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sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Palavras e imagens


Numa plataforma digital de compartilhamento de conteúdos, encontrei a replicação de uma postagem, na qual alguém contava uma história mais ou menos assim: quando criança, ele assistira a uma palestra, na escola, de um padre que trabalhava com causas sociais. Em sua fala, o padre explicava a importância da empadinha para se ajudar as pessoas pobres. Segundo o relato, o padre enfatizou muito a questão da empadinha no trabalho junto às pessoas pobres. E o rapaz teria ficado muito intrigado, perguntando-se o porquê da empadinha. Não seria mais eficiente providenciar pão e outros alimentos? Cerca de 30 anos depois, ele descobriu que o padre estava falando, de fato, de empatia, e não de empadinha.

Achei muita graça do relato, compartilhei com pessoas amigas, para também compartilhar os risos. Enquanto contava à minha irmã, constatei que durante vários dias, enquanto lia e contava o relato, eu pensava em coxinha ante a palavra empadinha. Rimos muito do caso. Então ela resolveu contar sobre um rapaz de nossa cidade natal que teria quebrado o braço, em decorrência de um acidente. Disse: “Ele estava montando...” e eu a interrompi, completando a frase: “... um burro xucro!”. Não, “ele estava montando um toldo...”. Ele trabalhava com instalação de toldos... Isso foi motivo de muitos risos.

Lembramos de outra ocasião, quando se instalaram as primeiras barreiras eletrônicas para controle de velocidade de veículos automotores, nas vias da cidade. Minha irmã me explicou, à época, que se passássemos “montados na faixa”, o sensor eletrônico não capturaria. Eu, com o repertório de imagens que conecto à palavra montar e seus derivados, fui logo imaginando alguém a trote, montando um cavalo, passando pelos sensores. E concluí que não seria capturado pelos sensores, provavelmente, pela baixa velocidade. Mas o que ela queria dizer era que se os carros passassem com uma lateral numa faixa e outra lateral noutra faixa...

Agora fico a imaginar alguém montando um cavalo xucro sendo capturado pelos sensores eletrônicos de velocidade, enquanto busca uma empadinha... (ou seria uma coxinha?) vendida sob algum toldo... 

 

 

 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Coisas do homem da cobra



Noutro dia, ouvi a expressão “fala mais que o homem da cobra”, e fiquei me perguntando se as pessoas, hoje, sabem a que se refere. Há muito tempo não vejo nenhum homem da cobra, acho mesmo que já não existem mais esses profissionais da cultura popular, em atuação nos meios urbanos.

Tratava-se de um homem que, instalado em praça pública, portava uma mala e outras tranqueiras. Falando alto, e muito, sem parar, anunciava que tinha uma cobra na mala. Normalmente contava muitas potocas a respeito da tal cobra: seria venenosa, mas no caso daquela especificamente não ofereceria perigo, pois ele a teria adestrado, e dominava completamente seus humores, mas isso era coisa que só ele conseguia, e que logo ele mostraria ao público. Dizia para que não tivessem medo, que estava tudo sob controle. Enquanto ele falava, as pessoas se aglomeravam em torno dele formando um círculo, curiosas para saber mais sobre a tal cobra guardada na mala. Mas ele adiava por tempo indeterminado esse momento, prendendo a atenção do público, e aproveitando para vender coisas outras: desde descascadores de frutas até remédios com múltiplas funções, capazes de curar, numa só tomada, unha encravada, tumor no cérebro e os males da menopausa. Sim, já existiram desses remédios milagrosos que provavelmente tenham sido extintos por intrigas da indústria farmacêutica.

Assim, o homem da cobra passava uma, duas horas, boa parte da manhã ou da tarde, segurando o público em plena praça, vendendo suas tranqueiras, com a promessa de mostrar a cobra, guardada na mala. Muita gente se achegava e logo ia embora, por falta de tempo, ou porque sabia que o desfecho se demoraria. Afinal, se tratava do homem da cobra! Mas outros, ficavam por ali, acompanhando toda a movimentação. E muitos compravam um ou mais itens de sua venda.

Já esgotada a argumentação, ele abria a mala, e retirava dali uma cobra (que existia, de fato). Mexia com ela, e a enrolava no pescoço. Eventualmente dava pequenos sustos da audiência, avançando com cobra e tudo em direção às pessoas. Provavelmente a cobra tivesse arrancadas as prezas, não oferecendo, de fato, nenhum perigo. Com certeza, o IBAMA perseguia o evento, tendo em vista a inquestionável situação de maltrato à qual o animal era submetido. Essa deve ser uma das razões pelas quais não se vejam mais esses performers da cultura popular atuando.

