segunda-feira, 21 de novembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Noite de premiação



p/ Martins Muniz, meu querido amigo, que ontem recebeu a Medalha de Mérito Cultural, concedida pelo Governo do Estado de Goiás.

Ele era um dos homenageados. Quando chegou, com a mulher, o filho e uma netinha, avistou a multidão apinhada em torno das mesas, numa sala apertada, abafada e calorenta. Hesitou. Não era afeito a esses acontecimentos, tampouco aos rituais sociais. O primeiro impulso a lhe ocorrer foi de ir-se embora. Mas ficou ali, parado, a meio caminho, tenso. As mãos frias, o coração disparado. O público não parava de chegar. Mulheres com seus melhores vestidos, cuidadosamente maquiadas, homens trajando ternos e blazers elegantes. Voltou ao jardim, onde se podia respirar ar fresco. A netinha, vestida de boneca, brincou com a bolsa da esposa dele, acompanhada pelos olhos cuidadosos do filho, que também o observava. Quando se iniciaram os discursos, encheu-se de coragem, e voltou ao saguão, observar a multidão. Comentou comigo que antes não sentia essa fobia. Perguntou onde os homenageados deveriam se posicionar. Ao fundo do salão, onde fora instalado o púlpito. Ponderou que não conseguiria chegar lá. Pensou em designar a alguém a tarefa de receber a medalha e o diploma em seu lugar. Ofereci-me para ir à frente, abrindo caminho, assim ele poderia chegar ao ponto, minimizadas as dificuldades para o seu deslocamento. Assim fizemos. Respirou fundo, encheu-se de coragem, e seguiu-me, com o passo miúdo e frágil, as articulações enrijecendo pela atrofia progressiva e os efeitos do mal de parkinson avançando. Ao meio do salão, tomou novo ânimo, e encaminhou-se, determinado, até uma cadeira desocupada, onde estavam alguns conhecidos que o acolheram. Sentou-se, e ficou ali, aguardando o momento de ser chamado. Recebeu a medalha e o diploma das mãos do governador, sob os olhares de muitas lentes, e os aplausos dos presentes. Em seguida, retomou o caminho para fora do salão. Mostrou o prêmio para a família e os amigos mais próximos. Aguardou algum tempo nos jardins, e foi-se embora. No salão, o som alto, o calor e a festa prosseguiram, sem que lhe dessem pela falta.

No caminho de casa, pensava nas providências a serem tomadas para fazer o próximo filme. O tumulto, o calor e as gentes que ocupam o set de gravações parecem-lhe bem menos ameaçadores... ao contrário...


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Memórias da guerra, pequenas corrupções, feridas abertas: fraturas sociais



Onde eu nasci, as dores da guerra ainda fazem tremer a carne, embora as pessoas insistam em não lembrar, fingindo que o motor do progresso seja capaz de apagar tensões, fechar feridas abertas.

Depois da sangrenta Guerra Grande, o governo brasileiro adotou políticas para a ocupação da fronteira avançada sobre uma faixa de terra onde antes era território paraguaio.

Famílias de colonos migraram da região sul, distante, com a promessa de ganhar a posse da terra ocupada e cultivada. Comboios viajavam por meses a fio, anos até, com cavalos, carros de boi, abrindo estrada entre a mata fechada, que se fechava de novo depois de terem passado. E se fechava, também, sobre as covas dos que morriam a caminho, e eram enterrados pelos seus, deixados após.

Havia bugres na região, era como se dizia. A convivência entre eles e os novos colonos nem sempre era tranquila. Prevalecia o preconceito tanto em relação à população paraguaia, quanto aos índios guarani, a etnia dos bugres, então. Com o tempo, foi chegando mais gente, ocupando mais terras, enterrando seus mortos nas coxilhas. Os índios, espalhados, foram recuando. Muitos recolheram-se em direção ao Paraguai. Outros reuniram-se em algumas regiões específicas, que muito mais tarde vieram a formar reservas indígenas: poucas e pequenas. Muitas famílias, contudo, estabeleceram relações com os chegantes, assumindo postos de empregados, agregados criados, semi-escravos... desgarraram-se de seus grupos.

