literatices... letras para nada, talvez para tudo... imagens de nada, que podem ser de tudo... matutações... penseros... rabiscações... daquilo que vejo... ou não... porque tomo assento neste tempo quando a humanidade produz vertiginosamente letras, símbolos e imagens, em busca de sentidos, quaisquer que sejam... ou não...
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quarta-feira, 13 de agosto de 2014
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
domingo, 28 de julho de 2013
Notícias tristes sobre o Morro do Além
Mês de julho, a umidade em queda, clima frio, folhas e galhos secos: fatores que favorecem a combustão. Em meio à tarde, o Morro do Além ardia em chamas.
Aos gritos, as corujas resistiam em afastar-se, enquanto a árvore retorcida enfrentava a queimada anual a que é submetida, no cerrado. Voando nas cercanias, uma delas machucou-se. Mesmo que retornem quando se sintam em segurança novamente, a área atravessará um período de escassez para sua alimentação.
A árvore com o oco onde vivia o coelho branco transformou-se num monte de cinzas. O coelho encontrou-se cercado pelo fogo, e chamuscou os pelos brancos em fuga.
O Menino correu para um lado e outro. Perdeu o fôlego. Nada pôde fazer por seus amigos. Prostrou-se, inconsolável. O domingo findou.
sábado, 27 de julho de 2013
Habitantes do Morro do Além
ou
Exercícios de alteridade
Para Cleomar,
Menino do Castelo, que fez aniversário.
Nas cercanias, no oco de uma árvore caída, vive um coelho branco. À noite, passeia nos arredores, deslocando-se rapidamente entre os arbustos rasteiros. Durante o dia, recolhe-se para longe dos perigos de se tornar um apetitoso assado, ou dos raios de sol a ameaçar o pêlo albino. Por vezes, chega a passar três dias sem ser avistado. Estará do outro lado, no Mundo de Alice, ou nalgum outro de que ainda não se tenham notícias?
O Menino (que diz ter completado 38 anos, mesmo sob os protestos veementes das corujas ante tal informação...) saltita de alegria ao vê-lo. Quando tem tempo, deixa maçãs e torradas à porta do oco da árvore, sob os olhares atentos das suindaras. Depois volta para seu Castelo, de onde se vêm as luzes da cidade cintilando, e se ouve o eco dos gritos da família notívaga.
sábado, 20 de abril de 2013
As corujas, símbolo de sabedoria, e a universidade
Eu tinha cinco anos, quando recebi a primeira
correspondência: um postal enviado pelo Padre Wenceslau, que rezou a missa de
meu batismo. Por isso eu o chamava de padrinho, e ele me chamava de afilhada.
Algum tempo antes, minha mãe postara para ele uma carta que eu escrevera, não
sem a preciosa ajuda dela. O postal vinha em resposta. Notícias longínquas, de
algum lugar cujas feições eu não podia imaginar, para onde ele se transferira,
após ter sido pároco em nossa pequena cidade durante muito tempo.
No postal ele falava de sua surpresa ao receber minha
carta, e de sua alegria ao ler as palavras escritas pela minha própria mão. Na estampa,
uma coruja usando o capelo, aquele chapéu usado em formaturas. A figura da
corujinha era realizada com um efeito especial que dava a impressão de
profundidade e movimento: duas imagens sobrepostas em filetes muito delgados, a
enganar os olhos do observador. Quase um holograma. O postal, de alguma forma,
foi meu primeiro diploma. E cunhou, também, embora não de modo fatalista, nem
dramático, um caminho a seguir: o da formação e atuação acadêmica.
Enveredei pelas paisagens da educação, da arte, da
pesquisa, da docência, dos livros, das fotografias, do cinema... Professora universitária,
o campus onde atuo é habitado por uma
comunidade famosa, comentada além de suas fronteiras: os macacos-prego que
vivem na pequena reserva florestal, fragmento da mata atlântica a resistir
bravamente ante o avanço da cidade. Os macacos invadem a vida acadêmica de
estudantes, professores e quantos por ali se aventurarem. Roubam lanches e
almoços, mexem nos papeis à procura de guloseimas, dependuram-se nas janelas durante
conferências importantes, irreverentes que são.
Mas fui seduzida mesmo por outra comunidade, mais
silenciosa, profundamente observadora, e capaz de ver aquilo que não somos
capazes, sobretudo porque preparadas para ver na ausência da luz: as corujas-buraqueiras.
Tenho acompanhado algumas famílias, observando os
filhotes com penugem ainda muito clara, arredios, prontos a deslizar para
dentro da toca a qualquer movimento minimamente ameaçador. E os adultos, sempre
por perto, observando-me a observar, emitindo alguma rezinga por vezes, quando
sentem seus territórios invadidos além das fronteiras mínimas de segurança.
Na verdade, as corujas, bem como os macacos, os
quero-queros, as curicacas, e outros representantes da flora e da fauna do
cerrado já estavam lá quando a universidade chegou, e depois a cidade cresceu em
torno, com seus restaurantes, as lojas, os alojamentos de estudantes, os bares,
o movimento de carros, ônibus, os grandes eventos, os grandes
estacionamentos... Por outro lado, encanto-me registrando o encontro metafórico
daquela que é o símbolo da sabedoria, a coruja, com a casa destinada à formação para o conhecimento, qual seja a universidade: esta última, construída nos mesmos terrenos desde há quanto tempo habitados pela primeira! (é claro: um encontro descrito desde o ponto de vista estritamente antropocêntrico. Qual seria, então, a descrição feita pela coruja?)
Não estou certa de que a comunidade universitária
esteja muito atenta a isso. Ao contrário: com frequência suas construções têm
ameaçado ninhos e ninhadas, feito desmoronar tocas, produzido barulho em
excesso a ponto de estressar as comunidades. Mas elas resistem, adaptam-se
rapidamente, e a população se amplia. Enfrentam as máquinas, não temem os
animais da espécie humana, convivem com os quero-queros, caçam insetos e animais
de pequeno porte.
Integram a vida universitária, ao seu modo. Ao seu modo,
testemunham a paisagem se transformar à sua volta, sem perder um detalhe, sem
se perder nela. Talvez por serem sábias, por verem mais e além, por perceberem
o mundo quando ainda prevalecem as sombras.
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