Mas ficou a expressão: falar mais que o homem da cobra. Vai conversar fiado assim lá no raio que o parta!





sábado, 28 de setembro de 2019

Das cigarras




No fim da tarde quente e seca, estacionei o carro em meio ao trânsito intenso e tenso, em frente a uma frutaria. Quando abri a porta, ouvi, entre os sons dos motores, o início de um trinado, que se prolongou, estendendo-se pelo céu fumacento. Parei, tomada por uma alegria quase infantil, de quem encontra um presente em meio ao caos. Por alguns instantes, apenas o trinado distante da cigarra solitária ocupou minha atenção. Depois a percebi reverberando entre os prédios, as vidraças, os veículos em movimento. O ar pesado tornara-se mais leve. Quase dançante. Corri comprar bananas, castanhas, abacaxi. Dentre as cigarras, em franco processo de extinção, algumas ainda resistem. Até quando? Vida longa a elas!




quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Outra árvore de Natal?!!!


cenário 
Na grande loja de departamentos, entre louças para sanitários e portas de alumínio, há muitas mudas de plantas para jardim. Samambaias, palmas, bandeiras brancas, orquídeas. Até mudas de parreiras podem ser adquiridas a preços razoáveis. Com a aproximação das festas de fim de ano, dentre as mais populares estão os pés de tuia, em tamanhos entre pequeninos e médios, com folhas oscilando entre verde escuro intenso e verde abacate.

a cena
O pai empurra o carrinho de compras, enquanto conversa com o filho com cerca de 5 anos. Observa os pés de tuia, analisa alguns, e escolhe um dos maiores, acomodando-o no carrinho. O menino pergunta: outra árvore de Natal? Ao que o pai responde: como outra? Então o pequeno explica: mas no ano passado a gente já comprou uma... agora vamos comprar outra? Pois é, explica o pai, a do ano passado já não existe mais, vamos comprar outra para este ano.

memória 
Lembrei-me da árvore de Natal da minha infância, feita com galhos secos de goiabeira, enfeitada com bolas de Natal, mas também cascas de cigarra, pequenas bromélias secas, e outros adornos que íamos inventando no decurso da vida. A árvore nunca era desmontada. Assim, era sempre Natal no canto da sala. Ela ia se modificando no mesmo passo com que nós também nos modificávamos.

obsolescências
Olhei para os pés de tuia, verdes, e pensei no destino provisório que os aguardava. A árvore que poderiam chegar a ser não se realizaria. Por algum tempo, seriam suporte para os enfeites das festas, até perecer pela falta de cuidados como água, terra adubada, luz solar. E então, descartados, seriam substituídos por outros pés de tuia, no ano seguinte, ano após ano, num tempo em que tudo, ou quase tudo, se torna obsoleto tão logo comece a existir. Inclusive as relações entre as pessoas.




domingo, 16 de outubro de 2016

Entre taxistas e motoristas da Uber


Quando o ônibus entrou na cidade, vários passageiros começaram a acionar, por meio de seus smartphones ou iphones, motoristas da plataforma Uber para, quando desembarcados, seguirem para casa.

Trata-se de uma mudança no comportamento de passageiros, que migram do tradicional serviço prestado pelas redes de táxi para o inaugural sistema Uber, mais barato para o consumidor, mais ágil, atrelado às plataformas digitais acionadas pelos aparatos móveis.

Conheço alguns taxistas que estão já se organizando, também, para migrar. Depois de muito pesarem os prós e os contras, concluíram que, feitas todas as contas, os riscos são os mesmos, e talvez os prejuízos sejam menores. O que muda é o valor, na ponta, pago pelo passageiro.

No serviço prestado pelas cooperativas de táxi, entre o passageiro e o taxista, vários são intermediários envolvidos. Comecemos pela equipe da base, que atende aos telefonemas dos clientes e encaminha o taxista ao endereço indicado. Esses funcionários recebem salário fixo mensal, com carteira assinada, todos os benefícios previstos pela CLT. Seu trabalho não envolve riscos. Muitas vezes, esses funcionários atendem mal aos clientes, negam informação, fazem encaminhamentos errados, mas não recai sobre eles qualquer sanção. Contudo, eles têm autoridade para “castigar” os motoristas, caso estes cometam algum erro no atendimento às corridas solicitadas. Vale ressaltar que o seu salário é pago pelas corridas dos motoristas de táxi.

Há os proprietários das frotas de veículos, que cobram diária pelo uso dos automóveis. O pagamento da diária é pago pelo taxista, contratualmente, não importando se ele rode ou não, se consiga fazer corridas ou não. O taxista paga, também, o aluguel da permissão do taxi. Este pagamento, do mesmo modo, independe de seu desempenho na praça.

De todos estes itens a pagar, se sobrar algum trocado, o taxista leva para casa, ao final do dia. Uma coisa é certa: diariamente, ele começa a jornada como devedor, e se dá por feliz se chegar ao final do seu turno com essas dívidas quitadas. No entanto, todo o sistema só gira a partir de sua força de trabalho, e dos riscos que esse profissional corre, atuando na ponta, na frente. O valor da corrida, pago pelo passageiro, vaza pelos dedos, para ser redistribuído entre o dono do carro, o dono da permissão, o presidente da cooperativa e os funcionários da base.

