segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Brasília de meus amores








Tempo livre, excesso de trabalho, desemprego: equação complicada


Foi no comecinho dos anos 1980. Eu tinha ainda 17 anos, quando estudei o livro Ciência e existência, do filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto. No primeiro semestre do meu curso de graduação, o livro integrava a bibliografia da disciplina Metodologia Científica. Lançado em 1969, em primeira edição, nesse livro o autor defendia o desenvolvimento científico e tecnológico como condição para que o país superasse o atraso dominante. Sobretudo, considerando-se o cenário político desolado pela ditadura militar.

Dentre as várias linhas de pensamento ali desenvolvidas, estava a ideia de que, com o desenvolvimento científico e tecnológico, os trabalhadores teriam mais tempo para o lazer. Aquilo me parecia falseado, ou ingênuo, pois o avanço tecnológico reduziria vagas de emprego no mercado de trabalho, e o que o filósofo chamava de “mais tempo para o lazer” seria sinônimo inevitável de desemprego. Talvez o excedente de tempo livre pudesse vir a ser gozado apenas pelos proprietários dos recursos tecnológicos.

Esse argumento foi recorrente entre filósofos e cientistas sociais entusiastas dos avanços tecnológicos e suas vantagens à época. Mas sempre me pareceu uma falácia: a liberação da força de trabalho humana pela entrada dos equipamentos resultaria em desemprego, não em “mais tempo livre para o lazer”.

Mas, ainda na década de 80, eu não poderia imaginar o outro efeito perverso dessa delegação de funções aos aparatos tecnológicos: o aumento de demandas em função de um suposto aumento do tempo livre. Ou seja, se atividades que antes demandavam um tempo maior para serem executadas agora podem ser concluídas mais facilmente e com menos tempo, então podem ser delegadas mais tarefas para que as executemos, com a mesma facilidade e rapidez. Acumulam-se responsabilidades, e ocupam muito mais do que o tempo supostamente liberado pelos equipamentos. Gradativamente, essas demandas ocupam todos os momentos do dia, travestindo-se, muitas vezes, de lazer.

A velha máxima “carregar pedra enquanto descansa” ganhou sentido renovado. Já que você vai executar esta tarefa em menos tempo, também pode executar aquela outra! Já que você pode executar esta tarefa remotamente, inclusive instalado no conforto de sua casa, então não precisa observar horário comercial. Faça no horário que quiser, inclusive sentado agradavelmente na varanda de sua casa, ou no clube, quem sabe até acampando! Que maravilha! O trabalho passou a ocupar os lugares e o tempo destinados ao lazer, com a chancela tecnológica, e o decreto dos donos das vagas de trabalho, os que pagam os salários.

As noções de tempo livre, ócio, desemprego, propriedade dos meios de produção, propriedade dos recursos tecnológicos e da informação, força de trabalho, força intelectual, aparecem entrelaçadas, inseparáveis, e requerem certo distanciamento crítico, menos entusiasta com a própria noção de progresso, para serem pensadas.

Álvaro Vieira Pinto foi um intelectual importante no cenário brasileiro dos anos 70 e 80 do século XX. Pensou sobre os conflitos de classe, sobre a educação para adultos e seu papel transformador, pensou as condições de vida das populações operárias. Mas, nesse aspecto, do tempo livre para o lazer a partir dos avanços científicos e tecnológicos, o filósofo, no final dos anos 1960, foi tão ingênuo quanto a maior parte da população, e comprou o projeto desenvolvimentista ao mesmo preço de oferta para todos os consumidores, nos grandes centros de compra.

Viva o ano que se aproxima! Que haja mais tempo livre, sem ônus aos salários, e sem novas demandas de trabalho (se é verdade que essa equação seja possível...) 




sábado, 27 de dezembro de 2014

De memórias e melodias registradas em fitas K7




Quando o computador não funciona, quando o aparelho para tocar CDs e DVDs também estraga, quando a paciência para ouvir música nessas engenhocas portáveis com som de qualidade duvidosa se acaba, eu me lembro da minha coleção de fitas K7, guardada desde o início dos anos 1980, com coletâneas cuidadosamente organizadas, recolhidas de discos de vinil, ou de outras fitas K7. 

