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sábado, 31 de janeiro de 2015

Semana p'rá lá de intensa



Sábado e domingo, no set com Martins Muniz e a trupe do Sistema CooperAção Amigos do Cinema. Depois de tantos anos, volto a atuar, dirigida por esse brincante contador de histórias, um fazedor de cinema, com o passo trôpego, o gesto travado, os dedos faltantes, e a alma absolutamente inquieta. Silêncio! Gravando! Cenário do trabalho: Catedral das Artes, construção ímpar do artista ímpar Noé Luiz da Mota.
Na Catedral das Artes, uma nota de rodapé para a figura absolutamente outsider do João da Estrada, o andarilho, e tudo quanto sua aparição tenha provocado de inquietações e perguntas sobre as estradas, todas, que vamos seguindo...

Terça feira, aniversário da minha madrinha, com programação para o dia todo. Começando por um passeio (com direito a mergulho) até a Água Mineral, aonde eu não ia desde há coisa de quase 20 anos...

Quarta feira, encaminhamento de inscrição de trabalho para evento internacional. O exercício me fez repassar, na memória, muitos dados, imagens, situações, sonhos, utopias. Acordes que ganham novas afinações.

Quinta feira, reunião importante para decidir rumos do projeto de pesquisa. Decisões importantes. É preciso assumir certos encaminhamentos mais pesados para trilhar, de fato, o caminho da pesquisa e da produção de conhecimento.
Quinta feira, aprovação da minha orientanda no concurso para professor efetivo numa universidade federal. Agora, não é mais minha aluna, nem orientanda: é minha colega.

Sexta feira, até a madrugada do sábado, escrita a quatro mãos de um capítulo do romance coletivo a ser publicado pelo Instituto Memória. Título do nosso capítulo: “... Não aprendi a dizer adeus...” Nos divertimos com o resultado!

Sábado, depois de quase três anos de busca, reencontramos Seu Zagati, falamos com ele ao telefone. Por que amigos não se perdem uns dos outros, mesmo quando pouco se vejam...


Cara, isso tudo, assim, na pauleira, sem tempo para recreio! Sinceramente? Eu acho é bom, mas bicho, give me a time! Eu preciso de tempo p’rá assimilar tanta informação, tanto susto, tamanha intensidade a cada dia! É muita coisa de uma vez só!

A propósito, alguém aí disse que eu ainda estou em férias?... Quem foi?








domingo, 25 de janeiro de 2015

O (descom)passo de um relógio analógico movido a bateria



Às 18h10, o relógio analógico marca 3h15. Poderiam ser 15h15. As baterias foram trocadas recentemente. Alimentam normalmente seu movimento e trabalho. E por mais que se acerte o passo de seus ponteiros com os demais relógios da casa, não tarda para que eles tenham alterado o ritmo, e marquem horários outros.

E eu me pergunto: que tempo de que lugar este relógio se pôs a marcar?

Ficou decidido: não mais tentaremos forçá-lo a marcar as horas deste planeta, neste fuso horário. Um dia, quem sabe, eu descubra as coordenadas geográficas (ou extraplanetárias, sabe-se lá...) de acordo com as quais ele, de um tempo para cá, passou a funcionar...






sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Castelo, o fosso, o tesouro e os piratas



Na torre mais alta do castelo sobre a colina, foi guardado um tesouro feito com bananas, canela e passas de uva.
Na torre mais alta do castelo, o bolo repousou gostosuras...


O perfume estendeu-se da torre até as diversas formas de vida à volta: grandes, pequenas e muito pequenas, mamíferos e insetos...
O perfume do tesouro despertou apetites...


Mas, na parte de baixo da torre do castelo, havia um fosso com água e crocodilos imensos, e sem pontes levadiças. 



O fosso foi construído estrategicamente por gigantes gulosos, para proteger o tesouro dos pequeninos piratas, muitos, que percorrem as cercanias, buscando doçuras...









sábado, 21 de dezembro de 2013

Razões para evitar fazer compras no Empório Casarão...


