segunda-feira, 25 de abril de 2022

Coisas de viver em Brasília

 




Fotos: Gwavira Gwayá, 2022

No último dia 21 de abril, Brasília completou 62 anos. Acabei não me manifestando a respeito, embora estivesse atenta ao processo de amadurecimento da cidade. E também embora hoje eu reconheça que se há algum lugar em relação ao qual eu tenha sentimentos muito fundos de pertencimento, esse lugar é Brasília.

E porque no mesmo dia 21 de abril eu tenha sido surpreendida por uma experiência particular e especial, decidi compartilhá-la, para esclarecer: quem desqualifica a capital federal ou não a conhece em sua dimensão de espaço de se viver, ou não tem a menor ideia do que seja qualidade de vida.

Em primeiro lugar, é necessário dizer que Brasília não é a Esplanada dos Ministérios, nem a Praça dos Três Poderes (hoje, território de guerras...). A maior parte da população que vive no Distrito Federal muito raramente transita nesses espaços. Muitos nunca chegaram até ali. Esse território, em segundo lugar, é ocupado por políticos e profissionais vindos de todas as partes do país, cuja permanência não dura muito mais do que uma gestão. Em segundo lugar, em territórios outros, que nada devem à Esplanada dos Ministérios e à Praça dos Três Poderes, as pessoas tecem os seus viveres, numa cidade que oferece condições diferenciadas para tanto.

Dona Francisca foi minha vizinha de porta durante décadas. E dedicou-se a plantar pequenos arbustos e mudas de árvores frutíferas do outro lado da calçada que separava o jardim do prédio e o grande gramado central da quadra. Ali cresceram, então, vários pés de seriguela, acerola, mamão, dentre outras. Também marquei presença com um pé de pitanga que já se tornou uma pequena árvore. As plantas cresceram, criando uma espécie de corredor de sombras frescas sobre a calçada pela qual as pessoas passam, em suas caminhadas.

Por ali, segui também eu, pelo meio da manhã do dia 21 de abril, quando me deparei com um conjunto de trabalhos de arte pousados junto aos troncos e entre os galhos daquelas árvores. Fui tomada pelo espanto: de entre o chão coberto por folhas secas, enroscados entre galhos, já modificados pelas intempéries do clima (calor, chuva, poeira, etc.), repousavam grandes flores coloridas, peixes recortados em papelão ou madeira, trabalhos realizados com material de sucata.

Soube, pelo Seu Antônio, que um senhor, também morador do prédio, precisou se aposentar precocemente em razão de problemas graves de saúde. A partir de então, passou a produzir aquela linha de trabalhos. Alguns são vendidos. Mas a maior parte é destinada a integrar a paisagem, como aqueles que me surpreenderam.

Respiro fundo e volto a caminhar. Isso é Brasília. E me faz bem.

 

 


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Breve visita

O beija-flor entrou, agitado, já findava a tarde. Voejou desde a sala de estar até o espaço de estudos, entre livros e almofadas. Voejou rápido, com breves paradas no ar e mudanças de direção. Temi por ele: como encontraria o caminho de saída do apartamento cheio de portas, janelas e mobílias? Ele voltou para a sala, veio em minha direção, e tomou o rumo de um dos quartos. Corremos abrir todas as janelas e apagar todas as luzes. Numa de suas idas e vindas dentro da casa, ganhou a área externa novamente, e se sumiu.

Ainda sinto a vibração do ar pela movimentação ligeira de suas asas. Meu coração está, ainda, quase tão acelerado quanto o dele. Ainda sinto gratidão pela breve e agitada visita.

Cheguei na bera do córgo onde azágua se espraia

As garça dá meia vorta e senta na bêra da praia

E o cuitelinho nun gosta

Que o botão de rosa caia-ia-iai...

