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domingo, 15 de setembro de 2024

Mundo da arte

 Para Rafael

O jovem inquieto e metódico planeja e, passo a passo, vai executando seu caminho cujo destino é o mundo da arte. É artista respeitado. Seu trabalho é meticuloso, disciplinado, tem potência, pulsa em permanente ebulição. Ele faz, desfaz, refaz, com crivo e critérios até mesmo mais rigorosos do que os de curadores e comissões de julgamento.

Mas sua produção fílmica enfrenta resistências para ser aceita nos festivais regionais e nacionais. Ele se pergunta sobre as dissonâncias entre seu trabalho e as expectativas dos júris e dos organizadores dos eventos. Transforma essas questões em assunto de investigação. Sua indagação ganha força, sobretudo, quando tem a mesma produção aceita em festivais no exterior, alguns de grande porte e extensão internacional. Do mesmo modo, experimenta acolhida em salões de arte. Dos salões regionais aos nacionais, passa a experimentar a alegria de ver seus trabalhos aceitos, expostos, admirados por diferentes públicos e segmentos do mundo da arte. Passa, então, a ter reconhecimento, a ter o próprio estilo reconhecido, nominado. Colecionadores desejam adquirir exemplares de seu trabalho.

Naquela noite, seria aberta uma grande exposição, resultado de um edital público, que chegou à escolha de um seleto conjunto de obras completas para serem produzidas e mostradas com destaque, além de outros trabalhos. A proposta dele estava entre as obras a serem apresentadas completas. Assim, logo à vista de quem ingressasse no grande salão, estavam expostas suas fotografias inquietantes. Todos os curadores, membros do júri, jornalistas, estudantes de artes, digital influencers passaram por ali, conversaram com ele, fizeram perguntas, tiraram fotos. Não havia dúvidas de que ele se tornara referência notória no circuito artístico.

Em meio à intensa movimentação, depois de muitas fotos e comentários e cumprimentos, incluindo autoridades políticas locais, ele constatou que duas das suas fotos estavam de ponta-cabeça. Os montadores, igualmente encantados com seu trabalho, não se deram conta de que as duas fotos estavam viradas, com as posições invertidas, enquanto as fixavam, cuidadosamente. Ele ficou inquieto, não conseguiu mais se concentrar nas conversas, evitou fazer fotos diante do trabalho. Procurou pela pessoa responsável pela montagem, para pedir ajuda. Não encontrou. Voltou. Entre receios, tirou, ele mesmo, as fotografias da posição inicial, reposicionando-as, agora corretamente. Este lado para cima.

Respirou aliviado. Ninguém percebeu o movimento ágil de troca. Tampouco perceberam que havia sido feita a troca. Nem os admiradores, nem os críticos, nem os curadores... Nem o próprio responsável pela montagem da exposição percebeu a alteração. Para eles, pareceu não fazer lá muita diferença, mesmo...

Goiânia, 13 de julho de 2024

 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Sobre meus desentendimentos com Madame História com Agá Maiúsculo e outras socialáites...


Sempre gostei de ouvir histórias. E de contá-las. Desde muito cedo devorei livros: romances de José de Alencar, gibis, histórias sem fim de Malba Tahan, enciclopédias com verbetes que davam conta da história dita universal, revistas, fotonovelas... havia tanto a saber e a imaginar sobre o mundo!

Quando comecei a estudar numa escola regular, me encantava a possibilidade de saber ainda mais coisas. Então a professora pediu que escrevêssemos um trabalho sobre a vida de Tiradentes. Eu li as informações no livro. Ouvi, nalguns programas de rádio, histórias sobre ele, e deixei minha imaginação trilhar caminhos possíveis pelos quais o herói pudesse ter também transitado. Foi assim que, com dez anos, escrevi umas quantas páginas de caderno, contando uma história possível sobre Tiradentes: dados biográficos corretamente buscados no livro didático, o restante da vida, e mais interessante, recheei com visitas à namorada, passeios em praças, e quitutes de feiras tão típicas dos territórios mineiros.

Enquanto meus colegas tinham apenas copiado os dados que constavam no livro, preenchendo no máximo meia página, eu escrevera várias páginas de uma história que todos queriam ler. Eu estava feliz. Mas logo descobri que não deveria: a professora não só não gostou do que eu fizera, como deu-me uma bronca pública, diante de toda a turma. Aprendi, ali, que não poderia sair uma linha sequer das informações que constavam do livro didático de história adotado pela escola. Um texto chato, informações que não tinham qualquer relação com a minha vida. Descobri, muito cedo, que Madame História com Agá Maiúsculo era muito chata. E passei a cumprir o mínimo necessário para passar de ano, dali até concluir o ensino médio.

