sábado, 26 de janeiro de 2013

A rainha do botequim

Para D. Alice, minha mãe,
 que me ensina sobre o bem viver a cada dia.


Quando cheguei ao seu prédio, havia um recado na portaria, que lhe deixara o dono do bar mais próximo, na comercial. Ele queria saber o preço de seu livro de poesias, para vendê-lo, no bar. Havia, já, vários interessados, mas ele estava segurando o livro, no aguardo da confirmação do preço. Ela ficou aflita: “Tem gente que quer o livro, e ele está perdendo de vender!...”

No início da tarde, fui com ela ao bar, para resolver o caso. Há alguns dias, ela deixara, ali, alguns exemplares do último livro de poesias lançado, Do rascunho ao livro... do livro aos corações. Quando nos aproximamos, alguns boêmios, que se lançavam já às aventuras do sábado festivo, acenaram para ela, desde suas mesas, chamando-a pelo nome. Acolhida calorosa. Ela aproximou-se do balcão, onde bêbados e sóbrios lhe fizeram festa. E ela, com seus cabelos de prata, o gesto entre acanhado e faceiro, distribuindo, sorrisos, abraços, comentários, perguntando pelas famílias, contava que estava bem.

Conversou com o dono do bar, também com familiaridade e afeto. Combinaram o preço. Vários dos presentes já aguardavam a informação para comprar o livro. Demoramos a sair dali, até despedir-se de cada um, com um voto, um comentário, um afago. Ouvi várias observações que reiteravam a admiração de todos em relação a ela.

Fomos voltando, devagar. Ela confessou que não sabia o nome de todos. E sorriu: “Eles devem me conhecer por causa do livro...” Discordo. Eles conhecem o livro, por causa dela. Sem qualquer demérito aos seus escritos. Ao contrário.



terça-feira, 22 de janeiro de 2013

na rede


Dizem que as crianças, hoje em dia, desde cedo aprendem a entrar na rede, e dela não querem sair. Acho que seja mesmo verdade. O pequeno Heitor, por exemplo, entrou na rede, e só saiu na hora de ir embora para casa...




O caso é que é muito bom ficar na rede...



segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Quem conhece esta planta?




É uma planta de jardim, de porte pequeno a médio, tem batata, e solta esse pendão. Da ponta de cada um desses bracinhos, vai saindo uma bolinha vermelha. Esta já tem uma bolinha plenamente desenvolvida, e outra que está começando. 



domingo, 20 de janeiro de 2013

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

domingo, 13 de janeiro de 2013

As estrelas lilases da petrea


Por vezes ela me surpreendia, no caminho por onde eu passava, com suas muitas florinhas lilases em forma de estrelinha, pendendo dos galhos, e depois fazendo um tapete delicado no chão. Imaginei que poderia plantar uma muda na varanda de minha casa, e ter aquele nascedouro de estrelas lilases pertinho de mim. Eu poderia, assim, sonhar com constelações, olhando suas floradas...

Mas eu sequer sabia seu nome...

Então, na primeira tentativa, conseguimos alguns pequenos galhos da planta que enfeitava o caminho por onde eu passava. Tentei fazer mudas com as estacas. Sem sucesso. Elas não criaram raízes.

Numa banca de jardinagem, D. Rosa, depois de me ouvir a descrição da planta, explicou: "O nome dessa trepadeira que você quer é pletléia" (sic). Ela quase dava um nó na língua para pronunciar a estranha palavra. Explicou, também, que as pessoas chamavam, às vezes, de viuvinha. Pareceu-me ficar mais fácil! E mostrou um pé que tinha no fundo de suas instalações, embrenhada com outras árvores, apinhada lá nas copas. Disse que era difícil de pegar, mas ficou de me conseguir uma muda. Qual nada: continuei a ver navios. Ou melhor: sem minhas estrelinhas lilases.

