sábado, 24 de abril de 2021

O sapo


Quem venha das bandas do poente caminha pouco mais que meia légua depois da ponte, e já se depara com a entrada para a casa da minha tia, numa curva da estrada. Ali, ela vive com o marido, as plantas e os animais domésticos. E outros que se agregam às instalações residenciais, sem necessariamente terem sido convidados, por assim dizer.

Tem já algum tempo, ela começou a se deparar com o aumento da população de sapos. Quando menos espera, tropeça num. Uns mirrados, outros bem grandes... Sapo é bicho que não se pode matar. Toda vez que encontra um, com todo o cuidado, ela coloca o animal num saco, e o deixa no outro lado do rio. 

Andava cansada de tanto atravessar o rio para levá-los à outra margem. Coisa trabalhosa. Também começou a ter dúvidas a respeito da quantidade efetiva de sapos, especialmente os maiores. Por isso, resolveu tomar uma providência. Munida com um vidro de esmalte vermelho, pegou um dos sapos, dos grandes, e pintou-lhe as unhas. O bicho, imobilizado dentro do saco, não teve como escapar. Ela ainda esperou, pacientemente, até ter certeza de que a tinta estava seca, antes de deixá-lo, como de rotina, do outro lado do rio. Voltou para casa, entre expectativas.

Não demorou nem uma semana, e ela já pôde fazer a verificação de que precisava: lá estava o sapo, nas cercanias da casa, senhor de si e das unhas pintadas com seu esmalte vermelho. Havia outros. Mas aquele, especificamente, passou a ser referência para ela. 

É de se supor, também, que ela tenha sido adotada pelo sapo, e não o contrário. Talvez fosse ele quem andasse às voltas, tentando entender as motivações dela para leva-lo, tão insistentemente, para o outro lado do rio...




domingo, 21 de fevereiro de 2021

Sobre um encontro com Lisístrata

 

Lisístrata, a greve do sexo é uma comédia grega escrita pelo grego ateniense Aristófanes, que teria vivido por volta dos anos 445 e 385 antes da era cristã. Ela conta a história do levante de mulheres de Atenas, com a parceria das espartanas, lideradas por Lisístrata, contra a guerra interminável entre soldados atenienses e espartanos. A guerra ceifa a vida dos homens e dos filhos dessas mulheres, além de esvaziar os cofres públicos. Elas, então, decidem deflagrar uma greve de sexo, que só é interrompida quando seus maridos assinam o acordo de paz. O acordo, personificado pela própria figura da Paz corporificada, é a condição para que se inicie uma orgia. Fecha-se o pano. Fim de espetáculo.

Em meados dos anos 1980, uma amiga integrou o elenco que estava trabalhando na montagem do espetáculo. Ela faria exatamente a personagem Paz. Eu comecei a ajuda-la na na composição da personagem. Para tanto passei a comparecer aos ensaios. Ela desistiu de participar, e eu acabei assumindo o papel. Tinha me afeiçoado. Ao longo das demais cenas, eu participava do côro feminino. A certa altura, deixava o côro, indo preparar a personagem final, com maquiagem intensa, apliques que alongavam os cabelos até à altura das pernas, um véu muito transparente e o corpo nu.

O elenco era numeroso. No decurso dos trabalhos, delineou-se uma divergência entre o grupo dos homens, autorreferidos como mais profissionais, exigentes no tocante aos rigores da produção, e o grupo das mulheres, por eles apontadas como amadoras, pouco profissionais. As tensões decorrentes dessa situação intensificaram-se desde circunstâncias pontuais até uma predisposição quase permanente para a discussão.

Se o elenco feminino, em geral, era considerado amador, especialmente eu era destinatária de piadas recorrentes. A personagem Paz não tinha fala, e a mulher do côro se manifestava poucas vezes, no coletivo, sem destaque. Amiúde, eu ouvia por parte de alguns dos atores a pergunta: “Vocês já ouviram a fala dela? Gente, prestem atenção, senão não ouvimos sua voz!”

A atriz que interpretava Lampito, a espartana que participava na assembleia de mulheres atenienses, na primeira cena, começou a cobrar do diretor uma tomada de posição em relação às provocações recorrentes do elenco masculino. O diretor tentava contornar a situação, sem confrontos.

Havia, sim, uma cisão claramente marcada entre homens e mulheres na montagem daquele espetáculo que tratava exatamente de uma greve deflagrada por mulheres ante o comportamento competitivo e belicoso dos homens... curiosa situação...

