terça-feira, 27 de março de 2012

Daise Mary



Em novembro, ela completará 44 anos.
O tempo parece não passar para essa moça! ... já para mim...
A única mudança física que lhe ocorreu, foi que ela não chora mais. Já eu...



sexta-feira, 23 de março de 2012

A verdadeira história das cutias no Lago das Rosas




Para César e Yunna,
 que não se demorem a voltar

Era um lugar afastado de todos os centros urbanos. Por razões que ninguém sabe, a maior parte das moças tinha Rosa no nome: Rosa Maria, Maria Rosa, Rosa Ofélia, Rosaildes, Olga Rosa, Rosa Estefânia, Rosa Ecléia, Rosa das Mercês, e por aí vai. 

Fora do povoado, morava uma bruxa, que não era má, nem boa, mas sabia operar com as forças da natureza e do mágico, e, conforme seguia seu humor, lá ia ela, realizando seus trabalhos. Tinha muitas plantas no jardim, muitas árvores frutíferas no quintal. 

Naquele dia, ela acordou de mau humor, azeda, com o chifre virado. E foi fazer o que tinha de fazer, daquele jeito. Quando estava podando os galhos velhos de uma roseira, enfiou um espinho no dedo, sentiu dor, ficou com muita raiva, e rogou uma praga: que todas as rosas se transformassem em cutia!

Êh-lê-lê! Por que cutia? Não se sabe! Talvez tenha sido o primeiro animal que lhe ocorreu. Pior teria sido ela se lembrar de ratos, ou baratas, blerg!

O fato é que as rosas abertas despencaram no chão tomando a forma de cutias, e os botões viraram filhotinhos graciosos do roedor.

Mas ocorreu um problema: a força de sua raiva foi tanta, e deu tanto poder à sua praga, que o efeito se fez sentir entre as moças que tinham Rosa em seu nome. As pobres também foram transformadas em cutias! 

Todas fugiram para a mata nos arredores do povoado, onde havia um lago muito calmo.  Depois do ocorrido, a bruxa desapareceu, não se sabe que fim levou. Como ninguém, entre os moradores, sabia desfazer o mal-feito, comovidos com o ocorrido, as pessoas dedicavam algum tempo diário na companhia das cutias, perto do lago, o Lago das Rosas, como passaram a chamar. Com o passar dos meses, as pessoas começaram a se ocupar cada vez mais das coisas que dizem respeito às pessoas, deixando às cutias os assuntos das cutias.  

Muito tempo depois, chegaram umas pessoas vindas de longe, e construíram uma cidade ali nas redondezas. Embora não conhecessem a história das cutias, tinham a informação sobre o nome Lago das Rosas. Como a paisagem era muito bonita, preservaram o lago e a mata onde as cutias moravam, transformando a área num grande parque sempre visitado por muitas crianças e suas famílias. Ainda hoje, as cutias ficam felizes com o movimento, e brincam pelos gramados. 

Acho mesmo que já nem se lembram que, num dia distante, foram moças bonitas e alegres, num povoado isolado...


segunda-feira, 19 de março de 2012

sexta-feira, 16 de março de 2012

Vaca amarela


para Lorena e Renato

em tempos de cow parade, pichações, polêmicas, e muitas falações, 
saudades da vaquinha amarela... 


vaca amarela
pulou a janela
cagou na panela
mexeu, mexeu
quem falar primeiro come a bosta dela!


quinta-feira, 15 de março de 2012

Lançamento: "Fora do Padrão: o Filme"


  
Muito oportunamente, o Prof. J. Bamberg qualifica Martins Muniz como mestre-padeiro, cozinheiro, alquimista, tipicamente glauberiano, das mágicas cinematográficas, capaz de contar histórias, e tantas, dispondo do mínimo para sua produção. Sob sua batuta sempre discretíssima, neste início de 2012, a trupe de artistas – a cada nova etapa contando com novos aliados – reuniu-se para fazer seu cinema com marca autoral. Como sempre, um limpa, o outro pinta, outro levanta, outro escora, outro vigia, outro canta, outro salta, apertos de lá e de cá, e o milagre: mais um filme da cozinha do Sistema CooperAÇÃO Amigos do Cinema.

