Mimi fica por ali, esticada ao sol, macia e atenta. Por vezes, sai à
caça, atendendo ao chamado do espírito predador. Amiúde traz uma lagartixa para
brincar até a morte do pequeno réptil. Mordisca, dá pequenos tapas, saltita em torno, até que decide devorá-la. Mas, entre as lagartixas há aquelas que não se
deixam abater facilmente. Estrategas, executam eficientes planos de sobrevivência
à impiedosa fêmea felina. Algumas lançam mão de recursos da performance. Abandonam-se, com a barriga voltada para cima, como se
mortas. À menor distração de Mimi, escapam velozmente em direção ao primeiro
vão, e dali para outras searas mais seguras. Deixam Mimi a ver navios...
literatices... letras para nada, talvez para tudo... imagens de nada, que podem ser de tudo... matutações... penseros... rabiscações... daquilo que vejo... ou não... porque tomo assento neste tempo quando a humanidade produz vertiginosamente letras, símbolos e imagens, em busca de sentidos, quaisquer que sejam... ou não...
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quarta-feira, 22 de junho de 2016
quarta-feira, 25 de maio de 2016
terça-feira, 12 de abril de 2016
Mimi é avó
Quando
a família mudou-se do apartamento, deixou para trás, em condição de orfandade,
a pequena Mimi. Perdida, abandonada, a gatinha andou se escondendo pelos
escuros, tentando conseguir alimento, e levando algumas surras que fizeram dela
ainda mais arisca. Suja, maltratada, o brilho do pelo foi ficando desbotado. A
mistura de sua natureza vira-lata com informações genéticas da raça siamesa
perdeu a força e a beleza.
Os
porteiros dos dois prédios contíguos, por onde ela circulava às escondidas,
começaram a deixar-lhe algum leite e ração, sem forçá-la a aproximações
indesejadas. Desconfiada, ela achegou-se, em busca do alimento. Mantendo o
jeito arredio, adotou os novos amigos. Gata de rua, mas nem tanto. Logo
emprenhou. Seus guardiões ficaram atentos à hora de ela dar cria. Mas ela se
sumiu com os filhotes. O esconderijo em cima de outro prédio demorou algum
tempo para ser revelado. Na segunda ninhada, todos já sabiam para onde ela
iria, e puderam ajudá-la de modo mais eficiente. E também decidiram castrá-la.
Seus
filhotes tiveram destinos diversos. Uns foram adotados, outros ninguém sabe, outros
se criaram ali, pelos mesmos territórios da mãe.
Castrada, o pelo da Mimi ganhou mais brilho, as cores ficaram mais vivas. O azul dos olhos parece transbordar. E ela ficou mais amigueira. Achega-se às pernas de alguns moradores, oferece a
barriga ao carinho de outros poucos... Está bem, nem tão poucos assim... Entre uma e
outra demonstração de dengos, um de seus guardiões revelou que ela já é avó.
Sim: uma filha teve a primeira ninhada debaixo de um carro antigo, estacionado em
frente ao prédio. Uma senhora, moradora do outro prédio, está dando atenções à nova
família. Os porteiros dos prédios também estão no monitoramento. Já aparecem os candidatos para adoção dos seus netos. Por baixo do tal carro, avistei o vulto da mãe recém parida, às voltas com a ninhada.
Além de pop, Mimi é,
já, uma respeitável avó felina. O porteiro apruma-se, orgulhoso, como se fora o próprio
tio avô... Ela o observa, com os olhos semicerrados, e solta um miado fino, curto. Quase um sussurro. Soa como uma declaração de amor.
domingo, 14 de julho de 2013
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
domingo, 1 de julho de 2012
Mais vale um pássaro na mão...
O dia seguia calorento, já quase sol a pino, quando o Xodó voltou de mais uma de suas caçadas no campo. Manchas avermelhadas de terra em seu pelo branco denunciavam que tinha havido luta. Na boca, trazia
presos um pássaro pequeno e uma lagartixa. Entrou pela varanda, cansado. Sentindo-se
em território seguro, deitou sobre o piso frio, para refrescar o ventre. Num
gesto de alívio, fechou os olhos um instante. Uma filigrana
de relaxamento percorreu seu sistema nervoso. O pássaro, que, embora tonto, não estava morto, sentiu o imperceptível afrouxamento da mandíbula felina que o mantinha preso
aos dentes do seu algoz. Não perderia a única oportunidade de agarrar-se à
vida. Num átimo de tempo, reuniu toda a sua pequena força, e voou agilmente,
até a copa da árvore mais próxima. Seu bater de asas assustou o gato, que girou rapidamente a cabeça na direção para onde fugira a ave.
Então a lagartixa, que se fizera de morta até ali, sem estar, também reconheceu
o momento de sua salvação. Escapuliu-se na direção oposta. Deslizou rápida até a fresta mais próxima, e dali
desapareceu. Xodó estava cansado demais para enfrentar qualquer outro embate. Compreendeu
que ganhara duas batalhas, mas perdera seus reféns. Permaneceu ali, deitado,
recobrando as energias. Mais tarde, ganhou um prato de comida preparado para
ele por minha mãe. Se mais vale um pássaro na mão do que dois voando, também mais vale
uma caça morta na boca do que um pássaro e uma lagartixa meio tontos, mas prontos para fugir.
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