Na universidade, tive aulas de história da arte. Também eram muito chatas. Numa sala escura, com as paredes pintadas de preto, a professora, com voz monocórdica, ia passando slides de obras de arte dos diversos períodos históricos europeus, e ia descrevendo cada slide: este pavão significa... esta cor azul representa... a composição assimétrica... o contraste de luz... Era difícil manter a concentração. Muitos dos meus colegas dormiam tanto que eventualmente até roncavam. Eu não conseguia dormir. Mas achava que aquelas aulas não precisavam ser tão distantes da nossa vida, daquilo que era palpável para nós.  Mas também fui sendo aprovada, porquanto respondesse o necessário para tanto.

Foi no mestrado que voltei a me bater de frente com Madame História com Agá Maiúsculo. Dessa vez, de modo mais contundente e arriscado. Minha dissertação tratou do uso de desenhos reproduzidos nos processos de alfabetização. A pesquisa foi longa e complexa, envolvendo quase um ano de acompanhamento quase diário de uma turma de alfabetização numa escola pública da periferia da cidade, entrevistas nas escolas de formação das professoras dessa turma, e pesquisa sobre a história da educação, com recorte nas relações entre imagens e aprendizagens, particularmente nos processos de letramento. Então, havia um capítulo em que eu fazia alguns recortes desse uso de imagens nos projetos educativos, desde a Grécia antiga até aquele final do século XX, dando alguns saltos pela Idade Média, nas guildas, passando por algumas abordagens propostas por Comenius do século XVII, e chegando ao contexto brasileiro, num trânsito entre questões relativas ao ensino de arte e formação de professores para o início de escolarização.

Durante a defesa da dissertação, uma professora que integrava a banca examinadora (e era rival da minha orientadora, coisa que só fui descobrir depois) questionou minha suposta “abordagem histórica”, dizendo que eu tinha feito uma bagunça do ponto de vista das categorias adotadas bem como da orientação epistemológica. Os saltos em diversos períodos temporais e em diversos contextos pareceu-lhe uma heresia. E, para sustentar seus argumentos, ela evocou o fato de ter sido aluna de Demerval Saviani. Estaria, portanto, autorizada a fazer tais críticas: esse era o pressuposto.

Eu sabia que, em parte, ela tinha razão. Mas minha dissertação não tinha abordagem histórica. Naquele capítulo, eu tão somente tinha buscado algumas referências, fragmentos, para identificar as bases do ideário para uma orientação pedagógica que eu observara em sala de aula. Parece que eu não me entendia, mesmo, com Madame História com Agá Maiúsculo. Minha irritação ficou maior quando, em lugar de argumentar, a professora evocou a chancela de Demerval Saviani, para me questionar. Ora, se ela era discípula dele, eu também tinha lá minhas mestras e, em minha resposta, decidi evoca-las também. Então, iniciei dizendo que, infelizmente eu não tivera o privilégio de ser aluna de Demerval Saviani, mas tinha aprendido a contar histórias com as bordadeiras e as tecedeiras, que misturam os fios, as texturas, que trabalham com diagonais, transversais, além da urdidura, que brincam com as tramas para criar tessituras diversas. Aquele capítulo fora escrito dessa maneira, esclareci.

Meu erro foi me sentir vitoriosa no embate pelo fato de ter sido aplaudida em cena aberta. Eu não estava atuando numa peça de teatro, embora o ritual de passagem também tenha seus componentes de espetáculo. O aplauso em cena aberta sangrou o orgulho da pedagoga que se pretendia historiadora. Na reunião fechada, ela resistiu bravamente no propósito de me reprovar. O que estava em jogo não era exatamente minha resposta, mas o fato de que minha postura poderia servir como exemplo para os demais pós-graduandos. E isso seria inadmissível. Mas fui defendida por duas outras mulheres também fortes, que não deixaram vingar o projeto de reprovação.

Enquanto isso, eu, que não supunha o que pudesse estar se passando na reunião fechada, celebrava em festa com colegas e amigos, enquanto esperava o resultado final. Mal poderia imaginar que Madame História com Agá Maiúsculo tramava contra mim, naquele instante.

Anos mais tarde, fui salva por Vilém Flusser, o filósofo que, para os demais filósofos é considerado um bom poeta, e que, em suas discussões problematiza a própria noção de história, provocando a ira de historiadores também. Com ele, aprendi duas coisas fundamentais: Madame História com Agá Maiúsculo produz uma narrativa que exclui mais de 95% da humanidade. Sua narrativa é limitada, e opera com alguns parâmetros que interessa a contextos muito específicos. Madame História com Agá Maiúsculo tem seus méritos, que devem ser respeitados. Mas não tem a palavra final sobre as sagas da humanidade, muito menos sobre as sagas da vida neste planeta. A natureza “universal” de sua narrativa está restrita a uma faixa territorial estreita, e a um modo de pensar o mundo muito específico. Não é, portanto, universal.

