A estrelinha do mar virou flor, e veio morar no Planalto Central, na varanda da minha casa.
literatices... letras para nada, talvez para tudo... imagens de nada, que podem ser de tudo... matutações... penseros... rabiscações... daquilo que vejo... ou não... porque tomo assento neste tempo quando a humanidade produz vertiginosamente letras, símbolos e imagens, em busca de sentidos, quaisquer que sejam... ou não...
Hoje foi dia da feira aqui na minha rua. Porque inventei de fazer uma torta salgada para o almoço, decidi ir até lá, comprar milho verde. Nestes últimos 4 anos o preço do milho (não só do milho) subiu muito, aumentando o preço de outros produtos que podem mesmo ser considerados essenciais, como a pamonha, por exemplo. Mas esse é já outro assunto.
Cheguei à feira. Na primeira banca, milhos bem verdes, no
ponto para a torta que eu imaginei. Perguntei ao rapaz pelo preço. Quatro por
dez, respondeu. Ui! A escalada do preço não conhece recuo. De sete espigas por
dez, não faz muito tempo, passou a seis, a cinco e agora quatro espigas pelo
mesmo preço. R$ 2,50 é o valor de cada espiga.
Segui pela feira, buscando outros poucos itens, e também
outras bancas com milho. Não havia: ele era o único vendedor de milho ali. Na volta,
disse-lhe que precisava do milho, mas estava muito caro. Que estava cara para
ele também, respondeu-me, explicando que as vendas cobriam apenas as despesas
dele. Pensei na torta, e decidi trazer as espigas, apesar de tudo. Então pedi a
ele que escolhesse para mim. Ele disse para eu escolher. Então respondi o
senhor escolha como se fosse escolher para o senhor. Ele pensou um pouco. Posso
lhe dizer uma coisa? Que sim, respondi. Se fosse escolher para mim, eu não comprava...
Ele falou sério. Senti que estava desolado com tudo. Depois decidiu escolher, e
separou logo seis espigas no lugar de quatro. Eu lhe disse mas assim não, o senhor
fica no prejuízo. Ele disse que não, as espigas eram pequenas, os compradores
nunca escolhem aquelas e ele acaba perdendo. Cortou os grãos, embalou,
conversando comigo sobre a gravidade da situação econômica.
A torta até que ficou bem gostosa. Mas eu só usei a metade
do milho já pouco: a outra metade, reservei para outra receita.
Naquele dia, eu apresentaria meu trabalho no evento que tratava de arte e tecnologia. O tema surgira a partir das discussões nas aulas com ele, que eram de uma riqueza de debates, abertas à pluralidade de ideias, às diferenças de posição. Antes de tudo, eram aulas de civilidade, de alteridade e de paixão pelo conhecimento e pela cultura.
Quando cheguei à porta do Instituto, eu o encontrei sentado num banco de alvenaria, me aguardando. Levava consigo a inseparável pasta preta, onde guardava papéis com anotações. O cabelo muito branco refletia a luz matutina. A esposa o deixara ali mais cedo, antes de iniciar as suas aulas. Ele sorriu-me, e eu fiquei exultante com a surpresa. Seguimos juntos para o auditório. Ouviu-me, com a atenção que lhe era peculiar, falar sobre o filme Blade Runner, sobre ficção científica, imaginário social, noção de futuro. Sua presença ali foi a chancela para o projeto de pesquisa no doutorado.
Um mestre, um grande
mestre.
Fiz duas disciplinas com ele, durante o doutorado, ele participou da minha banca de qualificação. Ouvi-lo era sempre como desbravar territórios inaugurais de possibilidades de pensamento. Acompanhá-lo transitando entre as diferenças, as divergências, era sempre um conjunto de lições de diplomacia, de alteridade, de civilidade. E de afeto. E de humor.
Um mestre, um grande mestre.
