domingo, 30 de outubro de 2011

deixem quietos os demônios


p/ Nana, minha querida amiga.
 
"Então uma pessoa não tem o direito de dormir em paz, que o telefone fica tocando, tocando, até me acordar? Ah neeeeim!", reclamou com veemência, minha amiga, depois de eu tê-la, insistentemente, chamado ao telefone, no início da noite de sábado. Acordada, decidiu fazer faxina em casa. Para provocá-la, em relação à pouco usual destinação de seus horários e atividades, questionei -"E isto lá são horas de fazer faxina em casa, criatura?" Sua mãe também fica contrariada com essa mania que ela tem de limpar a casa à noite, lembrou-se. Quando resolve varrer as calçadas, já escuro, ou limpar móveis e o chão, a mãe a adverte quanto ao fato de que os demônios dormem durante o dia, e despertam à noite. Mas ficam quietos, observando tudo. Se, por descuido, você mexe com eles, eles se irritam. Não queira tê-los irritados em casa! Isso pode acontecer, por exemplo, quando você usa a vassoura durante a noite, ou tira os móveis do lugar.
Deixem quietos os demônios. Ou então, aguentem as consequências!


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Delícias do Mercado Municipal da Rua 3


Na primeira banca, perguntei: “O senhor tem cancorosa?”. Ele me olhou, e disse, com firmeza, que não. Apontou, ainda, que eu procurasse na banca ao lado, talvez ali pudesse encontrar. Fiz a mesma pergunta ao vizinho, que também respondeu negativamente, sem hesitação. Questionado sobre onde eu poderia encontrar, apontou a banca da frente, observando: “Ela é que costuma ter essas coisas estranhas”. Compreendi, então, que ele não sabia o que era cancorosa. Achei graça, e perguntei pelo outro nome: espinheira santa. Ah, isso ele tinha! Trouxe-me um pequeno saco de plástico, com as folhas bem esmagadas. Observei que, na verdade, eu queria as folhas inteiras. Ele me explicou que as folhas inteiras ocupam muito espaço, e precisam ser embaladas em sacos maiores. Os sacos estão caros. -“A gente espatifa ela bem espatifadinha, aí elas cabe do saco menor. Fica mais barato”. Tinha espatifado tanto, que parte dela virou farinha... Insisti na preferência às folhas inteiras, e ele recomendou, novamente, a banca da D. Eulália. A velhinha é graciosa, tem uma banca cheia de folhas medicinais, artesanato, cerâmicas, e outras quinquilharias. É famosa: já apareceu em vários programas de televisão, está acostumada a ser entrevistada. Artista, ela. - “A senhora tem espinheira santa?”; - “Tenho sim, minha filha!”; -“E a que a senhora tem, é inteira ou espatifada?” (eu aprendo rápido!). Era inteira. –“Cuidado, minha filha, para não machucar sua mão com os espinhos!”. De quebra, troquei uns dedos de boa e divertida prosa, e comprei mais alguns pacotinhos de marcela amarelinha, cheirosa...

Na saída, resolvi procurar por uma caneca de alumínio de boca estreita, alta, com tampa, para fazer café. Queria presentear um casal de amigos. Na parte superior do Mercado, na primeira loja, mostrei, com as mãos, as dimensões da caneca. A senhora que me atendeu repetiu meu gesto, observando o que dispunha nas prateleiras. Não encontrou: as canecas que tinham a altura solicitada eram bem mais largas; se tinham o mesmo diâmetro, eram bem mais baixas. Não me serviam. Então sua curiosidade foi despertada. –“O que você vai fazer com ela? Vai ferver leite?” Na verdade eu não queria entrar em detalhes sobre o uso que seria feito. Bastava a informação: tem ou não. Além disso, não tinha a menor intenção de comprar uma com outras dimensões. Ela decidiu investigar o destino que eu daria à tal caneca. Tentei ser breve: - “É para fazer café”. Sabia que não deveria ter dado início às explicações. Àquelas alturas, tinha me metido numa encrenca, pois ela teria vários contra-argumentos, na tentativa de me vender alguma das que ela tinha. –“Fazer café? Mas esta dá!...”, mostrando-me outra. Expliquei que não servia. –“Mas o que você vai fazer com o café?" Eu precisava para torrar o café. –“Mas você torra o grão, ou o pó?”. Ri-me: -“Torro ligeiramente o pó, com algumas misturas...”; -“Ah, então você mistura o pó de café com outras coisas...”. Expliquei que, na verdade, era o tempero do café... Neste ponto da conversa, eu já estava na loja seguinte, e já constatara que ali tampouco havia a tal da caneca. A senhora, que me seguira até ali, acenou, simpática, para mim, de volta à sua loja: -“Você precisa me ensinar essa receita, viu?”. Encontrei a caneca na última porta, quase na boca da rampa que dá acesso à saída. Era a única na prateleira.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Um ponto médio entre o frio e o calor



