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sábado, 14 de dezembro de 2019

Apontamentos de uma viagem de ônibus


Tenho gostos por viajar de ônibus...

Na última viagem que fiz, um senhor sentou-se ao lado de uma senhora à minha frente. Fiquei agradecida por ele não ter se sentado ao meu lado, pois conversou o tempo todo. Mas a senhora parece ter gostado, compartilhando um sem número de histórias com ele. Aposentados, ambos já tinham viajado pela Europa, Estados Unidos da América do Norte. Além disso, foram descobrindo muitos outros pontos em comum.

Não pude deixar de ouvir algumas de suas histórias, contadas de modo muito peculiar.

Ela contou que, na Itália, certa vez, tinha visitado um vulcão. E tinha ficado com medo de ele entrar em atividade. O senhor confirmou o perigo, demonstrando conhecimento de causa. Explicou que do vulcão pode sair larvas... e as tais larvas vão matando tudo que encontram pela frente... sim, as larvas do vulcão são mesmo muito perigosas...

Adiante, foi a vez de ele contar que a esposa tinha feito uma série de exames, incluindo aquele que faz um vídeo do estômago. A palavra endoscopia não apareceu na conversa. Ele prosseguiu nas explicações. Tinham diagnostigado que ela estava com agapilóide. A senhora mostrou-se solidária. Coitada, o tratamento para a agapilóide é mesmo chato e difícil!

Olhando a paisagem pela janela, pensei, entre meus botões: Deus me livre da agapilóide, e também das larvas de algum vulcão!





segunda-feira, 14 de outubro de 2019

De passagem



O que você fez, por onde viajou?
Foi a festas?
Visitou museus?
Assistiu a espetáculos?
Aproveitou para ir a cidades vizinhas?
Duas ou três a cada dia?
Participou de grandes eventos?

Eu? Não…

Observei o movimento das pessoas…
O reflexo da luz do sol nas vidraças
O por do sol no rio
As temporalidades da cidade…
Seus sabores, silêncios e sonoridades

O meu silêncio...




sexta-feira, 10 de agosto de 2018

De viagens, pesquisas de campo e perguntas na bagagem...









Para Manuela Matos Monteiro e Joao Lafuente

Sempre me pergunto: por que viajar? As respostas prontas, essas que todos costumamos dar, não me bastam... Também me pergunto sobre as motivações que me levam a fazer trabalho de campo em minhas investigações. Tampouco as respostas recorrentes a essas questões me satisfazem. Ainda e assim, prossigo em viagens e trabalhos de campo. Mas vou atenta, supondo que viajo, e vou ao encontro de pessoas outras para, em última instância, descobrir mais sobre mim mesma. O embate com o outro, com a diferença, revela nos jogos de espelho a minha própria face. Ou me constitui.

Por volta de 2012 conheci Seu Osorinho, em Serranópolis, uma pequena cidade de certa de 8000 habitantes. Sua paixão por registrar a vida de sua comunidade e as paisagens de seu lugar em vídeo me levou até ele. Depois de estarmos juntos umas duas ou três vezes, em meio a festas da cidade, em 2015 decidi retornar à sua cidade, para conversarmos com calma sobre seu projeto, sua inserção na comunidade, suas lidas com os vídeos.

Mas decidi cumprir os pouco mais de 400km de ônibus. Assim, pensei, eu iria também adentrando, devagar, o território buscado, as suas gentes, os seus tempos, as suas falas. O horário de saída de Goiânia: 10 horas da manhã. Previsão de chegada a Serranópolis: 18 horas, fim da tarde. Ou seja, os 400km seriam cumpridos em nada menos que 8 horas de viagem. Parti.