Nos anos 70, uma nova grande migração vinda do sul estabeleceu novas fronteiras naquela região, a fronteira agrícola da lavoura intensiva, principalmente dedicada ao plantio de soja. A paisagem mudou radicalmente: as matas e os campos foram derrubados, marcos memoriais se perderam, tratores e outras máquinas as mais estranhas ocuparam o lugar dos velhos carros de boi.

Poucos trechos de mata foram preservados nesse processo. Estes poucos, por sua vez, tornaram-se alvos do desejo dos grandes fazendeiros, por suas terras mais férteis que as dos campos, portanto mais produtivas. Mais recentemente tornaram-se alvos, também, de estratégias desastrosas adotadas por funcionários públicos de gabinete e ONGs ocupados em implementar pseudo-políticas de assentamento de grupos indígenas, cujos benefícios acabam sendo endereçados, de fato, a personagens escusas, devidamente preservadas de quaisquer publicidades.

A assistente social chegou com o missionário. Contaram ao cacique que poderiam levar o grupo para um lugar onde já havia uma aldeia montada. Reuniram as famílias num ônibus, e as conduziram até certo ponto da estrada, onde foram orientados a descer. Cruzaram a cerca de arame fechada, pisotearam a plantação verdejante, caminharam até o fundo do terreno, chegando à mata. Instalaram-se às margens do córrego.

A assistente social e o missionário foram-se.

Não havia aldeia. Eles ficaram ali, acampados. Passados alguns dias, os fazendeiros em volta começaram a se mobilizar, para retomar a área. A assistente social voltou, acompanhada da polícia federal, e uma planilha na mão. Fez ameaças, anotações, escreveu um relatório dando conta do sucesso do assentamento de 80 famílias. Essa informação, encaminhada à sede dos órgãos federais renderia verbas extras ao seu departamento – verba que jamais chegaria àquelas famílias... A funcionária cobrou, “por fora”, a visita aos fazendeiros, com o argumento de que estivera ali para pacificar as relações, acalmar os ânimos. Recebeu em dinheiro. Foram-se, novamente.

As famílias indígenas começaram a passar fome. As chuvas elamearam o chão e sujaram a água do córrego. As mutucas proliferaram-se. A permanência ali começou a se tornar inviável.

Os fazendeiros entraram em contato com um líder indígena de outra aldeia próxima, que se dispôs a negociar o acolhimento, por sua comunidade, das famílias. Cobraria por isso. O grupo invasor aceitou a proposta. Precisavam encontrar uma saída minimamente digna para a situação constrangedora em que se viram. Não poderiam retornar à antiga aldeia, sob pena de serem rejeitados por lá. Desterrados, viram nessa nova aldeia notícias alvissareiras acenando possibilidade de nova instalação. Apenas uma família insistiu na permanência ali, até que comparecesse o missionário que os acompanhara até ali, no primeiro momento. Queriam cobrar-lhe o cumprimento do prometido. Buscado, descobriu-se que ele estava em viagem de férias. Longas férias de três meses...

Século XXI adentro, agricultores e comunidades indígenas não são, de fato, inimigos. São lançados, contudo, uns contra os outros, em conflitos regidos e agenciados por outrem, em função de interesses alheios, devidamente dissimulados por discursos que pregam justiça social.

A esses, interessa, sim, que as feridas abertas não se fechem, jamais.

Instituições na berlinda: FUNAI, CIMI, IBAMA.



domingo, 13 de novembro de 2011

... passar a limpo...


primeiro a sensibilidade,
depois o rascunho...
para então passar a limpo
versos encharcados de poesia...


Minha mãe revisa suas produções escritas, preparando o próximo livro...



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

filhotes de quero-quero

No gramado em frente à casa, alguns casais de quero-queros fiziam ninhos onde chocavam os ovos, gestando suas crias.