Cada caixinha de acrílico ganhava uma capa personalizada, como estas duas. A primeira, tem músicas de Egberto Gismont dos anos 1960, num lado, e as primeiras gravações de Margareth Menezes, no outro lado. A segunda fita tem uma coletânea de Pena Branca e Xavantinho ocupando os dois lados. 

É digno de nota a qualidade do som registrado. Apesar dos quase 30 anos, as fitas preservam a qualidade magnética, reproduzindo as músicas praticamente como foram gravadas. Apenas algumas breves oscilações nos canais do estéreo. 

Um pequeno detalhe: meu toca-fitas tem recursos invejáveis. Roda para a frente e para trás, e me oferece a opção de tocar lados A e B de duas fitas, até o fim. Além disso, localiza os intervalos entre as músicas, se eu quiser avançar alguma que me pareça desinteressante. Além disso, duas canetas bic foram guardadas junto às fitas. Ferramenta indispensável para a tecnologia em questão.

Um viva às músicas de todos os tempos!
Um viva às tecnologias analógicas e digitais, e todas as demais!
Viva a fita K7 e a caneta bic!
Viva 2015!




Roupa para lavar, passar, guardar, usar...




Recomendável fazer a lavagem com sabão de coco.
Evitar alvejantes.
Água quente pode ajudar a eliminar micro-organismos indesejáveis.
Alguns usuários gostam de usar amaciante no enxágue.





segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Bolhas de sabão

p/ Ruth 

Na rodoviária, uma fila interminável para comprar passagens, três dias antes do Natal. Uma senhora, à minha frente, observa as filhas que inventam um modo de brincar enquanto o tempo não passa, e a fila não anda... A mais velha faz bolhas de sabão com um pequeno aparelhinho, provavelmente comprado numa loja de bugigangas baratas, enquanto a mais nova se diverte estourando as bolhas recém-sopradas. De modo muito sutil, a velocidade aumenta: no ritmo da mais velha produzindo as bolhas, e no gesto nervoso da mais nova em estourá-las, e rir ao fazê-lo. Por vezes, tal a sua afoiteza, ela estoura as bolhas antes de se despregarem do aparelho, nas mãos da irmã.

Passa o tempo, a brincadeira ganha certo tempero estressante. A irmã mais velha tenta ludibriar a menor, que não se cansa de estourar as bolhas. É vitoriosa. A mãe sorri. Sente-se aliviada, por vezes, quando a fila se move um pouco.

Lembro-me de quando, criança, eu brincava fazendo bolhas de sabão. Ensaboava as próprias mãos, com um pouco de água, e soprava no vão deixado pela meia curva de cada uma. Precisava saber dosar a água e o sabão. Conforme a abertura das mãos, a bola poderia ser maior, ou menor. E me emocionava quando elas se demoravam passeando sua transparência por longo percurso, até se esbarrar nalgum galho de árvore, ou tronco, ou folha, e reduzir-se a gotas de água ensaboada respingadas no chão.

Observo a menor, e penso que habitamos extremos opostos no exercício das bolhas de sabão. Eu me sentia feliz quando se prolongava sua existência frágil e delicadamente bela. Ela se realiza destruindo-as. Eu, de alguma forma, exercia o controle técnico de sua produção: quantidade de água e sabão nas mãos, o gesto para a produção da espuma, a posição das palmas e dedos, a pressão do sopro e o gesto de interrupção, para que a bolha se soltasse, e pudesse flutuar. A ela isso tudo não importa: tem as bolhas prontas, disponíveis para o mero gesto que resultará no seu estouro. E no estouro da próxima, e outra, incontáveis vezes...

Não será assim que vivemos, em meio aos rituais de consumo em que quotidianamente nos encontramos imersos? Não estamos todos, afinal, estourando bolhas de sabão, na expectativa da próxima, e de outras, quantas forem, não importando como, onde em que condições tenham sido produzidas?