Algum tempo de viagem, e fizemos a primeira parada para o almoço. Ainda não batera o meio dia. O restaurante de beira de estrada ficou cheio de gente. Comidas regionais, servidas em sistema de autoatendimento. Almoçamos com um olho no prato e outro no motorista que, tão logo concluiu a refeição, tomou seu copo de refrigerante, alongou os braços, e colocou-se pronto para retomar a estrada. Passou ainda na pequena rodoviária da cidade, onde alguns passageiros a mais puderam embarcar. E prosseguimos. Algum tempo depois, chegamos a Rio Verde, uma cidade de médio porte no interior do Estado de Goiás, com intensa atividade agropecuária e economia vívida. Ali, na garagem da empresa, o motorista entregou o ônibus para seu substituto, que terminaria o percurso. Alguns passageiros desembarcaram. Retomando o curso, o ônibus seguiu para a rodoviária propriamente dita, onde mais passageiros desembarcaram, outros embarcaram. Ao final, retomamos a estrada, em direção a Jataí. Trata-se também de uma cidade de médio porte, com uma cultura universitária muito forte. Àquela altura, o campus da Universidade Federal de Goiás já apresentava muita autonomia, tanto que alguns anos mais tarde iniciou o processo para tornar-se uma universidade federal independente.

Quando o ônibus chegou à rodoviária, Seu Osorinho me ligou. Queria saber em que altura eu estava, e a que horas chegaria. Expliquei que estávamos em Jataí. “Ainda!”, foi o que exclamou, a postos, a me aguardar no centro de Serranópolis. Mas, considerando que ainda demoraria, decidiu ir ter com a sua madrinha, com quem precisava tratar de algum assunto pessoal, e retornaria em tempo de minha chegada.

E assim foi: por volta das 18 horas, o ônibus encostou na pequena rodoviária, no centro da cidadela. Serranópolis localiza-se nas cercanias de um conjunto de sítios arqueológicos com desenhos que datam de aproximadamente 11000 anos. As grutas estão protegidas tão somente pela dificuldade de acesso e pelo terreno rochoso. Assim, elas não sofrem ameaças imediatas pelo avanço do plantio de soja e outros itens da agricultura intensiva.

Nos encontramos com alegria e leveza. Seguimos pela rua, eu puxando minha pequena mala, ele empurrando sua bicicleta. Conversamos sobre meu projeto, sobre seu trabalho. Combinamos que, no dia seguinte, eu o acompanharia no seu programa de rádio.

À porta do pequeno hotel, ele me olhou com ternura, mas com firmeza: o que a senhora quer saber, mesmo?

A pergunta de Seu Osorinho nunca mais se despregou de mim. Ressoa entre minhas inquietações. Reclama resposta que não consigo dar. Chego a supor que tenha feito a viagem até Serranópolis, ao encontro de Seu Osorinho, sua câmera e sua sanfona, para buscar essa pergunta, e dela não mais me desfazer.























terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Votos de Boas Festas com sabor de algodão doce




Uma das coisas boas que se pode fazer, quando viajamos, é pedir informações mesmo quando não precisamos, tão somente para ouvir as explicações das pessoas, interagir com elas.

Assim, mesmo sabendo que estávamos no caminho certo para sair rumo à cidade onde residíamos, meu marido resolveu confirmar nosso percurso. Paramos diante de uma pequena barraca, onde um homem vestido de Papai Noel operava um equipamento para fazer algodão doce. Diante dele, e sob seu olhar, um senhor de meia idade, cliente, estava muito concentrado preparando talvez aquele que seria o seu próprio algodão doce.

Nós os cumprimentamos, e meu marido pediu a informação. O senhor, cliente do Papai Noel, voltou-se para nós, sorriu, e começou a explicar que bastava seguirmos em frente, com atenção, pois havia muita fiscalização na estrada. Então aproximou-se do carro e ofereceu-me o algodão doce que ele próprio preparara. Sigam com cuidado, e que Deus os guie. Amém, respondemos. Ele insistiu muita atenção com os radares na estrada. Esses foram os seus votos, que retribuímos, desejando Feliz Natal a ambos, o Papai Noel e o seu cliente.

A vegetação muito verde, em resposta à temporada das chuvas, alongava-se até o horizonte, para encontrar com o céu muito azul, território de nuvens brancas, como o algodão doce enrolado num palito de madeira, preso à minha mão. Não me lembro de ter comido algum algodão doce antes... sempre ouvi da minha mãe que era puro açúcar e, portanto, deveria evitar. Mas ali, avançando pela estrada, aquele em especial tinha gosto de nuvem, céu e cerrado...

