sábado, 11 de março de 2017

Polêmicas sobre Leandro Karnal à parte...


Clóvis de Barros Filho, Mario Sergio Cortella e Leandro Karnal são referidos como os três intelectuais brasileiros que aprenderam a operar as mídias sociais, ganhando visibilidade, chamando a atenção para seus discursos, e fazendo a cabeça de muitos jovens, ao tratar de temas diretamente ligados às angústias da vida contemporânea. E, é claro, faturando dividendos com isso, seja na venda de seus livros ao estilo bem mercadológico, seja no retorno financeiro resultante das visualizações de seus vídeos na plataforma Youtube. 

Destes, Leandro Karnal, com formação na área de História, é um professor universitário que atende a todas as exigências protocolares de quem orienta estudantes em cursos de graduação e pós-graduação stricto sensu. Por exemplo: tem seu currículo disciplinadamente atualizado na Plataforma Lattes, do CNPq, conforme exigem os sistemas de avaliação da CAPES/MEC. Atualização tão disciplinada quanto os ternos que usa, a camisa impecavelmente passada, e colocada para dentro da calça, como muito bem observou meu amigo Márcio Paixão Júnior, numa advertência com muita procedência: Nunca confie em ninguém com fala empostada e camisa pra dentro da calça.

A propósito, há um caroço no angu dessa conduta pretendidamente impecável, ou ilibada: a despeito de o caro professor ser DE (contrato que prevê dedicação exclusiva) na UNICAMP, a maior parte do seu tempo é dedicada a atividades com remuneração extra, tais como palestras, cursos de especialização, entre outras... Por exemplo, a PUC do Rio Grande do Sul está iniciando um curso de especialização em Finanças, Investimentos e Banking, de cujo corpo docente ele faz parte, ao lado de uma constelação de celebridades do momento. 

Bom, façamos vistas grossas a esse... digamos... deslize do rapaz. À frente. Nos vídeos que posta regularmente em seu canal no Youtube, articula discursos que se pretendem críticos, talvez em certa medida subversivos, no mínimo capazes de provocar alguma desestabilização em sua audiência. Contudo, são discursos disciplinados, bem comportados, com performance bem ensaiada.

De toda sorte, eventualmente, algumas das questões propostas são desenvolvidas de modo interessante. Afora o fato de que ninguém é tema de consenso todo o tempo, e que coerência entre discurso e prática é matéria prima cada vez mais escassa, por vezes ouvia seus discursos até o final, para tentar compreender seu modus operandi.

Foi assim que, há algum tempo, postei, na minha página da plataforma Facebook, o link de um vídeo seu, no qual defendia a ideia de que "Ser louco é a única possibilidade de ser sadio nesse mundo doente”. Bom, a essas alturas, um outro professor, também historiador, reagiu ao vídeo, argumentando que o Karnal fazia tal afirmação de modo irresponsável, sem ter em conta o drama das famílias que precisam lidar com a loucura patológica. Eu concordo com essa ponderação. O problema é que o tal professor o fez vociferando, xingando, enfiando palavrões numa postagem que eu fizera na minha timeline (minha timeline, não: timeline na qual o Mark Elliot Zuckerberg me autoriza a postar coisas em meu nome... sendo que ele continua sendo o dono...).

Bom, se o Mark Elliot Zuckerberg é o dono de todas as timelines do Facebook, e autoriza que eu poste e administre postagens em uma página com meu nome, e se alguém se arvora a bradar palavrões em razão de uma postagem feita por mim, depois de algum tempo observando o que ocorria, decidi tomar posição, e firmar pé. Pedi, diplomaticamente, que ele prestasse atenção à sua linguagem ao fazer comentários na postagem que eu fizera, que reservasse um mínimo de educação, ao menos ali. Ele reagiu de modo ainda mais agressivo, como se eu estivesse defendendo o vídeo do Karnal. Como se eu fosse responsável pelo discurso do Karnal. Ao final, sugeriu que, caso eu não quisesse que ele se manifestasse nas minhas postagens, que eu o bloqueasse.