Viva o espírito do Natal!







sábado, 20 de dezembro de 2014

Cuba e EUA... notas para começo de pensamento


Inicia-se um novo frenesi. Esquerda e direita manifestam-se com paixão. Uns a favor, outros contra. Eu tento encontrar algumas pontas, para tecer algum retalho de reflexão. Certa de que as coisas mais importantes se nos escapam, e por isso mesmo não conseguiremos compreender de fato o que se passa. Muito menos se movidos por paixão que polarize posições.

Nisso tudo, há uma questão que me chama a atenção, de modo particular: o hipercapitalismo, ou, como referiu Benjamin, o capitalismo como religião, e a condição sem saída da sociedade de consumo que ocupa todos os espaços da nossa existência. Compramos itens, diariamente, não por necessidade pragmática, mas cumprindo rituais. Consumimos conseguir processar, para assegurarmos nosso lugar nas catedrais, nos eventos sociais, nas celebrações. Aos poucos, nos saturamos com informações. Nossas casas entulham de coisas. Os aterros destinados para o depósito de lixo crescem assustadoramente, ante o descarte de quantas coisas, para que se abra espaço aos novos itens... porque os rituais precisam continuar!

Enquanto isso, em Cuba, graças ao embargo econômico imposto pelos EUA, não há itens disponíveis para serem comprados. As prateleiras dos supermercados ficam vazias. Os visitantes estrangeiros levam camisetas, sabonetes, com que presenteiam os ilhéus, como lhes entregassem objetos preciosos trazidos de outra galáxia. De alguma forma são.

Assim, em Cuba, as coisas precisam ser recicladas e usadas até além do limite de sua durabilidade e resistência material. Reinventam-se as tecnologias desde o mais precário, para efetivamente atender as necessidades. Talvez pudéssemos pensar que o povo cubano, não por escolha, mas por contingência, não se submete à condição de funcionário dos aparelhos, nos termos propostos por Flusser.

A situação limite vivida pelo povo cubano explicita uma face a ser considerada, como contraponto ao aprofundamento da sociedade de consumidores na qual estamos tão imersos que sequer conseguimos imaginar outros modos de organização da vida.

Não defendo bandeiras. Da mesma forma, sem titubear, não defendo qualquer ditadura. Nenhuma. Nenhum argumento justifica qualquer modalidade de opressão. Mas também reconheço que é preciso colocar em questão os formatos de democracia que julgamos exercer. É bom não esquecermos: dentre outras modalidades, vivemos sob a ditadura do mercado, e nos comportamos como se tivéssemos liberdades de escolha. Até cremos, mesmo, nisso... afinal, a crença também é elemento fundante do capitalismo como religião...







da série "fronteiras, lá em casa"










Boa noite, dama-da-noite!










sábado, 13 de dezembro de 2014

A criação


A mulher e o homem sonhavam que Deus os estava sonhando.

Deus os sonhava enquanto cantava e agitava suas maracas, envolvido em fumaça de tabaco, e se sentia feliz e também estremecido pela dúvida e o mistério.

Os índios makiritare sabem que se Deus sonha com comida, frutifica e dá de comer. Se Deus sonha com a vida, nasce e dá de nascer.

A mulher e o homem sonhavam que no sonho de Deus aparecia um grande ovo brilhante. Dentro do ovo, eles cantavam e dançavam e faziam um grande alvoroço, porque estavam loucos de vontade de nascer. Sonhavam que no sonho de Deus a alegria era mais forte que a dúvida e o mistério; e Deus, sonhando, os criava, e cantando dizia:

- Quebro este ovo e nasce a mulher e nasce o homem. E juntos viverão e morrerão. Mas nascerão novamente. Nascerão e tornarão a morrer e outra vez nascerão. E nunca deixarão de nascer, porque a morte é mentira. (48)


Eduardo Galeano
Trilogia Memória do Fogo
I. Os Nascimentos





domingo, 7 de dezembro de 2014

Vida longa à poetisa!




