No domingo, eu me atrasei. Quando cheguei ao local de filmagens, para fazer o still, quase todos já estavam a postos, organizando o espaço, fazendo marcações, decorando texto. Além do grupo de atores, e dos técnicos que operam equipamentos, gravam, cuidam do som, luz, etc., achegam-se também outras gentes: uns tratam de fazer registros do processo, outros observam, curiosos, outros conversam à volta. Eu não conhecia todos ali. Foi assim que fiquei sem saber a qual categoria aquele homem pertencia: amigo de alguém? curioso? artista excêntrico? Entre o movimento, ele observava, com mansidão, e eu o observava. Meus olhos teimavam em buscá-lo. Eventualmente, ele acompanhava as gravações lendo algum roteiro deixado à mão. Discutiam-se as cenas, modificavam-se sequências, repetiam-se as tomadas. E ele ali. Depois todos se reuniam para verificar o que havia sido gravado, e certificar-se de que não seria necessário fazer mais tomadas. Ele acompanhava o grupo. Mais tarde, terminados os trabalhos, foi servido o almoço. Momento de celebração coletiva, da qual ele tomou parte, respeitosamente tirando o gorro. Só mais tarde eu pude confirmar que, de fato, ali ninguém o conhecia. Chegara logo no início da manhã. E permanecera, integrado ao movimento das pessoas, cada qual com seus próprios estranhamentos, de modo que acabou não se sentindo tão desigual. No meio da tarde, ele contava uma história mirabolante a uma pequena audiência. João da Estrada, passou a ser referido, depois do episódio. Andarilho. Seguiu seu rumo, que é qualquer um. Seguiu assim, sem documentos, deixando pouco ou quase nenhum rastro. Apenas esta imagem, entre as formas orgânicas do cerrado, criadas pelo querido Noé Luiz da Mota, na Catedral das Artes.
literatices... letras para nada, talvez para tudo... imagens de nada, que podem ser de tudo... matutações... penseros... rabiscações... daquilo que vejo... ou não... porque tomo assento neste tempo quando a humanidade produz vertiginosamente letras, símbolos e imagens, em busca de sentidos, quaisquer que sejam... ou não...
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
João da Estrada
No domingo, eu me atrasei. Quando cheguei ao local de filmagens, para fazer o still, quase todos já estavam a postos, organizando o espaço, fazendo marcações, decorando texto. Além do grupo de atores, e dos técnicos que operam equipamentos, gravam, cuidam do som, luz, etc., achegam-se também outras gentes: uns tratam de fazer registros do processo, outros observam, curiosos, outros conversam à volta. Eu não conhecia todos ali. Foi assim que fiquei sem saber a qual categoria aquele homem pertencia: amigo de alguém? curioso? artista excêntrico? Entre o movimento, ele observava, com mansidão, e eu o observava. Meus olhos teimavam em buscá-lo. Eventualmente, ele acompanhava as gravações lendo algum roteiro deixado à mão. Discutiam-se as cenas, modificavam-se sequências, repetiam-se as tomadas. E ele ali. Depois todos se reuniam para verificar o que havia sido gravado, e certificar-se de que não seria necessário fazer mais tomadas. Ele acompanhava o grupo. Mais tarde, terminados os trabalhos, foi servido o almoço. Momento de celebração coletiva, da qual ele tomou parte, respeitosamente tirando o gorro. Só mais tarde eu pude confirmar que, de fato, ali ninguém o conhecia. Chegara logo no início da manhã. E permanecera, integrado ao movimento das pessoas, cada qual com seus próprios estranhamentos, de modo que acabou não se sentindo tão desigual. No meio da tarde, ele contava uma história mirabolante a uma pequena audiência. João da Estrada, passou a ser referido, depois do episódio. Andarilho. Seguiu seu rumo, que é qualquer um. Seguiu assim, sem documentos, deixando pouco ou quase nenhum rastro. Apenas esta imagem, entre as formas orgânicas do cerrado, criadas pelo querido Noé Luiz da Mota, na Catedral das Artes.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
domingo, 20 de abril de 2014
terça-feira, 28 de maio de 2013
Boi de maio - intervenção urbana colaborativa. Iporá/GO. Maio de 2013
Uma trupe de quatorze pessoas seguiu para Iporá, para se reunir a outra trupe com mais pessoas, dentro da programação da Universidade das Quebradas em Rede, Sessão Goiás, com ações coordenadas pelo Prof. Cleomar Rocha. Parceiros dessa ação: UFG, MediaLab/UFG, SeCult/GO, Secretaria de Cultura de Iporá, IFG/Iporá, UEG, GIRA.
