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sábado, 24 de abril de 2021

O sapo


Quem venha das bandas do poente caminha pouco mais que meia légua depois da ponte, e já se depara com a entrada para a casa da minha tia, numa curva da estrada. Ali, ela vive com o marido, as plantas e os animais domésticos. E outros que se agregam às instalações residenciais, sem necessariamente terem sido convidados, por assim dizer.

Tem já algum tempo, ela começou a se deparar com o aumento da população de sapos. Quando menos espera, tropeça num. Uns mirrados, outros bem grandes... Sapo é bicho que não se pode matar. Toda vez que encontra um, com todo o cuidado, ela coloca o animal num saco, e o deixa no outro lado do rio. 

Andava cansada de tanto atravessar o rio para levá-los à outra margem. Coisa trabalhosa. Também começou a ter dúvidas a respeito da quantidade efetiva de sapos, especialmente os maiores. Por isso, resolveu tomar uma providência. Munida com um vidro de esmalte vermelho, pegou um dos sapos, dos grandes, e pintou-lhe as unhas. O bicho, imobilizado dentro do saco, não teve como escapar. Ela ainda esperou, pacientemente, até ter certeza de que a tinta estava seca, antes de deixá-lo, como de rotina, do outro lado do rio. Voltou para casa, entre expectativas.

Não demorou nem uma semana, e ela já pôde fazer a verificação de que precisava: lá estava o sapo, nas cercanias da casa, senhor de si e das unhas pintadas com seu esmalte vermelho. Havia outros. Mas aquele, especificamente, passou a ser referência para ela. 

É de se supor, também, que ela tenha sido adotada pelo sapo, e não o contrário. Talvez fosse ele quem andasse às voltas, tentando entender as motivações dela para leva-lo, tão insistentemente, para o outro lado do rio...




terça-feira, 28 de abril de 2015

Joaninha e Joãzinho


A Joaninha e o Joãzinho viveram juntos muitos anos, e tiveram duas filhas. Construíram uma casa. Mais tarde compraram um terreno numa cidadezinha mais distante, com uma casinha. Alugaram a casa antiga. A labuta era intensa. Ela trabalhava como empregada doméstica. Ele na prefeitura do município. Ela acabou entrando para uma igreja cujo pastor passou a ter voz muito presente na sua vida familiar e econômica. A vida a dois foi perdendo a graça. Depois ficou desgostosa. Chegaram a se estranhar. Antes que acontecesse alguma coisa pior, ele foi embora, deixando a casa e o terreno para ela e as filhas. Acabou se juntando com uma moça, que não se chamava Maria. Era mais nova que ele, moradora das redondezas. Logo tiveram uma filhinha. Não demorou, e todos se tornaram amigos: a Joaninha, a nova mulher, as filhas mais velhas em torno da recém-chegada, e as netas dele, que também já começavam a chegar. Durante um punhado de anos, foi assim. A Joaninha, ainda trabalhando como doméstica, construiu dois barracos no terreno da sua casa, e passou a alugar, abrindo mais uma fonte de renda. As filhas adultas, casadas, cuidavam de suas vidas. O Joãozinho e a nova mulher acompanhavam a filhinha caçula que ia crescendo em meio a todos. Até o dia quando ele chegou de volta do trabalho, e encontrou a casa vazia: a mulher se mudara, levando tudo da casa, num caminhão, mais a criança. Joãozinho ficou atordoado. As filhas mais velhas o acolheram, e consolaram quando ele descobriu que a mulher se mudara para poucas ruas acima, com outro homem, e andava bradando que ele nunca mais veria a filha, além de ameaçar processá-lo, pois queria tomar tudo quanto fosse dele. A Joaninha, tomada de dores por ele, também lhe ofereceu acolhida. Ele acabou aceitando abrigo na antiga casa, com a ex-mulher. Mais próximos, de novo, acharam graça no reencontro. Começaram a namorar. Mas o pastor da igreja dela advertiu que não podiam ter intimidades antes de casar. Como esse pastor demorou a autorizar que se realizasse o casamento! Celebraram as bodas no domingo último. São os mesmos, mas também já não são. São os mesmos pais das duas filhas, já adultas. Mas já são outros. Tanto tempo depois, já pouco sabem um do outro. Mirando-se, começam a se reconhecer.




sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Castelo, o fosso, o tesouro e os piratas



Na torre mais alta do castelo sobre a colina, foi guardado um tesouro feito com bananas, canela e passas de uva.
Na torre mais alta do castelo, o bolo repousou gostosuras...


O perfume estendeu-se da torre até as diversas formas de vida à volta: grandes, pequenas e muito pequenas, mamíferos e insetos...
O perfume do tesouro despertou apetites...


