quarta-feira, 15 de março de 2017

Como não foi eu que escrevi?


como é tão fácil para você
ser gentil com as pessoas ele perguntou

leite e mel pingaram 
dos meus lábios quando respondi

porque as pessoas não foram
gentis comigo

(Rupi Kaur. Outros jeitos de usar a boca. Milk and honey).



--- § ---


Leio Rupi Kaur,
 e cantarolo os versos de Milton Nascimento:


Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece
Como não fui eu que fiz?
(...)

(Milton Nascimento. Certas Canções)






segunda-feira, 13 de março de 2017

passarinhozinhozinho





Durante o tempo em que esteve no arbusto, só consegui ouvir seu canto e acompanhar, sempre em atraso, o seu movimento estremecendo as folhagens. 
Ei-lo, revelado.




domingo, 12 de março de 2017

Dos que se olham e se veem


Eu a vejo
Ela me vê
Eu empunho a câmera
Ela me observa
Eu ajusto a lente, abertura, velocidade, faço fotos
Ela me olha com firmeza
Sinto-me indagada
Ela agita as asas, e alça voo

Agora observo as fotos
Nelas, ela persiste em me olhar
E eu a ela




sábado, 11 de março de 2017

Polêmicas sobre Leandro Karnal à parte...


Clóvis de Barros Filho, Mario Sergio Cortella e Leandro Karnal são referidos como os três intelectuais brasileiros que aprenderam a operar as mídias sociais, ganhando visibilidade, chamando a atenção para seus discursos, e fazendo a cabeça de muitos jovens, ao tratar de temas diretamente ligados às angústias da vida contemporânea. E, é claro, faturando dividendos com isso, seja na venda de seus livros ao estilo bem mercadológico, seja no retorno financeiro resultante das visualizações de seus vídeos na plataforma Youtube. 

Destes, Leandro Karnal, com formação na área de História, é um professor universitário que atende a todas as exigências protocolares de quem orienta estudantes em cursos de graduação e pós-graduação stricto sensu. Por exemplo: tem seu currículo disciplinadamente atualizado na Plataforma Lattes, do CNPq, conforme exigem os sistemas de avaliação da CAPES/MEC. Atualização tão disciplinada quanto os ternos que usa, a camisa impecavelmente passada, e colocada para dentro da calça, como muito bem observou meu amigo Márcio Paixão Júnior, numa advertência com muita procedência: Nunca confie em ninguém com fala empostada e camisa pra dentro da calça.

A propósito, há um caroço no angu dessa conduta pretendidamente impecável, ou ilibada: a despeito de o caro professor ser DE (contrato que prevê dedicação exclusiva) na UNICAMP, a maior parte do seu tempo é dedicada a atividades com remuneração extra, tais como palestras, cursos de especialização, entre outras... Por exemplo, a PUC do Rio Grande do Sul está iniciando um curso de especialização em Finanças, Investimentos e Banking, de cujo corpo docente ele faz parte, ao lado de uma constelação de celebridades do momento. 

Bom, façamos vistas grossas a esse... digamos... deslize do rapaz. À frente. Nos vídeos que posta regularmente em seu canal no Youtube, articula discursos que se pretendem críticos, talvez em certa medida subversivos, no mínimo capazes de provocar alguma desestabilização em sua audiência. Contudo, são discursos disciplinados, bem comportados, com performance bem ensaiada.

De toda sorte, eventualmente, algumas das questões propostas são desenvolvidas de modo interessante. Afora o fato de que ninguém é tema de consenso todo o tempo, e que coerência entre discurso e prática é matéria prima cada vez mais escassa, por vezes ouvia seus discursos até o final, para tentar compreender seu modus operandi.

Foi assim que, há algum tempo, postei, na minha página da plataforma Facebook, o link de um vídeo seu, no qual defendia a ideia de que "Ser louco é a única possibilidade de ser sadio nesse mundo doente”. Bom, a essas alturas, um outro professor, também historiador, reagiu ao vídeo, argumentando que o Karnal fazia tal afirmação de modo irresponsável, sem ter em conta o drama das famílias que precisam lidar com a loucura patológica. Eu concordo com essa ponderação. O problema é que o tal professor o fez vociferando, xingando, enfiando palavrões numa postagem que eu fizera na minha timeline (minha timeline, não: timeline na qual o Mark Elliot Zuckerberg me autoriza a postar coisas em meu nome... sendo que ele continua sendo o dono...).