Andei buscando pelos nomes, e descobri tratar-se da petrea, ou viuvinha, confirmando a informação de D. Rosa. Algum tempo depois, numa banca visinha, o Everaldo conseguiu-me as mudas, já bem enraizadas. Instaladas em seus vasos, em menos de um mês, eclodiam em folhas novas. E começaram já a me presentear com suas pequeninas estrelas! Uma festa!








Do rascunho ao livro... do livro aos corações



5º livro de poemas e crônicas de Alice Vieira Martins, lançado pela Editora Thesaurus.



sábado, 12 de janeiro de 2013

flor, borboleta, ave...

Para D. Alice, mocinha acanhada
 que encantava os moços nos bailes,
 e me contou esta história.

A mocinha, cabocla linda, encantou o moço da cidade, que caiu de amores por ela. Aos domingos ia visitá-la, na rocinha do pai dela, e a cercava de galanteios. Ela encabulava-se, sem saber ao certo o que responder. Não queria fazer fiascos. Caipira que era, dizia a mãe.

Num desses dias, o moço suspirou, entre uma pausa e outra, quando parecia faltar assunto:
- Você é tão linda, é como uma flor! (tudo bem, ele não era criativo, nem um pouco. Não conseguia ir meio palmo além do convencional...)

Ela respondeu, fazendo uma confissão (que bem lembra a poesia de Manoel de Barros...):
- Flor? Antes fosse braboleta. Gosto tanto de ser ave...


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

condição humana, condição animal



Que fique claro: meu profundo respeito aos animais não considera a menor possibilidade de desejar trazê-los à condição humana. Ao contrário: observando-os, relacionando-me com eles, recupero minha condição animal. É desde ela que vou ao encontro deles. 

Isso supõe disposição para os exercícios de alteridade. Inquieta-me imaginar como me percebem, o que vêem em mim. Haveria alguma forma de comunicação possível entre nossas naturezas?

Por isso, que não se espere, de mim, tratamento antropomorfizado a gatos, cães, pássaros, ou o que quer se seja. Aliás, acho mesmo que se há alguma saída para a humanidade, será acionado por seu lado animal.


domingo, 6 de janeiro de 2013

A Bruxa e a Jornalista


Às Madame Mims que ainda resistem, por aí,
 preservando suas singularidades.

Já faz muito tempo, chegou-me às mãos uma história em quadrinhos que me instigou a pensar muitas coisas sobre a cultura urbana, a sociedade do espetáculo, a lógica do mercado. Já não sei onde foi parar a revistinha, também não saberia ser fiel à história original. Por isso a reinvento, realçando certas cores e urdindo traços que me ajudem a aproximá-la mais das minhas questões e perguntas. Que se me permitam tais liberdades. A história trata de um conjunto de eventos desencadeados a partir do encontro entre duas personagens cujos mundos são muito distintos: a Bruxa e a Jornalista.

A Bruxa era uma velhota que vivia quase isolada numa floresta, ocupada com suas plantas, seus animais e as fórmulas secretas de suas bruxarias. A vida era boa e seguia sem maiores sustos - além daqueles resultantes de alguma poção com efeito indesejado. Até o dia em que a Jornalista, integrando um tour de ecoturismo, perdeu-se do seu grupo e dos guias, embrenhando-se na mata. Depois de muito tempo tentando encontrar o caminho de volta, saiu no quintal da Bruxa.

Como primeira reação, a Jornalista animou-se por ter encontrado alguém em meio à selva. Sentiu-se a salvo. Em seguida, foi tomada por um certo déjà vu, talvez sentindo-se a própria Maria, desta vez desacompanhada do parceiro João, chegando a uma estranha casinha (embora não fosse feita de doces...) habitada por uma ainda mais estranha criatura. Quase sentiu medo. Afinal, ali, sem maiores contatos sociais, a Bruxa não se preocupava muito com a aparência: os cabelos quase grisalhos despenteados, a blusa muito solta por fora da saia, a saia muito larga de tecido escuro surrado pendia até o chão, e as chinelas batendo-se contra o piso iam conversando uma com a outra pec-pepec-pec-pepec-pec-pepec às passadas irregulares dos pés que as calçavam. Um gato, uma coruja, um sapo, e outros animais pouco habituais para os habitantes da cidade compartilhavam o espaço com ela.

