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domingo, 29 de dezembro de 2024

Chegada do trem à estação, ou, mais de um século depois, os sustos provocados pela IA


 Multiplicam-se os relatos sobre a primeira sessão coletiva em Paris, quando os irmãos Lumière apresentaram os brevíssimos registros em filme do trem chegando à estação e de operários saindo da fábrica ao final do expediente. Sempre se destaca o susto das pessoas, especialmente ante a possibilidade de serem atropeladas pelo trem vindo em sua direção. Tal impressão repetiu-se em incontáveis sessões posteriores. E na medida em que os recursos técnicos e tecnológicos para a produção fílmica se ampliaram, as sessões no cinema ganharam potência nos filmes de ficção e não ficção, conduzindo seus públicos a sensações intensas, surpresas, sustos, vertigens.


A grande questão está na ideia, recorrente ainda hoje entre a maioria das pessoas, de que a imagem em movimento projetada no cinema tem potência de registro de verdade. O que é um equívoco, mesmo quando se tratem das assim nomeadas produções documentais. Estas, apesar de serem produzidas seguindo um protocolo diferenciado em relação às ficcionais, não são prova de verdade, mas discurso construído a partir de pontos de vista muito específicos sobre determinadas questões. Muitas vezes, os filmes documentais dizem menos de seus contextos do que filmes ficcionais, até os filmes fantásticos, de ação ou de ficção científica, que, embora não tenham pretensão de provar quaisquer verdades, acabam sendo testemunhos potentes das circunstâncias nas quais são concebidos e realizados.


Assim, tem-se em conta que vídeos e outras peças do audiovisual compartilhados à larga nas mídias mais diversas não têm, no ponto de partida, o pressuposto de prova de verdade. Nem o pressuposto, nem o compromisso. São discursos, defendem certos pontos de vista, e para tanto fazem uso dos elementos constituidores das imagens em movimento sonorizadas. Quase sempre, contudo, reivindicam a condição de verdade, como parte do esforço de convencimento de suas argumentações.


Nesses termos, os recursos propiciados pelas plataformas de inteligência artificial, disponibilizadas para usos os mais diversos, incluindo produção audiovisual, provocam surpresas e impressionam na mesma escala que a projeção dos filmes dos irmãos Lumière no final do século XIX. E a base dessa capacidade de impressionar está, sobretudo, assentada na constatação de que imagem em movimento como prova de verdade pode ser uma farsa produzida por estruturas cada vez mais complexas da tecnologia digital. Tais estruturas podem produzir os discursos que quiser, à disposição de usuários com os mais diversos propósitos, ou, até quem sabe, à disposição das próprias máquinas, reiterando o sobressalto, também antigo, de a humanidade ser suplantada, ou mesmo extinta por suas criações.


Parece, mesmo, que ainda estamos ali, naquele 28 de dezembro de 1895, sem sair do Salon Indien do Grand-Café de Paris desde então, sob os efeitos da projeção dos breves filmes realizados por Auguste e Louis Lumière, fazendo uso de sua invenção, o cinematógrafo.

 



terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Primeiros apontamentos sobre God Exists, Her Name Is Petrunija



Como ponto de partida, devo dizer que o filme God Exists, Her Name Is Petrunija (com uma tradução ruim para a versão brasileira: Deus é mulher e seu nome é Petúnia) bateu fundo, em vários níveis. Em primeiro lugar, trata-se de uma história que se reporta a uma Petrunija que existe e viveu aquela situação, muito recentemente, na cidade-set do filme. A experiência para essa mulher foi violenta e traumática. Sua vida naquela cidade tornou-se insustentável e, atualmente, ela vive na Inglaterra, com identidade preservada. Na Macedônia, é simplesmente referida como “aquela mulher louca”. A diretora, Teona Strugar Mitevska, que também assina o roteiro em coautoria com Elma Tataragic, reporta, também, sua experiência tentando contar essa história, na mesma cidade, a despeito das reações dos moradores, da igreja, dentre outros.

Por que o filme tem reverberado em tantos lugares, apesar de ter sido rodado na Macedônia, a partir de uma comunidade e uma história tão particulares? Há uma frase atribuída a Tolstoi, que diz mais ou menos assim: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.” (Há outras versões para essa frase, tais como: “'Canta a tua aldeia e serás universal”, ou “Seja universal, fale de sua aldeia”). Afora discordar da pretensão de universalidade a qualquer narrativa, ou ideia, é preciso admitir: há projetos que, desde a particularidade, ou a singularidade, conseguem tocar em questões sensíveis para um gradiente maior de outras particularidades e outras singularidades. A possibilidade de produzir ressonância num número maior de pessoas e contextos resulta dessa capacidade de, ao contar uma história particular, fazê-lo deixando espaços nos quais essas pessoas consigam se encontrar. Esse é um dos méritos do filme de Teona: mulheres e comunidades da Índia e do Brasil, da Alemanha e da França conseguem ver-se em Petrunija, solidarizam-se com ela, colocam-se ao seu lado em sua saga.

O argumento do filme é consistente, e ele se desenvolve também de modo coerente, muito bem articulado, sem exageros, sem superlativos. Desde a primeira sequência, até a última.

Poderia ser um libelo feminista. Mas consegue ser muito mais que isso: escancara o domínio masculino, numa sociedade patriarcal cuja sustentação é feita também pelas mulheres. Não por acaso, as duas primeiras críticas escritas ao filme de Teona foram assinadas por mulheres, que recomendaram à diretora nunca mais fazer filmes em sua vida.

De acordo com a própria diretora, o filme trata, em última instância, da justiça. Em suas palavras, “Petúnia está atrás de justiça. E essa é uma questão que diz respeito a todos nós.” (Papo de Cinema).

Há muitas outras reverberações de Petúnia em mim. Mas preciso bem mais que dois dias para articular essas percepções múltiplas. Por ora, deixo Petúnia, pelas mãos de Teona, falar por mim.








domingo, 11 de novembro de 2018

Nota de passagem: em memória de Seu Manoelzinho



p/ Seu Manoel Loreno, in memoriam 



Desde então, passaram-se já pouco mais de 10 anos. Eu soube de seu trabalho por meio das mídias. Algum noticiário de entretenimento veiculou uma entrevista com ele, falando sobre seus filmes. Era um homem de estatura pequena, olhos miúdos e atentos, uma expressão alegre, entusiasmado com seus projetos. Tinha carisma, e era garantia de audiência.

Assim, quando esbocei meu projeto de pesquisa para pós-doutoramento, incluí o trabalho do Seu Manoel Loreno entre aqueles que eu gostaria de conhecer, para pensar outras vias de construção narrativa, fora dos circuitos dominantes, fossem os comerciais, fossem os mais intelectualizados ou artísticos. Seu trabalho figurou, no mapa, ao lado do trabalho do Seu José Zagati, o catador de sucatas amante do cinema, em Taboão da Serra, do Seu Simião Martiniano, o camelô do cinema de Jaboatão dos Guararapes e Recife, e de Afonso Brazza, o Rambo do cerrado, do Gama, no Distrito Federal, este já falecido no início dos anos 2000.