Ela, que nos ensinou as primeiras letras e as primeiras contas, agora segue nos ensinando a envelhecer.






saída de emergência




Você só deve sentar na saída de emergência caso se sinta capaz de fazer corretamente todos os procedimentos,
 em caso de necessidade!
Oi?!




domingo, 23 de novembro de 2014

Portais do começo do mundo

p/ Paul


havia montanhas e cavernas, no começo de tudo

nas encostas da Chapada dos Pareci
de dentro de uma montanha de pedra preta
saíram os homens e as mulheres
eles iriam habitar o mundo

vieram descabelados, pelados
sujos de cinza e carvão
cada um seguiu um caminho diferente
para se assentar
os (outros) animais também saíram dali
e se espalharam por todos os lugares

só os espíritos dos mortos
ficaram lá, vivendo no buraco 
e, do lado de fora, os nambikwara
se incumbiram de proteger a entrada 
aguardando os que voltariam

e voltaram, muito, muito, muito tempo depois
tinham se modificado
depois de ganharem o mundo
e atravessarem as águas

já não se lembravam de onde tinham saído
e nem se reconheceram nesse ponto de encontro
entre o passado incontável
e o futuro insuspeitado

por vezes, é preciso esquecer, para prosseguir vivendo

as entradas das cavernas estão lá
habitadas pelos espíritos dos que já morreram
vigiadas pelos moradores do vale

além desses, poucos, bem poucos conhecem esses portais
(assim seja)






sábado, 22 de novembro de 2014

dos registros de memória

p/ Seu Osorinho

das coisas que não existem mais
guardam-se fotos e vídeos
(por quanto tempo existirão?)




terça-feira, 11 de novembro de 2014

Sobre zoológicos de animais (inclusive humanos)...

p/ Aristein


Disponível aqui


Disponível aqui


Disponível aqui


Zoológicos são prisões.
 Enjaulados estão os vencidos.
 Os outros.

Os civilizados passeiam pelas vias da grande exposição.
 Da Exposição Universal.
 da Exposição Colonial.
 Do Zoológico...
Observam suas conquistas.
A conquista da civilização. 

Por entre as tramas das jaulas, os olhares se encontram.
 Os vencidos olham seus dominadores.
Os dominadores, melhor dizendo, os civilizados sentem pelos vencidos um misto de compaixão, curiosidade, distância.
Por trás das jaulas, não lhe oferecem perigo.
 Que assim sejam mantidos.
 Em favor da preservação da civilização, e todo seu cinismo.





sábado, 25 de outubro de 2014

terceira nota sobre fronteiras

...
cada um acredita naquilo que escolhe acreditar
e depois esquece que se trata de escolha
e transforma as crenças em verdades não negociáveis

o problema não está nas crenças
mas no seu tratamento como verdades acima de todas as contingências
essa é a fronteira onde tudo começa a se complicar...
...



domingo, 19 de outubro de 2014

da série "pausas necessárias"... 2




... e depois que o sol baixa um pouco, e diminui o calor, bom mesmo é ficar ali, sentada na calçada, passando a limpo a vida dos outros, contando conversa fiada, em boa companhia. Até de noitinha...




da série "pausas necessárias"...




... porque já se iniciou o horário de verão, e o calor passa dos 35ºC...






sábado, 18 de outubro de 2014

el olvido...



Hay quienes imaginan el olvido
como un depósito desierto / una
cosecha de la nada y sin ambargo
el olvido está lleno de memoria

(¿Cosecha de la nada?
Mario Benedetti,
 en El olvido está lleno de memoria)




quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Roteiro para pássaros




No andar superior, a luz natural não entra no corredor que se estende ao longo de todo o edifício, ligando as escadas localizadas nos extremos. Com pé direito alto, há duas fileiras de sancas no teto, rasgos no gesso, com lâmpadas fluorescentes que ficam acesas o dia todo.

Um pássaro desavisado, explorando seu território, senhor das artes do voo, entrou no prédio pelo vão lateral, próximo às escadas, alcançando a área do corredor. Sem encontrar o que lhe valesse a pena, decidiu sair dali. Orientado por suas crenças, seguiu a luz: supunha que a luz o levasse ao espaço aberto. Voou para o alto, e entrou na última sanca do corredor, de onde a lâmpada fluorescente oculta fazia jorrar luz. Ficou ali, sobressaltado com os sons do lugar, os movimentos. Batia-se contra a parte superior da sanca. E pousava novamente na borda, sempre perto da luz. A luz era sua segurança. Mas também sua prisão. Melhor falando: sua crença na luz era sua prisão.