A pré-estreia do espetáculo estava agendada para um sábado, numa cidade satélite. Funcionaria como um ensaio geral com público. Na quinta-feira da semana seguinte ocorreria a estreia para temporada de várias semanas no teatro onde tudo já estava devidamente montado: cenário, iluminação, sonorização, etc. Na quinta feira de véspera, a atriz que interpretava Lampito, depois do ensaio e de alguns confrontos com o elenco masculino, anunciou sua saída do espetáculo. Não se sujeitaria mais àquela situação. Antes de se retirar, desafiou o diretor: “Quero ver você estrear essa peça”.

Lisístrata andava com a popularidade em alta, por aqueles tempos. Numa faculdade de artes cênicas, um professor acabara de montar a cena da assembleia, fazendo alguns experimentos de atuação, cenário e figurino. Alguém sugeriu convidar a atriz que interpretava Lampito dessa outra montagem, e assim se fez: a pré-estreia, na cidade satélite, contou com a atriz que fazia parte do outro projeto. Embora tudo tenha transcorrido bem, ela comunicou que não poderia permanecer no espetáculo, por uma questão ética. Sua atuação fora dirigida pelo outro diretor, e estava articulada a uma concepção de cena diversa daquela da qual fazíamos parte. Desse modo, voltávamos à estaca zero. E na segunda feira nos reunimos no teatro, para buscar alguma solução.

Entre as poucas saídas disponíveis, considerou-se a possibilidade de que eu assumisse a personagem em questão. Essa solução, contudo, apresentava um problema. A ideia inicial era preservar a imagem final da Paz. Assim, para assumir Lampito, foi necessário construir um perfil com traços muito distintos e próprios também. Enquanto a Paz era sensual, sinuosa, cabelos longos e esvoaçantes, cercada de tecidos leves em tons de branco e azul claro, Lampito era uma guerreira, portando capa e armadura, botas, cabelos presos, roupas de couro em tons de marrom escuro e preto, gestos duros e decididos, voz grave e firme, com espaços para algumas doses de humor. Assim, os homens do elenco passaram a ter oportunidades multiplicadas para ouvir a minha voz, desde a primeira cena...

Os ensaios aconteceram em apenas dois dias, terça e quarta feiras, com estreia já na quinta-feira, entre sustos, mas sem comprometer o espetáculo.

O elenco masculino recuou da postura mais agressiva, tendo passado a ter mais cuidado em relação à linguagem. Ainda e assim, seu perfil se manteve marcadamente arrogante, com necessidade de se impor, em relações de poder assimétricas.

A temporada naquele teatro seguiu-se a uma série de temporadas curtas em outras cidades satélites, com uma diversidade de situações que, de diferentes formas, replicaram para os contextos da produção e das relações com os públicos as questões tratadas pelo texto teatral. Sua atualidade chama a atenção.

Do mesmo modo, merece destaque o elenco personificando a tensão desenhada pelo espetáculo, explicitando o quanto essas são questões que pulsam, movendo nossa sociedade marcadamente patriarcal, machista e belicosa. Mesmo quando se trata do campo da arte, cujos agentes reivindicam para si comportamentos capazes de criticar o status quo...

 

 

 

sábado, 30 de janeiro de 2021

Sobre a volta ou não às aulas presenciais em todos os níveis de ensino, em plena pandemia

 

O Corona Vírus avança, a passos largos e com sucesso crescente, em seu projeto de contaminar a humanidade. Para tanto, tem, em seu favor, o comportamento humano em coletivo, quando se constata uma diminuição de sua capacidade racional, e as tomadas de decisão por impulso, quase sempre motivadas por lideranças oportunistas. Penso nas cidades, no mercado capitalista neoliberal. Uma espécie de anomia se faz cada vez mais presente nas várias instâncias da organização social e suas instituições.

O homem é o lobo do homem. Para Thomas Hobbes, o ser humano é, por natureza, egoísta e mau. Cabe à sociedade estabelecer o que foi chamado de “contrato social”, ou seja, as condições para que sobrevivamos em comunidade, apesar dos monstros que nos habitam. Hobbes defendia a figura do Estado como instância indispensável para assegurar a superação da condição de anomia. Esse é um ponto a ser colocado em questão, conquanto a figura do Estado tenha se tornado, no mais das vezes, opressora, mais servil às grandes fortunas e seus proprietários do que às populações que constituem sua malha social. Mas esse tema constitui, aqui, um desvio do assunto nuclear, já difícil e complexo o bastante: pandemia, educação, encenações, arenas de combates...