A Bruxa também não gostou nada da novidade, tão logo descobriu a visitante nas redondezas. Não deixou dúvidas quanto ao desagrado: declarou que se fosse dali! Mas a moça não podia, pois não sabia como ir embora. Pediu para ficar só um pouquinho, enquanto retomasse o fôlego, bebesse um gole de água. Pediu, também, que ensinasse a saída daquele labirinto verde que lhe afigurava a floresta.

Fazer o que? A moça ficou, um pouco. E demorou-se pouco mais, e foi delongando a estadia, só mais um pouquinho, à medida em que ia descobrindo, com fascinação, o quão interessante era a Bruxa, e o quanto esse achado poderia lhe render bons frutos.

Aqui vale uma pausa para algumas observações. Chama-me a atenção a sofreguidão com que buscamos a novidade, o singular, o desconhecido, tomando tais referências como a saída para a mesmice, o rotineiro. Novidade como remédio para a rotina: a primeira, mercadoria buscada por consumidores em vias de se entediar a cada instante; a segunda, a ameaça que ronda os dias, temida por consumidores aflitos, pressionados a mostrar imagens novas, a relatar a última sensação impressionante, ou registrar a mais recente constatação transformadora de seu modo de ser e estar no mundo... Mas a corrida em busca da novidade, do diferente, está também entre os produtores culturais, entre aqueles que assumem os papéis de cientistas e intelectuais, capazes de produzir interpretações sofisticadas sobre sua realidade... Como se já tivéssemos compreendido o bastante o que nos cerca, como se já nos conhecêssemos o suficiente, e às paisagens familiares aos nossos quotidianos... Puis...

A Jornalista entendeu estar diante de uma pessoa cujo estilo, cujos afazeres, cujo modo de vida eram desconhecidos das gentes da cidade. Anunciá-la no contexto urbano poderia lhe render boas matérias. A mais, ela faria a gentileza de dar visibilidade à Bruxa, trazendo-a ao contato com milhares de pessoas, que poderiam conhecê-la, aprender com ela. O desconforto inicial sentido pela velha senhora foi dando lugar à curiosidade sobre como seria a cidade, como seriam seus habitantes. E também à vaidade por ter seu mundo reconhecido por alguém que vinha de longe, que conhecia outros lugares, e tinha parâmetros para separar as coisas relevantes das coisas não relevantes. Baixou a guarda. Mostrou algumas poções. Explicou as funções de algumas plantas, os movimentos das estações, as relações com os animais. A jornalista anotou tudo, sem perder qualquer detalhe. Embora não se arvorasse a produzir relatórios científicos, mas textos jornalísticos, realizou o que muitos pesquisadores chamariam de etnografia intensiva.

Ao final de alguns dias, seguiu de volta para a cidade, portando dados aos quais ninguém antes dela tivera acesso. Escreveu matérias, explicou o que vira, despertou a curiosidade dos leitores que desejaram conhecer a Bruxa pessoalmente. Então ela retornou à floresta, aprendido já o caminho, e convidou a estranha senhora a participar de programas de entrevista, a serem veiculados em canais abertos e fechados de televisão, circuitos de internet, além das matérias a serem veiculadas em jornais e revistas. Curiosa com o que se descortinava à sua frente, a Bruxa cuidou das plantas, apagou o fogo, fechou o bocal do poço, cerrou janelas e portas de sua pequena casa, e afastou-se dali - coisa que nunca fizera antes - levada pela Jornalista.