Durante a pandemia, soube que estava lutando contra o mal de
Parkinson, no Rio de Janeiro. Conversei algumas vezes com a professora Bárbara Freitag, sua
esposa, de quem também fui aluna, e por quem cultivo especial respeito e afeto.
Hoje, o professor Sergio Paulo Rouanet nos deixou. O mundo fica mais pobre nas
possiblidades para viver na diversidade, para dialogar na divergência. Sou mesmo
uma pessoa privilegiada: hoje perdi um mestre, mas ele permanece na pesquisadora
em que me tornei, de cuja formação ele tomou parte fundamental.
Deve agora inaugurar animadas mesas de debate sobre cultura,
pensamento social, política, filosofia e arte em outras dimensões.
No último dia 21 de abril, Brasília completou 62 anos. Acabei não me manifestando a respeito, embora estivesse atenta ao processo de amadurecimento da cidade. E também embora hoje eu reconheça que se há algum lugar em relação ao qual eu tenha sentimentos muito fundos de pertencimento, esse lugar é Brasília.
E porque no mesmo dia 21 de abril eu tenha sido surpreendida
por uma experiência particular e especial, decidi compartilhá-la, para
esclarecer: quem desqualifica a capital federal ou não a conhece em sua dimensão
de espaço de se viver, ou não tem a menor ideia do que seja qualidade de vida.
Em primeiro lugar, é necessário dizer que Brasília não é a
Esplanada dos Ministérios, nem a Praça dos Três Poderes (hoje, território de
guerras...). A maior parte da população que vive no Distrito Federal muito
raramente transita nesses espaços. Muitos nunca chegaram até ali. Esse
território, em segundo lugar, é ocupado por políticos e profissionais vindos de
todas as partes do país, cuja permanência não dura muito mais do que uma gestão.
Em segundo lugar, em territórios outros, que nada devem à Esplanada dos Ministérios
e à Praça dos Três Poderes, as pessoas tecem os seus viveres, numa cidade que
oferece condições diferenciadas para tanto.
Dona Francisca foi minha vizinha de porta durante décadas. E
dedicou-se a plantar pequenos arbustos e mudas de árvores frutíferas do outro lado da
calçada que separava o jardim do prédio e o grande gramado central da quadra.
Ali cresceram, então, vários pés de seriguela, acerola, mamão, dentre outras.
Também marquei presença com um pé de pitanga que já se tornou uma pequena árvore. As plantas cresceram, criando
uma espécie de corredor de sombras frescas sobre a calçada pela qual as pessoas passam,
em suas caminhadas.
Por ali, segui também eu, pelo meio da manhã do dia 21 de abril, quando me
deparei com um conjunto de trabalhos de arte pousados junto aos troncos e entre
os galhos daquelas árvores. Fui tomada pelo espanto: de entre o chão coberto
por folhas secas, enroscados entre galhos, já modificados pelas intempéries do
clima (calor, chuva, poeira, etc.), repousavam grandes flores coloridas, peixes
recortados em papelão ou madeira, trabalhos realizados com material de sucata.
Soube, pelo Seu Antônio, que um senhor, também morador do prédio, precisou se aposentar precocemente em razão de problemas graves
de saúde. A partir de então, passou a produzir aquela linha de trabalhos. Alguns
são vendidos. Mas a maior parte é destinada a integrar a paisagem, como aqueles
que me surpreenderam.
Respiro fundo e volto a caminhar. Isso é Brasília. E me faz
bem.
O beija-flor entrou, agitado, já findava a tarde. Voejou desde a sala de estar até o espaço de estudos, entre livros e almofadas. Voejou rápido, com breves paradas no ar e mudanças de direção. Temi por ele: como encontraria o caminho de saída do apartamento cheio de portas, janelas e mobílias? Ele voltou para a sala, veio em minha direção, e tomou o rumo de um dos quartos. Corremos abrir todas as janelas e apagar todas as luzes. Numa de suas idas e vindas dentro da casa, ganhou a área externa novamente, e se sumiu.
