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quarta-feira, 22 de junho de 2016

caças e caçadores


Mimi fica por ali, esticada ao sol, macia e atenta. Por vezes, sai à caça, atendendo ao chamado do espírito predador. Amiúde traz uma lagartixa para brincar até a morte do pequeno réptil. Mordisca, dá pequenos tapas, saltita em torno, até que decide devorá-la. Mas, entre as lagartixas há aquelas que não se deixam abater facilmente. Estrategas, executam eficientes planos de sobrevivência à impiedosa fêmea felina. Algumas lançam mão de recursos da performance. Abandonam-se, com a barriga voltada para cima, como se mortas. À menor distração de Mimi, escapam velozmente em direção ao primeiro vão, e dali para outras searas mais seguras. Deixam Mimi a ver navios...





terça-feira, 12 de abril de 2016

Mimi é avó


Quando a família mudou-se do apartamento, deixou para trás, em condição de orfandade, a pequena Mimi. Perdida, abandonada, a gatinha andou se escondendo pelos escuros, tentando conseguir alimento, e levando algumas surras que fizeram dela ainda mais arisca. Suja, maltratada, o brilho do pelo foi ficando desbotado. A mistura de sua natureza vira-lata com informações genéticas da raça siamesa perdeu a força e a beleza.

Os porteiros dos dois prédios contíguos, por onde ela circulava às escondidas, começaram a deixar-lhe algum leite e ração, sem forçá-la a aproximações indesejadas. Desconfiada, ela achegou-se, em busca do alimento. Mantendo o jeito arredio, adotou os novos amigos. Gata de rua, mas nem tanto. Logo emprenhou. Seus guardiões ficaram atentos à hora de ela dar cria. Mas ela se sumiu com os filhotes. O esconderijo em cima de outro prédio demorou algum tempo para ser revelado. Na segunda ninhada, todos já sabiam para onde ela iria, e puderam ajudá-la de modo mais eficiente. E também decidiram castrá-la.

Seus filhotes tiveram destinos diversos. Uns foram adotados, outros ninguém sabe, outros se criaram ali, pelos mesmos territórios da mãe.

Castrada, o pelo da Mimi ganhou mais brilho, as cores ficaram mais vivas. O azul dos olhos parece transbordar. E ela ficou mais amigueira. Achega-se às pernas de alguns moradores, oferece a barriga ao carinho de outros poucos... Está bem, nem tão poucos assim... Entre uma e outra demonstração de dengos, um de seus guardiões revelou que ela já é avó. Sim: uma filha teve a primeira ninhada debaixo de um carro antigo, estacionado em frente ao prédio. Uma senhora, moradora do outro prédio, está dando atenções à nova família. Os porteiros dos prédios também estão no monitoramento. Já aparecem os candidatos para adoção dos seus netos. Por baixo do tal carro, avistei o vulto da mãe recém parida, às voltas com a ninhada.

Além de pop, Mimi é, já, uma respeitável avó felina. O porteiro apruma-se, orgulhoso, como se fora o próprio tio avô... Ela o observa, com os olhos semicerrados, e solta um miado fino, curto. Quase um sussurro. Soa como uma declaração de amor.






domingo, 14 de julho de 2013

ilustre habitante da biblioteca


Poderia até ser chamado de Voltaire...
Frequenta a biblioteca com mais assiduidade do que muitos estudantes e professores da universidade.
Além do mais, é elegante, discreto, atento. Um gato!






sexta-feira, 30 de novembro de 2012

domingo, 1 de julho de 2012

Mais vale um pássaro na mão...



O dia seguia calorento, já quase sol a pino, quando o Xodó voltou de mais uma de suas caçadas no campo. Manchas avermelhadas de terra em seu pelo branco denunciavam que tinha havido luta. Na boca, trazia presos um pássaro pequeno e uma lagartixa. Entrou pela varanda, cansado. Sentindo-se em território seguro, deitou sobre o piso frio, para refrescar o ventre. Num gesto de alívio, fechou os olhos um instante. Uma filigrana de relaxamento percorreu seu sistema nervoso. O pássaro, que, embora tonto, não estava morto, sentiu o imperceptível afrouxamento da mandíbula felina que o mantinha preso aos dentes do seu algoz. Não perderia a única oportunidade de agarrar-se à vida. Num átimo de tempo, reuniu toda a sua pequena força, e voou agilmente, até a copa da árvore mais próxima. Seu bater de asas assustou o gato, que girou rapidamente a cabeça na direção para onde fugira a ave. Então a lagartixa, que se fizera de morta até ali, sem estar, também reconheceu o momento de sua salvação. Escapuliu-se na direção oposta. Deslizou rápida até a fresta mais próxima, e dali desapareceu. Xodó estava cansado demais para enfrentar qualquer outro embate. Compreendeu que ganhara duas batalhas, mas perdera seus reféns. Permaneceu ali, deitado, recobrando as energias. Mais tarde, ganhou um prato de comida preparado para ele por minha mãe. Se mais vale um pássaro na mão do que dois voando, também mais vale uma caça morta na boca do que um pássaro e uma lagartixa meio tontos, mas prontos para fugir.