sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sobre o artesanato intelectual (C. Wright Mills)



É melhor começar, acredito, lembrando a você, o estudioso iniciante, que os mais admiráveis pensadores da comunidade acadêmica em que decidiu ingressar não separam seu trabalho de suas vidas. Parecem lavá-los ambos a sério demais para admitir tal dissociação, e querem usar uma coisa para o enriquecimento da outra. Essa separação, é claro, é a convenção predominante entre os homens em geral, originando-se, suponho, do vazio do trabalho que os homens em geral fazem hoje. Mas você reconhecerá que, como intelectual, tem a oportunidade excepcional de planejar um modo de vida que encorajará os hábitos da boa produção. O conhecimento é uma escolha tanto de um modo de vida quanto de uma carreira; quer o saiba ou não, o trabalhador intelectual forma-se a si próprio à medida que trabalha para o aperfeiçoamento de seu ofício; para realizar suas próprias potencialidades, e quaisquer oportunidades que surjam em seu caminho, ele constrói um caráter que tem como núcleo as qualidades do bom trabalhador.

Isto significa que deve aprender a usar sua experiência de vida em seu trabalho intelectual: examiná-la e interpretá-la continuamente. Neste sentido, o artesanato é o centro de você mesmo, e você está pessoalmente envolvido em cada produto intelectual em que possa trabalhar.




terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Visualidades: Chamada para contribuições/Call for papers 2014

Chamada para contribuições/Call for papers 2014
Visualidades

ISSN  impresso 1679-6748 | on-line: 2317-6784
Editora: Rosana Horio Monteiro
Classificação Qualis/Capes
Artes/Música: A2 / Interdisciplinar: B1 / História: B2

A revista Visualidades, publicação semestral do Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual da Faculdade de Artes Visuais (FAV|UFG), está recebendo originais, sob a forma de artigos, relatos de pesquisa, entrevistas, resenhas e resumos de dissertações e teses, para as duas edições de 2014.

As contribuições originais — em português, espanhol, inglês ou francês — devem ser enviadas até 31 de março.

Números anteriores da revista podem ser consultados em:

Para outras informações: revistavisualidades@gmail.com

Normas para autores/Authors guidelines

Os originais, sob a forma de artigos, ensaios visuais, relatos de pesquisa, entrevistas, resenhas e resumos de dissertações e teses, serão avaliados preliminarmente pelo Conselho Editorial quanto à pertinência à linha editorial da revista. Numa segunda etapa, as contribuições enviadas serão submetidas a pareceristas ad hoc. O Conselho Editorial reserva-se o direito de propor modificações no texto, conforme a necessidade de adequá-lo ao padrão editorial e gráfico da publicação.

Artigos e entrevistas deverão ter entre 4.000 e 9.000 palavras. Resenhas: até 2.000 palavras. Resumos de teses e dissertações: até 400 palavras. Relatos de pesquisa: até 3.000 palavras. Serão aceitas resenhas de livros publicados no Brasil há dois anos, no máximo, e, no exterior, há cinco anos. Serão aceitas também resenhas de filmes e exposições. As imagens para os ensaios visuais podem ser em P&B ou cor, com resolução mínima de 300 dpi.
O texto deve ser acompanhado de uma biografia acadêmica do(s) autor(es) em, no máximo, 5 linhas, e das seguintes informações complementares: endereço completo do autor principal, instituição à qual está ligado e e-mail. Essas informações devem ser enviadas separadamente.
Os trabalhos devem ser precedidos de um resumo de 5 a 8 linhas e 3 palavras-chave, ambos em inglês e português (os abstracts devem ser acompanhados pelo título do artigo em inglês). As resenhas devem ter título próprio e diferente do título do trabalho resenhado e devem apresentar referências completas do trabalho analisado.
Os textos deverão ser digitados no editor Microsoft Word (Word for Windows 6.0 ou posterior), salvos no formato Rich Text Format (rtf), com página no formato A4, fonte Times New Roman, corpo 12, entrelinhamento 1,5 e parágrafos justificados.
As notas devem ser sucintas, empregadas apenas para informações complementares e não devem conter referências bibliográficas. Devem ser inseridas no final do texto, antes das referências bibliográficas, e numeradas seqüencialmente.


Referências bibliográficas:

Quando o autor citado integrar o texto, usar o formato: Autor (ano, p.). Em caso de citação ao final dos parágrafos, usar o formato: (SOBRENOME DO AUTOR, ano, p.). Diferentes títulos do mesmo autor publicados no mesmo ano serão identificados por uma letra após a data (SILVA, 1980a), (SILVA, 1980b). As referências bibliográficas completas devem ser informadas apenas no final do texto, em ordem alfabética, de acordo com as normas da ABNT (NBR-6023/2000):

SOBRENOME, Nome. Título do livro em itálico: subtítulo. Tradução. Edição, Cidade: Editora, ano, p. ou pp.