Ainda sinto a vibração do ar pela movimentação ligeira de
suas asas. Meu coração está, ainda, quase tão acelerado quanto o dele. Ainda sinto
gratidão pela breve e agitada visita.
Cheguei na bera do córgo onde azágua se espraia
As garça dá meia vorta e senta na bêra da praia
E o cuitelinho nun gosta
Que o botão de rosa caia-ia-iai...
Numa
plataforma digital de compartilhamento de conteúdos, encontrei a replicação de
uma postagem, na qual alguém contava uma história mais ou menos assim: quando
criança, ele assistira a uma palestra, na escola, de um padre que trabalhava
com causas sociais. Em sua fala, o padre explicava a importância da empadinha para
se ajudar as pessoas pobres. Segundo o relato, o padre enfatizou muito a
questão da empadinha no trabalho junto às pessoas pobres. E o rapaz teria
ficado muito intrigado, perguntando-se o porquê da empadinha. Não seria mais
eficiente providenciar pão e outros alimentos? Cerca de 30 anos depois, ele
descobriu que o padre estava falando, de fato, de empatia, e não de empadinha.
Achei
muita graça do relato, compartilhei com pessoas amigas, para também compartilhar os
risos. Enquanto contava à minha irmã, constatei que durante vários dias,
enquanto lia e contava o relato, eu pensava em coxinha ante a palavra
empadinha. Rimos muito do caso. Então ela resolveu contar sobre um rapaz de
nossa cidade natal que teria quebrado o braço, em decorrência de um acidente.
Disse: “Ele estava montando...” e eu a interrompi, completando a frase: “... um burro xucro!”. Não, “ele estava montando um toldo...”. Ele trabalhava com instalação de toldos... Isso foi motivo de
muitos risos.
Lembramos
de outra ocasião, quando se instalaram as primeiras barreiras eletrônicas para
controle de velocidade de veículos automotores, nas vias da cidade. Minha irmã me explicou, à época, que se passássemos “montados na faixa”, o sensor eletrônico não capturaria. Eu, com o repertório de imagens que conecto à palavra montar e seus derivados, fui logo
imaginando alguém a trote, montando um cavalo, passando pelos sensores. E
concluí que não seria capturado pelos sensores, provavelmente, pela baixa velocidade. Mas o
que ela queria dizer era que se os carros passassem com uma lateral numa faixa e
outra lateral noutra faixa...
Agora fico
a imaginar alguém montando um cavalo xucro sendo capturado pelos sensores eletrônicos de velocidade, enquanto busca uma empadinha... (ou seria uma coxinha?) vendida sob algum toldo...
Fiz aniversário. O dia de meus anos, desta vez, caiu num domingo chuvoso, depois de longo período muito quente e com baixos índices de umidade, numa estiagem que maltrata a paisagem e seus habitantes. A trilha sonora ficou por conta das cigarras e sabiás, que celebram a chegada das chuvas. Estou em casa de minha mãe por estes dias. Ela cumprirá, em pouco tempo, seu 94º aniversário. A estas alturas da vida, a memória se atrapalha, mistura informações, não consegue confirmar dados. Que dia é hoje? Que horas são? Qualquer resposta provoca admiração. Então minha irmã lhe contou que era meu aniversário. Ela se espantou. Não lembrava ao certo que dia era. Confirmou. Fez festa, desejou alegrias, me abençoou. Algum tempo depois, já não se lembrava nem do meu aniversário, nem que já comemorara comigo. E já se ia, novamente, me felicitando pelo dia natalício. Mais uns instantes, e ela própria indagou sobre a data, e confirmou que era meu aniversário. Mais uma pequena festa. E muitas outras que se sucederam no decurso daquelas 24 horas.
E transcorreu o domingo chuvoso cheio de frescor, entre
pequenas festas a cada instante que resultavam em muitos beijos e bênçãos com
votos de felicidades. Sempre entre espanto e alegria pela constatação do dia que
merecia celebração.
Ah, a vida! Ah, os ciclos!