Para aqueles que não conhecem Goiânia, ou não andam pelas bandas do Setor Aeroporto, o Empório Casarão oferece um cardápio apetitoso de itens culinários, desde verdes e frescas alfaces, passando por uma padaria com itens surpreendentes, temperos secos perfumados, vinhos e vinagres deliciosos, macarrões japoneses, a doces cortados em fatia capazes de encher a boca de água ao primeiro olhar, por exemplo. Como vem revestido por uma embalagem ao estilo boutique, cada tópico, em geral, aparece bem mais caro, chegando a alcançar o dobro do preço – ou até mais – em relação aos supermercados próximos, ou às feiras livres. No entanto, há alguns produtos que ali são vendidos quase com exclusividade, como é o caso da batata yakon – dificilmente encontro em outros lugares – ou do radiche roxo.

Há algum tempo deixei de frequentar regularmente o Empório Casarão. Já havia me queixado a respeito de muitas frutas estragadas em meio às sadias, e das batatas yakon em mau estado de conservação. Queixas que, embora tenham sido ouvidas pelo gerente, não tiveram encaminhamento de solução. Mas minha decisão de evitar o retorno teve por marco mais forte quando, tendo comprado um pão integral com nozes, em casa constatei se tratar de pão velho, ressecado, com odor ligeiramente azedo. Considerando todo o contexto, cheguei à conclusão de que, como consumidora, não preciso desperdiçar meu tempo, meu humor, e minhas economias naquele estabelecimento.

Depois de um bom tempo, hoje retornei. Senti falta das batatas yakon, e também de um galho de erva doce para a salada. Fui lá, verificar como estavam os produtos. Encontrei-os, em bom estado. Reencontrei, também, o empório, como de sempre. Havia me esquecido do outro item, obrigatório, que me empurra para longe: a falta de educação da elite, de parte significativa daqueles que têm condições de pagar pelos itens caros. Falta de educação que se potencializa às vésperas das festas de fim de ano.

Observo seus comportamentos, e enojo-me. Não posso ser injusta: não são todos. Mas a falta de educação prevalece. Esses, os mal educados, agem como se todos os demais tivessem obrigação de servi-los, porquanto paguem a conta. E embora arquem com os custos de item caros, não são generosos, ao contrário. Vão deixando carros abarrotados em lugares de trânsito. Empurram os demais, acreditando-se eleitos para passar à frente. Desde pontos de vista superiores, olham com má vontade os demais mortais, medindo-os a partir de supostos poderes aquisitivos diferenciados. Por sua vez, os funcionários, embora solícitos (porque sob o olhar da gerência), deixam transparecer a marca de um certo desprezo pela clientela. Demonstram uma ansiedade, parecem querer livrar-se logo daquilo tudo.

Resumindo: sobram delícias, sobram preços caros, faltam gentileza e generosidade. Por vezes, há batatas yakon em bom estado. E galhos verdes de erva doce. Nesses casos, posso levar os dois itens comigo, com o que preparo um suco refrescante, ou uma salada crocante. Estão servidos?



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Escadas rolantes


Enquanto esperávamos, nos sentamos num dos bancos dispostos numa espécie de jardim interno, e ficamos ali conversando. À nossa frente, as escadas rolantes conduziam as pessoas do térreo à plataforma superior, e também as traziam de lá. Minha mãe ficou absorta observando as pessoas subindo e descendo. Até o momento quando decidiu verbalizar o que andou pensando durante esses minutos.

Penso que eu não gostaria de ser uma escada rolante... para ser pisada por tanta gente feia?!

Que sina!...




domingo, 1 de setembro de 2013

Pausa...




As pausas são como goles de água fresca, lufadas de oxigênio, pancada de chuva num dia seco e calorento.



terça-feira, 13 de agosto de 2013

a vida? é bonita, é bonita!


- E a vida, meu querido? Tirando o que não está bom, sobra alguma coisa?
- Sobra! Sobra memória, e trabalho! (sorri) Memória e trabalho é bom, não é?

Conversa dessas de alentar a alma, com meu amigo Chiquinho.



sábado, 26 de janeiro de 2013

A rainha do botequim

Para D. Alice, minha mãe,
 que me ensina sobre o bem viver a cada dia.


Quando cheguei ao seu prédio, havia um recado na portaria, que lhe deixara o dono do bar mais próximo, na comercial. Ele queria saber o preço de seu livro de poesias, para vendê-lo, no bar. Havia, já, vários interessados, mas ele estava segurando o livro, no aguardo da confirmação do preço. Ela ficou aflita: “Tem gente que quer o livro, e ele está perdendo de vender!...”