SOBRENOME, Nome. Título do capítulo ou parte do livro. In: SOBRENOME, Nome do organizador (Org.). Título do livro em itálico. Tradução, edição, Cidade: Editora, ano, p. X-Y.

SOBRENOME, Nome. Título do artigo. Título do periódico em itálico. Cidade: Editora, vol., fascículo, p. X-Y, mês, ano.

Documentos eletrônicos:

Para a referência de qualquer tipo de documento obtido em meio eletrônico, deve-se proceder da mesma forma como foi indicado para as obras convencionais, acrescentando o URL completo do documento na Internet, entre os sinais <  >, antecedido da expressão Disponível em: e seguido da informação Acesso em:

SOBRENOME, Nome. Título do artigo. Título do periódico em itálico. Cidade: Editora, vol., fascículo, p. X-Y, mês, ano. Disponível em: <http://www>. Acesso em: dia mês ano.

Os originais, o currículo resumido do(s) autor(es), as imagens e um documento assinado com a cessão de direito de uso de cada imagem, quando necessário, devem ser enviados por e-mail em arquivos separados. As imagens devem ser gravadas no formato TIFF ou JPEG, com resolução mínima de 300 dpi. A permissão para a reprodução das imagens é de inteira responsabilidade do(s) autor(es). Cada autor receberá 3 (três) exemplares do número em que for publicada sua colaboração. Os originais não serão devolvidos aos autores.

A revisão ortográfica, gramatical e a adequação às normas da ABNT são de inteira responsabilidade do(s) autor(es). As colaborações para a revista Visualidades devem ser enviadas para o seguinte endereço:

E-mail: revistavisualidades@gmail.com (A/C: Cátia Ana Baldoino da Silva)

Authors guidelines

Submitted manuscripts, in the form of articles, visual essays, research reports, interviews, reviews, and abstracts from dissertations and thesis are initially assessed by the Editorial Board for relevance with the journal's editorial line. Following this initial screening, manuscripts are submitted to ad hoc reviewers. The Editorial Board is entitled to suggest changes to the texts, in case these need to meet the journal's editorial and graphic standards.

Articles and interviews must not have less than 4,000 and more than 9,000 words. Reviews must not exceed 2,000 words; abstracts from dissertations and thesis must not exceed 400 words; research reports must not exceed 3,000 words. The journal accepts reviews that were published in Brazilian journals up to two years prior to submission and in international journals up to five years prior to submission. Film and exhibition reviews may also be submitted. Images for visual essays may be provided in black and white or in color (at least 300 dpi).

Authors must include a brief academic curriculum vitae not exceeding five lines, stating: main author's full address, institutional affiliation, and e-mail address. This information should be provided separately.

Manuscripts must include a short abstract (5 to 8 lines long) and three keywords prior to the main text, in both Portuguese and English (abstracts must provide an English version of the text title). Reviews must have their own title and not be named after the work being reviewed; furthermore, they must include complete references of the work being reviewed.

Texts should be typed on A4 paper in Microsoft Word (Word for Windows 6.0 or later version) and saved in Rich Text Format (rtf), using Times New Roman 12 pt, 1.5 line spacing, and justified paragraphs.

Notes should be brief and refer strictly to complementary information; they should not contain references. They should follow the main text, prior to the References section, and be numbered in sequence.

References:

When the name of the author being quoted is part of the text, use the format: Author name (year, p.). In case of quotation at the end of paragraphs, use the format: (AUTHOR NAME, year, p.). A lowercase letter should be added to dates for texts published by an author in the same year: (SILVA, 1980a), (SILVA, 1980b). Full references should only be listed at the end of the text, in alphabetical order, in accordance with the norms provided by Brazil's technical standards association ABNT (NBR-6023/2000):

NAME, Forename. Book Title: subtitle. Translated by Forename Name. Edition. City: Publisher, year.

NAME, Forename. Title of chapter or part of a book. In: NAME, Forename of book organizer (Org.). Book Title. Translated by Forename Name. Edition. City: Publisher, year. p. X-Y.

NAME, Forename. Title of article. Name of the journal, city: publisher, volume, issue, p. X-Y, month, year.

Electronic Documents:

Referencing electronic sources follows the same format as that of print sources, but it should include information regarding the source's location on the internet. References should provide the document's complete URL, placed within graphic symbols <  > following the expression Available at: and before the access date (Accessed on:).

NAME, Forename. Title of article. Name of the journal, city: publisher, volume, issue, p. X-Y, month, year. Available at: <http://www>. Accessed on: day month year.

All submitted manuscripts, authors' curriculum vitae, images, as well as a signed statement declaring permission to reproduce each image, when required, should be sent by e-mail in separate files. Images should be saved in TIFF or JPEG formats in at least 300 dpi. Obtaining permission to reproduce images is the responsibility of the contributor(s). Each author will receive three copies of the issue in which the article appears. Manuscripts are not returned to their respective authors.