Tudo aconteceu muito rapidamente: a Bruxa tornou-se o assunto principal entre as pessoas, teve seu rosto estampado na capa de revistas, programas discutiam suas receitas no uso de plantas, estilistas produziram coleções inspiradas em seu desapego ao fútil. Ela passou a ser chamada a falar em programas ao vivo, em redes de televisão, tratando de questões sobre o amor, relacionamentos, saúde, autoajuda, nova era, meio ambiente, autossustentabilidade, comportamento, consumidores compulsivos... É claro que ela nunca tinha muito tempo para falar, logo era interrompida pelos apresentadores, que passavam a palavra para o auditório mais animado, ou algum repórter de plantão que tivesse uma informação de última hora para acrescentar à discussão.

A Bruxa era conhecida nas ruas. Alegrava-se cumprimentando os passantes, que se dirigiam a ela como velhos amigos, parentela extraviada, quem sabe? Como ela não tivera, antes, a oportunidade de conhecer aquelas gentes tão acolhedoras? Quanto tempo perdido!

Mas houve quem não tivesse gostado daquela história toda: a diretoria da Associação Internacional das Bruxas, que acionou a Comissão de Ética e convocou a Bruxa a uma reunião de caráter extraordinário. Ela então voltou à floresta, para se explicar sobre as aventuras dos últimos tempos. No entanto, as explicações dadas não foram suficientes para entusiasmar, muito menos para convencer a congregação sobre sua conduta, pois aqueles segredos jamais poderiam ter sido trazidos a público. Apesar de alguns cuidados tomados por ela na seleção dos itens divulgados - apenas receitas ingênuas e de pouca expressão na cultura bruxesca - a sentença foi unânime: suspensa, durante um ano, de suas atividades, ficou proibida de fabricar qualquer poção, fazer qualquer feitiço, rogar qualquer praga, usar qualquer ferramenta de mágica, usar qualquer vegetal ou animal com poderes especiais. Ao final do período estipulado, deveria se apresentar, novamente, à Comissão de Ética, para ser reconduzida às suas funções.

No fundo, no fundo, a Bruxa não ficou chateada. Ela pensou que poderia viver muito bem, durante esse ano, entre as pessoas que a admiravam, queriam saber sua opinião, e imitavam sua forma de se vestir, falar, explicar o mundo. Ao final do castigo, retomaria sua vidinha na floresta, com seus animais, plantas e poções. Sem reclamar, acatou a sentença, e voltou para a cidade, ansiosa por reencontrar seus fãs.

Chegando, começou a cumprimentar os passantes, que a olharam de modo estranho, sem corresponder ao seu entusiasmo. Então ela notou que já ninguém usava roupas parecidas com as dela. O que ocorrera durante os dias em que estivera fora? Na banca, outros rostos estavam estampados nas capas das revistas e nos jornais. Sem compreender, perguntou ao jornaleiro porque parecia que todos se haviam esquecido dela. Ouviu a confirmação: não parecia, de fato todos se haviam esquecido dela, pois estavam ocupados com a mais última novidade. Ele mostrou a foto de uma jovem que usava uma panela na cabeça. Só então a Bruxa olhou à volta e percebeu que muitos passantes levavam panelas na cabeça. Umas grandes, outras mais justas, umas de metal brilhante, outras de metal fosco. Tinha até umas coloridas.

Que maçada!

O que tinha passado desapercebido à Bruxa era um traço fundante no comportamento das pessoas às quais ela fora apresentada: a atração pela novidade se acaba tão logo o item disponibilizado é devorado com frenesi. Aos glutões, cujo paladar logo se entedia do prato oferecido, são trazidas as próximas novidades, e as seguintes, e outras mais, ao infinito. Àquelas alturas, a jornalista, promovida pelo último belo achado - a própria Bruxa - , muito provavelmente já estaria em outras paragens, à caça de outras figuras exóticas, para ampliar seu currículo.