Mas, na parte de baixo da torre do castelo, havia um fosso com água e crocodilos imensos, e sem pontes levadiças. 



O fosso foi construído estrategicamente por gigantes gulosos, para proteger o tesouro dos pequeninos piratas, muitos, que percorrem as cercanias, buscando doçuras...









sábado, 13 de dezembro de 2014

A criação


A mulher e o homem sonhavam que Deus os estava sonhando.

Deus os sonhava enquanto cantava e agitava suas maracas, envolvido em fumaça de tabaco, e se sentia feliz e também estremecido pela dúvida e o mistério.

Os índios makiritare sabem que se Deus sonha com comida, frutifica e dá de comer. Se Deus sonha com a vida, nasce e dá de nascer.

A mulher e o homem sonhavam que no sonho de Deus aparecia um grande ovo brilhante. Dentro do ovo, eles cantavam e dançavam e faziam um grande alvoroço, porque estavam loucos de vontade de nascer. Sonhavam que no sonho de Deus a alegria era mais forte que a dúvida e o mistério; e Deus, sonhando, os criava, e cantando dizia:

- Quebro este ovo e nasce a mulher e nasce o homem. E juntos viverão e morrerão. Mas nascerão novamente. Nascerão e tornarão a morrer e outra vez nascerão. E nunca deixarão de nascer, porque a morte é mentira. (48)


Eduardo Galeano
Trilogia Memória do Fogo
I. Os Nascimentos





domingo, 23 de março de 2014

Estórias abensonhadas (Mia Couto) – fragmentos


Enquanto remava um demorado regresso, me vinham à lembrança as velhas palavras de meu velho avô: a água e o tempo são irmãos gêmeos, nascidos do mesmo ventre. E eu acabava de descobrir em mim um rio que não haveria nunca de morrer. A esse rio volto agora a conduzir meu filho, lhe ensinando a vislumbrar os bancos panos da outra margem. (p. 14)

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Toda a estória se quer fingir verdade. Mas a palavra é um fumo, leve de mais para se prender na vigente realidade. Toda a verdade aspira ser estória. Os factos sonham ser palavra, perfumes fugindo do mundo. Se verá neste caso que só na mentira do encantamento a verdade se casa à estória. O que aqui vou relatar se passou em terra sossegada, dessa que recebe mais domingos que dias de semana. (p. 47)

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– Quem está balançar: sou eu, é a cadeira ou é o mundo? (p. 67)

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Mas agora, no momento que lhe escrevo, nem mais me apetece explicação. Quero desraciocinar. Em cada dia não espero senão a noite, as brandas tempestades em que sou Joãotónio e Joanantónia, masculina e feminino, nos braços viris de minha esposa. Por enquanto, mano, ainda sou Joãotónio. Me vou despedindo, vagarinhoso, do meu verdadeiro nome. (p. 103)

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Não sou homem de igreja. Não creio e isso me dá uma tristeza. Porque, afinal, tenho em mim a religiosidade exigível a qualquer crente. Sou religioso sem religião. Sofro, afinal, a doença da poesia: sonho lugares em que nunca estive, acredito só no que não se pode provar. E, mesmo seu eu hoje rezasse, não saberia o que pedir a Deus. Esse é o meu medo: só os loucos não sabem o que pedir a Deus. Ou não se dará o caso de Deus ter perdido fé nos homens? Enfim, meu gosto de visitar as igrejas vem apenas da tranquilitude desse lugarinhos côncavos, cheios de sombras sossegadas. Lá eu sei respirar. Fora fica o mundo e suas desacudidas misérias. (p. 121)







quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Transformação (Contos contidos. Maria Lúcia Simões)


Teresa não gostava do seu corpo e do seu rosto.

Principalmente de sua vida. Só gostava do seu nome, o que lhe dava ainda alguma alegria. Gostava também de Armando que, sem que ela o soubesse, a admirava.

Depois de muito pensar e decidida a conquistar Armando, mandou fabricar enorme boneca, em tamanho natural, usando materiais caríssimos: pele de seda, voz de veludo, olhos minerais.

Em frente ao espelho, com afiada faca, abriu o próprio peito, retirando do fundo o coração que, nas suas mãos, pulsava sangrando como um animal ferido. Introduzido em seu corpo, logo começou a boneca a ter vida própria guardando de Teresa apenas o nome e o coração.

E encontrando Armando, esse não a reconheceu, o que tornou inútil todo o seu trabalho.






domingo, 7 de julho de 2013

açúcar e formigas: foram feitos um para o outro


A Menina morava com uma tia, que tinha uma pequena pensão. Para pagar a hospedagem, ela ajudava em todos os afazeres: Menina, leve isto para Fulano! Menina, traga aquilo para mim! Menina, arrume todos os quartos! Lave a louça! Já lavou os penicos?