It is the sole responsibility of the contributors to proofread their texts as regards spelling, grammar, and ABNT editing guidelines. Manuscripts should be sent to the following email:

E-mail: revistavisualidades@gmail.com (to: Cátia Ana Baldoino da Silva)
arteeculturavisual@gmail.com

Programa de Pós-Graduação Em Arte e Cultura Visual
Mestrado e Doutorado
Secretaria:
Fone: 55 62 3521-1440
culturavisual@fav.ufg.br
www.fav.ufg.br/culturavisual




segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

INFORME sobre processo seletivo para aluno regular - 2014/2015

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
FACULDADE DE ARTES VISUAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARTE E CULTURA VISUAL

INFORME Processo seletivo para aluno regular

Processo seletivo para aluno regular – PPG Arte e Cultura Visual

Informamos a toda a comunidade acadêmica que a partir de 2014 o Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual não mais aplicará prova para avaliar a capacidade de leitura em língua estrangeira, nos processos de seleção para aluno regular. Assim, no ato da inscrição, o candidato deverá apresentar, como parte da documentação exigida, os certificados ou diplomas emitidos por uma das instituições abaixo relacionadas, com validade de 2 (dois) anos até a data da inscrição para o Processo Seletivo PPGACV, emitido por uma das instituições abaixo relacionadas:

1.Francês
• DALF
• DAEFLE - Diplôme d'Aptitude à l'enseignement du Français Langue Etrangère
• Certificado do Teste de proficiência da CAPES/CNPq emitido pela Aliança Francesa de Goiânia
• CASLE/UFG

2. Espanhol
• DELE (Intermediário e Superior, expedido pelo governo espanhol)
• CELU (expedido por universidades argentinas)
• CASLE/UFG

3. Inglês
• Michigan
• TOEFL - score igual ou maior que 74,2
• FCE - (Conceitos C, B ou A)
• CAE - (Conceitos C, B ou A)
• CPE - (Conceitos C, B ou A)
• IELTS - (Score igual ou maior que 6,0)
• CASLE/UFG






Esse, sim, deve ser o espírito de Natal!

Porque amizade é coisa assim, para se cultivar em jardins, e guardar em recantos arejados e iluminados do coração.
Em nome das minhas queridas Maria Antônia, Diná e Cássia, abraço as pessoas queridas, com voto de que não falte afeto para fazer vibrar nossas vidas, e que sempre tenhamos um cantinho acolhedor para nos encontrarmos, para rirmos um pouco, antes de prosseguirmos nas batalhas diárias de cada um.
Minhas queridas, obrigada pelo presente que foi encontrá-las!

 Diná, minha sócia, Maria Antônia e Cássia. 

 
A menina em busca de alguma jabuticaba remanescente... hummmm, 'tava bem docinha, viu?






domingo, 22 de dezembro de 2013

Flor viva: presente de aniversário que virou presente de Natal

 Para Alzira, que me presenteou com essa coisa linda
E para Ilma, que me contou o nome dessa flor.

No meu aniversário de 2012, Alzira me deu uma planta curiosa: uma haste larga e tenra, bem verde, terminava num conjunto de folhas tenras abertas em copa. De junto do tronco, saía uma segunda haste, um pouco mais delgada, que terminava num conjunto de hastes pequeninas, na ponta de algumas das quais havia uma bolinha vermelha. Ao todo, deveriam ser umas 4 bolinhas. Tampouco ela conhecia a plantinha, ou lhe sabia o nome.

Instalada na varanda de casa, fui acompanhando seu desenvolvimento. E me perguntava se nasceriam outras bolinhas vermelhas na ponta das demais hastes. O que não me parecia provável. E de fato não nasceram. Ao contrário: as bolinhas remanescentes caíram, e aquela haste foi ficando frágil até secar. As folhas também amarelaram, e por fim toda ela morreu.

Confesso certa frustração, afinal eu não soubera preservar a planta, por ignorância quanto às suas características e necessidades. De toda sorte, mantive o vaso no mesmo lugar, e com algum espaçamento no tempo regava a terra.

Há coisa de pouco mais de mês (ou seja, um ano depois), fui surpreendida com uma pequena brotação, muito verde. Rapidamente, ela se desenvolveu, e uma haste mais grossa ergueu-se, tendo ao lado uma haste mais delgada, com uma flor ensaiando se abrir ao lado. Rapidamente, ela explodiu em pequenas flores, ao pé de cada qual, começa a se formar uma bolinha verde. As bolinhas! Tomada de alegria, venho acompanhando seu desenvolvimento. A planta renasceu, depois de um ano em latência.

O presente de aniversário de um ano atrás tornou-se um belo presente de final de ano. Compreendo plenamente quando meu namorado se recusa a me dar “flores mortas”: ramalhetes e arranjos formados por flores cortadas. Às pessoas que amamos, damos flores vivas, e não cadáveres, ele diz. E entendo que flores vivas são assim: portadoras de ciclos, como tudo quanto pulsa.


Como é conhecida: Flor de Natal, ou Estrela de Natal, entre outros nomes populares. Nome científico:  Haemanthus multiflorusmais informações sobre a flor de Natal







sábado, 21 de dezembro de 2013

Razões para evitar fazer compras no Empório Casarão...