No início da tarde, fui com ela ao bar, para resolver o caso. Há alguns dias, ela deixara, ali, alguns exemplares do último livro de poesias lançado, Do rascunho ao livro... do livro aos corações. Quando nos aproximamos, alguns boêmios, que se lançavam já às aventuras do sábado festivo, acenaram para ela, desde suas mesas, chamando-a pelo nome. Acolhida calorosa. Ela aproximou-se do balcão, onde bêbados e sóbrios lhe fizeram festa. E ela, com seus cabelos de prata, o gesto entre acanhado e faceiro, distribuindo, sorrisos, abraços, comentários, perguntando pelas famílias, contava que estava bem.

Conversou com o dono do bar, também com familiaridade e afeto. Combinaram o preço. Vários dos presentes já aguardavam a informação para comprar o livro. Demoramos a sair dali, até despedir-se de cada um, com um voto, um comentário, um afago. Ouvi várias observações que reiteravam a admiração de todos em relação a ela.

Fomos voltando, devagar. Ela confessou que não sabia o nome de todos. E sorriu: “Eles devem me conhecer por causa do livro...” Discordo. Eles conhecem o livro, por causa dela. Sem qualquer demérito aos seus escritos. Ao contrário.



domingo, 6 de janeiro de 2013

A Bruxa e a Jornalista


Às Madame Mims que ainda resistem, por aí,
 preservando suas singularidades.

Já faz muito tempo, chegou-me às mãos uma história em quadrinhos que me instigou a pensar muitas coisas sobre a cultura urbana, a sociedade do espetáculo, a lógica do mercado. Já não sei onde foi parar a revistinha, também não saberia ser fiel à história original. Por isso a reinvento, realçando certas cores e urdindo traços que me ajudem a aproximá-la mais das minhas questões e perguntas. Que se me permitam tais liberdades. A história trata de um conjunto de eventos desencadeados a partir do encontro entre duas personagens cujos mundos são muito distintos: a Bruxa e a Jornalista.

A Bruxa era uma velhota que vivia quase isolada numa floresta, ocupada com suas plantas, seus animais e as fórmulas secretas de suas bruxarias. A vida era boa e seguia sem maiores sustos - além daqueles resultantes de alguma poção com efeito indesejado. Até o dia em que a Jornalista, integrando um tour de ecoturismo, perdeu-se do seu grupo e dos guias, embrenhando-se na mata. Depois de muito tempo tentando encontrar o caminho de volta, saiu no quintal da Bruxa.

Como primeira reação, a Jornalista animou-se por ter encontrado alguém em meio à selva. Sentiu-se a salvo. Em seguida, foi tomada por um certo déjà vu, talvez sentindo-se a própria Maria, desta vez desacompanhada do parceiro João, chegando a uma estranha casinha (embora não fosse feita de doces...) habitada por uma ainda mais estranha criatura. Quase sentiu medo. Afinal, ali, sem maiores contatos sociais, a Bruxa não se preocupava muito com a aparência: os cabelos quase grisalhos despenteados, a blusa muito solta por fora da saia, a saia muito larga de tecido escuro surrado pendia até o chão, e as chinelas batendo-se contra o piso iam conversando uma com a outra pec-pepec-pec-pepec-pec-pepec às passadas irregulares dos pés que as calçavam. Um gato, uma coruja, um sapo, e outros animais pouco habituais para os habitantes da cidade compartilhavam o espaço com ela.

A Bruxa também não gostou nada da novidade, tão logo descobriu a visitante nas redondezas. Não deixou dúvidas quanto ao desagrado: declarou que se fosse dali! Mas a moça não podia, pois não sabia como ir embora. Pediu para ficar só um pouquinho, enquanto retomasse o fôlego, bebesse um gole de água. Pediu, também, que ensinasse a saída daquele labirinto verde que lhe afigurava a floresta.

Fazer o que? A moça ficou, um pouco. E demorou-se pouco mais, e foi delongando a estadia, só mais um pouquinho, à medida em que ia descobrindo, com fascinação, o quão interessante era a Bruxa, e o quanto esse achado poderia lhe render bons frutos.