Algumas pessoas deram-se conta de sua presença. Alguns, habituados a compartilhar fotos de animaizinhos qualificados como fofos, encantavam-se com o bichinho naquele espaço. “Olha o passarinho! Que lindinho!”. Outros questionavam “Como ele vai sair?” Mas todos estavam muito ocupados para deter-se no próprio percurso, compreender o trágico da situação, e buscar alguma solução.

Eu o encontrei já no segundo dia de sua saga. O segundo dia, da escala humana, deve corresponder a alguns anos na escala de passarinhos, imagino. Minha primeira providência foi desligar a luz da sanca. Imaginei que ele pudesse ser provocado a buscar outra fonte de luz, e assim sair dali. Contrariando minhas expectativas, na sombra ele acalmou-se, aninhou-se a um canto. Acho até que dormitou, por ali. Corredor escuro, logo passava alguém, e acendia a luz. O pássaro voltava à agitação. Depois da terceira ou quarta tentativa, percebi que minha estratégia estava fadada ao fracasso.

No final do dia, o pássaro estava lá, agitado, debatendo-se na extensão da sanca iluminada pela luz fluorescente. Pessoas passavam, olhavam-no, faziam comentários de compaixão, e seguiam seus rumos. A falta de compreensão, por parte do pássaro, sobre a contingência que o aprisionava, a crença que o mantinha nos limites estreitos da sanca, a certeza do aprisionamento não percebido como tal, tudo isto me comoveu, e me conectou ao pássaro. Pensei nas nossas próprias crenças a nos impedir de compreender nossas condições, nossos aprisionamentos, fontes de angústia e aflição. Fiquei ali, por algum tempo, acompanhando sua movimentação. A fadiga ia tomando conta do corpo miúdo.





Lembrei-me de perguntar à moça que cuida da limpeza sobre a existência de alguma vassoura para faxina do teto, com cabo mais longo. Ela compadeceu-se do pássaro. Foi preciso amarrar dois cabos à vassoura, para alcançar, precariamente, a área da sanca. O pássaro sentiu-se ameaçado, agitou-se ainda mais nervosamente, fugiu por trás da vassoura, passando rente à lâmpada. Cheguei a pensar que a tentativa também resultaria em insucesso. Mas um estudante, que também vinha observando a situação, começou a trabalhar com a vassoura. Apagamos a luz. O pássaro saiu da sanca, para entrar na sanca vizinha.

O pássaro voava sempre para cima, e em direção à luz. Ele acreditava que assim conseguiria sair. Suas crenças o aprisionavam. Era preciso força-lo no sentido oposto às suas crenças, para retirá-lo dali. Se não conseguíssemos, ele morreria. O rapaz considerou a possibilidade de machuca-lo, como forma de fazer com que ele descesse. Pensei que talvez não fosse uma boa ideia. Um pássaro ferido precisa de cuidados para sobreviver. Sobretudo depois de ter passado por uma situação estressante. Mas qual a opção alternativa àquela?

O rapaz empunhou o longo cabo da vassoura com firmeza e ternura, hábil como quem empina pipa. Foi determinado. O pássaro enredou-se na vassoura, saiu da sanca, desequilibrou-se, entregou-se, veio ao chão. Antes que chegássemos até ele, alçou voo numa diagonal, em direção ao final do prédio, onde o vão aberto ofereceu-lhe a noite fresca, varada pelos cantos das cigarras, e pelas conversas dos estudantes do terceiro turno.

À porta de saída do prédio, um cão sujo, sem dono, dormia sobre o tapete tão encardido quanto seu próprio pelo, indiferente às conversas e movimentações em redor. Livre, talvez...

Quem, à minha revelia, usará da força para, contrariando minhas crenças, me libertar de todas as sancas nas quais tenho me metido, e permanecido, no decurso do tempo?









domingo, 28 de setembro de 2014

Carta a Lutiere, Taísa e Gabriel


Desde pequena, fui dada a algumas esquisitices (quem não terá sido, afinal?). Uma delas está numa espécie de adiamento para adentrar situações muito desejadas, ou carregadas de afeto. À maneira daquelas pessoas que deixam a melhor parte da refeição para degustar ao final. Assim, podem prolongar a memória do sabor nas papilas.