A situação da pandemia aprofundou aspectos perversos da sociedade brasileira, de modo a tornar impossível dissimulá-los. Dentre eles, estão as desigualdades sociais, em que se entrecruzam questões de gênero, raça, econômica, violência, e outros vetores.

Na primeira etapa da pandemia, estabeleceu-se, por pouco tempo, um pacto social mais ou menos forte, de suspensão de atividades, de distanciamento social, para que se mantivesse sob algum controle os processos de disseminação do vírus. Esse pacto perdeu força numa curva de desaceleração mais ou menos rápida. Na segunda etapa, em curso, os cenários de contaminação e morte que se desenham são muito mais devastadores. A morte grassa, em festa. Mas boa parte da população sente-se autorizada às festas, aos encontros em bares, às viagens, aos seus cultos. São instituições sociais, sim, em seu sentido mais lato, que não respondem pelos ritos de formação, do âmbito da educação formal. As escolas, a propósito, estão fechadas, desde o início da pandemia. E este é o ponto que, agora, começa a gerar tensão e conflitos. É preciso considerar muitos vetores, pois não se trata de uma questão maniqueísta. Não é possível tomar qualquer posição mais radical, sem tem em conta a complexidade da situação.

A palavra educação está sempre na ordem do dia dos discursos de candidatos em campanha para cargos públicos, seja do poder Executivo, seja do Legislativo. Contudo, na gestão efetiva dos recursos públicos, a Educação está sempre vendo as suas parcelas definharem. Também sem entrar em detalhamentos a respeito das questões relativas às políticas públicas para a Educação, é preciso notar que, dentre as quantas repercussões de médio e longo prazo desse fato, está a desvalorização profunda e radical da carreira de magistério. Particularmente na Educação Básica, a categoria formada em sua maioria por professoras, a profissão perdeu, desde há muito, fontes de motivação, razão de inspiração, lastro de respeito.

Falta, sim, respeito por parte de toda a sociedade à carreira de magistério, seja no âmbito das redes públicas de ensino, seja nas instituições da iniciativa privada: respeito à figura de professores e professoras. E sobre isso quase não se fala.

Eu, que fui professora na Educação Básica, rede pública de ensino, durante mais de uma década, passando a atuar no ensino superior posteriormente, na formação de professores, convivo diuturnamente com o dilema: como preparar e motivar futuros professores para atuarem num cenário que eu sei ser adverso, inóspito, cruel muitas vezes? Só se eu fosse cínica eu poderia falar de projetos pedagógicos transformadores sem considerar que há uma infinidade de fatores a interferir nas políticas públicas de educação que massacram professores e professoras atuando no chão da escola!

Só quem não conhece o quotidiano de uma escola pode passar ao largo desse fato.

Neste cenário de pandemia, como seria possível retornar a atuar presencialmente nessa instituição que não hesita em desrespeitar a figura de professores e professoras, sem sentir um medo muito maior do que qualquer outra categoria profissional sentiria?

Por outro lado, vejo as filhas e os filhos de mães pobres, pretas, de periferia, perdendo o já frágil vínculo com a vida escolar, tratando de inventar modos de sobreviver. Acompanho de perto muitos jovens nessa situação. E entendo que a responsabilidade não está na figura dos professores que, em última instância, são também a parte frágil dessa malha. Professores e populações pobres fazem parte do mesmo cenário de desamparo social. Quantas são professoras pretas, pobres, que vivem nas periferias?...

Então eu sonho com um país onde, nas escolas, todas públicas, professores com boa formação, salários que lhes assegurem qualidade de vida, e com condições de trabalho asseguradas, possam tomar parte de frentes de atuação junto a estudantes e suas comunidades, inclusive durante a pandemia. A condição para se assegurar um Estado efetivamente democrático, nas palavras de Anísio Teixeira. Mas esse sonho está longe, miríades de anos-luz, daquilo que vivemos nas nossas escolas. Em nosso país. Infelizmente.

Colocar professores e, sobretudo, professoras como vilãs neste momento, na questão da retomada presencial das aulas nas escolas da educação básica, é apenas aprofundar o quadro de desmotivação para a carreira do magistério. Isso explica, por exemplo, os altos índices de evasão nos cursos de licenciatura, nos anos mais recentes.

No que me toca, como professora formadora de professores e professoras, me vejo na obrigação ética de elucidar essas questões aos e às estudantes em interlocução comigo.