Bom, se o Mark Elliot Zuckerberg é o dono de todas as timelines do Facebook, e autoriza que eu poste e administre postagens em uma página com meu nome, e se alguém se arvora a bradar palavrões em razão de uma postagem feita por mim, depois de algum tempo observando o que ocorria, decidi tomar posição, e firmar pé. Pedi, diplomaticamente, que ele prestasse atenção à sua linguagem ao fazer comentários na postagem que eu fizera, que reservasse um mínimo de educação, ao menos ali. Ele reagiu de modo ainda mais agressivo, como se eu estivesse defendendo o vídeo do Karnal. Como se eu fosse responsável pelo discurso do Karnal. Ao final, sugeriu que, caso eu não quisesse que ele se manifestasse nas minhas postagens, que eu o bloqueasse.

Sugestão dada, sugestão aceita: bloqueei o rapaz, e nunca mais postei nada do Karnal, nem gastei meu tempo para ouvi-lo.

Agora me perguntem: senti falta de um dos dois rapazes? Eu lhes respondo: nenhuma! Ao contrário. Definitivamente, os discursos do Karnal não fazem falta para o aprofundamento das questões que me movem. Na verdade sequer considero a possibilidade de buscar neles alguma referencialidade. Até porque eles não propiciam quaisquer aprofundamentos, de fato: são rasos, tratam questões relevantes de modo aligeirado, até irresponsável muitas vezes (nisso, o historiador que eu bloqueei estava certo), e visam o mercado. O outro historiador? Se eu sinto falta dele? Bem, quem era mesmo ele? Nem me lembro seu nome...

A propósito, em relação à polêmica causada pela postagem de uma foto em que o Karnal está jantando com o juiz Moro, em Curitiba, cioso da magnífica companhia e dos projetos possíveis a se anunciar, reitero o que já escrevi anteriormente: boa parte dos pensadores legitimados pela história oficial das ideias da tradição ocidental de matriz europeia, à parte serem homens razoavelmente inteligentes, considerando-se os privilégios previamente garantidos pelo status quo, à parte dominarem a arte da oratória e do espetáculo, e concordando com o fato de eventualmente até terem ideias instigantes, não abriam mão de estar à sombra do poder, e manter suas cumbucas muito bem servidas, desde sempre! Sem julgamentos, nem sentenças radicais, sem dramas existenciais, Karnal apenas não é exceção a essa regra. Ponto.

Quem gosta de ver seus vídeos, que continue vendo; quem gosta de ler seus livros, que continue lendo. Mas é preciso sermos um pouco menos inocentes... ou crédulos...

Fica a dica.

PS.: em relação a Clóvis de Barros Filho e Mario Sergio Cortella, não tenho nada a dizer, porque não sei o que andam dizendo por aí. Tenho vontade de repetir o versinho que costumava declamar, quando criança, caso quisesse ressaltar a desimportância de algum assunto: não sei, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe... Está bem, não tenho raiva de quem sabe, mas não estou exatamente interessada em saber...





quarta-feira, 1 de março de 2017

Entre o 5º DÓ e o produtivismo nas universidades


Corriam os primeiros anos da década de 1990, quando eu comecei a fazer aulas de canto com o Prof. Luiz. Ele fora professor na Universidade de Brasília. Mas, por incompatibilidade com uma série de elementos da cultura universitária, exonerou-se e montou sua própria escola, numa pequena e aconchegante sala instalada num centro comercial. Ali, recebia seus alunos, muitos dos quais também alunos de música na UnB.

Já não me recordo como eu cheguei até ele. Eu já fizera aulas de canto em outros lugares. O encontro com ele foi particularmente feliz, e me propiciou aprendizagens que vão muito além do domínio vocal para o canto, coisa que aliás ando precisando voltar a praticar.

No meu primeiro dia de aula, ele me perguntou, com a simplicidade que lhe era peculiar: por que você quer cantar? Eu lhe expliquei, prontamente, que fazia teatro, e muitas vezes cantava em cena, além disso, eu cantava no Coro Sinfônico Comunitário da UnB, com mais outras 200 ou 300 vozes, e falei de afinidades e gostos, etc. Percebi que ele não perguntara questões funcionais ou práticas; notei que minha resposta resvalava para longe daquilo que ele queria saber. Entendi que eu mesma não tinha a resposta. Fiz de conta que estava satisfeita com o que lhe falara, mesmo sem estar. Ele também prosseguiu com a aula. Mas a pergunta se colou à minha pele, e nunca mais despregou. Por que eu queria cantar?