Sugestão dada, sugestão aceita: bloqueei o rapaz, e nunca mais postei nada do Karnal, nem gastei meu tempo para ouvi-lo.

Agora me perguntem: senti falta de um dos dois rapazes? Eu lhes respondo: nenhuma! Ao contrário. Definitivamente, os discursos do Karnal não fazem falta para o aprofundamento das questões que me movem. Na verdade sequer considero a possibilidade de buscar neles alguma referencialidade. Até porque eles não propiciam quaisquer aprofundamentos, de fato: são rasos, tratam questões relevantes de modo aligeirado, até irresponsável muitas vezes (nisso, o historiador que eu bloqueei estava certo), e visam o mercado. O outro historiador? Se eu sinto falta dele? Bem, quem era mesmo ele? Nem me lembro seu nome...

A propósito, em relação à polêmica causada pela postagem de uma foto em que o Karnal está jantando com o juiz Moro, em Curitiba, cioso da magnífica companhia e dos projetos possíveis a se anunciar, reitero o que já escrevi anteriormente: boa parte dos pensadores legitimados pela história oficial das ideias da tradição ocidental de matriz europeia, à parte serem homens razoavelmente inteligentes, considerando-se os privilégios previamente garantidos pelo status quo, à parte dominarem a arte da oratória e do espetáculo, e concordando com o fato de eventualmente até terem ideias instigantes, não abriam mão de estar à sombra do poder, e manter suas cumbucas muito bem servidas, desde sempre! Sem julgamentos, nem sentenças radicais, sem dramas existenciais, Karnal apenas não é exceção a essa regra. Ponto.

Quem gosta de ver seus vídeos, que continue vendo; quem gosta de ler seus livros, que continue lendo. Mas é preciso sermos um pouco menos inocentes... ou crédulos...

Fica a dica.

PS.: em relação a Clóvis de Barros Filho e Mario Sergio Cortella, não tenho nada a dizer, porque não sei o que andam dizendo por aí. Tenho vontade de repetir o versinho que costumava declamar, quando criança, caso quisesse ressaltar a desimportância de algum assunto: não sei, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe... Está bem, não tenho raiva de quem sabe, mas não estou exatamente interessada em saber...





quarta-feira, 1 de março de 2017

Entre o 5º DÓ e o produtivismo nas universidades


Corriam os primeiros anos da década de 1990, quando eu comecei a fazer aulas de canto com o Prof. Luiz. Ele fora professor na Universidade de Brasília. Mas, por incompatibilidade com uma série de elementos da cultura universitária, exonerou-se e montou sua própria escola, numa pequena e aconchegante sala instalada num centro comercial. Ali, recebia seus alunos, muitos dos quais também alunos de música na UnB.

Já não me recordo como eu cheguei até ele. Eu já fizera aulas de canto em outros lugares. O encontro com ele foi particularmente feliz, e me propiciou aprendizagens que vão muito além do domínio vocal para o canto, coisa que aliás ando precisando voltar a praticar.

No meu primeiro dia de aula, ele me perguntou, com a simplicidade que lhe era peculiar: por que você quer cantar? Eu lhe expliquei, prontamente, que fazia teatro, e muitas vezes cantava em cena, além disso, eu cantava no Coro Sinfônico Comunitário da UnB, com mais outras 200 ou 300 vozes, e falei de afinidades e gostos, etc. Percebi que ele não perguntara questões funcionais ou práticas; notei que minha resposta resvalava para longe daquilo que ele queria saber. Entendi que eu mesma não tinha a resposta. Fiz de conta que estava satisfeita com o que lhe falara, mesmo sem estar. Ele também prosseguiu com a aula. Mas a pergunta se colou à minha pele, e nunca mais despregou. Por que eu queria cantar?