No sábado à tarde, foram realizadas várias oficinas, dentre as quais, a de fotografia, coordenada pela fotógrafa Julia Mariano, acompanhada por mim, pelo Pablo de Regino e pelo Marcelo. A Lizi, fotógrafa residente em Iporá, integrou o grupo, com participação fundamental. A luz era doce sobre Iporá, quando o grupo saiu com a proposta de produzirem imagens pouco familiares de paisagens e objetos familiares aos seus olhares. Por sugestão do Prof. Cleomar, planejamos projetar as fotografias em meio à festa da cidade, a Festa de Maio, onde havia muitas barracas, e muito movimento de pessoas.
À noite, então, buscávamos um bom lugar para fazer as projeções. Quando nos deparamos com o boi de fibra de vidro, figura central na festa, disputado entre adultos e crianças que posavam ao seu lado em registros fotográficos. O boi, referência à economia da região, à cultura do lugar, de superfície branca e ampla, oferecia-se como telão, como écran aos passantes. O olho aguçado da Júlia percebeu a relação, elegendo o sítio para as projeções organizadas em duas etapas: projeções feitas pelo quadricóptero, em projeto desenvolvido pelo mestrando Pablo de Regino e pelo Prof. Cleomar Rocha, e projeções das imagens capturadas pelo grupo da Oficina de fotografia.
Assim, o Boi de Maio foi revestido por imagens que se relacionaram com o público da festa, com a cidade, com o imaginário da região. Foi vestido, e retribuiu com sua imponência, com sua âncora no lugar, num encontro denso, intenso, que nos impactou, a todos, de modo inesquecível. Em sua retribuição, integrou a atmosfera de acolhimento à trupe de Goiânia, parceiros no coletivo que assina o Boi de Maio: Cleomar, Alice, J. Bamberg, Júlia, Marcelo, Neto, Wilson, Pablo, Maria Antônia, Jordão, Veramar, Lucas, Marcelo Reis, Mário. A estes, reúnem-se os membros do GIRA, de Iporá, e todos os que integraram a Oficina de Fotografia.
Viva o Boi! Viva a Festa de Maio! Viva Nossa Senhora Auxiliadora, padroeira de Iporá! Viva o Boi de Maio!
Ao deguste!
No sábado à tarde, foram realizadas várias oficinas, dentre as quais, a de fotografia, coordenada pela fotógrafa Julia Mariano, acompanhada por mim, pelo Pablo de Regino e pelo Marcelo. A Lizi, fotógrafa residente em Iporá, integrou o grupo, com participação fundamental. A luz era doce sobre Iporá, quando o grupo saiu com a proposta de produzirem imagens pouco familiares de paisagens e objetos familiares aos seus olhares. Por sugestão do Prof. Cleomar, planejamos projetar as fotografias em meio à festa da cidade, a Festa de Maio, onde havia muitas barracas, e muito movimento de pessoas.
À noite, então, buscávamos um bom lugar para fazer as projeções. Quando nos deparamos com o boi de fibra de vidro, figura central na festa, disputado entre adultos e crianças que posavam ao seu lado em registros fotográficos. O boi, referência à economia da região, à cultura do lugar, de superfície branca e ampla, oferecia-se como telão, como écran aos passantes. O olho aguçado da Júlia percebeu a relação, elegendo o sítio para as projeções organizadas em duas etapas: projeções feitas pelo quadricóptero, em projeto desenvolvido pelo mestrando Pablo de Regino e pelo Prof. Cleomar Rocha, e projeções das imagens capturadas pelo grupo da Oficina de fotografia.
Assim, o Boi de Maio foi revestido por imagens que se relacionaram com o público da festa, com a cidade, com o imaginário da região. Foi vestido, e retribuiu com sua imponência, com sua âncora no lugar, num encontro denso, intenso, que nos impactou, a todos, de modo inesquecível. Em sua retribuição, integrou a atmosfera de acolhimento à trupe de Goiânia, parceiros no coletivo que assina o Boi de Maio: Cleomar, Alice, J. Bamberg, Júlia, Marcelo, Neto, Wilson, Pablo, Maria Antônia, Jordão, Veramar, Lucas, Marcelo Reis, Mário. A estes, reúnem-se os membros do GIRA, de Iporá, e todos os que integraram a Oficina de Fotografia.
Viva o Boi! Viva a Festa de Maio! Viva Nossa Senhora Auxiliadora, padroeira de Iporá! Viva o Boi de Maio!
Ao deguste!