Para aqueles que não conhecem Goiânia, ou não andam pelas bandas do Setor Aeroporto, o Empório Casarão oferece um cardápio apetitoso de itens culinários, desde verdes e frescas alfaces, passando por uma padaria com itens surpreendentes, temperos secos perfumados, vinhos e vinagres deliciosos, macarrões japoneses, a doces cortados em fatia capazes de encher a boca de água ao primeiro olhar, por exemplo. Como vem revestido por uma embalagem ao estilo boutique, cada tópico, em geral, aparece bem mais caro, chegando a alcançar o dobro do preço – ou até mais – em relação aos supermercados próximos, ou às feiras livres. No entanto, há alguns produtos que ali são vendidos quase com exclusividade, como é o caso da batata yakon – dificilmente encontro em outros lugares – ou do radiche roxo.

Há algum tempo deixei de frequentar regularmente o Empório Casarão. Já havia me queixado a respeito de muitas frutas estragadas em meio às sadias, e das batatas yakon em mau estado de conservação. Queixas que, embora tenham sido ouvidas pelo gerente, não tiveram encaminhamento de solução. Mas minha decisão de evitar o retorno teve por marco mais forte quando, tendo comprado um pão integral com nozes, em casa constatei se tratar de pão velho, ressecado, com odor ligeiramente azedo. Considerando todo o contexto, cheguei à conclusão de que, como consumidora, não preciso desperdiçar meu tempo, meu humor, e minhas economias naquele estabelecimento.

Depois de um bom tempo, hoje retornei. Senti falta das batatas yakon, e também de um galho de erva doce para a salada. Fui lá, verificar como estavam os produtos. Encontrei-os, em bom estado. Reencontrei, também, o empório, como de sempre. Havia me esquecido do outro item, obrigatório, que me empurra para longe: a falta de educação da elite, de parte significativa daqueles que têm condições de pagar pelos itens caros. Falta de educação que se potencializa às vésperas das festas de fim de ano.

Observo seus comportamentos, e enojo-me. Não posso ser injusta: não são todos. Mas a falta de educação prevalece. Esses, os mal educados, agem como se todos os demais tivessem obrigação de servi-los, porquanto paguem a conta. E embora arquem com os custos de item caros, não são generosos, ao contrário. Vão deixando carros abarrotados em lugares de trânsito. Empurram os demais, acreditando-se eleitos para passar à frente. Desde pontos de vista superiores, olham com má vontade os demais mortais, medindo-os a partir de supostos poderes aquisitivos diferenciados. Por sua vez, os funcionários, embora solícitos (porque sob o olhar da gerência), deixam transparecer a marca de um certo desprezo pela clientela. Demonstram uma ansiedade, parecem querer livrar-se logo daquilo tudo.

Resumindo: sobram delícias, sobram preços caros, faltam gentileza e generosidade. Por vezes, há batatas yakon em bom estado. E galhos verdes de erva doce. Nesses casos, posso levar os dois itens comigo, com o que preparo um suco refrescante, ou uma salada crocante. Estão servidos?



domingo, 15 de dezembro de 2013

Tramas na ocupação do MediaLab

Dentro da programação planejada para o último encontro presencial da turma de Licenciatura em Artes Visuais, modalidade EaD/PARFOR/FAV/UFG, programamos a ocupação do prédio ainda inacabado do MediaLab, com uma instalação formada por tramas e nós. No dia 13 de dezembro, durante todo o dia, mais de 50 pessoas nos dedicamos ao trabalho. As imagens dão conta, parcialmente, da intensidade, da densidade e da leveza do processo. 

A sala expositiva preparada para receber a instalação


Muitas mãos entrelaçam, amarram, estendem, esticam, tensionam, afrouxam, trançam, suspendem, tramam...






A Profª Lílian Amaral, parceira nas redes e tramas



O espaço foi sendo tomado... do lado de dentro...


... e do lado de fora!


Qual palavra define aquilo com que você chegou aqui? Qual palavra define aquilo que você levará daqui, na sua volta? Palavras... nomes... imagens...



Chico, mestre do brincar, parceiro cheio de sabedoria!





quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Paradoxos da sociedade do espetáculo


Tornar público o que é privado, espetacularizar o que é íntimo, revelar o que é secreto: essa, a obsessão da cultura contemporânea, midiática, tecnologizada. Também reside aí, nessa obsessão, um paradoxo insolúvel. São recorrentes os filmes, noticiários, ensaios fotográficos, pesquisas acadêmicas que anunciam trazer à visibilidade práticas secretas, rituais proibidos, eventos tradicionalmente restritos a poucos. A adjetivação secreto ou proibido parece provocar o desafio que leva à investida com vistas à exposição espetacular. Ao fazê-lo, corrompe-se o princípio organizador da prática, ritual ou evento, fazendo com que se torne apenas mais um espetáculo a ser consumido, e em seguida descartado, para dar lugar à próxima revelação...