Algum tempo depois, no intervalo entre a minha aula e a próxima, uma moça contava, animada, que no dia anterior, fazendo exercício de vocalize, na universidade, alcançara o 5º DÓ. Esse é o DÓ mais agudo no teclado do piano, e encontra-se na 5º oitava desde o primeiro DÓ mais grave. Alcançar tal nota com a voz exige rigor no treinamento, domínio técnico, e extensão vocal.

Confesso, ela conseguiu seu intento de me impressionar com o feito. Mas o Luiz permaneceu sereno, ouvindo o relato da aluna. Ao final, ele perguntou Sim, você alcançou o 5º DÓ, e fez o quê com ele? A pergunta interrompeu o entusiasmo dela, e o meu estado de admiração. Como assim? Ele explicou Ora, se você alcança uma nota difícil só por alcançar, não acontece nada. Para chegar a uma nota, é preciso fazer isso com alguma finalidade expressiva. O que você fez com o 5º DÓ? A moça não fizera mais do que exercitar-se.

Ele aproveitou para prosseguir: você não precisa ter uma grande extensão vocal. Isso não necessariamente ajuda você. Mas precisa conhecer bem a extensão vocal que você tem, e saber usá-la em seus projetos. Ou seja: tem que dominar os recursos que sua voz lhe propicia, mesmo com pouca extensão vocal. Isso é mais importante do que alcançar notas muito agudas e não saber o que fazer com elas. Depois ele citou, como exemplo, a pequena extensão vocal da Nara Leão, e sua capacidade expressiva. Claro, ele não estava desqualificando qualquer domínio técnico, nem o trabalho de cantoras e cantores que tivessem grandes extensões vocais. Mas ressaltava ser necessário não confundir o domínio técnico em si com capacidade expressiva, com autoconhecimento corporal e vocal. 

Hoje, tantos anos depois, quando me deparo com professores exibindo os quantitativos de suas produções nos certames de avaliação institucional, eu me pergunto o que eles têm feito com os 5ºs DÓs que têm alcançado em exercícios de repetição. Inquieto-me da mesma forma com os outros professores que sequer se dispõem a fazer quaisquer exercícios vocais, alegando quaisquer razões para a negativa.

Afinal, tomamos, todos, parte de uma espécie de coro em concerto. Nem todas as músicas cantadas requerem o uso do 5º DÓ. Por outra, é preciso que se ouçam as vozes uns dos outros, que se busquem pontos de afinação, harmonia entre as vozes, que se ajuste o andamento. Para isso, é preciso atenção à própria voz em relação às demais. E muitas vezes poderá parecer que a nossa voz se perdeu entre todas as demais. O que é um equívoco: ela integrou-se aos acordes, faz parte deles, dá corpo a eles. Eventualmente há solistas. Algumas vozes em destaque. Mas estas não têm vida se isoladas. Estas também estão em relação ao coro e aos instrumentos. Elas devem ter isso em conta.

Enquanto uns ostentam medalhas no peito: alcançou o 5º DÓ por 10 vezes! e outros desdenham, recusando-se aos vocalizes e outros exercícios da cantata, o coro desafina, o andamento desanda, faltam vozes, falta musicalidade...

Nem só produtivismo de um lado, nem preguiça, frouxidão de outro...

Eu, que tenho uma voz classificada como mezzo soprano, já cantei como tenorina e como contralto, vozes mais graves para timbres femininos. Durante algum tempo, no Coro Sinfônico, eu mais algumas mulheres integramos o grupo dos tenores exatamente para dar suporte às vozes masculinas em regiões que, para eles, eram mais agudas. Ali, onde as vozes deles perdiam fôlego, as nossas vozes ganhavam volume. Era o trabalho coletivo, colaborativo. 

Quando eu cantava entre os tenores, não exercitava as regiões mais agudas. Mais tarde, quando voltei a cantar na faixa mais central, recuperei as notas mais agudas, mas perdi as graves. Minha extensão vocal não é lá muito grande. Jamais alcançaria o 5º DÓ. Mas aprendi que posso cantar as canções de que gosto, que se aconchegam à minha voz, com sinceridade e sentimento. Principalmente, com conhecimento dos recursos de que disponho, para operar com eles, a partir deles.