Algum tempo depois, no intervalo entre a minha aula e a próxima, uma moça contava, animada, que no dia anterior, fazendo exercício de vocalize, na universidade, alcançara o 5º DÓ. Esse é o DÓ mais agudo no teclado do piano, e encontra-se na 5º oitava desde o primeiro DÓ mais grave. Alcançar tal nota com a voz exige rigor no treinamento, domínio técnico, e extensão vocal.

Confesso, ela conseguiu seu intento de me impressionar com o feito. Mas o Luiz permaneceu sereno, ouvindo o relato da aluna. Ao final, ele perguntou Sim, você alcançou o 5º DÓ, e fez o quê com ele? A pergunta interrompeu o entusiasmo dela, e o meu estado de admiração. Como assim? Ele explicou Ora, se você alcança uma nota difícil só por alcançar, não acontece nada. Para chegar a uma nota, é preciso fazer isso com alguma finalidade expressiva. O que você fez com o 5º DÓ? A moça não fizera mais do que exercitar-se.

Ele aproveitou para prosseguir: você não precisa ter uma grande extensão vocal. Isso não necessariamente ajuda você. Mas precisa conhecer bem a extensão vocal que você tem, e saber usá-la em seus projetos. Ou seja: tem que dominar os recursos que sua voz lhe propicia, mesmo com pouca extensão vocal. Isso é mais importante do que alcançar notas muito agudas e não saber o que fazer com elas. Depois ele citou, como exemplo, a pequena extensão vocal da Nara Leão, e sua capacidade expressiva. Claro, ele não estava desqualificando qualquer domínio técnico, nem o trabalho de cantoras e cantores que tivessem grandes extensões vocais. Mas ressaltava ser necessário não confundir o domínio técnico em si com capacidade expressiva, com autoconhecimento corporal e vocal. 

Hoje, tantos anos depois, quando me deparo com professores exibindo os quantitativos de suas produções nos certames de avaliação institucional, eu me pergunto o que eles têm feito com os 5ºs DÓs que têm alcançado em exercícios de repetição. Inquieto-me da mesma forma com os outros professores que sequer se dispõem a fazer quaisquer exercícios vocais, alegando quaisquer razões para a negativa.

Afinal, tomamos, todos, parte de uma espécie de coro em concerto. Nem todas as músicas cantadas requerem o uso do 5º DÓ. Por outra, é preciso que se ouçam as vozes uns dos outros, que se busquem pontos de afinação, harmonia entre as vozes, que se ajuste o andamento. Para isso, é preciso atenção à própria voz em relação às demais. E muitas vezes poderá parecer que a nossa voz se perdeu entre todas as demais. O que é um equívoco: ela integrou-se aos acordes, faz parte deles, dá corpo a eles. Eventualmente há solistas. Algumas vozes em destaque. Mas estas não têm vida se isoladas. Estas também estão em relação ao coro e aos instrumentos. Elas devem ter isso em conta.

Enquanto uns ostentam medalhas no peito: alcançou o 5º DÓ por 10 vezes! e outros desdenham, recusando-se aos vocalizes e outros exercícios da cantata, o coro desafina, o andamento desanda, faltam vozes, falta musicalidade...

Nem só produtivismo de um lado, nem preguiça, frouxidão de outro...

Eu, que tenho uma voz classificada como mezzo soprano, já cantei como tenorina e como contralto, vozes mais graves para timbres femininos. Durante algum tempo, no Coro Sinfônico, eu mais algumas mulheres integramos o grupo dos tenores exatamente para dar suporte às vozes masculinas em regiões que, para eles, eram mais agudas. Ali, onde as vozes deles perdiam fôlego, as nossas vozes ganhavam volume. Era o trabalho coletivo, colaborativo. 

Quando eu cantava entre os tenores, não exercitava as regiões mais agudas. Mais tarde, quando voltei a cantar na faixa mais central, recuperei as notas mais agudas, mas perdi as graves. Minha extensão vocal não é lá muito grande. Jamais alcançaria o 5º DÓ. Mas aprendi que posso cantar as canções de que gosto, que se aconchegam à minha voz, com sinceridade e sentimento. Principalmente, com conhecimento dos recursos de que disponho, para operar com eles, a partir deles.

