terça-feira, 28 de abril de 2015

Joaninha e Joãzinho


A Joaninha e o Joãzinho viveram juntos muitos anos, e tiveram duas filhas. Construíram uma casa. Mais tarde compraram um terreno numa cidadezinha mais distante, com uma casinha. Alugaram a casa antiga. A labuta era intensa. Ela trabalhava como empregada doméstica. Ele na prefeitura do município. Ela acabou entrando para uma igreja cujo pastor passou a ter voz muito presente na sua vida familiar e econômica. A vida a dois foi perdendo a graça. Depois ficou desgostosa. Chegaram a se estranhar. Antes que acontecesse alguma coisa pior, ele foi embora, deixando a casa e o terreno para ela e as filhas. Acabou se juntando com uma moça, que não se chamava Maria. Era mais nova que ele, moradora das redondezas. Logo tiveram uma filhinha. Não demorou, e todos se tornaram amigos: a Joaninha, a nova mulher, as filhas mais velhas em torno da recém-chegada, e as netas dele, que também já começavam a chegar. Durante um punhado de anos, foi assim. A Joaninha, ainda trabalhando como doméstica, construiu dois barracos no terreno da sua casa, e passou a alugar, abrindo mais uma fonte de renda. As filhas adultas, casadas, cuidavam de suas vidas. O Joãozinho e a nova mulher acompanhavam a filhinha caçula que ia crescendo em meio a todos. Até o dia quando ele chegou de volta do trabalho, e encontrou a casa vazia: a mulher se mudara, levando tudo da casa, num caminhão, mais a criança. Joãozinho ficou atordoado. As filhas mais velhas o acolheram, e consolaram quando ele descobriu que a mulher se mudara para poucas ruas acima, com outro homem, e andava bradando que ele nunca mais veria a filha, além de ameaçar processá-lo, pois queria tomar tudo quanto fosse dele. A Joaninha, tomada de dores por ele, também lhe ofereceu acolhida. Ele acabou aceitando abrigo na antiga casa, com a ex-mulher. Mais próximos, de novo, acharam graça no reencontro. Começaram a namorar. Mas o pastor da igreja dela advertiu que não podiam ter intimidades antes de casar. Como esse pastor demorou a autorizar que se realizasse o casamento! Celebraram as bodas no domingo último. São os mesmos, mas também já não são. São os mesmos pais das duas filhas, já adultas. Mas já são outros. Tanto tempo depois, já pouco sabem um do outro. Mirando-se, começam a se reconhecer.




quinta-feira, 23 de abril de 2015

Um pneu, um socorro e um gato no portal


Dei aulas o dia todo, das 8 às quase 18 horas. De volta para casa, trânsito intenso, o pneu do carro furou. Estacionei ao lado de um sobradinho, numa rua movimentada, meio escura. Respirei fundo. Ai, ai... Pedi, à seguradora, suporte técnico para trocar o pneu. Não, nenhum desejo de provar minha autonomia feminina. Não trocando pneu de carro no início da noite... Posso fazê-lo de outras formas. Ali, o único desejo era o de chegar logo em casa, e em segurança. Pelo telefone, fui informada que, no máximo, em 30 minutos o auxílio chegaria. Fiquei dentro do carro, portas fechadas, pisca alerta ligado. Notei que não havia pedestres transitando na rua. Nem um para dar notícias dos outros. No sobradinho, diante do qual estacionei, um cachorro latia nervosamente, e os proprietários me observavam, meio ocultos por trás da janela. Alguns minutos depois, apareceu um gato, que se postou, sentado, na calçada. Olhava sabe-se lá o que, concentrado. Em 15 minutos o técnico chegou em meu auxílio, a bordo de uma moto. Quando ele já estava no domínio da situação, fazendo a troca dos pneus, avistei novamente o gato, deitado na rua, rolando e roçando a cabeça no asfalto, ao lado do meu carro, bem na linha do fluxo do trânsito. Aquela era uma espécie de demonstração de domínio territorial. Mas era também um perigo iminente. Pisei firme no chão e o adverti Sai daí, rapaz, não tá vendo o perigo? Venha p'rá cá! Ele me olhou, resmungou, e veio se roçar no pneu do carro, me olhando e dando breves miados. Logo voltou para a rua. Logo eu fui lá, empurrá-lo de volta. Afinal, ele veio para baixo do carro, sempre me olhando, e se insinuando. Ri da figura. Em alguma medida, senti-me protegida. Sabe-se lá porque. O rapaz foi ágil no socorro. Liguei o motor do carro, o gato voltou para a calçada, o rapaz ficou, na moto, aguardando que eu saísse. Findara o tempo. O portal fechou-se. Tudo retomou o fluxo nervoso e veloz dos dias e das noites.




segunda-feira, 20 de abril de 2015

Aula de geografia, viajando pelo sudoeste de Goiás


Caiapônia
Palestina de Goiás
Iporá
Israelândia
São Luiz de Montes Belos
Firminópolis
Turvânia
Nazário
Santa Bárbara de Goiás
Trindade
Rodoviária de Campinas
Rodoviária de Goiânia


Saída de Caiapônia: 8h
Chegada a Goiânia: 15h




domingo, 12 de abril de 2015

coisas incríveis podem acontecer num desenho!