Devo, ainda, notar que, neste texto, escolhi não me referir ao que tem sido a atuação de professores e professoras nas instituições de ensino superior, públicas e privadas... e de como a pandemia vem repercutindo para essa categoria profissional...

A única certeza que tenho: atribuir a vilania a professores e professoras faz parte das estratégias nefastas da necropolítica em curso. Nada mais que isso. Não sejamos ingênuas ao cair nessa falsa polêmica. Os inimigos são outros. Sigamos.

 


 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

III Guerra Mundial


De saída, devo informar que não me sinto confortável com a expressão “guerra mundial”, se pensamos em abrangência planetária, envolvendo embates entre a espécie humana (ainda que tais embates repercutam mortalmente entre outras espécies de vida). Não cabe a uma guerra entre humanos a alcunha de mundial... 

Mas, vamos lá: não é de hoje que os medos sobressaltam pessoas nos cinco continentes, com a possibilidade de que se inicie a III Guerra Mundial, quando os traumas e as sequelas causadas pelas I e II Guerras ainda não foram totalmente sanadas. Como seria a III edição da guerra? Qual seria o seu disparo? Quais as armas?

Suspeito que, presa a imaginação a modelos anteriores de guerra, não se tenha percebido que há estamos imersos na III Guerra Mundial em pleno curso.

Mulheres são mortas em crimes horrendos de feminicídio em escala crescente, a despeito de legislações, mobilizações, pedidos de socorro.

Populações negras são assassinadas nas periferias das cidades, em atos crescentes de desprezo às suas existências.

Comunidades indígenas vêm sendo eliminadas, apagadas, no continente americano desde a chegada dos europeus.

Populações e etnias de quantos países não têm direito de voltar a suas casas, em confrontos bélicos, mas também religiosos, que se estendem à violência contra mulheres, contra orientações sexuais não dominantes, racismos e processos de escravização de toda ordem. A morte é só uma das etapas de sua desterritorialização radical, de sua dor, do castigo que que é impingido pelo crime que cometem por viverem.

E o Corona Vírus 19 comparece dando celeridade a uma guerra já em curso, manifestada em múltiplas faces e feições.

As duas primeiras guerras configuraram-se entre estados-nação. Ao final do século XX, falou-se tanto sobre o enfraquecimento dos estados-nação ante os processos de radicalização da economia global, e ante o poder do capital multinacional. Por que haveríamos de esperar, então, uma guerra entre estados-nação, e não uma guerra que, embora pautada e supostamente performada por estados-nação, seja regida, de fato, pelo capital, que não reconhece outras fronteiras geopolíticas que não as de seus próprios ativos?

O capital avança sobre as mulheres, os pretos, os pobres, os índios, as florestas, o deserto, o gelo, os elefantes, os tigres, as onças pintadas, as águas, os peixes, os outros, os diferentes, os não sabidos, os estranhos... seu rastro é de morte. Devem morrer, mas é preciso que não morram todos, para assegurar a manutenção de mão de obra, de populações para serem escravizadas, de mulheres para a reprodução e para serem estupradas, violadas...

Sim, estamos em plena vigência de uma guerra que envolve os estados-nação regida pelo capital. Os cadáveres se acumulam por todas as partes. A dor me atravessa o peito e já quase não consigo respirar. Os mortos não são apenas vítimas da COVID-19. Ao contrário. A pandemia é apenas mais um vetor.


 

PS.: A propósito, é preciso admitir: o Corona Vírus é uma substância viva altamente inteligente. Rapidamente tem se adaptado ao comportamento da espécie humana, reconhecendo nossa insanidade e beligerância, e jogando com elas. Talvez, hoje, o Corona Vírus conheça mais do nosso comportamento do que nós mesmos.

 




sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Dar presentes como experiência poética


 

Para Jossier, Julia, Marcelo, Alice, Maitê, Renato, Lorena, Martin, Etel, Leda, Maria, Meyre, Néia, Bruno, Ita, Vandimar, Nara, Rafael, Mariana, Alzira, Carla, Adriane, Juan, Bráulio, César, Jota, Ruth, Luciano, Laís, Rosângela, Mara, Paulo, Paul, Lara, José, Muniz, Juliana, Diná, Hugo, Neila, Seu Osorinho, Iana, Carol, Cátia, Lutiere, Zaldo, Emile, Alda, Luciana, Vanessa, Rita, Bárbara, Matheus, Diego, Seu Zagati, Diana, Rúben, Fernando, Gonzalo, Adriana, Norberto, Vagna, Márcio, Iria, Yunna, Helô, Anaí, Talita, Aline...