Talvez hoje eu pudesse chegar um pouco mais próximo de uma resposta satisfatória à pergunta do Prof. Luiz: canto por que essa é uma das atividades que ajudam a viver, do mesmo modo que escrever poesias, fazer fotos, cultivar flores e afetos, aprender, ensinar, reinventar o mundo a cada dia.

Não, eu não quero estar entre os que alcançam o 5º DÓ várias vezes em exercícios vocais. Nem quero estar entre os professores que apresentam maiores quantitativos de produção qualificada da instituição a que pertenço. Tampouco quero estar entre os que têm produção medíocre. Quero poder cantar, de preferência no coletivo, exercitar a autocrítica e poder produzir conhecimento compartilhado, para continuar a caminhar pela estrada, rumo às utopias que vislumbro, em horizontes sempre moventes.





terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O meu amigo Du


Tenho uma amiga muito especial, a quem endereço o afeto mais fundo. Um dos filhos dela tem um cão labrador, o Du. Como o filho fica a maior parte do tempo longe de casa, o Du convive mesmo é com minha amiga.

Se tem coisa que me deixa encafifada é essa história de as pessoas serem donas de animais. Proprietários de bens sobre patas, ou com asas, enfim. Do mesmo modo com as plantas...

O meu caso com o Du é antigo. De quando em vez, passo pela casa da minha amiga, só para dizer oi para ele (ah, e para ela também). Ele corresponde sacudindo a bunda, latindo com seu bocarrão, e trazendo coisas para brincar comigo: garrafas pet estraçalhadas, tapetes rasgados, cabos de vassoura mastigados...

Já fazia algum tempo eu não o via.

Ontem, foi aniversário da minha amiga. Liguei para ela. No meio da conversa, confessei: por vezes, sinto mais saudades do Du que de você... Mentira. Até porque sentir saudades dele é o mesmo que sentir dela: os dois são carne e unha. Eu queria mesmo era provocar. Aí ela me disse fala alguma coisa, que eu vou colocar o telefone no ouvido dele. Comecei a conversar com ele. Depois ouvi um barulho que não consegui decifrar, e ela caiu na gargalhada. Explicou-me: ao ouvir a minha voz, correu pegar a garrafa pet para brincar comigo. O barulho era a garrafa rangendo entre seus dentes.

Hoje não resisti. Fui até a casa deles, checar de perto essa história de ele querer brincar, ao ouvir minha voz pelo telefone. Du, meu querido! Saudades! Ele latiu, pulou para lá e para cá, entrou chamar minha amiga, e voltou ao portão, sacudindo a bunda mais que passista de carnaval. Depois trouxe um pequeno saco de plástico, para brincar. Esse saco não aguenta suas brincadeiras, Du! E se encostou em mim de frente, de ré, de lado. Encheu-me de pelos.

Quando saí, ficou me olhando pela grade do portão, olhos meio baixos, um tapete velho atravessado na boca.

Meu amigo querido. Amigos não são propriedades. A gente não possui: o afeto é que nos toma e estabelece laços.

Du, não vou me demorar a voltar. Preciso não demorar.




domingo, 12 de fevereiro de 2017

Fora do ninho


Na lateral do prédio, as caixas destinadas a aparelhos de ar condicionado que não foram usadas ganharam nova função: ninho para um casal de pombos criar seus filhotes.

Todos os dias, o trabalho da família é interminável: trazer alimento aos filhotes, abriga-los das intempéries.

Os filhotes crescem rapidamente, e logo já têm estatura próxima à dos pais. É quando começam a sacudir as asas, no ensaio do voo.

Num desses ensaios, o acidente doméstico: um dos filhotes caiu do ninho, entre os carros da garagem, no piso térreo do prédio. A mãe, entre aflita e ativa, impossibilitada de alçá-lo de volta ao ninho, trata de vigiá-lo, alimentá-lo, estimulá-lo a tentar voar. Ainda sem sucesso. Vigia a cria nesse novo e perigoso território de seu não-pertencimento.

O filhote, meio assustado, mas gradativamente ambientado, tem dormido em cantos ocultos ao movimento dos carros e das pessoas.

Não voltará ao ninho original. Ninguém voltará.
Não sabe o que lhe reserva o futuro. Ninguém sabe.