Por exemplo, quando eu tinha 6 anos, e ganhei a boneca dos meus sonhos, demorei-me vários dias para pegá-la, admiti-la como minha, e supor a possibilidade de brincar com ela. Na verdade, a boneca estava muito além do que, em meus sonhos, eu fora capaz de imaginar. E isso me arrebatava. O casal que ma deu tinha a expectativa que eu me lançasse sobre o presente, abrisse a caixa, e saísse dançando com a boneca que tinha quase o meu tamanho. Penso que, no primeiro momento, tenham ficado frustrados ante o meu recuo. Eles não podiam perceber as alterações no meu batimento cardíaco, os sentidos à flor da pele, e a convulsão que se passava nos embates entre os sonhos, a imaginação e a visão do que se abria à minha frente, anunciado como "presente para mim". Passado o embate, cerca de um mês depois, eu já circulava pelos campos levando minha companheira em passeio.

Coisa parecida ocorreu, novamente, no começo deste mês de setembro, quando fui surpreendida por um encontro marcadamente especial na beleza e no afeto. Estar ao abrigo de Lutiere, Taísa e Gabriel, em Santa Maria, foi um privilégio. Lutiere e Taísa me perdoarão, mas o lugar de honra nesse espaço afetivo é do Gabriel, sem dúvidas. No dia da partida, Lutiere presenteou-me com uma embalagem dentro da qual, descreveu-me, havia dois desenhos assinados por ele: um retrato do Gabriel, para mim, e outro desenho para Carla, querida amiga em comum. A embalagem fora feita com tamanho cuidado, que se assemelhava a um casulo. Agradeci o acolhimento, o presente, e parti, trazendo o volume, sem saber muito ao certo como me portar com ele, certa de que ali pulsava sensibilidade.

Chegada à minha residência, acomodei o casulo entre objetos de valor, e adiei qualquer ação a ser feita em relação a ele. Algum tempo depois, justifiquei-me com a decisão de só abri-lo em companhia da Carla, conquanto seu conteúdo também se destinasse a ela. 

Quase um mês transcorrido, finalmente, rompi as cascas sobrepostas, para revelar o conteúdo daquela estrutura casular, ante os olhos ansiosos de Carla, que tomou posse do seu desenho, cujos traços ela já conhecia por meio de fotografia. E eu me comovi, mais uma vez, ante a visão das feições do meu pequeno amigo Gabriel, abraçado ao seu gatinho. Também ante a visão de traços ao mesmo tempo delicados e fortes, marcados e sutis, explodindo cores e texturas, latejantes. O artista e o pai, entrelaçados num só, transpiram em cada centímetro quadrado do desenho. E eu transbordo de gratidão e afeto sendo destinatária desse mimo.

Hoje pela manhã, fui despertada por revoadas barulhentas de maritacas. Manhã alegre, cheia de vida. Que o seu domingo seja assim, também.


Retrato de Gabriel (detalhe). Desenho de Lutiere Dalla Valle. 




domingo, 21 de setembro de 2014

Encontro Amistoso


Encontro Amistoso

Com a Primavera chegando,
Os corações fortes pulsando
Tomei a minha real decisão: 
Marcar um Encontro Amistoso
Com sorrisos felizes, generosos,
E muita alegria no coração.

Vamos aproveitar a oportunidade,
Dar vez à nossa felicidade
Para que possa se expandir;
Sermos felizes aqui e agora
Sem deixar para outra hora,
Confiando em um melhor porvir.

Com os perfumes das flores no ar,
Pássaros felizes a cantar
Reforça-nos a fé e a esperança.
Oh! Amigos bondosos e queridos,
Vamos todos aqui unidos
Curtir as melhores lembranças.

Abraços com amor, carinho, gratidão
E beijos em cada coração.

Feliz felicidade a todos.

Alice Vieira Martins
Brasília (DF), 20/09/2014





quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Terceira nota sobre fronteiras

p/ Camila, Carla, Juan


Neste segundo semestre letivo de 2014, acabei lançando-me a uma ventura cuja intensidade não poderia antever. Neste período, sou responsável por duas disciplinas obrigatórias no curso de Artes Visuais – Licenciatura: Pedagogias de Fronteira, e Arte e Educação Especial.