Acho que prefiro os Papai Noéis que vendem algodão doce, aos que fingem deixar presentes debaixo de árvores de Natal...

A propósito, que os tempos sejam sempre renovados para todos! Boas Festas!










domingo, 29 de outubro de 2017

Refeição diferenciada para pessoas diferenciadas


p/ o Renato

Nosso voo saiu depois do meio dia, e teria duração de mais de três horas. Como os procedimentos no balcão de bagagens, na polícia, na aduana, etc. em geral são demorados (e de fato demoraram), foram iniciados bem antes do horário do almoço. Por isso, quando embarcamos, ninguém tinha almoçado. Alguns se anteciparam ao voo, servindo-se com algum sanduíche vendido a preço de ouro em lanchonetes do aeroporto, instaladas na área do embarque. Assim, já durante a viagem, quando os comissários de voo começaram a servir o lanche, que consistia num sanduíche com recheio de presunto e queijo e um copo de algum suco de caixinha, a maior parte dos passageiros alegrou-se, apesar do menu precário.

Mas, à minha frente, uma senhora esperou calmamente todos serem servidos. Buscou, então, em sua bagagem, uma sacolinha de papel, de onde retirou uma cenoura crua. Sentada em sua poltrona, com ares de meditação, passou a degusta-la. Cada mordida era seguida de longas e incontáveis mastigadas. Concentrada em sua atividade, comeu duas cenouras cruas inteiras. A certa altura, até pegou o sanduíche que lhe fora entregue. Abriu-o, e eu cheguei a pensar que a cenoura teria sido apenas um aperitivo. Ela iria ceder ao chamado do sanduíche! Enganei-me. Fez um discreto gesto de repulsa, e largou o sanduíche sobre a mesinha, retornando ao último pedaço de cenoura entre os dedos.

Depois amassou a sacolinha e a descartou enquanto os comissários de voo recolhiam copos e plásticos e outros restos deixados pelos demais pobres mortais passageiros, tão susceptíveis ao chamado de sanduíches feitos com produtos processados, e sucos enlatados carregados com açúcares tão nocivos à saúde.

O gesto da senhora da cenoura tinha um traço de distanciamento. Flutuava além dos vícios alimentares terrenos, tão afeitos à sociedade industrial do sistema capitalista.

Ora, dizei-me o que comeis, e direi que, a despeito das diferenças e divergências, eu ainda prefiro a diversidade de possibilidades! Bom apetite!






segunda-feira, 24 de julho de 2017

Conversas com Dona Olga

No pequeno restaurante, Dona Olga atende os fregueses com gentileza: monta os pratos feitos, arruma a mesa, serve o café, oferece sempre um sorriso tímido, fala pouco.

Pela manhã, fugindo à regra, desatou a conversar. Estava às voltas com uma questão que a inquietava: De que vale homenagear as pessoas depois que elas já morreram?

Interessei-me por sua pergunta. Começamos a conversar sobre o assunto. Ela contou-me de uma senhorinha que, em vida, era muito só. Deixou sua herança para um projeto social de sua cidade. Então, e só então, os membros desse projeto, e seus vizinhos, e demais moradores do local descobriram que ela tinha um acervo com grande valor cultural. Em razão disso, organizaram várias homenagens a ela. Mas, como insistia Dona Olga, tais homenagens não chegaram à senhorinha... Eram, na verdade, uma espécie de redenção da comunidade pelo não reconhecimento a ela, em vida.

Contei-lhe a história de Van Gogh que, em vida, teve apenas uma pintura vendida, e atualmente seus quadros estão entre os mais caros no mercado da arte. Lembrei também da artista Artemísia e sua dramática história. Ela então ponderou que, se hoje as mulheres vivem circunstâncias tão desfavoráveis, como teria sido lá pelos séculos XV, XVI, XVII?