A Menina, guriazota, obediente, tinha créditos na casa. Todos entendiam que ela era a mais correta, que não fazia artes, nem mentia, além de estar sempre pronta para o serviço, qualquer um que fosse. Por isso mesmo, era a única digna de fazer a tarefa, talvez, mais doce: buscar no depósito o açúcar para encher o açucareiro. 

Toda vez que seguia para buscar o açúcar, saía, da cozinha, cantarolando uma música qualquer. O depósito era pouco iluminado. Não importava. Ela conhecia bem a disposição da mobília, e podia localizar o açúcar de olhos fechados. Seguia com a música, agora emitida pelo nariz. Pegava um punhado de açúcar e enchia a boca. Ia degustando os grãos doces, enquanto ainda emitia a música anasalada, e enchia a vasilha para a tia. 

Atenta, na cozinha, a tia ouvia a música, e pensava que esse sinal era a garantia de que a menina não comia do açúcar. Por isso confiava nela.

Num desses dias, ela entrou no depósito, encheu a boca com o punhado de açúcar, para depois encher a vasilha. Mas foi surpreendida com formigas cabeçudas que também visitavam o depósito. Muitas. Algumas delas vieram no punhado que gulosamente atirara à boca, e grudaram-se picando seus lábios e língua. Ela saiu cuspindo açúcar pela casa afora, gemendo de dor.

Perdeu créditos, perdeu a função... além de levar uma surra...


domingo, 2 de junho de 2013

El sapo guardiero


(Lydia Cabrera. Cuentos negros de Cuba)


Estos eran los mellizos que andaban solos pelo mundo: eran do tamaño de un grano de alpiste.

Este era el bosque negro de la bruja mala, que hacia inerte el aire; y éste era el sapo que guardaba el bosque y su secreto.

Andando, andando por la vida inmensa, los mellizos, hijos de nadie.

Un día, un senderito avieso les salió al encuentro y, con engaños, los conduje al bosque. Cuando quisieran volver, el trillo había huido y ya estaban perdidos en una negrura interminable, sin brecha de luz.

Avanzaban a tientas – sin saber a dónde – palpando la oscuridad con manos ciegas, y el bosque cada vez más intrincado, más siniestro – terriblemente mudo – se sumía en la entraña de la noche sin estrellas.

Lloraran los mellizos y despertó el sapo que dormitaba en su charco de agua muerta, muerta de muchos siglos, sin sospechar la luz.

(Nunca había oído el sapo viejo llorar a un niño.)

Hizo un largo recorrido por el bosque, que no tenía voz – ni música de pájaros ni dulzura de rama – y halló a los mellizos, que temblaban como el canto del grillo en la yerba. (Nunca, nunca había visto un niño el sapo frío.) Donde los mellizos se le abrazaron sin saber quién era – y él se quedó estático –. Un mellizo dormido en cada brazo. Su pecho tibio, fundido; el sueño de los niños fluyendo por sus venas.

“Tángala, tángala, mitángala, tú juran gánga.
Kuluñongo, Diablo Malo, escoba nueva que barre suelo, barre luceros.
¡Cocuyero, dame la vista que yo no veo!
Espanta sueño, tiembla que tiembla; yo tumbo la Seiba Angulo, los Siete Rayos, la Mama Luisa…
Sarabanda, brinca Cavallo de Palo; Centella, Rabo de Nube… Viento Malo, ¡llévalo, llévalo!”

El bosque se apretaba en puntillas a su espalda, e le espiaba angustiosamente. De las ramas muertas colgaban orejas que oían latir su corazón; millones de ojos invisibles, miradas furtivas, agujereaban la oscuridad compacta. Abría, detrás, su garra, el silencio.

Sorprendido, el sapo guardiero dejó a los mellizos tendidos en el suelo.

“Duela a quien duela, Sampunga quiere sangre.
Duela a quien duela, Sampunga quiere sangre.”

Al otro extremo de la noche, la bruja alargó sus manos de raíces podridas.

Dio el sapo un hondo suspiro y se tragó a los mellizos.

Atravesó el bosque, huyendo como un ladrón; los mellizos, despertando de un rebote, se preguntaban:

– “Chamatú, chekundale,
Chamatú, chekundale, champudale
Kuma, kumatú
¡Túm, túm! ¡Tumbiyaya!
¿Dónde me llevan? ¡Tumbiyaya!
¿Dónde me llevan? ¡Tumbiyaya!”

En el vientre de barro.

Polvo de las encrucijadas.

La tierra del cementerio, a la media noche, removida.