O primeiro contato com Seu Manoel Loreno foi por telefone. Já não me lembro ao certo como eu o fiz, buscando informações na Prefeitura de Mantenópolis, e outras informações conseguidas na internet. Encomendei-lhes alguns filmes, que recebi pelo correio. Assim, quando fosse ao seu encontro, já conheceria um pouco de sua produção. Em agosto de 2009, seguimos, eu e o Prof. Bamberg, de avião até Vitória, no Espírito Santo. E de lá, continuamos, de carro, até Mantenópolis, no extremo oeste do Estado.

Foi nosso primeiro contato com ele, e com a comunidade daquela cidade pequenina, acolhedora, cenário de seus filmes, fonte de inspiração para suas histórias. Durante os dias em que estivemos ali, conhecemos alguns sítios onde foram gravadas cenas de seu último filme, O homem sem lei, de 2006. Conhecemos, também, o documentário O Sonho de Loreno, de Alana Rosa Batista Almondes, que foi responsável por dar a conhecer o trabalho de Seu Manoel aos meios de comunicação.

Os professores Aluísio e Clébio, à época ligados à Secretaria de Cultura do município, foram incansáveis no sentido de criar as condições para que tivéssemos acesso às informações, conhecêssemos as pessoas, e, sobretudo, pudéssemos acompanhar o Seu Manoel, ouvindo suas histórias, aprendendo com ele.

Dois anos depois, nós retornamos a Mantenópolis. Na ocasião, queríamos acompanhar os trabalhos de gravação de seu novo filme. O título era alguma coisa como: Um Manoelzinho é bom, dois é demais. E contava a história de um Manoelzinho que se via às voltas com os problemas causados por um sósia, ou um clone seu, que era mau caráter. Esse filme nunca foi finalizado. O professor Clébio Saldanha já estava vinculado ao Museu Histórico de Mantenópolis, e continuava buscando alternativas para assegurar suporte ao Seu Manoelzinho, para lhe assegurar condições de continuar produzindo, e mostrando seus filmes à comunidade.

Somos muito gratos ao professor Clébio por ter, no decurso do tempo, nos enviado informações, vídeos, notícias sobre os caminhos de Seu Manoel. Foi ele, também, que nos enviou, ontem, a notícia do falecimento do nosso cineasta, este fazedor de filmes cuja produção marca um tempo, uma visão de mundo, um modo de estar no mundo cuja potência é transformadora.

Há pesquisadores e profissionais da mídia que classificaram seu trabalho como cinema de borda. Afora as discussões teóricas a respeito, peço licença para discordar. O trabalho de Seu Manoel Loreno jamais foi de borda. Ao contrário: ocupou o centro da produção cultural de Mantenópolis durante quantos anos. Foi capaz de mobilizar sua comunidade, de levar filmes a territórios desprezados pelas políticas públicas, pelos circuitos comerciais e pelos projetos intelectualizados do cinema. O trabalho de Seu Manoelzinho teve a potência que a maior parte dos trabalhos veiculados em festivais de cinema não têm, embora tragam a chancela dos supostamente cinemas de centro porquanto chancelados por autoridades da área: críticos de cinema e de arte, produtores, professores, etc. Seu Manoelzinho passou ao largo disso tudo, para contar suas histórias, para fomentar processos criativos junto à sua gente, a despeito da precariedade de equipamentos e das condições de realização. Mais que isso: ele fez da precariedade uma aliada, o ponto forte dos modos de operacionalização de seu trabalho.

Que possamos aprender mais com pessoas como Seu Manoel Loreno. Que trabalhos como o dele se multipliquem, em ramificações cada vez mais potentes.

Sou grata pelo privilégio de tê-lo conhecido, e à sua família, e aos seus amigos.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Em edição...



Foto: Renato Cirino


Mais um filme do Sistema CooperAção Amigos do Cinema sendo realizado.
Roteiro, Produção e Direção: Alice Fátima Martins
Assistentes de Direção: Lara Satler, Renato Cirino
Fotografia: Lara Satler, Renato Cirino e Fábio Rocha
Grande equipe técnica e elenco de estrelas luzidias. 
Aguardem!






terça-feira, 6 de junho de 2017

A mocinha que vende performance de antifeminista e a mulher-robô de Fritz Lang


A câmera do aparelho telefônico está criteriosamente posicionada para colocar em tela seu rosto, a parte superior do tronco e, principalmente, os gestos contundentes das mãos, com unhas cuidadosamente pintadas. E para parecer um pouco negligente, como se estivesse colocada meio ao acaso. Ela, a moça que executará a performance, conhece bem o campo coberto pela câmera, e cuidadosamente se move de modo a tirar proveito do enquadramento, com algumas saídas estratégicas, para entradas veementes em seguida. Antes de iniciar o espetáculo, os organizadores, homens, preparam microfone, fazem comentários com ela, que responde sempre afável e com a expressão de segurança, de quem sabe o que está fazendo. O sorriso breve sugere reconhecimento do terreno bem como certeza dos modos como moverá as peças para dominar a cena.

Ela calculou todos os passos para causar impacto. Polêmica é o seu principal produto à venda. Performance é sua estratégia. Por isso escolheu, para usar como bandeira, um assunto capaz de mobilizar passionalidades. Combater o feminismo pode ser uma boa pedida. Não importa o teor do seu discurso, tampouco importa se articula de modo coerente os conceitos que anuncia. Não importa se mente, ou se de fato leu todas as autoras cujos nomes brada, como se preparasse a próxima lista de bruxas que devessem ser condenadas à fogueira. Nada disso importa. Por isso mesmo, não adianta contestar seu discurso, nem contra-argumentar, nem convocar à razão. O que está em pauta, de fato, é o seu cachê, os cachês que vão sendo pagos por organizadores de eventos para públicos marcadamente masculinos (também não importa quantas mulheres deles façam parte). O valor do cachê é diretamente proporcional à sua capacidade de incitação à reação.

Por isso são vãos os protestos das feministas. Ou melhor: não, não são vãos, eles fazem parte dos cálculos da mocinha, e integram as estratégias de sua performance. Ela precisa deles, e eles são infalíveis: estão sempre lá, ou à volta. Ou mesmo estão na audiência difusa que a acompanha por meio das imagens geradas pela câmera, aquela que foi criteriosamente posicionada para transmitir sua performance online, ao vivo, e depois manter o vídeo disponível em plataformas digitais, para seus admiradores e seguidores, tanto quanto para seus adversários. Isso a alimenta. Isso alimenta sua performance. Isso alimenta seu cachê.