Mais recentemente, assistindo ao filme “God exists, her name is Petrunya” (direção: Teona Strugar Mitevska, 2019), que no Brasil foi chamado “Deus é mulher e seu nome é Petúnia”, essas questões foram reavivadas em minha memória. As histórias que são contadas, com assinatura masculina, precisam ser confrontadas. Não negadas, nem apagadas, mas questionadas. Respeito muito historiadores e suas investigações. Madame História com Agá Maiúsculo tem todo meu respeito, mesmo considerando que, embora substantivo feminino, seja concebida a partir de pontos de vista majoritariamente masculinos... (e só essa questão já dá muito o que pensar!). Ressalto, contudo, que sua narrativa não é exclusiva. Há tantas outras tão legítimas quanto, mesmo quando divergentes das suas. Tão potentes até mesmo porque divergentes!

Respiro com alívio e alguma alegria. Pressinto que, mesmo intuitivamente, desde o princípio venho estabelecendo uma relação crítica e necessária em relação aos discursos dogmáticos relativos a essa senhora. E a outras senhoras da High Society também, tais como Madame Arte com A Maiúsculo, Madame Filosofia com Éfe Maiúsculo, e todas as demais socialáites da cultura, das ciências e do mundo do conhecimento.

Que essa brisa nunca me deixe!





sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Festa de anos


Para César Guinda








 




Nunca consegui entender o que motiva as pessoas a parabenizarem os aniversariantes. Por que parabéns? O que terão feito os aniversariantes que justifique serem parabenizados? Será por terem conseguido estar vivos até ali? Ou por terem sobrevivido a mais uma rodada completa da Terra em torno ao Sol?

A contagem do tempo também é coisa que me intriga, dada sua arbitrariedade, e a precariedade de sustentação, embora seja elemento central na organização da civilização de matriz ocidental, europeia, atualmente estendida aos quatro (ou quantos sejam) cantos do pequeno planeta em que vivemos.

Pois bem, é bem assim que cumpri 56 anos. Seja lá o que isso signifique. Já há algum tempo tenho vivido esse momento de marcação do tempo de modos distintos, refratários aos modos digamos que considerados usuais de celebração. Tem sido divertido. Quando não, tem propiciado pensar essas e outras questões sobre a existência.

Neste ano, meu aniversário ocorreu numa quarta-feira, dia em que, neste semestre, leciono pela manhã e pela tarde. No turno vespertino, ministro uma disciplina intitulada Oficina dos Fios, na qual experimentamos compartilhar aprendizagens que envolvem bordar, tecer, fazer crochê, há quem faça tricô, macramê. Trata-se, afinal, de uma oficina.

Foi pensando nela que meu tão querido amigo César Lignelli, professor do curso de Artes Cênicas da UnB, fez uma proposta no mínimo instigante, motivadora. Ele vem construindo uma performance/espetáculo/celebração/festa/sabe-se-lá-o-quê intitulada DeBanda. Nela, ele veste, literalmente, um instrumento que vem sendo inventado há não-sei-quanto-tempo, e que nunca est(ar)á pronto. Atualmente, pesa uns 30kg. Instalado às costas, tem fios ligados aos pés, joelhos, dedos das mãos, cotovelos. Assim, diferentes instrumentos sonoros são acionados conforme sua movimentação. Ele opera, ainda, duas sanfonas, conforme a cena, além de uma sirene.

Mas não se trata de mera execução do instrumento, o que já seria uma tarefa exaustiva. Ele conta uma história sem texto, para a qual constrói personagens distintos, que assumem posições antagônicas entre si, chegando a lutar. Há paixão, há conflito, há tragédia, mas também pode haver recomeço. Mais que isso, ele estabelece comunicação contínua com o público presente, dialoga, divertem-se. É um trabalho de Sísifo... porquanto louco, interminável, exaustivo. Mas, talvez por isso mesmo, apaixonante, comovente, capaz de encantar.

Todo o equipamento com que trabalha, e quantas outras tranqueiras de viver e inventar o viver, são alojados num motorhome, com o qual anda para cima e para baixo, na cidade de sua residência, ou em viagens por aí... Entre o final de 2017 e início de 2018, ele, com a família, percorreu 20.000km pela América do Sul, fazendo apresentações em praças, oficinas, quintais, e outros espaços nem sempre entendidos como destinados a produções teatrais-cênicas-musicais-performáticas-etc.