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segunda-feira, 1 de abril de 2013
dia da mentira
Passei o dia matutando. Brinquei com várias pessoas com quem convivo quotidianamente. Mas o dia não estaria ganho se não conseguisse dribá-la. Ela, a minha mestra primeira, quem me ensinou que não se pode deixar este dia passar em branco. No entanto eu tinha um dilema pela frente: precisava encontrar uma forma de brincar, com cuidado, pois, nos seus 85 anos, poderia ficar ansiosa além da margem de segurança à sua saúde.
À noite, quando cheguei em casa, encontrei a solução. Liguei para ela. Conversamos sobre amenidades. Como foi o dia, se dormiu bem à noite, estava calor, choveu, etc. No meio da conversa, introduzi a informação a senhora não sabe o que aconteceu: perdi todos os pasteizinhos... Coloquei um tom de queixa na minha fala. Ela perguntou como, minha filha? Expliquei cheguei ontem e esqueci fora da geladeira; a noite e o dia foram quentes; quando cheguei agora, estavam azedos...
No domingo, ela investira a manhã inteira na função de fazer os tais pasteizinhos assados. Quando saí para casa, me entregou uma embalagem com quase todos eles. Agora eu lhe dizia que os perdera.
Ela estranhou um pouco que coisa, aqui em casa os que sobraram também ficaram fora da geladeira, e não estragaram. Aí é mais fresco que aqui, expliquei. E acrescentei não comi nenhum, pois deixei para comer hoje, quando chegasse do trabalho. Senti que ela ficou inconformada. E então ela me perguntou o que você vai comer, minha filha? Eu ri e respondi pastel, minha mãe. Você comprou outros pastéis? Ri de novo, não, bunitinha, os seus, porque o problema deles era primeiro de abril. Ela ficou brava, falou alguns desaforos para mim, e rimos, muito. Você me pegou!
Essa é, sempre, a melhor parte da história. Não importa o grau de complexidade da mentira. Importa que você crie um enredo qualquer, e consiga envolver a outra pessoa no enredo. Envolver alguém numa mentira, no primeiro de abril, é quase uma declaração de afeto. Porque supõe risos, alegria, jogo, prazer. Ela me ensinou a aproveitar essa data para brincar. Ensinou, também, que é preciso ter cuidado com quem se brinca, e que o prazer deve ser mútuo, caso contrário, não vale a pena.
Que sejam muitos, e divertidos, os dias da mentira!
domingo, 3 de fevereiro de 2013
odores
fui à feira
entre as bancas, ia me deliciando com a multiplicidade de aromas
temperos úmidos, sementes secas, pó acomodado em tigelas
frutinhas vermelhas, amarelas, verdes
folhas macias, cascas desidratadas
raízes exalando memórias da terra de onde foram arrancadas...
queria trazer comigo algumas porções desses cheiros
etéreos, fugidios
mas capazes de imprimir marcas tão fundas nos sentidos...
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Delícias da feira
As maiores delícias que encontro na feira não estão nos
sabores, nos cheiros ou nas cores de frutas, legumes, folhagens, doces,
temperos, e outros itens. Essas delícias estão nos falares, nos ritmos das
palavras, no entoado das ideias, no tecido do pensamento. Vou caminhando, com
os ouvidos atentos. Por vezes me aproximo de alguma banca, procurando coisas
que dificilmente estariam à venda, para me deliciar com as respostas. Noutras
vezes, me surpreendem com provocações divertidas, astúcias dos jogos de comprar
e vender.
Na primeira banca, o rapaz vendia um pacote do milho já
cortado por R$ 5,00. Achei caro. Ele me explicou que era o milho de 7 espigas.
Resolvi verificar o preço numa banca mais à frente. Uma senhora miúda,
sorridente, estabeleceu seu preço: R$ 4,00, com o milho de 6 espigas. Fiz as
contas mentalmente. Nesta banca, a espiga saía ao valor de uma dízima
periódica: R$ 0,6666666..., na outra, uma dízima periódica um décimo mais cara:
R$ 0,7666666... Fiquei na última banca. Enquanto a senhora cortava o milho, fui
reunindo as moedas. Pensei em voz alta: “Se eu não encontrar o dinheiro com que
pagar, vou pegar o milho e sair correndo...” Ela riu-se, e me provocou: “Não
precisa! Se não tiver dinheiro, não tem problema, é só vir me ajudar a cascar
esses milho. Num instantinho, paga sua conta”. Depois me olhou, quase séria, e
arrematou: “Só passa fome quem quer, não é?”
Juntei as moedas, que somaram o total de que eu precisava. Ainda não era desta vez que eu iria cascar milho para pagar a conta. Aliás, um milho bem verdinho, tenro, quase doce. Virei freguesa.
domingo, 19 de agosto de 2012
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