Seu rosto, seu gesto, sua expressão lembram-me as feições de outra mulher que marca a história do cinema: a robô que ocupou o lugar de Maria, no filme Metrópolis, de Fritz Lang. Aos que não viram o filme, faço um briefing. Metrópolis é uma cidade dividida em camadas. Cada camada é ocupada por uma categoria, posicionada de acordo com seu poder, capital econômico e importância na estrutura social. A elite habita a superfície, em palácios suntuosos; as máquinas, que são o meio de produção de riquezas, ocupam o primeiro subsolo; os operários, que operam as máquinas em jornadas extenuantes, vivem abaixo, ainda, num segundo subsolo, e nunca, mas nunca mesmo, podem emergir à superfície. Entre eles, Maria é uma espécie de revolucionária pacífica, com tintas messiânicas. Ela se esforça por agregar os operários, e defende que, por meio do amor, poderão encontrar um meio de sair daquela situação desumana e insustentável. Promete, ainda, que esse dia está por chegar. O filho do empresário principal proprietário da cidade, por acidente, acaba por conhecê-la. Quando sai à sua busca, acaba tomando conhecimento dos subsolos da cidade, e das condições miseráveis dos operários. Finalmente, a vê numa espécie de catacumba ainda mais profunda, numa de suas pregações aos demais operários. Apaixonam-se um pelo outro.

Na superfície, seu pai também é informado sobre o que se passa. Então reúne-se com o cientista, com quem arquiteta um plano diabólico: programar um robô com as mesmas feições de Maria, para ocupar o seu lugar, enquanto ela é mantida sequestrada. A robô-Maria é sensual, sedutora, participa de festas em boites para o deleite dos homens. E, quando desce à catacumba, ao encontro dos operários, no lugar da verdadeira Maria, os incita à rebelião, ao ódio. A ideia é que os operários reajam com violência, para justificar à elite combatê-los também com violência. E eles correspondem ao chamado. Contudo, a reação em massa escapa ao controle de todos. A horda não só destrói as máquinas como também coloca em risco a segurança da população, inclusive das crianças, filhos dos operários. Quando estes se dão conta, voltam-se contra a robô. Perseguem-na, e a queimam na fogueira.

Maria, libertada, consegue, finalmente, reunir-se à sua gente, e ao novo amor. Mais que isso, conquista o intento de mediar as negociações de um novo tempo. Talvez o filme se encaminhe para um final excessivamente otimista, um pouco piegas até. Talvez àquele tempo fosse necessário uma dose extra de otimismo, dadas as circunstâncias tão adversas vividas na Alemanha da década de 1920. Aos sobressaltos, entre polarizações e escapando a gestos de ódio também transcorremos os dias de hoje. Não nos faria mal algumas doses extras de otimismo e de esperança, sem perder o sentido crítico do mundo vivido.

A mocinha que se diz antifeminista prossegue em sua atuação diante da câmera e da platéia que a aplaude. O lugar onde está não se assemelha à catacumba onde Maria-robô incitou os operários. Mas a mocinha que se diz antifeminista está no auditório de uma universidade, onde, em tese, transitam os homens (sobretudo homens) de ciência. Ela, Maria-robô, foi devidamente programada por dois homens: um da ciência (frequentaria também universidades?), outro do capital (que toma as decisões; por exemplo, pode decidir pagar por uma palestra da mocinha que se diz antifeminista...). A performance da mocinha, seu olhar, seu discurso têm muitas afinidades com os da Maria-Robô. Estremeço pensando no fim dado à antagonista criada por Fritz Lang. Espero, sinceramente, que a mocinha não corra o risco de ter qualquer desfecho trágico assemelhado àquele. Mas, ao mesmo tempo, espero que a horda por ela incitada não reaja de modo a destruir conquistas frágeis que têm sido construídas a duras penas, amealhadas no decurso do tempo.

O risco está sempre ali, à frente, iminente.

Para ver Metrópolis: aqui 












terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Imblino é um sucesso


No supermercado, enquanto passava as frutas e verduras para serem registradas no caixa, conversava amenidades com a moça que ia lançando, item por item, na minha conta a pagar... A certa altura, ela fez uma pausa, encheu-se de coragem, disse “posso lhe fazer uma pergunta?”. Que sim, respondi, tentando imaginar que pergunta seria, cuja formulação implicava num pedido de permissão, numa pausa preliminar... Então ela prosseguiu “por um acaso você já fez algum filme?” Ri-me. Qual das minhas estripulias ela já teria visto? Seria algum filme do Martins Muniz disponível na internet? Achei improvável. Seria o filme do Imbilino? Sim, era o filme Imbilino: Uma linda assombração, o sexto realizado pelo Hugo Caiapônia. Seus olhos brilharam. Ela não sabia se acabava de passar minhas frutas, ou se segurava minha mão, exultante de alegria. “Você fez a juíza, eu vi! Eu vi várias vezes!”. Perguntei onde ela tinha visto. Supunha que ela não teria visto no Cine Ouro, onde foi projetado durante uma semana, no final do ano passado. Não poderia deixar de considerar que o Hugo Caiapônia não lançou o filme em DVD, nem disponibilizou na internet, exatamente para evitar as cópias clandestinas. Apesar do seu esforço, eu constataria que já existem cópias circulando entre os fãs do Imbilino. Ao que me contou a moça do caixa do supermercado, ela tem um amigo que lhe deu um pendrive com a cópia do filme. Acha que ele conseguiu no Youtube. Depois a moça fez declarações de amor intermináveis ao Imblino. E agradeceu pelo belo trabalho que traz alegria às pessoas. 

Na verdade, o agradecimento não vinha endereçado para mim, mas sim para Hugo Caiapônia, que tem o mérito de dar vida ao Imbilino, personagem notável, cheio de carisma, capaz de falar diretamente ao coração de um público tão numeroso e diversificado!





sexta-feira, 30 de setembro de 2016

OfiCine Dada, no DadaSpring, Cabaret Voltaire, 2016


foto: Alice Fátima Martins

foto: Alice Fátima Martins
foto: Alice Fátima Martins
foto: Alice Fátima Martins

foto: Alice Fátima Martins

O caracol cramunhão questiona o tempo mínimo de orgia informal na lagoa como objeto de socialização.

Filme experimental, cult, pseudointelectual, dadá do primeiro ao último frame, realizado durante a OfiCine Dadá, como parte da programação do DadaSpring. No Cabaret Voltaire, República Federativa do Itatiaia. Perto de Goiânia. Setembro de 2016. 

Ficha Técnica:
CineDaDaístas

Alice Fátima Martins
Ana Flávia Maru
Camila Beatriz
Dionilia Aline de Castro Santos
Gustavo Trindade
Janaína de Oliveira
Marta Aragão
Matheus Pires
Nutyelly Cena
Rafaella Braga
Renato Cirino


Sobre a OfiCineDada

Exercício de apreciação de um cinema desobediente, imperfeito e vibrátil, do início do século XX e das últimas décadas, desencadeando a análise sobre um possível cinema Dada, e sua lógica nas possibilidades contemporâneas de criação. A professora de Artes Visuais Alice Fátima Martins (GO) e o Mestre em Cultura Visual Renato Cirino (GO), ambos do Sistema CooperAÇÃO Amigos do Cinema, te desafiam à investigação.