Impregnado desse espírito, sai da fornada seu pão quente fílmico mais recente, Fora do Padrão: o Filme, a ser exibido ao público no Cine Ouro, no próximo dia 1º de abril. A história tem como eixo uma questão cara ao cenário social contemporâneo, que é a homofobia. O ato violento de uma gangue homofóbica contra um grupo de jovens dá curso aos eventos, num percurso em que outros elementos culturais integram a trama. Vítimas e agressores reposicionam-se, mudando o curso da história, ao menos na ficção.

Sua narrativa é ágil, leve. Tem a objetividade e a dinâmica das histórias em quadrinho. O caráter alegórico das cenas lembra o expectador, a cada sequência, que se trata de uma representação, e não uma tentativa de imitação da realidade. Por isso mesmo, o filme propicia entretenimento ao mesmo tempo em que convoca à reflexão sobre situações de discriminação e violência nos centros urbanos, particularmente no tocante aos segmentos da população que, em alguma medida, são apontados como fora do padrão... Tal qual é o caso das produções de Martins Muniz e o Sistema CooperAÇÃO Amigos do Cinema.

Ao deguste, e ao debate!

Ficha técnica:
Fora do Padrão: o Filme
Realização: Martins Muniz e Sistema CooperAÇÃO Amigos do Cinema
Roteiro, edição e direção: Martins Muniz
Assistente de direção: Eurípedes de Oliveira
Elenco: Semio Carlos, Alexandre Marques, Paulo Vitória, Raquel Cipriano e Marília Ribeiro
Fotografia: Sérgio Valério e Andréia Miklos
Direção de arte: Adriane Camilo
Still e produção: Alice Fátima Martins
Continuista e edição: Renato Cirino
Música: Adalto Bento Leal
Berimbau J. Bamberg/Mestre Angoleiro



Lançamento:
Cine Ouro, dia 1. de abril (e não é coisa de mentiroso...), às 20h
ajudem a divulgar!














terça-feira, 13 de março de 2012

sábado, 10 de março de 2012

... houve um tempo...



eu também já tive cabelos quase lisos, com franja...
A propósito, a boneca chama-se Daise Mary.
  Ainda mora comigo. É uma senhora  cheia de histórias...


sexta-feira, 9 de março de 2012

O quinto, o terço, quase meio...



É tempo de instalar o programa do IRPF no computador pessoal, preencher o formulário, fazer cálculos, reunir comprovantes de despesas, e acertar contas com o fisco. E pagar os impostos dos veículos automotores, e habitacional...

Os impostos que incidem sobre todas as dimensões da vida moderna abocanham boa fatia dos ganhos de cidadãos pertencentes à classe média. Os milionários, em sua maioria, desenvolvem estratégias – lícitas ou ilícitas – para preservar seus lucros o mais que possam, os pobres e miseráveis sentem na pele a falta de infraestrutura básica que deveria ser provida pelo estado, financiada pelos impostos - saúde, educação, segurança, transporte. Sobre os ombros da classe média recai a maior parte do peso dessas contas. E os dinheiros pagos demoram a encontrar o caminho (muitas vezes desviam-se, sem retorno...) para chegar às suas destinações devidas...

Há pouco mais de dois séculos, o império português recolhia um quinto de toda riqueza produzida no Brasil ainda colônia. O quinto correspondia a 20% do faturamento. Muito menos do que o total de taxações que incidem hoje sobre os orçamentos, se somados os impostos de rendimento de pessoa física, impostos territoriais, de taxa urbana, de veículo automotor, seguros obrigatórios, impostos sobre transações comerciais e financeiras, impostos embutidos em quaisquer mercadorias ou serviços...

Por muito menos, no final do século XVIII, rebeldes deflagraram a Inconfidência Mineira... Por muito, muito menos, levantes contra a coroa portuguesa firmaram posições cidadãs, em tempos de maior dificuldade de acesso à informação, de menor mobilidade, de maior opressão – ou não?

Quais os percentuais de nossos ganhos, são, hoje, retirados de nossos orçamentos, na forma de impostos compulsórios? Que destinações têm sido dadas aos montantes arrecadados, numa República cada vez mais grassada pela corrupção, sem sermos capazes de expressar qualquer gesto mais incisivo de indignação?


quinta-feira, 8 de março de 2012

para conquistar gatinhos



p/ Pretinha, Madrid e Teodora

Em tempos de discussão espetacular sobre assédio, é prudente observar certos rituais de aproximação e conquista de gatos e gatas que despertem nossas afeições...