 

Já no ônibus, de Querétaro para a Cidade do México, em 2015, conversei um pouco com meu marido, por videochamada. Uma senhorinha idosa, sentada ao meu lado, também conversava ao telefone com um filho que aguardava sua chegada à capital mexicana. Ouvi quando ela lhe contou estar sentada ao lado de uma estrangeira. E explicou não saber a origem, pois não entendia nada do que “a estrangeira estava falando”. Diverti-me com sua observação. Algum tempo depois, fiz-lhe alguma pergunta em espanhol, para seu espanto. Então iniciamos uma conversa animada que se estendeu por toda a viagem. No desembarque, ela decidiu que o filho me levaria até o hotel onde eu tinha reserva. Relutei, sinceramente. Mas ela foi irredutível. Então embarcamos no carro: ela e o filho à frente, eu e a namorada do filho no banco de trás. Passamos, primeiro, na casa do filho, quando fui informada que no restante do percurso eu seria conduzida pela namorada do filho. Maria era seu nome. Uma artista visual. Ela foi gentil, graciosa. Levou-me ao seu bairro, mostrou-me onde vivia. Depois foi até o hotel, dando-me orientações sobre cuidados que eu deveria ter na região, acessos a diversos pontos da cidade, etc. Já no hotel, ela comentou sobre minhas botas, dizendo que gostara delas. Eram umas botas de cano baixo, muito confortáveis, com as quais fiz boa parte das minhas viagens durante muito tempo, até que elas se desfizeram. Perguntei-lhe o número que calçava, trocamos endereços eletrônicos, e nos despedimos.

Já no Brasil, voltei à loja onde comprara as minhas botas, e encontrei um par no número que Maria calçava. Fiquei feliz. Ela me informou seu endereço residencial e, algum tempo depois, recebeu o pacote com o presente. Não se demorou para que eu recebesse uma foto sua, calçada com o par de botas. Trocamos notícias muito eventualmente. Por ocasião dos terremotos, soube que havia se separado do filho da senhorinha minha companheira de viagem. E mais: mãe e filho teriam voltado definitivamente para Querétaro, de modo que estariam a salvo dos tremores.

Presentes são assim: mais que o objeto, ou a ação em si, o valor de um presente está em todas as circunstâncias que o envolvem. Importa o momento quando emerge o desejo de presentear. Depois, a decisão sobre com o que e como presentear. Trata-se, afinal, de um projeto ao qual presenteadores se dedicam, empenhando tempo, afetos, habilidades, expectativas. A execução propriamente dita está no ato de fazer com que a pessoa presenteada receba o mimo. Esse momento pode ser considerado o ápice, mas não é a finalização, conquanto as reverberações se façam sentir nos desdobramentos.

Afinal, presentear é se fazer presente, firmar presença no aqui agora em relação à pessoa presenteada, à pessoa diante de quem alguém se faz presente. E isso se refere não ao estabelecimento de vínculos, mas ao modo como se tratam os vínculos estabelecidos, reafirmando-os, atribuindo-lhes qualidade. Em Ensaio sobre a dádiva (1974), Mauss argumenta que, em muitas sociedades consideradas arcaicas, os vínculos comunitários são alimentados pelas dinâmicas que envolvem dar, receber, e retribuir, a que o antropólogo atribuiu o sentido da dádiva. E a dádiva produz alianças. Tomados num sentido mais amplo, os processos de dar, receber e retribuir podem ser observados em todas as instâncias do viver social, e envolvem desde favores, objetos, trabalhos, contratos, compadrios, conhecimento, até presentes. E, mais uma vez, os presentes envolvem objetos, mas também ações, disponibilidades, presenças de diversas naturezas.

Presenças. Há pessoas cuja presença é presente em nossas vidas...

É necessário frisar, contudo, nos princípios da dádiva e das alianças, a ênfase dada, além da premissa de dar, também a disponibilidade para receber, bem como a responsabilidade em retribuir, uma vez recebida a dádiva. Ou seja, quem recebe deve retribuir. Não necessariamente para quem lhe propiciou a dádiva, podendo ser, a retribuição oferecida a outrem.