O filme completo pode ser visto aqui
Ao deguste! 


PS.: Renato, você é o kara!
Allex, você fez falta!






quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Sobre Guerra nas Estrelas e alguma nostalgia


Ontem fui ver o campeão de bilheterias do momento. Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens), ou Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força. Como queiram.

Divirto-me observando quem vá ver filmes com produção como essa e depois façam longas críticas, apontando problemas, defeitos, e comparando-os aos primeiros da saga, desqualificando as produções mais recentes.

Confesso que fui desvestida de qualquer expectativa, ou de protocolos para análise e avaliação. Fui por entretenimento. Fui ouvir e ver uma história que se conecta a um conjunto de outras histórias já contadas, mas que deve também ser degustada em sua individualidade.

Considero positivo o resultado da minha predisposição. Surpreendentemente, foi o filme que me conduziu a memórias, afetos, e mostrou a mim mesma como diante de um espelho. Foi bom olhar. Foi bom ouvir.

Assisti ao Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança no final dos anos 1970. Eu não tinha, ainda, 20 anos. A Princesa Leia teria um pouco mais que isso. Era um tempo de efervescências. Em plena ditadura militar, a metáfora do embate entre a sombra e a luz ganhava uma potência extra. Vi os dois episódios que se seguiram. Acho que já não tinham a intensidade inaugural do Episódio IV, mas ligavam-se a ele, articulando sentidos à história que já se instalara, de modo indelével, no meu imaginário.

A segunda trilogia, lançada duas décadas depois da primeira, encontrou outro cenário político e social, outras tensões moviam os afetos. Os recursos tecnológicos digitais que animavam as imagens e os sons suplantaram as referências artesanais com que a primeira trilogia fora realizada, de modo que poucos elos pareciam ligar uma à outra de modo mais explícito, orgânico. Apesar de tratar da mesma saga, descolara-se, a segunda, da primeira, na forma, no ritmo, no espírito. Além disso, o embate entre as sombras e a luz ganhou dubiedades, já fora de contextos tão claramente divididos, como anteriormente: EUA e URSS, esquerda e direita, ditadura e democracia. O Muro de Berlin já fora derrubado.

Ainda e assim, as histórias trouxeram apelos e energia próprios, capazes de encantar.

Mas ontem, ao assistir ao Episódio VII, e ver os rostos envelhecidos de Hans Solo e da Princesa Leia, vi o meu próprio rosto quase quatro décadas depois do episódio inaugural. Mais que isso, entendi que os embates de então não acabaram. Acho mesmo que nunca acabarão. Hoje apresentam-se a mim um pouco mais envelhecidos. Talvez tenham mudado de roupagem, de direção e estúdio. Mas os reconheço como os mesmos. São os mesmos do mesmo modo como eu sou a mesma, ainda que já não...

Sempre renovados, os conflitos, as tensões, as lutas são continuamente restituídos, reinstalados. Repassados às novas gerações, que as assumem como se inaugurais...

Que a força esteja... 




domingo, 12 de julho de 2015

Tributo a Seu Simião, in memorian


As orientações para chegar ao endereço indicado eram claras: no centro de Recife, em frente ao edifício São Rafael, o mais alto da Avenida Dantas Barreto, no terceiro bloco do Camelódromo, de cor amarela. No piso térreo, próximo da escada para o primeiro andar, encontrava-se a banca do Seu Simião Martiniano. Ocupando um espaço de aproximadamente 2m x 1m, numa prateleira de metal, estavam expostos fitas VHS, DVDs, CDs, livrinhos de cordel, aparelhos de televisão, vídeo, DVDs e de som diversos, discos de vinil usados, fiações e outras quinquilharias. Quase tudo à venda, disponível para ser negociado por esse cuja experiência no comércio ultrapassava quatro décadas à época quando fui visita-lo.

De segunda a domingo, o camelô fazia o percurso entre Jaboatão dos Guararapes, onde residia com a família, àquele endereço, para trabalhar, “não sei bem certo há quanto tempo, mas tem mais que 10 anos”. Quando o assunto era idade, ou tempo, Seu Simião sorria, e se encaminhava por territórios imprecisos. De fato, ele ocupou aquele espaço a partir da inauguração daquelas instalações, em 1994, quando ainda era chamado de Calçadão dos Mascates, criado com o objetivo de organizar o comércio ambulante no centro da cidade. Antes disso, trabalhava em feiras e mercados, entre os quais cita o comércio informal do Cais de Santa Rita, também no Bairro de São José, no centro da cidade. À época, a renda obtida na banca complementava a parca aposentadoria.

Na atividade como camelô, ele comercializava a mercadoria resultante de sua grande paixão, o cinema. Os itens principais à venda eram seus próprios filmes, e as trilhas sonoras das quais, em alguns casos, ele também assinava a autoria. O trabalho das gravações era conciliado com o de vendedor. Quando estava fazendo filme, aos sábados e domingos, depois de fechar sua banca no Camelódromo, seguia para as gravações, cuja duração variava de acordo com a natureza e as condições de realização do projeto: “Se for curto, leva uma semana, duas, um mês, depende das condições, né? Se for por nosso trabalho, nosso recurso, sem ajuda de outros, aí é mais semanas, aí demora mais, isso passa até um ano pra fazer. Leva um ano pra fazer. Entendeu?”.

Sua aproximação com o cinema começou no início da década de 1960, quando ainda trabalhava como mestre de obras. Atuou como figurante em dois filmes dirigidos por Pedro Teófilo, com quem também fez um curso de cinema. Os dois trabalhos não foram finalizados, frustrando suas expectativas. Nessa mesma época, começou a escrever e produzir a radionovela Minha vida é um romance, baseada em fatos de sua vida. Posteriormente, o enredo da radionovela foi transformado em um cordel. Mas, ante as muitas dificuldades enfrentadas, decidiu acatar a sugestão da atriz carioca Greice Neves, que o conheceu na ocasião, abandonando a ideia da radionovela, e adaptando sua história para o cinema. Em 1979, concluiu seu primeiro filme, Traição no sertão, que mistura parte de sua história a boas doses de ficção, com duração de quatro horas, dividido em duas partes. Foi gravado numa câmera Super 8,

[...] pequenininha, deste tamainho assim, né? Filmava assim, como se fosse um revólver [risos]. A imagem ruim... a imagem muito ruim. [...] [foi] um bancário, que trabalha no filme como ator, ele tinha [a filmadora]. Ele que ofereceu. Aí ele falou comigo, eu falei com ele, aí a moça, a Greice Neves, vamos filmar? Vamos filmar! Inventemo de modificar o roteiro, da novela, e aí fazer o filme.