Pois bem. Primeiramente, é preciso chegar devagar, estabelecer o primeiro contato com o olhar, emitir algum sinal que chame a atenção sem ameaçar, que desperte a curiosidade. Ou seja: deixar-se ver, e realçar a intenção pacífica. Nunca se deve tomar a primeira iniciativa de aproximação, muito menos adotar qualquer atitude mais abrupta, ou exageradamente entusiasmada. Isso poderá assustar o bichano, ou a bichana, provocando sua fuga.

Quando o gatinho, ou a gatinha, se aproximar, ofereça a mão para ser cheirada. Mas não faça nada. Com algum receio ele, ou ela, chegará, farejará, sentirá o odor desconhecido, num gesto delicado e decisivo. Pode ser que, logo depois do reconhecimento, ele, ou ela, se afaste. É preciso ter paciência, e aguardar novas aproximações, até o momento em que seu cheiro comece a fazer parte das referências com alguma familiaridade. Então o gatinho, ou a gatinha, ficará ali por perto. Aproxime novamente a mão, e quem sabe roce sua face lateral. Nunca leve a mão por cima da cabeça, isso poderá causar intimidação e ameaça. Comece por um lado. Se o bichaninho oferecer a face, recostando a cabeça em sua mão, pronto, você terá obtido aprovação nessa primeira etapa.

Na sequência, coce-lhe o queixo, o outro lado da face, a nuca, e só então chegue ao topo da cabeça. Nos encontros que se seguem, convém sempre, no primeiro momento, oferecer a mão para ser reconhecida, para depois oferecer o afago. Chegará o momento em que esse gesto se fará desnecessário. Mas aguarde o próprio gatinho, ou a gatinha sinalizar isso. Assim, você terá grandes chances de que, logo, logo, o gatinho, ou a gatinha, esteja ronronando em sua companhia.

Gatos e gatas nos oferecem a possibilidade de aprender que algumas conquistas estão diretamente ligadas à capacidade de compreender os temores e os tempos do outro, e à disponibilidade que não se impõe, e não ameaça.


terça-feira, 6 de março de 2012

conversas sobre dores e delícias de ser mulher

Foi no último domingo. Na programação do Café Filosófico, no Bolshoi Pub, sob a coordenação do Filósofo Clínico Will Goya, discutiu-se a dor e a delícia de ser mulher. Tomaram parte da discussão os professores Iria Brzezinski e J. Bamberg.


Uma celebração ao exercício democrático de discussão, argumentação, produção de pensamento crítico e consistente.












sábado, 3 de março de 2012

Moção de repúdio


                                                        



UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
FACULDADE DE ARTES VISUAIS


MOÇÃO DE REPÚDIO


A Faculdade de Artes Visuais da UFG (FAV), ora portadora da medalha de Mérito Cultural e Diploma de Destaque Cultural do Ano, edição 2011, outorgada pelo Governo do Estado de Goiás em sessão solene, no dia 17 de novembro último, manifesta seu repúdio a situação a que os professores do estado de Goiás estão sendo submetidos, especialmente no que tange às perdas no campo das Artes Visuais e demais linguagens irmãs. Sendo assim a FAV reivindica junto ao Governo do Estado de Goiás espaço de diálogo e respeito para com os profissionais da educação que integram a Secretaria Estadual de Educação de Goiás.

Compreendemos que nós, profissionais do ensino superior, em parceria com os profissionais responsáveis pelo ensino fundamental e médio em nosso Estado, todos tomamos parte de um mesmo projeto de educação, cujas políticas públicas têm sido deficitárias no tocante ao reconhecimento de nosso trabalho, e à garantia de condições de trabalho, no exercício profissional digno, para a categoria responsável pela formação do tecido social no qual estamos inseridos.

Nossos alunos, que integram os cursos de Artes Plásticas, Design de Moda, Design de Ambientes, Design Gráfico, Arquitetura e em especial, da Licenciatura em Artes Visuais nas modalidades presencial e a distância (que no ano de 2011 graduou cerca de 250 professores de artes visuais em todo o Estado), são provenientes, em sua maioria, dessa rede de ensino. 