O diferencial proposto pelo sistema Uber é que essa relação é mais direta: o motorista se cadastra, recebe algumas orientações, e passa a constar entre os que podem prestar os serviços a partir do aplicativo para aparelho móvel. Também não tem quaisquer garantias. Está sozinho, circulando na cidade, com seu próprio carro, por sua conta e risco. Sim, ele tem que disponibilizar seu próprio veículo e arcar com os custos de manutenção. O percentual de cada corrida que paga à empresa lhe assegura apenas o direito de aparecer na plataforma do aplicativo, nada mais. Talvez haja menos intermediários. Isso resulta num valor menor a ser pago pelo passageiro. E também numa dívida menor a ser quitada, diariamente, pelo motorista. Se ele corre, paga, se não corre, não paga.

A plataforma do sistema Uber está no começo. Não nos entusiasmemos por antecipação. Ainda há espaço para entrarem as intermediações. Nada impede, por exemplo, que, com a crise chegando à plataforma do serviço de táxis, os donos de frotas migrem para a Uber também. Há já anúncios de aumento nas tarifas.

Vale lembrar que, quando a GOL começou a operar no ramo da aviação aérea para passageiros, trouxe uma série de inovações que baratearam as passagens de modo importante. Mas não demorou para que os valores equalizassem novamente, e atualmente seus preços estão no mesmo patamar das demais empresas à época de sua entrada no mercado.

Enquanto isso, por vezes, vou de Uber, no mais das vezes, ainda vou de táxi...




sábado, 9 de janeiro de 2016

Walmart: gestão incompetente e crise


A rede de supermercados Walmart anunciou, no apagar das luzes de 2015, que fechará em torno de 25 lojas no Brasil. É a crise, afirmam. E encontram ecos entre os leitores da notícia.

No entanto, esse anúncio tão somente veio esclarecer, afinal, uma situação que me causava interrogações há algum tempo. Explico-me.

Resido nas cercanias de uma das lojas do Walmart que, durante um bom tempo, foi o endereço certo onde fiz as compras para atender às demandas domésticas. Várias razões justificavam essa escolha: praticidade, proximidade, agilidade. Nem sempre os preços eram os mais baixos, mas as demais vantagens acabavam por compensar.

No entanto, ainda em 2014, começaram alguns problemas.

O fato de terem demarcado vagas especiais e faixas para circulação de pedestres no estacionamento poderia apontar para um ponto positivo, não fosse o fato de os próprios funcionários do supermercado serem os primeiros a não respeitar as vagas e as faixas. Mais que isso, a gerência fazia vista grossa às observações a respeito, quando não justificava a conduta dos funcionários, chegando mesmo a alegar que eles estariam sendo orientados a se portar daquela forma. Essa seria uma questão menor? Não me parece. Eu prezo muito pela civilidade, luto por uma sociedade que respeite os direitos cidadãos, e essa comparece como uma questão cara, muito cara.

Mais tarde, a fila única para atendimento nos caixas-rápido, que funcionava de modo muito eficiente, foi desfeita, e adotadas filas individuais para cada caixa disponível. Rapidamente, clientes com seus carrinhos lotados, com mais itens do que o previsto para os caixas-rápido, passaram a se aboletar nessas filas, e os funcionários não tinham autorização para encaminhá-los para os outros caixas. Outros problemas somaram-se aos desse tipo, de modo que, se na fila única eu gastava no máximo 20 minutos para pagar alguma mercadoria, no novo sistema passei a gastar no mínimo meia hora. Procurei, todas as vezes, pela gerência do supermercado para explicar o que estava acontecendo, e como resposta ouvi, em todas as vezes, que eles tinham feito uma pesquisa e aquela era, sim, a maneira mais eficiente de organizarem as filas. A minha experiência, como cliente, não tinha importância: por princípio, estava errada. E não foi levada em consideração, mesmo quando os adverti que eu deixaria de fazer compras ali.

Nesse ínterim, percebi o aprofundamento de uma certa tensão na atuação dos atendentes, o que em muitas circunstâncias acabava resultando em rispidez, falta de educação e até desrespeito.

Aos poucos, desviei meu percurso para fazer as compras necessárias em outro supermercado. Há muito tempo deixei de ir ao Walmart, e sequer tenho intenção de voltar.

E me perguntava: Será que só eu é que me incomodo com essa conduta por parte do supermercado? Será que ninguém mais se ressente? Será que as pessoas continuam comprando, apesar de serem mal atendidas, desrespeitadas?

A resposta veio com essa notícia, que acabou não me surpreendendo: sim, além de mim, mais pessoas deixaram de comprar no Walmart, tantas, a ponto de os lucros já minguarem, e eles não terem mais interesse em manter sua rede intacta. Agora, fecham lojas atribuindo a responsabilidade à crise econômica brasileira. Jamais assumirão a incompetência de gestão como fator preponderante para o quadro que se desenha.