Na contramão dessa tendência, mas igualmente revestidos de modismos, comparecem movimentos e aconselhamentos que anunciam a necessidade de se manterem discrições sobre certas práticas. Tais discursos lembram, por exemplo, a importância, para a vida psíquica e cultural das pessoas, o desenvolvimento de práticas que escapem aos tentáculos espalhados em todos os lugares de câmeras e outros mecanismos capazes de captar, reproduzir, multiplicar e disseminar imagens, dados, informações, narrativas sobre quaisquer fatos. Nesse caso, o paradoxo está no fato de os indivíduos que se dispõem a desenvolver tais práticas, mesmo certos da necessidade de que sejam discretas, secretas, privadas, não resistirem ao impulso de publicá-las, com o intuito de compartilhar a experiência, demonstrando aos demais serem capazes de realizar coisas fora do circuito da hiper exposição.

Paradoxais, estes tempos...
Teríamos vivido algum tempo que não fosse? 



Make public what is private, change in spectacle what is intimate, revealing what is secret: this is the obsession of contemporary, mediatic e hightec culture. Here is, also, in this obsession, an insoluble paradox. There are a lot of movies, news, photographic essays, academic research that advertise to bring to visibility covert practices, forbidden rituals, events traditionally restricted to few. The adjectives secret or forbidden seem to provoke the challenge that leads to the onslaught with the spectacular display views.

Against this trend, but also coated with fads, attend counseling and movements that advertise the need for maintaining descriptions about certain practices. Thinking on the psychic and cultural life of the people, such speeches emphasizes the importance of the development of practices that escape to tentacles spread everywhere and other cameras able to capture, reproduce, multiply and disseminate images, data, information, narratives about any facts. In this case, the paradox lies in the fact that individuals are willing to develop such practices, even certain of the need to be discreet, secret, private, did not resist the urge to post them in order to share the experience, demonstrating to others being able to accomplish things outside the circuit of hyper exhibition.

Paradoxical, this time ...
Would have we lived any time who wasn't?





domingo, 8 de dezembro de 2013

Mensagem de Natal (Ruth dos Santos Martins)


O Natal ... tudo de novo ... ano vai ... ano vem.
Por favor, deixem-me curtir as arvores de manga, de jaca, de abacate, de acerola, de pitanga ...

Ainda tenho vivos na memória os acontecimentos ocorridos em mês de dezembro de 2012, principalmente aqueles relativos às festividades do natal. O ambiente natalino nos é apresentado todos os anos desde o vislumbrar do mês de novembro e fortalecido por todo o mês de dezembro, só sumindo de todos os meios de comunicação e propaganda em meados de janeiro, quando sobram, aos montes e para todos, preocupações com as contas a pagar, impostos à vista, reajuste do combustível, alta da inflação, falta de políticas públicas (sérias) para segurança, saúde, educação, emprego e renda etc.

Assim o novo (não tão novo!) ano vai ficando velho, ... e novamente aproxima-se o período do natal, ... e tudo de novo. São os apelos comerciais, os enfeites natalinos, a montagem de árvores de natal, sempre com bolinhas vermelhas, papais noeis de vermelho, gordinhos, a procura por presentes, a renovação de promessas pessoais, os encontros, as confraternizações.

Nós, moradores do Distrito Federal, sabemos que todo o ano, infalivelmente enfrentamos um período de seca, onde o nosso verde praticamente desaparece, a poeira se faz presente com intensidade, o ar seco nos perturba e, por isso, esperamos, ansiosos e esperançosos, o inicio das chuvas.

Que alegria! Após a estiagem, lá pelo mês de outubro ou novembro, chegam as primeiras chuvas tornando-se presentes, por alguns meses, no nosso dia a dia. Esse período, aqui no DF e em algumas outras localidades, coincide com o natal e ano novo.

O verde das plantas se torna exuberante; os pássaros cantam, as flores pipocam por todos os cantos; os frutos dessa época aparecem escandalosamente deliciosos, mostrando todo o vigor e toda a beleza! A paisagem da cidade se transforma rapidamente; passa do marrom seco ao verdejante em questão de dias. É reconfortante sair e andar pelas ruas, pelos becos, pelos gramados e observar tudo o que a natureza nos oferece! Além do colorido das plantas e das flores ouvimos o cantar dos pássaros – são sabiás, joão de barro, almas de gato, pombinhas (as rolinhas), pássaros pretos e tantos outros, grandes e pequeninos.

Andando por ahi, sentindo o “espírito de natal” instalado principalmente no comércio; percebendo a angustia das pessoas, tão comum nessa época em todos os anos, o transito nervoso senti-me desolada, incomodada com a situação e pensei: “parece-me que foi ontem ... e já estamos vivendo tudo de novo”!