Nesse mesmo gramado, meu pai reunia o gado periodicamente, para que comessem sal mineral enriquecido, depositado em cochos de madeira preparados para isso, e dispostos espaçadamente em toda a área.

Muitas vezes, o gado pisoteava os ninhos, esmagando os ovos, ou mesmo os filhotes recém-nascidos. Os quero-queros adultos lutavam contra os animais desproporcionalmente maiores que eles. Depois nos atacavam, aos moradores da casa, quando cruzávamos o gramado.

Tanto tempo depois, num recanto da metrópole, acompanho uma família de quero-queros cuja luta cotidiana não é menos desafiadora. Encontrei uma fêmea em choco, num ponto próximoi à toca de outra família de aves, no caso, corujas buraqueiras. Depois de tê-la observado por alguns dias, fui surpreendida pelo movimento tímido de quatro filhotes (os que consegui avistar) sob os cuidados da mãe e o olhar severo do pai, pronto a atacar qualquer visitante indesejado, inclusive outros quero-queros não pertencentes àquele núcleo familiar.

Pouco tempo depois, os reencontrei com a ninhada reduzida a um único filhote. Assisti aos adultos nervosos com as movimentações em torno, e no ataque declarado a outras aves a pequena e mesmo grande distância, enquanto a cria se esconde entre a grama alta, à espera dos piados maternos que acalmam e chamam de volta para o gramado mais raso, passados os perigos.

O que terá ocorrido aos demais filhotes? Que predadores terão vencido o cerco de cuidados do casal de quero-queros?

Nutro a esperança de que o filhote sobrevivente atravesse o período crítico, e se imponha aos riscos. E vou acompanhando seu desenvolvimento, observando-o cada vez mais esperto tanto para catar bichinhos com que se alimentar, como para se esconder rapidamente entre as folhagens. Escapando-me à visão. E à dos inimigos outros...


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Sinal vermelho





Olá, como vai? Eu vou indo, e você, tudo bem? Tudo bem, eu vou indo correndo, pegar meu lugar no futuro, e você? Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranquilo, quem sabe... Quanto tempo... Pois é... Quanto tempo... Me perdoe a pressa... É a alma dos nossos negócios... Oh, não tem de que! Eu também só ando a cem... Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí! Pra semana, prometo, talvez nos vejamos... Quem sabe? Quanto tempo... Pois é... Quanto tempo... Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas... Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança... Por favor, telefone... Eu preciso beber alguma coisa, rapidamente... Pra semana... O sinal... Eu espero você... Vai abrir... Por favor, não esqueça... Adeus...
(Sinal fechado, Paulinho da Viola)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

trierinho...





caminhos de ir...
... e vir...




Cotidianos de uma Infância: Experiências Fotográficas


No dia 5 de novembro, Júlia Mariano realizou a exposição de fotografias realizadas por crianças da comunidade do assentamento Palmares, em Varjão/GO. Esse trabalho faz parte da primeira etapa do seu projeto de pesquisa intitulado "Cotidianos de uma infância: Experiências Fotográficas". Foi uma bela celebração.

 
    Fotógrafos prontos para a festa

Marcelo, seu Lázaro, e pequenos ajudantes montam a exposição

 Mariana Capeletti e Júlia Mariano montam a exposição, sob olhares curiosos

Olha esta, quem fez? 

 Enquanto se monta a exposição, se prepara o lanche delicioso, os homens conversam na manhã calorenta

 Visitantes, familiares e fotógrafos deliciam-se com as fotografias, uma a uma...



Por falar em delícia, a mãe da Júlia organiza a mesa do lanche... hummmm...

 Os pais observam as fotos dos filhos

 Pri-Pri! A menina elétrica do sorriso bonito!

 A exposição sendo montada sob os olhares curiosos e entusiasmados...

 Calma, Julinha, tudo deu certo, foi lindo, viu?

E tem mais: tudo foi devidamente gravado...