Sua proposta para a Oficina dos Fios foi que bordássemos um estandarte para integrar o espaço teatralizável de suas atuações. Lançado o desafio, combinamos que ele viria à nossa oficina, para nos mostrar o DeBanda. Equacionando as datas, a melhor mostrou-se justamente no dia de meus anos. Quase não me contive de tanto contentamento pela coincidência. Tomei a oportunidade como um presente.

Pouco depois das 13h, ele chegou à faculdade, vindo de 200km de estrada. Às 14hs, o grupo que integra a oficina foi até o caminhãozinho para conhecer a casa que anda, e ajudar a levar os equipamentos todos para a Oficina. Recuaram-se as mesas, para abrir uma clareira em meio à sala. Ajudou-se o artista a vestir o instrumento. Ele foi explicando cada fio, e tirando sons do instrumento múltiplo-nunca-acabado. Até que ele se levantou, e começou a dar lugar às personagens, e contar uma história performada-musicada-dançada-compartilhada. Encantamento e insanidade.

Afinal, “Sem a loucura que é o homem mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?” (Fernando Pessoa).

Ao final da apresentação, conversamos sobre o que vivemos ali: nós, da oficina, ele, e suas personagens. Depois reunimos as pessoas que vão trabalhar no estandarte, para planejarmos o trabalho. E prosseguimos, cada qual com seus fios, uns bordando, outros tecendo, outros tentando fazer crochê. Todos enleados nas tramas de nossos sonhos, desejos, desatinos. 

Quantas vezes, nos decursos de nossa vida, encontros tão intensos e especiais ocorrem? Não são muitas. E são sempre inesquecíveis.

César, querido, obrigada pela festa. Não importa a contagem dos anos, nem os marcos tão precários das repetições dos ciclos. Em qualquer data, eu não poderia ter recebido presente mais nobre e valioso!








terça-feira, 10 de outubro de 2017

Sobre a experiência estética

  
Foi ao Centro Cultural Caixa Econômica, para ver a exposição Êxodos, com fotografias de Sebastião Salgado. As 60 lâminas em preto e branco estavam dispostas ao longo de duas salas contíguas, organizadas em sequências que se referiam a refugiados de guerra, à condição humana nas grandes cidades, a disputas pelo direito à terra. Eu o vi observando longamente cada fotografia, e lendo as informações respectivas. Demorou-se diante de cada uma. Sua emoção transbordou no gesto e no silêncio. Comoveu-se com os rostos sofridos, com as cenas e os ambientes nos quais crianças, mulheres e velhos teimavam em continuar vivendo.

Saiu dali profundamente tocado.

Mais tarde, em casa, falou de sua comoção ante as condições de quantas mulheres e crianças em situação de risco e miséria, e da ignorância de todos nós no tocante às circunstâncias nas quais vivem milhares de pessoas nos quatro cantos do planeta. Falou como se fosse testemunha presencial das condições de dor e sofrimento vividas por aquelas pessoas fotografadas. 

A experiência deixou-lhe marcas indeléveis.

Salvo engano, se é que a arte serve para alguma coisa, deve ser para isso...






domingo, 20 de dezembro de 2015

Duas mulheres, duas artistas, uma saudade

 p/ Selma Reis e Nilce Eiko

Ontem partiram duas mulheres cujos trabalhos estão entremeados à minha vida com doses especiais de afeto.

Nilce, nossa querida Eiko, uma artista sensível, que tive o prazer de conhecer numa sala de aula, eu, no papel de professora, ela, no papel de estudante, inquietas, ambas, aprendendo juntas.

Selma Reis, que não conheci pessoalmente. Apesar de não acompanhar amiúde seu trajeto como artista, saber de sua morte foi como ter apagada a voz que, em música, marcou partes da minha vida de modo indelével. Estranho sentimento...

Pela memória de Nilce, disponibilizo um vídeo com a música “Meu veneno”, de Milton Nascimento e Ferreira Gullar, cantada por Selma Reis.

vídeo disponível aqui


Pela memória de Selma Reis, cantora e atriz, disponibilizo uma imagem do trabalho de Nilce Eiko Hanashiro.



Porque a vida é finita, e finda, e somos frágeis, e estamos apenas de passagem...




             






domingo, 20 de setembro de 2015

Sobre borboletas e baratas

Para Afonso Medeiros

Meu querido Prof. Afonso Medeiros compartilhou, recentemente, uma frase com a seguinte provocação: “Se você esmagar uma barata, você é um herói. Se você esmagar uma borboleta, você é um vilão. A moral tem critério estético.” Para colocar a provocação em negrito, acrescentou: "Um exemplo bem banal do porque, para alguns filósofos, a estética precede a ética..." 