Talvez hoje eu pudesse chegar um pouco mais próximo de uma resposta satisfatória à pergunta do Prof. Luiz: canto por que essa é uma das atividades que ajudam a viver, do mesmo modo que escrever poesias, fazer fotos, cultivar flores e afetos, aprender, ensinar, reinventar o mundo a cada dia.

Não, eu não quero estar entre os que alcançam o 5º DÓ várias vezes em exercícios vocais. Nem quero estar entre os professores que apresentam maiores quantitativos de produção qualificada da instituição a que pertenço. Tampouco quero estar entre os que têm produção medíocre. Quero poder cantar, de preferência no coletivo, exercitar a autocrítica e poder produzir conhecimento compartilhado, para continuar a caminhar pela estrada, rumo às utopias que vislumbro, em horizontes sempre moventes.





terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O meu amigo Du


Tenho uma amiga muito especial, a quem endereço o afeto mais fundo. Um dos filhos dela tem um cão labrador, o Du. Como o filho fica a maior parte do tempo longe de casa, o Du convive mesmo é com minha amiga.

Se tem coisa que me deixa encafifada é essa história de as pessoas serem donas de animais. Proprietários de bens sobre patas, ou com asas, enfim. Do mesmo modo com as plantas...

O meu caso com o Du é antigo. De quando em vez, passo pela casa da minha amiga, só para dizer oi para ele (ah, e para ela também). Ele corresponde sacudindo a bunda, latindo com seu bocarrão, e trazendo coisas para brincar comigo: garrafas pet estraçalhadas, tapetes rasgados, cabos de vassoura mastigados...

Já fazia algum tempo eu não o via.

Ontem, foi aniversário da minha amiga. Liguei para ela. No meio da conversa, confessei: por vezes, sinto mais saudades do Du que de você... Mentira. Até porque sentir saudades dele é o mesmo que sentir dela: os dois são carne e unha. Eu queria mesmo era provocar. Aí ela me disse fala alguma coisa, que eu vou colocar o telefone no ouvido dele. Comecei a conversar com ele. Depois ouvi um barulho que não consegui decifrar, e ela caiu na gargalhada. Explicou-me: ao ouvir a minha voz, correu pegar a garrafa pet para brincar comigo. O barulho era a garrafa rangendo entre seus dentes.

Hoje não resisti. Fui até a casa deles, checar de perto essa história de ele querer brincar, ao ouvir minha voz pelo telefone. Du, meu querido! Saudades! Ele latiu, pulou para lá e para cá, entrou chamar minha amiga, e voltou ao portão, sacudindo a bunda mais que passista de carnaval. Depois trouxe um pequeno saco de plástico, para brincar. Esse saco não aguenta suas brincadeiras, Du! E se encostou em mim de frente, de ré, de lado. Encheu-me de pelos.

Quando saí, ficou me olhando pela grade do portão, olhos meio baixos, um tapete velho atravessado na boca.

Meu amigo querido. Amigos não são propriedades. A gente não possui: o afeto é que nos toma e estabelece laços.

Du, não vou me demorar a voltar. Preciso não demorar.




domingo, 12 de fevereiro de 2017

Fora do ninho


Na lateral do prédio, as caixas destinadas a aparelhos de ar condicionado que não foram usadas ganharam nova função: ninho para um casal de pombos criar seus filhotes.

Todos os dias, o trabalho da família é interminável: trazer alimento aos filhotes, abriga-los das intempéries.

Os filhotes crescem rapidamente, e logo já têm estatura próxima à dos pais. É quando começam a sacudir as asas, no ensaio do voo.