Afinal, a crise na economia brasileira, entre outros fatores, também é devida a empresas que se comportam dessa maneira, sem maiores compromissos com a sociedade na qual está inserida, e sem responsabilidade com gestão competente. 











segunda-feira, 29 de junho de 2015

De músicas e compaixões



Na terça feira pela manhã, precisei ir de táxi ao trabalho. Às 8h, o motorista me aguardava à porta do prédio onde moro. Muito gentil, identificou-se, nos cumprimentamos, informei o endereço para onde pretendia seguir, combinamos o trajeto. Houve uma pausa nos encaminhamentos, enquanto o carro era conduzido pelas ruas cheias de movimentos os mais diversos. Havia uma espécie de tristeza naquele silêncio. Então o rapaz comentou, num tom entre desconsolado e perplexo: ouvi pela emissora da rádio que o Cristiano Araújo morreu, nesta madrugada, num acidente de carro. Aquela informação provocava, nele, um sofrimento que não podia permanecer calado. O nome Cristiano Araújo soava com familiaridade em sua fala. E reivindicava minha cumplicidade.

Naquele momento, pesou sobre mim um sentimento de incompetência e ignorância. Como eu não sabia quem era Cristiano Araújo, nem o que fazia? Seria algum político local? Algum empresário muito conhecido? Um artista? Como eu desconhecia essa pessoa, eu, senhora de discursos que pretendem colocar na berlinda relações de poder, estruturas hierárquicas que segregam alguns segmentos da cultura em nome de outros, estes elitizados, excludentes? Como eu sequer sabia o que fizesse o referido rapaz morto no acidente, enquanto aquele motorista se sentia profundamente comovido com o ocorrido?

Senti-me incapaz de compartilhar daquela comoção. Portanto, incapaz de lhe compreender não só o sentimento experimentado por ele, mas boa parte do contexto em que se insere. Fui lhe ouvindo os comentários, até compreender que se tratava de um jovem cantor, com rápida ascensão, da chamada música sertaneja universitária. Provavelmente um cantor presente na festa da exposição agropecuária, pensei (eu, que nunca vou à feira, e ainda desvio percursos para evitar suas cercanias, e os excessos de carros, pessoas, bebidas, barulho...).

Pensei, também, nos quantos adolescentes pobres que, em lugar de sonhar em ser jogador de futebol, preferem o sonho de ser estrela do estilo musical sertanejo universitário. Nos quantos irmãos que treinam, desde muito cedo, suas vozes para o canto em duplas, e animam festas de amigos, imaginando, algum dia, ocupar palcos iluminados ante plateias emocionadas. O motorista do táxi poderia estar numa delas, com sua namorada, família, filhos.

Carreira musical inconsistente? Promovida às custas de jabás? Talvez. Quantos artistas pagam volumosos jabás, sem conseguir ter seus trabalhos reverberando no peito de sua audiência? Que lugar eu poderia ocupar que me autorizaria a desqualificar o sentimento pulsante no peito do motorista do táxi, naquela manhã de terça feira? Nenhum, além do lugar da arrogância e da prepotência.

Na volta para casa no dia seguinte, final da tarde, tive o percurso interceptado por algum evento que, em meio ao tumulto de carros, viaturas, transeuntes, não conseguia identificar. Parada, esperando a liberação do trânsito de automóveis, chamou-se a atenção o número de pessoas fotografando alguma coisa que minha visão não conseguia alcançar. Até que uma senhora de meia idade me explicou: eram os corpos do Cristiano Araújo e sua namorada (cujo nome só depois fui saber: Allana) sendo liberados para os funerais. Mais uma vez meu caminho se deparava com o do jovem cantor, em sua morte. Mais uma vez, eu me via pensando a respeito da vida, da arte, das reverberações de trabalhos, da produção de sentidos...

Nesse episódio, uma carreira foi interrompida abruptamente. Seus fãs, assustados, lembraram-se quão finita e breve é nossa vida. Dessa finitude, nem nossos ídolos estão livres. Mas eles permanecem, em alguma medida, vibrando nos trabalhos que realizaram. Em suas músicas.

Não, ainda não sei que músicas esse menino gravou. Mas lhe tenho o mais profundo respeito. E compartilho o sentimento de perda com o motorista do táxi, e com todos os demais que lhe sentem a falta. A isso, dá-se o nome de compaixão. Por minha história, por minha estrada, experimento do mesmo sentimento quando, por exemplo, ouço a voz da querida Inezita Barroso nalguma gravação, ou vejo seus programas dominicais sendo reprisados na TV Cultura.

Não, a música de Inezita não morreu. Nem a de Cristiano. Vida longa à música de ambos! Às gentes deste Brasil de dentro e sua cultura! E à compaixão!