Tierra prieta de hormiguero, trabajando afanosamente – sin dolor ni alegría – desde que el mundo es mundo, las Bibijaguas, las sabias trajineras…

Barriga de Mamá Téngue, Mamá Téngue que aprendió labor de misterio en la raíz de la Seiba Abuela; siete días en el seno de la tierra; siete días Mamá Téngue, aprendiendo labor de silencio, en el fondo del río, rozada de peces. Se bebió la Luna.

Con Araña Peluda y Alacrán, Cabeza de Gallo Podre y Ojo de Lechuza, ojo de noche inmóvil, collar de sangre, la palabra de sombra resplandece.

Espíritu Malo. ¡Espíritu Malo! Boca de negrura, boca de gusanos, chupa vida. ¡Allá, Kiriki, allai bosaikombo, allá, kiriki!

La vieja de bruces escupía aguardiente, pólvora y pimienta china, en la cazuela bruja.

Trazaba en el suelo flechas de ceniza, serpientes de humo. Hablaban conchas de mar.

“Sampunga, Sampunga quiere sangre.”

– “Ha pasado la hora,” dijo la bruja.

El sapo no contestó.

– “Dame lo que es mio” – volvió a decir la bruja.

El sapo abrió apenas la boca y manó un hilo verde, viscoso.

La bruja tuvo un acceso de risa, una tempestad de hojas secas.

Llenó un saco de piedras. Las piedras se trocaran peñascos; el saco se hizo grande como una montaña…

– “Llévame este fardo lejos, a ninguna parte.”

El sapo, con sus brazos blandos, levantó la montaña y se la echó a cuestas sin esfuerzo.

El sapo avanzaba brincando por la oscuridad sin límites. (La bruja lo seguía por un espejo roto.)

– “Chamatú, chekundale,
Chamatú, chekundale,
Kuma, kumatú
¡Túm, túm! ¡Tumbiyaya! ¿Dónde me llevan?
¡Tumbiyaya!
¿Dónde me llevan? ¡Tumbiyaya!”

Ahora el sapo, su pecho tibio, alegremente cantaba a cada tranco:

“San Juan de Paúl
De un solo tranco
San Juan de Paúl
Así yo trago.”

Allá lejos ¿dónde? – pero ni cerca ni lejos – el sapo hizo salir a los mellizos de su vientre.

De nuevo encerrados en la noche desconocida – despiertos – volvieran a llorar amargamente.

La carota grotesca del sapo expresó una ternura inefable; dijo la palabra incorruptible, olvidada, perdida, más vieja que la tristeza del mundo, y la palabra se hizo luz de amanecer. A través de sus lágrimas, los mellizos vieron retroceder el bosque, deshacerse en lentos girones de vaguedad, borrarse en el horizonte pálido; y a poco fue el día nuevo, el olor claro de la mañana.

Estaban a las puertas de un pueblo, a pleno sol, y se fueran cantando y riendo por el camino blanco.

– “¡Traidor!” – gritó la bruja retorciéndose de odio; y el sapo, traspasado de suavidad, soñaba en su charca de fango con el agua más pura…

La bruja iba a matarlo; pero ya él estaba dormido, muerto dulcemente, en aquella agua clara, infinita. Quieta de eternidad…







terça-feira, 26 de março de 2013

Fim do mundo do fim



Como os escribas continuarão, os poucos leitores que no mundo havia vão mudar de profissão e adotar também a de escriba. Cada vez mais os países serão compostos por escribas e por fábricas de papel e de tinta, os escribas de dia e as máquinas de noite para imprimir o trabalho dos escribas.


Primeiro, as bibliotecas transbordarão para fora das casas; então, as prefeituras resolvem (já estamos vendo tudo) sacrificar as áreas de recreação infantil para ampliar as bibliotecas. Depois sucumbem os teatros, as maternidades, os matadouros, as cantinas, os hospitais. Os pobres aproveitam os livros com tijolos, grudam-nos com cimento e constroem paredes de livros e moram em casebres de livros.

Então acontece que os livros transbordam das cidades e entram nos campos, vão esmagando os trigais e os campos de girassóis, o Ministério da Viação mal consegue que os caminhos fiquem desimpedidos entre duas paredes altíssimas de livros. Às vezes uma parede cede e há espantosas catástrofes automobilísticas.

Os escribas trabalham sem trégua porque a humanidade respeita as vocações e os impressos já chegam à beira do mar. O presidente da república telefona para os presidentes das repúblicas e propõe inteligentemente jogar no mar o excedente de livros, o que se faz ao mesmo tempo em todas as costas do mundo.