Não cometamos ingenuidades: há relações de poder organizadas em torno a tais dinâmicas. As próprias relações comerciais podem ser pensadas nesses termos. No entanto, antes disso, prefiro pensar o ato de presentear em sua dimensão poética. Há uma trama de poiesis e aesthesis no ato de conceber um presente, executá-lo, dá-lo, recebê-lo, vivenciá-lo. Um gesto, uma sonoridade, uma palavra, uma lembrança, uma imagem, uma embalagem...

Uma abóbora madura cuidadosamente depositada no batente da porta para me surpreender no momento quando eu chegasse à casa. Um bolo de jatobá acompanhado das cascas das frutas de onde foi tirada a farinha. Um bolo de maçãs feito numa forma com desenho de mandala. Uma mandala feita com furos de agulha em papel canson. Um bolo de abacaxi. Um bolo de jabuticaba. Uma máscara. Um retrato encravado na madeira, para uma xilogravura. Um chá perfumado. Uma música. Um almoço. Uma traquinagem. Uma gargalhada no meio da tarde. A solução para um problema. Um silêncio acolhedor. Uma oitiva. Uma fotografia. Orquídea florida. Azaleia cor-de-rosa. Um livro. Pães. Folhas de ora-pro-nóbis. Torrões de chá. Um LP do Tom Waits. Um espetáculo. Um pedaço de madeira. Um olhar que sorri. Uma caveirinha que ri escandalosamente. Um bordado...

Presentes se comunicam por meio da visão, do gesto, do perfume, do sabor, da textura, da memória, das luzes, dos afetos, das temporalidades... da respiração...

Depois de uma semana tensa, um final de semana angustiado, eu estava ansiosa, o peito apertado. Atrapalhei-me à saída, rumo à casa de minha irmã e minha mãe. Acabei me esquecendo de muitos itens importantes da bagagem: smartphone, carregadores de baterias, encomendas, livros que deveriam ser lidos. Esqueci-me de passar na portaria do edifício para me despedir dos funcionários, e receber um presente que me aguardava...

Três dias se passaram até que os itens esquecidos chegassem ás minhas mãos. Dentre eles, um bordado diante do qual fui tomada de espanto. Espanto é condição de aesthesis. Espanto é o que nos toma quando nos deparamos com o não sabido, com o imprevisível, com aquilo que está fora do esperado. Com o que toca os nossos sentidos, modificando os modos como nos percebemos no mundo. A experiência estética, que decorre do espanto, é condição de abertura ao não sabido, e à produção de conhecimento. Do saber, palavra que partilha sua raiz com a palavra sabor.

Escolho não ter pressa diante do espanto, diante da experiência estética que me move. Sobretudo quando esse espanto resulta de uma dádiva, um presente. Não posso atropelar os meus sentidos, tentando prematuramente decifrar ou fixar a experiência.

O bordado, feito à mão, com linha muito fina, agulha tão fina quanto, delineou no tecido o meu retrato. Para degustá-lo, eu deveria demorar, pelo menos, o mesmo tempo que ele demorou para ser feito.

Retrocedo no tempo e me recordo da manhã (ou teria sido uma tarde?) quando fiquei a brincar diante da câmera montada pela Cátia, tendo como pano de fundo a brise amarela que cobre as janelas da faculdade. Rimos, fiz caretas, imaginei intenções. Uma das fotos, um misto de deboche com dúvida e riso, foi adotada como assinatura para várias comunicações. No bastidor que se encontrava em minhas mãos, ela ganhou as marcas do bordado. Minha imagem bordada vem guardada por folhas e flores de espada de São Jorge, entre outras vegetações. Quase sinto-lhes o perfume.

Recebo o presente, que é uma dádiva. Recebo e o integro ao que sou. Sem dizer muito obrigada, me comprometo a retribuir. Talvez não o faça na forma de bordado. Mas nalguma forma outra de experiência estética, de aesthesis atrelada à poiesis. Nalguma forma de estar presente, e alimentar vínculos, e inventar sentidos ao viver-estar-no-mundo, em comunidade.

 

 

 

 

MAUSS, M. Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. In : MAUSS, M. Sociologia e Antropologia. v. II. São Paulo: Edusp. 1974.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

E então novamente é Verão. E então é Natal mais uma vez.


Na quinta feira, dei aula a manhã toda. Era a segunda aula do semestre com a turma ingressante no curso de licenciatura em artes visuais. Uma turma grande, plural, cuja interlocução me estimulava. Tínhamos um percurso a cumprir juntos, na disciplina Fundamentos da Arte na Educação.

Mas já havia uma expectativa no ar, relativa à pandemia, em curso. Ninguém tinha uma ideia do que aconteceria a seguir. Ainda não se tem. Acho que nunca se terá.