 


 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Palavras e imagens


Numa plataforma digital de compartilhamento de conteúdos, encontrei a replicação de uma postagem, na qual alguém contava uma história mais ou menos assim: quando criança, ele assistira a uma palestra, na escola, de um padre que trabalhava com causas sociais. Em sua fala, o padre explicava a importância da empadinha para se ajudar as pessoas pobres. Segundo o relato, o padre enfatizou muito a questão da empadinha no trabalho junto às pessoas pobres. E o rapaz teria ficado muito intrigado, perguntando-se o porquê da empadinha. Não seria mais eficiente providenciar pão e outros alimentos? Cerca de 30 anos depois, ele descobriu que o padre estava falando, de fato, de empatia, e não de empadinha.

Achei muita graça do relato, compartilhei com pessoas amigas, para também compartilhar os risos. Enquanto contava à minha irmã, constatei que durante vários dias, enquanto lia e contava o relato, eu pensava em coxinha ante a palavra empadinha. Rimos muito do caso. Então ela resolveu contar sobre um rapaz de nossa cidade natal que teria quebrado o braço, em decorrência de um acidente. Disse: “Ele estava montando...” e eu a interrompi, completando a frase: “... um burro xucro!”. Não, “ele estava montando um toldo...”. Ele trabalhava com instalação de toldos... Isso foi motivo de muitos risos.

Lembramos de outra ocasião, quando se instalaram as primeiras barreiras eletrônicas para controle de velocidade de veículos automotores, nas vias da cidade. Minha irmã me explicou, à época, que se passássemos “montados na faixa”, o sensor eletrônico não capturaria. Eu, com o repertório de imagens que conecto à palavra montar e seus derivados, fui logo imaginando alguém a trote, montando um cavalo, passando pelos sensores. E concluí que não seria capturado pelos sensores, provavelmente, pela baixa velocidade. Mas o que ela queria dizer era que se os carros passassem com uma lateral numa faixa e outra lateral noutra faixa...

Agora fico a imaginar alguém montando um cavalo xucro sendo capturado pelos sensores eletrônicos de velocidade, enquanto busca uma empadinha... (ou seria uma coxinha?) vendida sob algum toldo... 

 

 

 

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

No dia de meu aniversário


Fiz aniversário. O dia de meus anos, desta vez, caiu num domingo chuvoso, depois de longo período muito quente e com baixos índices de umidade, numa estiagem que maltrata a paisagem e seus habitantes. A trilha sonora ficou por conta das cigarras e sabiás, que celebram a chegada das chuvas. Estou em casa de minha mãe por estes dias. Ela cumprirá, em pouco tempo, seu 94º aniversário. A estas alturas da vida, a memória se atrapalha, mistura informações, não consegue confirmar dados. Que dia é hoje? Que horas são? Qualquer resposta provoca admiração. Então minha irmã lhe contou que era meu aniversário. Ela se espantou. Não lembrava ao certo que dia era. Confirmou. Fez festa, desejou alegrias, me abençoou. Algum tempo depois, já não se lembrava nem do meu aniversário, nem que já comemorara comigo. E já se ia, novamente, me felicitando pelo dia natalício. Mais uns instantes, e ela própria indagou sobre a data, e confirmou que era meu aniversário. Mais uma pequena festa. E muitas outras que se sucederam no decurso daquelas 24 horas.


E transcorreu o domingo chuvoso cheio de frescor, entre pequenas festas a cada instante que resultavam em muitos beijos e bênçãos com votos de felicidades. Sempre entre espanto e alegria pela constatação do dia que merecia celebração.


Ah, a vida! Ah, os ciclos!

 

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Filhotinho de rolinha



Desde ontem, algumas emoções e sustos emergiram aqui em casa. O filhotinho da Paloma, a rolinha que fez casa na varanda do apartamento, saiu muito cedo do ninho. Não está emplumado o bastante para ensaiar voos. Passou a noite no chão, entre as plantas, sob o olhar dela, atento, desde o alto das instalações colombinas. Ficamos sem saber o que fazer. Decidimos não interferir, com medo de assustar ainda mais tanto ele quanto ela. Hoje, mais ao final da manhã, o filhote ainda estava no chão, tremendo. As penas já estão mais abertas e, por incrível que pareça, o papinho estava bem cheio. Ou seja, a mãe tem alimentado ele mesmo fora do habitat. 