Esse primeiro filme foi apresentado ao público de Jaboatão dos Guararapes. No início, muitas vezes Seu Simião projetou seus filmes num telão instalado na rua, antes de começar a mostrá-los no circuito alternativo de cinemas municipais. Curiosamente, ele confessava não ser frequentador de salas de cinema: entrou em uma, pela última vez, no final dos anos 1970, para assistir a algum filme que não seu. Mas gostava de ver filmes em casa, no aparelho de televisão.

Desde então, dirigiu 9 filmes de longa metragem, atuou em outros tantos, e foi o tema do filme Simião Martiniano, o Camelô do Cinema, documentário de Clara Angélica e Hilton Lacerda, com duração e 14 min, realizado em 1998.

Onde estiver, tomara que haja aparelhos de televisão, para que continue vendo filmes. Mas, principalmente, que haja câmeras de vídeo, para que possa continuar inventando e contando suas histórias...





segunda-feira, 15 de junho de 2015

quando um trabalho vai ao encontro do outro


Já foi relatado aqui. Depois de muito tempo sem notícias, reencontramos Seu José Zagati. Desde então, com alguma regularidade, temos conversado ao telefone. Sua saúde não está bem. Há poucas semanas foi submetido a uma cirurgia muito agressiva, que durou 12h. Está se recuperando, na casa da filha.

Ontem, enquanto conversávamos, ele se manifestou em relação ao meu livro que tem alguns capítulos dedicados ao seu trabalho com cinema, e ao desfeito Mini Cine Tupi, em Taboão da Serra. Confesso que estava ansiosa por ouvi-lo, depois de, finalmente, ter conseguido lhe enviar o exemplar.

Contou-me que ficou impressionado com tudo que escrevi sobre o Brazza e os outros cineastas (Seu Manoelzinho e Seu Simião Martiniano). Mas, principalmente, disse ter ficado emocionado com o que eu escrevi sobre ele. Estava ali, tudo, tudo, conforme me contara nas entrevistas, nas quantas vezes quando estivemos juntos. Desse modo, chancelou minha escrita sobre ele. 

Ao final de seu parecer, proferiu a sentença que ainda está reverberando em mim, como um prêmio, mas também iluminando o modo como tenho desenvolvido o trabalho de campo, nas relações de aprendizagem que tenho tido o privilégio de estabelecer com pessoas tão especiais, agentes de cultura, atuantes em seus tempos e contextos:

"Professora, como o meu trabalho se encaixou com o seu trabalho, não é? O meu trabalho e o seu se encontraram direitinho!"

É, meu senhor, parece que esse caminho tem um coração...






domingo, 5 de abril de 2015

Um filme ciberfunk documental cientificoficcional…


Fui assistir ao filme Branco sai, preto fica, realizado em 2014, com assinatura de Adirley Queirós, uma produção brasiliense, que contou com financiamento do FAC/DF e ganhou o prêmio de melhor filme no 47º. Festival de Cinema de Brasília. Estava na expectativa de ver o trabalho. Quando solicitei o ingresso, a moça me olhou séria e fez a advertência: É um filme sobre música funk da Ceilândia. É isso mesmo? Confesso que fui pega de surpresa. Apenas respondi que Sim, é isso mesmo. Depois que saí dali, fiquei pensando na situação discriminatória que isso representou. O que a atendente teria pensado que justificou aquela advertência? Eu, uma mulher branca, de meia idade, que interesse teria naquele tipo de filme? Teria, ela, feito a mesma advertência aos demais clientes (pois a sala estava com mais da metade das cadeiras ocupadas)?

Branco sai, preto fica é um filme com a cara de Brasília, ou, do Distrito Federal, sua periferia. É um filme que brada aos quatro ventos que a capital federal não se restringe à Esplanada dos Ministérios, e suas gentes transitam por outros trechos do mapa. De alguma forma, o filme brada contra a mentalidade manifestada pela moça que me vendeu o ingresso, à entrada do cinema...

As tomadas são fortes, intensas. Fotografia cuidada, com belas imagens. O argumento é muito interessante: trata das consequências de uma tragédia, sem perder o humor, nem a ironia. Não deixa de registrar com veemência a opressão dos anos 80, nos estertores da ditadura militar, e também adverte para os riscos de outras ditaduras. É aí que a ficção científica ao estilo ciberpunk (mas a música que rola é funk...) dá o tom.

Por vezes, o ritmo ralenta. Nesses momentos, perde um pouco da força. A finalização também deixa a desejar. Mas que não se cometam julgamentos precipitados: vale a pena, sim, ver o filme! Vale pelo argumento, pelos protagonistas, pelas locações. Pelo fato de ser um filme que consegue libertar-se das imagens oficiais da cidade, insurgindo-se contra elas, apresentando uma paisagem familiar a quem conhece a capital além do lugar comum, além do enquadramento veiculado pelos noticiários, além dos limites do Plano Piloto, onde só podem entrar os eleitos, portadores do passaporte especial...



BRANCO SAI, PRETO FICA
DIREÇÃO Adirley Queirós
ELENCO Marquim do Tropa, Dilmar Durães e Gleide Firmino
PRODUÇÃO Brasil, 2014, 12 anos






quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Metacinema e Os Mercenários



Um grupo de bandidos orientais (há alguma diferença entre bandidos e mercenários?...) tem um refém preso a uma cadeira, com as mãos para trás e um saco cobrindo seu rosto. O líder tortura esse prisioneiro, espancando-o, ameaçando-o de morte. Mas ele nada fala, e não faz um movimento sequer. Parece desmaiado. À frente, um senhor oriental está deitado, ensanguentado. Parece vivo, ainda. Também é prisioneiro.

Enquanto isso, um grupo conduzindo veículos multifuncionais, blindados, armados por todos os lados, avança sobre o forte onde essa cena se passa. Matam tudo e todos quantos lhes cruzem o caminho, ou estejam, ao acaso, nas cercanias. Aos poucos, é revelada ao espectador a face de cada um deles: atores famosos de filmes de ação norte-americanos, todos reunidos na mesma produção. A maior parte deles já na meia idade, divertindo-se em fazer o de sempre: contar, no cinema, a mesma história. Divertem-se no percurso. Chegam, afinal, ao salão onde estão os dois prisioneiros. Depois de terem “limpado a área”, Stallone, o velho Rambo, líder do bando, revela o rosto do prisioneiro, tirando-lhe o saco da cabeça. É ninguém menos que Arnold Schwarzenegger, cuja fala primeira formula uma queixa quanto à demora dos parceiros. Em seguida, reivindica uma arma “bem grande”. Olha para Terry Crews, especialista em armamento pesado. Quero essa sua, grunhe. Terry Crews se recusa a lhe emprestar, mas Stallone intercede, sugerindo que ele use a de reserva. Terry, então ameaça Arnold, enquanto lhe entrega a preciosidade: Se você não devolver, eu extermino você! Nem no futuro, é a resposta de Arnold, numa referência ao filme Exterminador do futuro, Terminator no título original (o tradutor tratou de fazer uma gambiarra para encaixar a versão do título em português).