Muitos dos profissionais que ora reivindicam revisão no Programa denominado “Pacto pela Educação” são alunos regulares e também egressos dos nossos cursos. Estes profissionais que integram a Rede Estadual de Ensino questionam a redução da carga horária das disciplinas e projetos de artes, em especial no Ensino Médio. Como explicar que uma Secretaria do Estado de Educação que no passado apresentou avanços significativos em práticas curriculares no momento gera, promove e mantém um programa educacional na contramão de uma perspectiva crítica, libertária e conscientizadora? Propor a diminuição da arte na educação básica, além de ser uma postura retrógrada, está em desacordo com o atual Plano Nacional de Cultura - PNC do Ministério da Cultura – MINC (além das demais orientações educacionais vigentes) no que diz respeito à disciplina de Artes no currículo das escolas públicas. De acordo com a Meta 12, essa matéria deverá dar mais ênfase à cultura brasileira, às linguagens artísticas e ao patrimônio cultural. A Meta 13 prevê a inclusão de 20 mil professores de Arte de escolas públicas em um programa de formação continuada e a Meta 14 do PNC propõe que 100 mil escolas públicas da Educação básica desenvolvam atividades de Arte e Cultura de forma permanente. (fonte: http://www.tribunadoplanalto.com.br/escola/13710-cultura-nas-escolas)

A mais, é nossa convicção a impossibilidade de se falar em qualidade de formação de professores sem que se discuta valorização profissional (plano de carreira) e condições de trabalho. Isso posto, esperamos que prevaleça o bom senso, e o espírito verdadeiramente democrático. Afinal, não pode haver democracia sem escolas bem equipadas acessíveis para todos, professores bem remunerados e com boa formação inicial e continuada, e projeto político pedagógico construído de modo colaborativo.

Mérito e destaque só tem validade quando refletem a garantia da vivência do exercício pleno de cidadania. Nossa instituição é composta por todos que dela já fizeram parte e, por todos que ainda virão a integrá-la. Neste sentido, apoiamos a Mobilização dos Professores da Rede Estadual de Goiás e afirmamos nosso repúdio à incoerência entre o discurso e a prática ora mantidos pelo Governo do Estado de Goiás.



Goiânia, 27 de fevereiro de 2012.

CONSELHO DIRETOR
Faculdade de Artes Visuais
Universidade Federal de Goiás




sexta-feira, 2 de março de 2012

Lobo solitário



Para Seu Waltercílio,
e seus animais de estimação.


Estava atrasada. Seguia, esbaforida, no meu carro cor prata - dessas cores neutras com que a indústria pinta a maior parte dos carros, cor noturna, sem vivacidade... Avistei o lobo solitário a alguma distância, com seu veículo vermelho vivo, estacionado ao lado de uma plantação de sorgo. Os alto-falantes emitiam boleros antigos, cujos acordes dissipavam-se no azul intenso do céu, e no sol calorento do final da manhã. Passei por ele, me encantei com a cena. Quase ia me distanciando, deixando-o para trás, quando decidi voltar. Pensei em fotografar o veículo, conhecer seu proprietário. No retorno, pedi licença para fazer as fotos. Seu Waltercílio animou-se com meu interesse, e se aproximou, conversando. Era de estatura média, elegante. Contou da preocupação com sua cadela que, atropelada por um carro, quebrou uma perna. Foi encaminhada à Faculdade de Veterinária da UFG, onde queriam lhe fazer uma amputação. Mostrou-me as radiografias da perna quebrada, e a fotografia do animalzinho. Ele discordava da conduta dos veterinários, e decidira ir buscá-la, para cuidar dela em casa: colocaria uma tala, lhe daria arnica, e com certeza se recuperaria.

Na carroça, outra cadela, a Daiane, observava seu movimento; e a égua aguardava pacientemente. Ele contou que a cadelinha acidentada o ajudou a adquirir a carroça, companheira em seu trabalho de catador de papel. E enfatizou a gratidão pelo animal.