Questionei-me sobre o verdadeiro sentimento de religiosidade existente no consumo de tantos objetos por ocasião do natal e do ano novo; no acúmulo de tantas quinquilharias adquiridas e/ou recebidas em nome das festas natalinas; no oferecimento de panetones aos serviçais, lixeiro, moço da água e depois, no restante do ano, muitas vezes nem um bom dia ou boa tarde, como vai? ou outras gentilezas que tanto dignificam o verdadeiro ser humano.

Se prestarmos atenção à natureza, nessa época, veremos, sem exagero, que a mesma nos oferece toda a decoração natalina que tanto desejamos. Basta olhar, com carinho, as mangueiras, altas e soberanas, com seus galhos e folhas quase sempre dispostas simetricamente, enfeitadas de bolinhas de vários tamanhos, em tons variados de verde, todas pendentes, bem ao alcance de nossos olhos; assim também as jaqueiras, as pitangueiras, os abacateiros, ...

E as flores? Multicoloridas e tantos perfumes! Tudo isso adornado pelos passarinhos, que cumprindo a missão, voam por entre toda essa riqueza. Tudo tão enfeitado para nós! Sem apelo comercial, sem cansaço, sem trânsito infernal, trombadas em shoppings.

Essa decoração que nos é oferecida pela natureza ainda proporciona alimento a muita gente que colhe seus frutos, sombra para descanso dos transeuntes, abrigo aos passarinhos e ainda permanece ao longo do ano em que pese a estiagem, o sol escaldante.

Precisamos mesmo comprar enfeites, espalhá-los e montar árvores de natal dentro de nossas casas quando temos todos os enfeites do mundo lá fora e ... ao alcance de nossos olhos?

Pensemos nisso.

Meu querido e minha querida, você é o belo em nossa vida o ano inteiro! Você enfeita e alegra nosso caminho! Você é o presente do natal, do ano novo, de todos os dias que nosso Pai Maior nos deu; obrigada por você existir, por você nos olhar meigamente, ter um sorriso lindo que nos encanta, nos enche de esperança e reforça a crença no ser humano; você é a nossa saudade quando está longe de nós!

Para você, familiares e amigos um olhar de uma árvore verde, com bolas em todos os tons de verde e de todos os tamanhos e tipos, flores multicores e muitos pássaros completando a bela paisagem para este Natal. Um abraço forte e cheio de carinho.


Ruth dos Santos Martins



Mapa Mundi

sábado, 7 de dezembro de 2013

Sobre a provável virtude de um livro defeituoso


Comprei o livro Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas, de Jorge Larrosa, pela internet. Mal o recebi, comecei a devorá-lo. Mergulhei no primeiro capítulo, esquecida de tudo à volta. Terminada a página 32, deparei-me com uma segunda folha de rosto em lugar da página 33. Do outro lado, outra ficha técnica, outra ficha catalográfica. Novo sumário. O livro recomeçava naquele ponto. Demorei-me para compreender o que ocorria. Tive que fazer um esforço para emergir da leitura envolvente, e compreender as características físicas do livro que me causavam não só estranhamento, mas a obstrução no prosseguimento da leitura. Pensei que, se o livro recomeçava ali, teria em dobro todas as páginas até a de nº 32, e talvez a leitura pudesse ser retomada normalmente a partir dali, avançando pelas páginas 33, 34, e assim por diante. Poderia ser. Mas não era. Da segunda página 32, a numeração saltou para a página 65.

Providenciei, de pronto, a digitalização das duas páginas 32, e enviei as imagens anexadas a uma reclamação formal para a livraria, reivindicando outro exemplar sem defeito. Depois retomei a leitura do livro, da página 65 em diante. Fui lendo quase de um fôlego só. No último capítulo, sobre as imagens do estudar, no qual o autor trata dos livros, das palavras sábias, da Casa de Estudo, d’Os-que-sabem, e da necessidade de se abrirem vazios entre os livros e as palavras, assaltou-me uma dúvida: talvez eu devesse mesmo ficar com este exemplar defeituoso, fracassado, que, em sua incompletude escancarada, abre espaço onde eu possa me perder...





Duas histórias jassídicas sobre a transmissão e a renovação

In Pedagogia profana, de Jorge Larrosa

Mas, mesmo assim, o estudo não é possível. Como todo o tempo, com todo o silêncio, com toda a atenção concentrada, o estudo ainda não é possível. Com toda a melancolia, com todo o mau gênio, com toda a aspereza, o estudo ainda não é possível. No espaço sem marcas do labirinto e no tempo sem intervalos da madrugada, o estudo ainda não é possível. O estudante, para estudar, ainda necessita fazer um lugar para si, para habitá-lo e demorar-se nele. Ainda necessita encontrar um lugar para se perder.