quinta-feira, 23 de abril de 2015

Um pneu, um socorro e um gato no portal


Dei aulas o dia todo, das 8 às quase 18 horas. De volta para casa, trânsito intenso, o pneu do carro furou. Estacionei ao lado de um sobradinho, numa rua movimentada, meio escura. Respirei fundo. Ai, ai... Pedi, à seguradora, suporte técnico para trocar o pneu. Não, nenhum desejo de provar minha autonomia feminina. Não trocando pneu de carro no início da noite... Posso fazê-lo de outras formas. Ali, o único desejo era o de chegar logo em casa, e em segurança. Pelo telefone, fui informada que, no máximo, em 30 minutos o auxílio chegaria. Fiquei dentro do carro, portas fechadas, pisca alerta ligado. Notei que não havia pedestres transitando na rua. Nem um para dar notícias dos outros. No sobradinho, diante do qual estacionei, um cachorro latia nervosamente, e os proprietários me observavam, meio ocultos por trás da janela. Alguns minutos depois, apareceu um gato, que se postou, sentado, na calçada. Olhava sabe-se lá o que, concentrado. Em 15 minutos o técnico chegou em meu auxílio, a bordo de uma moto. Quando ele já estava no domínio da situação, fazendo a troca dos pneus, avistei novamente o gato, deitado na rua, rolando e roçando a cabeça no asfalto, ao lado do meu carro, bem na linha do fluxo do trânsito. Aquela era uma espécie de demonstração de domínio territorial. Mas era também um perigo iminente. Pisei firme no chão e o adverti Sai daí, rapaz, não tá vendo o perigo? Venha p'rá cá! Ele me olhou, resmungou, e veio se roçar no pneu do carro, me olhando e dando breves miados. Logo voltou para a rua. Logo eu fui lá, empurrá-lo de volta. Afinal, ele veio para baixo do carro, sempre me olhando, e se insinuando. Ri da figura. Em alguma medida, senti-me protegida. Sabe-se lá porque. O rapaz foi ágil no socorro. Liguei o motor do carro, o gato voltou para a calçada, o rapaz ficou, na moto, aguardando que eu saísse. Findara o tempo. O portal fechou-se. Tudo retomou o fluxo nervoso e veloz dos dias e das noites.




sábado, 21 de março de 2015

Paula e Bebeto




Paula e Bebeto (Milton Nascimento)

Vida vida que amor brincadeira, vera
Eles amaram de qualquer maneira, vera
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor vale amar

Pena que pena que coisa bonita, diga
Qual a palavra que nunca foi dita, diga
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor vale amar
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor valerá

Eles partiram por outros assuntos, muitos
Mas no meu canto estarão sempre juntos, muito
Qualquer maneira que eu cante esse canto
Qualquer maneira me vale cantar

Eles se amam de qualquer maneira, vera
Eles se amam é p'ra vida inteira, vera
Qualquer maneira de amor vale o canto
Qualquer maneira me vale cantar
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor valerá

Pena que pena que coisa bonita, diga
Qual a palavra que nunca foi dita, diga
Qualquer maneira de amor vale o canto
Qualquer maneira me vale cantar
Qualquer maneira de amor vale aquela

Qualquer maneira de amor valerá







domingo, 19 de outubro de 2014

da série "pausas necessárias"... 2




... e depois que o sol baixa um pouco, e diminui o calor, bom mesmo é ficar ali, sentada na calçada, passando a limpo a vida dos outros, contando conversa fiada, em boa companhia. Até de noitinha...




quarta-feira, 16 de julho de 2014

horta comunitária, lição de cidadania

p/ Lorene
e p/ minha mãe, que semeia e planta por onde passa.


As pessoas passam com pressa. Não chegam a prestar atenção. Lorene, de pequena estatura, trabalha com entusiasmo: remove entulhos, revolve a terra, semeia, molha, e se delicia vendo as plantas vicejarem: abóbora, couve, pimenta, hortelã, sálvia, carqueja, manjericão, flores, samambaias... 

Pequenas placas indicam o nome de cada planta. E nas árvores observações acolhedoras, em papel plastificado: "Favor não jogar entulho aqui. Horta comunitária. Seja bem vindo. Participe!"

De quantas Lorenes precisaríamos para mudar a face de nossas cidades?



quarta-feira, 26 de março de 2014

Kafka, Durkheim, o Estado, o Templo e o Labirinto



Precisava resolver duas questões na PF. Fiz o agendamento de uma delas por meio do site. A outra, fiz a solicitação por telefone. Agendaram o horário e o local, para onde me dirigi com um pouco de antecedência. Havia uma fila, na recepção. Aguardei minha vez. Mesmo com horário agendado, preciso pegar senha? A senhora vai fazer o quê? Expliquei. A moça disse A senhora precisa ir naquele balcão, e mostrar os documentos necessários para aquele rapaz. Havia uma segunda fila. Aguardei minha vez. O que a senhora vai fazer? Expliquei. Eu preciso dos seus documentos, ele falou. Mostrei-lhe, todos. Ele reuniu, e me devolveu. Havia certo poder no seu gesto. O rapazote gostava de exercê-lo. Entregou-me um papel quadradinho, pequeno, onde se lia, escrito a mão: PF 15:55. Ainda está muito cedo. Quando for exatamente 15 horas e 55 minutos, a senhora volta naquele balcão para pegar a senha. Antes disso, a senhora dá uma voltinha no shopping... Tinha um sorrizinho entre os lábios, enquanto pronunciava as instruções. O atendimento estava agendado para as 16h. Pensei, com meus botões, eu faço o que eu quiser com o tempo de espera! Mas agradeci. E saí dali. Fui a um terminal de autoatendimento bancário. Tentei caminhar devagar. Retornei, faltando 15 minutos para as 15 horas e 55 minutos. Ainda estava muito cedo. Coloquei-me a observar a movimentação labiríntica do lugar. Um enxame de pessoas que entravam e saíam. Uma centena de guichês com funcionários fazendo os mais diversos encaminhamentos: documentos pessoais, multas, taxas, cobranças, quitações, polícia, bombeiro, fotografia digital, seguro desemprego, emprego, papéis, papéis... Uns saíam preocupados. Outros mais perdidos do que quando entraram. Algumas pessoas saíam com um punhado de documentos na mão. Tinham, nas feições, a expressão de alívio de algum problema resolvido. Mas sairiam dali, e, por certo, logo encontrariam outras questões para resolver. 

