quarta-feira, 28 de novembro de 2012

conversas de vestiário


Eu já estava quase pronta para sair do vestiário.

Ela, meio sem jeito: queria lhe fazer uma pergunta.
Eu: sim?
Ela: como eu faço para fazer uma disciplina de mestrado como aluna especial?
Eu pensei: ufa! Eu falei: depende do Programa. Cada um adota uma sistemática para aluno especial. Você deve procurar o Programa que lhe interessa, e fazer a consulta.
Ela: é que eu não sou daqui, não conheço como funciona...
Eu: qual o curso que você quer?
Ela: enfermagem
Eu: então você deve ir até a secretaria do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, e perguntar a eles como funciona para ingressar como aluno especial, quando é a inscrição, etc.
Ela: eu queria mesmo era fazer a seleção para aluno regular. As inscrições são agora...
Eu: e por que não faz?
Ela: porque é muito difícil. A prova de inglês é a mais difícil...
Eu: deveria fazer, para ver como é. No máximo, você é aprovada...
Ela: é que é difícil...
Eu: como dizem meus alunos, o não você já tem, e ainda corre o risco de conseguir aprovação. Corra o risco.
Ela: mas eu queria era fazer primeiro como aluno especial.
Eu: você já foi até lá? Já fez a consulta?
Ela: não... eu mandei um e-mail para uma professora, mas ela não respondeu... faz tempo...
Eu: ... porque o que você tem a fazer é ir lá, conversar na secretaria do Programa...
Ela: mas eu quero é fazer a seleção para aluno regular. Mas meu inglês não dá. Eu vi a prova de uma seleção anterior, é muito difícil! Preciso estudar mais.
Eu: boa sorte.

Desejei bom fim de semana aos demais que estavam ali, tomando banho, penteando os cabelos molhados, passando cremes, calçando sapatos. Trouxe, na minha bagagem, a clara impressão de que ela, de fato, não queria a informação, menos ainda algum conselho meu. Talvez quisesse me informar de seu interesse. Talvez quisesse apenas conversar...



terça-feira, 27 de novembro de 2012

visitante noturna indesejada


Já ia adiantada a noite. Eu tinha espalhado documentos, textos, livros, no chão, tentando inventar alguma organização para eles, enquanto buscava uns trabalhos perdidos no caos. Estava cansada daquilo, com sono, pronta a abandonar a empreitada para descansar. Então avistei um inseto grande voando em torno da lâmpada. Pensei que fosse uma mariposa. Por um instante fiquei ali, olhando seu trajeto aéreo, fazendo um círculo. O que estaria fazendo ali, aquela mariposa, àquelas horas da noite?

As mariposa quando chega o frio
Fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá
Elas roda, roda, roda e dispois se senta
Em cima do prato da lâmpida prá descansá.


As mariposa, de Adoniran Barbosa.

Lembrei da palestra do Gilberto Prado falando sobre o projeto de arte e tecnologia do seu grupo de pesquisa, intitulado Desluz, cujo aparato trabalha com ondas infravermelhas, invisíveis aos olhos humanos, mas perceptíveis, por exemplo, para as mariposas.

Foi então que saí do breve encantamento, e dei-me conta de que não se tratava de uma mariposa, mas de uma barata voadora enorme, que pousou, de leve, um pouco acima da estante de livros, bem agarrada à parede, perto do teto. Senti-me indignada com a invasão. Entrara pela janela aberta, trazida pela lufada da brisa no calor noturno. Fechei a porta que dava acesso à parte íntima da casa. Procurei algum veneno para insetos, mas não encontrei. Anotei na lista de compras para a próxima ida ao supermercado. Peguei uma vassoura, um pé de chinelo, e uma embalagem para esborrifar álcool com cânfora (caso ela se encantonasse, poderia irritá-la, para sair a alguma área mais aberta). E fiquei ali, olhando fixamente para ela. E ela para mim. (No dia seguinte, ouvi da Alzira: ainda bem que ela não tinha nenhum spray para espirrar em você...).