Os Mercenários, The Expendables, foi escrito por David Callaham e Sylvester Stallone. Este é, também, o diretor e assume o papel principal (papel principal?...). Com a primeira produção lançada em 2010, desde então o projeto emplacou 3 continuações. De fato, o papel principal não é de Stallone, mas do cinema de ação norte-americano. O mérito de Stallone foi reunir, na mesma produção, todos os caras maus que andam por aí, matando gente em nome da defesa sabe-se lá de quem ou do quê (além de seu próprio faturamento, é claro). Sempre sozinhos, lutando contra todos os bandidos do mundo, nessa versão do mesmo filme de ação norte-americano, eles resolveram reunir suas fúrias, sua sanha de matar, sua sede de limpar a humanidade de seus inimigos, e andam em bando, fazendo a mesma e única coisa que sabem fazer.

Mas o tempo é implacável até com esses caras. Os jovens que encaravam o mundo sem medo estão coroas. Stallone apresenta barbas grisalhas. Os corpos continuam musculosos, mas sem o viço de há algumas décadas. A pele já ressente dos tratamentos recorrentes. Contudo, eles parecem não se importar. Divertem-se recontando, em bando, a mesma história que cada um vem contando, há décadas, sozinho. Divertem-se, sobretudo, vendo suas contas bancárias ficando recheadas com os lucros resultantes dessa única história que sabem contar e, mais que isso, sabem vender como ninguém.

Um viva as membros do Sistema CooperAção Amigos do Cinema, que também andam em bando, fazendo filmes artesanais, sem custos, e se divertindo muito! Só não sabem vender...





sábado, 10 de janeiro de 2015

Ética, ciência, filosofia: entre o filme Interestelar e os Pensadores da nova esquerda



Fui assistir ao filme Interestelar. Entre as temáticas abordadas no enredo, estão questões éticas da pesquisa tecnocientífica. Além dos dilemas marcados entre decisões que envolvem escolhas entre os vínculos afetivos mais próximos e o destino da humanidade, estão as situações em que, cada qual movido por razões singulares, cientistas mentem, ou forjam dados, para assegurar a realização de seus projetos. É particularmente sobre este ponto que pretendo me deter.

Curiosamente, no mesmo dia, chegou-me às mãos uma resenha crítica do livro intitulado Pensadores da nova esquerda (cuja aquisição já providenciei), escrito por Roger Scruton nos anos 80 do século XX, mas só traduzido para o português em 2014. Nele, o filósofo inglês faz uma análise crítica da obra de um conjunto de quatorze intelectuais importantes no cenário do século XX, que aprofundaram as discussões marxistas, conhecidos como Nova Esquerda. Alguns deles ainda mantêm vigor em suas ideias, influenciando a produção de conhecimento século XXI adentro. Dentre esses, estão Foucault, Gramsci, Althusser, Habermas, Lukács, Galbraith. Nessa lista, também está Jean-Paul Sartre, protagonista de um episódio que me motiva a esta reflexão.

Scruton é duro em suas análises, advertindo para o fato de que a maior parte da produção reflexiva nessa direção é prenhe de bandeiras ideológicas, pouco restando de conhecimento crítico reflexivo propriamente dito. Vai mais longe, apontando situações nas quais os intelectuais e pensadores não hesitaram em forjar dados, ou mentir sobre o que teriam testemunhado, para confirmar suas convicções e defender seus projetos. Particularmente, os projetos vinculados às revoluções de esquerda.

Esse teria sido o caso de Jean-Paul Sarte que, mesmo tendo testemunhado atrocidades imperdoáveis na União Soviética, quando lá esteve em 1954, mentiu sobre elas, omitindo esse testemunho, em favor do projeto marxista de sociedade, de uma utopia não realizada. Ou seja, a construção de uma sociedade socialista, que se pretendia mais justa, valia o preço de uma montanha de cadáveres. E também justificava a falsificação dos fatos. Sartre teria admitido esse episódio já perto de sua morte, sem, contudo, trazê-lo à mesma visibilidade com que o fez em relação à defesa messiânica do projeto de esquerda, ancorado na experiência soviética.

No filme Interestelar, Dr. Mann é um cientista enviado em viagem através de um buraco de minhoca, para explorar um planeta que, aparentemente, poderia oferecer condições de abrigar a espécie humana, quando parecia inevitável a falência da vida no planeta Terra. O cientista teria registrado dados que confirmavam essa possibilidade no planeta onde fazia as investigações. Isso justificou a decisão de se fazer uma nova viagem até o planeta, para resgatar o Dr. Mann, e fazer o reconhecimento do local. Assim, seria possível verificar o que seria necessário para colonizar o local. No entanto, os dados tinham sido forjados pelo cientista, num gesto de desespero ante a constatação de que, sendo inóspito o local, ele estaria condenado a morrer ali, sozinho. Mentir foi a única saída que ele encontrou para ser resgatado, não importando se esse resgate custaria a descoberta de alguma saída para a sobrevivência da espécie humana. Ou seja, poderia custar a morte da humanidade.

No filme, a série de atitudes tomadas pelo cientista, em favor da própria sobrevivência e em detrimento do coletivo, ou da humanidade, foi castigada com sua morte. Não poderia ser diferente, considerando-se a moral que prevalece às narrativas hollywoodianas, sobretudo, as superproduções que evocam o imaginário de nação, a nação que encarna o próprio sentido de humanidade.

O cientista, na ficção científica, foi condenado à pena de morte, porque mentiu para ser resgatado e continuar vivo. O filósofo existencialista do século XX mentiu em defesa de um projeto de sociedade ainda em construção, que já tinha devorado e ceifado vidas sem fim, num campo de atrocidades nem sempre admitidas. O filósofo não sofreu nenhuma penalidade. Ao contrário, permanece sendo evocado por bandeiras que defendem uma sociedade mais livre e justa.

Parece, mesmo, que nossas noções de ética na pesquisa e na ciência precisam ganhar maturidade. Pois, até aqui, amiúde, o que entendemos por ética se aproxima muito mais a argumentos justificatórios para a realização dos desejos mais infantis e egoístas.


INTERESTELAR. Interstellar. Direção: Christopher Nolan. Duração: 169 min. EUA, 2014.
SCRUTON, Roger. Pensadores da nova esquerda. São Paulo: Editora É Realizações, 2014.



sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

2001 e Interestelar



2001: A space odyssey
2001: Uma odisseia no espaço
Stanley Kubrick
 1968 



Interstellar
Interestelar
Christopher Nolan
2014





quarta-feira, 17 de setembro de 2014

El gesto de filmar (fragmentos)


Menos banal, aunque igualmente significativa, es la comparación entre supermercados y cines. Unos y otros son basílicas del tipo del Panteón de Roma, y responden a la doble función de la basílica como mercado cubierto (supermercado) y de la iglesia (cine). (p. 117-118)

(...)