Aqui vale uma pausa para algumas observações. Chama-me a atenção a sofreguidão com que buscamos a novidade, o singular, o desconhecido, tomando tais referências como a saída para a mesmice, o rotineiro. Novidade como remédio para a rotina: a primeira, mercadoria buscada por consumidores em vias de se entediar a cada instante; a segunda, a ameaça que ronda os dias, temida por consumidores aflitos, pressionados a mostrar imagens novas, a relatar a última sensação impressionante, ou registrar a mais recente constatação transformadora de seu modo de ser e estar no mundo... Mas a corrida em busca da novidade, do diferente, está também entre os produtores culturais, entre aqueles que assumem os papéis de cientistas e intelectuais, capazes de produzir interpretações sofisticadas sobre sua realidade... Como se já tivéssemos compreendido o bastante o que nos cerca, como se já nos conhecêssemos o suficiente, e às paisagens familiares aos nossos quotidianos... Puis...

A Jornalista entendeu estar diante de uma pessoa cujo estilo, cujos afazeres, cujo modo de vida eram desconhecidos das gentes da cidade. Anunciá-la no contexto urbano poderia lhe render boas matérias. A mais, ela faria a gentileza de dar visibilidade à Bruxa, trazendo-a ao contato com milhares de pessoas, que poderiam conhecê-la, aprender com ela. O desconforto inicial sentido pela velha senhora foi dando lugar à curiosidade sobre como seria a cidade, como seriam seus habitantes. E também à vaidade por ter seu mundo reconhecido por alguém que vinha de longe, que conhecia outros lugares, e tinha parâmetros para separar as coisas relevantes das coisas não relevantes. Baixou a guarda. Mostrou algumas poções. Explicou as funções de algumas plantas, os movimentos das estações, as relações com os animais. A jornalista anotou tudo, sem perder qualquer detalhe. Embora não se arvorasse a produzir relatórios científicos, mas textos jornalísticos, realizou o que muitos pesquisadores chamariam de etnografia intensiva.

Ao final de alguns dias, seguiu de volta para a cidade, portando dados aos quais ninguém antes dela tivera acesso. Escreveu matérias, explicou o que vira, despertou a curiosidade dos leitores que desejaram conhecer a Bruxa pessoalmente. Então ela retornou à floresta, aprendido já o caminho, e convidou a estranha senhora a participar de programas de entrevista, a serem veiculados em canais abertos e fechados de televisão, circuitos de internet, além das matérias a serem veiculadas em jornais e revistas. Curiosa com o que se descortinava à sua frente, a Bruxa cuidou das plantas, apagou o fogo, fechou o bocal do poço, cerrou janelas e portas de sua pequena casa, e afastou-se dali - coisa que nunca fizera antes - levada pela Jornalista.

Tudo aconteceu muito rapidamente: a Bruxa tornou-se o assunto principal entre as pessoas, teve seu rosto estampado na capa de revistas, programas discutiam suas receitas no uso de plantas, estilistas produziram coleções inspiradas em seu desapego ao fútil. Ela passou a ser chamada a falar em programas ao vivo, em redes de televisão, tratando de questões sobre o amor, relacionamentos, saúde, autoajuda, nova era, meio ambiente, autossustentabilidade, comportamento, consumidores compulsivos... É claro que ela nunca tinha muito tempo para falar, logo era interrompida pelos apresentadores, que passavam a palavra para o auditório mais animado, ou algum repórter de plantão que tivesse uma informação de última hora para acrescentar à discussão.

A Bruxa era conhecida nas ruas. Alegrava-se cumprimentando os passantes, que se dirigiam a ela como velhos amigos, parentela extraviada, quem sabe? Como ela não tivera, antes, a oportunidade de conhecer aquelas gentes tão acolhedoras? Quanto tempo perdido!

Mas houve quem não tivesse gostado daquela história toda: a diretoria da Associação Internacional das Bruxas, que acionou a Comissão de Ética e convocou a Bruxa a uma reunião de caráter extraordinário. Ela então voltou à floresta, para se explicar sobre as aventuras dos últimos tempos. No entanto, as explicações dadas não foram suficientes para entusiasmar, muito menos para convencer a congregação sobre sua conduta, pois aqueles segredos jamais poderiam ter sido trazidos a público. Apesar de alguns cuidados tomados por ela na seleção dos itens divulgados - apenas receitas ingênuas e de pouca expressão na cultura bruxesca - a sentença foi unânime: suspensa, durante um ano, de suas atividades, ficou proibida de fabricar qualquer poção, fazer qualquer feitiço, rogar qualquer praga, usar qualquer ferramenta de mágica, usar qualquer vegetal ou animal com poderes especiais. Ao final do período estipulado, deveria se apresentar, novamente, à Comissão de Ética, para ser reconduzida às suas funções.

