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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

domingo, 28 de julho de 2013

Notícias tristes sobre o Morro do Além


Mês de julho, a umidade em queda, clima frio, folhas e galhos secos: fatores que favorecem a combustão. Em meio à tarde, o Morro do Além ardia em chamas. 

Aos gritos, as corujas resistiam em afastar-se, enquanto a árvore retorcida enfrentava a queimada anual a que é submetida, no cerrado. Voando nas cercanias, uma delas machucou-se. Mesmo que retornem quando se sintam em segurança novamente, a área atravessará um período de escassez para sua alimentação.

A árvore com o oco onde vivia o coelho branco transformou-se num monte de cinzas. O coelho encontrou-se cercado pelo fogo, e chamuscou os pelos brancos em fuga.

O Menino correu para um lado e outro. Perdeu o fôlego. Nada pôde fazer por seus amigos. Prostrou-se, inconsolável. O domingo findou.



sábado, 27 de julho de 2013

Habitantes do Morro do Além

ou
Exercícios de alteridade

Para Cleomar,
Menino do Castelo, que fez aniversário.

Com os três filhotes já crescidos, o casal de suindaras deixou o quinto andar do Castelo do Menino, para se instalar nas árvores retorcidas no alto do Morro do Além, de onde observam o movimento, a cidade, e rastreiam, sem margem de erro, presas para seu jantar.

Nas cercanias, no oco de uma árvore caída, vive um coelho branco. À noite, passeia nos arredores, deslocando-se rapidamente entre os arbustos rasteiros. Durante o dia, recolhe-se para longe dos perigos de se tornar um apetitoso assado, ou dos raios de sol a ameaçar o pêlo albino. Por vezes, chega a passar três dias sem ser avistado. Estará do outro lado, no Mundo de Alice, ou nalgum outro de que ainda não se tenham notícias?

O Menino (que diz ter completado 38 anos, mesmo sob os protestos veementes das corujas ante tal informação...) saltita de alegria ao vê-lo. Quando tem tempo, deixa maçãs e torradas à porta do oco da árvore, sob os olhares atentos das suindaras. Depois volta para seu Castelo, de onde se vêm as luzes da cidade cintilando, e se ouve o eco dos gritos da família notívaga.


sábado, 20 de abril de 2013

As corujas, símbolo de sabedoria, e a universidade



Eu tinha cinco anos, quando recebi a primeira correspondência: um postal enviado pelo Padre Wenceslau, que rezou a missa de meu batismo. Por isso eu o chamava de padrinho, e ele me chamava de afilhada. Algum tempo antes, minha mãe postara para ele uma carta que eu escrevera, não sem a preciosa ajuda dela. O postal vinha em resposta. Notícias longínquas, de algum lugar cujas feições eu não podia imaginar, para onde ele se transferira, após ter sido pároco em nossa pequena cidade durante muito tempo.

No postal ele falava de sua surpresa ao receber minha carta, e de sua alegria ao ler as palavras escritas pela minha própria mão. Na estampa, uma coruja usando o capelo, aquele chapéu usado em formaturas. A figura da corujinha era realizada com um efeito especial que dava a impressão de profundidade e movimento: duas imagens sobrepostas em filetes muito delgados, a enganar os olhos do observador. Quase um holograma. O postal, de alguma forma, foi meu primeiro diploma. E cunhou, também, embora não de modo fatalista, nem dramático, um caminho a seguir: o da formação e atuação acadêmica.

Enveredei pelas paisagens da educação, da arte, da pesquisa, da docência, dos livros, das fotografias, do cinema... Professora universitária, o campus onde atuo é habitado por uma comunidade famosa, comentada além de suas fronteiras: os macacos-prego que vivem na pequena reserva florestal, fragmento da mata atlântica a resistir bravamente ante o avanço da cidade. Os macacos invadem a vida acadêmica de estudantes, professores e quantos por ali se aventurarem. Roubam lanches e almoços, mexem nos papeis à procura de guloseimas, dependuram-se nas janelas durante conferências importantes, irreverentes que são.

Mas fui seduzida mesmo por outra comunidade, mais silenciosa, profundamente observadora, e capaz de ver aquilo que não somos capazes, sobretudo porque preparadas para ver na ausência da luz: as corujas-buraqueiras.

Tenho acompanhado algumas famílias, observando os filhotes com penugem ainda muito clara, arredios, prontos a deslizar para dentro da toca a qualquer movimento minimamente ameaçador. E os adultos, sempre por perto, observando-me a observar, emitindo alguma rezinga por vezes, quando sentem seus territórios invadidos além das fronteiras mínimas de segurança.

Na verdade, as corujas, bem como os macacos, os quero-queros, as curicacas, e outros representantes da flora e da fauna do cerrado já estavam lá quando a universidade chegou, e depois a cidade cresceu em torno, com seus restaurantes, as lojas, os alojamentos de estudantes, os bares, o movimento de carros, ônibus, os grandes eventos, os grandes estacionamentos... Por outro lado, encanto-me registrando o encontro metafórico daquela que é o símbolo da sabedoria, a coruja, com a casa destinada à formação para o conhecimento, qual seja a universidade: esta última, construída nos mesmos terrenos desde há quanto tempo habitados pela primeira! (é claro: um encontro descrito desde o ponto de vista estritamente antropocêntrico. Qual seria, então, a descrição feita pela coruja?)

Não estou certa de que a comunidade universitária esteja muito atenta a isso. Ao contrário: com frequência suas construções têm ameaçado ninhos e ninhadas, feito desmoronar tocas, produzido barulho em excesso a ponto de estressar as comunidades. Mas elas resistem, adaptam-se rapidamente, e a população se amplia. Enfrentam as máquinas, não temem os animais da espécie humana, convivem com os quero-queros, caçam insetos e animais de pequeno porte.

Integram a vida universitária, ao seu modo. Ao seu modo, testemunham a paisagem se transformar à sua volta, sem perder um detalhe, sem se perder nela. Talvez por serem sábias, por verem mais e além, por perceberem o mundo quando ainda prevalecem as sombras.