Por sua vez, à Bruxa, banida por um ano do convívio com a comunidade das bruxas e já esquecida pelo seu fiel público citadino, não restou outra opção que não a de providenciar uma panela, metê-la na cabeça, e perder-se em meio à multidão que transita pelas ruas. Seguiu, anônima, destituída daquilo que fazia dela singular, buscando caminhos para reencontrar modos próprios de ser e estar no mundo.

Os labirintos da cidade lhe pareceram muito mais difíceis de serem percorridos e reconhecidos que os labirintos da floresta...



sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Faculdade de Artes Dulcina de Moraes agoniza...



São muitas, e instigantes, as histórias entrelaçadas a respeito da vinda da atriz Dulcina de Moraes para Brasília, bem como sobre a instalação da Fundação Brasileira de Teatro no coração da cidade, num dos edifícios do Conic, onde foram abrigados o Teatro Dulcina de Moraes/FBT e a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes/FADM.

A atriz, que assumiu protagonismo no cenário do teatro brasileiro no século XX, fundou, ali, um centro de formação de atores e diretores, e arte-educadores no campo do teatro e das artes visuais, além de cumprir papel importantíssimo de difusão cultural, numa sala de teatro ampla e bem equipada, e nos vários andares da faculdade. 

Soma-se à estrutura da instituição o contexto em que ela está localizada: o Setor de Diversões Sul, talvez um dos ambientes mais diversificados e ricos dentre os quantos de Brasília: reúne centrais sindicais, livrarias, escolas, lojas, consultórios, boates, bares, restaurantes, inferninhos, templos, galerias, ONGs, OSCIPs, estacionamentos e passagens labirínticas, corredores uns que levam a saídas outros que dão em nada, por onde transitam os públicos mais radicalmente diversos. Ali, como parte ativa da vida pulsante de tantas gentes e seus modos de se instalar, as gentes que avivavam a FBT e a FADM.

Dentre meus trânsitos naquele espaço, lembro-me de alguns espetáculos inesquecíveis, nos quais encenaram companhias de teatro argentinas, figuras do calibre de Bibi Ferreira, entre outros. Lembro-me, também, de momentos experimentais, quando grupos os mais diversos levavam resultados de seus exercícios laboratoriais, numa efervescência no mínimo instigante. Desse meio, surgiram, por exemplo, Adriano e Fernando, os Irmãos Guimarães, reconhecidos artistas cujo trabalho trespassa limites demarcatórios entre teatro, performance, artes visuais, arte contemporânea.

Ao mesmo tempo, a Faculdade cumpriu um papel social da maior importância, por assegurar condições de participação, em seus cursos, de segmentos da população que não teriam acesso aos cursos na Universidade de Brasília. O perfil de seus estudantes, no mais das vezes, era de trabalhadores pobres, que podiam conjugar jornadas de trabalho esfalfantes com a jornada de estudos prevista para os cursos ali oferecidos, concentrados no período noturno. Enquanto isso, durante muito tempo, na Universidade de Brasília, os cursos de mesma natureza só eram oferecidos durante o dia, envolvendo o estudante em aulas matutinas e vespertinas.

Muitas gerações de arte-educadores foram formadas ali, e passaram a integrar as redes públicas e privadas de ensino no Distrito Federal. Muitas gerações de atores foram iniciadas naqueles palcos, naquelas salas de ensaio. Muitos professores começaram a atuar no ensino superior em suas salas de aula.

Ao final de meu curso de mestrado, comecei a ensinar ali. Pude experimentar modos de discutir e construir aprendizagens na formação de professores de artes visuais. Como professora, conheci o histórico complicado da faculdade quanto a atrasos frequentes no pagamento dos salários. Durante o período em que lá atuei, salvo uma ou outra situação que não tardou a ser resolvida, não houve maiores problemas. No entanto, pude constatar uma estrutura administrativa cheia de zonas sombrias, mau funcionamento, pesada, sem dinâmica. Um rosário de queixas intermináveis era desfiado toda vez que o tema fosse evocado. Mas nunca havia solução competente. O que parecia inexplicável, considerando que não se tratava de uma estrutura tão grande.