O labirinto é assim: a gente se apruma num corredor que parece claro e reto, mas por pouco tempo, logo já estamos perdidos de novo.

Os que aguardavam, ficavam sentados, como numa igreja, de olhos pregados em três letreiros eletrônicos com letras vermelhas que se deslocavam da direita para a esquerda. Os funcionários teimam em chamar aquilo de os painéis. Ali, aparecem as abreviaturas dos lugares para onde cada um pretende seguir, o número da senha, e o respectivo guichê disponível para o atendimento. Todos, atentos, não podem despregar o olhar, pois basta uma distração para perder a vez. No papelzinho da senha está escrito: a senha será descartada depois da terceira chamada não atendida.

Assim é o Estado, essa instituição da qual tomamos parte, sem termos solicitado ingresso, e sem termos a opção de sair dele. Penso na atualidade da obra de Franz Kafka. Sinto vontade de reler O Processo. Sinto vontade é de ler O Processo em voz alta, dando voltas por aquele lugar.

Lembro-me do meu horário. São 15 horas e 53 minutos. Sigo ao balcão. Meio a contra-gosto, o rapaz gera a minha senha. Ainda não eram 15 horas e 55 minutos, conforme ele estabelecera. Teimosia, a  minha! Provavelmente, a senha só seja gerada tão próxima ao horário agendado para comprovar o pouco tempo de espera para o atendimento nos dados estatísticos do governo. Leio o pequeno papel amarelo. Ali está impresso o código do que vou fazer, e o número 110. Integro-me à massa que venera os 3 letreiros eletrônicos. Suas luzes vermelhas e o sinal sonoro não repousam um segundo sequer. Passa algum tempo, e percebo que o código da minha senha nunca é chamado. Estaria errada? Eu estaria venerando os letreiros errados? Mais algum tempo, constato que já se passaram 10 minutos do meu horário agendado. Espero um pouco mais, ainda, e então o tal código é chamado, seguido da senha de número 106. Isso me informa que o atendimento está atrasado, e não há o que fazer, senão esperar. Desisti de contar o tempo. Mas não posso desviar o olhar dos letreiros, de onde os chamados jorram incessantemente. Enquanto isso, aguço os ouvidos para acompanhar as conversas à minha volta.

Um bom tempo depois, minha senha foi chamada. A policial que me atendeu recomendou que eu trocasse minha carteira de identidade. Você está muito novinha nela! Uma menina! Achei graça. Acho que envelheci... Perguntei aos meus botões se deveria me sentir acabada, naquele momento. Talvez estivesse, mesmo. Mas ela foi gentil. Olhou meus documentos, e mos devolveu, todos. Com um papel a mais. Era o protocolo para meu retorno. Na sequência, outra policial me atendeu para a segunda questão. Foi gentil também. Quando saí da área restrita, senti novamente o impacto da multidão de pessoas circulando no hall central, e venerando os três letreiros eletrônicos.

Lembrei-me de Émile Durkheim. Para ele, entre o Estado e o indivíduo social, é necessário haver várias instâncias que façam a mediação. Só assim o indivíduo tem alguma chance de não sucumbir ao peso do Estado. As duas policiais, de alguma forma, cumprem esse papel, lembrando, na sua forma de atendimento, nossa humanidade. Mas é inevitável: o Estado ruge, eu posso ouvir, todos ouvimos, enquanto nos batemos em seus labirintos, quase sempre impotentes e assustados, por vezes até um pouco satisfeitos quando conseguimos regularizar algum documento, pagar alguma dívida contraída à revelia, nos fazendo respeitar, cidadãos que somos, ao menos por uma filigrana de tempo.

Saio dali. Para retornar na nova data marcada. Quando repetirei todos os rituais para a próxima senha, e a devoção aos três letreiros de onde jorram incessantes chamamentos por meio de códigos que só mesmo os iniciados sabem decifrar!




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A incivilidade cresce na mesma razão da frota de carros...


Na garagem do prédio onde moro, dentre os quantos, um problema multiplica-se dia a dia: muitas camionetes com cabine dupla insistem em se abrigar em vagas projetadas para carros de passeio. Resulta que avançam entre meio metro e um metro na área de circulação e manobra: área de uso comum.