Hoy existen dos planos históricos: el cuatridimensional de la vida diaria y el tridimensional de las basílicas cartesianas. Un complicado feedback conecta esos dos planos; pero la tendencia trata de anteponer el plano tridimensional – como trompre-l’oeil que es – al plano cuatridimensional, con el que se choca y que ofrece una resistencia.

No se excluye que no futuro la historia, existencialmente significativa, se desarrolle ante los ojos de los espectadores sobre paredes y pantallas de televisión, y no en el espacio del tiempo. Eso sería realmente una posthistoria. Por eso el filme es “el arte” de nuestro tiempo, y el gesto fílmico del “hombre nuevo”, un ser que desde luego no nos resulta incondicionalmente simpático. (p. 122)

(Vilém Flusser. Los gestos. Barcelona, Editorial Herder, 1994)






sexta-feira, 11 de julho de 2014

Prêmio SBPC/GO de popularização da Ciência - 2014

Dá-lhe, Ana Priscilla e Fernandinha! 



Ciência, Tecnologia & Inovação em Goiás

RESULTADO DE PARTICIPAÇÃO

CIÊNCIAS EXATAS E DA TERRA (INCLUI ENGENHARIAS E CIÊNCIAS AGRÁRIAS)

1º - DESENVOLVIMENTO DA AGRICULTURA FAMILIAR EM GOIÁS, NAS SUAS MÚLTIPLAS DIMENSÕES, PELA EXTENSÃO TECNOLÓGICA  ADAPTADAS EM BASE AGROECOLÓGICA. Mariane Porto Muniz. Orientador: Wilson Mozena Leandro

2º - FLUZZ. REDES SOCIAIS: GERAÇÃO, VISUALIZAÇÃO E BUSCAS QUE MAXIMIZAM A PROBABILIDADE DE INFLUÊNCIA ENTRE INDIVÍDUOS. Ericsson Santana Marin. Orientador: Cedric Luiz de Carvalho

3º - O LUDO E A CIÊNCIA DOS MATERIAIS CERÂMICOS: CONSTRUINDO CONHECIMENTO CIENTÍFICO COM ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL. Eloah da Paixão Marciano. Orientadora: Maria Fernanda do Carmo Gurgel

4º - EXTRAÇÃO E APLICAÇÕES DO ÓLEO DE PEQUI. Tatiane Carvalho Silva. Orientador: André Carlos Silva

CIÊNCIAS BIOLÓGICAS

1º - NO RASTRO DE QUEM AINDA RESTA: CONHECIMENTOS E FERRAMENTAS DE APRENDIZADO ACERCA DOS MAMÍFEROS DO CERRADO. José Neiva Mesquita Neto. Orientadora: Gleyce Alves Machado

2º - AVALIAÇÃO E ESTABELECIMENTO DE ÁREAS PRIORITÁRIAS PARA A CONSERVAÇÃO DE ANFÍBIOS ANUROS SOB UMA PERSPECTIVA FILOGENÉTICA. Larissa Pereira Lemes. Orientador: Natan Medeiros Maciel

3º - DEFININDO PRIORIDADES PARA A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE. José Hidasi Neto. Orientador: Marcus Vinicius Cianciaruso

4º - DOMINÓ BIOQUÍMICO: UMA FERRAMENTA PEDAGÓGICA PARA O ENSINO DA RESPIRAÇÃO CELULAR. Erik Nelson de Paiva Melo. Orientador: Rodrigo da Silva Santos

CIÊNCIAS DA SAÚDE

1º - UMA PORÇÃO DE AMÊNDOA DE BARU ASSOCIADA À ALIMENTAÇÃO EQUILIBRADA MELHORA A COMPOSIÇÃO CORPORAL, O PERFIL LIPÍDICO E AUMENTA A ATIVIDADE DE ENZIMAS ANTIOXIDANTES EM MULHERES COM EXCESSO DE PESO. Rávila Graziany. Orientador: João Felipe Mota

2º - DOENÇA DE CHAGAS EM COMUNIDADE KALUNGA. Tauana Lemos Coimbra. Orientador: Joffre Rezende Filho

3º - DENGUE: CARACTERIZAÇÃO FENOTÍPICA E MOLECULAR DA RESISTÊNCIA DE AEDES AEGYPTI A INSETICIDA NA CIDADE DE GOIÂNIA-GO. Francesca Guaracyaba Garcia Chapadense. Orientador: Pedro Vitor Lemos Cravo

4º - CONTRIBUIÇÕES DO PRONTO SORRISO NA FORMAÇÃO DO PROFISSIONAL DE SAÚDE. Maria Luiza de Faria Paiva. Orientadora: Fátima Maria Lindoso da Silva Lima

CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS

1º - LUXO ETERNO: CHANEL NO. 5 E O GLAMOUR COMO RESISTÊNCIA CULTURAL. Liessa Comparim Dalla Nora e Maurício Pessoa Peccin. Orientador: Goiamérico Felícia Carneiro dos Santos

2º - DIFERENÇAS ENTRE OS CURSOS DE GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS ECONÔMICAS NO ESTADO DE GOIÁS. João Pedro Tavares Damasceno.  Orientadora: Priscila Casari

3º - O CORPO NAS ORGANIZAÇÕES COMO EXPRESSÃO DA LINGUAGEM NÃO-VERBAL. Cláudia Sousa Oriente de Faria. Orientadora: Maria Francisca Magalhães Nogueira

4º - POLÍTICAS PÚBLICAS PARA BIBLIOTECAS ESCOLARES COMO FERRAMENTA PARA O AVANÇO E POPULARIZAÇÃO DA CIÊNCIA. Marcio Luiz Fernandes Barbosa. Orientador: João de Melo Maricato

CIÊNCIAS HUMANAS

1º - AUTO-REPRESENTAÇÃO DE ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL: A IMAGEM DE SI NA ESCOLA PÚBLICA REGULAR EM GOIÂNIA. Raclene Ataide de Faria. Orientador: Francisco Chagas Evangelista Rabelo

2º - O EXERCÍCIO DO PENSAMENTO COMO FORMA DE VIDA. Pedro Lucas Dulci Pereira. Orientadora:Adriana Lopes Delbó

3º - OUTROS PIONEIROS: ALGUMAS QUESTÕES SOBRE MEMÓRIA HISTÓRICA E A CIDADE QUE NÃO ESTÁ NOS LIVROS. Fernando Viana Costa. Orientador: Luiz Sérgio Duarte da Silva

4º - A VÍTIMA ENQUANTO SUJEITO DE DIREITOS NO PROCESSO PENAL. Javahé de Lima Júnior. Orientadora: Vilma de Fátima Machado

LINGUÍSTICA, LETRAS E ARTES

1º - DICIONÁRIOS E O ENSINO DA VARIAÇÃO DIATÓPICA NAS ESCOLAS. Rayne Mesquita de Rezende. Orientadora: Maria Helena de Paula

2º - USOS E ATITUDES LINGUÍSTICAS DE JOVENS INDÍGENAS XERENTE-AKWẼ EM CONTEXTO DE CONFLITO INTERÉTNICO: ENTRE A ASSIMILAÇÃO E A RESISTÊNCIA LINGUÍSTICA. Julia Izabelle da Silva. Orientadora: Silvia Lucia Bigonjal Braggio