Num desses ensaios, o acidente doméstico: um dos filhotes caiu do ninho, entre os carros da garagem, no piso térreo do prédio. A mãe, entre aflita e ativa, impossibilitada de alçá-lo de volta ao ninho, trata de vigiá-lo, alimentá-lo, estimulá-lo a tentar voar. Ainda sem sucesso. Vigia a cria nesse novo e perigoso território de seu não-pertencimento.

O filhote, meio assustado, mas gradativamente ambientado, tem dormido em cantos ocultos ao movimento dos carros e das pessoas.

Não voltará ao ninho original. Ninguém voltará.
Não sabe o que lhe reserva o futuro. Ninguém sabe.





sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Ciência e política: entreveros nem sempre recomendáveis...


Vez por outra, cada vez mais amiúde, sou provocada a retomar este tema, considerando, sobretudo, episódios lastimáveis em que o conhecimento científico se suja com a voracidade pelo poder experimentada por arrivistas políticos.

Volto, portanto, ao pequeno, mas nem por isso menos importante, livro escrito por Max Weber, intitulado Ciência e política: duas vocações. Nele, Weber argumenta em favor da manutenção de uma fronteira clara entre a produção de conhecimento e a atuação política. Ou seja: cientistas e professores não deveriam engajar-se em projetos políticos, defender bandeiras, fazendo, para isso, uso de seu lugar à frente de seus estudantes ou das ferramentas desenvolvidas no exercício de construção de saberes. O seu conhecimento deveria ser disponibilizado para que os grupos sociais pudessem, a partir dele, de modo esclarecido, fazer suas escolhas, atuar politicamente.

Está na base dessa orientação o princípio da isenção do conhecimento, a necessidade de distanciamento para que seja possível a construção autocrítica da interpretação do mundo. O que não é possível ao político, este defensor ardente de determinados pontos de vista, em detrimento dos demais.

Dito de outro modo, ao cientista caberia o papel social de ver e interpretar o que vê, produzindo conhecimento, tanto no âmbito das ciências da natureza quanto das sociais. Ao político, sim, caberia o papel de agir, tendo como referência o conhecimento produzido pelo cientista. Entre conhecer e agir, portanto, haveria um hiato a ser respeitado por um e pelo outro.

Este posicionamento funda-se nos princípios da objetividade e da neutralidade da ciência, condição que, desde há muito, reconhecemos impossível. Nada que se produza, pense, formule, está isento dos pontos de vista de seus autores. Ou seja: o pensamento científico, ao lado de todos os demais saberes e fazeres, estão encharcados das crenças do cientista, de suas inserções nas malhas sociais e culturais de pertencimento, de suas visões de mundo, ainda que não confessadas. Assim, a questão da ciência engajada tem sido tema de discussão desde há algum tempo, e se debate ainda entre dissenções as mais variadas.

Uma das estratégias mais prudentes talvez seja, novamente, apontada pelo próprio Weber, ainda no pequeno livro Ciência e política: duas vocações, quando sugere ser necessário, ao cientista e professor, o auto-esclarecimento a respeito de suas escolhas de cunho epistemológico nos processos de produzir ciência e ensiná-la. Em outras palavras, o exercício contínuo da autocrítica. A parceria incorruptível com a dúvida, em termos flusserianos.

No entanto, é preciso notar que há trânsitos em várias direções nessa via entre ciência e política, entre pensamento e ação. Se, de um lado, tem-se problematizado a natureza de uma ciência engajada, ou seja, da produção de conhecimento que abraça causas, de outro lado há que se observar e discutir os projetos políticos que buscam, nas instituições voltadas à produção de conhecimento, a chancela de suas bandeiras, a legitimação de seus discursos. Quantas vezes, com finalidades escusas, não declaradas, ou dissimuladas.

Evidentemente, parcerias entre a ciência e os projetos políticos sociais são desejáveis, apontando caminhos de superação de dificuldades, de resolução de problemas que afligem as populações. Contudo, a palavra-chave é parceria. Nela, as relações devem ser equalizadas de modo paritário, mantida a independência de uma em relação à outra. Dito assim, pode parecer de simples resolução. Mas, na verdade, é aí que começam as dificuldades. O intento de sua viabilização, sua verificação nas vias práticas, nos campos de negociação, nos agenciamentos quotidianos é que revelam os enormes desafios implícitos nessas relações.