Perguntei-lhe então se gostava de poesia. Seus olhos brilharam, respondeu que sim. Que iria dar-lhe, então, um livro de poemas escritos por minha mãe, falei. Sorriu. Ela também já escrevera poemas. Era quase uma confissão. Nunca os publicou? Não, foi sua resposta. Disse que, à época, trabalhava num comércio, e tinha um caderno, onde metia as poesias que lhe apareciam à cabeça. Disse também que tinha escrito muitas, mas que estavam guardadas.

No dia seguinte, entreguei-lhe o livro. Espero que goste dos escritos da minha mãe. E que possamos celebrar a poesia, a experiência estética, os encontros fraternos em vida, sempre!



segunda-feira, 19 de junho de 2017

Manual de instruções para viajantes de trem e metrô






Pessoas que viajam em trens e metrôs têm atitude.
Parecem distraídas, mas estão atentas.
Seus corpos parecem relaxados, mas estão a ponto de (re)agir.
Se em pé, parecem estáveis, embora suas musculaturas trabalhem para manter o equilíbrio apesar do movimento.
Os olhares parecem perdidos na paisagem, mas nada passa despercebido à volta.
Quando o trem se aproxima da estação, a expressão é de indiferença...
Mas quando o trem para e a porta é aberta, levantam e saem, como se tivessem decidido fazê-lo no último instante.
Os passos, pela estação, são rápidos, como quem percorre território conhecido e estranho ao mesmo tempo.

Essa atitude tem alguma correspondência com a lei da física que rege a condição de viajar no trem.
O corpo está parado dentro do trem que se movimenta em velocidade.
O corpo parece parado, mas não está: move-se com o trem.
E quando o trem para, e o viajante desembarca, o corpo começa a se movimentar.
Ou continua a se movimentar. De outra forma.

Em viagens de carro, ou de ônibus, o corpo também permanece parado dentro do veículo em movimento.
Mas ele não parece parado: as irregularidades da via sacodem o veículo.
Então não é possível parecer parado.
O movimento se faz sentir de todas as formas.

As viagens de trem, e metrô, de alguma maneira, se parecem com a viagem que fazemos no firmamento.
O solo por onde caminhamos parece parado, estável, seguro.
Por vezes caímos, mas é pelo efeito da gravidade, e dos nossos próprios tropeços.

Embora pareça, o planeta-veículo que habitamos não está parado.
Movimenta-se em alta velocidade em torno ao sol.
E o sistema solar movimenta-se em alta velocidade na galáxia.
E a galáxia movimenta-se pelo imponderável, em velocidade que não se calcula pelas escalas humanas...







segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Cuba: instantâneos


1995 se iniciava, e eu fui participar de um congresso de educação, em Havana. Como não havia linhas aéreas, os voos para lá eram fretados, para situações específicas. No caso, era um voo da Varig, fretado pela empresa de turismo que representava o congresso no Brasil. Saímos de São Paulo, no final da manhã. O voo fez uma parada na Isla Margarita, na Venezuela. Chegamos a Havana quase meia noite. No hotel onde tinha sido feita a reserva, descobri que a prática de over booking era normal, e não havia vagas para mim e boa parte dos participantes do congresso. Ficamos no hall, aguardando alguma solução. Havia um grande salão, com música e dança. Transitavam, por ali, homens bem vestidos, que logo ganhavam a companhia de belas mulheres usando roupas com brilhos e sandálias de plataforma altíssimas. Lá pelo meio da madrugada, fomos transferidos para outro hotel, de médio porte, onde fomos acomodados razoavelmente: Hotel Copacabana.

A abertura do congresso foi no Teatro Karl Marx. Depois que toda a audiência foi cuidadosamente acomodada na estrutura grandiosa do prédio, num momento solene a cortina do palco ergueu-se ao som do hino de Cuba. Ao centro, Fidel Castro, em pé, com seu uniforme de cor cáqui. A expressão firme mirava um horizonte além daquele lugar. À sua volta, ministros e funcionários de sua confiança, acompanhando-o no cenho. A cena era simples e contundente. Confesso que estremeci diante da sua intensidade.