Conversava, ao telefone, com meu amigo residente em Curitiba - que, a propósito, recebeu recentemente o título de cidadão honorário. Notícias de lá, notícias de cá, ele comentou: -"Aqui agora está bom, começou a fazer calor..." Eu o interrompi, comentando que aqui também o clima estava mais confortável. Fresco, foi o adjetivo com que o qualifiquei. E ia acrescentando que hoje, pela manhã, a temperatura estaria por volta de... quando ele interceptou minha fala, antes que eu concluísse, fechando a ideia do que queria dizer com "fazer calor":  -"Hoje está 22ºC". Rimos. Essa era a temperatura à qual eu me referia, quando falei no frescor destes dias, pelas bandas de cá...

Dias quentes, frios, frescos: tudo depende do ponto de partida em relação ao qual se estabelecem os parâmetros de comparação...


sábado, 22 de outubro de 2011

Exercícios de alteridade – cegos e surdos


p/ Albertina Brasil

Durante um evento voltado para artistas portadores de necessidades especiais, visitávamos a exposição do fotógrafo esloveno Evgen Bavcar. Eu me demorei diante de cada imagem, provocada pelas questões às quais ele nos empurrava, sobre o ato de ver, de produzir imagens, sobre a experiência estética.

Ela entrou na sala de exposições, completou o circuito rapidamente, emitiu seu parecer numa sentença breve: “Muito bom!”. Já ia se retirando, quando eu a interceptei à porta: -“Você já conhecia? Sabe quem é?” Não sabia, nunca vira... Então eu pronunciei as palavras definitivas: -“É cego...” Cego? Um fotógrafo? Voltou para a sala, e olhou, inconformada, cada fotografia, perguntando-se como poderia ser, aquilo?

Dez anos se passaram desde então. Agora era ela quem propunha performance e exposição na galeria universitária. Surpreendi-me com a notícia de que um acidente vásculo-cerebral a deixou surda. E ela tornou-se amarga e ácida, no trato pessoal como em sua produção artística.

Saudades do porte galante, sedutor e vaidoso de Bavcar.




Bicycle with swallows. Evgen Bavcar 



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Poética da Alteridade - Amarelo

O amarelo, curioso e vibrante, queria aprender como era ser azul. Moveu-se na escala cromática. Experimentou outros pigmentos que refletiam diferentes comprimentos de onda de luz. Deixou-se impregnar de não-amarelos. 


Quando quis retornar à condição original, já não conseguiu se purificar dos muitos fragmentos incorporados no caminho. Tornara-se amarelo-limão intenso. 


Por vezes sentia saudades de ser azul novamente, e retomava a posição do outro. Na volta, a cada vez, era um pouco menos amarelo.


Um dia, percebeu que já não pertencia à categoria dos amarelos. Tampouco dos azuis.


Tornara-se verde.



                                                  "Professora, quando misturo estas duas cores, elas desaparecem: morre o amarelo, morre o azul, e aparece este verde!"


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Medo das utopias...



Les utopies apparaissent comme bien plus réalisables qu’on ne le croyait autrefois. Et nous nous trouvons actuellement devant une question bien autrement angoissante: Comment éviter leur réalisation définitive?... Les utopies sont réalisables. La vie marche vers les utopies. Et peut-être um siècle nouveau commence-t-il, um siècle où les intelectuels et la classe cultivée rêveront aux moyens d’éviter les utopies et de retourner à société non utopique, moins ‘parfaite’ et plus libre.