 ... e fotografado... por gente prá lá de competente!

Lucas song e seu séquito de fãs... 

  
... fãs gravam toda a cantoria, para depois ouvir, em casa...

Os Três Mosqueteiros divertem-se comentando as fotos

 O pai da Júlia, depois de ajudar a montar a exposição, observa as fotos, com calma...

Na escada da casa da árvore, as crianças gravaram as entrevistas



Teve discurso e entrega de certificado


    

  
  
Foi, sim, uma delícia de festa!
Obrigada, Júlia!



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Em boa companhia



Comprei a passagem de volta. Poltrona 1. Pretendia dormir durante a viagem. Mas quando embarquei, encontrei-a já bem acomodada ali. Quase uma gatinha mansa aninhada no canto. Sorriu e perguntou se eu me importaria de trocar de lugar com ela. Queria muito ir na janela, para tentar dormir um pouco, solicitou-me, com certo dengo na voz. Disse-lhe que também precisava dormir, mas que não havia problema, ela ficasse ali, eu me sentaria no corredor. Prontificou-se a ajudar na minha instalação: sugeriu que eu colocasse minha valise sob seus pés, para liberar os meus, disse-lhe que não era necessário; e recomendou que eu não esquecesse de colocar o sinto de segurança. Fiz umas duas ligações ao telefone, em seguida ela emplacou uma conversa bem divertida. Contou de sua luta para criar os filhos, de seu trabalho, da vida que levava agora. Falou mal do marido, de quem era viúva há 33 anos. Disse que o casamento fora difícil, mas ela persistira, cumprindo sua missão: levara a cruz até o calvário. E depois ficara mais leve para viver a vida. Era feliz, aos seus 90 anos. Até há pouco tempo caminhava um kilômetro por dia em torno de um parque próximo de seu apartamento. Mais recentemente, por medo do trânsito, tem preferido caminhar em volta do próprio quarteirão. Gabou-se de sua saúde, e explicou que há mais viúvas do que viúvos no mundo: "Sabe por que? Deus fez o organismo feminino mais forte e mais consistente do que o do homem, para poder gerar outra vida. Homem é mais fraco, qualquer ataque do coração, cai morto". A certa altura, lembrou-se que eu manifestara o desejo de dormir durante a viagem, e decidiu que já passava da hora de eu tirar meu cochilo: "Durma, minha filha, agora durma um pouco". Ri-me. Consegui dormir, até sonhei. Quando despertei, ela olhava a paisagem molhada de chuva por um vão da cortina - que ela manteve fechada para não fazer claridade e perturbar meu sono. Os olhos miúdos, as mãos grandes, descarnadas, a pele marcada pela idade. Na entrada da cidade, repetiu-me o roteiro que orientaria o motorista de taxi para chegar em casa. "É para eles não quererem me enganar, minha filha". Ajudei-a no desembarque, levei-a até o táxi. Despediu-se alegremente. Pela janela, acenou: "Depois nos falamos pelo telefone!"

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Exercícios de alteridade – azul



Levava uma vida relativamente tranquila, sem maiores sobressaltos. Às tantas, entediou-se. Desejou experimentar outras emoções. Na ribalta, deixou-se banhar pelas luzes derramadas das varas de spots e canhões de luz.

Um calor invadiu-lhe as partículas quando as luzes vermelhas arroxearam-no, e riu-se de cócegas quando os amarelos animaram-no em tons de verde. Quando diminuiu a intensidade das luzes, tornou-se soturno, profundo. Mas retomou a vivacidade quando as luzes derramaram-se em jorros cada vez mais intensos. Teve, mesmo, a impressão de que poderia se diluir no branco.

Já não estava tão certo a respeito de sua tonalidade original. Afinal, o azul que julgava ser não era, de fato, absoluto. Sofria os efeitos, também, das relações que estabelecia com o meio, oscilando de acordo com as luzes e as sombras sobre ele projetadas no decurso dos dias e das noites.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011