Assim os escribas siberianos vêem seus impressos jogados no oceano glacial e os escribas indonésios, etc. Isso permite aos escribas aumentarem sua produção, porque volta a haver espaço na terra para armazenar livros.

Não pensam que o mar tem fundo, e que no fundo do mar começam a amontoar-se os impressos, primeiro em forma de pasta aglutinante, depois em forma de pasta consolidante, e finalmente como um chão resistente embora viscoso, que sobe diariamente alguns metros e acabará por chegar à superfície.

Então, muitas águas invadem muitas terras, produz-se uma nova distribuição de continentes e oceanos, e presidentes de diversas repúblicas são substituídos por lagos e penínsulas, presidentes de outras repúblicas vêem abrir-se imensos territórios a suas ambições, etc.

A água do mar, tão violentamente obrigada a espalhar-se, evapora-se mais do que antes, ou procura repouso misturando-se aos impressos para formar a pasta aglutinante, a tal ponto que um dia os capitães-de-longo-curso percebem que seus navios avançam lentamente, de trinta nós descem para vinte, para quinze, e os motores arquejam e as hélices se deformam.

Afinal, todos os navios param em diferentes pontos dos mares, encalhados na pasta, e os escribas do mundo inteiro escrevem milhares de impressos explicando o fenômeno, cheios de uma grande alegria.

Os presidentes e os capitães resolvem transformar os navios em ilhas e cassinos, o público vai a pé, por cima dos mares de papelão, para as ilhas e os cassinos onde orquestras de música típica argentina e de música local amenizam o ambiente refrigerado e se dança até altas horas da madrugada.

Novos impressos se amontoam à beira do mar, mas é impossível metê-los na pasta, e assim crescem muralhas de impressos e nascem montanhas à beira dos antigos mares. Os escribas percebem que as fábricas de papel e de tinta vão falir e escrevem com uma letra cada vez menor, aproveitando até os cantos mais imperceptíveis de cada papel.

Quando a tinta acaba, escrevem a lápis, etc.; ao acabar o papel, escrevem em tábuas e ladrilhos, etc. Começa a difundir-se o hábito de intercalar um texto em outro para aproveitar as entrelinhas, ou se apagam com lâminas de barbear as letras impressas, para utilizar novamente o papel.

Os escribas trabalham devagar, mas são em tal quantidade que os impressos já estabelecem uma nítida separação entre as terras e os leitos dos antigos mares. Na terra vive precariamente a raça dos escribas, condenada a extinguir-se, e no mar estão as ilhas e os cassinos, isto é, os transatlânticos onde se refugiaram os presidentes das repúblicas, e onde se celebram grandes festas e se trocam mensagens de ilha a ilha, de presidente a presidente, e de capitão a capitão.
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* Trecho do livro Histórias de cronópios e de famas, do escritor argentino Julio Cortázar.




domingo, 10 de fevereiro de 2013

performance para liberar placentas presas


O galo já havia cantado uma vez, quando minha irmã, a segunda filha, nasceu. Passava, portanto, da meia noite, hora devidamente registrada em cartório, na certidão de nascimento.

Ocorre que, nascida a criança, não tinha quem fizesse o organismo expelir a placenta. A parteira, aflita apesar de toda a experiência e de todas as vidas trazidas ao mundo por suas mãos, resolveu arriscar uma última tentativa. Para isso, precisava contar com a disposição de meu pai, sujeito carrancudo, de poucas conversas, mas que também estava nervoso com a situação.

Pedagogicamente, explicou o procedimento: Compadre, o senhor vai sair, vai dar uma volta em torno da casa, e vai chegar pela porta da frente. Com o chapéu na mão, vai entrar no quarto e dar boa noite.

Teria que repetir três vezes.

Ele fez. No breu da madrugada, caminhou em torno da casa, entrou pela sala, e à porta do quarto, com o chapéu na mão, deu boa noite. Minha mãe respondeu. Então ele saiu. Ela ficou atenta, ouvindo os passos do marido ressoando à volta da casa. E esperou para responder os votos de boa noite pela segunda vez. Na terceira vez, a placenta se soltou.


sábado, 12 de janeiro de 2013

flor, borboleta, ave...

Para D. Alice, mocinha acanhada
 que encantava os moços nos bailes,
 e me contou esta história.

A mocinha, cabocla linda, encantou o moço da cidade, que caiu de amores por ela. Aos domingos ia visitá-la, na rocinha do pai dela, e a cercava de galanteios. Ela encabulava-se, sem saber ao certo o que responder. Não queria fazer fiascos. Caipira que era, dizia a mãe.

Num desses dias, o moço suspirou, entre uma pausa e outra, quando parecia faltar assunto:
- Você é tão linda, é como uma flor! (tudo bem, ele não era criativo, nem um pouco. Não conseguia ir meio palmo além do convencional...)