No fundo, no fundo, a Bruxa não ficou chateada. Ela pensou que poderia viver muito bem, durante esse ano, entre as pessoas que a admiravam, queriam saber sua opinião, e imitavam sua forma de se vestir, falar, explicar o mundo. Ao final do castigo, retomaria sua vidinha na floresta, com seus animais, plantas e poções. Sem reclamar, acatou a sentença, e voltou para a cidade, ansiosa por reencontrar seus fãs.

Chegando, começou a cumprimentar os passantes, que a olharam de modo estranho, sem corresponder ao seu entusiasmo. Então ela notou que já ninguém usava roupas parecidas com as dela. O que ocorrera durante os dias em que estivera fora? Na banca, outros rostos estavam estampados nas capas das revistas e nos jornais. Sem compreender, perguntou ao jornaleiro porque parecia que todos se haviam esquecido dela. Ouviu a confirmação: não parecia, de fato todos se haviam esquecido dela, pois estavam ocupados com a mais última novidade. Ele mostrou a foto de uma jovem que usava uma panela na cabeça. Só então a Bruxa olhou à volta e percebeu que muitos passantes levavam panelas na cabeça. Umas grandes, outras mais justas, umas de metal brilhante, outras de metal fosco. Tinha até umas coloridas.

Que maçada!

O que tinha passado desapercebido à Bruxa era um traço fundante no comportamento das pessoas às quais ela fora apresentada: a atração pela novidade se acaba tão logo o item disponibilizado é devorado com frenesi. Aos glutões, cujo paladar logo se entedia do prato oferecido, são trazidas as próximas novidades, e as seguintes, e outras mais, ao infinito. Àquelas alturas, a jornalista, promovida pelo último belo achado - a própria Bruxa - , muito provavelmente já estaria em outras paragens, à caça de outras figuras exóticas, para ampliar seu currículo.

Por sua vez, à Bruxa, banida por um ano do convívio com a comunidade das bruxas e já esquecida pelo seu fiel público citadino, não restou outra opção que não a de providenciar uma panela, metê-la na cabeça, e perder-se em meio à multidão que transita pelas ruas. Seguiu, anônima, destituída daquilo que fazia dela singular, buscando caminhos para reencontrar modos próprios de ser e estar no mundo.

Os labirintos da cidade lhe pareceram muito mais difíceis de serem percorridos e reconhecidos que os labirintos da floresta...



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

o irmão extraviado


O menino dormia no banco de trás do carro quando o irmão desembarcou em frente ao clube onde treinaria com seu time de futebol até o final da tarde. Só acordou alguns quilômetros adiante, já em frente de casa, enquanto a mãe manobrava o carro para estacionar na garagem. Ainda meio zonzo, o menino olhou à sua volta. E então decidiu manifestar-se, de modo veemente:
- Mamãe, você me decepcionou!
- Por que, meu filho?
- Você perdeu meu irmão no caminho!



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

um pequeno funeral



Continuo observando o casal de quero-queros. Não chega a ser uma observação sistemática, mas tem alguma regularidade. E por isso mesmo, já pude testemunhar momentos inusitados na vida das duas criaturinhas.

Da última ninhada, nasceram 3 filhotes. Mal nasceram, e andavam correndo pelo asfalto do estacionamento. Quase fiquei aflita com a visão. Já no dia seguinte, as crias estavam subtraídas em um. Os outros dois andaram, por vários dias, correndo entre a grama: pequenas bolinhas de penugem equilibrando-se sobre pernas muito longas e ágeis. Mas logo encontrei apenas um ainda vivo - era o mais forte, mais resistente. O pequeno sobreviveu a um evento, na universidade, que ocupou todo o estacionamento ao lado de onde eles vivem. Resistiu à chuvarada, e ao calor. Suas penugens estavam já mais escurecidas, e cheguei a pensar que ele conseguiria atravessar o período mais crítico para os filhotes, e colocar-se adolescente. Enganei-me.