Mais tarde, Fidel podia ser facilmente encontrado entre os participantes do congresso, no Centro de Convenções de Havana, conversando com uns e outros. Carismático, seduzia em papel de anfitrião hospitaleiro, com gestos e movimentação muito bem calculados. Os estrangeiros ficaram muito impressionados com aquela aproximação. Numa das noites do congresso, ouvimos um dos famosos discursos do comandante. Soube que nem foi dos mais longos. Deve ter durado pouco mais de duas horas de fala.

Eu conheci uma professora e um professor, irmãos, de Ciego de Ávila, uma cidade localizada mais ao centro da ilha. Ela usava sapatos sem salto, um vestido singelo. Notei que seu calçado era muito comum entre as professoras cubanas. Não vi ninguém com calçados parecidos com os das moças avistadas no hotel da primeira noite. A professora me explicou que elas eram garotas de programa. Seus clientes pagavam em dólares norte-americanos. Por isso podiam comprar aqueles calçados. Ela, como as demais professoras e outros trabalhadores, recebiam em pesos cubanos. Só conseguiam comprar o que havia disponível nos mercados populares, quando havia alguma coisa para comprar. Entreguei a ela parte dos sabonetes, material escolar e outros itens que eu levara para fazer doação. Então ela me perguntou quanto eu pagara pela passagem aérea. Ao ouvir o valor, perdeu-se em pensamentos. Depois comentou que nem reservando o salário dela de anos conseguiria reunir o valor correspondente em pesos cubanos.

Na ilha circulavam dólares norte-americanos entre os que tinham autorização para atender turistas, prestar serviços etc. Muito poucos tinham esse acesso. Logo aprendi que os turistas eram conduzidos cuidadosamente para certas regiões do mapa, e impedidos de circular nas demais. Do mesmo modo, poucos cubanos tinham permissão para o convívio com os estrangeiros. Tudo era mantido sob intenso e rigoroso controle.

Visitei a Escola de Belas Artes da Universidade. Visitei uma escola do ensino fundamental, onde policiais brincavam com as crianças. Visitei as ruínas de um forte. Tudo dentro da programação oficial. Aos poucos, algumas pessoas do lugar foram me mostrando como esse controle era estabelecido, de modo a regular as relações entre a população com os mensageiros do mundo lá de fora. A professora e o professor de Ciego de Ávila começaram a me sondar sobre a possibilidade de eu recebe-los em minha casa, no Brasil, em caso de uma fuga.

Uma senhora de meia idade, funcionária do hotel, falou-me longamente sobre sua admiração ao comandante. Ela, do mesmo modo que muitos outros cidadãos, referia-se a ele como a um membro da família. Grata pelo que ele fizera à sua família, assegurando alimento, moradia, educação, saúde, se desdobrava em elogios e votos de vida longa ao seu líder. Multiplicavam-se os jovens que não poupavam críticas à rigidez do controle estabelecido pelo governo, ao profundo desnível econômico entre a elite do governo e a população, ao fechamento da ilha. Um taxista, engenheiro de formação, mas sem emprego para atuar nessa área, vendia seus livros reunidos no decurso de sua história, escondidos porque proibidos. Comprei-lhe alguns exemplares. E outros, antigos, dispostos em calçadas, a preço de peso cubano. Trouxe, na bagagem, Los cuentos negros de Cuba, de Lydia Cabrera. Amor à primeira vista.

O taxista engenheiro ofereceu-se para me levar a Varadero. Embora eu não quisesse ir, aproveitei para ouvir seu relato sobre o ponto turístico. Explicou-me que ele tinha autorização para ir, em razão de sua formação escolar. Mas nem todos podiam. E as prostitutas credenciadas ficavam numa região específica, longe da orla, para atender aos turistas. Havia, também, os rapazes que se dispunham a acompanhar mulheres que viajavam sozinhas. Não era o meu caso. Em geral, eles experimentavam certa dose de esperança para, quem sabe, conseguir sair da ilha como esposo de alguma estrangeira.