Ela respondeu, fazendo uma confissão (que bem lembra a poesia de Manoel de Barros...):
- Flor? Antes fosse braboleta. Gosto tanto de ser ave...


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Micrômegas



Inspirado em As viagens de Gulliver, escrito por Jonathan Swift, Voltaire escreveu o conto Micrômegas, uma viagem filosófica. Nele, a personagem principal, que dá o nome ao conto, é um gigante com altura quilométrica, que viaja pelo cosmo, curioso por conhecer e compreender as quantas formas de vida existentes. A despeito de sua grande sabedoria, considera-se um aprendiz, bem ao estilo socrático. Em sua viagem, acaba deparando-se com muitas criaturas bem menores que ele em tamanho. Mas ressalta-se que, o principal traço da maior parte dessas criaturas está na autorrepresentação como seres geniais, superiores às demais formas de vida.

O conto oferece uma metáfora que coloca em pauta a necessidade de se buscar compreender os pontos de vista diferentes dos nossos, ainda que sejam tão diferentes a ponto de ocuparem posições contrárias. E de percebermos que nos localizamos numa relação espaço-temporal da qual outras percepções, visões de mundo e naturezas também tomam parte.

Ou seja: uma alegoria em defesa da diversidade, no combate ao preconceito.









sexta-feira, 23 de março de 2012

A verdadeira história das cutias no Lago das Rosas




Para César e Yunna,
 que não se demorem a voltar

Era um lugar afastado de todos os centros urbanos. Por razões que ninguém sabe, a maior parte das moças tinha Rosa no nome: Rosa Maria, Maria Rosa, Rosa Ofélia, Rosaildes, Olga Rosa, Rosa Estefânia, Rosa Ecléia, Rosa das Mercês, e por aí vai. 

Fora do povoado, morava uma bruxa, que não era má, nem boa, mas sabia operar com as forças da natureza e do mágico, e, conforme seguia seu humor, lá ia ela, realizando seus trabalhos. Tinha muitas plantas no jardim, muitas árvores frutíferas no quintal. 

Naquele dia, ela acordou de mau humor, azeda, com o chifre virado. E foi fazer o que tinha de fazer, daquele jeito. Quando estava podando os galhos velhos de uma roseira, enfiou um espinho no dedo, sentiu dor, ficou com muita raiva, e rogou uma praga: que todas as rosas se transformassem em cutia!

Êh-lê-lê! Por que cutia? Não se sabe! Talvez tenha sido o primeiro animal que lhe ocorreu. Pior teria sido ela se lembrar de ratos, ou baratas, blerg!

O fato é que as rosas abertas despencaram no chão tomando a forma de cutias, e os botões viraram filhotinhos graciosos do roedor.

Mas ocorreu um problema: a força de sua raiva foi tanta, e deu tanto poder à sua praga, que o efeito se fez sentir entre as moças que tinham Rosa em seu nome. As pobres também foram transformadas em cutias! 

Todas fugiram para a mata nos arredores do povoado, onde havia um lago muito calmo.  Depois do ocorrido, a bruxa desapareceu, não se sabe que fim levou. Como ninguém, entre os moradores, sabia desfazer o mal-feito, comovidos com o ocorrido, as pessoas dedicavam algum tempo diário na companhia das cutias, perto do lago, o Lago das Rosas, como passaram a chamar. Com o passar dos meses, as pessoas começaram a se ocupar cada vez mais das coisas que dizem respeito às pessoas, deixando às cutias os assuntos das cutias.  

Muito tempo depois, chegaram umas pessoas vindas de longe, e construíram uma cidade ali nas redondezas. Embora não conhecessem a história das cutias, tinham a informação sobre o nome Lago das Rosas. Como a paisagem era muito bonita, preservaram o lago e a mata onde as cutias moravam, transformando a área num grande parque sempre visitado por muitas crianças e suas famílias. Ainda hoje, as cutias ficam felizes com o movimento, e brincam pelos gramados. 

Acho mesmo que já nem se lembram que, num dia distante, foram moças bonitas e alegres, num povoado isolado...


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vingança definitiva



Ela decidiu terminar o noivado que já durava quase dois anos. Foi até a roça onde morava o noivo, e tentou explicar que o noivado tinha sido um erro, mas que ainda estava em tempo de evitar um erro maior que seria casar, etc. Ele quis saber quem era o outro, com quem ela andava se engraçando, e ela explicou que não havia ninguém, que era ela mesmo que não queria mais casar. Ele não aceitou, tentou convencê-la a recuar na decisão, a ficar ali com ele. Mas ela estava determinada, e depois de muita discussão, voltou para casa. Sentia-se aliviada pela decisão, mas sabia que não seria fácil lidar com a questão, até ele se conformar. Mas um dia haveria de se conformar, afinal não era nenhuma criança, pensava.