Nicolas Berdiaeff, in Brave New World (Admirável Mundo Novo), escrito em 1932, por Aldous Huxley.


domingo, 16 de outubro de 2011

Viagem pelo firmamento

p/ Fernando Pessoa

Ficava ali, deitada de costas. O gramado alto, à minha volta, tirava do campo de visão a casa, o curral, os cercados, e outros aparatos que me pudessem lembrar as instalações domésticas quotidianas. Apenas avistava a copa das árvores de onde partiam revoadas de passarinhos, recortando o céu na tarde quente.

Meu corpo estava colado ao chão, o que me dava certo conforto, pois sentia vertigens só em pensar que poderia cair no vácuo aberto à frente...

Imaginava seguir numa nave – o Planeta Terra – que avançava no espaço, Sistema Solar afora. Os pássaros recortavam os ares, abrindo o caminho para ela. E eu ali, miúda, agarrando-me à sua superfície, vivendo a ventura sentir o peso do firmamento nos próprios ossos, e experimentando o medo de me perder nele...

Medo de me perder? Nalgum dia, por acaso, já teríamos sabido ao certo por onde andamos navegando, universo adentro? Quem detém o mapa dessa viagem? É certo que não andamos, meio perdidos, por aí?


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Sobre uma aula de como ser professor, em véspera do Dia dos Professores.


p/ Janaína, menina de belo sorriso e fala sincera,
e Marcelo, testemunha desse momento de aprendizagem.

Do outro lado da sala de aula, a menina me olhou, levantou-se e veio, decidida, em minha direção. Apoiou-se na carteira onde eu estava sentada e perguntou-me:  - "A senhora está aqui para orientar a professora?". Demorei alguns instantes para entender o que ela queria saber. Continuou no seu propósito: - "Fala para ela mudar, fala? Ensina ela? Não dá para ser como ela faz! Ela passa texto toda aula, pede prá gente copiar, e fica na sala, sem fazer nada. Nem conversa com a gente sobre o texto. Só pede pra gente copiar. A gente copia, e ela nem dá moral, nem vale para a nota, para nada...". A professora aproximou-se, mas ela continuou a falar, sem se intimidar. Mas não assumiu qualquer tom agressivo: sua voz era serena, embora firme, e o raciocínio era de uma clareza estonteante. Em poucas frases, a adolescente deu uma aula de didática com a pulsação de quem vive cada dia, cada tempo perdido na escola, cada sonho distanciado pela aprendizagem não construída. Explicou-me, por exemplo, que professor tem que ter autoridade com os alunos. E que autoridade não é grito, mas voz firme, saber o que fazer, propor coisas que façam sentido, e ocupar os alunos todo o tempo. Perguntei-lhe o que ela sugeria que fosse feito. Ela disse que o texto poderia ser explicado pela professora, que poderiam ler trechos juntos, que a professora poderia propor alguma coisa para ser feita ligada ao texto. Depois admitiu que, quando a professora pede que produzam objetos, e desenvolve atividades práticas, a aula é boa, e ela gosta muito. Mas isso não acontece com frequência. A professora ficou por perto, ouvindo a conversa. Depois observou: - "Está aí, fazendo seu relatório, não é?". Ela sorriu: - "Mas é assim mesmo! Pode olhar!".

A chuva caía pesada lá fora, inundando o pátio da escola, fazendo respingos dentro da sala, através dos vidros quebrados das janelas. Ela confessou que só veio à aula para não ter que arrumar a casa. Depois voltou para sua carteira, entre a agitação dos colegas.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Entre o macro e o micro

p/ Alexandre, o Grande, Marx, Freud, Mao Tsé-Tung,
Che Guevara, Steve Jobs, e quantos outros.

Fico imaginando como seja o convívio diário com grandes homens (são poucas as mulheres na lista das grandes personalidades, essas que tenham marcado profundamente a história da humanidade...). Considerando que sua grandeza está em não se imiscuir com pequenezas, e que o convívio é assunto do quotidiano, é de se supor que esse compartilhamento das pequenas coisas do dia a dia não seja dos mais fáceis...