As crises pareciam alimentar o funcionamento da instituição, na mão de seus gestores. Mas, a cada nova crise em que mergulhava, na sequência emergia um pouco mais degradada.

Quase uma década depois de me haver desligado da faculdade, sou informada sobre os passos finais para o seu fechamento definitivo. Assaltam-me nostalgias e perguntas: o que será feito do acervo de figurinos de Dulcina, ali guardados? E do teatro? Eu já testemunhei o processo pelos quais algumas das boas salas de cinema daquele centro comercial foram transformadas em templos. Seria esse o destino do Teatro Dulcina?

Lamento que, ao final de pouco mais de 3 décadas, a Fundação Brasileira de Teatro e a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes agonizem como indigentes, tendo cumprido da melhor maneira o papel social, cultural e artístico que lhes coube no cenário cultural de Brasília. Que novos tempos se abram, e seus discípulos, hoje atuando em quantas frentes, possam assegurar os desdobramentos dos projetos ali iniciados.

Que seja dado o terceiro sinal. O espetáculo não pode parar!



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

o irmão extraviado


O menino dormia no banco de trás do carro quando o irmão desembarcou em frente ao clube onde treinaria com seu time de futebol até o final da tarde. Só acordou alguns quilômetros adiante, já em frente de casa, enquanto a mãe manobrava o carro para estacionar na garagem. Ainda meio zonzo, o menino olhou à sua volta. E então decidiu manifestar-se, de modo veemente:
- Mamãe, você me decepcionou!
- Por que, meu filho?
- Você perdeu meu irmão no caminho!



terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Será o Homem uma doença planetária?


Reproduzo, aqui, um texto que encontrei no site http://www.simbiotica.org

Muitos estudiosos têm descrito a espécie humana como uma doença planetária, muito semelhante ao cancro. Consideram o crescimento da civilização algo maligno, que está a destruir o ecossistema global. Esta analogia pode ser descabida e absurda à primeira vista mas é espantosamente correta.

Se considerarmos o Homem como o cancro e o meio ambiente como o tecido saudável, a história das atividades humanas revela as quatro características principais dessa doença:
·         crescimento rápido e descontrolado;
·         invasão e destruição do tecido adjacente (ambiente);
·         metástases (colonização e urbanização);
·         indiferenciação (homogeneização e globalização da cultura).

Além disso, modelos matemáticos mostram que os detalhes da disseminação da civilização são muito semelhantes aos do cancro. 

A analogia do cancro resulta até com a equação do impacto ambiental I = PT. O crescimento da civilização tem testemunhado tanto um aumento do número de pessoas p, como um aumento da tecnologia que faz crescer T, a taxa de empobrecimento e poluição do meio por pessoa. Também no cancro, muitas células doentes utilizam mais nutrientes e produzem mais resíduos que as células normais, com menor taxa de crescimento.

Esperemos que esta chocante analogia não se estenda à sua característica última: as células cancerosas acabam por morrer ao matar o seu hospedeiro... 

As células cancerosas não podem, obviamente, pensar mas o Homem pode construir uma sociedade que se assemelhe mais a um tecido saudável, sem crescimento bruto e produzindo menos resíduos. Duas estratégias são possíveis:
·    reduzir p - o crescimento incontrolado da população pode ser substituído por um renovar da população (cada célula é substituída quando morre), não ocorrendo crescimento no total;
·     reduzir T - substituir as tecnologias poluentes e caras do ponto de vista de recursos por outras mais eficientes, que utilizem menos (e renováveis) recursos e sejam menos poluidoras. Esta estratégia reduziria o impacto i no meio per capita

Acesso em 1 de janeiro de 2013