3º - A TRADIÇÃO ORAL COMO RECURSO PARA LEITURA E PRODUÇÃO TEXTUAL E VALORIZAÇÃO DA DIVERSIDADE CULTURAL. Jozimar Luciovanio Bernardo. Orientadora: Maria Helena de Paula

4º - CINEMA: DESENCADEANDO MEMÓRIAS. Ana Priscilla Furtado de Azevedo e Fernanda Isabel Melo de Amorim. Orientadora: Alice Fátima Martins

Goiânia, 09 de julho de 2014

Comissão Julgadora do Prêmio SBPC-GO 2014






sábado, 17 de maio de 2014

O médico e o físico amantes do cinema, e a antiga sala da Cultura Inglesa, em Brasília


A pequena sala da Cultura Inglesa, em Brasília, foi palco de memoráveis momentos do cinema na capital federal. Fui frequentadora assídua, nos anos 80, de toda sua programação. Hoje dou-me conta de que encontrei, ali, a primeira grande escola de cinema, aberta às diferenças, às divergências, à diversidade mais radical. A programação era assinada pelo Da Mata, e o Zé ficava à porta, recolhendo os ingressos. Todos brincavam dizendo que ele tinha bebido tanto, que já alcançara um estado alcoolizado permanente. Por isso mesmo alguns o chamavam de Zé do Brejo. O fato é que ele conhecia toda a programação, e o público que frequentava a sala. Tinha assunto para conversar com todos, e dava conta da vida de cada um.

Acho que foi em 1983, houve um festival com filmes de curta metragem, experimentais. O público votaria suas preferências. Assisti a todos. Foi quando pudemos acompanhar o impagável filme Cruviana, do físico amante do cinema, José Acioli. Inesquecível, lamento que não tenha sido digitalizado, para ser degustado pelas novas gerações imersas nas imagens digitais.

Meio dissimulado dentre os demais, havia um filme a cujo título não cheguei a dar muita atenção. Era um nome científico, da área médica. Cheguei a imaginar que tivesse sido apropriado, para dar nome a alguma história psicodélica. Sabe-se lá o que se passa na cabeça de cineastas experimentais, não é? 

Mas todos foram surpreendidos ao constatar que se tratava de um filme que correspondia ao título ao pé da letra: Mastectomia subcutânea, de Jorge Martins, era o registro, sem cortes, de uma cirurgia de retirada de mama, em cru, ali, à vista de artistas, intelectuais, gentes mais ligadas às metáforas da vida. Uma parte da platéia se retirou, durante a projeção. Uns, por acharem um acinte à arte do cinema incluir no festival uma coisa daquelas. Outros por não resistirem a visão do corpo cortado, da mama dilacerada, da pele solta e a mão do cirurgião enfiando-se entre a carne morna e cheia de sangue. 

Três décadas depois desse episódio, no grupo de que faço parte, com pessoas dispostas a aprender a operar com as ferramentas para edição de vídeo digital, há um médico cirurgião. Ele se queixa, relatando que não encontrara ninguém da área que acolhesse a ideia de editar seus vídeos de cirurgias, para que ele possa usar nas aulas. Por essa razão, decidiu-se a ganhar autonomia, e fazer ele mesmo. Foi inevitável, lembrei-me imediatamente do filme Mastectomia subcutânea.

Fazendo uma rápida incursão na internet, buscando informações a respeito, localizei uma dissertação que trata de filmes realizados em Brasília, desde os anos 1960, até o início dos anos 2000. A ênfase do estudo está na necessidade de se organizar uma cinemateca da cidade, para preservar essa produção - pauta essa que, de urgente, já se encontra em atraso injustificável. Entre os filmes listados, está o delicioso Cruviana, bem como Mastectomia subcutânea. Trata-se da dissertação intitulada Preservação de Acervos Fílmicos no Distrito Federal, defendida por Angélica Gasparotto de Oliveira, no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, em 2013, com a orientação da Profª Drª Miriam Paula Manini.

Fiquei muito contente ao encontrar esse material. Tomara que ele seja, de fato, um contributo para o estabelecimento de políticas públicas que visem à preservação da filmografia de Brasília. Contei a história ao meu colega médico, que anda muito entusiasmado com a nova função de edição de vídeos. 

Mas eu gostaria, mesmo, era de rever o curta metragem Cruviana...

A propósito, aos que andam, por aí, viajando de noite, tenham muito cuidado, para não encontrar a cruviana, estando desprevenidos!




terça-feira, 13 de maio de 2014

Pérolas de filmes de ação


Primeira pérola
No filme 6 balas, de Ernie Barbarash, lançado em 2013, Jean-Claude Van Damme, um senhor já de meia idade, interpreta um mercenário não menos furioso que todas as outras mesmas personagens já interpretadas. Depois de ter matado algumas dúzias de bandidos, e explodido quase uma dúzia de construções, ainda resta um último malfeitor. Este está numa igreja, e posta-se no confessionário, para reconhecer seus erros:
– Padre, eu pequei. É verdade que Deus perdoa até mesmo um crime?
– Talvez Deus perdoe, mas eu não! – decreta o próprio Jean-Claude Van Damme, ocupando o lugar do padre, antes de enfiar uma bala na testa do algoz.

Segunda pérola
No filme Stallone Cobra, de George Pan Cosmatos, lançado em 1986, Sylvester Stallone vive um policial escalado para missões de alto risco, Marion Cobretti, conhecido como o Cobra. Em uma das cenas iniciais, um bandido invadiu um supermercado, destruiu metade das prateleiras e gôndolas com mercadorias, e tomou uma moça como refém. Cobretti, o Cobra, sempre frio e determinado, posicionou-se para deter o bandido a qualquer preço.
– Eu vou matá-la! Eu vou explodir tudo isto aqui! – vociferou o bandido, pretendendo intimidá-lo.
– Vá em frente, eu não faço compras aqui mesmo! – respondeu um Stallone quase indiferente, antes de deflagrar, no supermercado, um estrago ainda maior que o feito pelo próprio bandido.

Terceira pérola
No filme Eixo da morte, realizado em 1997, dirigido e interpretado por Afonso Brazza, sua personagem, depois de ter matado, sozinho, algumas dezenas de bandidos, desabafa para a mocinha, sua musa Claudete Joubert:
– Agora vou partir, vou viver junto com os animais, eles não têm maldade no coração. Vamos. Mas sempre tem a verdade. Nem Cristo escapou dos inimigos. Agora eu lhe pergunto: pra quê tanta violência? Pra quê matar, destruir a vida do próximo, sabendo que somos todos irmãos, na paz, na alegria e na tristeza. Meus Deus, eu não lhe peço perdão, por que isso eu não mereço, mas lhe peço: perdoe o resto do mundo. Deus escreve certo por linhas tortas.