Apesar de serem duas turmas distintas, com estudantes em diferentes etapas da formação (um grupo ingressou em 2014, o outro em 2012), há uma continuidade entre ambas, e as temáticas abordadas têm nos levado a territórios de dores, tensões, sensibilidades, humanidades...

Pensar, juntos, sobre fronteiras, limites, superação, trânsitos, exercícios radicais de alteridade, faz de nós pessoas melhores. Assim seja!


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

El gesto de filmar (fragmentos)


Menos banal, aunque igualmente significativa, es la comparación entre supermercados y cines. Unos y otros son basílicas del tipo del Panteón de Roma, y responden a la doble función de la basílica como mercado cubierto (supermercado) y de la iglesia (cine). (p. 117-118)

(...)

Hoy existen dos planos históricos: el cuatridimensional de la vida diaria y el tridimensional de las basílicas cartesianas. Un complicado feedback conecta esos dos planos; pero la tendencia trata de anteponer el plano tridimensional – como trompre-l’oeil que es – al plano cuatridimensional, con el que se choca y que ofrece una resistencia.

No se excluye que no futuro la historia, existencialmente significativa, se desarrolle ante los ojos de los espectadores sobre paredes y pantallas de televisión, y no en el espacio del tiempo. Eso sería realmente una posthistoria. Por eso el filme es “el arte” de nuestro tiempo, y el gesto fílmico del “hombre nuevo”, un ser que desde luego no nos resulta incondicionalmente simpático. (p. 122)

(Vilém Flusser. Los gestos. Barcelona, Editorial Herder, 1994)






segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A miséria do mundo - fragmento


Espera-se, assim, produzir dois efeitos: mostrar que os lugares ditos "difíceis" (como hoje o conjunto habitacional ou a escola) são, primeiramente, difíceis de escrever e de pensar e que é preciso substituir as imagens simplistas e unilaterais (aquelas que a imprensa sobretudo veicula), por uma representação complexa e múltipla, fundada na expressão das mesmas realidades em discursos diferentes, às vezes inconciliáveis; e, à maneira de romancistas como Faulkner, Joyce ou Virgínia Woolf, abandonar o ponto de vista único, central, dominante, em suma, quase divino, no qual se situa geralmente o observador e também seu leitor (ao menos enquanto ele não estiver concernido), em proveito da pluralidade de suas perspectivas correspondendo à pluralidade dos pontos de vista coexistentes e às vezes diretamente concorrentes.

Esse perspectivismo nada tem de um relativismo subjetivista, que conduziria a uma forma de cinismo ou de niilismo. Ele está realmente fundado na própria realidade do mundo social e contribui para explicar grande parte do que acontece neste mundo, e, em particular, inumeráveis sofrimentos oriundos do choque de interesses (...).


A miséria do mundo. Pierre Bourdieu (coord.) 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012. páginas 11-12.



sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ciência, política, a vocação e o apagão




No início do século XX, Max Weber escreveu um pequeno e instigante livro que, em português, se chama Ciência e política: duas vocações. Na primeira parte, Ciência como vocação, o autor defende, veementemente, a necessidade de se manter o trabalho científico – do qual a docência faz parte – preservado dos arroubos do ativismo político. Na segunda parte, Política como vocação, ele ressalta a necessidade, sim, de que se façam intervenções na sociedade, no sentido de promover sua transformação, mas destaca ser esse o papel do político, e não do cientista. Dito de outra forma, ao cientista cabe a tarefa de observar, analisar, compreender, interpretar, conhecer, de modo isento, sem imiscuir-se com bandeiras, crenças, ideologias. A intervenção deve ficar ao cargo do político, e que este, preferencialmente, busque estar embasado no conhecimento produzido pelo cientista.

Weber advertia, inclusive, que a cátedra deveria ser preservada de qualquer discurso de natureza política. A cátedra é o espaço vocacionado ao conhecimento. A política deve ser exercida no palanque dos comícios, nos congressos, nas casas de negociações do poder.