Neste mundo tão incrível
Tudo vale tudo é possível
Isso é um barato
Porco na forma de rato

Fadas e lobisomens
Galo maior que homem
Gato do tamanho da calçada
Traço em nome de estrada

Cavalo que não é cavalo
Do resto nem falo
Se gostar, fale
Do contrário, não se cale

Alice Vieira Martins
BsB, 2/9/90











terça-feira, 7 de abril de 2015

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A sombrinha azul com ursinhos brancos desenhados na borda



Embora o atendimento na agência bancária, na parte da manhã, tivesse sido ágil e eficiente (coisa que deixa a gente alegre), na parte da tarde, na outra agência, demorou muito além do limite da minha paciência, agravado pelas três filas que tive de encarar, e uma situação de discriminação que acabei testemunhando. Mas, ao final, tudo acabou sendo resolvido, e cada um seguiu seu destino. O meu, era a Secretaria de Cultura, para entregar a documentação, conforme solicitado. No meio do caminho, o céu se dividiu em dois: de um lado, sol; do outro, chuva intensa e alguns arco-íris que iam pipocando, e desaparecendo com a mesma velocidade com que surgiam. Estacionei, sob um temporal, com sol. Só então me dei conta de que tinha esquecido o guarda-chuvas parceiro. No banco de trás do carro emprestado por minha irmã, havia uma sombrinha dobrável. Peguei, para examinar. O tecido azul-piscina, delicado, tinha uns ursinhos brancos pintados na borda. Observei a sombrinha, olhei para o lado de fora, a chuva derramada, e pensei Isso não vai dar certo... Fiquei ali, com a sombrinha na mão, sem saber ao certo o que fazer. Por vezes, a chuva parecia ceder um pouco, mas voltava com mais força. Encontrei uma sacola de plástico, onde pude abrigar os documentos e minha bolsa. Na verdade, eu tinha mesmo era vontade de sair na chuva. Mas só poderia fazer isso na volta, depois de ter resolvido as questões que precisava fazer, na SECULT. Enquanto esperava, vários arco-íris desenharam-se ali, bem na minha frente, entre o carro e o Teatro Nacional. Decidi confiar na sombrinha azul com ursinhos brancos pintados na borda. O carro estava ilhado num espelho d’água. A longa escadaria por onde fui descendo parecia uma cascata. Lembrei-me, rindo sozinha, do passeio na chuva que eu e Lara fizemos, em Montes Claros. Decidi que, na volta, não usaria qualquer proteção. Que a chuva me molhasse. Na Secretaria, muitas pessoas aguardavam o estio, para encerrar o expediente. No retorno, a chuva cessara, e o sol se duplicava nos alagados que se formaram. Meu banho de chuva ficou para outro dia. A sombrinha azul da minha irmã teve trabalho reduzido.



PS.: em tempo, olhando melhor a foto, ocorreu-me que talvez não sejam ursos, mas coalas... sim, estou quase certa de que são coalas... é o que dá, andar com sombrinhas pós-modernas, Made in China (bem ao estilo RPC), com desenhos estilizados: a gente nunca sabe ao certo do que se tratam suas estampas...




domingo, 5 de abril de 2015

Um filme ciberfunk documental cientificoficcional…


Fui assistir ao filme Branco sai, preto fica, realizado em 2014, com assinatura de Adirley Queirós, uma produção brasiliense, que contou com financiamento do FAC/DF e ganhou o prêmio de melhor filme no 47º. Festival de Cinema de Brasília. Estava na expectativa de ver o trabalho. Quando solicitei o ingresso, a moça me olhou séria e fez a advertência: É um filme sobre música funk da Ceilândia. É isso mesmo? Confesso que fui pega de surpresa. Apenas respondi que Sim, é isso mesmo. Depois que saí dali, fiquei pensando na situação discriminatória que isso representou. O que a atendente teria pensado que justificou aquela advertência? Eu, uma mulher branca, de meia idade, que interesse teria naquele tipo de filme? Teria, ela, feito a mesma advertência aos demais clientes (pois a sala estava com mais da metade das cadeiras ocupadas)?

Branco sai, preto fica é um filme com a cara de Brasília, ou, do Distrito Federal, sua periferia. É um filme que brada aos quatro ventos que a capital federal não se restringe à Esplanada dos Ministérios, e suas gentes transitam por outros trechos do mapa. De alguma forma, o filme brada contra a mentalidade manifestada pela moça que me vendeu o ingresso, à entrada do cinema...

As tomadas são fortes, intensas. Fotografia cuidada, com belas imagens. O argumento é muito interessante: trata das consequências de uma tragédia, sem perder o humor, nem a ironia. Não deixa de registrar com veemência a opressão dos anos 80, nos estertores da ditadura militar, e também adverte para os riscos de outras ditaduras. É aí que a ficção científica ao estilo ciberpunk (mas a música que rola é funk...) dá o tom.

Por vezes, o ritmo ralenta. Nesses momentos, perde um pouco da força. A finalização também deixa a desejar. Mas que não se cometam julgamentos precipitados: vale a pena, sim, ver o filme! Vale pelo argumento, pelos protagonistas, pelas locações. Pelo fato de ser um filme que consegue libertar-se das imagens oficiais da cidade, insurgindo-se contra elas, apresentando uma paisagem familiar a quem conhece a capital além do lugar comum, além do enquadramento veiculado pelos noticiários, além dos limites do Plano Piloto, onde só podem entrar os eleitos, portadores do passaporte especial...



BRANCO SAI, PRETO FICA
DIREÇÃO Adirley Queirós
ELENCO Marquim do Tropa, Dilmar Durães e Gleide Firmino
PRODUÇÃO Brasil, 2014, 12 anos