Na parte da tarde, ainda na universidade, encontrei alguns orientandos e orientandas. Conversei com uma professora que participava de um projeto comigo. Dei vários encaminhamentos que ganharam feições de preparação para o extraordinário, ainda que não fosse essa a intenção.

Maria me procurou. Tínhamos agendado uma reunião de orientação para a segunda feira seguinte. Desmarcamos, pois a universidade já tinha acenado para a suspensão das atividades a partir da semana próxima. Aguardaríamos os desdobramentos, para agendar novo encontro.

No final da tarde, saí à porta da faculdade. Avistei a cidade, ao longe, sob o sol morno daqueles que ainda eram dias de verão. Na mata, ao lado, a bicharada fazia algazarra. Despedi-me das pessoas que também cumpriam suas jornadas por ali. Alguns cachorros espreguiçavam nas calçadas. O carro saiu aos solavancos no trecho de terra que liga o edifício à rua de acesso.

Levava a expectativa a respeito do que se abateria sobre nós. Não era possível supor. Desde então, não retornei à faculdade. Alguns dias depois daquela quinta feira, teve início o Outono. Falava-se, então, que a suspensão das aulas iria até o final do primeiro semestre. Parecia muito. Mas o tempo correu mais rapidamente do que se supunha. E levou, consigo, um número cada vez mais crescente de vítimas da COVID-19. Os prazos foram se alargando progressivamente. Algumas atividades acadêmicas foram sendo retomadas, buscando-se alternativas em suas formas e dinâmicas. Outras atividades não tiveram interrupção.

E veio o inverno. A universidade acabou retomando as atividades quase que plenamente, no segundo semestre. Com as atividades remotas, o calor insuportável, a baixa umidade, as aulas da graduação foram retomadas. A turma com que eu estivera naquela quinta feira quando ainda era verão retomou as aulas, agora com outras dinâmicas. Muitas pessoas desistiram de estudar neste momento. Foram muitas as perdas. Mas também se conquistou a possibilidade de cumprir a jornada até o final, apesar das dores, com quem tenha conseguido reunir forças, energia e determinação suficientes para não desistir.

Aulas, reuniões, bancas, orientação, encontros, eventos, seminários, cursos, oficinas, eleições, tudo, tudo, tudo migrou para os ambientes digitais. Rapidamente, os écrans tomaram conta do quotidiano, numa infinidade de links, sobreposições de agendas, regras de conduta, interlocuções de toda natureza.

A Primavera nos encontrou exaustos. E continuamos exaustos até que chegamos novamente ao Verão. No segundo dia da nova estação, tomou posse a diretoria da Faculdade de Artes Visuais, para cumprir nova gestão de quatro anos. O diretor, reconduzido para o cargo, se investe de sensibilidade e coragem para essa travessia com desafios extras cujas dimensões ainda não podemos mensurar. O vice-diretor, jovem, com carreira iniciante, se lança à empreitada, evocando o espírito de colaboração, com garra e coragem.

Daqui a dois dias, será véspera de Natal. Uma semana depois se iniciará a contagem dos dias de um novo calendário, referente ao ano 2021 da era cristã. Ainda estamos em pandemia. Nossas atividades acadêmicas e escolares presenciais ainda estão em suspenso. Mas o funcionamento da universidade prossegue, a pleno vapor. Intenso.

Noutro dia, soube que aumentou o número de família das corujas buraqueiras no Campus II. Queria saber também sobre as outras famílias, dos quero-queros, dos pica-paus, das curicacas... e dos pés de jacarandá mimoso, de ipê, de flamboyant... E como andariam os macacos-prego? Os cães continuam guardando o prédio da faculdade. Ainda bem!

Nesses tempos, fortaleceram-se alguns vínculos com pessoas de outros países. Vamos nos descobrindo, aprendendo a compartilhar inquietações e sonhos. Não, não estamos sós, embora também estejamos. Penso nas e nos estudantes que iniciaram o curso duas semanas antes da suspensão das atividades presenciais. Teria ficado feliz se quem desistiu tivesse condições de permanecer, ou de voltar. Penso nos meus orientandos, nas minhas orientandas; nas professoras e nos professores parceiros; nas parcerias de pesquisa, naquelas pessoas que não abandonaram as trincheiras.

Rapidamente, nos aproximamos, no Brasil, da marca dos 200.000 mortos pela COVID-19.