Como as baratas têm ocupado uma parte importante dessas reflexões que vão me tomando quando o pensamento vaga, aparentemente à toa (mas só aparentemente, pois ao fazê-lo vai tecendo possibilidades outras no exercício de indagar sobre o mundo), a provocação me arrebatou. Por acaso, à noite, na sala da minha casa, lá vinha, desde a varanda, uma barata adulta, ligeira, ágil, fazendo uma curva, indo se esconder por baixo de uma prateleira. Todos essas passos foram executados de modo mais rápido que o meu reflexo, antes de eu constatar que eu estava descalço e não tinha nada à mão para enfrentá-la. Iniciaria-se, então, uma atividade divertida na noite: o duelo entre mim e a barata.

Definitivamente, baratas não são rudes, monstruosas, grotescas. Ao contrário, são inteligentes, atentas, montam estratégias. Além disso, pesquisadores (sim, há quem se interesse por pesquisar a vida das baratas!) têm constatado que são gregárias não num sentido caótico como possa nos parecer (estupidamente antropocêntricos que somos), mas organizadas em núcleos familiares. E não suportam ficar sozinhas. Se alguém quiser torturar uma barata até à morte, coloque-a numa solitária. Ela não resistirá à tristeza da solidão. Pois bem: todas essas coisas me ocorrem sempre que eu sigo para algum duelo com uma barata.

Essa, especificamente, depois de me ter escaneado, ficou debaixo do móvel, na espreita. Se eu me distraísse, iniciava uma fuga, fazendo corridas até certa distância. Avaliando o insucesso de sua tentativa, voltava ao abrigo, mais rápida que da primeira vez. Por vezes, eu a percebia à sombra, imóvel, me olhando. Qualquer movimento, e de novo desaparecia num vão qualquer. Sempre à espreita. Ela, escondida, e eu, à luz, já munida de um par de chinelas à mão.

Agora, às minhas ponderações sobre a vida das baratas, veio se somar a outra pergunta: e se fosse uma borboleta? Talvez eu me olvidasse do mundo a observá-la, sem querer que ela deixasse o ambiente... talvez eu até me lembrasse da lagarta feia, sem muito encantamento... mesmo assim, poucas seriam as chances de eu me dispor a um duelo com ela.

Por que? Pensei que, na borboleta, as cores estão separadas, organizadas, simétricas, vívidas, enquanto que, na barata, as cores se misturaram, resultando naquilo que minha avó chamava de cor de burro quando foge. Na borboleta, a dança das cores nos hipnotiza, enquanto que, na barata, o tom marrom da mistura nos afasta, lembrando caos, sujeira, mistura descontrolada...

Buscando a etimologia da palavra estética, chegamos à noção de experiência profunda, ou impactante sobre os sentidos. Ora, uma e outra proporcionam experiências significativas aos nossos sentidos: encantamento e repulsa. O belo e o feio. 

Então o velho filósofo Flusser me vem em auxílio, com suas não menos inquietantes provocações. No livro que compila as últimas aulas ministradas na Alemanha pouco antes de sua morte, ele indaga sobre o sentido e o lugar da arte no cenário contemporâneo. Constrói, então, o fio de seu raciocínio, a partir da ideia de que a arte seja uma experiência capaz mudar nossa percepção do mundo, e de nós mesmos, a partir do modo como impacta os nossos sentidos, ou seja, pela experiência estética. Nesse ponto, ele indaga qual teria sido a obra humana que mais fortemente teria afetado os nossos sentidos, no século XX, de modo a alterar nossa percepção do mundo. E responde: a bomba atômica. Desafiando artistas e estetas, ele constata que a obra de arte mais potente produzida pela humanidade nesse século teria sido a bomba atômica.


imagem encontrada aqui

A visão do cogumelo resultante da bomba é recorrente em nosso imaginário. Aterroriza e seduz ao mesmo tempo. Lembra o quanto somos cruéis, perversos, mesmo quando não admitimos. É a prova cabal da ausência de neutralidade do conhecimento científico. E no artístico também. Escancara a nossa finitude da pior e mais bela forma.

Ao pensar na bomba e nos corpos humanos que se desfazem pelo efeito da radiação, volto à barata, à espreita, debaixo do móvel da sala. Se a bomba pode eliminar a espécie humana, e também as borboletas, no bolo dos 90% das espécies viventes da face do planeta, elas, as baratas, ao menos a maioria delas, teriam mais chances de sobreviver, exatamente pelos hábitos que nos causam repulsa: habitar esgotos, andar por frestas, espreitar às escondidas. E por sua enorme e invejável capacidade de adaptação.

imagem encontrada aqui

A possibilidade de que elas sobrevivam a nós reforçaria o desejo de extingui-las, numa espécie de raiva movida pela inveja, mesmo que de modo não consciente?