Despedi-me dele, que ficou me advertindo para ter muito cuidado na travessia da rua, pois os carros passam correndo muito - quase sempre mais apressados do que eu ia, antes de retornar para conversar com ele. Retomei meu caminho, e ele seguiu, calmamente, compondo o contraste do vermelho de sua carroça com o verde do sorgo muito alto e o azul do céu. A música seguia, em ritmo de bolero.

Um lobo, nem tão solitário: em boa companhia de seus animais de estimação, companheiros de trabalho.





quinta-feira, 1 de março de 2012

Sete mulheres extraordinárias: porque toda mulher deve ter, entre seus afetos, a sua casa das sete mulheres – fortalezas vivas a lhe alimentar o espírito



Aos formandos do curso de Licenciatura em Artes Visuais da FAV/UFG, turma de 2011, o meu afeto mais fundo.

Fui escolhida para ser paraninfa da turma de Licenciatura em Artes Visuais – FAV/UFG, que concluiu o curso em 2011, e cuja cerimônia de formatura aconteceu no dia 29 de fevereiro de 2012. O convite me fez pensar sobre o papel que cada um de nós cumpre na formação e no diálogo compartilhado com parceiros, companheiros, interlocutores em nossos caminhos de produzir, refletir, viver cultura. O que me levou a prestar uma homenagem a algumas mulheres muito especiais, que assumiram lugares muito marcantes pelos caminhos por onde passei, embora nem todas tenham ganhado notoriedade pública, ou visibilidade – o que não diminui, em nada, sua importância nos contextos em que atuam. Ter convivido com elas me faz, hoje, ter a certeza de que eu sou, sim, uma mulher privilegiada.


Teresinha Rosa Cruz

A primeira delas, eu tive o privilégio de reencontrar, em sua casa, há poucas semanas. É minha professora Terezinha Rosa Cruz. Fui sua aluna na disciplina Fundamentos da Arte na Educação, no segundo ano do meu curso de graduação. À época, ela deveria ser um pouco mais velha do que eu sou agora. Era uma mulher forte, de convicções. Eu era muito jovem, talvez um pouco imatura para compreender as dimensões do que ela propunha, mas inquieta o bastante para me deixar ser instigada por ela.

Mineira, com formação clássica em Belas Artes, e envolvimento fecundo com a Educação, conheceu Augusto Rodrigues, no Rio de Janeiro, e mais tarde tornou-se amiga de Darcy Ribeiro, com quem pôde debater questões relativas a projetos educacionais, cultura, arte, entre outros. Chegou à Universidade de Brasília quando o Instituto Central de Ciências, o Minhocão, ainda era um canteiro de obras sangrando terra vermelha. Ali, a Profª Terezinha esteve à frente de um projeto importantíssimo – e pouco lembrado – desenvolvido na Universidade de Brasília dos anos 60, que foi o CIEM – Centro Integrado de ensino Médio, iniciado em 1964, e fechado em 1971, com o acirramento da Ditadura Militar então vigente no país. Essa história foi relatada e discutida por ela no livro intitulado Uma experiência de educação interrompida, publicado pela Editora Plano/Df. No CIEM, as artes ocupavam lugar central na articulação das aprendizagens, e a provocação à criação e à autonomia de pensamento, em todos os campos do conhecimento, orientavam os planejamentos. Passaram por ali, como estudantes, figuras que ganharam destaque no cenário nacional, seja o político, cultural, desportivo ou científico.


 Lais Fontoura Aderne 

À frente do CIEM, a Profª Terezinha foi responsável pelo convite feito à também mineira Profª Lais Aderne para integrar sua equipe. Assim, entra em cena a segunda mulher à qual presto minha homenagem aqui.

No início dos anos 70, a Profª Laís criou a Feira do Troca, na cidade goiana de Olhos d’Água. Essa feira ganhou autonomia, e vem sendo realizada até hoje, cerca de quarenta anos depois, em duas edições anuais, tendo sido estendida para outros locais. E na segunda metade dos anos 80, ela realizou o 1º Festival Latino Americano de Arte e Cultura, o FLAAC, que trouxe para Brasília artistas e trupes de toda a América Latina, e mobilizou a cidade numa programação rica e múltipla. Dentre as atividades programadas, Lais liderou uma reunião de arte-educadores, que resultou na fundação da Federação de Arte Educadores do Brasil, a FAEB, da qual foi a primeira presidente.