Além do corolário de mortes, o Verão trouxe as chuvas, e manteve o calor. Traçamos planos para o futuro, mas já não para futuros distantes. Mesmo dos futuros próximos já não conseguimos ter mínimas certezas. Tememos. O que planejar para o próximo Outono? Que estejamos vivos, talvez. Que possamos nos reencontrar depois do próximo Inverno, quem sabe? Melhor ater os projetos na possibilidade de celebrar este dia, agora, esta luz diáfana, o frescor deste vento, as sonoridades que se dissipam no espaço... os afetos que aquecem o coração.

E então novamente é Verão! E então é Natal mais uma vez!

 

 

domingo, 18 de outubro de 2020

Da dádiva e da gentileza


Nestes tempos tão obtusos (e me pergunto o que eu teria, de fato, contra os ângulos obtusos? O que seria, afinal, dos ângulos agudos não existissem os obtusos?...), o desalento muitas vezes nos toma de assalto, e permanece, sem querer nos deixar. Das questões macro às relações interpessoais quotidianas, não faltam sustos, inquietações e preocupações a desestabilizar quaisquer projetos de calma.

Mas também é nesses tempos tão obtusos que pequenos gestos ganham uma dimensão particular, assegurando a ancoragem de sentidos possíveis aos nossos dias. Foi assim quando a vizinha deixou uma abóbora no batente da porta de casa, e ligou avisando. Ou quando a outra vizinha deixou dependurada uma sacolinha com doces jabuticabas e, na semana seguinte, uma sacola com pequi. E o pão caseiro deixado por um casal de amigos queridos, que já haviam deixado, anteriormente, um bolo. E o outro bolo com sabor e cheiro de laranja trazido por um amigo e uma amiga, com um livro de poemas, e eu ainda não sei qual é mais doce: o bolo, o livro, o afeto, ou tudo junto... E o que falar da caixinha com torrõezinhos de chá de erva-cidreira? E da camiseta com o anjo da história? E do bolo de jatobá, feito a seis mãos, quatro das quais tão pequeninas e sábias? E o bolo de maçã, assado numa forma que mais parece uma mandala? E a azaleia cor de rosa florida, parceira da orquídea lilás? E as mudinhas de onze horas vicejando na chaleira que virou vaso de plantas sobre a mesa? E a pombinha que, na varanda, cuida já de sua segunda ninhada de filhotes? 

Pois ontem foi dia de mais um gesto de dádiva e gentileza: recebi, de presente, um CD com o encarte e uma máscara que integram um projeto belíssimo realizado pelo Frederico Carvalho. Com direito também a um sorriso fraterno, num fim de tarde com alguma chuva, e algum frescor.

Por vezes, tendo a me alinhar aos discursos que argumentam ter sido, este, um ano perdido. Mas quando me aninho com esses gestos de afeto tão especiais, porque são necessários tanto quanto água e ar, entendo que não tenho o direito de ser injusta. Nas travessias mais duras encontram-se também as manifestações mais potentes daquilo que nos dá ânimo para não desistir.

Se, a cada gesto de dádiva de que somos destinatários, nos cabe acolher e retribuir (na velha equação que diz: dar, receber, retribuir), neste ano tenho visto ampliar-se o rol das minhas responsabilidades de partilha, para corresponder à possibilidade de manifestações de afeto que dizem: estamos aqui, somos melhores se estivermos juntos, se formos capazes de multiplicar gestos de gentileza.

Obrigada Mary Elza, Ivones, Renato, Lorena, Juan, Bruno, Naras, Rafael, Mariana, Denilson, Julia, Marcelo, Alices, Maitê, Alzira, Iana, Leda, Bráulio, Fred, Cátia, Jossier, Carol, Carla, Bárbara, Aline, Matheus, Gabrielas, Adriane, Henrique, Zaldo, Emile, César, Anai, Nilo, Jota, Ruth, Marias, Néia, Yunna, António, Márcias, Maurício, Muniz, Vagna, Adalto, Iria, Helô, Josés, Anas, Adrianas, Esau, Sofía, Fernandos, Gonzalo, Diana, Rubén, Norberto, Wanderley, Mara, Tony, Reginaldo, Cleuzinha, Vi, Lara, Hélio, Antonella, Katia, Vanessas, Lauras, Gabriéis, Taísa, Luti, Paulo, Ro, Juliana, Márcio, Lu, Talita, Renata, Neila, Aristein, Dheniffer, Ayme, Valéria, Lilian, Noeli...