O maior deles está na subjugação da ciência aos interesses políticos de segmentos específicos dos detentores do poder, bem como aos interesses econômicos. A produção de conhecimento e os sistemas de educação postos a serviço do mercado e das estruturas de poder é uma condição que deve ser rechaçada por educadores e pesquisadores com o mínimo de idoneidade no exercício de seus ofícios. 

Reconheço: a busca pelo rigor ético, pela idoneidade no exercício do ofício de professora e pesquisadora também é uma posição de engajamento. E, igualmente, não constitui uma escolha fácil. Supõe, muitas vezes, desafiar instâncias de onde se ouvem cantos de sereia com irresistível poder de sedução. Afinal, as vaidades instigam os egos. O chamado à visibilidade salta à frente. O desejo de reconhecimento pelas diversas comunidades de pertencimento impõe-se. Em nome dessas motivações, se produzem, rapidamente, discursos auto-justificatórios que mesclam questões sociais, defesa do bem-estar público, com ideias de progresso, desenvolvimento, etc.

Por isso mesmo, volto sempre a Weber e a Flusser, e aos princípios do auto-esclarecimento e da dúvida. Volto a eles, mesmo sem tomar ao pé da letra suas recomendações quanto à objetividade mais radical na produção de conhecimento. No entanto, assumo como um dos fundamentos no exercício do meu ofício, a necessidade de observar, com cautelosa distância, os projetos políticos, os debates partidários, as estratégias do poder e do mercado, em relação ao mundo da ciência. Cada vez mais.

Sobretudo quando observo um trânsito nem sempre auto-esclarecido, nem sempre submetido à dúvida, de pesquisadores de universidades públicas entre seus campos de atuação acadêmica e cargos políticos nos poderes executivo ou legislativo.

Sobretudo, em tempos quando os noticiários nacionais das redes abertas de televisão, em horário nobre, anunciam que um representante de um partido político, integrante do primeiro escalão de uma equipe de governo polêmico e contraditório, tem a chancela da academia para assumir um cargo na suprema corte do Poder Judiciário (cargo que exercerá, provavelmente, pelas próximas duas décadas, ou mais), porquanto tenha obtido o título máximo de doutor...




terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Para que serve uma tese de doutorado?


Nos últimos anos, marcadamente desde o início dos anos 2000, mais precisamente a partir de 2002, aumentou em razão geométrica o número de doutores no Brasil. A política de expansão das universidades públicas e dos programas de pós-graduação possibilitou que um grande número de jovens, antes excluídos tanto do ensino superior e, sobretudo, dos cursos de pós-graduação, pudessem sonhar e realizar seus projetos de alcançarem os títulos de mestres e doutores.

Por sua vez, o Sistema Nacional de Pós-Graduação também passou por mudanças profundas, no sentido de desenvolver programas e plataformas cada vez mais complexas de controle e avaliação.

Nos bancos de teses e dissertações, multiplicam-se trabalhos aprovados em bancas e disponibilizados ao público, como parte da prestação de contas que se deva à sociedade: socializar o conhecimento produzido.

De tudo quanto seja produzido em nome das exigências de produtividade, ao fim e ao cabo, muito pouco é lido: artigos, capítulos de livros, teses, dissertações... Mas estas últimas, as teses e dissertações, não só são lidas como examinadas por bancas idôneas, que verificam a consistência do conhecimento produzido, que solicitam revisões antes da aprovação. Supõe-se que uma tese, quando aprovada, traga resultados legitimados, comprovados, de pesquisas desenvolvidas de acordo com os diferentes protocolos das diferentes áreas de conhecimento.