Ficamos ali, paradas, na espreita uma da outra. Eu sabia que, ao menor movimento meu, ela desapareceria entre as milhares de páginas e folhas de papel bem ao alcance de suas patas ágeis. Enquanto permanecia ali, imóvel, lembrei-me de um artigo que li há algum tempo, no qual pesquisadores referiam a natureza sociável das baratas. Elas não saberiam viver isoladas, afirmavam, além do que teriam um sentido familiar muito forte. Além de demonstrarem grande sensibilidade ao ambiente. Quase senti simpatia por ela. Pensei, também, que, na próxima hecatombe, quando vier a última explosão nuclear capaz de eliminar a vida humana da face do planeta, restarão as baratas: elas! Talvez por isso eu experimente tamanha irritação quando de suas visitas indesejadas. Sobretudo quando a visita acontece em meio à noite, hora de meu descanso.

Olhei o relógio na parede. Já beirava a uma hora da manhã. E eu ali, parada, olhando para a barata que me vigiava também. Até quando eu ficaria ali? Decidi partir para o ataque, certa de que fracassaria. Mas resolvi arriscar as migalhas de chances que tinha de acertar uma vassourada nela, acima das prateleiras, rente aos livros e papéis e porta-retratos e outras quinquilharias. Nem esbocei o golpe, e ela deslizou para trás de tudo aquilo. Esborrifei o álcool com cânfora. Ela saiu de trás, fazendo uma meia lua, e desapareceu mais adiante da prateleira.

Desisti. Vedei o vão inferior da porta. Recolhi-me ao quarto, com alguma esperança de que ela não adentrasse ali. Precisava dormir. Amanhã compro veneno, pensei. 


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Lições do Mestre Ignorante

Este é o primeiro princípio do Ensino Universal: é preciso aprender qualquer coisa e a isso relacionar o resto. Para começar, é preciso aprender qualquer coisa.

Eis tudo o que está em Calipso: a potência da inteligência, que está presente em toda manifestação humana. Há desigualdade nas manifestações da inteligência, (...) mas não há hierarquia de capacidade intelectual. É a tomada de consciência dessa igualdade de natureza que se chama emancipação.

Pois se trata de ousar se aventurar.

O mestre ignorante fará menos e mais, ao mesmo tempo. Ele não verificará o que o aluno descobriu, verificará se ele buscou.

A ponte é passagem, mas também é a distância mantida.

Toda a prática do Ensino Universal se resume na questão: o que pensas disso?

O que embrutece o povo não é a falta de instrução, mas a crença na inferioridade de sua inteligência.

Tudo está em tudo. A tautologia da potência é também a da igualdade, que busca o dedo da inteligência em toda obra de homem.


Anotações do livro O mestre ignorante,
 capítulo A lição do ignorante, de Jacques Rancière.



sábado, 24 de novembro de 2012

canto do urutau


conta, minha mãe, como canta o urutau:

urutau, morreu teu pai
aaai, aaai, aaai, aaai

urutau, morreu tua mãe
ãããe, ãããe, ãããe, ãããe

urutau, morreu teu avô
ôôôô, ôôôô, ôôôô, ôôôô  

assim ele segue seu lamento.

fronteira






sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Que somos nós?

                                                                                      (Fernando Pessoa)

Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na 
                                                                            noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro
                                                                     e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.

                                                                                  Poesia completa de Álvaro de Campos              




quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Como vai, compadre?



O compadre chegou, de visita, e a comadre, minha amiga, lhe perguntou se estava tudo bem. Quem sim, ele respondeu, e seguiram conversando. Lá pelas tantas, ela retomou o assunto de querer saber se ele estava bem, e ouviu, novamente, a afirmativa. Na terceira vez que ela interpelou, insistindo na história de saber como andava o compadre, ele tomou uma decisão: - “Comadre, pois se eu lhe digo que estou bem, é porque não quero lhe ocupar com meus problemas. Mas, se a senhora insiste em perguntar, eu vou lhe responder que não estou bem, e vou lhe explicar porque não estou bem, e a senhora vai ter que me ouvir até o final, sem reclamar! Por isso eu acho melhor a senhora não me perguntar mais!

