte daquilo, e isso me dava força para prosseguir.

Em meados dos anos 90, voltei à universidade, para fazer o curso de Mestrado. O reitor, nesse período, já era eleito pelo voto de professores, estudantes e funcionários. A democracia chegara à instituição universitária, afinal, como sonháramos há pouco mais de uma década. Contudo, surpreendi-me com a informação de que o DCE se havia desarticulado. Pior: nas últimas eleições, não havia candidaturas que representassem de fato o corpo discente, e não houve votação mínima para legitimar qualquer resultado.

Tive a impressão de que, instaurado o processo de eleição do reitor e diretores das unidades acadêmicas, os estudantes tinham perdido a clareza sobre porque lutar, quando lutar, contra quem lutar. Eram os professores que faziam greve, sob as críticas e os queixumes dos estudantes, preocupados, estes, em obter logo seus diplomas e se verem livres do suplício de estudar.

Durante o curso de Mestrado, houve uma greve longa de professores, e um deles fez greve de fome. Foi uma luta intensa. Temi por sua integridade, em vários momentos. Esses professores, alguns deles, foram estudantes universitários nos anos 60 e 70, e haviam trazido de lá a vontade de lutar. Os estudantes, ingressados na universidade já democratizada, não viam razão para embates. E se opunham à luta dos professores.

Desde então, percebo que se perdeu uma aprendizagem necessária no decurso das duas últimas décadas: a de que o exercício de cidadania deve tomar parte de nossas formações, em qualquer instância, a todo momento. E que é preciso explicitarmos as posições que assumimos ante a sociedade, compreendermos as responsabilidades que nos cabem atuando nos vários segmentos das dinâmicas sociais. É preciso, sobretudo, percebermos que, muitas vezes, a ansiedade pelo cumprimento de certas metas de curto prazo desqualifica nossa inserção no percurso da história, desqualifica o projeto social de que tomemos parte. Não podemos viver como meros consumidores que reclamam no balcão de atendimento do supermercado para que alguém – quem será? – tome a providência necessária – qual será?

Cabe a nós mesmos tomar as providências necessárias, e aprender a negociar nas diversidades, compreender os diferentes pontos de vista, sem delegar responsabilidades.

Hoje constato que os corpos estudantis se esqueceram de sua força como categoria. Os estudantes perderam-se de seus projetos sociais coletivos: urgenciam diplomas que assegurem seu ingresso no mercado, não importa a que preço. É a sociedade de consumo dando o tom dos comportamentos.

Por isso, entre inquietações que me assaltam neste momento, alegro-me em constatar o retorno de um viço capaz de mobilizar estudantes, de levantar sua voz, de devolvê-los à cena, como protagonistas, e não como meras vítimas de processos políticos outros que não lhe dizem respeito.

Estudantes fazem greve, sim! Estudantes são a razão da existência das instituições universitárias! Os estudantes devem discutir os destinos dessas instituições, do mesmo modo como projetam seus próprios destinos! Este é o momento de aprendermos a fazê-lo, este é o momento de exercitarmos!

O trem da História só passa uma vez. Que ninguém perca a viagem. E se perder, que não fique se lamentando, entre queixumes, na estação, acusando outrem por ter sido deixado para trás.