Na Casa do Estudo, estão todos os livros. Alinhados, ordenados, classificados. Todos os livros e cada livro em seu lugar. E todos à mão, perfeitamente disponíveis. Na Casa do Estudo vive-se com a segurança de que os livros, convenientemente reproduzidos e transmitidos, cuidadosamente editados e anotados, estão aí, num tipo de plenitude sem sobras, que é, ao mesmo tempo, a plenitude sem falta da cultura, a prova palpável de sua imensa generosidade. Mas o estudante sente vertigem diante dessa totalidade tão plena. Houve um momento em que também se sentiu feliz diante da presença firme e segura de todos esses livros. Também sentiu aquilo que há de prestígio neles, de segurança, de promessa. Também se deixou seduzir por esse inventário bem ordenado dos produtos da cultura, por todas essas certezas alinhadas. Mas um dia sentiu-se afogado. E, pela primeira vez, sentiu que os livros, na sua generosidade, não deixavam lugar para ele. Como iria o estudante ter um lugar nesse espaço no qual tudo já está escrito?

Na Casa do Estudo, onde estão todos os livros, também se fala constantemente nos livros. Os-que-conhecem-os-livros falam e falam, sem cessar, dos livros. E na Casa do Estudo existe quase tantos sábios quanto estantes. Junto a um livro sempre existe alguém que-conhece-o-livro. Por isso, os livros sempre estão previamente lidos, esclarecidos, iluminados. Os livros não têm margens, ou as margens estão cheias de palavras sábias que saturam o texto. Não há espaços entre as linhas, ou os espaços já foram ocupados pelos comentários sábios. Não há vazios entre as palavras, entre as letras. E o estudante pergunta-se como fazer para converte os livros em desconhecidos, como devolver a eles seu mistério. Porque, caso contrário, onde o estudante iria encontrar um lugar?

Um dia, há muitos anos, Baal-Shen-Tov deteve-se à entrada de certa Casa de Estudo famosa e negou-se a transpô-la. “Não, eu não posso entrar aqui”, disse ele. “Tudo está cheio, aqui dentro. De parede a parede e do chão ao teto, tudo está cheio das palavras sábias e das orações piedosas que aqui se pronunciaram. Onde eu poderia encontrar um lugar para mim?” E vendo que aqueles que o acompanhavam o olhavam sem compreendê-lo, disse: “De todas as palavras ditas pela beira dos lábios daqueles que rezaram e que ensinaram, nem uma só subiu ao céu. Nem uma só palavra foi levada daqui por um alento do coração. Por isso, tudo que foi dito permaneceu na Casa do Estudo. E a Casa do Estudo terminou por estar cheia, de parede a parede, do chão ao teto” (BUBER, M. Les recits hassidiques. Paris: Editios du Rocher, 1980)

Na Casa do Estudo só falam Os-que-sabem, e por isso suas palavras são sábias. Muitas palavras sábias foram pronunciadas na Casa do Estudo. Demasiadas palavras. Demasiadas palavras sábias que se negam a desaparecer. Demasiadas palavras que pesam, que se mantêm presas ao solo, que ocupam todos os rincões, que preenchem todos os vazios, que cobrem todas as superfícies. Na Casa do Estudo, onde falam Os-que-sabem, onde as palavras pesam, onde as palavras não querem desaparecer, não há lugar para o estudante. Onde poderia o estudante encontrar um lugar se tudo já está dito, se já se saber tudo, se tudo já está convenientemente coberto por palavras sábias?

Na Casa do Estudo, as respostas estão órfãs das perguntas que poderiam lhes dar um sentido e fazê-las dançar. Só as perguntas poderiam fazer retroceder a arrogância das respostas. Mas as respostas cobrem todas as perguntas e não são, elas mesmas, perguntas. Só uma resposta que fosse, ela mesma, pergunta, retrocederia o suficiente como que para abrir um espaço para o estudante.

Na Casa do Estudo, as palavras não deixam qualquer silêncio. As palavras enchem todo o silêncio e não são, elas mesmas, silêncio. As palavras estão órfãs desse silêncio em que o estudante poderia encontrar seu lugar.

O peso das palvras é sua insignificância. E as palavras d’Os-que-sabem são insignificantes porque foram pronunciadas da beira dos lábios. Por isso, só podem ser recolhidas pela beira das orelhas. Nenhum alento do coração envolve as palavras e as impulsiona para fora. As palavras, insignificantes, não têm alma. Como receber palavras sem alma? As palavras desanimadas não podem ser recolhidas porque ninguém pode se recolher nelas. Como poderia alguém se recolher nelas se elas não mantiveram o silêncio, se não mantiveram as perguntas, se elas não deixam nenhum vazio?

Mas o contrário da insignificância não é a plenitude da significação. As palavras que enchem a Casa do Estudo são insignificantes, precisamente, pelo peso arrogante da plenitude de sua significação. Por isso, a leveza das palavras não é o significado, mas o fracasso de seu significado. E é aí no fracasso onde o estudo pode demorar-se. O estudo só pode surgir quando as respostas não saturam as perguntas, senão quando são, elas mesmas, perguntas; quando as palavras não preenchem o silêncio, senão quando são, elas mesmas, silêncio.