A comadre desconversou. E tudo continuou como se tudo estivesse bem.




sexta-feira, 16 de novembro de 2012

a tal pós-modernidade...

Foi numa aula de metodologia de pesquisa, na pós-graduação.

Eu havia conversado com os estudantes sobre a necessidade de contextualização dos conceitos com os quais trabalhemos. Observava que nenhuma categoria conceitual é neutra, ou espontânea, tampouco ingênua: sempre está em jogo uma tomada de posição, uma escolha, uma demarcação de campo a partir de certo ponto de vista.

Logo, tentava alertá-los, quando adotassem certas referências, soubessem ser necessário apresentá-las, argumentar sua escolha, situá-las, defender sua posição.

E exemplifiquei com o termo tão em moda: pós-modernidade. O uso corrente, no senso comum, faz parecer, quase sempre, que seja um termo consensual, em relação ao qual nada mais haja a ser discutido: está dado. O que é um equívoco. Naquele caso, não cobraria deles que adentrassem as searas das discussões relativas à pós-modernidade, hiper-modernidade, modernidade tardia, ou mesmo às questões postas por alguns autores a respeito da própria categoria de modernidade (o que, para muitos, é discussão inglória e infrutífera...). Mas defendi que, se tomassem o partido da pós-modernidade, o fizessem cientes de que, por trás dela, havia tensões e dissensões.

Notei que haviam ficado preocupados. No decorrer dos dias, comecei a receber os trabalhos finais da disciplina. Entre eles, encontrei a pérola: um dos estudantes, apoiado sempre na ideia de pós-modernidade, encontrou um modo mais fácil de se livrar da discussão, referindo-se, sempre, da seguinte maneira: "... a tal pós-modernidade". Ou seja, se havia tensões e dissensões relativas àquela categoria conceitual, ele não tinha responsabilidades com isso... 

Uma solução quase pós-moderna...


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

sábado, 10 de novembro de 2012

Uma das aventuras do Grupo de Teatro Ato Te Ato



Para meu querido Renato Cirino,
 que também tem história para contar,
e para todos quantos não tenham desistido de sonhar.

Em 1985, assumi o cargo de professor de artes numa escola da rede pública, na cidade satélite de Planaltina, distante um pouco mais que 50 km do Plano Piloto, no Distrito Federal. No início do ano seguinte, aluguei uma casa naquela cidade, e passei a morar na área mais antiga, onde ainda predominavam as construções de adobe. Preocupava-me em não me distanciar da efervescência do Plano Piloto, e impus-me a condição de jamais usar a distância como desculpa para não participar do quer que fosse: integrar elencos de espetáculo teatral, fazer aulas de dança, visitar exposições, acompanhar a programação nas salas de cinema.

No final de 1986, montei um grupo de teatro, o Ato Te Ato, formado por alunos do ensino médio. Era formado por cerca de 12 adolescentes, entre 14 e 17 anos. Muitas vezes, depois de dar aula o dia todo, no final da tarde me encontrava com o grupo para ensaiar, e depois seguia para o Plano Piloto para trabalhar com o grupo de teatro onde atuava como atriz, retornando a Planaltina já na madrugada, cochilando nos bancos dos ônibus urbanos, em viagens intermináveis.

Foi com esse grupo e num desses ônibus que sucedeu o episódio que relato aqui.

Em 1987, o Grupo de Teatro Ato Te Ato fez temporada num teatro no Plano Piloto, apresentando o espetáculo Estórias da Carochinha, com sucesso de público. O texto era debochado, bem ao espírito adolescente, desafiando personagens clássicas das histórias infantis, com referências políticas quase ingênuas, e críticas às relações de poder. Hoje, isso é muito comum. Mas nos anos 80, vivíamos ainda os estertores da ditadura militar, num cenário em ebulição. Naquele momento, nos valíamos das liberdades adolescentes para assinar as brincadeiras que, apesar de tudo, tiveram que ser submetidas à censura federal, com cortes no texto.