Afinal, não é toda grandeza que habilita as pessoas à construção, dia a dia, ponto a ponto, das malhas que ligam as pessoas, como a tecedeira que monta seus lençóis e mantas impregnadas de aconchego.

Grandes homens estão, quase sempre, muito ocupados com itens relativos ao macro: macro-estrutura, macro-economia, dimensões macro da existência humana... Não dispõem-se a perder seu tempo pensando no dia a dia, em pequenos pontos, nas coisas práticas da vida (coisas de que mais se ocupam as mulheres...).


Mas, onde reside o humano? Talvez não resida: em fluxos, o humano pulse entre o macro e o micro, entre o grandioso e as pequenas ações do quotidiano...

Pergunto-me, então, onde encontrar as pessoas cuja sabedoria lhes permita transitar entre o macro e o micro, entre o quotidiano e as questões que dizem respeito à humanidade...

Essas, provavelmente, anônimas, ou quase, sequer constem dos anais das histórias...




terça-feira, 11 de outubro de 2011

Flash Mob Temporada das Chuvas



FAÇA CHUVA OU FAÇA SOL, VENHA COM SUA SOMBRINHA, AO LARGO DAS ROSAS, CELEBRAR A TEMPORADA DAS CHUVAS!

Flash Mob Temporada das Chuvas
Data: 15 de outubro de 2011
Horário: das 15h às 16h
Local: Largo das Rosas, Setor Oeste - no lado da Av. Anhanguera
Ação: passear com guarda-chuvas e sombrinhas coloridas abertos pelo parque do Largo das Rosas.

Precisamos nos mobilizar, para reunir muitas pessoas, muitas sombrinhas e muitos guarda-chuvas!
Ajudem a divulgar!



domingo, 9 de outubro de 2011

Presente de aniversário


p/ D. Dionísia - por onde andará?

Quando fiz 10 anos, D. Dionísia me deu, dentro de um envelope de carta, uma nota de não me lembro quantos dinheiros. Tampouco me lembro da moeda vigente à época, talvez fosse Cruzeiro Novo. Importa saber que o valor era mais do que ela poderia dar, e também mais do que eu houvera ganhado até então de alguém que não fosse da família.

No dia seguinte, fui a uma agência bancária, abri uma conta poupança, e depositei o valor. Imaginava resgatá-lo quando fizesse 18 anos.

Quatro anos depois, mudei-me de cidade, fui estudar na capital. Aos 18 anos estava já na universidade, envolvida com inúmeros projetos e atividades. Não me lembrava mais da poupança.

Talvez mais de uma década depois, ocorreu-me buscar o banco, perguntando sobre a existência de algum registro sobre a primeira conta bancária em meu nome. Para minha surpresa, não só a conta existia, como os poucos dinheiros depositados tinham acompanhado as oscilações da economia. Saquei o valor, com o que provavelmente tenha comprado alguns livros e pago algumas contas miúdas.

Presente cujo sabor se desdobrou no tempo. E reverbera ainda hoje.




sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Goiânia Prosa e Verso, uma coletânea e um copo de coca-cola


p/ Prof. J. Bamberg, amante da poesia, da boa prosa, e de coca-cola

Um amigo querido lançou seu livro de poesias na coleção Goiânia Prosa e Verso, num evento de grandes dimensões no maior shopping center da cidade: quase duas centenas de escritores assinando obras da coleção, e por certo mais de um milhar de pessoas a circular no local, levando consigo volumes devidamente autografados. Ao lado da mesa do nosso anfitrião, uma moça delicada guardava um conjunto de livros, também de poesia. Ao alcance de sua mão, um copo de refrigerante com borbulhas frescas, no ambiente quase abafado. Meu esposo aproximou-se e lhe perguntou: -"A senhora é responsável por estes livros?". A pergunta despertou a moça de uma certa letargia. Rapidamente seus olhos brilharam, ela empertigou-se na cadeira, abriu um sorriso e explicou que os poemas eram do avô. Ela organizara a obra. E começou a contar a história do avô, por quem cultivava especial admiração.

Numa pausa breve que fez, meu esposo atalhou, indo ao ponto de seu interesse, de fato: - "Onde a senhora conseguiu essa coca-cola? Andei procurando por uma, mas não encontrei..."