Aquela barata, a minha visitante noturna, em particular, poderia até sobreviver à bomba. Mas não sobreviveu ao impacto da minha chinela, depois de uma longa dança de idas e vindas, tentativas frustradas de fugas, e pacientes observações mútuas. Não me sinto heroína. Apenas acrescentei um ponto a mais nos duelos travados com sua espécie, à qual destino profundo respeito. A propósito, nesse duelo, tenho bem menos pontos que elas, vencedoras na maior parte das vezes. Aliás: vencedoras hors concours, pois sobreviverão à nossa espécie!

Nenhuma borboleta veio visitar as flores da minha varanda, ultimamente.

PS.: deliberadamente, esta postagem não tem imagem de borboletas... 







domingo, 28 de setembro de 2014

Carta a Lutiere, Taísa e Gabriel


Desde pequena, fui dada a algumas esquisitices (quem não terá sido, afinal?). Uma delas está numa espécie de adiamento para adentrar situações muito desejadas, ou carregadas de afeto. À maneira daquelas pessoas que deixam a melhor parte da refeição para degustar ao final. Assim, podem prolongar a memória do sabor nas papilas.

Por exemplo, quando eu tinha 6 anos, e ganhei a boneca dos meus sonhos, demorei-me vários dias para pegá-la, admiti-la como minha, e supor a possibilidade de brincar com ela. Na verdade, a boneca estava muito além do que, em meus sonhos, eu fora capaz de imaginar. E isso me arrebatava. O casal que ma deu tinha a expectativa que eu me lançasse sobre o presente, abrisse a caixa, e saísse dançando com a boneca que tinha quase o meu tamanho. Penso que, no primeiro momento, tenham ficado frustrados ante o meu recuo. Eles não podiam perceber as alterações no meu batimento cardíaco, os sentidos à flor da pele, e a convulsão que se passava nos embates entre os sonhos, a imaginação e a visão do que se abria à minha frente, anunciado como "presente para mim". Passado o embate, cerca de um mês depois, eu já circulava pelos campos levando minha companheira em passeio.

Coisa parecida ocorreu, novamente, no começo deste mês de setembro, quando fui surpreendida por um encontro marcadamente especial na beleza e no afeto. Estar ao abrigo de Lutiere, Taísa e Gabriel, em Santa Maria, foi um privilégio. Lutiere e Taísa me perdoarão, mas o lugar de honra nesse espaço afetivo é do Gabriel, sem dúvidas. No dia da partida, Lutiere presenteou-me com uma embalagem dentro da qual, descreveu-me, havia dois desenhos assinados por ele: um retrato do Gabriel, para mim, e outro desenho para Carla, querida amiga em comum. A embalagem fora feita com tamanho cuidado, que se assemelhava a um casulo. Agradeci o acolhimento, o presente, e parti, trazendo o volume, sem saber muito ao certo como me portar com ele, certa de que ali pulsava sensibilidade.

Chegada à minha residência, acomodei o casulo entre objetos de valor, e adiei qualquer ação a ser feita em relação a ele. Algum tempo depois, justifiquei-me com a decisão de só abri-lo em companhia da Carla, conquanto seu conteúdo também se destinasse a ela. 

Quase um mês transcorrido, finalmente, rompi as cascas sobrepostas, para revelar o conteúdo daquela estrutura casular, ante os olhos ansiosos de Carla, que tomou posse do seu desenho, cujos traços ela já conhecia por meio de fotografia. E eu me comovi, mais uma vez, ante a visão das feições do meu pequeno amigo Gabriel, abraçado ao seu gatinho. Também ante a visão de traços ao mesmo tempo delicados e fortes, marcados e sutis, explodindo cores e texturas, latejantes. O artista e o pai, entrelaçados num só, transpiram em cada centímetro quadrado do desenho. E eu transbordo de gratidão e afeto sendo destinatária desse mimo.

Hoje pela manhã, fui despertada por revoadas barulhentas de maritacas. Manhã alegre, cheia de vida. Que o seu domingo seja assim, também.


Retrato de Gabriel (detalhe). Desenho de Lutiere Dalla Valle. 




segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

PPG Arte e Cultura Visual: nova página



Esta é a nova página do Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual. Ainda sendo montada, está quase pronta! 
Vocês já deram uma passadinha por lá? Este é o link: http://culturavisual.fav.ufg.br/
O antigo endereço redireciona para este.



domingo, 3 de novembro de 2013

Tramas e teias na UNIMONTES, em Montes Claros

A atividade fez parte do III Encontro do Programa Arte na Escola, na UNIMONTES, coordenado pela Profa Dilma Klem, e contou com a participação de professores da Educação Básica de Montes Claros, além de professores e estudantes universitários.
Bons momentos!
















sábado, 2 de novembro de 2013

Tessituras no Ensino de Artes Visuais - Teias e tramas em Montes Claros

A todos quantos se deixaram ser criança,
 para brincar e tramar desenhos aéreos com fios,
 retalhos, cordões, gestos, risos e imaginação!


