sábado, 10 de janeiro de 2015

Ética, ciência, filosofia: entre o filme Interestelar e os Pensadores da nova esquerda



Fui assistir ao filme Interestelar. Entre as temáticas abordadas no enredo, estão questões éticas da pesquisa tecnocientífica. Além dos dilemas marcados entre decisões que envolvem escolhas entre os vínculos afetivos mais próximos e o destino da humanidade, estão as situações em que, cada qual movido por razões singulares, cientistas mentem, ou forjam dados, para assegurar a realização de seus projetos. É particularmente sobre este ponto que pretendo me deter.

Curiosamente, no mesmo dia, chegou-me às mãos uma resenha crítica do livro intitulado Pensadores da nova esquerda (cuja aquisição já providenciei), escrito por Roger Scruton nos anos 80 do século XX, mas só traduzido para o português em 2014. Nele, o filósofo inglês faz uma análise crítica da obra de um conjunto de quatorze intelectuais importantes no cenário do século XX, que aprofundaram as discussões marxistas, conhecidos como Nova Esquerda. Alguns deles ainda mantêm vigor em suas ideias, influenciando a produção de conhecimento século XXI adentro. Dentre esses, estão Foucault, Gramsci, Althusser, Habermas, Lukács, Galbraith. Nessa lista, também está Jean-Paul Sartre, protagonista de um episódio que me motiva a esta reflexão.

Scruton é duro em suas análises, advertindo para o fato de que a maior parte da produção reflexiva nessa direção é prenhe de bandeiras ideológicas, pouco restando de conhecimento crítico reflexivo propriamente dito. Vai mais longe, apontando situações nas quais os intelectuais e pensadores não hesitaram em forjar dados, ou mentir sobre o que teriam testemunhado, para confirmar suas convicções e defender seus projetos. Particularmente, os projetos vinculados às revoluções de esquerda.

Esse teria sido o caso de Jean-Paul Sarte que, mesmo tendo testemunhado atrocidades imperdoáveis na União Soviética, quando lá esteve em 1954, mentiu sobre elas, omitindo esse testemunho, em favor do projeto marxista de sociedade, de uma utopia não realizada. Ou seja, a construção de uma sociedade socialista, que se pretendia mais justa, valia o preço de uma montanha de cadáveres. E também justificava a falsificação dos fatos. Sartre teria admitido esse episódio já perto de sua morte, sem, contudo, trazê-lo à mesma visibilidade com que o fez em relação à defesa messiânica do projeto de esquerda, ancorado na experiência soviética.

No filme Interestelar, Dr. Mann é um cientista enviado em viagem através de um buraco de minhoca, para explorar um planeta que, aparentemente, poderia oferecer condições de abrigar a espécie humana, quando parecia inevitável a falência da vida no planeta Terra. O cientista teria registrado dados que confirmavam essa possibilidade no planeta onde fazia as investigações. Isso justificou a decisão de se fazer uma nova viagem até o planeta, para resgatar o Dr. Mann, e fazer o reconhecimento do local. Assim, seria possível verificar o que seria necessário para colonizar o local. No entanto, os dados tinham sido forjados pelo cientista, num gesto de desespero ante a constatação de que, sendo inóspito o local, ele estaria condenado a morrer ali, sozinho. Mentir foi a única saída que ele encontrou para ser resgatado, não importando se esse resgate custaria a descoberta de alguma saída para a sobrevivência da espécie humana. Ou seja, poderia custar a morte da humanidade.

No filme, a série de atitudes tomadas pelo cientista, em favor da própria sobrevivência e em detrimento do coletivo, ou da humanidade, foi castigada com sua morte. Não poderia ser diferente, considerando-se a moral que prevalece às narrativas hollywoodianas, sobretudo, as superproduções que evocam o imaginário de nação, a nação que encarna o próprio sentido de humanidade.

O cientista, na ficção científica, foi condenado à pena de morte, porque mentiu para ser resgatado e continuar vivo. O filósofo existencialista do século XX mentiu em defesa de um projeto de sociedade ainda em construção, que já tinha devorado e ceifado vidas sem fim, num campo de atrocidades nem sempre admitidas. O filósofo não sofreu nenhuma penalidade. Ao contrário, permanece sendo evocado por bandeiras que defendem uma sociedade mais livre e justa.

Parece, mesmo, que nossas noções de ética na pesquisa e na ciência precisam ganhar maturidade. Pois, até aqui, amiúde, o que entendemos por ética se aproxima muito mais a argumentos justificatórios para a realização dos desejos mais infantis e egoístas.


INTERESTELAR. Interstellar. Direção: Christopher Nolan. Duração: 169 min. EUA, 2014.
SCRUTON, Roger. Pensadores da nova esquerda. São Paulo: Editora É Realizações, 2014.



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