Nas semanas que se seguiram, não teve um dia que ele não a procurasse, e a pressionasse para reatarem o noivado. Ela permaneceu irredutível.

Mas, nos últimos dias, ele parecia ter sossegado. Não aparecera na cidade, tampouco a havia importunado. Ela chegou a pensar que, finalmente, poderia retomar a normalidade da vida.

No sábado, foi almoçar na casa de uma amiga, a mãe e os irmãos foram visitar uns parentes na cidade vizinha. No comecinho da tarde, ele chegou à casa dela. Entrou pelo pátio chamando seu nome. Caminhou pela varanda ampla, que tinha um pé direito alto. No oitão constatou que a casa estava vazia. Cumprimentou a senhora da casa ao lado. Conversaram um pouco. Ela contou para onde a ex-noiva tinha ido. Ele conhecia a casa. Seguiu, a pé mesmo, os dois quarteirões. Bateu lá. A amiga veio atender. Ela lhe pediu que deixasse a ex-noiva em paz, que parasse com aquilo. Mas ele explicou que era isso mesmo o que ele queria, encerrar aquele assunto, deixar tudo para trás. Ela animou-se e chamou a amiga, que veio ouvi-lo. Então ele desfiou o que tinha a dizer: que ela ficasse tranquila, que ele a deixaria em paz a partir daquele dia, que não mais a procuraria, que ela podia seguir sua vida, e coisa e tal. Como sinal material de sua decisão, lhe entregou uma rosa vermelha. Ela pegou a rosa, entre desconfiada e feliz. Mais feliz que desconfiada.

Depois ele tomou o caminho de volta, e ela ficou ali, aliviada com o desfecho da história. Repisou o assunto com a amiga durante mais um par de horas, e decidiu voltar para casa. Queria estar lá para contar tudo à mãe, quando chegasse com os irmãos do passeio.

Ultrapassou o batente do portão quase distraída. Olhou as florinhas do jardim, achando que estavam ainda mais lindas. Levava a rosa vermelha na mão. Só então deparou-se com o corpo dele balançando, dependurado por uma corda amarrada a um dos caibros mais altos da varanda. Enforcara-se, o desgraçado, ali, na sua casa!

A pobre infeliz passou mais de ano em tratamento, internada numa clínica psiquiátrica. Nunca mais foi a mesma. Nunca mais conseguiu se libertar dele.


sábado, 14 de janeiro de 2012

Desastre aéreo na janela de algum apartamento...



p/ J. Bamberg, que tem espírito de menino,
 e participação ativa nesta história.



Quando percebeu que sua nave cairia nas malhas da armadilha preparada para apanhar monstros gigantescos, o piloto apertou o botão onde se lia "ejetar". Foi lançado ao espaço, e o pára-quedas abriu-se de um golpe. Sua trajetória no ar fez um arco, e ele enroscou-se numa estrutura inclinada à beira de um paredão inóspito, na parte mais alta do precipício. Olhando para baixo, concluiu que, qualquer movimento em falso, poderia cair, e então estaria perdido... Ficou ali, dependurado, pensando em como sair daquela situação, e salvar a pele.


De onde estava, podia avistar sua aeronave mais abaixo. Estava completamente enovelada pelas redes da armadilha, feitas com fibra ultra resistente, capaz de conter os monstros. Sim, também havia os monstros, e ele torcia para que nenhum deles aparecesse.



Depois da chuva, já quase pela noite, pequenas e hábeis mãos de menino ultrapassaram uma das aberturas existentes no paredão, também conhecida como janela, resgataram o piloto com seu pára-quedas, e levaram a aeronave para conserto. Livres dos monstros, sem riscos de se perderem no precipício, em poucos minutos estariam prontos para novas aventuras.
  

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Exercícios de alteridade - preto e branco



Dominante preto
No princípio estava a escuridão. Era abafado, e não se avistava nada em qualquer direção. Toda luz sugada no decurso dos tempos fazia-se energia contida. O vórtice encheu-se de todas as luzes em suas múltiplas cores, e inchou-se a tal ponto, que, a certa altura, começou a regurgitar de volta fiapos delas. Aos poucos, os fiapos ganharam volume, e jorravam em arcos de luzes coloridas sobre o vazio. O espaço começou a se mostrar, em transparências. Azuis, amarelos, vermelhos, verdes, roxos, laranjas, libertos das vísceras da noite, expandiram-se nesse espaço-tempo.