Depois da temporada oficial, fomos convidados a fazer uma apresentação na Sala Alberto Nepomuceno do Teatro Nacional, dentro da programação oficial pelo dia das crianças. Não tínhamos condução própria, de modo que os ônibus urbanos eram nosso transporte principal. Sempre dependíamos de carona para transportar a parte mais pesada do material de cena. Para aquela ocasião, acabamos tendo que levar só algumas peças indispensáveis no espetáculo, transportadas de ônibus: um dos meninos vestiu a grande chaleira, e saiu pelas ruas, divertindo-se com os passantes. Uma janela com flores foi levada por duas meninas, e os demais levávamos sacolas recheadas com figurinos e outros objetos menores.

Depois do espetáculo, com casa cheia, embarcamos novamente no ônibus, de volta para casa, cansados. A noite seguia, avançada. Acomodamo-nos no fundo do veículo, com chaleira, janela, flores, sacolas, e elenco de adolescentes ainda maquiados. Felizes, sacudindo sentados sobre o motor, comentávamos as cenas, os erros, as graças.

Subindo a serra, o velho ônibus, superlotado, quebrou, um pouco antes de Sobradinho. Tivemos que aguardar, na beira da estrada escura, pelo outro ônibus que nos viria resgatar. Preocupada, tentava manter os jovens atores e atrizes junto de mim. Muito tempo depois retomamos a viagem, mal acomodados no outro veículo. Não demorou, contudo, para que uma senhora desse o alarme: “Motorista, roubaram minha carteira!”. Instalou-se um falatório entre os passageiros, apinhados, agitados, cansados. Algum salafrário aproveitara-se da confusão para fazer o roubo. Ou então, ela própria teria perdido a carteira, entre descer e embarcar no ônibus, sem se dar conta. O fato é que se apresentava mais um atrapalho ao nosso maior desejo: chegar em casa! O motorista não se deu por rogado: “Ninguém desce, ninguém sobe neste ônibus! Vamos direto para a delegacia!”.

Passava já da uma hora da manhã, quando seguimos, a pé, da delegacia, o grupo de aventureiros do teatro, deixando cada qual em sua casa, até chegar, sozinha, à minha própria. O corpo, de tão cansado, não conseguia entregar-se ao sono. Alentei-me com a constatação de que chegava o final da semana, quando teria tempo para recuperar o fôlego, e quem sabe dispor-me a novos enredos de ação.

Alguém aí tem alguma história para contar também?



sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O Conceito de Pesquisa na Pesquisa em Artes – 1º International Journal of Arts – Brazil


No período de 19 a 23 de novembro de 2012, será realizado, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal, o evento O Conceito de Pesquisa na Pesquisa em Artes – 1º International Journal  of Arts – Brazil

Na oportunidade, estarão reunidos pesquisadores nacionais e internacionais, que atuam na área de Artes, o espaço cada vez mais singular que o Brasil ocupa no cenário internacional, e projetando a divulgação dos resultados das pesquisas que vêm sendo desenvolvidas sistematicamente.







da série alteridade

... nenhuma diferença é tão profunda 
a ponto de inviabilizar qualquer tipo de compartilhamento...
desde que se queira...








domingo, 4 de novembro de 2012

De quem é o olhar


                                                             Fernando Pessoa   


De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo?
(...) 



sexta-feira, 2 de novembro de 2012

tempos sempre renovados

para todas as mulheres que, como eu,
 inauguram tempos de menopausa.


A passagem do tempo propicia novas maneiras de estarmos no mundo, novas percepções, gestos, mediações.

A cada etapa, mudam os cenários, os objetos de cena, as marcações, as falas, as interlocuções. Ainda bem!