É claro: há sempre falhas no processo. Eventualmente, algum membro de banca não chegou a examinar o material com o devido cuidado. Muitas vezes fez uma leitura aligeirada, tendo decidido, previamente, aprovar o candidato a doutor. Noutras, prevalecem na avaliação questões de vaidade, mais que epistemológicas ou conceituais. Na academia, a fogueira das vaidades arde sem cessar...

O que dizer quando um doutorando, depois de ter defendido uma posição, em sua tese, obtendo aprovação em sua argumentação, em sua atividade pública assume posição antagônica à defendida? Quando a ação contraria o preceito, na atuação da mesma pessoa em questão?

Nesses casos, cabe a pergunta: para que serve uma tese de doutorado? Tão somente para alçar o candidato ao título? Eu, que recorrentemente me debruço sobre teses e dissertações de quantos candidatos, lendo com o respeito que cada um deles merece, mas também com o rigor que a produção de conhecimento requer, sinto-me desnorteada diante dessa questão.

Está posto: o Ministro da Justiça defendeu um ponto de vista em sua tese de doutorado. A banca o aprovou. O título de doutor legitima suas ações: é um conhecedor do assunto. Mas suas ações são conduzidas na contramão do que defendeu. Sobretudo quando o ponto da pauta é seu interesse próprio: tornar-se ministro no STF.

E eu aqui, me perguntando: para que serve uma tese de doutorado?


Tese: Jurisdição constitucional e tribunais constitucionais - garantia suprema da Constituição
Autor: Dr. Alexandre de Moraes 

Defendida em 2000, no Programa de Pós-Graduação em Direito - USP
Orientador: Dr. Dalmo de Abreu Dallari 






sábado, 4 de fevereiro de 2017

Apresentando, Senhora Cana do Brejo e Senhor Gengibre em pas de deux!



Na varanda do apartamento onde moro há uma pequena mata (observadas as devidas proporções...). Alojadas em vasos (nem sempre confortáveis para elas, eu sei), há trepadeiras, orquídeas, damas da noite, canas do brejo, orelhas de elefante, mirra, bromélias... Elas se expandem, se imiscuem, se misturam, ao modo da vida vegetal, a respeito da qual tão pouco sabemos. De minha parte, além de alimentá-las, e mantê-las em cativeiro, tento não impor disciplinamentos humanos ao seu modo de viver plantas.

Nada me convence de que, quando estou ausente, secretamente, elas façam festas e celebrações, dediquem-se a afazeres diversos, ou estabeleçam disputas entre si. Por isso, por vezes, algumas delas começam a definhar e desaparecem, enquanto outras apresentam-se cada vez mais vistosas e exuberantes. Enquanto umas tentam sobreviver no canto da varanda que lhes cabe, outras exibem conforto e opulência. Vá se entender seus processos de dinâmicas!

Ocorre, também, de aparecerem plantas que não foram plantadas ali... Aí os mistérios aprofundam-se... A cada dia, admito com mais convicção que tenho pouca autoridade sobre o que se passa na varanda, quando elas são o assunto...

Há algum tempo, plantei uma raiz de gengibre num vaso. Logo o broto compareceu, valente, e eu fiquei contente com a resposta. Ele foi crescendo, e abrindo suas folhas. Vários galhos emergiram do solo. Notei que havia dois tipos de folhas, razoavelmente distintas. Teriam nascido dois tipos de gengibre? Um tipo de folha era alongada, típica do gengibre em questão. A outra, mais larga, em torno a um pendão que vai traçando uma discreta espiral no ar. Bela folhagem.

Muitas fotografias depois, constatei tratar-se de um novo pé de cana do brejo, que eu não plantei ali. No canto oposto ao canto onde se encontra o gengibre, há uma família de cana do brejo. Ainda não se como, uma muda dessa família veio alojar-se neste vaso, formando um pas-de-deux: Senhora Cana do Brejo e Senhor Gengibre.

Voilà! Vida longa à dupla! E que sejam alegres as festas das plantas em minha varanda!