As palavras, para que abram um espaço, têm de ser pronunciadas com um alento do coração. Só assim poderão subir ao céu. Como a fumaça. Só com o fogo, impulsionado pelo fogo, o sacrifício sobre ao céu. Aquilo que, se queimando, se converte em fumaça, sobe ao céu. E, em seu desaparecimento, em seu sacrifício, em seu fracasso, as palavras queimadas que soberm ao céu deixam um espaço em que o estudante pode inscrever seu próprio estudo.

O estudante só pode encontrar um lugar no desaparecimento das palavras sábias: no mesmo instante em que essas palavras, fracassadas em sua pretensão significativa, incendidadas por um alento do coração, convertem-se em fumaça e, mais leves do que o ar, voam para o alto. Por isso, se as palavras não têm esse alento que as faz fracassar e arder, o estudante deve produzi-lo. O estudante deve queimar as palavras sábias para que, como a fumaça, desapareçam da Casa do Estudo e deixem nela um vazio no qual ele se perca.

Muitos anos depois, o rabino Nahman de Braslav, bisneto de Baal-Chem-Tov, ia partir em viagem. Tinha trinta e sete anos e sabia que ia morrer. Ordenou ao seu secretário que terminasse de copiar o livro que acabara de escrever. Alguns meses depois, mandou-o queimar o livro escrito pela própria mão e também a cópia. O livro converteu-se em “o livro queimado”. E assim, queimado, convertido em fumaça, passou à tradição jassídica. R. Natham, seu secretário, conta que um dia os discípulos entraram na sua casa e o encontraram com uma folha de papel na mão. Na folha, sua escrita. Ele voltou-s epara eles e lhes disse: “muitos são os ensinamentos desta página e muitos são os mundos que se alimentam de sua fumaça”. E aproximou a folha à vela. Entre as anotações do tabino morto, foram encontradas várias que falavam da necessidade de queimar os livros. Havia uma que dizia: “Às vezes, conhece um ensinamento [...], mas deve guarda-lo em segredo e não o revela. Às vezes, inclusive, não o escreve. Às vezes, o escreve e queima-o imediatamente. Na verdade, se esse ensinamento tivesse sido escroto, seria um livro e esse livro teria seu lugar no mundo [...]. mas é um bem para o mundo que esses ensinamentos e esses livros sejam escondidos e queimados”. (OUAKNIN, M. A. Le livre brûlé. Paris: Lieu Commun, 1990).

A palavra do sábio, uma vez introduzida no mundo, deve ser subtraída do mundo, deve ser retirada do mundo pelo fogo. O sábio pode escrevê-la, mas não dizê-la. Mas isso seria manter um segredo fácil e presunçoso, de modo que o poder do sábio ficaria ainda mais fortalecido. O sábio pode não dizê-la e tampouco escrevê-la. Mas assim, não faz aparecer o espaço vazio: o nada ainda não é o vazio. O sábio pode, por fim, escrevê-la e queimá-la, escrevê-la para queimá-la. Somente essa alternativa faz aparecer a falta, o espaço, o buraco. Só a fumaça faz aparecer um vazio significativo. Só a fumaça fala da ausência do livro. Entre o livro e o não livro, a fumaça é a retirada do livro, e o vazio que deixa nessa retirada. E se o sábio não queima seu livro, será o estudante quem deverá queimá-lo. Só assim se abrirão margens nas páginas, espaços entre as linhas, espaços em branco entre as palavras e as letras. Somente num livro queimado o estudante pode estudar.


Elogio do fogo
Uma inquietude rodeia o estudante. Quando conseguiu vencer a passividade da sua melancolia, o estudante parece muito agitado. Sua mesa vai se enchendo de livros abertos. O estudante levanta-se e volta a se sentar, movimenta compulsivamente as pernas, passa de um livro a outro, escreve e torna a ler, às vezes fala em voz alta, atropela palavras sem sentido. Sua respiração se faz mais intensa, seu ritmo cardíaco acelera-se, seus perfis tornam-se agudos e se fazem quase transparentes, de tão afilados; quase se diria que, agora, a lâmpada produz mais luz. A que se deve essa agitação súbita, essa atividade frenética? O estudante está queimando as palavras sábias d’os-que-sabem e está prendendo fogo nos livros. A Casa do Estudo está se incendiando. As palavras queimadas já sobem ao céu, entre os livros já começam a se abrir margens, brancos, espaços vazios. Ainda não amanhece, mas uma cor dourada torna mais cinza o cinza do horizonte. Entre os atalhos do labirinto escutam-se risos. No meio do fogo, rodeado de fumaça, o estudante começou a estudar.




segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

um ventinho


Quando cheguei em casa, senti um vento soprando com alguma pressão por baixo da porta. Fui assaltada pela dúvida: teria esquecido alguma janela aberta? Girei a chave na fechadura. A porta resistiu um pouco para abrir, empurrada pela força contrária do vento, que saiu por toda a extensão da abertura. Entrei. Tudo estava calmo. Nenhuma janela aberta, nenhuma brisa dentro da casa, nenhum movimento nas folhas das plantas...


Era apenas um ventinho que ficara preso em casa, quando eu saí... Estava louco para ganhar o mundo.