Conheci uma brasileira que fazia o curso de medicina em Havana. Fui almoçar na casa onde ela morava, pagando um dinheiro que complementava a escassa renda da família que a acolhera. A dona da casa esmerou-se para me receber. Conseguiu economizar algumas batatas da cota semanal, e um pouco de carne moída encontrado nalgum mercado, por pura sorte. Entendi que era um banquete caríssimo, uma extravagância da parte deles. Senti-me honrada com o modo como fui recebida, naquele apartamento mínimo, num prédio sem elevador, localizado na parte velha de Havana, onde não são previstos tours para turistas.

Soube, então, que, ainda que alguma família vivesse numa casa com quintal, não poderia plantar hortas ali, ou criar galinhas, para evitar comercialização de alimentos entre a população fora do controle do Estado. Deveriam, sim, aguardar pelas cotas do governo. Mesmo quando elas ficassem mais minguadas, pelo aprofundamento da crise econômica no país. Durante o congresso, descobri, também, que havia uma região, em Cuba, com alta incidência de pessoas surdocegas.

Aprendi que a população de uma nação não coincide com a estrutura da instituição estatal. Ou seja: o governo não é o mesmo que a população de um país. O povo cubano tem uma energia vibrátil acima e mais forte que qualquer forma de governo.

Vida longa ao povo cubano!





quarta-feira, 18 de maio de 2016

Esperas e labirintos no Aeroporto Internacional de Guarulhos


Inicialmente, pensei em nomear este conjunto de pequenas histórias de que fui testemunha ou de que tomei parte com o título “GRU: um labirinto para o inferno”. Depois recuei. Talvez, contaminada pela irritação da experiência ainda em quente, eu estivesse pesando nas tintas, e sendo injusta. Ainda não estou certa. Os leitores ajudarão a avaliar.


Embarques e conexões I
Maior que meu bairro...

Ainda em Brasília, orientei a mocinha quanto ao lugar de embarque para o voo que era o mesmo meu. Seguíamos para São Paulo ainda na madrugada. Lá, cada qual buscaria sua própria conexão. Ela me pareceu um pouco preocupada. Era sua primeira viagem internacional.

Depois do embarque, a perdi de vista. Já em Guarulhos, passei na emigração, e fui buscar o portão de embarque. Constatei que seria necessário seguir do terminal 2 para o 3. Longa caminhada. A mocinha reapareceu, ao meu lado. Perguntou posso ir com você? Estou meio perdida... Não era de se admirar.

Seguimos pela área interna, por um corredor cuja lateral dava para o pátio onde as aeronaves estavam estacionadas, e havia intensa movimentação de caminhões e outros veículos a serviço de embarques e desembarques. Uma neblina densa impedia que avistássemos com nitidez a área. Mesmo assim, foi possível identificar, ao longe, o terminal para o qual nos dirigíamos. A mocinha suspirou: este aeroporto é maior que o bairro onde eu moro. Achei graça. Perguntei qual era o bairro. Aparecida de Goiânia. Sorri. Havia mais informações nessa fala do que as explicitadas. Entendi que ela escolhia qualificar Aparecida de Goiânia como um bairro da capital de Goiás a ter que explicar que era um município contíguo a Goiânia, uma espécie de dormitório. Sim, havia algum risco de que Aparecida fosse menor que o aeroporto. Ao menos em fluxos de pessoas, em montantes financeiros sendo negociados, entre outros itens que poderiam ser enumerados.

Nossos portões eram os últimos do terminal 3. Eu embarcaria no portão ao lado do dela. Ela suspirou: Agora posso ir ao banheiro... Não voltei a vê-la.


Embarques e conexões II
Siga em frente!

De volta ao Brasil, depois de passar pela imigração, fui orientada a retirar minha bagagem, para passar pelo Raio X, e devolvê-la na área de conexão. Feitos os primeiros procedimentos, passei a buscar alguém que pudesse me explicar onde era a área destinada à devolução. Siga em frente, era a única resposta que ouvi em todas as ocasiões. Pouca sinalização, muitas entradas e saídas, corredores labirínticos, e a palavra de ordem Siga em frente!