Foi então que eu notei: a Paloma não estava no ninho. Num ímpeto, catei o pequeno, subi numa escada, e coloquei a criatura de volta ao berço de onde não deveria ainda ter saído. O coração na mão, fechei a porta da sala, e a cortina, na esperança de que a mãe não o rejeitasse, por estar com o meu cheiro. 

Instantes depois, a Paloma voltou. 

Está tudo bem. Ela está cantando, no ninho. O pequeno está lá, com ela, se mexendo, agitando as asas. Recobrado do susto, no mínimo já ensaia saltar fora do ninho novamente. A mãe o observa, paciente. Esse menino não aquieta! 

 

 


sábado, 24 de abril de 2021

O sapo


Quem venha das bandas do poente caminha pouco mais que meia légua depois da ponte, e já se depara com a entrada para a casa da minha tia, numa curva da estrada. Ali, ela vive com o marido, as plantas e os animais domésticos. E outros que se agregam às instalações residenciais, sem necessariamente terem sido convidados, por assim dizer.

Tem já algum tempo, ela começou a se deparar com o aumento da população de sapos. Quando menos espera, tropeça num. Uns mirrados, outros bem grandes... Sapo é bicho que não se pode matar. Toda vez que encontra um, com todo o cuidado, ela coloca o animal num saco, e o deixa no outro lado do rio. 

Andava cansada de tanto atravessar o rio para levá-los à outra margem. Coisa trabalhosa. Também começou a ter dúvidas a respeito da quantidade efetiva de sapos, especialmente os maiores. Por isso, resolveu tomar uma providência. Munida com um vidro de esmalte vermelho, pegou um dos sapos, dos grandes, e pintou-lhe as unhas. O bicho, imobilizado dentro do saco, não teve como escapar. Ela ainda esperou, pacientemente, até ter certeza de que a tinta estava seca, antes de deixá-lo, como de rotina, do outro lado do rio. Voltou para casa, entre expectativas.

Não demorou nem uma semana, e ela já pôde fazer a verificação de que precisava: lá estava o sapo, nas cercanias da casa, senhor de si e das unhas pintadas com seu esmalte vermelho. Havia outros. Mas aquele, especificamente, passou a ser referência para ela. 

É de se supor, também, que ela tenha sido adotada pelo sapo, e não o contrário. Talvez fosse ele quem andasse às voltas, tentando entender as motivações dela para leva-lo, tão insistentemente, para o outro lado do rio...




domingo, 21 de fevereiro de 2021

Sobre um encontro com Lisístrata

 

Lisístrata, a greve do sexo é uma comédia grega escrita pelo grego ateniense Aristófanes, que teria vivido por volta dos anos 445 e 385 antes da era cristã. Ela conta a história do levante de mulheres de Atenas, com a parceria das espartanas, lideradas por Lisístrata, contra a guerra interminável entre soldados atenienses e espartanos. A guerra ceifa a vida dos homens e dos filhos dessas mulheres, além de esvaziar os cofres públicos. Elas, então, decidem deflagrar uma greve de sexo, que só é interrompida quando seus maridos assinam o acordo de paz. O acordo, personificado pela própria figura da Paz corporificada, é a condição para que se inicie uma orgia. Fecha-se o pano. Fim de espetáculo.

Em meados dos anos 1980, uma amiga integrou o elenco que estava trabalhando na montagem do espetáculo. Ela faria exatamente a personagem Paz. Eu comecei a ajuda-la na na composição da personagem. Para tanto passei a comparecer aos ensaios. Ela desistiu de participar, e eu acabei assumindo o papel. Tinha me afeiçoado. Ao longo das demais cenas, eu participava do côro feminino. A certa altura, deixava o côro, indo preparar a personagem final, com maquiagem intensa, apliques que alongavam os cabelos até à altura das pernas, um véu muito transparente e o corpo nu.

O elenco era numeroso. No decurso dos trabalhos, delineou-se uma divergência entre o grupo dos homens, autorreferidos como mais profissionais, exigentes no tocante aos rigores da produção, e o grupo das mulheres, por eles apontadas como amadoras, pouco profissionais. As tensões decorrentes dessa situação intensificaram-se desde circunstâncias pontuais até uma predisposição quase permanente para a discussão.