Ontem, no final da tarde, presenciei cena que me comoveu. Próxima ao poste de luz, a fêmea emitia sons que chamavam o pintinho, e andava em círculos, com as penas um pouco arrepiadas. Inicialmente, não pude ver o filhote. Mas ouvi-lhe o piado muito fraco, agudo, como gemidos quase sussurrados. Então avistei, entre a grama, o pequeno corpo vacilante, já sem conseguir se por em pé. A cabeça mal erguia-se, no piado, e o bichinho sumia, caído no chão. O macho voava a pequena distância, em fúria, afastando qualquer outra ave que se aproximasse - pombos, almas de gato, bem te vis - exceto as vizinhas corujas buraqueiras, testemunhas instaladas em seus observatórios. Algumas vezes, a fêmea deitou-se sobre a cria, pipilando para ela, chamando para si a fagulha de vida que ainda parecia queimar, ali.

Hoje, pela manhã, encontrei os dois andando, ali perto do poste de luz. Piavam ainda como a chamar a cria. Estavam mais irritados do que de costume. À tarde, um deles bebia água numa possa distante, e o outro andava no extremo oposto ao gramado. Fui até as proximidades do poste, e pude ver o pequeno cadáver. Logo o casal percebeu-me. Ambos vieram em ataque em minha direção. Retirei-me, enquanto eles gritavam, nas cercanias do corpo. Depois, a fêmea emitiu um piado que eu ainda não ouvira, e ofereceu-se à cópula.

Não quero incorrer no equívoco de antropomorfizar o comportamento das aves. Não vou imaginar o sentimento de perda que pudesse ter se abatido sobre eles. Tampouco pensarei nas relações paternais e maternais com suas crias, os vínculos de afeto, etc., atribuindo-lhes alguma humanidade nos modos de instalar-se no mundo. O que a observação dessas aves em sua labuta tem me ensinado é que, na arrogância humana, interpretamos e atribuímos explicações às coisas do mundo, sem sequer nos darmos conta do que se passa ao nosso lado. Sem termos competência de compreender a exata dimensão de eventos fortes como esse, ali, ao alcance da vista e da mão, mas que me escapa: escapa como se escapa o último rebrilho de vida ao corpo do último filhote da ninhada mais recente daquele casal de quero-quero.

Toda vez que me ponho a observá-los, penso no mistério de sermos e estarmos aqui: nós, eles, e todas as demais formas de vida, sabidas (em bem menor número) e não sabidas (estas, em número não sabido, sequer imaginado...)



domingo, 21 de outubro de 2012

passeio por sabores...


paleta na composição do almoço de domingo:

salgado, adocicado, doce, azedo, picante, amargo, crocante, resistente, macio, cru, cozido, quente, frio...

salada crua de alface americana, alface roxa e radíche; salada crua de cenoura, rabanete e batata yakon; miolo de alcatra grelhado, temperado com alho e gengibre; purê de maçã; arroz com alho; conserva de jurubeba; suco de jabuticaba preparado em casa; café sertanejo.

que comece a semana!

Mixer orgânico no preparo do suco de jabuticaba caseiro.  Vai um gole aí?




domingo, 14 de outubro de 2012

Ode em fragmentos endereçada aos pés



Fragmento 1
Porque os nossos pés é a parte de nós quantas vezes esquecida, nem sempre cuidada, tão pouco acarinhada. No mais das vezes, os cuidados são formais, profissionais, a preço de mercado: pedicure, podólogos, sapateiro... As abordagens atendem a padrões: unhas pintadas, cutículas cortadas, sapatos da moda, massagens com os últimos equipamentos novidadeiros...

Fragmento 2
Mas é à intimidade que me refiro. Porque não há intimidade mais delicada do que o toque nos pés da pessoa amada. É como se, juntamente com os pés, todos os caminhos percorridos fossem acolhidos, e acarinhados: as dores, os sustos, os cheiros, as paisagens, as texturas ali impressas, por onde ficaram marcas das pegadas...

Fragmento 3
Quando galgo o mais alto mirante, os olhos se encantam com o que vêem, o coração pulsa forte bombeando sangue e emoção para todo o corpo, os braços se abrem em abraço à paisagem, o rosto se delicia com a brisa ou o sol... Ficam olvidados, quase sempre, os pés, que alavancaram cada passo rumo ao mais alto, e pouco usufruem do resultado do esforço... A menos que haja um veio d’água, e eles sejam os mensageiros primeiros do seu frescor experimentado em mergulho, e comunicado às outras partes do corpo.