Pela manhã, o primeiro grupo se organizou, pegou os materiais, munido das instruções e motivações, saiu para o jardim. Todos estavam dispostos a fazer tramas entre as árvores, os gradis, e demais estruturas arquitetônicas com que pudessem interagir.

Curiosos começaram a chegar para ver o que estava acontecendo. Alguns professores de artes plásticas olhavam de modo enviesado. Professores e alunos de teatro animaram-se com a novidade, e integraram o grupo, ampliando possibilidades para a enorme teia que foi se estendendo. Os retalhos de malha e outros tecidos, amarrados entre si, entrelaçados, flexíveis, aceitavam formas, demarcando desenhos aéreos, pendendo do alto, deixando-se balançar com o vento, caindo ao chão para formar mosaicos coloridos e brincantes.

Entre os que estavam imersos na teia e os que observavam desde a área externa havia uma enorme distância no tocante à experiência. De fora, parecia impossível compreender o que acontecia ali dentro, embora estivessem a poucos metros, ou menos ainda, uns dos outros.

Na teia, todos estavam absortos, e movidos por uma disposição lúdica, prazerosa. Uns trabalhavam mais sós. Outros, em duplas, desenvolviam pequenos projetos que se integravam ao todo. Outros interagiam com todos, trançando de todos os lados.

Na rampa e no estacionamento, transitavam olhares de estranhamento, outros instigados. Uns faziam de conta que estavam participando, ali, na borda, sem se arriscar muito, dando um e outro nó no corrimão, enquanto tentavam entender. As conversas iam se desenrolando... “A reitoria vai pensar que é uma manifestação dos grevistas, que amanhã farão paralisação na universidade...” “Qual a mensagem? Os trapos representam os salários dos professores?” “Eu me identifiquei totalmente com esse trabalho! Estou comovida! É a condição da educação no país: um lixo!”

Duas senhoras que trabalham no setor de limpeza da faculdade chegaram à porta, para ver o movimento. Uma se assustou “Xiiiiiiiiii!” A outra, adiantando-se na explicação, para evitar que a colega cometesse alguma gafe, cochichou “É arte!” Ficaram ali, por algum tempo, provavelmente pensando que teriam serviço extra pela frente, para limpar aquela sujeira toda...

À tarde, enquanto o segundo grupo dava prosseguimento à intervenção, um rapaz, que tinha observado tudo no turno da manhã, intrigado, veio perguntar o que aquilo significava. "Qual o sentido?" Devolvi-lhe a pergunta, e ele fez um longo discurso falando sobre a paralisação dos professores no dia seguinte, sobre o sucateamento da universidade pública, sobre as péssimas condições da educação, etc. 

Fiquei em dúvida: seria o caso de falar sobre estética relacional, sobre instalação relacional, sobre fenomenologia?... Achei melhor não. Apenas lhe contei que aquela intervenção tinha sido agendada antes de se marcar a paralisação. Ele sorriu. Fiz-lhe, então, a provocação: “Para entender, você vai precisar entrar na teia”. Puxei-o pela mão, e fomos nos enredando pelo espaço tramado. Desvia de uma tira, de um cordão, abaixa, sobe, desvia. Paramos lá no meio. Olhamos à volta. Peguei a ponta de um retalho, e convidei: “Pode amarrar”. “Mas... assim? Posso?” “Claro! Qualquer um pode entrar aqui e tomar parte. Esse é o trabalho. Pense que o que você está vendo é uma espécie de materialização de um pouco das relações entre as pessoas que aqui estiveram, enquanto aqui estiveram... faça sua marca também!” Saí, e deixei que ele sozinho brincasse um pouco.

Entreti-me com os demais participantes. Até que o rapaz me chamou, para mostrar o que fizera. Montara uma espécie de S sobre uma base feita por outra pessoa. Disse-me que era um cifrão. Pesavam-lhe as inquietações com as questões políticas e econômicas do país, entre elas as referentes aos salários dos professores. Sorriu, meio tímido, defendendo-se: “Não sei se as pessoas vão entender o que eu tentei fazer”. Então pude comentar sobre o que ocorrera com a interpretação feita por ele, no primeiro momento, sobre a instalação: “As pessoas poderão ver a partir dos repertórios de cada um, do mesmo modo que você fez quando chegou aqui: preocupado com a paralisação, criou uma narrativa para a instalação a partir dessa motivação. O que motivará cada pessoa, quando vir esse S? Será que as pessoas verão um S aí?”

Sorrindo, me disse que precisava voltar para a aula. “Você está matando aula?!” Estava. Saiu correndo, o gesto alegre.