Eu era professora da educação básica, na rede pública do Distrito Federal, e pude participar de modo intenso de todos os acontecimentos. Mas acho que eu não tinha noção das reais dimensões e da importância daquele evento. Acho mesmo que  poucos tínhamos. Posteriormente, foi realizada uma segunda edição, e em 2012 está sendo retomado o projeto e, finalmente, acontecerá a terceira edição do FLAAC, de cuja programação tenho a honra de integrar.

Quando faleceu, em 2007, estava profundamente envolvida com os projetos de Eco Museus, a partir do projeto do Eco Museu do Cerrado, e das várias frentes que abriu de ações comunitárias, envolvendo sustentabilidade, cultura, arte, educação. Uma perspectiva efetivamente holística de pensar formação, cultura, experiência estética, meio ambiente, comunidade. Seu trabalho está, ainda, por ser melhor divulgado, para ganho de educadores, artistas, arte-educadores, e projetos sociais.


Ana Mae Barbosa

No 1º FLAAC, participou da reunião em que se fundou a FAEB, a profª Ana Mae. À época, suas ideias no âmbito da arte-educação não só já tinham ganhado popularidade como vinham exercendo cada vez mais influência na formulação dos pensamentos sobre arte-educação no cenário brasileiro, estendendo-se ao internacional.

Formada em Direito, discípula de Paulo Freire, trabalhou na Escolinha de Arte de Recife. Carioca, criada no nordeste, radicada em São Paulo, com projeção internacional, a Profª Ana Mae encarna o espírito pós-moderno da identidade transcultural.


Defensora entusiasta, ainda hoje, da FAEB, a Profª Ana Mae – que também esteve, em 1965, na universidade de Brasília, quando participou da criação da Escolinha de Arte da UnB – conheceu a Profª Terezinha, foi amiga de Laís, e mais tarde tornou-se referencia para o ensino de arte em todo o país. Das mulheres que trago à pauta, por certo, é a que conquistou maior visibilidade, sendo conhecida de todos quantos transitem pelas searas da arte/educação, como ela tem preferido grafar.

Meus vínculos à Profª Ana são de natureza fraterna, em primeiro lugar, e de respeito pela envergadura do seu trabalho. Não fui sua aluna, nem orientanda, não desenvolvi qualquer projeto com ela. No entanto, não há quem exerça qualquer atuação relacionada com o campo da arte-educação que não tenha estabelecido alguma forma de interlocução com suas ideias e suas bandeiras.


Mariazinha Fusari

Parceira Profª Ana Mae nas discussões sobre arte-educação, na USP, Maria Felisminda de Rezende e Fusari, nossa querida e inesquecível Mariazinha Fusari nunca lecionou na ECA, quartel general das questões da arte e seu ensino naquela universidade. Integrava o corpo docente da Faculdade de Educação, e discutia questões relativas às mídias, imagens técnicas, nas relações com a Educação. Poucos eram os educadores que se dedicavam ao assunto, à época.  Eu tive o privilégio e a honra de tê-la como minha coorientadora no Mestrado em Educação.

Mineira radicada em São Paulo, era, sem dúvida, uma mulher bela, delicada, doce, de inteligência aguçada e inquieta. Devotada à interlocução com professores da educação básica em todo o pais, não se cansava de discutir, repensar posições, acrescentar pontos de vista, contribuir para as relações de ensinar e aprender, trabalhando com as visualidades de seu tempo. Esses trânsitos foram viabilizados, sobretudo, por sua formação tanto em Educação quanto em Artes Plásticas e Comunicação Visual. Daí seu interesse pioneiro em projetos de pesquisa sobre meios audiovisuais na educação escolar, na formação de professores, e suas relações com o ensino de artes visuais.

Foi a Profª Iria Brzezinski que condicionou a assunção da minha orientação, no mestrado, à parceria com a Profª Mariazinha. Encontramo-nos, as três, pela primeira vez, numa Reunião anual da ANPEd. A partir dali, nossas reuniões, embora nem tão frequentes, eram intensas e profícuas: em Brasília, Goiânia, São Paulo. A cada etapa, eu me sentia sendo levada, por ambas, a ampliar campos de compreensão das relações entre visualidades, relações entre ensinar e aprender, e formação de professores.