Nestes últimos dias, o calor excessivo tem sido assunto corrente entre as pessoas. No meu caso, e no caso da maior parte das mulheres de meia idade, o calor climático associa-se às ondas de calor que atravessam a corrente sanguínea, transbordando em gotículas de suor pelos poros, lembrando, a cada ciclo, que estamos vivas, pulsantes, e prontas para iniciar novas caminhadas!

O tempo que se renova traz para o meu convívio, entre os objetos de uso diário, esta nova e charmosa peça, capaz de colocar algum frescor ao alcance da mão.

Na década recém inaugurada, cerco-me de leques.
Abanicos, diria minha avó.
Que se renovem os tempos! E que sejam bons, os ventos!





quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Quem se importa com os quero-queros?



No ano passado, ao acaso, descobri um casal de quero-queros chocando uma ninhada. Quando me refiro ao casal chocando, é porque eles se revezam no cuidado da ninhada. E como não apresentam diferença biotípica entre o macho e a fêmea, considera-se o casal na atividade de cuidar dos ovos. Ressalte-se, um casal monogâmico na maior parte das situações, na espécie.

Alguns dias depois, deparei-me com a ave adulta atenta aos quatro filhotes recém libertados dos ovos. Quatro pintinhos, ligeiros, animados, correndo entre a grama, e prontos a se esconder ao menor sinal emitido pelos adultos, avisando sobre os perigos que rondavam a família.

Mais alguns dias, e a família apresentava baixas: rapidamente encontrei apenas dois filhotes, depois um, e finalmente lá estava o casal, sem crias, caminhando pelo gramado. Comecei a me perguntar se teriam sido as corujas buraqueiras as predadoras dos pintinhos de quero-quero. Depois descartei a ideia, pois a vizinhança ali é antiga: as aves dividem o território de modo mais ou menos tranquilo. Corujas e quero-quero denunciam, mutuamente, invasões indesejadas. Parece haver acordos razoáveis entre ambos.

Não se demorou muito para eu encontrá-los instalados em novo ninho, com três ovos. Dessa ninhada, finalmente, um filhote sobreviveu, e eu acabei acompanhando seu crescimento, até tornar-se adulto, e desgarrar-se da casa paterna.

Mais recentemente, testemunhei o casal abandonar um ninho com um ovo, e depois atravessar o período mais duro da seca e do calor chocando dois ovos em outro ninho. Cheguei a deixar uma vasilha com água para eles, que brigavam com minha presença, mas em seguida aceitavam a oferta, e iam matar a sede. No início de outubro nasceram os pintinhos, que atravessaram bravamente as três primeiras semanas. Quando eu cheguei a pensar que resistiriam, reencontrei o casal, mais uma vez, solitário.

Decidi buscar mais informações sobre essa espécie de aves. E descobri que a taxa de natalidade, entre os quero-queros, é de 70%. Mas, dos nascidos apenas 20% chegam à vida adulta. Descobri, também, que embora sejam aves muito comuns, são também muito pouco estudadas.

Afinal, quem se importa com os quero-queros?

Aves sem graça, que não pousam em árvores, e não realizam longos voos nas alturas dos céus. Ao contrário, têm estreita relação com a terra, e demarcam de modo muito claro territorialidades. Aves monogâmicas, irritadiças, encrenqueiras... A descrição de sua plumagem como "preta e branca" denuncia, por parte de seus descritores, a incapacidade para perceber as nuanças coloridas, os tons de terra, e os olhos vermelhos, além do tom arroxeado dos esporões em suas asas.

Parece, mesmo, que as corujas, pelo seu simbolismo, que pode ser interpretado tanto como sabedoria quanto como azar, pela expressão intensa do olhar, embora também sejam bem irritadiças, acabam atraindo mais a tenção do que os quero-queros, esguios, fugidios, pouco afeitos a amizades com qualquer um...

Para quem, contrariando expectativas, se interesse por essas aves, encontrei um artigo sobre seu comportamento de ataque e defesa. Segue o link:


"O comportamento interespecífico de defesa do quero-quero"
Leny Cristina Milléo Costa