Do outro lado do estacionamento, grupos adornavam palmeiras, envolviam troncos com cascas ásperas, enovelavam galhos, faziam redes e tranças, e se debatiam com abelhinhas arapuá, que insistiam em se enredar nos cabelos dos participantes... o que não deixava de ser outra modalidade de tramas e nós...





segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Tramas artísticas, práticas artesanais e experiências estéticas contemporâneas

Está disponível, no blog, o link que dá acesso à versão digital do livro Tramas artísticas, práticas artesanais e experiências estéticas contemporâneas, para quem se interessar pelo assunto.
Para tanto, clique sobre a imagem do livro que está na coluna à esquerda, ou no link logo abaixo, nesta mensagem.
Fico na expectativa de seus comentários.
Ao deguste!





quinta-feira, 24 de outubro de 2013

III Encontro de Professores Arte na Escola, na UNIMONTES, Montes Claros/MG





Nos dias 29 e 30 de outubro, oficinas, espaços para pensar, conversar sobre o ensino de arte na educação escolar. E também tempo para tramar: vamos montar uma teia de relações para materializar esse encontro.
Espero encontrar vocês por lá!




sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Hacer arte


Hacer arte de acuerdo a los cánones hegemônicos
cementa la unidireccionalidad de la información,
no es una forma de crear,
sino una forma más refinada
y compleja de consumir.

Camnitzer, referido por Adofo Albán Achinte. 
Artistas indégenas y afrocolombianos: entre las memorias y las cosmovisiones.
 in Arte y estética en la encrucijada descolonial, Zulma Palermo (comp.)





quarta-feira, 5 de junho de 2013

AMBOS MUNDOS: Gê Orthof

A Galeria da FAV convida para a exposição individual AMBOS MUNDOS, de Gê Orthof.
Abertura e encontro com o artista no dia 10 de junho, às 17h30, na Galeria da FAV
Visitação de 11 de junho a 05 de julho de 2013, das 8h às 12h, e das 13h às 17h.
Faculdade de Artes Visuais, Campus II da UFG. Goiânia/GO
Telefone: (62) 3521 1445
galeriadafav@gmail.com











domingo, 12 de maio de 2013

"Nosso Norte é o Sul..."




Joaquin Torres-Garcia. Mapa invertido. 1943.



Joaquin Torres-Garcia é um artista uruguaio, pintor construtivista, intelectual importantíssimo na produção relativa ao contexto da América latina. É considerado entre os mais importantes do século XX. 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Passagens entre cinema e arte contemporânea: para um “cinema de exposição”






Desde há pouco mais de 20 anos, em crescente grau de intensidade, o cinema e a arte contemporânea têm manifestado formas de aproximação mútua que tomam a forma de múltiplas e variadas relações.  A mais evidente é, sem dúvida, a recuperação, mais frequente em espaços expositivos, de obras ou de imagens cinematográficas, convocada por meio de instalações, projeções, e vários dispositivos. A presença muito clara de uma espécie de "efeito cinema" na arte contemporânea opera tanto literalmente por "exposição" (mais ou menos transformadas) de filmes, como pela reciclagem de fragmentos de arquivos de filme, ou a reconstituição do filme de referência (como se diz na reconstituição de um crime), por vezes é menos o caso de migração de imagens que de migração dos dispositivos (trabalho sobre a forma das salas, da tela, da projeção, da postura do espectador, etc.), outras vezes, mais indiretamente, talvez mesmo de maneira francamente metafórica, ela segue por paralelos, alusões, coincidências e semelhanças formais ou conceituais.

Por outro lado, simetricamente, é possível notar que, no centro da indústria e da instituição cinematográfica, muitos cineastas manifestam uma crescente tomada de consciência das questões da cena artística (por exemplo, pensar o filme como museu, ou opor um valor de exposição do cinema a um valor de projeção), ou abrem seu trabalho a experiências de figuração e estruturação “plásticas”, ou às novas apresentações visuais (sob a forma de instalações ou de performances), quando não se transformam, eles próprios, em “curados” da exposição.

Finalmente, no plano histórico, é preciso não esquecer, que, desde algum tempo, o domínio do chamado “cinema experimental” (cinema expandido ou montagens com filmes já realizados), e mesmo o vídeo-arte (desde a vídeo-escultura à instalação-projeção) têm cumprido um papel de transitar na interseção midiática entre a arte e o cinema.


Philippe Dubois é professor no Departamento de Cinema e Audiovisual da  Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3, onde é titular da cadeira de Teorias das formas visuais. Entre os livros publicados, estão: O ato fotográfico, e La Question vidéo. Entre cinéma et art contemporain (éd. Yellow Now, 2012)