Quando o texto foi escrito, o mundo já experimentara os horrores da Primeira Guerra Mundial. Já experimentara, também, o sabor amargo da constatação de que, mesmo quando à revelia do cientista, o conhecimento científico e seus produtos não podem ser mantidos isentos da política, nem do exercício do poder, seja o econômico, seja o bélico – irmãos siameses esses dois poderes, afinal. Mas não experimentara, ainda, os estertores da Segunda Guerra, o limite da bomba atômica, quando essa aprendizagem seria definitiva.

As discussões a respeito da neutralidade ou não do conhecimento científico geram debates intensos ainda hoje, século XXI adentro. Há bandeiras que defendam uma ciência confessadamente engajada. Outras discorrem sobre a impossibilidade de se produzir conhecimento neutro, apresentando argumentos fundados em experiências históricas recentes. E há os que cultivem, ainda, a crença na isenção da ciência, distanciada das disputas de poder, econômicas, das estruturas hierárquicas.

Todo conhecimento tem as marcas do seu tempo, as marcas do contexto sociocultural no qual é produzido, e está contaminado pelas posições e escolhas do cientista que o produza. Mesmo no âmbito das ciências duras, em cujos campos o objeto de conhecimento parece ter autonomia em relação ao sujeito que o investigue, mesmo ali, o conhecimento produzido (que é diferente do objeto a respeito do qual o conhecimento versa) é portador de tais marcas.

Ou seja, não há conhecimento isento. Há fendas nas fronteiras dos campos nos quais a ciência é articulada, e por essas fendas, tanto entram elementos externos, quanto o conhecimento vaza para outros campos. Contudo, mesmo reconhecendo a porosidade das fronteiras, e o entrelaçamento dos campos, é preciso exercer o esforço no sentido de preservação das especificidades de cada um. Sobretudo, não se perca de vista que o conhecimento produzido a serviço de determinados projetos de poder, ou econômicos, ou políticos, é ferramenta de opressão, dominação, é antônimo de qualquer princípio democrático.

Para avançar nesta questão, é preciso fazer a ressalva a respeito da diferença, fundante, entre política como exercício de cidadania de um lado, e política partidária de outro. Quando tomadas de posição, no âmbito científico, possam ser entendidas como posicionamentos políticos, é indispensável resguardar essa potencialidade da sanha das políticas partidárias.

Na noite de 28 de agosto de 2014, quando a SBPC/Goiás promoveu a solenidade de entrega do 1º Prêmio de Popularização da Ciência, ocorreram dois fatos que evocaram esta reflexão. Realizada em pleno período de campanha eleitoral para cargos estaduais e federais, foi aberto espaço para alguns candidatos se manifestarem, em discursos que tratavam de suas bandeiras e do lugar da ciência em seus planos de trabalho. O concurso promovido dela SBPC/Goiás, cujo mérito é indiscutível, e cujos resultados têm um teor político cidadão, ao visar a popularização da ciência, imiscuiu-se, naquele palco, com as bandeiras partidárias, conclamando eleitores a confiarem votos neste ou naquele candidato.

Curiosamente, durante o primeiro discurso político-partidário, ocorreu uma queda de energia, que atingiu apenas a ala da qual o auditório da solenidade tomava parte. Sem disponibilidade de outro espaço ao momento, e sem a possibilidade de solução do problema que ocasionara o apagão, decidiu-se continuar a solenidade às escuras, com o auxílio das luzes dos aparelhos telefônicos – os candeeiros do século XXI. Dessa forma, a cerimônia teve prosseguimento, cumprindo o protocolo plenamente: entrega dos prêmios alternada com discursos de candidatos. Tudo às escuras. Do lado de fora do auditório, a luz correspondia ao calor em intensidade. À maneira da alegoria da caverna, descrita por Platão...

Foi inevitável pensar em Agamben, quando aborda o contemporâneo:

(...) contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para perceber não as luzes, mas o escuro. (...) o contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interprelá-lo, algo que, mais do que todas as luzes, se volta diretamente e singularmente para ele. Contemporâneo é aquele que recebe em plena face o feixe de treva que provém de seu tempo.
Giorgio Agamben. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009.

Na solenidade de ontem, as sombras presidiram a associação entre ciência e política partidária. O que podemos aprender com isso?