A Profª Mariazinha Fuzari faleceu em 1999, ainda muito jovem. Metade de mim ficou órfã. A a outra metade continuou contando com o olhar amoroso da Profª Iria, a quinta mulher extraordinária a quem me refiro neste texto.


Iria Brzezinski

A Profª Iria Brzezinski e a Profª Terezinha foram colegas, como professoras, na Faculdade de Educação da Universidade de Brasília nos anos 80. Em meados dos anos 90, quando ingressei no Programa de Pós Graduação em Educação, a Profª Terezinha já havia aposentado.

Paranaense, de uma família ligada principalmente à área do Direito, com muitos advogados e juízes, a Profª Iria formou-se educadora e humanista por excelência. Com formação em Ciências Sociais e Pedagogia, de orientação marxista, seus braços e seu espírito não se cansam da luta incessante em defesa da escola pública de qualidade, da formação consistente dos professores, de políticas públicas que assegurem condições salariais e de trabalhos dignos aos profissionais da educação. Tem estado à frente de mobilizações as mais diversas, tem presidido associações e outras instâncias de organização da sociedade civil, e instituições de produção acadêmico-científica. Seu vigor e sua integridade nessas lutas têm, por certo, sido o maior legado transmitido aos seus alunos. Mestra maior na capacidade de indignação, e na tenacidade para não desistir dos sonhos.

Por sua motivação, acabei encaminhando meu doutorado para a área da Sociologia, e, tendo concluído, fiz concurso para a Universidade Federal de Goiás. Embora moremos, hoje, na mesma cidade, nos vemos pouco. Mas os vínculos permaneceram intensos. E, esporadicamente, trabalhamos juntas, o que é sempre motivo de muita alegria.


Isabel Maria Vieira

Durante o mestrado, conheci a Profª Isabel Maria, também docente na Faculdade de Educação, a sexta mulher das minhas homenageadas aqui: Isabel Maria de Carvalho Vieira, além de ter sido colega das professoras Iria e Teresinha, conheceu as professoras Lais e Ana Mae, desde o Rio de Janeiro, sua terra natal.

Carioca, radicada em Brasília, psicóloga e psicanalista, integrou a primeira turma de Nise da Silveira, na UFRJ, e também foi também aluna de Augusto Rodrigues. A partir dessas duas influências capitais, tratou de buscar estabelecer relações entre arte, educação, psicologia e psicanálise.

Sua inquietude me instiga. Não se cansa de indagar sobre o mundo. Isso a levou, pouco antes de se aposentar das atividades na universidade, a fazer o doutorado em Sociologia. Em sua tese, refletiu sobre as guerras, do ponto de vista das teorias psicanalíticas e sociológicas, o que resultou num belíssimo trabalho que, espero, algum dia seja publicado.


Alice Vieira Martins

A sétima mulher, que antecedeu a todas elas em minha vida, foi minha primeira professora – e antes de mim, dos meus irmãos –, a que me alfabetizou, e ensinou as primeiras operações matemáticas, enquanto cuidava dos afazeres domésticos. Trata-se de minha mãe, Dona Alice Vieira Martins.

Nascida em Onda Verde, no atual Mato Grosso do Sul, estudou apenas até o terceiro ano primário. Encantada com os deciframentos do mundo, nunca desligou-se de leituras diversas, das escritas de cartas para seus entes queridos, e da tradução em poesia de seu quotidiano, seus sentimentos, inquietações, alegrias, sonhos.

Aos 80 anos lançou o primeiro dos seus já 5 livros de poesia. E aos 84 anos prossegue, com os olhos curiosos de criança, com a energia inquieta do jovem, o vigor da mulher adulta, e a sabedoria dos velhos. Foi ela quem me ensinou que devo ser a principal responsável por aprender o que eu queira aprender, e que a gente passa a vida inteira sem ter aprendido tudo.

Minha mãe,  poetisa-professora-menina.



fontes das fotos:
Teresinha Rosa Cruz: acervo particular
Lais Aderne: revista art&
Ana Mae Barbosa: Plurissignificação
Mariazinha Fusari: acervo particular
Iria Brzezinski: acervo particular
Isabel Maria: CNPq
Alice Vieira Martins: acervo particular