No início, era uma camionete. Depois duas. Então várias. O síndico explica: é que aumentou o poder aquisitivo dos moradores! Eu respondo: enquanto isso, a capacidade de convívio em coletividade vai atrofiando, juntamente à civilidade...

Mas não é só na garagem do meu prédio que os carros são estacionados de maneira indevida, desrespeitando o princípio da civilidade: essa situação reflete uma outra, muito mais grave, replicada aos milhares nas ruas, praças, passeios, e demais locais públicos, onde o cenário é, no mínimo, cabuloso.

Um repórter do Jornal O Popular circulou pela cidade durante 6h, anotando infrações de trânsito. Passou por vários bairros, no centro e mais afastados, bairros populares e de elite. Notem: ele não é especialista no assunto, e o fez em circulação, o que talvez restrinja a observação de certos tipos de infração em favor de outros. Sua jornada resultou no registro de 285 infrações, que incluíram: dirigir falando ao telefone celular; dirigir sem cinto; avançar no sinal vermelho; etc. Mas o recorde esteve no quesito “estacionamento em lugar proibido”: em cima de calçadas, em fila dupla, em esquinas, sobre faixa de pedestres, impedindo passagem, etc.

Ora. Se, como diz o síndico do meu prédio, o poder aquisitivo das classes emergentes aumenta, a pressão do mercado e do próprio Estado é pela aquisição de seu carro novo. Goiânia está entre as cidades brasileiras com a maior frota de carros per capita. E tem, de longe, a maior frota de motocicletas per capita.

Sem qualquer política voltada para a educação no trânsito, prevalece o espírito competitivo, segundo o qual as palavras de ordem são: eu primeiro, o meu agora, esse lugar para mim, vire-se!

Não é à toa que, em 2013, Goiânia registrou 314 mil multas por excesso de velocidade em 11 meses. Cerca de 951 multas por excesso de velocidade a cada dia! A indústria das multas é lucrativa para o Estado, tanto quanto a indústria automobilística e de motocicletas. Talvez isso explique a omissão do Estado em relação ao disciplinamento, fiscalização e educação no tocante ao trânsito.

Embora tenha algum sabor de clichê, não resisto à tentação de repetir a velha referência ao filme de animação de Disney, “O senhor volante”, realizado ainda na década de 50. Que filmes faria ele, vivesse hoje?








terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fastio e tédio


Em meio à movimentação intensa e ao caos acústico, chamou-me a atenção um apito de trem. Estranha sonoridade para aquele lugar. Logo avistei a máquina puxando três pequenos vagões, entre os corredores do shopping center. Um homem de uns 30 anos, fantasiado de maquinista, conduzia a engenhoca, a baixa velocidade, acionando o apito para alertar as pessoas sobre sua passagem. (Imaginei que aquele pudesse ser um emprego temporário para alguém em busca de lugar no mercado de trabalho saturado...) Um som gravado sugeria a aceleração da máquina, aumentando a intensidade do barulho e o ritmo do giro das rodas em trilhos hipotéticos. Mas a engenhoca seguia, sempre devagar. Ainda bem. As pessoas caminhavam à sua frente, sem se importar muito com possíveis riscos de atropelamento.

Havia uma música festiva que exalava de caixas instaladas em pontos estratégicos nos vagões. Estes estavam com a maior parte de seus lugares vazios. Apenas no primeiro vagão havia três crianças, sentadas, olhando à volta. Sua expressão, tanto quanto a expressão do maquinista, era de indiferença. As luzes das lojas e dos enfeites e dos corredores, os diversos sons, os apelos vindos das vitrines, os cenários montados para seduzir os consumidores, o colorido do trem, as pessoas indo e vindo, nada disso era capaz de se traduzir em algum raio de alegria, por menor que fosse, no olhar dos passageiros daquele trem. Ao contrário: a hiperestimulação parecia anestesiá-los. Mostravam-se apáticos. Como todos nós temos andado, afinal, nesta sociedade de consumidores...

Quando tudo há em excesso, restam fastio e tédio... nada mais...



sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Sobre viagens e cartografias


Para algumas pessoas, a maior parte delas, a ideia de viagem está atrelada à noção de deslocamento entre cidades. Alguém que tenha viajado muito terá estado em muitas cidades, e trazido muitas pequenas recordações de cada uma delas, impregnadas de histórias, cada qual. A cartografia desses viajantes aproxima-se, em alguma medida, do mapas geográficos.

Penso em viagens outras, que não dependem de empresas aéreas, trens, ônibus. Penso em viagens cujo projeto seja desbravar os árduos caminhos que ligam não cidades, mas pessoas. Por vezes, pressinto que a distância entre uma pessoa e outra é muito maior que a distância entre duas cidades de países distintos.

Minhas cartografias de viagem portam anotações sobre essas distâncias, e esses percursos. Há notas, também, sobre as distâncias entre as pessoas e os lugares que elas ocupam. Pois, estar num lugar não implica conhecer esse lugar, estabelecer meios de comunicação com ele, percebê-lo de modo intenso...