Fragmento 4
Que nossos pés nos levem por caminhos que sempre deságuem em aprendizagens capazes de nos tornarem melhores do que somos.



terça-feira, 9 de outubro de 2012

... discutindo a relação...

para os que ainda não saibam, não há melhor lugar do que o suporte do ar condicionado, nem melhor horário do que o final da tarde, para se discutir a relação...






quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Memória de um gole de cerveja



Certas impressões sensoriais deixaram marcas tão fundas nos sentidos, que muito tempo depois, por vezes, inesperadamente, sou tomada de assalto pela impressão deixada por alguma lufada de vento, uma sonoridade, o gole de alguma bebida, fixada nalgum momento perdido entre tantos que podem ser revisitados no amplo e concorrido labirinto da memória.

No final dos anos 70, eu era estudante secundarista. Minha turma, do Curso Técnico em Eletrônica, era formada majoritariamente por rapazes, numa proporção de, aproximadamente, seis meninos para cada menina. Naquele final de semana, eu participava de uma gincana, numa equipe que havíamos batizado de Samuca. Era uma referência carinhosa ao Samuel, membro da equipe, colega de classe, jogador de vôlei – chegou a integrar a seleção de Brasília durante algum tempo.

Durante todo o sábado, a equipe se desdobrou em várias, para cumprir todas as tarefas da melhor forma possível, e assim obter a pontuação máxima. Ao final do dia, estávamos exaustos, suados, em desalinho. Mas não muito, pois ainda encontramos energia para comemorar aos pulos a conquista do primeiro lugar. No início da noite, seguimos para uma pizzaria, onde mataríamos a sede e a fome, comentando os vários momentos do dia, as dificuldades e correrias pelas quais teríamos passado. E riríamos com a felicidade solta dos que conquistaram a vitória.

Acompanhando a maioria, pedi uma cerveja, enquanto esperávamos as duas pizzas gigantes que seriam servidas ao palitinho. Quando bebi o primeiro gole, senti seu frescor ligeiramente amargo e borbulhante. Fui sorvendo o líquido devagar, até a metade da taça. Aquela não foi minha primeira cerveja. Tampouco seria a última. No entanto, por certo não voltei a experimentar o mesmo prazer tomando dessa bebida, em qualquer outro momento depois dali.

Hoje, dia quente e seco de Primavera, busquei um pouco de água mineral gaseificada. Quando senti seu gosto, borbulhante e fresca, lembrei o gole daquela cerveja, há mais de três décadas atrás.

Um viva ao frescor! Ao frescor da idade, da cerveja, da água com gás!



domingo, 23 de setembro de 2012

Minha mãe na Parada Gay



Na antevéspera de seus 85 anos, domingo à tarde, minha mãe saiu a fazer sua caminhada. No percurso, encontrou os manifestantes da Parada Gay. Alegrou-se. Brincou, requebrou-se. Celebrou a alegria da diversidade. Foi retratada ao lado de gentes com quem, talvez, não volte a se encontrar. Conversou com muitas pessoas. Voltou para casa exultante.



sábado, 22 de setembro de 2012

Depois da chuva, o sabiá




Primeiro, veio a estiagem, longa, combinada com um calor quase insuportável.
Andávamos todos, ou queixosos, ou prudentemente silenciosos, economizando energia, observando os ventos, atentos aos primeiros sinais de uma possível aproximação das chuvas.
Então caíram os primeiros chuviscos. Poucos. Ligeiros. O que parecia ser alívio, logo findava, intensificando o calor com os vapores em que as pequenas gotas se transformavam.
Mas, naquela tarde, choveu mais, por mais tempo. Pequenos veios de água chegaram a serpentear na vidraça da janela. Ao final, a calçada e a grama guardavam poças de água, e o cheiro de umidade espalhava-se na tarde quase fresca.
Então ele veio. Pequenino, pousou sobre a viga, e cantou. Cantou forte e longamente. Seu trinado tomou a tarde, enquanto a luz ganhava um tom doce, mais amarelo, e lufadas de brisa fresca e úmida acalmavam os espíritos.