A moça atrapalhou-se nas palavras. Olhou para o copo sobre a mesa, pensou. -"Ah, foi minha mãe quem trouxe... não sei onde ela conseguiu. Acho que estão distribuindo por aí..." No rosto, estampava a expressão de quem não sabe se prossegue ou não a atividade discursiva. Então meu esposo retomou o assunto, perguntando mais sobre a obra do avô (embora seu desejo estivesse, mesmo, no copo de coca-cola). Repassando as páginas do livro, deparou-se com um conjunto de poemas que lhe tocaram a sensibilidade. Comprou um exemplar, devidamente autografado por ela. Conversaram longamente sobre literatura, escritores goianos, e outras amenidades.

Mais tarde, a mãe da moça fez a gentileza de trazer mais dois copos com o refrigerante fresco. Um brinde à poesia.



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Diversidades II (ou: encontros do Brasil múltiplo)


p/ Ameline, Ju, Marcelo, Aurisberg e Wolney, meus amados.

Semana Farroupilha...
Por aqueles dias, em todas as cidades do Rio Grande do Sul havia atividades intensas dentro das comemorações pela Semana Farroupilha. Gaúchos orgulhosos desfilavam com suas bombachas, e prendas enfeitavam a paisagem com seus vestidos rodados. Outros gaúchos, longe de suas querências, suspiravam saudades, por mais desarraigados que fossem de suas tradições. Era o caso do grupo de estudantes que explicava, a amigos goianos, a força dessa data na conformação do ser gaúcho. Às tantas, perguntou-se: "E o Dia do Goiano, quando é?"

Não há um Dia do Goiano! Como pode ser? Como pode um lugar não ter um dia quando celebre os fatos e artefatos constituidores dos referenciais identitários de suas gentes?


Pamonhas...
Na sequência, uma das meninas gaúchas confessou uma preocupação: durante as férias, de volta à terra natal, como conseguiria passar os dias sem comer pamonha? E o amigo goiano perguntou: "Lá tem poucas pamonharias?"

Não, não há pamonharias... Como pode existir algum lugar sem pamonharias, ou quaisquer biroscas onde se comprem pamonhas, para que as gentes possam se deliciar com seu sabor, à hora que queiram?...



domingo, 2 de outubro de 2011

Quasar Jovem


p/ Marcus Camargo, meu querido bailarino

Chegaram as chuvas. Com elas, os jovens bailarinos do Quasar Jovem abriram as cortinas do palco, com duas coreografias de pouco mais de meia hora cada. Temporada com duas apresentações no Teatro do SESI, novinho em folha. Casa cheia: outros jovens bailarinos, famílias, amigos, amantes da dança, crianças. No intervalo, um menino com menos de dez anos ensaiava uns passos no saguão, entusiasmado com o que vira na primeira parte do espetáculo.

Trovoadas e os sons da chuva ocuparam lugar na cena, num trecho da primeira coreografia, Pomar. E enormes flores de papel pairaram sobre as cabeças dançantes. Sequência leve, lúdica. Senti vontade que se buscassem relações mais próximas entre movimento e cenário. Por vezes, as flores se impuseram à dança. Desejei que os corpos sobrepujassem aquelas flores...

Na segunda parte, intitulada Por si mesmo, com ambiente mais sóbrio, música impactante, a coreografia ganhou em coesão e densidade. Belo espetáculo, com ritmo justo até o último gesto de fechamento. Bravo!

Sobretudo, impõe-se o mérito inquestionável do trabalho voltado para a formação de jovens bailarinos, muitos dos quais já demonstrando, de modo exuberante, domínio da cena e do corpo como matéria prima de criação.

Que venham as chuvas! Que retumbem os tambores. Há muito o que se dançar. Goiânia tem corpo de baile para isso!

Merda a todos! Quebrem suas pernas!



Anel de Moebius II







Anel de Moebius






Diversidade



pelas calçadas de Copacabana
idosos levam a passear
chinelas impregnadas de memórias
vendedores de chapéu panamá
temem a fiscalização
e corpos dourados pelo sal da praia
são o deleite de olhares turistas...

                                                         Terra Gwayá, 2 de outubro de 2011