Quando ouço relatos de viagem, e breves descrições de lugares, paisagens, monumentos, muitas fotos, penso sobre os que vivem ali, seus sonhos, suas redes de relações , suas dores, seus medos, seus amores... E quando as pessoas me perguntam Você conhece tal cidade? antes de responder sim, ou não, eu me pergunto, em silêncio, quem a conhece? Seus habitantes a conhecem? Ter passado por ela faz de alguém um seu conhecedor?

Quando me falam sobre cidades, penso em seus habitantes. Além das pessoas, isso também inclui os pássaros que voejam por ali, e seus ciclos – coisa que não dá para se saber numa breve estadia, em viagem orientada por roteiros de cidades...




sábado, 21 de setembro de 2013

Cenas goianas


O trânsito naquele setor da cidade, no sábado pela manhã, é insano. Lojas que vendem de tudo ficam apinhadas de pessoas, e as ruas apinham-se de carros, bicicletas, gentes a pé, caminhões... O sol escaldante completa o ambiente, banhando de suor todos quantos estejam fora de salas com ar condicionado.

Fui a uma galeria com armarinhos. O taxista, que é um amigo querido, encostou o carro numa esquina próxima, mal posicionado, abriu as portas, e ficou ali do lado de fora, observando o movimento, enquanto chupava um picolé para refrescar.

Providenciei o que precisava, e retornei, com três sacolas pesadas. Embarcamos no carro, para prosseguir. Ele girou a chave na ignição. O motor reagiu, sem força, e não deu partida. Ele girou a chave pela segunda vez, sem obter qualquer resposta. “Ih, esta bateria me deixou na mão...”, constatou. “Ontem ela já fez isso, mas era num lugar onde dava para pegar no tranco. Aqui... vai ser difícil”. Olhei à volta, e constatei que, de fato, seria difícil empurrar algum carro em meio àquele trânsito, para pegar no tranco. Ele passou as mãos no rosto, como a buscar alguma solução, enquanto eu ria. Mas nem ele nem eu tivemos muito tempo para pensar. Do meu lado, um homem alto se aproximou, acenando para alguém atrás do carro: “Fulano, ajuda a empurrar este carro aqui!”. Mal ouvi a frase, e o carro já começou a rodar, empurrado pelos dois desconhecidos. Que susto! O taxista rapidamente engatou a segunda marcha, e em questão de segundos o carro já seguia entre o fluxo de carros da rua congestionada, funcionando normalmente. Não tivemos tempo para dizer "Obrigado!"

Claro está que um carro parado ali, à espera de socorro, era problema para todos os trabalhadores do lugar bem como para os que por ali passassem. Mas também claro está que a disposição e a prontidão para ajudar transbordava ali naquele momento. Não temos a menor ideia de quem fossem os dois colaboradores. Sequer vimos seus rostos.

Em nome deles, minha gratidão e respeito a todos quantos sigam pelas ruas, prontos a ajudar, anonimamente, pela mera disposição para que o mundo seja, ao menos, um pouco melhor.




segunda-feira, 12 de agosto de 2013

T-Bone, um caso de amor entre cortes de carne e palavra impressa


Seguindo pela W-3, na parada de ônibus se avista um armário com livros de literatura. Estão meio em desordem, o que é um indicador saudável de terem sido manipulados pelos passantes, no tempo entre a espera e a pressa para não perder a condução.

As pequenas bibliotecas distribuídas nas paradas de ônibus da Asa Norte fazem parte do projeto Biblioteca Popular, assinado por Luiz Amorim, à frente do Açougue T-Bone. Meu vizinho. 

Essa relação entre cortes de carne e palavra impressa é antiga, e vai muito além de folhas de jornal a embrulhar o pedaço de carte que será preparado para o almoço. 

No começo, Luiz Amorim organizou uma pequena biblioteca dentro do açougue, para seus clientes lerem livros enquanto eram atendidos. A agência sanitária criou caso. Houve negociações. Chegaram a termo: o açougue poderia manter a biblioteca observadas certas condições, para que livro e carne não se contaminassem mutuamente. 

O açougue ampliou a linha de ações: incluiu saraus, shows de música, ações com artistas plásticos da cidade, bienais de poesia... Uma vez por ano, o açougue traz uma estrela da música brasileira para fazer o espetáculo. Já vieram Alceu Valença, Ivan Lins, Milton Nascimento... Então se fecha a rua. As quadras em torno ficam ilhadas com um mar de gentes à volta: carro que está dentro não sai, carro que está fora, não entra. Mas alguma irritação ante o desconforto (afinal, nem todos os vizinhos querem tomar parte da festa, e estão no seu direito...) passa logo, e no dia seguinte a loja de carnes retoma suas dimensões e funções quase normais, oferecendo os melhores cortes aos seus fregueses quotidianos. Não fosse a prateleira cheia de livros à porta da entrada, convidando a uma boa leitura, o disfarce estaria completo...

Vida longa ao T-Bone e seu mentor! Vida longa ao prazer de ler! Que esse encontro saudável entre cortes de carne e palavra impressa alimente e instigue outros bons encontros abertos a exercícios de cidadania!