Dominante multicolorido
Aprisionadas no preto durante tanto tempo, as luzes, diversas em suas cores, alongaram-se em várias direções, a experimentar o espaço, em contínuo movimento. Refletiram em superfícies espelhadas, multiplicaram-se. Aos poucos foram ganhando familiaridade. Dançantes, e ruidosas, descobriram que podiam brincar entre si, transmutando tonalidades, ganhando mais luminosidade, mais energia.
Energia fluida acelera frequências, e aumenta a rotação dos corpos. Cada vez mais agitadas e alegres, crescentemente mais claras e mais efusivas, tenderam a fundir suas vibrações. Fontes intensas de luz, chegaram a ofuscar-se, entre si.

Dominante branco
Dançando uma dança eletrizante, misturando-se umas às outras em frenesi, não se via mais que luz branca em expansão, a eliminar quaisquer vestígios de sombra, um leve tom cinza que fosse. A luz branca, que jorra com intensidade, ofusca a vista. O sem fim do mundo confunde-se com o logo ali, pois não se vêem distâncias, volumes, formas, proximidades e lonjuras.
Apenas movimento intenso, e luzes refletidas, devolvidas, sem trégua.

Dominante da alteridade
A exaustão apoderou-se das luzes, desejosas de retomarem suas propriedades diferenciais. Na desaceleração, redescobriram-se amarelas, lilazes, verdes, azuis, vermelhas, alaranjadas, em passagens entre-cores de várias tonalidades.
Em comum acordo, passaram a alternar luminosidades, abertas à possibilidade de, eventualmente, serem absorvidas pelo preto, ou serem devolvidas em aceleração máxima pelo branco... podendo, sempre, retornar ao movimento suave dos dias e das noites.



sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Exercícios de alteridade – azul



Levava uma vida relativamente tranquila, sem maiores sobressaltos. Às tantas, entediou-se. Desejou experimentar outras emoções. Na ribalta, deixou-se banhar pelas luzes derramadas das varas de spots e canhões de luz.

Um calor invadiu-lhe as partículas quando as luzes vermelhas arroxearam-no, e riu-se de cócegas quando os amarelos animaram-no em tons de verde. Quando diminuiu a intensidade das luzes, tornou-se soturno, profundo. Mas retomou a vivacidade quando as luzes derramaram-se em jorros cada vez mais intensos. Teve, mesmo, a impressão de que poderia se diluir no branco.

Já não estava tão certo a respeito de sua tonalidade original. Afinal, o azul que julgava ser não era, de fato, absoluto. Sofria os efeitos, também, das relações que estabelecia com o meio, oscilando de acordo com as luzes e as sombras sobre ele projetadas no decurso dos dias e das noites.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Poética da Alteridade - Cor de Burro Quando Foge

Poética da Alteridade - Cor de Burro Quando Foge

Era apaixonado e amigueiro, aquele magenta. Costumava brincar com os vizinhos pigmentos alaranjados e arroxeados, oscilando ligeiramente a tonalidade para lá e para cá. Depois retomava seu eixo, sem perder a referência de sua posição no círculo cromático.

Mas, toda vez que olhava na direção oposta, e avistava o verde, seu tom magenta ganhava em intensidade. Ao mesmo tempo, sentia uma tensão interna, e duas forças simultâneas impeliam-no à rejeição e à atração.

Estranho sentimento, aquele...

Encontraram-se, certa vez. Percebeu, então, que também o verde ficava ainda mais verde, em sua proximidade. Apesar de toda a tensão que os envolvia, arriscavam-se nalgumas aproximações. Tocaram-se, e aos poucos foram diluindo-se um no outro. Desapareceram numa descor. Deveria ser preto, mas as impurezas impregnadas em seus pigmentos só deixou que chegassem a um tom escuro e indefinido. Uma cor suja, diriam alguns.

Cor de burro quando foge, é como definiria minha avó.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Poética da Alteridade - Amarelo

O amarelo, curioso e vibrante, queria aprender como era ser azul. Moveu-se na escala cromática. Experimentou outros pigmentos que refletiam diferentes comprimentos de onda de luz. Deixou-se impregnar de não-amarelos. 


Quando quis retornar à condição original, já não conseguiu se purificar dos muitos fragmentos incorporados no caminho. Tornara-se amarelo-limão intenso. 


Por vezes sentia saudades de ser azul novamente, e retomava a posição do outro. Na volta, a cada vez, era um pouco menos amarelo.


Um dia, percebeu que já não pertencia à categoria dos amarelos. Tampouco dos azuis.


Tornara-se verde.



                                                  "Professora, quando misturo estas duas cores, elas desaparecem: morre o amarelo, morre o azul, e aparece este verde!"