Depois de muito caminhar, pouco segura quanto ao roteiro que eu estava seguindo, pedi que alguém me explicasse aonde eu deveria chegar, em lugar de apenas apontar a direção. Siga em frente continuou sendo a única resposta que ouvi. Finalmente me convenci de que eu estava errada na minha reivindicação: ali, não cabia eu querer compreender alguma coisa, apenas fazer o mínimo de ruído (num lugar traumaticamente ruidoso...) para chegar onde eu deveria chegar, sem criar problemas. É possível que os funcionários repetidores da palavra de ordem Siga em frente tampouco soubessem onde estavam, para onde seguiriam, como se desenhavam os labirintos que os devoravam dia a dia...

Cheguei, afinal, ao lugar. Depois fui orientada novamente a seguir em frente, até encontrar o portão para o voo da minha conexão. 

Seguir em frente é palavra de ordem que não se pode tomar ao pé da letra, ao mesmo tempo em que se segue em frente: volta-se à direita, à esquerda, cumpre-se 180º de giro, retoma-se a direção original, até não se saber mais onde se está, e para onde se vai...


Embarques e conexões III
Os faltantes

Cheguei ao portão de embarque com algum tempo de antecedência. Acomodei-me. Gosto de observar os movimentos, as sonoridades e luminosidades do ambiente. Os ritmos. E fiquei ouvindo as chamadas para os embarques dos voos que partiam, uns após os outros. As atendentes em terra chamavam, alternadamente, em português e inglês, os passageiros, organizando o embarque de acordo com as categorias: necessidades especiais, clientes vip, ocupantes das poltronas localizadas na segunda metade da aeronave, por fim os ocupantes das poltronas localizadas na primeira metade. Depois reiteravam a chamada aos atrasados. Na última sequência de chamadas de cada voo, após ler todos os nomes completos dos passageiros ainda não embarcados, a palavra final era dada: Últimos faltantes, o embarque foi finalizado.

Chamou-me a atenção um fato: em todos os voos era grande o número de faltantes que não comparecia ao portão de embarque em tempo.

Teriam seguido sempre em frente, na direção errada?

Teriam se perdido em mapas maiores e labirintos mais emaranhados do que os seus bairros de origem?


Embarques e conexões IV
Pesquisa de opinião

Uma senhora de idade estava sentada à minha frente. Uma mocinha chegou, com uma planilha à mão, pedindo para fazer-lhe algumas perguntas. Tratava-se de uma pesquisa de opinião. Queria saber idade, de onde vinha, para onde ia, a companhia aérea, horário de voo, quanto tempo de espera. Queria que a usuária avaliasse os serviços do aeroporto, sinalização, atendimento, orientação, conforto, climatização, etc. Recostei-me, fechei os olhos, para não correr o risco de que ela também quisesse dirigir as perguntas a mim. E fiquei ouvindo as respostas da senhora, que manifestou-se encantada com tudo por ali: sinalização de caminhos e portões de embarque maravilhosos, deslocamento e distâncias sem problemas, orientações também... Comecei a ficar nervosa com ela, sentindo vontade de discordar veementemente. Mas, já quase ao final da entrevista, veio a revelação:

Como a senhora chegou até aqui?

Um funcionário da companhia aérea me trouxe, na cadeira de rodas... muito gentil, ele!

Ahhhh, então está tudo explicado...




domingo, 22 de novembro de 2015

O olhar daquele que vem de longe


Assim que embarquei e me acomodei na poltrona, ao lado esquerdo do corredor, o meu companheiro de viagem chegou, com uma mochila. Meio tímido, cumprimentou-me, e se acomodou. Chamou-me a atenção seu modo discreto, e o cuidado que teve em organizar-se sem invadir o espaço da minha poltrona. Perguntou-me a que horas chegaríamos a Goiânia. Constatei, ali, sua pouca familiaridade com o percurso da viagem.