Se o elenco feminino, em geral, era considerado amador, especialmente eu era destinatária de piadas recorrentes. A personagem Paz não tinha fala, e a mulher do côro se manifestava poucas vezes, no coletivo, sem destaque. Amiúde, eu ouvia por parte de alguns dos atores a pergunta: “Vocês já ouviram a fala dela? Gente, prestem atenção, senão não ouvimos sua voz!”

A atriz que interpretava Lampito, a espartana que participava na assembleia de mulheres atenienses, na primeira cena, começou a cobrar do diretor uma tomada de posição em relação às provocações recorrentes do elenco masculino. O diretor tentava contornar a situação, sem confrontos.

Havia, sim, uma cisão claramente marcada entre homens e mulheres na montagem daquele espetáculo que tratava exatamente de uma greve deflagrada por mulheres ante o comportamento competitivo e belicoso dos homens... curiosa situação...

A pré-estreia do espetáculo estava agendada para um sábado, numa cidade satélite. Funcionaria como um ensaio geral com público. Na quinta-feira da semana seguinte ocorreria a estreia para temporada de várias semanas no teatro onde tudo já estava devidamente montado: cenário, iluminação, sonorização, etc. Na quinta feira de véspera, a atriz que interpretava Lampito, depois do ensaio e de alguns confrontos com o elenco masculino, anunciou sua saída do espetáculo. Não se sujeitaria mais àquela situação. Antes de se retirar, desafiou o diretor: “Quero ver você estrear essa peça”.

Lisístrata andava com a popularidade em alta, por aqueles tempos. Numa faculdade de artes cênicas, um professor acabara de montar a cena da assembleia, fazendo alguns experimentos de atuação, cenário e figurino. Alguém sugeriu convidar a atriz que interpretava Lampito dessa outra montagem, e assim se fez: a pré-estreia, na cidade satélite, contou com a atriz que fazia parte do outro projeto. Embora tudo tenha transcorrido bem, ela comunicou que não poderia permanecer no espetáculo, por uma questão ética. Sua atuação fora dirigida pelo outro diretor, e estava articulada a uma concepção de cena diversa daquela da qual fazíamos parte. Desse modo, voltávamos à estaca zero. E na segunda feira nos reunimos no teatro, para buscar alguma solução.

Entre as poucas saídas disponíveis, considerou-se a possibilidade de que eu assumisse a personagem em questão. Essa solução, contudo, apresentava um problema. A ideia inicial era preservar a imagem final da Paz. Assim, para assumir Lampito, foi necessário construir um perfil com traços muito distintos e próprios também. Enquanto a Paz era sensual, sinuosa, cabelos longos e esvoaçantes, cercada de tecidos leves em tons de branco e azul claro, Lampito era uma guerreira, portando capa e armadura, botas, cabelos presos, roupas de couro em tons de marrom escuro e preto, gestos duros e decididos, voz grave e firme, com espaços para algumas doses de humor. Assim, os homens do elenco passaram a ter oportunidades multiplicadas para ouvir a minha voz, desde a primeira cena...

Os ensaios aconteceram em apenas dois dias, terça e quarta feiras, com estreia já na quinta-feira, entre sustos, mas sem comprometer o espetáculo.

O elenco masculino recuou da postura mais agressiva, tendo passado a ter mais cuidado em relação à linguagem. Ainda e assim, seu perfil se manteve marcadamente arrogante, com necessidade de se impor, em relações de poder assimétricas.

A temporada naquele teatro seguiu-se a uma série de temporadas curtas em outras cidades satélites, com uma diversidade de situações que, de diferentes formas, replicaram para os contextos da produção e das relações com os públicos as questões tratadas pelo texto teatral. Sua atualidade chama a atenção.

Do mesmo modo, merece destaque o elenco personificando a tensão desenhada pelo espetáculo, explicitando o quanto essas são questões que pulsam, movendo nossa sociedade marcadamente patriarcal, machista e belicosa. Mesmo quando se trata do campo da arte, cujos agentes reivindicam para si comportamentos capazes de criticar o status quo...