Seguimos: eu, tentando cochilar um pouco, ele, atento à paisagem visível pela janela. Depois pegou um caderno de capa amarela, com um lápis desses que têm uma borracha embutida na ponta oposta à com a qual se escreve ou desenha, e começou a escrever. Confesso que fiquei curiosa, ante comportamento tão pouco usual.

Já fora da cidade, perguntei-lhe se era a primeira vez que iria a Goiânia. Sem nenhum sotaque, respondeu Sim, estou no Brasil há três dias, sou dos Estados Unidos. Talvez ante minha expressão de surpresa pela desenvoltura com que falava o português brasileiro, completou a informação Minha família é de Goiânia. Fizemos uma breve pausa no diálogo. Ele tomou a iniciativa Você sabe onde fica o Setor Pedro Ludovico? Pela primeira vez percebi o sotaque norte-americano. Sorri em silêncio: pronunciar o nome Pedro Ludovico não é mesmo exercício muito fácil para estrangeiros, mesmo os bem treinados, como ele. Respondi que sim, e tentei situá-lo em relação à rodoviária, onde desembarcaríamos. Alguém virá esperar por você? Sim, já o estavam aguardando.

Por vezes, fotografava alguma cena que lhe chamasse mais a atenção. Anotava coisas no caderno de capa amarela. Achei que ele gostaria de saber que em Anápolis havia uma réplica da Estátua da Liberdade. Ele riu Como a de Nova York? Confirmei. Já no viaduto, fotografou a réplica, achando divertido: Legal!

Seu olhar era inaugural: via, pela primeira vez, as coisas sobre as quais provavelmente ouvira falar desde sempre. Via, pela primeira vez, as paisagens das quais sua família original provavelmente sentisse saudades. Talvez sentisse saudades, ele, daquilo que não conhecera, mas soubera por outrem. Reconhecia a si e ao lugar ao qual pertencia sem antes ter estado ali.

Já desembarcados, desejei-lhe boa estadia. Ele ficou aguardando a liberação da bagagem. Segui, me perguntando se é possível restaurar o encantamento do primeiro olhar.





quinta-feira, 2 de julho de 2015

Alvíssaras



Repeti, mentalmente, com facilidade o número da poltrona onde me sentaria. Achei curioso, pois sempre esqueço, e necessito verificar algumas vezes, para não errar. Mas, dessa vez, o número estava bem vivo, na memória. Então me dei conta de que coincidia com meu endereço residencial. Sorri. Achei que poderia ser um bom sinal. De alguma forma, viajava, sentindo-me um pouco em casa.

Depois de aguardar algum tempo, embarquei na conexão. Sentei-me numa janela. Ri-me, com certa ironia: de que adiantava sentar-me à janela, viajando à noite? Seguindo com a ironia, deixei aberta. Cansada, não me demorei a dormir. Acordei com a exuberância da lua cheia se rindo lá fora, inundando o avião com sua luz. Ficou ali, à minha vista, até o amanhecer.

Entre as brumas, e as primeiras luzes da manhã, a cidade foi emergindo. Nada poderia dar errado nessa viagem... 

Assim seja!





terça-feira, 12 de maio de 2015

Segunda aula de geografia, viajando pelo sudoeste de Goiás


Serranópolis
Jataí
Rio Verde
Santo Antônio da Barra
Acreúna
Indiara
Goiânia

Saída de Serranópolis: 8h
Chegada a Goiânia: 16h







segunda-feira, 20 de abril de 2015

Aula de geografia, viajando pelo sudoeste de Goiás


Caiapônia
Palestina de Goiás
Iporá
Israelândia
São Luiz de Montes Belos
Firminópolis
Turvânia
Nazário
Santa Bárbara de Goiás
Trindade
Rodoviária de Campinas
Rodoviária de Goiânia


Saída de Caiapônia: 8h
Chegada a Goiânia: 15h




sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

2001 e Interestelar



2001: A space odyssey
2001: Uma odisseia no espaço
Stanley Kubrick
 1968 



Interstellar
Interestelar
Christopher Nolan
2014